sexta-feira, 14 de abril de 2006

A alquimia de Alckmin

"Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo:
nem ele me persegue, nem eu fujo dele,
um dia a gente se encontra."
(Mário Lago)

O candidato à presidência da República Geraldo Alckmin está no Nordeste. Veio "nos ver" e "ser visto". As notícias estão dando essa informação. Vai assistir hoje à encenação da morte de Cristo em Fazenda Nova, Pernambuco, e amanhã participa de um megaalmoço com líderes de partidos que poderão apoiar sua candidatura.

O Nordeste só serve para isso mesmo: candidatos quase anônimos nacionalmente vêm aqui para nos usar como laboratório sócio-comunicacional, querem se tornar personalidades de mídia, atrair a atenção do público, testar a sensibilidade do nordestino a um novo produto político.

É assim, com essa alquimia política, que Alckmin vai tentar fazer decolar nesta região sua candidatura. Vai chegar com um sorriso implantado na boca, a mão estendida por alguns segundos a pessoas na rua e no sertão, buscando mimetizar à sua imagem os desejos, sofrimentos, insatisfações e desencantos do Nordeste.
É triste, mas ele vem para ser visto. E espera, com sua alquimia, fazer passar por algum tubo de ensaio o pensamendo do nordestino para, depois desse processo, transformar o povo em voto e a perplexidade com essa sua atitude de cálculo eleitoral em esperança.
E enquanto sua mulher, dona Lu, fica em São Paulo experimentando vestidinhos caríssimos, ganhos de presente, ele, travestido de líder, quer dizer ao nordestino que essa fatiota, essa fantasia de líder, lhe cai bem.

Tempo de ficar triste

"O pessimista é uma pessoa que, podendo
escolher entre dois males, prefere ambos."
(Oscar Wilde)

A música ao fundo é com Billie Holliday, chama-se On the sentimetal side. É algo tranqüila, boa de ouvir. A voz da diva é suave como uma mulher de andar elegante e discreto. Escrevo meio devagar, teclando aos poucos, coisa incomum. Sou de redigir rápido, metralhando o teclado. Mas hoje é Sexta-feira Santa, antigamente conhecida como um dia grande, um dia santo.

Acho que é por isso que estou escrevendo devagar. Acho que é porque hoje é dia de ficar triste. Não aquela tristeza que sai da gente como algo que estava guardado e de repente aparece: espontâneo e forte, que dá até para notar. Mas tristeza como reflexão, atitude interna que requer silêncio só de você, mesmo que a seu lado estejam todos cumprindo o ritual diário da voz e do barulho.

Uma tristeza programada, metódica, que tem começo, meio e fim. Acho que hoje é dia de ficar triste porque há tantas dúvidas e são poucas as portas a se abrir; são tantas pessoas, cada uma com o seu passado, e muitos e incertos todos os futuros; são largos os rios e frágeis as poucas pontes; o pouco sem poder de enfrentar o muito; a fome sem poder encontrar um prato.

Acho que construímos um mundo estranho. Só para dar um exemplo, um mundo onde a publicidade intensa e enfática diz e diz que você precisa porque precisa de um telefone celular de marca tal, porque assim poderá falar tantos minutos,
ligar para-não-sei-onde, beber palavras dos outros, falar, falar, falar.

Na verdade, o que se oculta por trás de tanta fala é um silêncio denso e fútil; na verdade, não se fala: emitem-se sons supostamente inteligíveis, durante conversas que não levam a nada. Os celulares são a marca da convivência banal, a frivolidade eleita como estilo de vida.

Mas se hoje é dia de ficar triste, é também dia de saber que essa tristeza, como falei, programada e serena, é apenas um instante antes do próximo passo. Depois, de caso pensado, você volta e sabe que a vida continua. Afinal, se a noite é escura, é durante a noite que dormimos para, dia seguinte, tocarmos a vida em frente. Então, enfrente. E, dessa vez, nada de tristezas.

quarta-feira, 12 de abril de 2006

A voz das ruas

"O Brasil não é para principiantes."
(Tom Jobim)


A recente prisão de Suzane Richthofen, menos que atender a um imperativo de legalidade, a partir de uma suposta base moral que rege a formulação das leis, atendeu muito mais ao clamor social que se espalhou pelo País, ao se constatar, pela imprensa e pela TV Globo, que a assassina de seus próprios pais era, ao invés de uma jovem de estrutura emocional frágil, na verdade uma personagem fria e cruel. Tanto, que havia participado do matricídio e parricídio.

Na verdade, não havia mais o que constatar. Ela confessara o crime e sua particiação. Errou a Justiça ao permitir a sua libertação. Mas o enfoque que quero dar não vai na direção do questionamento da Justiça, unicamente; sim no encaminhamento do quanto a pressão da imprensa, respaldada pela opinião pública pode, em um determinado instante, direcionar o norte dos acontecimentos.

O quê ocorreu, então? Com o flagrante, com o desmonte da farsa, o Judiciário caiu em si: jamais deveria ter libertado a jovem Suzane. Uma espécie de vergonha social varreu certamente o aparelho da justiça. Afinal atendeu-se à voz das ruas, que jamais aceitou tal libertação, e a ordem liberatória foi revogada.

Vendo um caso como o de Suzane Richthofen, endende-se facilmente porque Tom Jobim dizia que o Brasil não é para principiantes.


terça-feira, 11 de abril de 2006

"É goooooooooooooool!"

“O sapateiro não é a
pessoa mais autorizada a
dizer onde o sapato aperta.”
(Raymundo Faoro, ex-presidente da OAB)

Não se sabe bem como, mas, de repente, ele se viu cercado por um bando de meninos taludos, todos acusando-o de haver, simplesmente, furado a bola da turma. “Eu? Como fiz isso?”, questionou, antes de receber o primeiro safanão na cabeça.

“Ora”, respondeu o maior de todos “vimos quando você ia passando e chutou a nossa bola, que voou e bateu bem ali, naquele caco de vidro.”

Só que não tinha sido ele. A bola realmente dera a impressão de haver batido em seu pé direito, seguindo então certeira para o caco de vidro, desses que são colocados em cima de muros, para proteger o quintal das casas.

O menino raivoso perguntou, ameaçador: “E agora, vai pagar o prejuízo?” Ele não tinha como pagar o prejuízo de uma bola oficial, novinha, orgulho de turma.

“Então”, disse o maioral, “vamos ficar com os seus sapatos. Vamos vender e comprar outra bola.” Ele não tinha como se defender. Era menor, mais fraco, estava sozinho e os outros eram exatamente o seu oposto.

Outro garoto da turma, sentindo-se o próprio senhor da situação, uma espécie de vassalo privilegiado do mandão do pedaço, até aproveitou para lançar um desafio, certo de que isso resultaria na humilhação total do garoto que estava sendo acusado.

Disse:“E vai ver que você nem ao menos joga futebol. Deu aquele chutão só por chutar. Não dribla, não faz embaixada, não cruza, não atira a gol.” Todos caíram na risada. Era o máximo, tripudiar sobre alguém indefeso.

Como que por encanto alguém apareceu com uma bola, também oficial e novinha e lha entregou: “Toma, vai lá, mostra que é o bicho...”, ironizou o aprendiz de brutamontes. O menino olhou para um lado, para o outro, buscou uma brecha por onde pudesse fugir e somente viu ante seus olhos uma massa compacta de corpos rijos, que impediam até mesmo um pensamento de escapada.

Aí, aconteceu o que nem ele mesmo esperava. “Vai!”, berrou um moleque, empurrando-o. E ele foi. Incrivelmente, dominou a bola, fez embaixadas incríveis, driblou um, dois, três, quatro e seguiu em frente, dando um show.

A molecada de queixo caído. Ele controlou a situação, saiu jogando sozinho, deu um chute enorme e estourou a bola contra um ferro pontudo que havia num muro. Todos fizeram “ohhhhhhhhh!”, enquanto viam a bola murchar.

Ele sorriu, virou-se para os adversários e berrou a plenos pulmões: “É goooooooool!!!”, e foi embora sorrindo.

segunda-feira, 10 de abril de 2006

Não adianta fugir, ninguém pode se esconder

"O Grande Irmão
zela por ti."
(Do livro 1984, de George Orwell)


Temor ao dar qualquer passo, insegurança até em casa, vigilância sutil, domínio silencioso. Assim deverá ser o mundo em futuro bem próximo. Sua vida pode ser vigiada, acompanhada, segredos pessoais devassados, hábitos personalíssimos conhecidos. Tudo como conseqüência de um simples acesso à internet.Veja o que pode acontecer, e o que já está acontecendo, no artigo que transcrevo abaixo, intitulado "A sedução dos serviços gratuitos".

Empresas da web oferecem ferramentas online sem pagamento, mas comercializam dados pessoais dos internautas.
David H. Freedman - Newsweek


Uma amiga tira uma foto sua com o celular e o coloca na bolsa. O aparelho, ainda ligado, descobre quem você é e envia a informação junto com sua localização para uma empresa que arquiva o dado com outras informações pessoais. Assim, um indivíduo pode pagar à firma para lhe encontrar e ser notificado da sua proximidade.
A empresa pode ser o Google, Yahoo ou Microsoft. Nenhuma rastreia as fotos do celular, mas elas o seguem de outras formas e lucram com isso. A idéia é fechar o cerco para, em cinco anos, conhecer seus movimentos, amigos, interesses, compras e correspondências. Com isso, ajudariam os marqueteiros a ganhar dinheiro.

A posição do usuário determinará o futuro da computação. Google e outros gigantes da web criarão uma constelação de produtos baseados nos seus dados pessoais e apostam que você trocará as informações pelos benefícios. Mas, ao cooperar, perderá grande parte da sua privacidade - e talvez mais.

Com o detalhamento dos nossos arquivos, fica fácil registrar crenças políticas, históricos amorosos, hábitos embaraçosos e pequenos delitos. O risco é o de ser perseguido rotineiramente por isso. Ou pior: temer embarcar em comportamentos que possam ser controversos.

- O que acontecerá no campo da privacidade nos próximos 10 anos terá implicações profundas em como nos relacionamos social, econômica e politicamente. Não deveríamos entregar tão fácil nossos dados para o mercado - explica Jerry Kang, professor de Direito da Universidade da Califórnia.

O Congresso americano estuda leis que tornariam ilegais a coleta e partilha de informação pessoal na internet ou por celular sem aviso e permissão claras. Esse tipo de restrição já existe em parte da Europa.

Mas os esforços parecem fadados a falhar. Uma nova geração de consumidores, adolescentes, cresce sem medo de entregar informações sobre si no Orkut, blogs e fotologs.

O diretor de Pesquisa do Yahoo, Prabhakar Raghavan, diz que a ''rede sensível'' coletará e tratará as informações.
Como mágica, ela entende o que você quer e o atende na hora e lugar certos, em PCs, rádios ou celulares.

Marissa Mayer, vice-presidente de Busca e Experiência do Usuário do Google, espera o dia em que possa falar ao carro que quer ir a um restaurante francês ou pedir à TV que faça o download de um filme.

- Qualquer computador me ouvirá e tomará ações relevantes para mim na internet.

As tecnologias para tal estão chegando. Muitos celulares já identificam onde o usuário está. Na Ásia e Europa, os telefones móveis são cartões de crédito sem fio. As empresas podem rastrear suas compras e indicar promoções, como a de um prato no restaurante da esquina.

Para evitar ser rastreado, não adianta desligar o celular. Nos Estados Unidos, cerca de 25 mil câmeras de vigilância já estão instaladas em locais públicos e privados e aumentam em 2 milhões por ano. Em cidades européias como Londres, é difícil caminhar na rua sem ser fotografado de vários ângulos. E, em cinco anos, não será mais preciso um humano para reconhecer o sujeito na imagem.

- A rede saberá tanto de você como um amigo próximo - avisa Michael Gold, pesquisador no SRI Consulting Business Intelligence, na Califórnia.

Grandes redes sem fio, chips com transmissão por rádio e telas de vídeo tornarão os produtos na prateleira e na casa em ''objetos inteligentes''. O pacote de cereal no supermercado o informará, por um visor, que seu estoque em casa acabou.

- Se a rede sabe onde você está e a caixa é conectada a ela é fácil gerar a mensagem - afirma o professor de Engenharia Elétrica da Universidade de Princeton, nos EUA,

Em cinco anos, a maioria dos cidadãos receberá informações personalizadas ao andar na rua. Pode ser um alerta no celular avisando que seu amigo está na cidade ou pelo som do carro de que uma loja próxima tem uma ótima promoção.

O envio de anúncios diários baseados nos dados pessoais é a a única forma que Google, Yahoo e outras empresas têm para ganhar dinheiro, já que estamos mimados por serviços gratuitos delas.

- Cobrar uma mensalidade por um serviço online é uma boa forma de perder 90% dos consumidores. A atenção humana é sempre rentável - afirma Steve Jurvetson, diretor da Draper Fisher Jurvetson, empresa de investimentos de risco em alta tecnologia nos EUA.

Por isso, as empresas podem arriscar o envio de anúncios com base no seu perfil. Assistiu a um programa sobre energia solar? Visita muito a oficina? Pode ser candidato à publicidade de um carro híbrido, enviada quando estiver próximo a uma concessionária.

sexta-feira, 7 de abril de 2006

As falsas feias

Se o povo não tem pão
que coma brioches.”
(Rainha Maria Antonieta)

Há algum tempo, leia-se há muitos anos, eu costumava, em parceria com o jornalista Vicente Serejo, redigir notas para uma coluna que, no Diário de Natal, fazia o maior sucesso: chamava-se “Bastidores”.

A coluna surgira sem qualquer planejamento, um verdadeiro calhau, para encher um canto da página 3, onde ainda hoje está o noticiário político. Bastidores, entretanto, não tratava só de política. Seu pequenino espaço, uma coluna, de cima abaixo, permitia-nos vôos bem distantes do puro (ou melhor, impuro) jogo do poder político.

Ali, em poucas linhas, traçávamos vários tipos de assuntos, até que um dia inventei de falar numas tais de, imagine só, “falsas feias”. Ficamos, eu e Serejo, sustentando uma seqüência de notas a respeito do tema, dizendo coisas mais ou menos como “a falsa feia é a mulher que, na verdade, traz uma beleza embutida no rosto e somente em determinados momentos se permite-nos a sua visão.”

Agora, passado já um bom tempo, e tocando nesse assunto novamente, concordo: as falsas feias não são feias em si: a visão dos outros é que não lhes encontra a beleza oculta e densa. A falsa feia é diferente da falsa bela, a mulher que precisa se produzir demais, para atrair olhares e, mais que isso, admiração e, melhor ainda, inveja das demais.

A falsa feia tem a discrição dos tímidos, pois sente-se diferente e, como tal, discriminada; torna-se suave não por maneirismo, mas por saber que, quem a descobrir, terá chegado a uma praia imensa, somente a poucos dada.

Querendo, pode ser irônica, afrontando a beleza inútil e produzida das que se acham as maiorais.A falsa feia é a Bela que não precisa adormecer para ser beijada. Ela é dona dos seus próprios sonhos.

quinta-feira, 6 de abril de 2006

Quando o crime vira lei

"A roubalheira política ganhou jurisprudência."
(Alex Medeiros, jornalista)

A frase de Alex, muito além de ser um achado, é uma inusitada espécie de resumo, um vade mecum dos corruptos, uma deixa fácil para culpados recuarem em direção aos bastidores, perdendo-se depois nos escaninhos do esquecimento.

A Câmara dos deputados, ontem, viveu momentos tristes. O deputado Pinotti chegou a dizer que a Casa não deveria "julgar irmãos", deixando a apuração de culpas de parlamentares ao Poder Judiciário.

O deputado João Paulo Cunha citou o escritor uruguaio Eduardo Galeano, que em um de seus contos fala de uma velhinha cega que admitia ser culpada de um crime que absolutamente havia cometido. Mas confessara, tal a pressão policial, para assim agir. Na mesma história, o escritor dizia que o suposto crime tinha sido publicado pela imprensa, o que seria suficiente para formar a acusação e configurar a culpa.

E a imprensa, na ficção de Galeano, mentia. O deputado, então, colocou-se em situação igual à da personagem, colocando-se como vítima. Logo ele, que admitira de público que havia recebido dinheiro do mensalão. Mas agora, não. Não houve, nada; nada, a não ser uma espécie de alucinação coletiva, cujo resultado seria a culpabilidade de um inocente parlamentar.

O final da ação corporativa dos deputados foi elucidativo para quem acompanhou pela TV o processo de votação e apuração. Anunciada a absolvição de João Paulo, ouviu-se um grande silêncio, manifestação imaterial da vergonha plural, o bisonho epílogo da honradez.

Alex foi feliz em sua frase lapidar. Infeliz é o povo que tem deputados assim. Escudado pela jurisprudência da roubalheira, o deputado João Paulo fugiu da imprensa num passinho apressado, correndo a se esconder em seu gabinete, tão logo encerrou-se a sessão.

Rui Barbosa tinha razão: é chegado o tempo em que os homens têm vergonha de ser honestos. Oremos ao Senhor.

quarta-feira, 5 de abril de 2006

Madrugada

"Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode
ter ouvido capaz de ouvir e de entender estrelas."
(Olavo Bilac)

Recebi de Zilda Neves este sinteticamente belo e grandioso texto. Trago para você ler.

Faz frio! Na sala, oito relógios. Todos com horários diferenciados nos segundos.
Duas horas. Tic-Tac, Tic-Tac...

Um pêndulo balança sonoramente.
O cuco canta pausadamente.
A vida também é assim: tem seus minutos e segundos diferentes; assim como os relógios: minutos e segundos alternados...

Observo atentamente. Um está parado. Resolvo acertar as horas. Ando para lá, ando para cá... Paro. Reflito...
Deixo como está. Olho ao redor.
Os móveis no mesmo lugar: a arca; a mesa redonda com quatro cadeiras; a poltrona coberta por uma manta de tecido brocado; um carrinho de chá, em desuso; um pé de máquina, centenário, única recordação de um noivado, em Portugal, de meus pais.

Lembranças de uma vida passada tornam-se objetos de decoração...
Caminho pela sala.

Olho mais atentamente: abajures, pratos de parede em porcelana, uma deusa - peça de origem francesa -, formam contraste com um camiseiro que destoa do ambiente.

Não me agrada. Tento arrastá-lo, voltando-o para o lugar de origem: no quarto.
Volto atrás minha decisão: seria inconseqüente, um transtorno à passagem de uma pessoa debilitada.

Gostaria de não estar aqui, nesse momento. Não posso!
Os minutos passam.
Tic-Tac, Tic-Tac...
O tempo passa.

Estou triste. Não choro...
Estou com fome. Não me alimento...
Estou com frio. Não me agasalho...
Por quê? Porque estou só. Muito só...

Ouço passos na rua: uns apressados, com certeza trabalhadores para o seu dia de rotina; outros, lentos... Talvez namorados, sem pressa de chegar...

Fecho os olhos para uma oração.
Peço paz, tranqüilidade, abnegação e serenidade para o dia que começa,
e a incerteza do momento em que a morte o levará...
Apago as luzes!

terça-feira, 4 de abril de 2006

Sobre o Cristo apresentado como gay

Recebi, do jornalista Alex Medeiros, grande figura e grande caráter, e-mail que segue.

Caro Barreto,
Vi o filmete há algum tempo, até citei-o num artigo sobre a polêmica das charges de Maomé. Usei como referência para falar da intolerância muçulmana em comparação com outros credos. Ninguém até agora viu um só cristão querendo queimar embaixadas por causa do tal filme.
Abração, Alex

segunda-feira, 3 de abril de 2006

Jesus mostrado como gay

"O sentido da vida consiste em que não tem
nenhum sentido dizer que a vida não tem sentido."
(Niels Bohr)

O diretor argentino Javier Prato, de 28 anos, está exibindo um clipe em que apresenta a figura de Jesus Cristo como um gay parrudo, debochado e escandaloso, que afronta pessoas e caminha pelas ruas de uma metrópole envergando unicamente um fraldão. Ele entoa a canção I will survive, dublando a cantora Gloria Gaynor, um sucesso e referência musical dos gays. O ator Miguel Mas faz a interpretação de Cristo.

De repente, ao tentar atravessar uma avenida, o Cristo é colhido por um ônibus e literalmente é tragado pelo veículo, sumindo em meio a um grande impacto visual e sonoro.

A produção, que está dando ao seu diretor seus 15 minutos de fama, tem sido encarada ao redor do mundo por pessoas que a consideram como um acinte, um sacrilégio, bem como por aqueles que a entendem apenas como uma jogada de auto-promoção do site do argentino ou simplesmente manifestação de irreverente senso de humor. A imprenssa tem registrado isso.

O título da canção, em português, é Eu sobreviverei, mas o Cristo não sobrevive em meio à metrópole. É tragado por ela, some, desmaterializa-se em meio ao caos. Seria a vitória da "racionalidade" urbanóide em sua lógica bem própria de caos cotidiano, sobre a irracionalidade advinda da religiosidade.

A mensagem pode ter outras leituras, além das visões simplistas de sacrilégio ou humor escrachado.

Inicialmente, tem-se morte do Cristo, enquanto símbolo, ao ser apresentado como uma pessoa desequilibrada, que anda pelas ruas gesticulando louca e vaidosamente, em substituição à imagem ancestralizada de Jesus como um ente de paz, sabedoria, tranquilidade e equilíbrio.

Além disso, a mensagem insinua que, no mundo de hoje, Jesus seria já uma figura/representação desatualizada, incompetente para conviver com o modus vivendi dos tempos de hoje. Não mais preencheria expectativas nem deveria ser tomado como padrão comportamental ético, sendo portanto substituído por uma nova ética do cotidiano das pessoas e suas relações.

O ator mostra um Cristo agressivo, que tromba com as pessoas, choca, apela, agride pelo visual e pelos gestos. Perfeitamente inserido nas sociedades de avançado processo de urbanização, onde imperam a concorrência a qualquer preço e a falta de compostura do ser humano na busca de traçar seu caminho entre os seus iguais.

Houve uma espécie de ato falho do diretor, que, ao investir contra uma figura que encerra uma gama de valores positivos, acaba por desmascarar, sem o querer, que tipo de sociedade está sendo gestada: vazia, centrada na aparência, regida por uma competição desregrada e que segue em frente, sem respeitar quem esteja ao lado ou colocado no meio do caminho.

Vale a aparência, não a essência. A mensagem, além de não contribuir para a luta que os gays desenvolvem em favor de seus direitos civis e de conquistar o respeito social pela sua opção sexual, ajuda a acirrar visões e preconceitos contra eles.

Além do mais, termina por ser um louvor, um hino alienado em favor de um tipo de sociedade em que o simulacro das relações se manifesta até mesmo em pessoas travestidas. Parecem, mas não são; e são o que não parecem, ou seja: não são críticos, são apenas pessoas que seguem uma multidão faminta por momentos exuberantes. Mas esquecendo de que o rio em que se navega é o mesmo que pode afogar.

O endereço do site é:

http://youtube.com/watch?v=Hcp9WsH5TBg







domingo, 2 de abril de 2006

Os meninos estão bem*

“Liberdade, Liberdade,
abre as asas sobre nós.”
(Do Hino da República)
Dona Maria Eutínia morava no Tirol, idos dos anos 50. Gravemente religiosa, mantinha a família, inclusive o marido, sob estritos cânones de orações diárias, respeito aos ditames da Igreja e austeridade em todos os seus atos.

Acreditava piamente que dinheiro muito era coisa do Diabo e assim a família não precisava buscar amealhar dinheiro:“Dinheiro é coisa do Cão. Não junte dinheiro. Dê aos pobres o que sobrar do salário”, cobrava de seus cinco filhos e de Juvenal, o marido, dono de uma mercearia.

Com o passar dos anos, Dona Maria Eutínia foi ficando mais e mais arredia com as coisas do mundo e voltando-se para o mundo da religião. Missa todo dia bem cedinho, orações enquanto fazia o almoço. E, enquanto preparava as refeições, ouvia no rádio notícias de que os preços estavam subindo, subindo.

“É a carestia, é o Cão se preparando para tomar conta de tudo”, pensava, com angústia. Quando os filhos saíam para o colégio, ficava temerosa: o que seria deles no futuro, quando o mundo fosse dominado todo pelo dinheiro e pelo Diabo? E quando ela morresse, o que seria deles e de Juvenal?

E foi com pensamentos assim que preparou um almoço especial. O marido e os filhos chegaram, comeram e foram dormir. Nunca mais acordaram. Dias depois, percebendo um estranho odor que exalava da casa de Dona Eutínia, os vizinhos arrombaram a porta e lá estava ela: na sala de visitas, rezando o terço, cercada pelo marido e pelos filhos envenenados.

“Dona Eutínia, o que foi isso?”, gritou uma vizinha.“Agora está tudo bem, Zefinha, agora está tubo bem. Deixa o futuro chegar. Os meninos estão bem. Agora, eles não têm que ter medo do dinheiro e do mundo.”

* Esta narrativa e ficcional.

sexta-feira, 31 de março de 2006

Não traga o dragão

"Gagarin subiu, subiu,
Foi até o espaço sideral.
Chegando lá na lua ele sorriu:
vou m'imbora pro Brasil,
Que o negócio é carnaval"
(Marchinha de carnaval, quando o russo Yúri Gagarin fez a primeira viagem espacial)

O astronauta brasileiro Marcos Pontes vai passar oito dias no espaço, enquanto seus companheiros lá ficarão por seis meses. A imprensa está comemorando o fato com os clarins do heroísmo. O fato não está sendo analisado. Está sendo relatado.

O que de tão importante para a ciência pode ser constatado em apenas oito dias? Foram 35 milhões de reais, para uma viagenzinha espacial. Muito, para um país cujo povo tem tão pouco.

Este comentário é curto. Espero apenas que, ao voltar, se ele não puder trazer São Jorge para nos ajudar, não traga, por acaso, em meio às suas tralhas astronáuticas, o dragão. Se isso ocorrer, estamos em má situação: como não mais existem cavaleiros andantes, nem mesmo Dom Quixote, quem nos salvará da fera?

Não vou, não vou e não vou...

"Na guerra, o essencial é a vitória;
não campanhas prolongadas."
(General chinês Sun Tzu, em "A arte da guerra")

O ex-ministro Palocci disse que não ia, porque estava com estresse. Okamotto, aquele que pagou do própio bolso 23 mil reais de uma dívida do presidente Lula para com o PT, também não vai. Mais claramente, esse pessoal está sendo chamado, chamado não, intimado a depor pela Polícia Federal, mas não vai.

Não vai, não vai e não vai. E não acontece nada.

Uma pergunta: a polícia perdeu seu... poder de polícia? Quer dizer que suspeitos, pessoas notoriamente envolvidas com transações ilegais, se apresentam para depor quando querem, se querem ou se puderem? Lamentável, não?

A questão de Okamotto, dirigente supremo do Senac, chegou ao deboche: um agente foi entregar a intimação, que ele não recebeu porque "estava viajando", foi o que disse uma secretária e assim publicado pela imprensa. Só que, à saída, o agente voltou por qualquer motivo e viu ninguém menos que Okamotto saindo de uma sala e entrando em outra.

Espere aí: isso não tipifica alguma figura delituosa? O sujeito não poderia ter sido preso ali mesmo, por tentativa de obstrução do trabalho policial? A situação brasileira, cheia de enigmas morais, viscosidades éticas, transvios de conduta ideológica, chega agora ao cúmulo da cretinice.

Elementos de alta periculosidade - sim, corrupção e desmandos com os dinheiros públicos, a meu ver, tipificam periculosidade - caminham à solta e, soltos, futuramente voltarão a delinqüir.

Eu supunha que uma intimação policial tinha força coativa, era uma imposição, não uma escolha por parte do intimado. Em meio a um governo que em seu cerne acumula toda uma gama de desregramentos e depravações políticas e administrativas, o presidente Lula pensa sua próxima intentona: voltar a dirigir - eu disse dirigir? - os destinos do Brasil.

Na verdade, ele intenta dirigir as desditas do Brasil. Nisso ele é muito bom.

quinta-feira, 30 de março de 2006

Banalização da Carta Magna

"Muitas vezes a inteligência
vale mais que o conhecimento."
(Einstein)

O jornalista Walter Medeiros envia artigo cuja transcrição segue abaixo.


O mundo tem visto a repetição cotidiana de imagens que, antigamente, a ficção seria acusada de imaginar demais, caso as produzisse em películas cinematográficas. A aventura destruidora e mortal do presidente Bush no Iraque, com mortes aos milhares, depois da aventura louca no Afeganistão, em busca de Osama Bin Laden, que até hoje não encontrou.


Aqueles campos de prisioneiros criados pelos americanos em Guantânamo, que vez por outra vêm à tona, mostrando imagens horrorosas, que só lembram os campos nazistas, e tantas outras situações fartamente “ilustram” os telejornais através dos relatos sobre a vida, o poder e a morte dos traficantes de drogas e outros.

Os produtores do Fantástico, por exemplo, parece que perderam a noção do próprio nome do programa e transformaram a chamada revista eletrônica do domingo em mais um programa de reportagem policial; não bastasse o Linha Direta, que presta seus serviços e desserviços também toda semana.

Desta forma vai se consolidando na sociedade a cultura do fato policial em primeiro lugar, invertendo completamente a ordem de interesse que qualquer sociedade saudável tem, de deixar para o vulgo as páginas ensangüentadas dos jornais caça-níqueis.

Pois esta banalização da violência vai mais longe e começa a contaminar os ambientes onde se podia esperar que não ocorresse, em vista de certos mantos protetores que encontramos nos regimentos e regulamentos internos das casas legislativas.

E chega pelas vozes de advogados que, a título de discutirem questões ligadas ao cotidiano dos processos administrativos e judiciais, extrapolam no linguajar, de forma completamente diferente daqueles tempos em que se usava o latim no âmbito jurídico e a linguagem chula era rechaçada, para manter elevado o nível das discussões.

O fato que motiva estas considerações se deu no dia 28.03.2006 durante reunião da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal. Tratavam sobre as vantagens ou desvantagens de implantar a chamada Super-Receita e para tanto vieram representantes de diversos setores do serviço público federal e entidades representativas de categorias profissionais envolvidas na questão.

Os argumentos até que eram fortes e pertinentes, mas de uma hora para outra começaram a achar que havia um desamparo de certos setores que, devido à legislação vigente, teriam desvantagens ou desequilíbrio ante as regalias estatais.
Meses atrás escrevi artigo sobre violência, onde enumerava as formas como a sociedade recebe ou é invadida pela mídia, principalmente, com termos incitantes, muitas vezes utilizados até inadvertidamente e sem nenhuma intenção de cultuá-los.


No futebol, tudo é “gang”, “máfia”, “tiro de longe”, “vamos agredir mais”, “vamos combater”, etc. Fato que se repete em programas, novelas e telejornais. Da mesma forma que nas escolas as crianças e jovens usam termos que nem no chamado baixo meretrício usavam antigamente.

Mas o que chocou naquela discussão entabulada no Senado Federal, com transmissão ao vivo para todo o Brasil, foi a explicação que altos funcionários (altos pelo menos no status) da Receita Federal, que condenavam o poder de certo colegiado de decidir contra o contribuinte sem opção de recurso.

Aquele que teria um leque imenso de palavras a utilizar para representar sua indignação foi tão longe e, o pior, sem qualquer estranheza dos presentes, para definir em três palavras o que achava do cerceamento dos direitos dos contribuintes: “Estupraram a Constituição”.

A afirmação, esdrúxula - por mais metafórica que tenha sido - constitui um desrespeito àquele documento que veio trazer um novo ordenamento jurídico para o Brasil, no rumo da legalidade e da legitimidade. Diz a doutrina e a lei, sobre o estupro: “crime contra os costumes consistente em constranger mulher, mediante violência ou grave ameaça, a manter conjunção carnal.”

Aceitar com naturalidade aquelas palavras, seria o mesmo que considerar normal as ocorrências costumeiras nos presídios, onde os presos que declaram com ar de sabedoria o Artigo do Código Penal onde estão enquadrados, cometem mais crimes ao alegarem que fazem justiça com as próprias mãos, para punir os estupradores que chegam com o fim de cumprir suas sentenças.
(
walterm.nat@terra.com.br )

Insegurança e Estado

"Inimigos sabem que quando a França
envia um regimento da Legião Estrangeira
é porque quer acabar com o conflito rapidamente."
(Gianni Carta, jornalista)

A frase acima, pinçada do livro "Velho Novo Jornalismo", dá bem a dimensão de quanto o problema da violência, quando atinge pontos socialmente inaceitáveis, precisa de uma ação enérgica do Estado, sob pena de estar encaminhando o conjunto da sociedade ao descalabro, ao desequilíbrio, ao medo.

Refiro-me à histórica leniência do Estado brasileiro para com o crime organizado, aqui e, em especial, no Rio de Janeiro. Ontem, o Jornal de Hoje Primeira Edição abordou a existência de um ponto de venda de drogas a apenas 100 metros de uma delegacia em Neópolis. O fato é do conhecimento da polícia e nada foi feito.

Em função da matéria, apenas reduziu-se um pouco o tráfico. Mas, depois, tudo volta ao normal, ou seja: os bandidos voltarão a agir com desenvoltura, violência e impunidade.

O caso no Rio, milhares de vezes mais grave do que o de Natal, onde também se comerciam largamente drogas de todos os tipos, demonstra com bastante clareza a ineficiência decisória do Estado em enfrentar com rigor, quero dizer, com ação implacável, a ação dos criminosos.

A situação no Rio já chegou ao ponto do insuportável e, historicamente, mantendo-se o atual quadro, poderá trazer conseqüências as mais dramáticas, uma vez que os bandidos têm organização e inegável poder de fogo.

Junte-se a isso o fato de que bandidos autores de crimes hediondos poderão ser beneficiados com prisão semi-aberta. Com isso estarão novamente nas ruas, livres e rápidos, para voltar à prática do seu ofício de morte. Cidadãos vão morrer e os bandidos terão sempre uma nova chance para voltar ao crime.

O Estado tem o dever de garantir ao cidadão o exercício da cidadania e isso inclui o direito de ir a vir. Com a ação dos bandidos, esse direito está duramente atingido. Portanto, é preciso dos aparelhos policiais não apenas uma presença meramente legal, mas uma ação eficazmente presente.







quarta-feira, 29 de março de 2006

As minhas duas mortes

A crase não foi feita
para humilhar ninguém.”
( Poeta Ferreira Gullar)


A jornalista minha colega olhou para mim com cara de espanto, botou a mão na boca, arregalou os olhos. De repente, inverteu a marcha de suas emoções confusas e começou a rir. Correu para mim e me abraçou.

Parei, aceitei o abraço da amiga, que se manifestava sincero e forte, carinhoso e solidário, de uma solidariedade que eu não esperava pois, pelo menos para mim, não havia comigo qualquer resquício de carência ou necessidade de apoio e portanto aquela recepção me parecia sem sentido.

- O que houve? - balbuciei.
- Ora, você não soube? - respondeu, interrogativa.
Não, de jeito algum, eu sabia o que havia acontecido. Só que, “o que havia acontecido”, era bem simples: um boato havia varrido alguns setores do nosso jornalismo, dando conta da... minha "prematura e lamentável morte".


Só que ninguém, nem mesmo a minha amiga, sabia me explicar do que eu havia morrido: se do coração, de raiva, isquemia, atropelamento, trombose, hepatite, inflamação de garganta, topada ou qualquer outra causa, incluindo assalto ou doença do sono.

Mas, que eu tinha morrido, tinha morrido. E pronto. Por isso, a expressão de alegria, equivalente a ter reencontrado um ressurrecto. Mas... como ela soubera da minha morte? Não se lembrava direito, mas uma outra colega havia comentado sobre isso. E com muita convicção.


Mas agora, alegria, alegria, tudo estava desfeito. E ela saiu por aí, trombeteando meu renascimento. Ufa, cumprimentei minha amiga novamente, fui embora e fiquei feliz por estar vivo.

Essa foi minha primeira morte. A outra foi assim: em finais dos anos 80, foram trasladados para Natal os restos mortais de Emanuel Bezerra, estudante morto pelo aparelho repressor do regime de 64. O rapaz fora assassinado durante sessões de tortura quando o regime, a título de impedir a ditadura do proletariado, impunha a ditadura dos privilegiados.

Aí, veja só: começaram os anúncios de que os despojos viriam para Natal, só que com um detalhe: eram os "restos mortais do estudante Emanoel Barreto.” Digo isso porque assisti a um noticiário de TV onde meu nome era citado, ouvi em rádio e li em jornal.

Claro, comecei a ficar apreensivo com a surrealista situação: teria eu já desencarnado e não saberia? Será que eu era já um fantasma a vagar entre os vivos, sem qualquer noção de que as pessoas não me viam e eu, tolamente, pensava estar entre os que respiram? Como eu me supunha vivo e acreditava não haver enlouquecido, comecei a tomar precauções.


Aqui acolá, em vários meios de comunicação, havia a inclusão do meu nome e aí temi que fosse se espalhar novamente a onda de boatos sobre mais uma morte minha. Comecei a ligar para as redações e lembrar que ele, o outro, era Emanuel Bazerra. Eu era Emanoel Barreto, se lembravam?, e que eu não, eu não havia morrido.

E assim consegui que as coisas mudassem. Meu temor era que familiares meus tomassem conhecimento da notícia. A alguns comuniquei que estava vivo e até me submeti ao teste de São Tomé: qualquer um poderia me tocar, para confirmar que eu falava a verdade.

A outros não tive tempo de comunicar que estava vivo. Milagrosamente, estes não tomaram conhecimento do noticiário. Mas afinal, para minha tranqüilidade, chegaram os restos do rapaz e ele foi sepultado, em meio a grandes demonstrações do pessoal da esquerda, lamentando o brutal assassinato daquele brasileiro. Assim, eu e ele ficamos em paz. Mas ainda hoje penso: ainda bem que não mandaram rezar a minha missa de sétimo dia...

terça-feira, 28 de março de 2006

Dança do ventre

"Tudo o que fazemos, cansa.
Feliz daquele que não perde as forças."
(Goethe)

A crônica abaixo é do meu livro "Crônicas para Natal - as crônicas do Jornal do Dia".

E a dança se fez carne e habitou entre nós.
Movimentos fortes, femininos gestos, curvas siamesas que enviesam sonhos.

E dos véus e mãos que se encaminham surge a mulher, feita toda de lentos caminhos, passos vagarosos, tendas e mistérios.


Lendas que se achegam, gestos faiscantes, brisas do deserto, curvas lampejantes.


A dança do ventre é vida que se espalha e fica contida, toda, no instante mesmo desse desmaio programado e calmo.


A insustentável leveza da mentira

"O lado mais fraco
é o da mentira."
(Do caseiro Francenildo Santos, ao saber da demissão de Palocci)

Depois da dança da deputada Ângela Guadagnin, foi a vez do ministro Palocci dançar. Envolvido em explicações demasiadamente complicadas, verdadeiros labirintos de uma retórica do insustentável, o ministro utilizou-se em sua carta ao presidente Lula de um eufemismo, para dizer que estava pedindo "afastamento". Não, ele estava pedindo demissão.

E foi atendido. A edição de hoje do Diário Oficial da União traz a saída do ex-ministro como sendo "a pedido", ou seja: ele não foi demitido, não foi posto para fora. Habituado a conviver com a improbidade, o presidente Lula fez esse último afago ao ex-colaborador. O mesmo deve ser dito quanto ao ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, também saiu "a pedido".

O caso é exemplar: os poderosos acreditam-se acima e além do comum dos mortais. E esse foi o erro do então ministro Palocci. A teia de intrigas montada para desmoralizar o humilde caseiro se esgarçou e agora a mentira virou tiras, trapos de uma conjura de alto risco.

Talvez, a pedido do povo, tenha chegado a hora de o Governo começar a agir com decência. Não adianta passar Mantega no pão, que dessa vez não vai dar para o povo engolir.

segunda-feira, 27 de março de 2006

Quando a terra é ferida

A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás;
mas só pode ser vivida olhando-se para a frente.
( Soren Kierkegaard, 1813-1855)

A Via Costeira, antes de ser o que é hoje, a grande e esfuziante estrada que alegra até mesmo a mais renitente depressão, tinha, por incrível que pareça, o mesmo traçado básico de hoje, só que em meio a um cerrado matagal. Era um caminho estreito, difícil de percorrer: a pé ou de carro.


Pois bem: certo dia, acompanhado por amigos, um conhecido meu começou a trilhar a senda da descoberta. Andou, andou, andou, partindo de Areia Preta, superou todos os percalços do caminho até que, - choque! -, descobriu um brutal, violento, inaceitável trabalho de devastação e retirada de terra, formando já uma gigantesca cratera.

Sabe onde isso ficava? Ficava, ou melhor, fica (pois a devastação não foi reconstituída), ao lado de uma curva bem fechada. Vá pela Via Costeira e você verá: são uns paredões enormes, vermelhos, uma grande cratera, escavada a pá e máquinas pesadas. Meu amigo parou, viu e, dias depois, contou-me.

Pedi a Wellington Medeiros, chefe de reportagem da Tribuna do Norte, para colocar o assunto em pauta e, numa bela, tarde tomei o rumo do perigo. Foi um trabalhão: a Kombi do jornal mal se sustinha sobre as rodas, tantas e tão inclinadas as curvas, tantos e tão traiçoeiros os areais movediços.

Cheguei afinal e, mal dava para acreditar: cerca de dez caminhões moviam-se com grande facilidade na larguíssima cratera, todos com muitos trabalhadores enlouquecidos em sua tarefa de destruir a natureza. Era barro de primeiríssima qualidade, para construções de luxo em Natal.

Desci da Kombi em companhia do fotógrafo e logo dezenas de olhos raivosos se cravaram na dupla. Para facilitar o trabalho, mandei que ele fosse fotografando para um lado, que eu entrevistava pelo outro. Se um fosse capturado, daria tempo do outro se meter na Kombi e fugir. Depois, era usar a força da direção do jornal, para ver se livrava quem estivesse preso, ou melhor, sob seqüestro.

Mas, não sei porquê, não houve, nada, nenhuma manifestação maior de agressividade, a não ser respostas dada de má vontade, caras fechadas, bocas rugindo monossílabos, expressões ruminando horrores. Mas, dava pena ver: os enormes paredões, lavrados de barro vermelho, como que sangravam seu sangue de terra, exibindo as feridas da brutalidade.

De um jeito ou de outro consegui apurar quem era o manda-chuva: um atravessador qualquer, que literalmente havia descoberto aquela mina e a estava vendendo em retalhos, em caminhões, a ricaços de Natal.

Os caminhões e escavadeiras moviam-se cruelmente sobre aquele corpo da natureza, pisoteando suas entranhas de forma brutal, sumariamente indigna, extensamente estúpida. Ficamos cerca de meia hora apurando o assunto e saímos quando um sujeito, responsável pelos trabalhos, ia chegando e, aí sim, demonstrando disposições belicosas.

Aproximou-se, perguntou o que era aquilo, eu expliquei que era uma reportagem. Ele sabia que estava errado e não tentou impedir a saída da equipe. Amaldiçoou-nos com um olhar fervente e sumiu no meio da buraqueira.

A matéria foi publicada dia seguinte. Dois ou três dias depois, o que acontece? Uma reunião entre os Comandos da Marinha (a área é terreno de Marinha), Polícia Federal e outras entidades federais e pronto: todos foram impedidos de trabalhar na Via Costeira e banidos para sempre de sua infernal missão de matar aquela linda natureza.

domingo, 26 de março de 2006

O homem é o momento

“O nascimento não é um
ato. É um processo.”
(Erich Fromm)

"Quem faz o homem é o momento.” A lapidar afirmativa me era repetida vezes e vezes quando criança, sendo atribuída a meu avô. Mais claramente: diante de circunstâncias inesperadas ou ameaçadoras, alguém pode ter atitudes incrivelmente coerentes e fortes para enfrentar seu medo interior, seguindo-se reação igual e contrária àquilo que o cerca.


A magnífica frase, essencializando toda uma filosofia popular, deve ser entendida e levada a sério. Afinal, somos tudo e nada, algo e coisa alguma, dependendo sempre do momento. Da mesma forma, encontramos na frase de abertura da coluna a visão humanista de Erich Fromm, lembrando que o nascimento é um processo.

Detalhe: o nascer não se exaure na circunstância do vir ao mundo, ser parido. Não. O nascer está sempre ocorrendo ou porvir, dependendo do que tenhamos em mente: se já nos acomodamos a nós mesmos, paramos e não mais precisamos nascer; se queremos um pouco mais do eu, um horizonte a mais dentro de nós mesmos, estaremos pois nesse eterno processo do nascer.

A sabedoria do sertão pode casar magistralmente com o saber dos mais renomados mestres.

sábado, 25 de março de 2006

Vergonha de ser honesto

"Muitas são as leis num estado corruptíssimo."
(Tácito, orador romano)


SÃO PAULO - Depois de ficar presa durante 128 dias no Cadeião Pinheiros, acusada de ter roubado um pote de manteiga, a doméstica Angélica Aparecida Souza Teodoro, de 18 anos, foi libertada na manhã desta sexta-feira. Ao sair do cadeião, Angélica, emocionada, abraçou a mãe, Maria Nazaré de Souza, de 48 anos.

Na noite de quinta-feira, 22, o ministro Paulo Gallotti, da Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), concedeu a liminar que determinou a libertação de Angélica.

Angélica entrou com pedido de habeas-corpus no Superior Tribunal de Justiça após ter o pedido negado pela justiça paulista. Desempregada, a doméstica tem um filho de dois anos. A defesa da doméstica argumentou que, ao tentar furtar o pote de manteiga, no valor de R$ 3,20, não houve ameaça contra o dono do estabelecimento, o que não justifica a prisão. Além disso, o fato de ela estar passando fome no momento do crime ameniza o delito.

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A notícia acima foi retirada d'O Estado de S. Paulo e, não fora pela dramaticidade que em si o caso encerra, poderia muito bem constar entre os textos de Kafka, o escritor que retratava a realidade como um absurdo.

O que essa senhora praticou - e disso qualquer advogado sabe - foi o chamado furto famélico, aquele em que o ser humano, não tendo condições econômico-financeiras, nem mais a quem apelar, seja como mendigo ou como alguém que busque alguma forma de apoio junto a amigos ou familiares, pratica furto de pequena monta, cuja subtração não levará à falência ou prejuízo maior, físico ou material, o proprietário da coisa furtada.

O furto envolveu um pote de manteiga de valor ínfimo, mas, para a vítima - sim, aquela senhora é uma vítima da estrutura da sociedade brasileira - totalmente inacessível, dada a sua condição de extrema pobreza, agravada pelo fato de estar desempregada. Mas, qual o resultado? Nada menos que 128 dias de cadeia. Junte-se a isso a morosidade cruel da Justiça paulista, que a manteve presa, quando pediu por liberdade.

Não é preciso ser um jurista para ver que aquela moça furtou por absoluta necessidade. Mas não entendeu assim o julgador paulista. Foi preciso o caso chegar ao Supremo, para ser deferida sua soltura.

Enquanto isso, nos escaninhos do Poder figurões e maiorais lotam suas contas com dinheiros escusos e, disso todos já sabemos: nada lhes acontecerá. O plenário da Câmara dos Deputados já virou palco da dança da deputada Ângela Guadagnin, que, entre o grotesco e o ridículo, oscilava sua balouçante alegria comemorando a liberação de um dos usufrutuários do mensalão.

Em artigo no Jornal de Hoje, o procurador de Justiça Luiz Lopes de Oliveira Filho, escreveu: "Ângela e sua dança, para mim, foram o epílogo da decência." A força da imagem, a fineza estilística sintetizam bem o estado de depravação a que chegamos: comemora-se com macaquices num plenário a absolvição de um tipo que participou notoriamente de um esquema de corrupção.

Rui Barbosa tinha razão: no Brasil já há quem tenha vergonha de ser honesto e comemore escancaradamente a vitória dos que vivem às custas da pobreza do povo. É realmente o epílogo da decência.

sexta-feira, 24 de março de 2006

Não, não: não está havendo nada

"Não deixe para amanhã
o que pode gozar hoje."
(Lenina, personagem de "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley)

Não, não, creio que não. Creio que está tudo bem no Brasil: não há corrupção, ninguém apoderou-se de dinheiros públicos, ninguém financiou campanhas com dinheiro de caixa dois, nenhum publicitário guardou milhões em paraísos fiscais, o presidente Lula de nada sabe; até porque é um homem que não convive com a improbidade.

Não, não. Não está havendo nada. O que se diz por aí é alucinação. Sim, é isso, é somente alucinação. Uma grandiosa, estupefaciente e penetrante alucinação, que nos faz pensar que estão acontecento coisas terríveis, como a morte do prefeito Celso Daniel e ameaça aos seus familiares, que, também paranóicos, fugiram para o exterior, tomando porém destino ignorado. Que absurdo.

Mas é tudo só impressão. É só uma sensação. Estamos todos sob um processo de auto-sugestão, que nos leva ao pessimismo e daí a suspeitarmos que estaria havendo, como diria Chico Buarque, tenebrosas transações.

Assim, fique tranqüilo. E ainda pegando uma carona nas composições de Chico Buarque, faça o seguinte: quando a polícia chegar, chame o ladrão. É que... nesse país, os ladrões resolvem tudo. Tudo. Tudo. Tudo.

PS: O caso do caseiro, com trocadilho e tudo o mais, também é fruto de alguma ação do Grande Houdini. Ninguém mandou quebrar seu sigilo bancário, não aconteceu nada. Pensando bem, será que você existe?




quinta-feira, 23 de março de 2006

O remédio da morte

“Fiado somente para maiores de 130 anos, acompanhados dos seus avores e trazendo os documento.” (Letreiro de barraca, na Redinha) Claudenício, 26 anos, pegador de caranguejo, chegou naquela noite à casa e teve de Mariana, a mulher, a notícia mais terrível que poderia receber: Valdetário, o único filho do casal, estava em febre: “Ele está pegando fogo.” Angustiado, lançou um olhar medroso para a figurinha que se debatia na rede esgarçada. O medo não era da doença em si, pois confiava que fosse só uma inflamação de garganta, e ele poderia salvar o menino comprando algum remédio - o medo era de não ter o dinheiro para o tal remédio. Sua mão tímida percorreu o pobre labirinto do bolso vazio e somente encontrou terra molhada do mangue. “E agora?” - ele virou-se para a mulher. “Sei não” - ela balbuciou. Claudenício olhou para um lado, para o outro. Via pouco, a luzinha da lamparina mal dava para mostrar a carinha esquálida do filho tremendo de febre. Um vento frio e ruim rosnava em volta do casebre ao lado das águas malcheirosas, de onde vinham nuvens de mosquitos se refestelar nos corpos magros da família. “Tem dinheiro não”, disse como se Mariana já não soubesse. Ela estendeu a mão e tocou o corpo do filho. “Vala-me minha Mãe de Deus, que o menino quase que me queima de febre.” E a mulher afundou num pranto lancinante, penetrante, cortando de sofrimento os ouvidos de Claudenício. “Mariana”, ele disse, enquanto pegava uma faca e colocava na cintura, “vou atrás do remédio.Vou lá na farmácia. E só volto com ele. Enrole o menino num pano, dê água, molhe ele e espere: eu volto.” A mulher curvou a vista e ele desapareceu no meio da lama e da noite. Correu o mais que pôde, até chegar a uma pequena farmácia. Bateu na porta, bateu de novo e outra vez, até que Seu Pereira, o dono, apareceu. Claudenício contou tudo depressa, garantiu que pagava logo que pudesse: “O senhor sabe que eu pago, porque já paguei outras vezes, não sabe?”, mas o homem não se compadeceu:"Tem remédio não. Sem dinheiro, tem remédio não." Claudenício sentiu raiva, mas sentiu principalmente humilhaçãol. Ele, um homem pobre e honrado, jamais havia deixado de pagar uma dívida. O dono da famácia era um que sabia disso. Depois, a raiva superou a humilhação e a humilhação virou coragem, uma coragem doida, vinda não se sabe de onde. Uma coragem pintada de desespero. Então, ele não contou conversa: puxou a faca e encostou no pescoço do homem: “Não tou robando. Tou pedindo emprestado e pago com dinheiro, quando puder.” Tremendo, Pereira entrou na farmácia, enrolou um pacotinho num papel e entregou a Claudenício: "Taí o remédio, pode levar. Claudenício voltou para casa. Correndo em meio à lama, o mais que podia . Chegou, entrou em casa e mandou a mulher dar uma colherada ao menino: “Uma não: dá logo duas.” Ela obedeceu, sem sequer verificar o que estava dando ao filho. O menino engoliu tudo, em meio a uma careta terrível. E logo vieram um choro mais forte, convulsões e, depois, a morte do menino, em meio ao silêncio noturno da lama. O dono da farmácia havia entregue a Claudenício um poderoso raticida. Era o que dizia o rótulo, cúmplice da escuridão e daquele desespero.

segunda-feira, 20 de março de 2006

Birimba e a égua

"Matamo três soldado,
quatro cabo e um sargento.
Cumpadre Mané Bento,
só faltava tu."
(Jackson do Pandeiro, em forró)

Trago mais um dos Causos do Edgar. São sempre histórias com personagens do povo, gente do sertão, com a marca da autenticidade nordestina, em seus dizeres e falares.

Hoje me lembrei de um rapaz chamado Roberto Moura do Nascimento, nome bonito, tão bonito que nunca poderia ser pronunciado sem constrangimento pelos seus companheiros de trabalho na Fazenda Umbuzeiro, por esse motivo muitos só o conheceram pelo não tão belo apelido de Birimba. O porquê dessa alcunha é ignorado até mesmo pelo proprietário do nome.

A Fazenda Umbuzeiro fica no município de Passa e Fica, próspera cidade do agreste potiguar vigiada pela imponente Pedra da Boca, que apesar de pertencer ao município de Araruna - PB, foi adotada e é venerada pelos passifiquenses. Além das belezas naturais, a cidade de Passa e Fica é exímia produtora de cabras presepeiros.

Marmotas e fuleragens são infindáveis por lá. Não precisa nem ser natural da cidade, basta morar lá um tempo e ter na genética uma predisposição para fuleragem que o camarada já se torna protagonista de presepadas de todo tamanho. Birimba chegou na Umbuzeiro em março de 2005, trazido por mim que na época gerenciava todas as atividades da propriedade para cuidar dos eqüinos e iniciar alguns animais na sadia atividade da vaquejada.

Eu já conhecia o trabalho do elemento pois ele morou um tempo na granja de Madílson, vulgo Neninha, motorista e amigo da nossa família. Meu único medo na época era pelo fato do rapaz ter uma relação um pouco tumultuada com cachaça, o bicho tinha um "óido" tão grande das "marvada" que não podia ver uma que já queria acabar com ela... bebendo é claro.

Fiz as devidas recomendações sobre o comportamento exigido pela empresa e sobre as punições aos atos que viessem a prejudicar o bom andamento dos trabalhos e lhe dei um voto de confiança. Pois bem: alguns meses se passaram e num sábado qualquer desses aí, haveria um bolão de vaquejada no vizinho município de Serra de São Bento, do amigo prefeito Chico de Erasmo.

Logo na quarta-feira Birimba me pediu autorização para participar do evento e levar um animal da fazenda, como a folga dele era no domingo e eu também estaria por lá pois também gosto da brincadeira, liberei o intrépido rapaz para que ele se preparasse hepática e psicológicamente.

O bolão foi um sucesso, Birimba até se classificou para disputar o prêmio em dinheiro mas não obtesse sucesso. Já era um pouco tarde e procurei o indivíduo para irmos embora, minha preocupação era que Birimba "infiasse a cara na cana", enlouquecesse em cima da Serra e resolvesse descer voando lá de cima.

Quando eu o encontrei ele ainda estava sóbrio, pelo menos estava falando, respirando e se mexendo, já eram ótimos sinais numa situação como aquela. Quando o chamei para irmos ele me alertou que precisava ficar mais um pouco para embarcar os cavalos no caminhão e "gerenciar" todo o processo. Ele estava certo, é necessário cuidado nessa hora: inocentemente, deleguei essa responsabilidade ao prestativo funcionário e desci para Umbuzeiro.

Ao acordar no domingo, tomei café, e saí para dar uma fiscalizada na fazenda, estava tudo tranquilo... esse era o grande problema... perguntas não saíam da minha cabeça: onde estará Birimba? Será que deu tudo certo na volta? Será que ele bebeu muito? Todas as respostas eu tive quando resolvi descer até os estábulos . O infiliz do Birimba tinha acabado de chegar, estava "bebo cego", e como todo bebo tem uns raciocínios inexplicáveis, ele resolver dar banho numa égua que nem tinha ido ao bolão.

Quando eu chego no local da peleja vi uma cena tão engraçada que nem tive condições de repreender o ato de irresponsabilidade de Birimba. Estavam lá, de baixo para cima, nessa ordem: o pé de Birimba (descalço), o casco da égua (em cima do pé descalço), a égua, a orelha da égua e preso nessa orelha estava Birimba, mordendo com toda força e pendurado como se fosse um brinco.

O mais engraçado de tudo é que em vez de tentar empurrar o animal (o de quatro patas) para sair de cima de seu pé, o máximo que ele conseguia fazer era dizer com a voz um pouco obstruída pela orelha da égua:
- Sua frexaaaaaaada, você me pegou aí em baixo mas eu le lasco aqui em cima!!! Tá ouvindo?

Como não estaria? O cabra com a boca socada nas "oiça" da coitada. Até hoje não sei se aquilo era um problema de manejo ou, se os dois fossem gente, uma briguinha de namorados.

sábado, 18 de março de 2006

O baobá: árvore com lâminas no azul

"Fi-lo, porque qui-lo."
(Ex-presidente Jânio Quadros, sobre sua renúncia)

A Crônica a seguir é parte do meu livro "Crônicas para Natal, as crônicas do Jornal do Dia", publicado no ano de 2000.

Nodoso tronco da vida. Árvore.
Baobá imenso, enorme elefante vegetal.

Semente gerada no seio fecundo e primitivo da África,
desabrochou aqui, nas terras de um sol festeiro e nordestino.

Grande baobá, gigante de fibras vivas, fizeste,
como fez o Potengi, a alegria dos olhos de Saint Exupery,
o escritor que pintava nuvens com palavras.

E hoje, imóvel como a eternidade, contemplas o ocaso do século 20.
Mas teus galhos continuarão como lâminas no azul.

quinta-feira, 16 de março de 2006

Quando a terra é boa

“E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...”
(Mário Sá Carneiro - 1890/1916 - Portugal)

Quem olha o sertão sofrido, seco, cansado, faminto, se não conhecer o Nordeste, chega até a pensar que aqui é o país da tristeza. Mas quem conhece o sertão chovido, terra molhada e boa, sabe bem das belezas que lá existem.

Sertão é tradição, é luta, é poesia que brota do chão que traz em si um celeiro de fartura.Em junho, nas festas de São João, comemora-se com alegria inteira a dádiva do milho, a memória popular revivendo antigos rituais de vida amiga da terra.

Quando a terra é boa, o chão é semente ritual. E terra boa é terra molhada da chuva de Deus.Mas hoje a realidade é um drama, fenômeno natural atiçado pela displicência política, pela falta de decisão, pela modorra dos eternos gabinetes que olham e calam, sem olhar para o povo que clama trabalho e pão.

O sertão é uma grande espera, dizia Guimarães Rosa. Mas esperar é atitude de sábio, de quem encontra em si as forças necessárias e urgentes para enfrentar incertezas e medos. E vencer; mesmo que a vitória demore, como as chuvas que tardam, mas um dia chegam. Vão chegar.

quarta-feira, 15 de março de 2006

Ze de Nuca: não foi cachaça, mas ficou tonto...

"Seu doutor uma esmola
a um homem que é são,
ou lhe mata de vergonha,
ou vicia o cidadão."
(Luís Gonzaga)

De Edgar Manso recebo este causo. Edgar gosta da vida no sertão e está preparando um livro relatando coisas e casos do povo nordestino. O autor preserva o modo e o jeito de falar, bem típico do nordestino do campo. Leia abaixo:

Toda cidade pequena tem suas peculiaridades, e as do nosso interior nordestino não poderiam ser diferentes. Jacaraú, no nosso vizinho estado da Paraíba é uma dessas pequenas cidades. Pequena mas muito agradável, faz divisa com o Rio Grande do Norte, ali pelas entranhas do nosso agreste, quase colado com Pedro Velho, cidade do balneário mais animado dos domingos.

Zé de Nuca é um amigo que tenho por aquelas bandas, amigo de verdade. Cabra bom, trabalhador, honesto e muito inteligente, não teve estudo mas é formado na universidade da vida com menção honrosa.

Zé é um homem de seus 56 anos mas tem uma energia de menino, poucas pessoas tem a disposição dele para trabalhar, e se depois do trabalho aparecerem umas garrafinhas de cachaça paraibana escoltadas por galinhas caipiras abatidas na hora, aí é que o serviço do homem rende.

Um pouco afastado de Jacaraú existe um lugarejo denominado de Jerimum. São seis ou dez casinhas fincadas no meio dos canaviais, um verdadeiro oásis para quem vem trafegando naquelas tortuosas estradas carroçais e seco para bebericar e jogar conversa fora.

Nesse verdadeiro paraíso funciona o bar de dona Francisca, o estabelecimento serve a melhor galinha caipira que já comi até hoje, sempre regada a uma boa cachacinha. O local é totalmente familiar, dona Francisca cozinha, suas duas filhas servem e seu marido, o internacionalmente conhecido "Quincão Buceteiro", providencia o abate das galinhas, a retirada dos cocos e a segurança do ambiente, afinal de contas o elemento usa na cinta uma peixeira meio graúda que se não matar da furada mata do "tétuno", como ele gosta de dizer.

Como não poderia deixar de ser, onde tem ingredientes como matutos e cachaça, tem marmota também. Zé de Nuca até o ano de 2004 nunca tinha ido a médico, tinha uma saúde de Leão, quando era indagado sobre quando faria o famigerado "exame de prósta" ele se alvoroçava e dizia: "No meu furico ninguém chafurda!"

Em março de 2004 houve um bolão de vaquejada no vizinho município de Rio Tinto, Zé não corre mais, mas ainda gosta muito de participar da fuzarca. Foi nessa noite que aconteceu uma das estórias mais engraçadas que já ouvi.

O bolão começou ao meio-dia do sábado e nessa hora lá estavam Zé e seus dois filhos mais velhos que praticam esse esporte nordestino, logo acharam a cabroada e começaram o tirinete de cana, conversa vai conversa vem e chega a noite, hora dos vaqueiros bons entrarem na pista, todos se arrumam perto da cerca para ver melhor, a poeira cobre no centro, é queda de boi, queda de vaqueiro cambão, boi na faixa e a ritumba entra pela madrugada.

Lá pelas três da madrugada Zé de Nuca se afasta para dar uma mijada do outro lado da cerca, quando termina e pensa em voltar para junto de seus amigos ele se sente mal, ele não faz a menor idéia do que seja pois havia parado de beber logo cedo portanto não era efeito da cana.

Então, se sentindo muito mal ele resolveu dar o recado aos filhos que já ia para casa, quando foi passar por entre os arames da cerca não conseguiu se manter equilibrado e passou na maior dificuldade. Zé estava sendo acometido por um AVC, nunca passaria isto pela sua cabeça, e ele continuou na sua intenção de se despedir.

Quando ele chegou próximo da turma seu filho se virou e achou ele com a cara estranha: - O que é pai? Zé tentou responder e não conseguiu, só fez balbuciar e não disse nada, aí ele resolver fazer um gesto indicando que já ia embora e partiu.

Graças a Deus Zé de Nuca conseguiu dirigir até em casa e sua mulher solicitou rapidamente uma ambulância para levá-lo à João Pessoa e deu tudo bem. Mas o melhor da estória ainda está por vir: quando o filho de Zé voltou pro meio da turma logo perguntaram onde estava Zé de Nuca, aí seu filho respondeu: - Hômi, pai é foda. Tava tão embriagado que num conseguia nem falar, gemia, gemia e num dizia nada. Só sei que se virou e saiu as queda pra pegar o carro. Ô hõmi trabaioso!!!.

terça-feira, 14 de março de 2006

Dia da Poesia: em parte, vira luz...

“É que eu sonho esvair-me em vícios de marfim...”
(Sá Carneiro, em Certa vez na noite ruivamente)

Hoje é o Dia da Poesia. Não quer dizer que é o dia do verso, aquele conjunto de palavras que, ao fim da leitura de uma quadra, por exemplo, resulta numa rima. Não, poesia é muito mais. Porque poesia é sentimento, é interioridade vivida internamente e exposta pela palavra.

É panorama humano íntimo que deságua no gesto escrito, o poema. Creio que seja até mesmo mais que isso: poesia é ato de viver, poesia é ato de coragem. Coragem de ser dissidente, coragem de se expor ante aqueles que pensam que tudo sabem, que tudo podem e por isso tudo pedem.

Poesia é atitude voltada para a reflexão. Portanto, está parada dentro de você, muito embora seja, dentro dela mesma, um redemoinho. Poesia é feita a passos de ferro.

Poesia é caminho que não vai a lugar algum,
uma vez que o poeta
busca sempre a incerteza jamais o porto.

Sem o porto, ele parte;
em parte fica;
em partes se desfaz;
em partes se constrói;
em parte vira luz.
Depois, tudo escurece.
Só isso.
E, como nos interrogatórios,
nada mais digo,
nem nada mais me seja perguntado.

Antes porém, de retirar-me, resolvi, para marcar a data, transcrever Mar Português, de Fernando Pessoa. Sá Carneiro, citado acima, é também poeta português.

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena?
Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o Céu.

Do jornalista e poeta Walter Medeiros recebo "Espetacular", poema que segue abaixo:

No rumo Oeste
Nuvens douradas
Viam prata
Pelo Céu azul.

E o fim da tarde
Mostra uma dimensão
Espetacular
No horizonte.

Desenho único
Do infinito
De um momento
Angelical.

Pela estrada
O automóvel
Quer alcançar
O que se esvai.

E o desenho
Troca de estrela
Contente com
O contorno lunar.

Noite que cobre
Com manto puro
Relvas e rios
Pelo sertão.

Campos de amor,
Muita labuta,
Sossego, luta,
Um esplendor.





segunda-feira, 13 de março de 2006

Prenderam o ladrão e a polícia sumiu

"Bandido é bandido;
polícia é polícia."
(Do assaltante Lúcio Flávio)

Houve, em Natal um homicídio cometido, como se diz no jargão jurídico, com “requintes de perversidade.” Um velho vigia da Galeria Olímpio, no Alecrim, fora atacado, dominado e, indefeso, morto por um rapaz louro, que logo ficou conhecido como Galego da Galeria.

Ao que me lembro, o velho, amarrado com arame, foi golpeado com um bastão ou algo assim, até a morte. A falta de detalhes deve-se ao fato de que, quando ocorreu o crime, eu ainda não estava em jornal e portanto valho-me das informações que via na imprensa e, claro, não dá para recordar com exatidão.

Pois bem, o Galego acabou fugindo e a polícia começou a perseguição. Nesse meio tempo eu comecei a trabalhar no Diário de Natal. Nessa época o Diário saía às segundas, à tarde. Assim, aos domingos nós trabalhávamos, preparando a edição do dia seguinte.
Eu chegava à redação às sete da noite e pegava o material coletado pelo repórter Pepe dos Santos. Eu reescrevia as anotações dele. “Traduzia Pepe”, como se dizia na redação, uma vez que ele trazia, em texto literalmente bruto, um emaranhado de informações que precisavam receber ordenamento.

Ele apurava muita coisa, era extremamente detalhista, mas, na hora de redigir... Pois bem, eu estava, em finais de 74, na hoje extinta editoria de polícia. Tinha coisa de uns dois meses de jornal.

Num domingo, pela manhã, fui fazer a cobertura nas delegacias. Por algum motivo Pepe estava sem condições de trabalhar. Saí na Kombi do jornal dando uma geral nas delegacias. Fatos de importância viravam notícia, coisas menores (queda-de-bebo como se dizia) iam para a coluna Ronda, transformados em notinhas de cinco ou seis linhas.

Pois bem, logo que chegamos a uma delegacia, na Ribeira, estava um sujeito à porta, um alcagüete, contando detalhes de uma perseguição: ninguém menos que o Galego da Galeria tinha sido preso. E o tipo se gabava de, mesmo sem ser policial, ter participado da caçada. Somente não alardeou ter atirado também.

“A puliça cercou o cara e mandou bala”, contava.” Era cada rajada que até fazia medo”, continuou, e disse: “ Quando a rajada cobria, ele dava cada pulo que era isso”, e levantava o braço coisa de meio metro, para mostrar como o bandido saltava, encolhendo as pernas para não ser atingido.

Ele retardava a informação mais importante, a prisão do bandido, para valorizar o seu relato e prender a atenção de alguns homens que estavam à sua volta. Eu não conhecia nenhum deles e, entre irritado e ansioso pelo desfecho da conversa comprida, perguntei: “E afinal, ele foi preso?”

Fora, fora preso, confirmou o homem. “E está aí, nessa delegacia. Pode entrar”, disse, como se fosse a maior autoridade policial do Estado. Eu não pensei duas vezes, meti o pé e fui entrando. Era o máximo. O Galego da Gelaria, o bandido mais perigoso do Estado, preso, e eu ali. Inexperiente, sem fontes na polícia, sem sequer uma identidade profissional que me garantisse, fui entrando.

Nessa época o grande repórter policial de Natal era mesmo o velho Pepe dos Santos, hoje um dinossauro e aposentado (outro dia falo mais dessa grande figura). Ele sim, tinha fontes e conhecia todo o submundo do crime.

Fui entrando, fui entrando e não é que não havia um só guarda, delegado soldado, nada, ninguém, para tomar conta do bandido? A delegacia estava completamente desguarnecida. Entrei e lá estava, numa cela, sozinho, sentado no chão, ninguém menos que o Galego.

Olhei e vi, numa parede, sustentado por dois pedaços de ferro cravados lado a lado, um grosso pedaço de pau, certamente para espancar os presos. Lembrai-vos de que nessa época ainda vivíamos a ditadura militar e direitos humanos eram o mesmo que nada.

O criminoso contou como havia fugido, como havia resistido à prisão, como fizera de tudo para não ser preso.

Aí, quando eu falava com o Galego... Bom, nesse momento, imagine só, entra o investigador relapso, aquele que havia deixado a cadeia sem guarda. Ele entrou e foi logo dizendo “Ei! Que negócio é esse?”

Parei. Pensei: “E agora?”

Agora? Agora era enfrentar o homem.
Ato contínuo, respondi: “Nada, não é nada, estou só falando com o Galego.”
E ele: “Pode não.”
E arremeteu: “E daqui não sai ninguém. Não sai nem o senhor e nem esse seu papel na mão”, referia-se às minhas anotações. As coisas tinham se complicado como eu jamais havia suposto.

O policial caminhou decidido em direção a mim. Eu estava sentado no chão, cara a cara com o bandido. Levantei-me dei espaço ao policial, que seguiu como quem fosse direto para a cela. Recuei, de forma a que ele ficasse de costas para as grades do xadrez.

Foi aí onde ele errou. Ele aceitou meu jogo e ficou de costas para o Galego, cruzei as mãos às costas protegendo o papel e fui saindo, pé ante pé, passo a passo, caminhando de costas, os olhos fixos no investigador. O homem, nunca compreendi porquê, parou e ficou olhando minha escapada, até que cheguei à porta da delegacia e ao sol do domingo. Respirei fundo e corri para a Kombi. Eu tinha uma grande notícia e o policial burro amargava uma derrota íntima frente a um foca sem fontes.