segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Os traficantes e a ação do Bope

Caros Amigos,
O filme Tropa de Elite, que já é sucesso em dez de cada dez bancas de camelôs do País, pode virar série na Globo. É o que dizem as coisas de jornal. Ao que li, a obra trata de um policial, o capital Nascimento, rígido comandante de um grupo de militares do Batalhão de Operações Policiais Especiais-Bope, em rigorosa - entenda-se implacável - ação contra bandidos, quando não tem limites para reprimir o tráfico no Rio de Janeiro.

A obra, ao que entendi, trata de uma brutal e diária realidade brasileira, cujos desdobramentos históricos não são levados a sério pelo Estado, que limita sua presença à repressão e se omite de uma ação firme em favor do social. Não digo que a presença da polícia contra os criminosos deva esmorecer. Mas é preciso que haja uma grande reforma de mentalidade de Estado, sentido histórico do que está acontecendo, a fim de que se tente reverter ou mitigar o problema.

Em um mundo onde valores e comportamentos estão em crise, deveria haver um ação ampla, um governo que atacasse de frente o problema em toda a sua extensão sócio-criminal. Senão, em muito pouco tempo este País estará vivendo um caos tamanho que certamente não será possível reverter.

Junte-se a isso o fato de que a sociedade, de alguma forma legitima o tráfico no instante mesmo adquire a mercadoria dos traficantes.

A esfera pública, em algumas de suas parcelas, valida a droga como elemento componente de um estilo de vida. Grandes criminosos internacionais vêm ao Brasil implantar seus esquemas de distribuição e fazem fortuna. A Polícia Federal tem uma atuação exemplar, mas não é o suficiente: essas partes da sociedade que consomem drogas aprovam a presença do traficante. É uma lagitimação transversa, mas é de alguma forma um discurso de disrupção, um afrontamento.

Mas eu estava falando do Bope. Aguardo o lançamento do filme. Creio que dá bem uma idéia do grande problema que temos nas mãos.
Emanoel Barreto

sábado, 15 de setembro de 2007

Faltou povo na rua

Caros Amigos,
O senador Pedro Simon disse ao JB uma grande verdade: faltou povo na rua para clamar pela cassação de Calheiros. É isso. Sem a pressão popular, sem a manifestação pública de que não dá para suportar a indignidade presidindo o Congresso Nacional, realmente ficou mais fácil a Caheiros escapar. Escapou pelos fundos, portas do cenáculo a indecência cerradas ao olhar da imprensa.
Uma coisa, entretanto, é certa: esses hábitos pouco dignos do que se convncionou chamar de classe política, são produto da cultura maior, da cultura nacional do jeitinho, do primeiro-o-meu, do me-ajuda-que-eu-te-ajudo, do amigo-meu-não-tem-defeito. O brasileiro construiu um relacionamento social em que prevalecem costumes de escapismo e matreiricer diante do dia-a-dia. Nosso monumento de desigualdades sociais e cconômicas permitu que tal munumento se edificasse em bases sólidas. E deu no que deu.
Sei que estou sendo reducionista. Até mesmo porque o espaço não próprio para uma tese sociológica. Mas, na essência é isso mesmo: quem está no Congresso representa com exatidão das diversas facetas do povo brasileiro. Daí porque Calheiros ficou. Há milhares deles, senão milhões, pelas ruas.
Por isso faltou povo nas ruas: os renans não quiseram protestar.A corrupção tornou-se algo natural e assim seguimos nós.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Queria dormir

Caros Amigos,

Queria dormir e acordar num sonho.
Queria dormir e acordar
num país novo, refeito, renovado, luzente, passo à frente.

Queria dormir e
acordar com um jornal cheio de boas novas:
tudo mudou.

Quem falava o mal
ficou mudo
Quem queria mudar, não se calou.

Queria mudar
e nudar quem se veste de seda
e trás no dedo o falso brilhante.

Queria, queria tanto
calar as vozes que gostam do silêncio viscoso
dos atos insensatos.

Queria dormir...

Emanoel Barreto

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Escárnio

Caros Amigos,
Os senadores que votaram a favor de Renan Calheiros escarneceram do povo brasileiro. Contra o bom senso, mais que isso, contra a honradez, a dignidade, o respeito ao pudor público, o Presidente do Senado foi absolvido e o processo por ofensa ao decoro parlamentar, aquivado. Trata-se de uma das páginas mais deploráveis de quantas o Senado já se enxovalhou.

Deputados, garantidos por uma decisão judicial, foram atacados pelos seguranças do Senado, na tentativa destes de desrespeitar uma ordem que garantia aos parlamentares acesso e visão de tudo o que Calheiros e os seus iguais queriam que se passasse na obscuridade de um plenário lacrado, portas seladas ao olhar da sociedade civil.

Estamos, lamentavelmente, ainda presos a um sistema político atrasado, anti-democrático e validado pelos mais nauseantes costumes e práticas indecorosas. Entretanto, o ato de maior indignidade, certamente, não foi perpetrado pelos que votaram pela absolvição. O ato mais torpe foi cometido pelos que se abstiveram, pois sequer tiveram a dignidade - mesmo que uma dignidade maculada - de assumir uma postura, como é o caso do senador Aloisio Mercadante, que confessou à imprensa ter sido um dos deles.

Os mais depravados valores da nossa cultura política foram postos em ação, quando da decisão de que a votação seria em regime fechado, portas ocultando o coletivo ato de imoralidade. Todo um sistema foi movimentado, engrenagens enferrujadas chiando, rangendo à força da propulsão de apetites inconfessáveis. Escárnio, escárnio, escário...

Emanoel Barreto

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Os senhores do horror

Caros Amigos,
Seis anos após o atentado de Osama bin Laden aos Estados Unidos, ele continua, como um pesadelo insano, a aterrorizar o povo americano. Sua figura patética passa a idéia de um ser humano frio, calculista, insensível, devoto de uma religão cujo livro sagrado permite interpretações que justificam qualquer ato de violência para responder àqueles que se colocam como seus inimigos.

Osama é tudo isso e muito mais. Entretanto, seu equivalente ocidental, o american way of life, de alguma forma representa o seu duplo, o reverso da mesma moeda. O fundamentalismo neoliberal dos EUA e antes, sua histórica política externa belicista e imperialista, podem ser considerados como a causa remota do surgimento de inimigos terríveis e demenciais como ele. São dois pólos opostos que guardam entre si uma deprimente e assustadora semelhança no instante em que se cruzam.

Lamentemos pelos que morreram ou ficaram para sempre traumatizados pelo horror do 11 de setembro, sua brutalidade e perversa execução. Mas tenhamos medo também da devassidão ambiciosa que leva o Presidente dos Estados Unidos, qualquer que seja ele, a manter o mundo, especialmente os países pobres ou miseráveis, em permanente dependência e fome, enquanto a sociedade americana celebra o seu festim.
Emanaoel Barreto

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Policiais querem censurar "A elite da tropa"

Caros Amigos,
Um grupo de 20 capitães da Polícia Militar do Rio está tentando, na Justiça, impedir a exibição do filme "A elite da tropa" que trata de ações de repressão ao tráfico de drogas nos favelas da cidade. Consideram o filme ofensivo à corporação, além de servir de indicativo de como determinadas táticas se processam, antes e durante o confronto com os criminosos.

Parecem esquecer que os tempos da ditadura acabaram. Se podem e devem reprimir com rigor o tráfico, o mesmo não se diz quando se trata de respeitar o direito à livre circulação de idéias e opiniões, o que também se dá via cinema.

O filme está sendo muito esperado, pois uma versão pirata já se encontra à venda e, dizem as coisas de jornal, teve boa aceitação, chegando a competir com blockbusters como "Duro de matar - 4".

Isso já repercutiu na mídia e estimula a curiosidade a respeito do filme, que tem uma seqüência de cinco minutos disponível no You Tube. Não se sabe se foi uma jogada de marketing ou alguém que vazou para aquele portal.

Não vi a cópia pirata, apenas a versão no You Tube. Ali dá para perceber que a obra tem todos os componentes para atrair um bom público: tensão e verossimilhança, uma vez que trata de uma realidade que nos é bem próxima, lamentavelmente. Não compre o disco pirata. É melhor, e legal, ver no cinema. Ou então dê uma olhada no Tube.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Pátria minha

Caros Amigos,
Sete de Setembro, "Pátria Minha", de Vinícius de Morais. Sem comentários.

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria.
Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei.
De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento

Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!
Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé

Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.
Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...
Fonte de mel, bicho triste, pátria minha

Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo

Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.Pátria minha...

A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular

Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.
Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...

Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.
Não te direi o nome, pátria minha

Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha Brasil, talvez.
Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes."

Abaços,
Emanoel Barreto

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

E Osama gritou:"O rei está nu!"

Caros Amigos,
As coisas de jornal estão informando que, na Austrália, um comediante vestido de Osama bin Laden conseguiu ultrapassar a rígida segurança que cerca o Forum de Cooperação Econômica Asia-Pácifico, que se realiza em Sydney e chegou até à zona de segurança máxima, a poucos metros do hotel onde está hospedado o presidente George W. Bush. Ali, ele e seus companheiros foram detidos.

O ministro das Relações Exteriores, Alexander Downer, garantiu que a segurança foi eficiente ao afirmar: "Eles provavelmente pretendiam humilhar muita gente conhecida. O que importa é que, em todo caso, eles foram detidos."

O Forum, cuja sigla em inglês é Apec, reúne 21 representantes de países da região ao redor da Ásia-Pacífico, com um único objetivo: discutir sobre dinheiro, ou seja: delimitar ganâncias, estimar lucros para as grandes corporações, fixar normas que garantirão ao capital monopolista internacional mais e maiores lucros.

Resumindo: todos os que ali estão buscam reunir-se em torno de coisas mesquinhas, quando há tantas questões em jogo: o aquecimento do planeta; os milhões e milhões de pobres e miseráveis que vão morrrer de fome ou se arrastar a vida inteira em favelas e sub-habitações, vivendo com um dólar ou menos por dia; o belicismo dos Estados Unidos; o desvario da globalização; a loucura dos homens-bomba e seus opositores; o descompromisso dos países centrais com esse ser coletivo que se chama humanidade. A lista poderia, literalmente, não ter fim.

O que penso dessas pessoas reunidas? Acho-as ridículas, para dizer pouco. Assim, os comediantes, que formaram uma caravana com batedores e tudo mais para chegar até onde Bush estava, fizeram muito bem em levar ao ridículo aqueles cultuadores do dinheiro.

O mundo está regido, hoje em dia, mais do que nunca, por grandes adoradores do deus mercado e todos o seu panteão simbólico: seitas midiáticas exploram avidamente pessoas fagilizadas, políticos ganham as redes de TV e se apresentam como salvadores e bondosos, objetos são mitificados e expostos como essenciais à vida, como celulares e carros cheios de conforto; valores como respeito humano e decência são vistos como quase que um aleijão para aqueles que os defendem; a futilidade é tida como um padrão de comportamento.

Portanto, os comediantes cumpriram o mesmo papel que o personagem da história "O Rei está nu": era um alfaiate que, a título de fazer para um rei uma magnífica, requintadíssima vestimenta, pediu-lhe ouro e pedrarias. Guardou tudo para si e, mostrando ao monarca um vestuário invisível, dizia-lhe como era vaporosa e itangível a veste real. O Rei, louco de deslumbramento, vestiu-a e saiu a desfilar pela cidade. Até que um menino gritou: "O Rei está nu!"

Os participantes do encontro também estão nus, em sua cupidez e ganância. Os artistas apenas apontaram isso.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

O Rubicão de lama

Caros Amigos,
A Comissão de Constituição e Justiça do Senado determinou que a cassação do mandato do presidente da Casa, Renan Calheiros, seja decidida em plenário, o que se espera que aconeça semana próxima. As coisas de jornal indicam que ali é grande a chande de Renan se livrar da cassação, pois a votação é secreta e ele precisa de 41 votos para manter-se no cargo.

A tradição de corrupção e impunidade da política brasileira diz que casos assim costumam acabar favorecendo os que destas se utilizam. Vide a Emenda Dante de Oliveira que reinstituía as eleições diretas no País e os historicamente recentissímas absolvições de deputados envolvidos com o mensalão.

As forças mais ocultas e mais trevosas da cena política do Brasil já estão trabalhando, estejam certos, para garantir a Renan o mandato, apesar dos poderosos indícios de que violou o decoro parlamentar.

O cinismo e a ausência de respeito que habitam corredores, salas e plenários da Câmara e do Senado, devem estar ofegantes, sem dúvida, ante a expectativa de que mais um dos seus devotos saia impune.

A falta de respeito à opinião pública é marca patenteada de há muito na vida pública nacional.

Apesar da pressão da imprensa, dos gritos das manchetes e da perplexidade que se espalham, fala-se que Renan pode triunfar. Caso ocorra, será a confirmação, mais uma vez, de que vive-se plenamente o tempo em que os homens têm vergonha de ser honestos, como dizia Rui Barbosa.

Vencendo, Renan terá atravessado seu Rubicão de lama e estará pronto para continuar, sem medo, a atuar nos espaços mais escuros da vida pública brasileira.
Resta esperar.
Emanoel Barreto

terça-feira, 4 de setembro de 2007

E Gisele disse: "Oh! My God..."

Caros Amigos,
A modelo Gisele Bündchen deu entrevista sobre o lançamendo de um xampu. Assunto importantíssimo, claro. Os jornalistas somente tinham direito a uma pergunta e nada sobre a vida pessoal, alertava sua deslumbrada assessoria. Colocada num púlpito, a moça demonstrou tédio e chegou a dizer "Oh! My God", quando lhe dirigiram uma pergunta.

Como se sabe, modelos são pessoas altamente preparadas, cultas, interessadas em temas da mais alta relevância e assim os jornais devem lhes dispensar atenção, espaço e tempo de seus repórteres.

A "entrevista", tipicamente um pseudo-acontecimento, serve para demonstrar como a agenda da mídia pode ser manipulada por agências de publicidade e relações-públicas.

Ao que li, o encontro com os jornalistas foi rápido. Entenda uma coisa: qualquer repórter mais ou menos experiente, sabe que a exposição de pessoas de mídia aos jornais deve conter exatamente esse componente: a fugacidade da personalidade midiática, a fim de que os jornalistas fiquem com aquela sensação de que faltou algo - a ser deslindado no próximo contato com a imprensa.

Primeiro, vem uma superexposição, a fim de alguém apareça e se fixe num nicho de interesse por parte dos jornalistas. Segue-se então a fase do "aparece/desaparece", com o exato objetivo de manter a curiosidade a respeito do mito que os jornais mesmos ajudaram a criar.

Falsifica-se uma personalidade, tornam-na célebre para depois depender dela para a obtenção de uma notícia. No caso, uma "notícia". Se os jornais deixassem Gisele e outros tipos como ela de lado, desapareceriam o encanto, a atração, o tropismo jornalístico. Ela passaria a implorar por uma linha impressa, uma imagem, uma declaração. Do jeitinho que era, quando começou.

Ela, como outros midiáticos, nada têm de especial. Isso lhes foi colado pela imprensa, atendendo aos anseios da manipulação do marketing. Ela é apenas uma mulher que veste e expõe sobre o corpo roupas, só isso. O simulacro funciona e a futilidade, a banalidade de jovens frívolas passam a atuar como elementos de importância social. E muitos tolos ficam boquiabertos.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Uma exposição funesta

Caros Amigos,
As coisas de jornal informam que realizou-se no Guarujá, em São Paulo, uma feira promovida por agentes funarários, a Funexpo, que contou com shows de axé music e sorteio de três caixões para crianças. Havia, digamos assim, féretros para todos os gostos: caixões cor-de-rosa ( Caixão da Barbie) e outros com paetês e purpurina. Como a feira realizou-se num balnerário, sua logomarca foi um caixão sorridente sobre uma prancha de surfe.

A banalização da existência, ao que se vê, chegou a cúmulos nunca antes pensados. Afora o dado grotesco, bizarro da promoção, temos um algo de cruel, insano, perverso, nesse tipo de comércio. O marketing, em uma de suas mais desvairadas propostas, leva segmentos empresariais a abusar das pessoas, a quem querem colocar unicamente na condição de consumidoras.

O fato, em si deplorável, mostra uma ponta de iceberg: o objetivo do lucro não tem medidas. Veja-se a enlouquecida publicidade em torno de celulares. Chega-se a tal ponto que, falando por mim, já não entendo nem diferencio mais um anúncio de outro. Todos incentivam a que se fale, se fale muito nos celulares, como se a vida das pessoas se resumisse a um ato vazio de sentido: pegar um telefone e ligar por ligar.

Vivemos num mundo perigoso e sombrio. Quando se desrespeita até mesmo o grande mistério do fim da existência.
Emanoel Barreto

sábado, 1 de setembro de 2007

Oração para aviadores

Caros Amigos,
"Oração para aviadores" é poema de Manuel Bandeira. E bastante atual para os tempos de hoje em dia. Bom final de semana.

Santa Clara, clareai
Estes ares.
Dai-nos ventos regulares,de feição.

Estes mares, estes ares
Clareai.
Santa Clara, dai-nos sol.
Se baixar a cerração,
Alumiai
Meus olhos na cerração.

Estes montes e horizontes
Clareai.
Santa Clara, no mau tempo
Sustentai
Nossas asas.
A salvo de árvores, casas,
E penedos, nossas asas
Governai.

Santa Clara, clareai.
Afastai
Todo risco.
Por amor de S. Francisco,
Vosso mestre, nosso pai,
Santa Clara, todo risco
Dissipai.

Santa Clara, clareai

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Caros Amigos,
algumas notinhas rápidas:
  • Continua o deplorável combate entre Renan Calheiros, seus iguais e uns outros tantos, contra aqueles que querem ver valer a moralidade, com a cassação do político alagoano. Tristes tempos, pobre povo, que tem no senado um homem tão enormemente baixo em termos de estatura moral.
  • O Supremo, após a grande lição de considerar réus os 40 do mensalão, deixa vazar que seus membros votaram "com a faca no pescoço", ante a pressão da imprensa. Discordo. A pressão dos jornais não foi exatamente dos jornais: estes, de algum modo, refletem a insatisfação nacional com o lodoso terreno em que se move a política brasileira. E como, afinal, saiu uma decisão que coloca corruptos na condição de réus, houve festejos em cada cidadão digno desse nome. A imprensa cumpriu o seu papel.
  • E as coisas de jornal informam que na China havia um elefante viciado em heroína, que lhe era administrada pelos seus tratadores, juntamente com a comida. Assim, o animal liderava a manada para onde os tratadores quisessem. Autoridades florestais tomaram conhecimento, apreenderam o animal e o trataram durante um ano. Agora, o elefante está prestes a ser devolvido à floresta. Pobre mundo, em que pessoas se dedicam a drogar um animal para que ele atenda aos seus comandos. Pobre mundo, pobre mundo...

Emanoel Barreto

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Um ciúme muçulmano

Tinha da Mulher um ciúme muçulmano. Um ciúme feito de lençol. Fino e enlaçante como um abraço no silêncio cúmplice da noite. Noite de largo plenilúnio. Um ciúme delicado, tecido ao longo das páginas de um pergaminho construído de tempo. Tinha da Mulher um ciúme muçulmano. Daqueles que são feitos de aparições contínuas. Um ciúme namorado, diferente, protetor como uma tenda. Oásis.

Tinha da Mulher um ciúme muçulmano. Um ciúme que não segue os passos, porque já conhece e confia em todos os caminhos. Às vezes ficava parado, sentado à sombra de uma palmeira marroquina, observando o caminhar das caravanas que seguem caminhos feitos de distante.

A Mulher era feita de princesa e paz, gestos no ar fino da manhã de aurora. Depois, Ela se compunha, feita de acordes. Acordes em perfeito maior. O estranho naquele Casal era o seu silêncio calmo. Um silêncio que seguia sempre. E surgia nas curvas da vida como um momento que não tem minutos, como um instante que não tem segundos. A pausa do violino que espera um lá. Gesto de maestro que virou semínimas.

Para o Casal o tempo não passava, pois seu todo tempo era eternidade e eternidade é um tempo sem fim. Como nave grega que procura Ítaca. A Mulher, menina, estava companheira. Fazia-se de tarde, quando se queria noite; sentia-se manhã, quando se queria dia. Um dia inteiro, permanente instante. E o sol, amigo, só tinha estrelas. Como se fosse lua, crisálida de luar.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Só Ali Babá reuniu tantos...

Caros Amigos,
Quando criança, eu ouvia na Rádio Rural de Natal, aos domingos, um programa infantil que repetia inevitavelmente as mesmas histórias. Uma delas era a de Ali Babá e os quarenta ladrões. Os bandidos tinham até uma musiquinha, uma espécie de hino. Era assim: "Nós somos ao todo quarenta/Quarenta famosos ladrões/Roubar o ouro não contenta/Nós só queremos milhões."

E agora nos chegam os 40 mensaleiros, colocados agora na condição de réus pelo Supremo Tribunal Federal. Não são poucos corruptos. São quarenta homens e mulheres, todos ricaços ou quase isso, poderosos e influentes. Quarenta indivíduos com notável poder de fogo jurídico para se defender.

Advogados caríssimos ganharão milhões ao longo da causa que no mínimo se arrastará por três anos, dizem as coisas de jornal. Acho que isso vai durar muito mais tempo. E temo que nenhum seja preso. Pelo menos, com a atitude do STF, levantou-se a ponta do tapete da impunidade. Espera-se que todo o tapete seja levantado, descobrindo-se toda a sujeira que estava jogada embaixo.

Mas, como no mundo da fantasia infantil havia tapetes mágicos, os quarenta famosos bem poderão achar o seu e sair, airosamente, voando ante os nossos olhos estarrecidos... O Brasil não muda assim tão fácil.
Emanoel Barreto

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Os barcos mortos

Caros Amigos,
Uma lembrança de Natal.

Os barcos mortos

Trágicos em seu silêncio de madeira triste,
os barcos mortos do Potengi
são relembranças de marés em preamar.

Grandes corpos de madeira que sofre,

seus corpos se vão.
E seguem parados,
sem vela ou navegador.

Quantas vezes se fizeram ao mar,

quantas vezes se apressaram no confronto com ondas.
E de todas as batalhas corsárias de que participaram,
voltaram sob a bandeira da vitória.

Pescadores, corajosos,

enfrentaram tempos,
bateram milhas,
superaram noites.
E agora, guerreiros esquecidos,
sucumbem ao silêncio do frio.

E ninguém, ninguém,

se lembra de que lutaram tanto.
Emanoel Barreto

sábado, 25 de agosto de 2007

Para meditar

Caros Amigos,
Transcrevo pequeno tracho das Catilinárias, série de discursos em que o grande orador Cícero denunciava as trevosas tramas de Catilina para desmoralizar o Senado e até mesmo destruir Roma, para se apoderar da República.
Segue:

Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há-de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há-de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda nocturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem? Quem, de entre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, em que local estiveste, a quem convocaste, que deliberações foram as tuas?
Oh tempos, oh costumes! O Senado tem conhecimento destes factos, o cônsul tem-nos diante dos olhos; todavia, este homem continua vivo! Vivo?! Mais ainda, até no Senado ele aparece, toma parte no conselho de Estado, aponta-nos e marca-nos, com o olhar, um a um, para a chacina. E nós, homens valorosos, cuidamos cumprir o nosso dever para com o Estado, se evitamos os dardos da sua loucura. à morte, Catilina, é que tu deverias, há muito, ter sido arrastado por ordem do cônsul; contra ti é que se deveria lançar a ruína que tu, desde há muito tempo, tramas contra todos nós.


Pois não é verdade que uma personagem tão notável. como era Públio Cipião, pontífice máximo. mandou, como simples particular, matar Tibério Graco, que levemente perturbara a constituição do Estado? E Catilina. que anseia por devastar a ferro e fogo a face da terra, haveremos nós, os cônsules, de o suportar toda a vida? E já não falo naqueles casos de outras eras, como o facto de Gaio Servílio Aala ter abatido, por suas próprias mãos, Espúrio Mélio e, que alimentava ideias revolucionárias. Havia, havia outrora nesta República, uma tal disciplina moral que os homens de coragem puniam com mais severos castigos um cidadão perigoso do que o mais implacável dos inimigos. Temos um decreto do Senados contra ti, Catilina, um decreto rigoroso e grave; não é a decisão clara nem a autoridade da Ordem aqui presente que falta à República; nós, digo-o publicamente, nós, os cônsules, é que faltamos.

Decidiu um dia o Senado que o cônsul Lúcio Opímio velasse para que a República não sofresse dano algum. Pois nem uma noite passou. Gaio Graco, apesar da sua tão nobre ascendência, de pai, de avô e de seus maiores, foi morto por causa de certas suspeitas de revolta; juntamente com os filhos foi executado Marco Fúlvio, um consular. Com um mesmo decreto do Senado, foi a República confiada aos cônsules Gaio Mário e Lúcio Valério. Acaso adiaram eles mais um dia sequer a pena de morte, por crime de lesa-república, a Lúcio Saturnino, um tribuno da plebe, e a Gaio Servílio, um pretor?

Nós, porém, há já vinte dias que consentimos no enfraquecimento do vigor de decisão destes homens. Temos um destes decretos do Senado, mas está fechado nos arquivos como espada metida em bainha; e, segundo esse decreto senatorial, tu, Catilina, deverias ter sido imediatamente condenado à morte. E eis que continuas vivo, e vivo, não para abdicares da tua audácia, mas para nela te manteres com inteira firmeza. É meu desejo, venerandos senadores, ser clemente; é meu desejo, no meio de tamanhos perigos da República, não parecer indolente; mas já eu próprio de inacção e moleza me acuso.

Há acampamentos em Itália contra o povo romano. estabelecidos nos desfiladeiros da Etrúria, aumenta em cada dia o número dos inimigos; e, no entanto, o general desses acampamentos e o comandante desses inimigos, eis que o vemos no interior das nossas muralhas e dentro do próprio Senado, urdindo a cada instante algum atentado contra a República. Se. neste momento eu te mandar prender, Catilina, se eu decretar a tua morte, o que sobretudo terei de temer, tenho a certeza, é que todos os bons cidadãos me censurem por ter actuado tarde, e não que haja alguém a dizer que usei de crueldade excessiva.

A mim, porém, aquilo que já há muito deveria ter sido feito, fortes razões me levam a não o fazer ainda. Hás-de ser morto, sim, mas só no momento em que já não for possível encontrar-se ninguém tão perverso, tão depravado, tão igual a ti, que não reconheça a inteira justiça desse acto.Enquanto houver alguém que ouse defender-te, continuarás a viver, e a viver como agora vives, cercado pelas minhas muitas e fiéis guardas, para não poderes sublevar-te contra o Estado. È até os olhos e os ouvidos de muita gente, sem disso te aperceberes, te hão-de espiar e trazer vigiado como até hoje o têm feito.

Que há, pois, ó Catilina, que ainda agora possas esperar, se nem a noite com suas trevas pode manter ocultos os teus criminosos conluios, nem uma casa particular pode conter, com suas paredes, os segredos da tua conspiração, se tudo vem à luz do dia, se tudo irrompe em público? É tempo, acredita-me, de mudares essas disposições; desiste das chacinas e dos incêndios. Estás apanhado por todos os lados. Todos os teus planos são para nós mais claros que a luz do dia, e importa que os recordes comigo nesta hora.


Bom fim de semana.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Coisas feias feitas no escuro

Caros Amigos,

O senador Renan Calheiros, enxovalhado pela publicização de todos os seus atos de viscosidade moral, acossado pela vergonha congressual que está exposta em chaga nacional, caçado pela imprensa como uma besta, tenta agora seu último lance de dados, antes que se decida o seu fim: articula junto aos de sua igualha que a votação a respeito de sua cassação, ou não, no Conselho de Ética, seja feito em votação secreta. Ou seja: o que é feio, sórdido, civicamente pecaminoso, deve ser feito às ocultas, na calada das alcovas políticas mais recônditas. Isso,a fim de que os seus sicários, pela não revelação do voto, não sejam conhecidos, ao mesmo tempo em que estes lançarão, sobre quem deles discorda, a pecha da dúvida: quem salvou Renan? Não se poderá afirmar. Todos serão suspeitos e, ao mesmo tempo, eximidos de culpa. Não fui eu, não fui eu, não fui eu...

As coisas de jornal dizem que ele conta com nove dos dezesseis votos do Conselho. Com isso, o homem estaria livre em meio à escuridão que ele mesmo semeara. Há resistências a esse tipo de votação, mas Calheiros tem a essência dos rochedos submersos. Aqueles que, pontiagudos, põem a pique qualquer embarcação e se mantêm, na escuridão das águas profundas, a salvo, a salvo, a salvo. Nenhum marinheiro os vê, mas eles continuam lá, permanente ameaça a quem seja argonauta do decoro, da decência e da moralidade.

Sou, lamentavelmente, obrigado a concordar com o senso comum: isso só acontece no Brasil. Você imagina tais fatos ocorrendo na Inglaterra, na França, nos Estados Unidos, na Alemanha? Enfim, em qualquer país que tenha uma cultura política digna desse nome? Somente um congresso de indignos, num conciliábulo politicamente infernal, um homem como Calheiros ainda estaria, como está, ocupando cargo tão importante.

De um coisa estou certo: liberto Calheiros das cadeias morais que o tentam prender, calará fundo na nacionalidade um sentimento de repúdio, uma espécie de nojo ao político enquanto estamento. Só espero que esse sentimento coletivo não seja passageiro e venha de alguma forma refletir-se nas próxima eleições.
Ó tempos! Ó costumes!
Emanoel Barreto

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Um samba acabado

Caros Amigos,
Folheando as páginas da net vi, acho que ontem ou anteontem, uma coisa de jornal que deixou-me perplexo: um casal madrileno saiu à noite com um filho de poucos meses, deixou o carrinho do bebê numa esquina e foi, tranqüilamente, a uma boate. Após cinco horas marido e mulher chegaram a casa completamente embriagados e sem a criança.

Outro filho, de cerca de oito anos, entrou em pânico ao ver os pais naquele estado, já de madrugada, e sem o bebê, e teve a iniciativa e ligar para a polícia. O carrinho foi encontrado a cerca de 15 minutos da casa, os pais foram presos e liberados sob fiança e a criança vítima dos maus tratos foi levada a uma instituição que cuida de menores.

Sei que esse é um caso extremo de negligência paternal, como também o são os acontecimentos em que pessoas deixam recém-nascidos jogados no lixo e estes são quase que miraculosamente resgatados por passantes.

Os filhos, para essas pessoas, especialmente quando me refiro a famílias de classe média, como parece ser o caso do casal espanhol, podem passar a ser um estorvo. Entra em ação, aí, um mecanismo perverso de "vamos nos livrar do estorvo" e para tanto vale tudo: deixar crianças presas em casa, sozinhas, enquanto os pais se divertem, pedir a um vizinho para "dar uma olhadinha" e o que mais lhes der na telha.

O que impressiona é a banalização das relações familiares, quando pais e filhos, envoltos num processo de vida que esgarça os laços tradicionais de afetividade, tornam-se quase que desconhecidos uns dos outros. Os pais com uma vida que lhes é bastante própria e os filhos, encastelados em seus próprios aposentos, voltam-se mais para o computador e o MSN ou Orkut, ligando-se a comunidades virtuais.

Sei que isso é próprio dos tempos que vivemos, quando valores se emboloram e são substituídos por outros códigos de comportamento e relacionamento. Tal situação foi naturalizada e crianças e jovens passam a ser, para muitos pais, apenas um problema a ser resolvido da maneira mais fácil: dar-lhes um instrumento de diversão, no caso o computador, ou dinheiro para que também vão para a rua. Todos vivem um clima de festa, cujo final é sempre o mesmo: a família vira um samba acabado.
Emanoel Barreto

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Ele voltou. Sim... e daí?

Caros Amigos,
A Folha de S. Paulo, em jornalismo reverente, divulga no caderno Ilustrada a volta de William Bonner à apresentação do Jornal Nacional e lembra - importantíssimo -, que há algum tempo Fátima Bernardes afastou-se do programa, entre um bloco e outro, devido a uma labirintite. Oh......

Ele estava afastado por causa de dores lombares e foi submetido a tratamento.

Isso mostra como o JN tornou-se, até mesmo para o jornalismo, uma espécie de ícone da comunicação de massa neste país. Por que a volta de um jornalista a seu local de trabalho merece tal destaque? Comentei há uns dias a respeito da morte de Joel Silveira, cujo perfil, bem superior ao de Bonner, não ganhou qualquer relevância de mídia.

Então, por que a volta do jornalista da Globo recebeu exposição? Por uma fator muito simples, o JN naturalizou-se como o mais importante telejornalismo do País, e tornou-se alvo de fascínio e atenções, Foi glamourizado pela Globo e ganhou, na verdade, feição de um show. É um jornal que não se indigna com nenhum problema nacional, não demonstra repúdio às injustiças que diariamente o povo brasileiro sofre.

Às vezes, Arnaldo Jabor aparece, fazendo uns comentários à guisa de editorial, que mais se parecem com as coisas do Casseta e Planeta. É mais uma ação satírica, humorística, que postura editorial: séria e, se preciso, ferina; atingindo o ponto a ser denunciado.

Não, não, não. Não tem qualquer importância a volta de Bonner ao JN. Se ele estava com dores nas costas, fez muito bem em se afastar para tratamento. No mais, é preciso entender que o Jornal Nacional não têm ancoragem, como estão dizendo por aí.

Um âncora comenta, explica, analisa, interpreta e apresenta de alguma forma a voz social que ele supõe representar. Bonner não comenta nada. Ele só apresenta o JN. O resto é show.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Um tolo chamado Zottolo

Caros Amigos,
O velho e lamentável preconceito contra o povo nordestino volta à cena, com declarações do presidente da Phillips do Brasil, Paulo Zottolo. Para ele, "se o Piauí deixasse de existir, ninguém ficaria chateado por isso." Como houve um vigoroso repúdio à atitude no mínimo insana, Zotollo percebeu sua tolice e, pressionado a pedir desculpas pelo Governo do Estado, o fez publicamente em jornais e outros veículos com circulação no Piauí.

Desconheço o contexto em que a decclaração foi feita, mas esta revela como muitos brasileiros não-nordestinos vêem a nossa região, a vida do nosso povo, nossos valores e cultura.

Há uma imagem estereotipada do Nordeste como uma espécie de povoamento de pessoas levadas à indigência pela seca, padecentes de todos os sofrimentos que a terra queimada nos dá. Não se vê, como lembrou Euclides da Cunha, que o Nordestino é antes de tudo um forte. Somente um povo como o nosso, historicamente adaptado a conviver com as duras realidades da caatinga, conseguiria continuar a viver, com coragem e até mesmo com alegria.

Claro que Zottolo não fez o pedido de desculpas porque mudou de idéia de repente. Em Teresina houve protestos e foram quebrados produtos da marca Philips, em demonstração de repúdio. O que ele temia mesmo era uma retração nas vendas da sua empresa naquele estado.

Esse pessoal do dinheiro sofre da Síndrome do Tio Patinhas: não pode ver, sequer pensar, que em sua mala, em sua conta de lucros, está havendo qualquer índice de redução. Não: eles amam dinheiro, querem dinheiro, vivem para nadar em dinheiro.

Zottolo é, a meu juízo, um homem digno de pena. Vive só para ganhar dinheiro, o que, convenhamos, não é projeto de vida para quem se pretenda gente. Viver só para o dinheiro? Minhas comiserações.
Ah! Sim, um detalhe: a Phillips não é do Brasil. Pelo que sei, é dos holandeses...
Emanoel Barreto

sábado, 18 de agosto de 2007

Prisão em boa hora

Caros Amigos
A Justiça americana condenou a "bispa" Sônia Hrnandes e seu marido e sócio no empreendimento Igreja Renascer, "apóstolo" Estevan Hernandes, a dez meses de prisão, com cinco meses na cadeia e cinco em domicílio. Além disso, informam as coisas de jornal, cada um pagará 30 mil dólares de multa, ambos perderão os 56 mil dólares não declarados quando entraram nos EUA e ambos permancerão por lá durante dois anos, sob liberdade condicional. Ótimo.

É assim que Justiça tem que agir, muito embora eu entenda que a pena foi muito suave, uma vez que, enganar a milhares de pessoas, num país como o Brasil, pessoas pobres, ignorantes e de boa-fé, para mim é um crime de lesa-povo e deveria caber uma forma mais pesada de prisão.

De qualquer maneira, foi um duro golpe na organização que, aparentemente, perde força com a imobilização de seus dois principais mentores. Mesmo assim, há um perigo: como são mestres nas artimanhas do marketing, irão usar sua prisão como martírio e transformar sua condição de criminosos em situação de pregadores do divino, incompreendidos e assim atacados pelos infiéis.

Diariamente, milhões de brasileiros são enganados e dão contribuições a esses "pastores" midiáticos, num processo cruel de exploração pela manipulação do sofrimento alheio. Ao que sei, o Brasil permite a liberdade de culto. Entretando, não creio que se permita liberdade de furto.
Oremos.
Bom fim de semana.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Eles vão pagar caro

Caros Amigos,
A Justiça americana está para decidir sobre a pena a ser aplicada ao casal Estevan Hernandes Filho e Sônia Hernanes, fundadores da Igreja Renascer. Ele se apresenta como "apóstolo" e ela como "bispa", cargos que se auto-outorgaram quando fundaram sua organização, que recolhe dinheiro de milhares de ingênuos brasileiros que acreditaram estar participando realmente de uma intituição cristã.

Foram presos dia 9 de janeiro, quando entravam nos EUA com 56 mil, 467 dólares escondidos em uma bolsa, na capa de uma bíblia, em um porta CDs e uma mala. Deveriam ter declarado à alfândega que estavam chegando como mais de dez mil dólares.

Essa quantia lhes valeu a prisão domiciliar que cumprem em um condomínio de luxo em Miami. Seus deslocamentos são monitorados por um aparelho eletrônico preso ao tornozelo de cada um.

Acho que Justiça é isso: rapidez e firmeza de decisão com pessoas que entram para - vou usar um lugar comum -, o "mundo do crime". Estima-se que peguem até 16 meses de prisão.

O casal é parte desse grande esquema de religião midiática que se espalha pelo mundo, ganhando muito dinheiro com a suposta propagação da fé. Prometem-se milagres, vida em abundância e uma existência paradisíaca a quem se filiar a qualquer dessas entidades ligadas ao sistema do religion biz.

Como o mundo vive um tempo de temores, insatisfações, a angústia grassa como uma tempestade e as pessoas, em seus múltiplos problemas cotidianos, não têm a quem apelar, tais "pregadores" fundam "igrejas" e passam a preencher o vazio ou o desespero existencial de quem precisaria mesmo era de emprego ou de um bom psicólogo e assim conseguem, de uma hora para outra, transformar-se em milionários.

A televisão é usada à larga por esses pregadores da fé midiatizada, o que inclui parcelas da Igreja católica, também useiras e vezeiras do rádio e TV para amealhar milhões.

No Brasil nada lhes acontece. Mas nos Estados Unidos, onde a lei é para ser cumprida, o casal amarga um bem aplicado calvário. Um calvário soft, bem sei, mas, de qualquer forma, uma punição a quem se apresentava com galardões de pregoeiros da fé e salvacionistas.

Entendo que a pena de 16 meses de prisão será pouco frente aos abusos que praticaram, utilizando-se da boa-fé de incautos para acumular fortuna.
De qualquer maneira, já é alguma coisa. Eles estão pagando o dízimo de César, quando ousaram entrar na terra que se tornou a pátria dos trinta dinheiros.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

...e os jornais não disseram nada

Caros Amigos,

Percorrendo as páginas da net não vi, nas coisas de jornal, quaisquer informações ou registros a respeito da morte de Joel Silveira. O jornalismo é assim: quando da morte de figuras preeminentes dos mais diversos setores, às vezes ocupa páginas e páginas, merecidamente, relatando sua vida,documentando o seu perfil. Entretanto, quando retira-se da redação da vida um velho repórter, nunca, jamais, em tempo algum, há documentação jornalística maior. É uma das tradições perversas do jornalismo brasileiro: o esquecimento dos jornais àqueles que os fizeram.

Em Natal, somente uma matéria no Jornal de Hoje Primeira Edição, teve algum relevo. Nos demais, nada, ou quase. Somos uma categoria que forma opinião, está sempre passo-a-passo com os acontecimentos, às vezes antecedemo-nos ao tempo, muitas vezes corremos perigo, fazemos inimigos.

Não estou querendo dizer que a categoria é composta de santos e vestais. Muito pelo contrário, nosso perfil, que exige-nos agressividade e competitividade para o dia-a-dia das notícias, ajuda muitas vezes a formar grandes formuladores de cicuta, exímios e crotálicos alquimistas.

O que quero dizer é que, para os jornais, somos apenas - e não mais que isso -, peças da grande engrenagem do fordismo de nossa profissão. Joel se foi, os jornais ficaram.

E por falar em jornal, a primeira páginda do JB, que hoje é uma espécie de colcha de retalhos de fait divers, saiu hoje, em sua parte inferior, quase toralmente tomada por anúncio do Banco Itaú. Isso dá bem uma idéia da política editorial do JB: transformar-se num impresso, num infotainement, para ser vendido de qualquer maneira. Até desenhos da fada Sininho e da Cinderela já estiveram ocupando espaço nobre, no alto da coloridíssima primeira página do antes respeitável Jornal do Brasil.
É isso. E continua essa vida.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

O repórter parou

Caros Amigos,

E lá se foi Joel Silveira. O homem do texto exímio, o colunista, o contista, o repórter que cobriu a Segunda Guerra para os Diários Associados aos 26 anos, despediu-se da vida no silêncio de uma velhice sofrida, amargando um câncer e desejando morrer.

Quando seguiu para a missão na Itália, partiu com o seguinte incentivo de Assis Chateaubriand: "Você vá, mas não me morra!"

Mesmo levando em consideração que publicou mais de 40 livros e destacou-se como repórter em todo o Brasil, para mim sua fase mais marcante foi mesmo a cobertura da guerra, chegando à Itália em 1944, em pleno inverno.

Suas memórias do front foram inicialmente publicadas sob o título Histórias de Pracinhas, em 1945, reeditadas depois como O Inverno da Guerra. Trata-se de obra tensa, em que se percebe o trabalho do jornalista em campanha, com todos os perigos e brutalidades que isso implica.

Sergipano, nasceu dia 23 de setembro de 1918. Foi para o Rio de Janeiro aos 18 anos e não parou mais, sempre crescendo no jornalismo.

Sobre o conflito disse: "Confesso que não foi exatamente por delicadeza que naqueles nove meses perdi uma parte de minha juventude, ou o que restava dela. A Guerra é nojenta. E o que ela nos tira, quando não nos tira e vida, nunca mais devolve."

Acho que o jornalismo brasileiro vem perdendo, ou já perdeu, os grandes repórteres, os grandes caçadores de notícias, comprometidos com o dever de informar, opinar e interpretar os acontecimentos. Perdeu aquele sabor de aventura, de risco de vida (ou de morte como andam dizendo), de trabalho que ele sabia ser da maior importância.

A morte, no entanto é pior que a guerra. Ela sempre nos tira e vida e nunca mais devolve. Tirou Joel aos poucos, exaurindo suas forças lentamente. Até que o repórter parou.

Emanoel Barreto

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Onde está o dinheiro?

Caros Amigos,
O Governo, seus aliados e a oposição começam a discutir a prorrogação da CPMF, que deverá ficar valendo até 2011. Ou seja: prepara-se, no Congresso, mais um ataque ao bolso do brasileiro, ou melhor, a manutenção desse ataque, que vem sendo perpetrado desde 1994, quando então o poderoso era Fernando Henrique Cardoso.

O então chamado imposto do cheque deveria ter ser recursos voltados para a área da saúde, mas depois isso foi esquecido. Entendo que tal, na verdade, é uma espécie de invasão da privacidade bancária de todos os que fazem qualquer movimentação financeira.

Entendo, mais claramente, que trata-se de um esbulho às economias das famílias brasileiras, que sofrem essa penalidade sem ter como dela se livrar.

Pergunto: para onde vão as centenas de milhões que o Governo arrecada com esse dinheiro? Para a segurança? Seguramente, não. Pois a criminalidade está campeando à solta. Para a saúde? É inimaginável, pois esse setor está doente. Para a educação? Também não, pois nosso sistema público do setor está analfabeto de apoios ou incentivos. Para a malha viária? Inviável, já que não se tem notícia de recuperação ou ampliação desse segmento, salvo um ou outro caso. Para o ensino universitário? Qualquer recém-aprovado no vestibular sabe que não.

O que há é uma espécie d ferocidade do Estado sobre o contribuinte, que paga uma conta altíssima, por serviços públicos que de serviço ao público não têm nada. O dinheiro da CPMF se perde no vórtice da administração e o povo afunda no turbilhão do espando e do desamparo.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Que nem lata de sardinha

Caros Amigos,
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, está propondo que as empresas de aviação ampliem o espaço entre as cadeiras das aeronaves, a fim de que os passageiros tenham mais conforto e segurança nos vôos.

As empresas alegam que o espaço, mínimo, é essencial para que se mantenha sua lucratividade e que, caso seja aumentado esse espaço, as passagens deverão subir, para compensar o menor número de passageiros por avião.

Trata-se da velha lógica da exploração da sociedade, no caso, em proveito de uns poucos que detêm o controle desse segmento empresarial. O Ministro tem razão e deveria insistir nesse intento, coibindo, da mesma forma, a intenções de aumento de tarifas.

Nesse País já se paga muito por atendimentos de má qualidade e serviços que deixam a desejar. O presidente da Anac, Milton Zuanazzi diz, segundo informa a Folha, que uma pesquisa indica satisfação dos usuários, dos quais apenas cinco por cento se mostram insatisfeitos com a distância entre os cadeiras.

Custa-me crer nessa pesquisa. Como poderia uma pessoa sentir-se bem, imprensada em acomodações que mal dão para alguem se mover? A aviação brasileira vai mal, sim. E se o governo não se mostrar intransigente com o que está errado no setor, tais falhas se manterão ao longo do tempo, com as conseqüências que todos já conhecemos.
Emanoel Barreto

sábado, 11 de agosto de 2007

Herança macabra: o brechó da morte

Caros Amigos,
Uma alfaiataria em Santiago do Chile está vendendo ternos que pertenceram ao ditador Augusto Pinochet. As peças, que ele usava nos anos 80, somente são oferecidas, em caráter reservado, àqueles que sabidamente eram simpatizantes do regime que torturou e matou centenas de milhares de chilenos.

A alfaiataria, um literal brechó da morte, faz assim a louvação de um dos carrascos da humanidade no século passado. Mas é uma louvação envergonhada, cabisbaixa, bisonha. Tanto, que os ternos ficam bem guardados e somente são oferecidos a homens iguais a Pinochet.

Por que não ficam expostos em vitrines chamativas, não são levados a um leilão como os óculos de Lennon? Por quê? Porque são o símbolo da desgraça e do sofrimento do povo chileno e, por que não, e até mesmo da consciência humana. Porque são a marca de uma mente que voltou-se para trucidar e esganar a todos aqueles que defendiam as liberdades e uma vida mais justa. Porque são peças de um museu cruel, onde a principal lembrança são brutalidades infernais regidas por um psicopata armado com a espada da desgraça.
Bom fim de semana.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Somos todos idiotas?

Caros Amigos,
Coisas de jornal que circulam na internet informam que no Japão está à venda uma gravata com ventilador. Serve para o homem usar conectada à saída USB do computador. Estamos, verdadeiramente, vivendo a idade da simulação de um certo tipo de vida social, com imposição de modismos que variam entre o ridículo, o grotesto e o criminal.

Ridículo e grotesto para quem usa. Criminal para a empresa que consegue atrair clientes e dinheiro com necessidades forjadas e inúteis. Vi há alguns dias, num shopping, um jovem beócio sendo puxado, numa coleirinha, por uma jovem tão fátua quanto ele. O casalzinho se exibia com um jeito que tentava se fazer passar por blasé, caminhando lentamente: ela à frente, ele seguindo-a, como a pedir, com tal comportanto, às pessoas que passavam: "Olhem como sou tolo. Eu sou um imbecil. Vocês não percebem?"

A imposição de falsas necessidades tornou-se alvo preferencial do marketing. Em qualquer canal a cabo há aqueles anúncios que propalam eletrodomésticos e outras traquitanas que irão mudar a sua vida e fazer de você uma pessoa feliz: quer emagrecer? Use aparelho tal. Quem ficar mais jovem? Compre uns elásticos que são colocados sob o cabelo a partir das orelhas. Eles vão esticar a pele e você ficará lindíssima. Deseja um bom suco? Compre a máquina não-sei-o-que-lá, que ela vai fazer maravilhas. Quer isso, quer aquilo, quer aquilo outro? Faça assim, coisa e tal e tudo bem, viu?

Agora, eu pergunto: quer ficar em paz? Desligue a TV quando esses comerciais estiverem no ar. Sua integridade mental estará, seguramente, protegida.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Um protesto fora de hora

Caros Amigos,
Está em andamento um protesto intitulado de "Cansei", numa alusão ao governo Lula e suas escaramuças, equívocos e atos falhos, vide "Relaxe e goze" de Marta Suplicy, nas antevésperas da tragédia da TAM.

O problema é que não há clima de opinião pública propício a tal iniciativa, não há qualquer mobilização anti-Lula, enfim, nenhum processo de repúdio ao sistema ora no poder, para que esse Cansei viesse a ser ativado.

Ademais, seus líderes não têm biografia para se lançar a essa empreitada, melhor diria intentona, de tentar desestabilizar Lula. Se nem mesmo há mobilização contra a presença de Calheiros na calhas do Senado, imagine contra Lula e seus epígonos, entre eles o próprio Renan.

Há um certo Dória e um advogado, d'Urso, presidente da seção da OAB de São Paulo, mas, frente à Nação, literalmente ilustres desconhecidos e sem qualquer participação histórica que os qualifique a tomar o timão do tal Cansei.

Ao que parece-me, trata-se de de atitude tática buscando lançar amarras anti-Lula para a próxima eleição presidencial, quando o presidente lançará candidato à sua sucessão. Ao que entendi, seriam prejudicados Lula em seu futuro político, e aquele que receber o seu apoio. É uma operação-desgaste, que já nasceu falida.

O Cansei não tem apelo popular, não brotou de bases legítimas e não vai dar certo. Afinal, seria lamentavelmente mais uma farsa a se impor ao País.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Os ratos, a explosão e o indivíduo que berra

Caros Amigos,
A agenda das coisas de jornal tem dois assuntos em pauta: o caso Renan Calheiros e a tragédia da TAM. São os que mais estão ocupando espaços nobres nos noticiários. A questão da TAM entra agora no terreno jurídico: viscoso, escorregadio, entremeado de luz e sombra, desvãos e chicanas de advogados. Até uma autoridade da Aeronáutica, em depoimento a parlamentares, permaneceu praticamente muda, alegando "assunto sigiloso".

Acho que sigilo, sigilo mesmo, está ocorrendo com os familiares das vítimas, que sofrem em silêncio a perda de pessoas queridas e vão entrar no empura-empurra dos envolvidos, cada um querendo se safar, possivelmente passar a culpa aos pilotos. É como em história de literatura policial: sempre o mordono é o culpado e todo mordomo chama-se Jarbas. Os pilotos, ao que temo, talvez venham a ser apontados como os jarbas do holocausto da TAM.

Quando ao indivíduo Renan Calheiros, reforçam-se os indícios de que terá seu patrimônio político levado à hasta pública do plenário, cassado e guilhotinado politicamente. O butim deverá ficar com o PMDB. É o que dizem as coisas de jornal, alertando que até o Planalto já teme que a demora com que se arrasta a luta do citado elemento, que se insiste em ser bom, digno, reto e bom cristão, venha a respingar no Governo.

E quando políticos começam a temer por seu futuro, esteja certo, esteja certa: deixa o navio e toma o primeiro salva-vidas que esteja passando por perto. Pena que o povo não possa tomar um salva-vidas e deixar, no navio que afunda, todos os ratos que habitam desde o seu porão até a ponte de comando.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

O risco-país e o país riscado

Caros Amigos,
As coisas de jornal da Folha Online trazem ao leitor o que seja o risco-país. É o seguinte: "O risco-país é visto como um "termômetro" informal da confiança dos investidores globais em país de economia emergente. Se o indicador sobe muito, por exemplo, é um sinal de que os investidores globais desconfiam cada vez mais que um país não vai saldar os pagamentos regulares de sua dívida externa. Essa percepção pode ser afetada por algum evento global --a piora da economia mundial-- ou algum evento local --o país acumula dívidas cada vez maiores, mas não poupa em ritmo suficiente para pagá-las. Em 1995, a desvalorização do peso mexicano detonou uma onda generalizada de descrença sobre as economias emergentes. O Brasil sofreu as conseqüências: o risco-país bateu em 1.689 pontos em março daquele mesmo ano."

Não fala, entretanto, das origens, das causa sócio-históricas de um país e de o quanto aquele país já foi explorado pelos mesmos tipos que criaram o tal risco-país.

Para mim, risco-país é menino morrendo de fome e de doença e os paises não terem dinheiro para atendimento médico e remédios; é mulher se prostituindo; é o cidadão desesperado porque perdeu o emprego e não teve qualificação escolar para buscar uma melhor colocação; é traficante literalmente dominando uma cidade como o Rio de Janeiro; é político desonesto escapando impune, apesar de infame; é avião caindo por falta de manutenção e pista de má qualidade; é prato vazio na hora do almoço, café e jantar; é tristeza entrando por baixo da porta da casa do povo e dizendo: cheguei para ficar. Risco-país é o país em risco. É o país riscado do mapa da dignidade.

Emanoel Barreto

domingo, 5 de agosto de 2007

A moça vai ficar nua

Caros Amigos,
Do mesmo modo que Cebolinha tem um problema de relacionamento com a Mônica e seu coelhinho, o senador Renan Calheiros tem também turbulências pessoais com sua ex-amante Mônica Veloso, que agora vai ser coelhinha da Playboy.

Dizem as coisas de jornal que a moça já fechou um contrato de 400 mil reais para posar nua e manter aceso o incêndio do escândalo que devasta o território político do senador das Alagoas. E mais: fala-se na descoberta de novos negócios transversos, com sua participação ilícita e oculta em emissoras de rádio.

Somente no país como o nosso um homem assim se sustenta no Poder, apesar de todos os tsunamis e fucarões que o têm acossado. Entretanto, ancorado firmemente no cais que acolhe a corrupção e todos os que são portadores de elasticidades morais, ele tem amarras fortes com o grupo de políticos que o apóia incondicionalmente, e até com o presidente Lula.

Como se vê, o coelhinho da Mônica e a Mônica Coelhinha são terríveis e podem atenazar até mesmo a vida do mais duro lobo mau.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Ela...

Ela tem os passos macios,
ela tem o olhar das manhãs.

Ela é o instante secreto,
ela é o pólen do sol.

No silêncio de um tempo só nosso,
vela instantes que são de entreluz.

E depois da noite que amanhece,
me sorri com espelhos de jade.

E o nunca inexiste
entre nós.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

O milagre de Brisa Milagros

Caros Amigos,
As coisas de jornal informam que, na Argentina, uma menina recém-nascida não apresentou sinais vitais, foi dada como morta e levada ao necrotério. Ali, após algum tempo, chorou, o que a livrou, com toda a certeza, de realmente morrer. Percebido o erro, os médicos levaram-na a atendimento de urgência e agora ela está numa incumbadora.

Os pais, em sua perplexa alegria, deram-lhe o nome de Brisa Milagros. Eis aí um belo poema, uma sagração à vida, que é sopro, leve vagar que nos percorre o corpo e a alma. Vida tão frágil, silencioso impulso que nos anima o ser.

Brisa Milagros, que os tempos que ainda virão para ti sejam bons. E mesmo que a brisa da vida, a brisa do mundo, que pode se transformar em tempestade, venha a te ameaçar com temores e trevas como as que enfrentaste, seja enfrentada por ti com a coragem serena dos que sabem se ser.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

A Caixa-Preta Brasil

Caros Amigos,
Diante de tanta confusão a respeito da caixa-preta da Tam, entendo que, de alguma forma, o Brasil, com seus descaminhos, casos fortuitos, coisas inesperadas, tramas escusas, atos nebulosos, inquéritos jamais concluídos, políticos da estatura moral de Renan Calheiros e outros quejandos é, à sua maneira, também uma enorme caixa-preta.

Portanto, precisa ser desvendada. Mas, como se sabe, caixas-pretas somente podem ser abertas e analisadas nos Estados Unidos. Assim, o Brasil deverá ser embalado, cuidadosamente embalado, e enviado aos EUA. Mas, como aqui as coisas não funcionam bem, algum funcionário esquecerá de comunicar que o Brasil está chegando por lá para ser examinado, e então acontece o seguinte: aquele pacotão vai chegar, terá apenas a inscrição "fragile" na embalagem, nada de remetente ou destinatário, e os americanos ficarão loucos: vão pensar que Osama enviou para lá uma bomba de alto poder mortífero e convocarão todos os seus setores de segurança.

O Pacote-Brasil vai virar, aí sim, para eles, o verdadeiro Risco-Brasil. Os maiores peritos em explosivos serão chamados e dirão: "Oh! My God!", tão logo auscultarem o pacote e ouvirem os tiros sendo disparados no Rio de Janeiro: "It's dangerous! Run! Run! Run!"

E todos sairão correndo, ante o temor da explosão, pois o pacote estará sendo agora movido por grandes abalos. São os senadores amigos do Renan tentando desesperadamente dizer que trata-se de um santo homem, devoto e dedicado à família, injustiçado e probo. Serão tantos os corre-corres, que eles acabarão provocando grandes sismos no pacote.

Depois, silêncio total. Os especialistas se aproximarão com todo o cuidado e abrirão o grande pacote. E aí, encontrarão a enorme caixa-preta. E dirão: "What is it?" Pé ante pé, medo retesado à máxima tentão, irão abri-la. Pronto, a caixa-preta está aberta.

E então, quando descobrirem que estão vendo o Brasil em funcionamento, ficarão tão apavorados que dirão: "Dephressa, vamous mandhar devoulver pahra Porthugal..."

E mandam tudo para os patrícios. E, quando eles abrirem, em prantos cantarão fados tão tristes, e tão dolorosos versos seus, que banharão de dor tod'alma lusitana. E, em lágrimas lamentosas, dirão: "Meu Deus, meu Deus, o que foi que nós criamos?"
Abraços,
Emanoel Barreto

terça-feira, 31 de julho de 2007

Caminhando entre monstros

Caros Amigos,
Monstros nos olham
diariamente pela tela da TV.
Monstros nos falam todos os dias
nas coisas de jornal
e dizem como são bons e Justos.

Monstros assumem
quase diariamente
lugares os mais altos,
nos Poderes empoleirados.
Seus pedestais são feitos de ferro e dor,
concreto e restos
das vidas que tragaram.

Monstros nos olham
diariamente pela tela da TV.
Monstros se explicam
com sombras evidentes
e nos calam o direito de falar.

Monstros ditam leis injustas e prestam,
todos os dias,
culto ao deus dinheiro
e a seus anjos, o mercado e os bancos.

Monstros se dizem austeros,
dignos, circunspectos e respeitáveis.
Mas são apenas monstros;
que caminham rápidos na noite que
construíram e operam seus
sórdidos milagres de enriquecer sempre.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Os montes das Vênus

No mapa da beleza,
a topografia feminina
exibe duas montanhas
que se mostram
como desafio ao alpinismo do olhar.

Encantadores montes de beleza,

eles estão sempre à frente, ternos e lindos.
Desafiam curiosidades,
estimulam elogios,
buscam refúgio muitas vezes
em minúsculos abrigos,
onde mais se mostram que se ocultam.

Dotados de volumes e formas variados,

eles não se podem esconder.

E seguem sempre,

montes das Vênus,
a encantar o imaginário,
como se fossem,
em meio ao mundo de tormentos, um sinal.

O sinal de que, um dia,
o amor se aninhará na mão que tiver,
da bela, permissão para ser mais atrevida