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quarta-feira, 29 de junho de 2011

O crme do Vectra prateado

Não se vende uma menina

A elegante mulher desceu do carro prateado, deixou o motor ligado, foi até a favela do Maruim e parou aquele mundo de dor e lama: ali ninguém entendia o que uma senhora tão distinta, tão bonita, tão fina, fazia em meio a tanta pobreza, sujeira, lodo. Simples: ela procurava Dona Maria Oduvalda, até que ouviu: “Está falando com ela.” Sem esperar mais um segundo a mulher sacou uma pequena pistola da bolsa, mirou a mulher e acertou-a no meio da testa. 
A assassina correu, enquanto todos ficavam paralisados. Entrou no carro e fugiu. O crime do Vectra prateado, como o caso ficou conhecido, abalou Natal não apenas pelo fato em si, mas pelo envolvimento dos personagens, o confronto social, a elegância criminosa e a miséria ofendida, indefesa e morta.

Alguém anotou a placa? Não, ninguém anotara a placa, tal o pandemônio estabelecido na favela do Maruim. Mas na cidadde somente se falava na bela e seu Vectra fulminante. Passaram-se 15 dias, os jornais quase não tinham mais títulos para continuar segurando o assunto, até que ela pegou o telefone e ligou para o Delegado Eudóxio: “Doutor, amanhã vou me apresentar ao senhor. Matei aquele mulher. Não, não, não pergunte o meu nome. Apenas me espere às três da tarde que irei, sem escolta e sem medo, a seu gabinete.”

Dia seguinte, no horário aprazado, a elegante mulher chegou à Delegacia e foi direto à sala do delegado Eudóxio. Ele: “E então, por que a senhora matou aquela pobre mulher?” Ela disparou resposta aguda como lâmina de florete: “Matei porque ela era minha mãe.”

“Como?”, disse o delegado, que quase saltou da cadeira. Como seria possível que aquela mulher, finíssima, fosse filha de uma velha miserável, moradora da favela do Maruim? Ela explicou: a velha Oduvalda, viciada em álcool e faminta, a havia vendido ainda bebê a uma respeitável família natalense, família rica, porém impossibilitada de ter filhos. 

Oduvalda, bonita à época, disputada por todos os cafajestes da área, havia conseguido um bom dinheiro com a venda da criança e gastou todo ele em cachaça.

“Mas ela não lhe fez um bem? Não é hoje a senhora uma mulher rica, educada, bem de vida, tranqüila até o último dos seus dias?”, quis saber o delegado.

“Sim; mas não se vende  uma menina." Apontou a pistola para o delegado. E disparou.

domingo, 18 de julho de 2010

Três perdidos  numa noite suja
Emanoel Barreto

Uma noite, um início de noite. Chovia a cântaros. Eu saí, a pé, da Tribuna do Norte. Na Ribeira, onde fica o jornal - nessa época, lá pelo ano 1978 - o bairro ficava totalmente alagado em dia ou noite de chuva mais forte, chuva que mereça o nome de chuva, tempestade, borrasca.

Saindo do jornal meti o pé na inundação. A água, mesmo na calçada, já cobria os pés. À medida que avançava a água ficava mais profunda. Caminhei meio encurvado, olhando apenas para o próximo passo e seguir.

Mais adiante ficava - fica - a antiga estação rodoviária. Até lá, água muita. Quando me aproximava, ensopado, cansado de mais de dez horas de trabalho - em jornal se trabalha, amigo - da rodoviária, encontro cena que jamais se me apagou do registro da memória: um menino, de uns dez anos - feio magro, somente de calção, chorava em meio à chuva.

Tão pobre, tão feio, tão desamparado, ele gritava gritos de desespero: "Mamãe, mamãe. Mamãe, venha me buscar". Era uma cena chocante: em meio ao desastre de água que se derramava um ser humano indefeso e em crise berrava pela ovelha-mãe que - pensava, queria, pedia, o viria salvar.

Ele estava no meio dia rua, desesperado. As trevas, e a água que vinha dos céus, o atormentavam em bem próprio e unicamente seu, desespero. Fiquei, parei em meio ao caos, pensando em ajudá-lo.

Nisso, chega uma mulher, cambaleando. Ela estava bêbada. Brandiu maldições, exigiu desculpas a Deus e arrastou o menino pelo braço. Urrava algo que não entendi. Urrava, urrava. Em seguida, o puxou para uma ruela escura. Prossegui, like a rolling stone. Eu também precisava me salvar.

E aqueles dois miseráveis, pingos de gente infame e sem importância, se perderam para sempre do meu olhar.
Depois, caminhei... E a chuva me chicoteou. Até chegar em casa...

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

O crime do Vectra prateado

 Não se vende uma menina



A elegante mulher desceu do carro prateado, deixou o motor ligado, foi até a favela do Maruim e parou aquele mundo de dor e lama: ali ninguém entendia o que uma senhora tão distinta, tão bonita, tão fina, fazia em meio a tanta pobreza, sujeira, lodo. Simples: ela procurava Dona Maria Oduvalda, até que ouviu: “Está falando com ela.” Sem esperar mais um segundo a mulher sacou uma pequena pistola da bolsa, mirou a mulher e acertou-a no meio da testa. 

A assassina correu, enquanto todos ficavam paralisados. Entrou no carro e fugiu. O crime do Vectra prateado, como o caso ficou conhecido, abalou Natal não apenas pelo fato em si, mas pelo envolvimento dos personagens, o confronto social, a elegância criminosa e a miséria ofendida, indefesa e morta.


Alguém anotou a placa? Não, ninguém anotara a placa, tal o pandemônio estabelecido na favela do Maruim. Mas na cidadde somente se falava na bela e seu Vectra fulminante. Passaram-se 15 dias, os jornais quase não tinham mais títulos para continuar segurando o assunto, até que ela pegou o telefone e ligou para o Delegado Eudóxio: “Doutor, amanhã vou me apresentar ao senhor. Matei aquele mulher. Não, não, não pergunte o meu nome. Apenas me espere às três da tarde que irei, sem escolta e sem medo, a seu gabinete.”


Dia seguinte, no horário aprazado, a elegante mulher chegou à Delegacia e foi direto à sala do delegado Eudóxio. Ele: “E então, por que a senhora matou aquela pobre mulher?” Ela disparou resposta aguda como lâmina de florete: “Matei porque ela era minha mãe.”


“Como?”, disse o delegado, que quase saltou da cadeira. Como seria possível que aquela mulher, finíssima, fosse filha de uma velha miserável, moradora da favela do Maruim? Ela explicou: a velha Oduvalda, viciada em álcool e faminta, a havia vendido ainda bebê a uma respeitável família natalense, família rica, porém impossibilitada de ter filhos. 


Oduvalda, bonita à época, disputada por todos os cafajestes da área, havia conseguido um bom dinheiro com a venda da criança e gastou todo ele em cachaça.

“Mas ela não lhe fez um bem? Não é hoje a senhora uma mulher rica, educada, bem de vida, tranqüila até o último dos seus dias?”, quis saber o delegado.


“Sim”, ela respondeu e arremessou uma rajada de palavras: "Mas não se vende uma filha; não se vende uma menina." E apontando sua pequena pistola para o Delegado, já que ninguém tivera a idéia de revistá-la quando entrava, disse: “Quanto ao senhor, pode querer me prender, mas não tem o direito de prender a menina que ainda existe em mim.” E atirou.