"Não é justo alguém ter o direito de ter uma empresa de aviação e outro não ter o direito de comer um pão." /////// JAMAIS IDE A UM LUGAR GRANDE DEMAIS. A UM LUGAR AONDE NÃO TENHAIS CORAGEM DA IMENSIDÃO - EMANOEL BARRETO - NATAL/RN
sábado, 28 de julho de 2007
O quinteto precisa de bons empregos
As coisas de jornal informam que o governo federal está desenvolvendo esforços no sentido de que a direção da Anac, a anarquizada Agência Nacional de Aviação Civil, peça demissão coletiva até a próxima terça-feira. O problema é que seus cinco diretores têm mandato e, portanto, não podem, a priori, ser demitidos: só a pedido.
Mas isso o Poder sabe como resolver muito bem. Nas refrigeradas e ocultas salas, o Poder sabe como resolver seus próprios meandros, exculpar-se de suas indecências e apresentar-se ante seu próprio espelho, dizendo a Narciso: eu sou o belo. Todos serão demitidos, como se pedido tivessem feito.
O problema, dizem as coisas de jornal, é que o Planalto quer uma "saída" honrosa para essas pessoas. Ou seja: cavilação política, enodoada de paternalismo viscoso.
Pos saída honrosa entenda-se também que é preciso arranjar novos empregos para os quatro diretores e uma diretora. Melhor dizendo: bons e bem remunerados empregos, seja na espera do poder público ou na iniciativa privada. Aí, valerão laços de influências, trocas de favores, promessas para o futuro. Quem sabe... quem sabe...
É lamentável essa prática de apadrinhamento aos ricos e bem possuídos, enquanto os pobres e despidos de tudo, os sem-nada, nada conseguem fazer quando os horrores da vida lhes alcançam os calcanhares.
É preciso acomodar o quinteto que de alguma forma deu colaboração para que o sistema aéreo brasileiro tenha chegado ao ponto de exaustão e descontrole em que se encontra.
É necessário um bom pouso aos aeronautas do descalebro. Enfim, é preciso garantir a indivíduos incompetentes e insensíveis, repouso e repasto. Afinal, eles promoveram uma baderna nos céus e precisam escapar da própria tempestade. Fique tranqüilo: terça-feira, todos estarão em novos empregos. Imagine-se o que não farão por lá...
Um bom fim de semana.
Um abraço.
Emanoel Barreto
sexta-feira, 27 de julho de 2007
Em sua vinda a Natal, hoje, o presidente Lula foi alvo de manifestações de um pequeno grupo. Chegou ao Estado para lançar o PAC e sua segurança conseguiu driblar os apupadores.
Com um discurso clássico para essas ocasiões, posando de democrata, a ministra Dilma Roussef disse que as pessoas deveriam ter tido acesso ao Centro de Convenções, onde Lula foi recepcionado pela governadora Wilma de Faria. Segundo afirmou, as pessoas deveriam expressar seu decontentamento com a situação nacional. Vide aeroporto de São Paulo.
Isso é coisa da democracia, garantiu.
Ainda de protestos, as coisas de jornal informam que Lula não comparecerá domingo ao Maracanã, a fim de dar por encerrados os Jogos do Pan. Precavido, requisitou para o ato o vice José Alencar, a fim de que cumpra o ritual de receber vaias.
Somos um país de pasmos, mas talvez mesmo um país de parvos, apavorados com o achincalhe, que calhou de historicamente se abater sobre nós, que nos debatemos sem ter porta aonde bater.
Um abraço,
Emanoel Barreto
quinta-feira, 26 de julho de 2007
Jobim ou Ícaro?
As coisas de jornal informam que o agora ministro da Defesa, Nelson Jobim, promete que o caos aéreo será controlado e que ele tem as condições de liderança e decisão pessoal - além de carta branca do presidente Lula - para pôr as coisas em ordem.
Espero que sim. Não digo que confio que sim. Apenas, espero que sim. Já são mais de dez meses de completa instabilidade e desarticulação no setor, que, dizem as coisas de jornal, tem também a presença da velha amiga dos criminosos do Poder, a corrupção, em obras da Infraero. Vejamos se o Ministro vai sanar isso também. Vejamos se vai sanar alguma coisa.
O Brasil tem um dado cultural aterrorizante, em termos de administração pública: a leniência com a incompetência e com os que delinqüem com os dinheiros do povo, uma espécie de aliança não formal, mas que funciona, de um governo para o outro. Crimes ficam encobertos e o governante e todos os seus sequazes voltaram, em alguma quadra da história, a compor um dado de Poder, em qualquer escalão.
Casos recentíssimos foram os do mensalão, quando, após algumas punições, como a do ministro José Dirceu, aos poucos, os poucos pudores do Congresso foram caindo e os demais acusados nada sofreram. Foi quando houve a imoral dança da corrupção da hoje ex-deputada Ângela Guadagnin, comemorando a escapada de um seu igual. Foi o epílogo da decência.
Vejamos se o Ministro porá ordem na casa. Ou, quem sabe, deveríamos chamar Dédalo e Ícaro. Talvez os heróicos personagens da mitologia grega possam, eles sim, poéticos e grandiosos, dar ao nosso povo alento e força para seguir voando em céu tão cinzento.
Abraços,
Emanoel Barreto
terça-feira, 24 de julho de 2007
História do Brasil - revista e atualizada (II)
Há alguns dias publiquei recentes descobertas a respeito da História do Brasil. Agora, trago novas informações que pesquisadores, grandes estudiosos, filiados à escola da Sociologia do Cinismo, me enviaram em caráter exclusivo. Dizem os estudos:
Certa vez, em desespero após o caos aéreo, tanta gente morta em aviões, outros tantos mortos por bandidos e mais outros mortos pelo Congresso Nacional, cujos sequazes se apoderam de dinheiro público em proveito próprio, contribuindo assim para prejudicar programas de ação social e de saúde, o povo decidiu, assim, de uma hora para outra, que as coisas deveriam mudar: "Vamos fazer greve de nacionalidade. Vamos deixar de ser brasileiros. Vamos acabar com o Brasil. Não existe mais Brasil. Assim, não precisaremos mais pagar impostos, nem contas de água, luz e telefone, IPTU e imposto de renda. Melhor, como não somos mais brasileiros, não teremos mais a obrigação de ser assaltados pelos bandidos, nem os de rua, nem os da política."
A proposta, feita por não-sei-quem, foi aceita por aclamação. E começou a greve de povo. Da seguinte maneira: todos foram para suas casas, se fecharam, ficaram só vendo televisão. Quando a TV deixou de funcionar, porque os jornalistas e demais funcionários também foram para casa, as pessoas, calmamente, foram dormir. Quando acordavam, iam à geladeira, pegavam algo, comiam e assim ficavam em casa, sem o perigo de ser brasileiros. Nesse novo mundo, estranhamente, as geladeiras estavam sempre cheias, as despensas eram fartas e tudo ia muito bem.
Mas, então, o Congresso e os bandidos convencionais logo descobriram que não havia mais povo para ser explorado e assaltato, nem jovens para a venda de drogas. E, numa reunião secreta, o Congresso e os principais líderes do tráfico manifestaram sua perplexidade e todos disseram: "Isso é um absurdo! Como se pode admitir uma bandalheira dessas? Eu quero assaltar, não tenho a quem. E eu quero um mensalão e não tenho como arranjar." E concluíram: "Perdemos nossa fonte de renda. Perdemos o povo. Precisamos recapturar o povo e obrigá-lo a ser assaltado, a se viciar e a votar. Precisamos reinventar o Brasil. Queremos o Brasil-sil-sil!"
Os congressistas financiaram os bandidos e estes importaram armas de grosso calibre, munição especial e alto poder mortífero. Investigaram tudo e descobriram que as pessoas estavam em casa. E atacaram as casas com fogo nutrido. Em pânico homens, mulheres e crianças correram para o meio da rua e foram assaltados e muitos foram atraídos para as drogas.
O Congresso, imediatamente, deu início a um processo eleitoral, com grandes campanhas na TV, jornal e rádio, dizendo que o Brasil estava em perigo, os bandidos estavam nas ruas e era preciso fazer alguma coisa para salvar o Brasil.
Desesperadas, as pessoas diziam: "Mas, não existe mais Brasil, não era para isso estar acontecendo." Entretanto, as campanhas,a propaganda política, diziam: "Existe Brasil! Existe Brasil! Votem, para melhorar o Brasil! Vote em mim, que eu não sou ruim!"
E assim, em desespero, as multidões foram votar e elegeram os mesmos. E tudo continuou igual. Foi desta forma que o Brasil desapareceu e renasceu, os congressistas mantiveram as suas patranhas e os bandidos continuaram a assaltar o povo. Tudo voltou ao que era e quem vivia bem ficou muito bem.
Aguardem novas descobertas dos pesquisadores da Sociologia do Cinismo.
Abraços,
Emanoel Barreto
segunda-feira, 23 de julho de 2007
Segunda-feira num país confuso
Sem comentários, leia este texto da Folha de S. Paulo, referente ao pronunciamento do presidente Lula, a respeito da tragédia com o avião da TAM.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira, durante o programa de rádio "Café com o Presidente", que não existe hipótese alguma de a verdade sobre o acidente com o avião da TAM, na última terça-feira (17), em Congonhas (zona sul de São Paulo), não vir à tona.
"Eu só peço a compreensão, a compreensão do povo brasileiro para que não haja julgamento precipitado de quem quer que seja, que a gente espere, com prudência, a investigação para dizer o que aconteceu. Ou seja, não existe hipótese alguma da verdade não vir à tona. Se o problema foi da chuva, se o problema foi da pista, do avião, se o problema era do piloto. Tudo isso, eu peço a Deus que a gente tenha condições de obter o resultado na caixa-preta do avião para que a gente possa informar a opinião pública", disse.
Lula ainda mandou um recado para os parentes das vítimas da tragédia. "As pessoas têm o direito de estarem revoltadas, têm o direito de estarem querendo saber o que aconteceu. E essa é a obrigação do governo, fazer uma investigação séria para que a gente não acuse e nem absolva ninguém antes de a gente ter uma apuração correta, que ela vai sair com base nas investigações que a Aeronáutica está fazendo e sobretudo com o resultado do que tiver na caixa-preta do avião que neste momento está nos Estados Unidos sendo aberta para que a gente possa apurar. Eu queria pedir para as famílias apenas isso: força. Muita força, muita fé em Deus porque eu sei o que vocês estão passando e eu sei o sofrimento."
O presidente também falou sobre a necessidade de diminuir os vôos no aeroporto de Congonhas. "Nós vamos transformar o aeroporto de Congonhas, que vai cuidar do transporte São Paulo e Rio, quem sabe de Congonhas a Belo Horizonte, quem sabe Brasília. Mas é preciso diminuir os vôos, que não tenha mais conexões, que não tenha mais troca de passageiros ali em Congonhas e que a gente tente utilizar Viracopos, tente utilizar o aeroporto de Guarulhos. Também nós decidimos que em 90 dias o Conac [Conselho de Aviação Civil] vai apresentar para o governo uma proposta e um local da construção de um novo aeroporto em São Paulo."
"Por mais seguro que seja o aeroporto de Congonhas, ele foi cercado pela cidade. É só olhar de baixo ou de cima que a gente vai ver a quantidade de prédios e mais ainda, não faz muito tempo, tem prédios novos sendo inaugurados ali na linha que passa o avião perto do Jóquei Clube em São Paulo. Essas coisas, nós vamos fazer a parte que cabe ao governo federal, à Infraero, à Aeronáutica, ao Ministério da Defesa, vamos procurar um outro local, vamos tentar fazer um outro aeroporto para diminuir as possibilidades de uma nova tragédia", reiterou.
Agora, somente uma observação: você acredita?
Abraços,
Emanoel Barreto
sábado, 21 de julho de 2007
Cora Coralina e um país de emoções despenteadas
Hoje não vamos ver as coisas de jornal. O Brasil está tão triste, tão feio, apesar do Pan. O Brasil é hoje um país de emoções despenteadas, rotas, cara fechada para uma manhã de nada. Em lugar das coisas de jornal, trago Cora Coralina num poema reflexivo, intenso, um jorro de emoção que nos joga ao encontro da vida, suas perplexidades e danos.
Abraços, e um bom fim de semana.
Emanoel Barreto
O Passado...
Homens sem pressa, talvez cansados,
descem com leva madeirões pesados,
lavrados por escravos em rudes simetrias,
do tempo das acutas.
Inclemência.
Caem pedaços na calçada.
Passantes cautelosos
desviam-se com prudência.
Que importa a eles o sobrado?
Gente que passa indiferente,
olha de longe,
na dobra das esquinas,
as traves que despencam.
-Que vale para eles o sobrado?
Quem vê nas velhas sacadas
de ferro forjado as sombras debruçadas?
Quem é que está ouvindo o clamor,
o adeus, o chamado?...
Que importa a marca
dos retratos na parede?
Que importam as salas destelhadas,
e o pudor das alcovas devassadas...
Que importam?
E vão fugindo do sobrado,
aos poucos,
os quadros do Passado.
Cora Coralina
......................................
E agora, uma postagem do amigo, jornalista e poeta Walter Medeiros:
Segredos
O relance dos teus olhos
Nos meus olhos
Tem um brilho inesquecível,
Uma profundidade inexplicável,
Um sentimento acalantador.
Teus olhos deviam ter
Todo tempo do mundo
Para ficar numa expectativa.
Mas um segundo que seja,
Deixa a lembrança inapagável
E a esperança do reencontro
Nos meus olhos.
Olhos belos, que brilham
E transmitem a doçura
Do teu pensamento.
Que tem segredos,
Bens incomparáveis
Que um dia saberei,
Tenho esperança.
São eles (teus olhos)
Que quero ter
Para contemplar
Todos os dias.
Eles falam por teu coração
E são uma mostra da tua beleza.
Walter Medeiros
sexta-feira, 20 de julho de 2007
Quando os ímpios comemoram
As coisas de jornal estão dizendo - e mostrando no You Tube - a horrenda comemoração de dois assessores do presidente Lula, quando o Jornal Nacional aventou a possibilidade de a tragédia de São Paulo ter sido por falha mecânica do avião.
Uma câmera da Globo flagrou o assessor especial da presidência Marco Aurélio Garcia, fazendo gestos obscenos em comemoração ao anúncio, que, a seu ver, desculpabiliza o governo quando ao ocorrido. Sim, porque se o avião tinha problemas técnicos de frenagem ou o que seja, a questão da pista malfeita ficaria para segundo plano. Ponto para Lula!
A seu lado, o assessor de imprensa Bruno Gaspar também fazia movimentos obscenos com uma expressão corporal de fazer corar qualquer maníaco. A câmera da Globo estava ao longe e captou toda a imoralidade: a comemoração pelo escape do governo frente à opinião pública.
Depois, Garcia disse à Folha de S. Paulo: "Não aceito dizer que a gente comemorou. Foi um momento de extravasamento com a conclusão de que o acidente pode ter sido mais complexo do que em princípio chegaram a levantar. Foi uma reação de "poxa, tá vendo?'... Porque houve precipitação. Alguns setores tentaram atingir o governo politicamente e nos culpar. Agora está visto que não é bem assim."
Na verdade, quem procura politizar o tema é o próprio governo. Tanto, que seus usufrutuários comemoraram à larga, demonstrando toda a sua baixeza. Ou seja: vale qualquer coisa, mesmo tripudiar sobre a dor nacional, desde que as cadeiras reclináveis de Brasília fiquem a salvo de suas responsabilidades.
Os ímpios comemoraram.
Eles fazem sempre assim.
Emanoel Barreto
quinta-feira, 19 de julho de 2007
Os que caminham no nada
Agora que as dores nascidas das chamas do avião de São Paulo começam a se acalmar, e a se transformar em saudade triste, aninhada no peito de quem perdeu amores, nasce em todas as vozes a revolta, a repulsa, o grito: onde estão os responsáveis?
A sociedade está em choque, o brasileiro está pasmo, perplexo com tanto horror. E tudo é culpa da incompetência gerencial, da imprevidência administrativa, da inapetência por um serviço ao público sério e bem feito.
Dizem as coisas de jornal que a pista de Congonhas é cheia de falhas, que não permitem a aderência perfeita dos pneus em dias de chuva. E que falta, ao final da pista, um sistema de frenagem que literalmente prende o avião ao solo em caso de emergência; pois essa parte, feita em concreto poroso, se racha, as rodas afundam, e isso detém a corrida da aeronave.
Agora, esteja certo - eu já estou - virão mil desculpas, inquéritos, declarações as mais escabrosas, acusações sempre rebatidas, e, tenho quase certeza, nada será feito. É parte da nossa cultura: acomodatícia, solerte, um meio tom de cinza, sempre a encobrir culpados e criminosos de toda espécie.
Se a pista tem falhas, como está sendo dito, não houve um acidente, mas homicídios culposos. Todas aquelas pessoas foram assassinadas pelo engenheiro ou engenheiros que projetaram-na imperfeita e pelos que a aprovaram como obra pronta. Mas ninguém será preso, nada se fará. Esteja certo - foi feito algo a respeito da construção do túnel, também em São Paulo, cujas paredes ruíram? Não. Nada aconteceu.
E depois, em meio à solidão escura dos que perderam amigos,esposas, maridos, filhos, gente a quem se queria bem, haverá silêncio grande a soluçar saudades e dizer baixinho que estar só é como caminhar no nada.
Emanoel Barreto
quarta-feira, 18 de julho de 2007
O avião que explodiu em dores
A tragédia de São Paulo mostra o quanto é insana e desvairada, gauche e imponderável essa louca vida, paradoxalmente breve e sutil maravilha, que em seu destino de vida se transforma em caos e pavor.
As coisas de jornal informam, já com mais detalhes, o horror de São Paulo, um horror que atingiu a todos nós, em cada recanto mais escondido destes brasis de asfalto e rincões perdidos em vastidões tão largas, tão largas que podem abraçar todas as eternidades.
Aquelas pessoas vinham em viagem tranqüila, esperando chegar. De repente, o destino, fado, sina ou acidente, como se queira, aparece e puxa as cortinas da tragédia, abrindo o palco amargo dos horrores a todos que estavam ali dentro.
E então o ser humano, em sua condição mais desesperadora, viu-se frente a frente com o espanto, o terror circulando nas veias, olhos olhando a morte amordaçando a vida.
Vida presa na fornalha daqueles instantes. O Brasil está perplexo com o pior acidente de avião de sua história. E o público das coisas de jornal tornou-se, de alguma forma, uma família. Todos nós, de alguma forma, perdemos alguém naquele avião que derrapou e explodiu em dores.
Emanoel Barreto
terça-feira, 17 de julho de 2007
É início de noite. E uma tragédia explode nossos medos
É início de noite: pela TV, imagens ao vivo do avião que incendiou-se em São Paulo. A vida, e as tragédias do cotidiano, passam rápidas pela tela da TV. Imagino o horror, o pavor paralisando corações e mentes daqueles que estavam presos à terrível masmorra em que, de repente, o avião se transformou.
Imagino pessoas petrificadas de medo, os gritos, todos tentando de alguma forma escapar; a fumaça ácida penetrando os pulmões, corpos transidos de desespero, o calor brutal esmagando esperanças de salvação, casais buscando se ajudar, vidas com medo de morrer.
As coisas de jornal na internet dão informações incompletas, o que faz aumentar em mim um sentimendo de solidariedade, uma espécie de ânsia temerosa de que haja muitos mortos.
É início de noite. Daqui a pouco os telejornais devem espocar dados e números. E o ser humano que em mim me habita compreende que é pouco mais que um suspiro.
Um abraço.
Emanoel Barreto
domingo, 15 de julho de 2007
Memória do Comércio do Rio Grande do Norte
Caros Amigos,Será lançado hoje(16/07) no Portugal Center, às 18h, o livro Memória do Comércio do Rio Grande do Norte. É um trabalho de minha autoria, em parceria com a jornalista Auricéia Antunes de Lima, realizado sob o patrocínio da Federação do Comércio do Rio Grande do Norte. Abaixo, uma breve introdução da obra.
Aos leitores
Registrar a vida é como documentar uma aventura, a grande aventura do Homem sobre a face da Terra. Há algo de inesperado e belo, grandioso e fugaz, sofrido e vitorioso no dia-a-dia, mas nem sempre o percebemos. Ao assumir o compromisso da realização desta obra encarei o desafio de resgatar memórias, recordar emoções, palmilhar sentimentos e instantes de vidas cuja intensidade verteu-se no empreendedorismo e realizações com largos desdobramentos humanos, econômicos e sociais.
As entrevistas que me chegavam às mãos vinham plenas de um vigor que somente os depoimentos de vida, histórias no tempo, podem conter. Havia palpitação emotiva e força poética no declaratório de quem falava de si ou sobre o personagem biografado. E isso guiou o meu texto, permitindo-lhe vôos de verossimilhança, caminhos para a imaginação, descrição de momentos, intensidade de situações, imersão em instantes de humana força.
Foram seis meses de trabalho intenso, ao lado de uma jovem equipe. O instigante desafio partiu de Tertuliano Pinheiro, executivo de marketing da Federação Norte-rio-grandense do Comércio e idealizador deste projeto. Com ele, Rogério Almeida Freitas, também executivo da Fecomércio-RN, que sob a liderança e sensibilidade do presidente da instituição, Marcantoni Gadelha de Sousa, asseguraram todas as condições para a execução do empreendimento, um resgate urgente e oportuno da memória do comércio do Rio Grande do Norte.
Registrar a vida, sabendo que o registro passará a compor a própria vida, é sentir-se na situação de quem caminha: seus passos deixam rastros, que se aliam ao tempo e são acolhidos pela História.
Emanoel Barreto
BARRETO, Emanoel; LIMA, Auricéia A. de. Memória do Comércio - Rio Grande do Norte. Natal: RN Econômico, 2007
O Risco Brasil
O capital internacioinal estabeleceu uma tabela pela qual calcula os riscos de investimento em países periféricos. É o chamado risco país. Quando mais um páís se inserir no perfil previsto pelos investidores, menor o seu risco. O inverso também é verdade.
Aqui, ele é denominado Risco Brasil. As coisas de jornal indicam que ele, o risco, aponta que são boas as perspectivas para quem queira trazer capital de fora para aqui investir.
Para mim, Risco Brasil é o seguinte: balas perdidas, ônibus incendiados, escolas que não funcionam, universidades sem dinheiro para completar seus quadros docentes, poderio do tráfico de drogas, instituições políticas decaídas, corrupção no governo e fora dele, má educação, seqüestos, crianças sem futuro, prostituição, trabalho escravo, cinismo dos políticos, poluição ambiental, destruição das florestas, má utilização de verbas públicas, falta de políticas públicas, desperdício de dinheiro com coisas como o Pan, o Nordeste ainda dependente da chuva para garantir safras, desemprego, cidades inundadas quando chove - por falta de planejamento urbano - miséria, pedintes nos sinais de trânsito, favelização crescente nas grandes áreas urbanas, políticos impunes, trânsito caótico, o lamentável "jeitinho" brasileiro, o baixíssimo nível de leitura de livros e jornais, o uso da internet para tolices, os crimes via informática, o desaparelhamento das polícias, hospitais públicos em péssimas condições, uma juventude inculta, tola e consumista, professores desmotivados e mal pagos, a mercantilização do ensino superior, uma programação de TV voltada para tornar estúpidas todas as pessoas, as agressões aos valores culturais, a falta de preservação do patrimônio imaterial, a leniência e paralisia das autoridades governamentais, o uso criminoso dos dinheiros públicos, a falta de memória da sociedade que elege e reelege indivíduos notoriamente criminosos, a necessidade quase patológica que o brasileiro tem de feriados e feriadões, a preguiça que domina os jovens, o vagabundo que ataca uma menina e lhe toma a bolsa, o traficante que lhe ameaça a família, o bandido que decepa vidas para comprar drogas, o empresário que arma esquemas para se apoderar de verbas, o lobista que fecha negócios com o dinheiro do povo, deputados, senadores e vereadores de mãos encardidas, um país inteiro vestido de trapos, fiapos e restos de uma moral perfurada.
Vou parar por aqui. Sinto uma espécie de tristeza cinza, um sentimento de saudade dos meus sonhos e uma vontade enorme de dizer: "Por quê?"
Emanoel Barreto
sábado, 14 de julho de 2007
Dai ao povo Pan e Rio
As monumentais vaias que o povo destinou ontem ao presidente Lula, durante a grandiosa abertura do Pan, dão mostra de que, de alguma forma, difusa entre as gentes,há um sentimento de repúdio a tudo o que se passa no País (vide Renan Calheiros).
As coisas de jornal dizem que ele, tíbio ante as demonstrações populares, Lula recuou, temeroso de novas demonstrações de caloroso desdém por parte do povo. Sua imagem até chegou a ser mostrada na TV, diante de um microfone,prestes a dar por abertos os Jogos, mas logo depois ele sumiu, perdido entre cores, jogos de luzes e sombra que aproveitou como providencial abrigo para sentar-se e evitar novos apupos.
Mas brasileiro é assim mesmo: após demonstrar momescamente seu desencanto com a carnavalizada cena nacional, aproveita mesmo o momento de samba e imerge na realidade ficcional criada pelos que, pensando em dela se aproveitar, são vaiados. Ou por outra: levado a um simulacro de felicidade, o povo vaia quem programou a festa e se aproveita dessa mesma festa, como se cumprisse um fado eterno ou sina secular de ser feliz falsamente.
Mas afinal chegou o Pan e o povo tem circo. As coisas de jornal dizem que o custo final da farra de jogos será de 3 bilhões, 600 mil reais. Dinheiro pessimamente empregado.
As coisas, entretanto, estão feitas e é preciso cumprir o roteiro até o fim. O povo tem Pan e Rio. Que comecem os jogos.
Ave, Júpiter, dai-me a vitória.
Emanoel Barreto
quarta-feira, 11 de julho de 2007
Quer um mundo mais feliz? Compre, consuma
Ele garante que, você comprando um Fox, ficará mais alegre, seu vizinho vai imitá-lo, ficará também mais feliz e essa corrente de bem-estar se espalhará de uma tal forma que chegará aos mais altos dirigentes do mundo. Estes entrarão em diálogo fraternal e,resultado: como o Fox também polui menos, teremos afinal um mundo feliz, sem poluição e cheio de pessoas sorridentes e bem-intencionadas.
Ou seja, Fox:o paraíso chegou. Ou seja: compre, consuma, que com o seu dinheiro haverá fartura de boa vontade e todos se tornarão pessoas melhores e cooperativas.
Se a idéia foi produzir um comercial bonitinho, entremeado de uma brincadeira, uma licença poética sobre uma marca de carro, o publicitário terminou, no seu sub-texto, por passar uma idéia de como vê o mundo: é preciso vender de qualquer maneira, mesmo que se utilizando de um recurso estilístico que, a propósito de ser vivaz, é na verdade grotesco e desumano.
Brinca com coisa séria e zomba do terrível mundo que temos aí.
Emanoel Barreto
terça-feira, 10 de julho de 2007
Polícia do Rio entra no samba do Pan
A polícia civil do Rio está em greve, a quatro dias do Pan. Isso é bem Brasil. Numa cidade conflagrada por problemas sociais intensos, cercada por bandidos e invadida por uma alegria insana com os tais Jogos - que o País não teria, na prática, condições de estar bancando - os policiais negam-se a trabalhar.
Têm certamente, por objetivo, ampliar, com sua omissão, o poder de ação dos bandidos e com isso atrair alguma manifestação criminosa, para poder repercutir na imprensa. E então porão no Estado a culpa pela sua paralisação. E então poderão dizer: "Estão vendo? Eu bem que avisei..."
É a cultura da ausência da autoridade, quando mais se precisa dela. O problema é que, aqui, as autoridades, os serviços públicos já são tão ausentes, que, na prática, deles não se sente falta.
Revela-se também a quebra dos padrões normativos que devem dirigir o aparelho estatal em todos os seus segmentos, sabedores os policiais que, após o movimento, não terão punição alguma.
No mais, é samba e grito de gol e anúncios de medalhas para os "nossos meninos e meninas". Como se isso fosse fazer diferença na vida das pessoas. Mas, o pior, o pior mesmo é o seguinte: todo o rebanho seguirá as ordens da festa e vai comemorar medalhas e outros mimos ganhos pelos atletas.
No morro, enquanto isso, mais um menino estará aderindo ao tráfico, e, num hospital qualquer, uma mãe vai implorar inutilmente para que atendam a seu filho que está doente há mais de quatro dias.
Bem Brasil.
Emanoel Barreto
segunda-feira, 9 de julho de 2007
Casa de tolerância
A semana começa com novas denúncias contra o senador Renan Calheiros. Agora, segundo a Veja, descobrindo-se que está envolvido em tenebrosas transações com a Schincariol. Muito dinheiro de origem viscosa, facilitação de cancelamento de dívidas da Schin junto ao INSS e venda de uma fábrica de refrigerante, de propriedade de Renan, à cervejaria, em troca do favorzinho junto Instituto.
O senado brasileiro precisa dar um basta a essa situação. A Casa está se mostrando não como um senado, mas como um antro, uma casa de licenças, um ambiente de tolerância, licenciosa e espúria. Mas, até o momento, o que se vê são algumas vozes de erguendo, para pedir que Calheiros ao menos de licencie do cargo, enquanto as investigações se aprofundam.
Ele mantém-se irredutivel. A sociedade civil, por seus meios organizados, não se manifesta. A nação pode estar atenta, mas não está em alerta e não se alevanta e protesto e indignação. Somos um povo deitado.
Acho que, afinal, chegamos ao tempo previsto por Rui Barbosa, em que os poderes estão nas mãos dos maus e os homens têm vergonha de ser honestos.
Emanoel Barreto
sexta-feira, 6 de julho de 2007
Coisas de jornal
Coisas de jornal são fatos, são atos,
gritantes, hostis.
São coisas tão tristes,
às vezes alegres, mas são
sempre coisas, coisas de jornal.
Coisas de jornal são tantas,
tão tolas, tão grandes, febris.
São fomes, são gestos,
são medos sem fim.
Coisas de jornal
são protestos nas ruas,
são balas que rasgam,
são vítimas sem paz.
São meninos magros,
meninas em risco,
homens sem emprego,
mulheres, parir.
Coisas de jornal
são coisas da vida,
são coisas da morte,
são egos inflados,
gorduchos de si.
Coisas de jornal
são letras que falam.
Manchetes lampejam
chamando o leitor.
Depois você lê.
Depois joga fora.
Jornal vai às ruas,
grudado de vida.
Vida vira tinta,
lembrança em papel.
Coisas de jornal,
tragédias diárias.
Estranhos momentos,
todos somos sós.
Emanoel Barreto
quinta-feira, 5 de julho de 2007
O Brasil, bem... que pena...
Olhar a realidade brasileira é como pôr óculos escuros, quando já se está em plena escuridão. É como caminhar entre monstros, passear entre feras, equilibrar-se em corda que se vai partir.
O senado está coalhado de corruptos intensos, imorais convictos, profissionais do escuso. Enquanto o presidente Renan Calheiros se expõe com cinismo universal e se alega inocente, outro senador, Joaquim Roriz, cai em meio a um abismo de moral viscosa. Seu suplente está sob suspeita de corrupção e o segundo suplente pode não assumir, para que haja nova eleição ao senado e Roriz possa de candidatar.
Trata-se, na verdade de uma solerte usurpação do sentido do voto e da cidadania.
No Rio, os bandidos estão firmes, apesar de acossados pela polícia e pela Força Nacional de Segurança - e não há indícios de que venham a ficar sob controle.
Em meio a tudo isso, o País gasta milhões com os Jogos Pan-americanos, crianças não têm boa escola, muitos não têm o que comer. Que pena.
Não quero fazer uma ladainha de mazelas, tristezas coletivas, pessimismo em tempos de cólera. Apenas lamento os lamentos; a pobreza conformada; a dor tão grande e tão distribuída; o olhar cabisbaixo; o estranhamento a uma realidade tão pavorosamente larga em incertezas, e prelúdio de mais males.
Emanoel Barreto
quarta-feira, 4 de julho de 2007
Até quando? Até quando? Até quando?
Senadores, ontem, fizeram apelo ao seu bom senso, a fim de que renunciasse, para que a instituição seja poupada dos apupos e do achincalhe a que se acha exposta aos olhos da nação.
Ele reagiu. Como que prevendo a chuva de palavras de advertência, todas feitas em com cerimonioso e polido ele, sentado à cadeira presidencial, refutou a todos os argumentos com um discurso previamente redigido, eivado de um cinismo que beirava o deboche. Disse que estava sob a proteção de sua inocência e assim não se afastaria do cargo.
A honradez é o desmancha-prazeres dos desordeiros morais. Renan demonstra uma incrível capacidade de resistir, em meio ao fragor de tempestade que instaurou-se por sua própria culpa.
Até quando a sociedade brasileira, em seus costumes, sua cultura e sua visão de mundo, enquanto ser coletivo, continuará a produzir seres como esse senador?
terça-feira, 3 de julho de 2007
Uma estranha reunião
Emanoel Barreto
segunda-feira, 2 de julho de 2007
A conversa do louco
Sentado a um batente, vestindo apenas bermudas, ele gesticulava, falava, dizia coisas. Parava uns instantes e parecia estar ouvindo respostas ou contradições àquilo que dizia. Em seguida, retomava e continuava a falar. Tão calmo, tão sereno...
Marcou-me fortemente sua expressão facial. O semblante era de quem aconselhava, censurava mansamente a alguém que precisava ser advertido, alertado das coisas e dos perigos da vida. A gestualidade das mãos complementava a postura do rosto. Eram movimentos lentos, como se em cada passo desse balé das mãos houvesse sempre um abraço, a proteção a um filho pródigo que acabara de chegar, fora recebido e agora era aconselhado.
O olhar tinha algo de sinceridade. Sim, ele estava realmente falando com alguém, alguém que habita a sua vida e certamente com ele confabula dramas e problemas do seu cotidiano enviesado.
Segui adiante e o louco ficou. E fiquei imaginando que conselhos ele daria a nós, sãos, para tentarmos entender, em nossas vidas, tanta insanidade, mistérios hediondos, maldades insanáveis.
sexta-feira, 29 de junho de 2007
Sobre o caso Renan Calheiros
objetam mentiras a argumentos válidos.
Tristes personagens atuam no escuro,
olhos bem voltados ao poder sinistro.
Tantos eles são, todos bem treinados,
tão capacitados nos gestos mais vis,
que, bem certamente,
obterão êxito
em acordos sujos,
frios e maléficos.
Paro a pensar: no alto, em Brasília,
companheiros sujos gritam ladainhas,
cantos imorais, gestos truculentos;
E defendem causas: torpes, declaradas,
envoltas em trapos de ética bandida.
quinta-feira, 28 de junho de 2007
Cristiano, Nelson Gonçalves e a história de um grande abraço
Nelson Gonçalves deu um grande trago no cigarro, pegou o violão, ajeitou na perna, bebeu de um gole a cachaça de primeira e o vozeirão encheu de som o bar: todos ouviam com olhar sorridente “A volta do boêmio”.
Em meio ao numeroso grupo de amigos, todos boêmios de boa cepa, estava a figura magnífica de Cristiano Matias. Bom de copo, bom de conversa e um coração deste tamanho, Cristiano é uma dessas pessoas que, em menos de cinco minutos, faz de você mais um amigo.
Essa história com Nelson Gonçalves ele me contou em uma de minhas viagens a Minas Gerais, com Teinha. Detalhou como o grande cantor, depois do show, partiu em companhia de um grupo para o bar, em um mercado. E o espetáculo, disse, foi muito melhor do que o show. Em meio ao ambiente simples, à barulheira e ao entusiasmo de quem chegava, ele ficou horas e horas a desfiar seu largo repertório.
Cristiano é como um grande abraço: intenso e sincero. Grande anfitrião, tem sempre guardada alguma cachaça de sabor secreto, feita em algum alambique perdido nas vastidões das Gerais. Domina como ninguém a arte de preparar um bom churrasco, tudo regado a uma boa conversa e, sempre, muita alegria.
O bidogão branco ajuda a enfeitar o sorriso e a risada. E um repertório enorme de causos e fatos fazem o tempo passar tão depressa que, quando a festa vai acabar, a gente diz: “Mas, já?” Só que nesse “já” a noite se passou inteira e o sol começa a abrir mais uma manhã.
Hoje é o dia do aniversário desse grande amigo e cunhado. Às vezes, penso que já nos conhecemos há mais de cem anos, tal a forma calorosa e boa com que sempre nos recebe em sua casa.
Cristiano, nesse aniversário, em que você, mais experiente e mais sábio, se torna mais velho e faz renascer em si um meninão sempre cheio de vida, receba um abração grande. Tão grande quanto a beleza e os mistérios que habitam as montanhas dessa sempre tão grande Minas Gerais.
quarta-feira, 27 de junho de 2007
Ali Sibá e os 40 amigões
Com estas palavras mágicas, Ali Sibá e seus 40 amigões conseguiram retardar por mais algum tempo as investigações sobre o presidente do senado, Renan Calheiros. Ao renunciar à presidência da Comissão de Ética, Ali sibá abriu as portas da caverna regimental que guarda o tesouro da pretendida salvação de Renan.
É grande a movimentação dos que querem a permanência de Renan no cargo, mesmo à custa da completa desmoralização do senado enquanto instituição, fazendo ver ao público a que ponto de baixeza o que no Brasil se chama de classe política, pode chegar.
Ali Sibá sem sido um bom companheiro e deu grande colaboração ao rebanho dos amigos de Renan, que é calheiros, está sendo visto como canalha e não tem escolha, a não ser tentar dizer a todos que estão enganados. E mais: podem esperar que Aladim e a lâmpada maravilhosa virão em seu socorro, com um gênio bondoso, que fará o milagre: transformar as acusações em pedidos de desculpa. Aí, a vaca vai para o brejo.
terça-feira, 26 de junho de 2007
E como se não bastasse...
Os jornais têm registrado, e não é de hoje, a ação de criminosos de alto poder aquisitivo que atacam pessoas de alguma forma desvalidas ou indefesas, para divertir-se e dar vazão a uma alegria bárbara e cruel.
Em 1997, o índio Galdino Jesus dos Santos foi atacado enquanto dormia ao relento, em Brasília, e teve chamas ateadas ao corpo. Faz 17 anos que o crime foi cometido por um grupo de criminosos jovens e ricos. Nada aconteceu com eles. Estão felizes e impunes.
Temo que idêntico destino terá a ação policial-penal quanto aos que agrediram a doméstica. Temos uma larga e profunda tradição de impunidade a lastrear a nossa cultura jurídica, quando os infratores integram as elites.
E não será agora que, suponho, esse ciclo será interrompido. Os rapazes são economicamente poderosos, suas famílias podem pagar bons advogados, certamente não têm antecedentes criminais e tudo isso, aliado ao peso do seu status, será usado para oprimir a empregada e fazê-la calar, cabisbaixa e triste.
Não sei: às vezes, penso o povo brasileiro como um bicho manso. Apanha, submete-se, alegra-se com um gol e pronto. Lá vai ele cumprindo sua sina e seu fado de ser povo e alegrar-se com tão pouco.
segunda-feira, 25 de junho de 2007
Quo vadis?
O fato novo é esse: a reestruturação dos aliados de Renan, que até então davam sinais de cambaleio, expondo a tibieza e a cara flagrada. Mas agora, certamente chicoteados pela decisão de ferro de Renan, suas manobras e cobranças, partem para novo ataque, buscando salvar aquela eminência decaída.
Homens de moral elástica, cheios de ética complacente, seus aliados esperam que, chegado o recesso parlamentar, a imprensa esqueça o caso, a opinião pública passe a se preocupar com outras mazelas nacionais e as peças desse jogo político, imerso em lamaçal e vergonha, possam se mover com facilidade em meio às sombras, salvando o senador alagoano.
Brasil: ó tempos! Ó costumes! Quo vadis?
sábado, 23 de junho de 2007
É incrível que os ergonômicos se assuntem
Quando os tempos se avizinham
de novas estratégias,
o semblante dos mercantes é que se nubla.
Mas, porém, todavia, eternamente,
as instâncias da soberba se estilhaçam.
Entretando, quando os infiéis se gabam,
as clausuras dimanam impropérios.
Se você caminha ao lado da pincéis,
é porque não sabe dos nubentes.
Foi então que os bérberes se avultaram,
na tentativa vã de se calar.
Pois das íngremes fronteiras do painel
rolaram opacos dissidentes.
E a voz dos pastores de tabernas
foram vistas a seguir estradas tardas.
Mas de que adianta um pé de alface orgíaco,
se de Baco não se obtém senão bizarros.
Afinal, quando a fé se desmanchou,
surgiu n'horizonte a efeméride,
a fazer de tolos insensatos.
PS: É assim o retrato do Brasil.
Se alguém entender alguma coisa,
me avise antes que seja bem tarde...
Bom domingo.
sexta-feira, 22 de junho de 2007
Voar é para os pássaros
Para completar, ministros riem dos passageiros,duramente fustigados pelos controladores. Primeiro, a ministra Suplicy, zombeteira e lépida, disse que todos devem relaxar a gozar. Pudera. A mulher é sexóloga.
Agora, o ministrio Guido Mantega, entre cínico e perverso, expica a situação dizendo que tudo não passa de uma conseqüência do progresso: as pessoas têm mais dinheiro, mais négócios a realizar, mais férias a gozar e assim as coisas acabam prejudicando o setor da aviação.
Até agora não se viu da parte do governo uma ação firme, direta, objetiva, que obrigue os militares a cumprir com o seu dever. Os jornais já falam que eles declararam guerra ao governo e vão manter o país em sombrio compasso de espera.
Só falta algum ministro vir ao púlpito e dizer, com ar solene e mórbido sorriso entre os dentes: "Concidadãos, acalmai-vos! Voar é para os pássaros!"
quinta-feira, 21 de junho de 2007
Motins da indecência
É inadmissível a postura da Calheiros, recebendo dinheiro para pagar a pensão de uma filha; é inaceitável que uma pequena corporação, apoderando-se da condição privilegiada de controlar um sistema vital para a sociedade, buscar chantagear essa sociedade em busca de vantagens profissionais.
A diferença é que em Renan o motim da indecência fica nos planos moral e ético, prejudicando a cultura política nacional e o sentido de dignidade do mandato parlamentar; quanto aos controladores, admita-se a validade das reivindicações salariais, condenando-se, entretanto, o método truculento que põem em prática na busca da obtenção daquilo que pretendem.
Neste país não há céu-de-brigadeiro quando o assunto é honradez.
quarta-feira, 20 de junho de 2007
Calheiros escorre pela calha, pois ficou acanalhado
Aos poucos, ante cada explosão de manchete ou noticiário de TV e rádio, incluindo-se também a participação opinativa na internet e toneladas de e-mails aos senadores deplorando a situação, Calheiros começava a se recolher. O peso da opinião pública veio a calhar contra uma realidade que se apresenta acanalhada.
E agora, quando até seus pares recomendam que ele renuncie, como mal menor a uma possível perda de mandato, caso as investigações sejam levadas adiante, o senador resiste e diz aos jornais que a palavra "renúncia" inexiste em seu dicionário.
Ao que se vê, ainda para lembrar Maquiavel, faltam a Renan a fortuna, que é o conjunto de circunstâncias favoráveis, fortuitas, para que o príncipe reine em glória e paz; e a virtù, a capacidade de perceber o momento histórico que vive e administrá-lo de tal forma que os bons ventos do poder o levem a porto seguro.
Calheiros, ao que parece, achincalhou o próprio nome.
terça-feira, 19 de junho de 2007
Renan Calheiros: sua queda vem a calhar
As repercussões, poderosas, junto à opinião pública, estão começando a estilhaçar suas bases de apoio, sejam de aliados, sejam de adversários "simpáticos" à sua cambaleante causa.
As coisas de jornal andam dizendo que até o presidente Lula estaria torcendo para que Renan Calheiros entre pela calha e saia pelo ralo, para que a espetaculosidade deprimente de seu desempenho não venha a respngar no governo, que vive um bom momento, político e econômico.
Do jeito que as coisas vão, com a comissão que o investiga acuada, mesmo que tendende a absolvê-lo, a situação pode se complicar. Político é um animal esquivo, ladino e ligeiro, quando se trata de salvar a própria pele.
Quando virem que Renan subiu no telhado, todos começarão a sumir. O primeiro foi o relator, Epitácio Cafeteira. Quando o bule começou a ferver, ele saiu bem depressa. Político que fala muito corre o risco de queimar a língua.
segunda-feira, 18 de junho de 2007
...e, de repente, veio a água
e as ruas estão inundadas.
Um frio estranho se espalha
pela cidade, como num abraço triste.
O sol, nosso amigo de tanto tempo,
escondeu-se, sumiu, esqueceu-se de brilhar.
As águas, que no sertão são queridas,
aqui somente trazem enguiços, preguiça
e uma vontade pesada de ficar coberto.
Ficou tudo turvo,
e de repente todas as
ruas se enchem de rios.
Vou até a janela
e vejo essas brumas d'água.
A vida também escorre,
como a enxurrada que segue rua abaixo
engolida nas bocas-de-lobo.
domingo, 17 de junho de 2007
O suplício segundo Marta Suplicy
A ministra Suplicy parece esquecer o suplício que é ficar horas, quase dias, à mercê de um sistema instável e inconfiável, como se apresenta a aviação comercial brasileira.
Isso dá bem uma idéia de como as elites vêem os problemas nacionais: com um cruel e despudorado olhar. O povo? Ah, o povo, é como dizia Maria Antonieta: "Se não tem pão, coma brioche..."
A arrogância, a insensibilidade, a empáfia, o pernosticismo da ministra, dão bem uma mostra de que tipo de pessoas està à frente das decisões nacionais. Que pena, uma psicóloga que se apresenta como tão humanista, vá cair num ato falho como esse.
PS: vamor aguardar amanhã o desfecho do caso do bom companheiro Renan Calheiros.
sábado, 16 de junho de 2007
Bendito, louvado seja
Os aliados do governo e a oposição, ora tremelicante,deverão entender como plenamente aceitável as ações do senador, agora alvo de denúncias de negociações com empresas de fachada, de onde teria saído o dinheiro para manter sua amante e uma filha.
Isso, fora a acusação anterior de que a dama seria manteúda com dinheiro vindo de um lobista.
Assim, só resta dizer: Renan é um bom companheiro/ Renan é um com companheiro/ Ninguém pode negar/ Ninguém pode negar...
Ou, quem sabe, cantar aquele hino antigo, que as velhas ainda hoje entoam em igrejinhas do interior, quando se aproxima a Hora do Angelus: "Bendito, louvado seja."
sexta-feira, 15 de junho de 2007
Renan e os cornacas
Em desespero, o político pediu a seus, digamos, iguais, que adiassem para a próxima terça-feira a votação do parecer a respeito de seu decoro (decoro?) parlamentar. O relator da Comissão de Ética, o prezado amigo Epitácio Cafeteira, já disse que não viu nada de mais no comportamento de Renan. Tanto, que pediria o arquivamento do processo hoje mesmo.
Como os mares estavam em procela, Renan e todos os seus cornacas recuaram. A pressão dos oposicionistas valeu e agora o relatório será votado mesmo, dizem os jornais, terça-feira.
Em rápidas entrevistas à imprensa, acuado, Renan cobrou ética aos jornalistas. Não vou comentar.
quinta-feira, 14 de junho de 2007
Um homem de bem
Um juiz feito de ferro
O Juiz Odilon de Oliveira, de 56 anos, estende o colchonete no piso frio da sala, puxa o edredom e prepara-se para dormir ali mesmo, no chão,sob a vigilância de sete agentes federais fortemente armados...
Oliveira é juiz federal em Ponta Porã, cidade de Mato Grosso do Sul na fronteira com o Paraguai e, jurado de morte pelo crime organizado,está morando no fórum da cidade. Só sai quando extremamente necessário,sob forte escolta.
Em um ano, o juiz condenou 114 traficantes a penas, somadas, de 919 anos e 6 meses de cadeia, e ainda confiscou seus bens. Como os que pôs atrás das grades, ele perdeu a liberdade. "A única diferença é que tenho a chave da minha prisão." Traficantes brasileiros que agem no Paraguai se dispõem a pagar US$300 mil para vê-lo morto. Desde junho do ano passado, quando o juiz assumiu a vara de Ponta Porã, porta de entrada da cocaína e da maconha distribuídas em grande parte do País, as organizações criminosas tiveram muitas baixas.
Nos últimos 12 meses, sua vara foi a que mais condenou traficantes no país. Oliveira confiscou ainda 12 fazendas, num total de 12.832 hectares ,3 mansões - uma, em Ponta Porã, avaliada em R$ 5,8 milhões - 3 apartamentos, 3 casas, dezenas de veículos e 3 aviões, tudo comprado com dinheiro das drogas. >> >> Por meio de telefonemas, cartas anônimas e avisos mandados por presos, Oliveira soube que estavam dispostos a comprar sua morte.
Os agentes descobriram planos para me matar, inicialmente com oferta de US$100 mil." No dia 26 de junho, o jornal paraguaio La Nación informou que a cotação do juiz no mercado do crime encomendado havia subido para US$ 300 mil. "Estou valorizado", brincou. Ele recebeu um carro com blindagem para tiros de fuzil AR-15 e passou a andar escoltado.
Para preservar a família, mudou-se para o quartel do Exército e em seguida para um hotel. Há duas semanas, decidiu transformar o prédio do Fórum Federal em casa. "No hotel, a escolta chamava muito a atenção e dava despesa para a PF ." É o único caso de juiz que vive confinado no Brasil. A sala de despachos de Oliveira virou quarto de dormir. No armário de madeira, antes abarrotado de processos, estão colchonete, roupas de cama e objetos de uso pessoal.
O banheiro privativo ganhou chuveiro. A família - mulher, filho e duas filhas, que ia mudar para Ponta Porã ,teve de continuar em Campo Grande. O juiz só vai para casa a cada 15 dias, com seguranças. >> >> Oliveira teve de abrir mão dos restaurantes e almoça um marmitex, comprado em locais estratégicos, porque o juiz já foi ameaçado de envenenamento. O jantar é feito ali mesmo. Entre um processo e outro, toma um suco ou come uma fruta."Sozinho, não me arrisco a sair nem na calçada ."
Uma sala de audiências virou dormitório, com três beliches e televisão. Quando o juiz precisa cortar o cabelo, veste colete à prova de bala e sai com a escolta. "Estou aqui há um ano e nem conheço a cidade." Na última ida a um shopping, foi abordado por um traficante. Os agentes tiveram de intervir. >> >> Hora extra. Azar do tráfico que o juiz tenha de ficar recluso.
Acostumado a deitar cedo e levantar de madrugada, ele preenche o tempo com trabalho. De seu "bunker", auxiliado por funcionários que trabalha até alta noite, vai disparando sentenças. Como a que condenou o mega traficante >> Erineu Domingos Soligo, o Pingo, a 26 anos e 4 meses de reclusão, mais multa de R$ 285 mil e o confisco de R$ 2,4 milhões resultantes de lavagem de dinheiro, além da perda de duas fazendas,dois terrenos e todo o gado.
Carlos Pavão Espíndola foi condenado a 10 anos de prisão e multa de R$ 28,6 mil. Os irmãos Leon e Laércio Araújo de Oliveira, condenados respectivamente a 21 anos de reclusão e multa de R$78,5 >> mil e 16 anos de reclusão, mais multa de R$56 mil, perderam três fazendas. O mega traficante Carlos Alberto da Silva Duro pegou 11 anos, multa deR$ 82,3 mil e perdeu R$ 733 mil, três terrenos e uma caminhonete. Aldo José Marques Brandão pegou 27 anos, mais multa de R$ 272 mil, e teve confiscados R$ 875 mil e uma fazenda.
Doze réus foram extraditados do Paraguai a pedido do juiz,inclusive o "rei da soja"no país vizinho, Odacir Antonio Dametto, e Sandro Mendonça do Nascimento,braço direito do traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar. "As autoridades paraguaias passaram a colaborar porque estão vendo os criminosos serem condenados."
O juiz não se intimida com as ameaças e não se rende a apelos da família, que quer vê-lo longe desse barril de pólvora. Ele é titular de uma vara em Campo Grande e poderia ser transferido, mas acha "dever de ofício" enfrentar o narcotráfico. "Quem traz mais danos à sociedade é mega traficante. Não posso ignorar isso e prender só mulas (pequenos traficantes) em troca de dormir tranqüilo e andar sem segurança."
terça-feira, 12 de junho de 2007
Renan perdeu o decoro? Que nada, Renan é um bom companheiro
O brado dos Três Mosqueteiros, que eram quatro - e defendiam a lei e a ordem - está funcionando para defender e blindar um político alvo de grandes suspeitas, o presidente do senado, Renan Calheiros, suspeito de ter despesas pagas por um lobista. Despesas com uma mulher, teúda e manteúda por Renan - com o dinheiro dos outros, dizem os jornais.
O que se percebe é uma espécie de ação entre amigos. Não querem ver o colega, egresso dos tempos de Collor, flagrado, após deflagrado um processo sério de investigação parlamentar.
Não querem é um processo sério de investigação parlamentar. É o velho hábito dos políticos brasileiros: unir-se em defesa não da instituição senado, mas em favor de uma corporação, um sistema fechado e disposto e se defnder, a fim de perpetuar-se no poder, seja qual for o preço.
E, de preço, esse povo entende bem. Nada vai acontecer, o povo esquece com facilidade. E mais, logo,logo, vem o Pan. E aí, vão todos vibrar com os atletas brasileiros, já pensou?, ganhando medalhas de ouro. É luxo só.
segunda-feira, 11 de junho de 2007
Querem impedir a PF de trabalhar bem: que coisa feia...
Sob a alegativa de que é preciso parcimônia, serenidade e seriedade na escuta das conversas telefônicas de bandidos de colarinho branco, o ministro quer que, antes de chegar a um juiz e ser liberada (ou não), a autorização para o grampo deve passar, necessariamente, pelo crivo do Ministério Público, opinando sobre a matéria.
O objetivo seria impedir abusos ou distorções, quando se trata de investigações sobre meliantes ricos. É claro. Afinal, se eu sou rico, estou nas colunas sociais, incensado por esses jornalistas de festim, que celebram a boa vida e a futilidade de socialites e figurões, não posso, de uma hora para outra, ser exposto ao achincalhe de ser metido em um camburão por um carrancudo agente da PF que me pegou falando ou fazendo negócios feios. Assim, nada mais justo que restringir a ação da polícia.
Na verdade, estamos vivendo o seguinte: a Polícia Federal nunca atuou tanto e tão bem, com ampla repercussão de mídia, até mesmo desmascarando autoridades do seu próprio sistema hierárquico.
Seria o caso, sim, de dar-se mais e mais apoio aos agentes, para que continuem a agir, com precisão e efetividade. Num país onde a corrupção é endêmica, onde temos sempre um jeitinho para resolver até questão de fila em banco, uma instituição que leva a sério o seu trabalho precisa ser respeitada. O problema é que estão pegando até mesmo o irmão do presidente e um seu compadre.
Nada mostra que o presidente tenha algo a ver com as irregularidades. Mas, por precaução... é melhor reduzir o empenho dos agentes... É triste, mas é verdade: a mentira, com isso, pode se safar, de quem a persegue, para prender quem a pratica.
domingo, 10 de junho de 2007
Como nos interrogatórios...
Hoje não é o Dia da Poesia. Mas resolvi escrever sobre o assunto. Dia da Poesia não quer dizer que é o dia do verso, aquele conjunto de palavras que, ao fim da leitura de uma quadra, por exemplo, resulta numa rima.
Não, poesia é muito mais. Poesia é sentimento, é interioridade vivida internamente e exposta pela palavra. É panorama humano íntimo que deságua no gesto escrito, o poema.
Creio que seja até mesmo mais que isso: poesia é ato de viver, poesia é ato de coragem. Coragem de ser dissidente, coragem de se expor ante aqueles que pensam que tudo sabem, que tudo podem e por isso tudo pedem.
Poesia é atitude voltada para a reflexão. Portanto, está parada dentro de você, muito embora seja, dentro dela mesma, um redemoinho.
Poesia é feita a passos de ferro.
Poesia é caminho que não vai a lugar algum,
uma vez que o poeta
busca sempre a incerteza jamais o porto.
Sem o porto, ele parte;
em parte fica;
em partes se desfaz;
em partes se constrói;
em parte vira luz.
Depois, tudo escurece.
Só isso.
E, como nos interrogatórios,
nada mais digo,
nem nada mais me seja perguntado.
sexta-feira, 8 de junho de 2007
Vade retro...
"MIAMI - Sônia e Estevam Hernandes, o casal fundador da Igreja Renascer, confessaram nesta sexta-feira (ontem), dia 8, serem culpados por contrabando de divisas para os Estados unidos, em audiência realizada em Miami.
O casal Hernandes foi preso no dia 9 de janeiro, quando chegava aos Estados Unidos, tentando entrar com US$ 56 mil não declarados, sendo US$ 9 mil dentro de uma Bíblia."
Estavam aí, literalmente, os trinta dinheiros. Estavam dentro de uma Bíblia, a profissão de fé no dinheiro e a crença do casal Hernandes. Um demonstrativo exato do quanto é rentável a manipulação da crendice popular, numa seita que se volta totalmente para o lucro e enriquecimento ilícito, por parte de quem se se apresenta como alma devota e piedosa.
Mas, ninguém se engane, o casal é milionário e suficientemente poderoso para se safar da prisão nos Estados Unidos e, claro, no Brasil também. Diante de tais falsos profetas só nos resta dizer: oremos.