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terça-feira, 14 de junho de 2011

Uma oração

Jorge Luis Borges

Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. 

Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. 

A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. 

Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.

Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Face, Faces, Faces, Faces, Faces, Faces, Faces, Faces, Faces

Franz Kafka
http://www.google.com.br/imgres?imgurl=https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgZezUSIh_NeIP9qgvoTD6lrWlcHdSq_YzSCyXHX5F7PhMTrpumsyvRweu9_ou6hq8d62n3f6V_yqueFjUGf5YRzHDmrl5it_JkdNmJJb54SGi0Jp2h357ua2lut7AjqkyUfoFX/s1600/Franz+Kafka1.jpg&imgrefurl=http://belleliteratura.blogspot.com/2010/12/franz-kafka-descricao-concisa-e.html&usg=__CEb4U6ZuVwjfXpJPPZ8Te_fWsR8=&h=244&w=330&sz=14&hl=pt-br&start=16&sig2=3_o0OLQc4pIS3IzNYSZTXQ&zoom=1&tbnid=HxpAACZ3RlE-PM:&tbnh=109&tbnw=148&ei=KQQFTaC8GsH_lgf3n6zqCQ&prev=/images%3Fq%3Dfranz%2Bkafka%26um%3D1%26hl%3Dpt-br%26safe%3Doff%26client%3Dfirefox-a%26sa%3DN%26rls%3Dorg.mozilla:pt-BR:official%26biw%3D1024%26bih%3D407%26tbs%3Disch:10%2C314&um=1&itbs=1&iact=rc&dur=203&oei=FwQFTfDgDML7lwf72_3SCQ&esq=7&page=2&ndsp=14&ved=1t:429,r:6,s:16&tx=44&ty=35&biw=1024&bih=407

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Boa noite, fantasmas...
Emanoel Barreto

Gosto do silêncio da noite e dos pequenos sons que de repente brotam de-não-sei-onde. O silêncio da noite é feito de mínimos mistérios que se movem com passos de fantasmas invisíveis, eles próprios envoltos em seus atos silentes, meditantes. 

http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://img.photobucket.com/albums
Fantasmas, cavalheirescos, que não perturbam ou fazem gelar o sangue; fantasmas que a mim existem mas não se dizem existentes. 

 Suponho que estejam em alguma biblioteca multicentenária e nevoenta, cujos corredores intangíveis passem pelo meio da minha sala. 

Quem sabe estejam consultando alfarrábios, lendo livros velhíssimos que contenham a solução ou adicionem à vida os segredos indecifráveis da morte e da vida mesma. Daí os pequenos ruídos, sons, estalidos sinceramente sutis: são os fantasmas caminhando.

Nos últimos tempos voltei, noturno, a cultivar antigo hábito: o de ler três, quatro livros de uma vez: dez páginas de um, outras dez de outro, vinte do terceiro, duas do último, quando o cansaço afinal me empurra para dormir. Então, pé ante pé, para não atrapalhar os fantasmas em seu amável conciliábulo, retiro-me e lhes digo: "Boa noite, fantasmas." E sei que eles respondem: "Boa noite." 

E durmo.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

http://www.pontodevista.jor.br/blog/galeria.php
 Encontrei este texto de Clarice Lispector e compartilho (EB).
O primeiro beijo
Clarice Lispector

Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.
- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples:

- Sim, já beijei antes uma mulher.

- Quem era ela? perguntou com dor.

Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.

O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir - era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.

E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.

E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.

A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.

E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.

Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.

O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.

De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.

Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.

E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.

Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida... Olhou a estátua nua.

Ele a havia beijado.

Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.

Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.

Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...

Ele se tornara homem.

(In "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998)