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quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Lá vem o Brasil descendo a ladeira


E aí, vai encarar?
Emanoel Barreto

Moleque travesso, tinhoso, peralta.
Saiu da favela disposto a brigar.
Exibe sua força que é magra e rasteira.

É um brasilzinho de muque raquítico.

Moleque travesso, teimoso, assanhado.
Tem jogo de perna é bamba na vida.
De becos escuros em briga com a fome.
É o brasilzinho. Que dó que ele dá.

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Foto obtida no endereço https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhC2LJlLBqHCizL51vMEwR_fUDzEvL_cn_joinY9lo-jnB_xs7M1qnh76WI1ZAK5IkEg5sNeQzE93N20Hpvgvg8kNUJ88eITbP3JsG_AR6D75zo8Ri-wjagn0kXEz4Yj3CdnSGKeQ/s1600-h/!cid_F142B54B3E8C4B048EDA16A6B38785F5@Cida.jpg

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O crme do Vectra prateado

Não se vende uma menina

A elegante mulher desceu do carro prateado, deixou o motor ligado, foi até a favela do Maruim e parou aquele mundo de dor e lama: ali ninguém entendia o que uma senhora tão distinta, tão bonita, tão fina, fazia em meio a tanta pobreza, sujeira, lodo. Simples: ela procurava Dona Maria Oduvalda, até que ouviu: “Está falando com ela.” Sem esperar mais um segundo a mulher sacou uma pequena pistola da bolsa, mirou a mulher e acertou-a no meio da testa. 
A assassina correu, enquanto todos ficavam paralisados. Entrou no carro e fugiu. O crime do Vectra prateado, como o caso ficou conhecido, abalou Natal não apenas pelo fato em si, mas pelo envolvimento dos personagens, o confronto social, a elegância criminosa e a miséria ofendida, indefesa e morta.

Alguém anotou a placa? Não, ninguém anotara a placa, tal o pandemônio estabelecido na favela do Maruim. Mas na cidadde somente se falava na bela e seu Vectra fulminante. Passaram-se 15 dias, os jornais quase não tinham mais títulos para continuar segurando o assunto, até que ela pegou o telefone e ligou para o Delegado Eudóxio: “Doutor, amanhã vou me apresentar ao senhor. Matei aquele mulher. Não, não, não pergunte o meu nome. Apenas me espere às três da tarde que irei, sem escolta e sem medo, a seu gabinete.”

Dia seguinte, no horário aprazado, a elegante mulher chegou à Delegacia e foi direto à sala do delegado Eudóxio. Ele: “E então, por que a senhora matou aquela pobre mulher?” Ela disparou resposta aguda como lâmina de florete: “Matei porque ela era minha mãe.”

“Como?”, disse o delegado, que quase saltou da cadeira. Como seria possível que aquela mulher, finíssima, fosse filha de uma velha miserável, moradora da favela do Maruim? Ela explicou: a velha Oduvalda, viciada em álcool e faminta, a havia vendido ainda bebê a uma respeitável família natalense, família rica, porém impossibilitada de ter filhos. 

Oduvalda, bonita à época, disputada por todos os cafajestes da área, havia conseguido um bom dinheiro com a venda da criança e gastou todo ele em cachaça.

“Mas ela não lhe fez um bem? Não é hoje a senhora uma mulher rica, educada, bem de vida, tranqüila até o último dos seus dias?”, quis saber o delegado.

“Sim; mas não se vende  uma menina." Apontou a pistola para o delegado. E disparou.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Dou início hoje a uma série de publicações a respeito do Padre Heuzs, que após ter uma visão da Morte dedicou-se a matar criminosos numa favela. O personagem é produto da minha imaginação e não tem qualquer relação com pessoas vivas ou mortas

Crês em Deus, filho?
Emanoel Barreto

Heuzs. Petrus Apolonius Heuzs. Filho de classe média alta, desde cedo revelara vocação religiosa e dizia que ia ser médico. Do seminário para a faculdade aos 27 anos já era padre e médico. Inteligência aguda, leitor fervoroso, temperamento solar e carismático. Pediu e recebeu de seus superiores a missão de trabalhar numa favela; a maior, a mais perigosa, a mais abandonada pelos poderes públicos: a Favela do Remorso, conurbada à Favela do Raio, onde o tráfico e as quadrilhas disputavam palmo a palmo território e poder.

Heuzs fundou e dirigia o Dispensário José e Maria, onde atendia com perícia incomum os casos mais diversos: desde o menino doente da gripe mais tola, às situações mais graves: ferimentos a bala, facadas, membros dilacerados. Como os recursos eram poucos, mobilizava ajudas vindas de onde viessem; desde a doação do traficante mais brutal aos recursos provenientes de entidades de assistência públicas ou privadas. Mantinha em funcionamento a Rádio Coragem, com programação que ia até meia-noite. Ali a programação era toda feita por equipe de jovens que incentivava a solidariedade. Ali se contavam histórias de vida, faziam-se apelos em favor de famílias desabrigadas, tocavam-se músicas dos compositores da favela.

Heuzs trabalhava em parceria obsequiosa com o padre José Maurício Santos, 70 anos, seu mentor e confessor. E trabalhava de tal forma que conseguia transitar da mais honrada e pobre família às salas mais sombrias dos chefes do tráfico. Essa a sua grande vantagem: todos, à sua maneira, gostavam de Heuzs, o padre-menino, o padre-santo. Reunia em uma só pessoa o místico que orava e o médico que curava. E foi disso que se muniu para dar início à sua vilegiatura de revolta contra o que estava errado, contra o crime e os criminosos, a violência dos poderosos da marginalidade contra os pobres que não tinham coragem ou, se tinham, não podiam se defender. Os pobres não tinham afeição às armas, ao contrário de Heuzs, acostumado com o bisturi, sua arma de salvação de vidas, que viria a se transformar em arma de vingança.


Tudo começou quando Heuzs teve um encontro com a Morte. Certa noite, na humilde casa em que morava, assistindo na pequena TV em preto-e-branco a programa já noite alta, Ela entrou e lhe disse: “Heuzs, tens uma missão.” E ele respondeu: “Já o sabia.” Ela continuou: “Tua missão é salvar vidas.” Ele disse: “Eu o sei.” A Morte respondeu: “Salvarás vidas em detrimento de vidas.” Heuzs questionou: “Como assim? Sou padre e médico.” A resposta: “As boas vidas, Heuzs, tu as protegerás; mas, as más vidas, as vidas ímpias, tu as tirarás para que as boas vidas possam vicejar e crescer. Crês em Deus, filho?” Heuzs aquiesceu: “Sim.” Ela continuou: “Se é assim cumprirás o que eu, a Morte, te determinar. E saberás que estás seguindo o bom caminho. Vai a mata em nome da vida.”

A Morte se esfumaçou e Heuzs então perdeu os sentidos; mas, dia seguinte, uma névoa densa encobria o seu olhar e ele se sentia disposto a dar início à missão revelada pela estranha visitante.


(Continua)