sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Um livro lamentável

A atribuição de caracterícticas humanas a animais tem sido um recurso comum em histórias infantis ou livros didáticos, para divertir ou cumprir propósitos educacionais. Mas um livro lançado nos Estados Unidos está causando polêmica, por apresentar como gays dois pingüins machos que estão cuidando de um filhote.

Veja o que diz o Estadão online a respeito do assunto: "SHILOH, EUA - Um livro ilustrado sobre dois pingüins machos que criam um bebê pingüim teve uma recepção conturbada na cidade de Shiloh, que se preocupa com a disponibilidade do livro a estudantes do Ensino Primário, e com a relutância dos governantes em restringir a acesso à obra. As preocupações são as últimas envolvendo And Tango Makes Three, o livro infantil ilustrado baseado em uma história real de dois pingüins machos - Roy e Silo - do zoológico Central Park, em Nova York, que adotaram um ovo fertilizado e cuidaram do filhote como se fosse deles."

A matéria não traz o nome do autor ou autores do livro. Mas, quem o escreveu, certamente tem por único objetivo provocar polêmica, aproveitando-se de um acontecimento fortuito. A idéia é a de apresentar similaridade entre atitudes de animais e o comportamento humano, como se os animais, à maneira dos seres humanos, também tivessem tendências homossexuais e apresentassem afetividade entre seres do mesmo sexo.

Não questiono a orientação sexual dos humanos, que são livres para experienciar suas existências segundo seu livre arbítrio. Mas buscar atribuir às sociedades animais atitudes típicas dos humanos, socializadas ao longo do tempo e das mutações culturais, é apenas exploração barata, no melhor estilo dos jornais sensacionalistas.

Quem redigiu o livro acionou sem dúvida uma notável sensibilidade para polemizar, ao buscar verossimilhança entre homens e bichos. Há uns quinze anos a TV brasileira - não lembro qual canal, creio que foi a Globo - explorou algo parecido.

Num jardim zoólogico, um casal de macacos ocupava uma ilhazinha, bem próxima a outra, habitada por um macho solitário. Algum repórter mais atento percebeu que a macaca nadava de uma ilhota para a outra e cruzava com o macaco vizinho. Pronto: foi o suficiente para se dizer que a macaca estava "traindo" o "marido" e esse fato foi transformado em acontecimento noticioso, enfatizado ao longo de vários dias.

Não passou de vadiagem jornalística, um jornalismo mesquinho e explorador. A mesma lógica foi utilizada para a confecção do livro, que, como o jornal, é também um meio de comunicação de massa, se bem que com características bem diversas e objetivos diferentes da efemeridade das informações jornalísticas. Mas, em essência, enquando veículos, ambos são, tecnicamente, a mesma coisa.

Trata-se de uma exploração deplorável da inocência infantil. Entendo que seja uma forma de pedofilia sui generis. Espero que essa obra não seja traduzida para o português.

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Onde está Twiggy?

A imposição de padrões de beleza às mulheres é algo que não é novo, mas, nos últimos anos, tem se intensificado a um ponto que acontecem coisas como a morte da modelo Carolina Reston Macan, que morreu de anorexia aos 21 anos e 40 quilos. Tinha 1,74 m de altura. E muitas frustrações.

A questão de fundo é a criação no imaginário feminino de que para ser bonita é preciso ser magra a qualquer preço. E, de fundo mesmo, é isso o que move o mundo dos negócios da moda: o preço, o lucro, o dinheiro que as grandes empresas ganham às custas de meninas como essa. Além de não galgar a fama, ela ainda tinha de complementar sua minguada renda distribuindo panfletos que divulgavam uma boate.

A fatuidade, a futilidade, a exposição do lado externo do ser humano como objetivo de vida e essência do existir, formam o elemento-chave que movimenta as grandes empresas de moda e aprisionam em seu cárcere mental não apenas as que buscam aí profissão e sucesso, mas, de alguma maneira, as jovens de um modo geral, que consomem roupas, sapatos e bolsas.

Não houve nada de glamouroso na vida dessa jovem. E, não se engane, toda modelo está condenada ao esquecimento. Alguém aí ainda se lembra de Twiggy? Ou de Veruska? E Capucine, alguém me diz por onde anda?

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Cárcere mental: a pior das prisões

A forma massiva como a publicidade e a propaganda utilizam suas mensagens para literalmente prender a atenção, seduzindo leitores, ouvintes e telespectadores tornou-se, com a sofisticação das tecnologias e da formulação de conteúdos de convencimento, uma forma virtual de prisão.

Coletividades formadas por milhões de pessoas, globalmente, atendem aos chamamentos e incorporam a seus comportamentos atitudes de consumo, seja de idéias ou de produtos. A própria idéia, de alguma forma, é um produto, já que manipulada pela indústria cultural. As campanhas políticas e os padres e pastores midiáticos são a prova disto.

As sociedades humanas, ao longo do tempo, entretanto, sempre conviveram com essa forma de prisão mental. Desde o tempo em que os humanos viviam em hordas, passando pelas Idades Antiga e Média, até hoje, as determinações e crenças sempre ditaram os comportamentos coletivos. Sacerdotes, líderes políticos e militares mobilizavam os povos em torno de suas pregações e convocações, mantendo em hegemonia um determinado status quo.

O grande perigo dos cárceres mentais de hoje, entretanto, é que, com a facilidade e velocidade da comunicação de massa, criou-se uma espécie de território invisível e vasto, quando, através de filmes, internet, TV e jornais, somos todos incluídos nessa fluida comunidade, participando da ordem geral: compre, siga, acredite, busque sua salvação.

E mesmo quando nossos filtros de percepção rejeitam a intenção manipuladora, guiados por valores interiores como moral ou convicções de ordem político-ideológica, aqueles que assim procedem são uma minoria. Desta forma, termina por prevalecer a lei do consumismo e da submissão aos ditames de quem se volta para o lucro; mesmo que às custas do sacrifício e da ilusão imposta a todos os que se curvam à ordem ditada pelas leis de mercado, que disseminam com eficácia falsas necessidades e comportamentos padronizados.

Objetivamente: quem compra aquele celular que até serve para telefonar, é in; quem não acompanha a onda, é out. O pior de tudo é o paradoxo: eu e você somos in. Afinal, é forçoso reconhecer, estamos inseridos na internet... É incrível, mas não é inverdade...

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Os deputados vão abocanhar mais 30 dinheiros: e todos os pilatos já lavaram as mãos

Os jornais estão anunciando: até o final de dezembro a Câmara dos Deputados deverá votar, e aprovar, aumento de 90 por cento dos vencimentos dos 513 deputados, que hoje recebem o básico de R$ 12.847, mas, com o reajuste, passarão a embolsar R$ 24.500.

Como os deputados têm, digamos assim, prebendas, agrados financeiros que o Legislativo lhes proporciona como verba de representação, auxílio moradia, auxílio correio e dinheiro para compra de passagens aéras, tudo somado, isso atualmente, chegamos ao total de R$ 51.647. Com o aumento do vencimento básico, essa quantia subirá ainda mais.

Um deputado vale isso? Será que essas pessoas trabalham tanto assim para receber tamanha remuneração? Detalhe: os deputados têm também dinheiro repassado para a contratação de assessorres, mas muitos desviam isso para seu próprio bolso. As informações foram colhidas na Folha de S. Paulo. Mais detalhe: essa renda mensal pode ser bastante aumentada caso o deputado ou deputada seja corrupto ou corrupta. E não são poucos, mas históricos, recentes e muitos os casos de parlamentares envolvidos com corrupção.

Aprovado o aumento, o Senado deverá seguir os passos da Câmara. No senado, seus integrantes somam 81 detentores de mandato. Tudo está sendo desenvolvido em surdina pelo presidente da Câmara, Aldo Rebelo (PCdoB-SP). É claro, o aliado do presidente Lula sabe que essas coisas de dinheiro devem ser tratadas com um certo sigilo, não?

Como resultado final e perverso de tudo isso, o aumento brasiliense descerá em cascata, atingindo Assembléias Legislativas e Câmaras Municipais de todo o País.

Enquanto isso, estamos todos sob o temor de que haja uma reforma previdenciária, que venha a prejudicar aposentados, além de uma reforma trabalhista, retirando direitos e conquistas históricas dos trabalhadores brasileiros, facilitando demissões, por exemplo.

O mais terrível de tudo, entretanto, é a constatação de que quem colocou esses homens e mulheres nos diversos níveis do Parlamento foi o povo brasileiro. Quer dizer: de alguma forma eles representam não apenas por delegação legítima do voto a cidadania nacional, mas, acima de tudo, a cultura nacional, o comportamento micro do brasileiro, em suas ações cotidianas em casa, no trabalho, na escola, na universidade.

Somos o país da Lei do Gérson, levar vantagem em tudo. E, sendo assim, não adianta pedir: "Pai, afasta de mim este cálice" - nós mesmos nos crucificamos. Nossos judas já ganharam seus trinta dinheiros e todos os nossos Pilatos, de há muito, já lavaram as suas mãos.

sábado, 11 de novembro de 2006

A necessidade da morte

Com a aprovação do Conselho Federal de Medicina e até mesmo com o beneplácito da Igreja Católica, os profissionais do setor já podem praticar a ortotanásia, ou seja: a suspensão de atendimento médico a pacientes hospitalizados e em situação terminal, com autorização da família ou do paciente. Desta forma, o doente seguirá o curso normal da existência, até que a vida se finde - sem a histeria da tentativa de medicamentos heróicos ou a parafernália tecnológica das frias UTIs.

É bem diferente da eutanásia, que é a morte induzida. Uma morte piedosa, é verdade, mas induzida. Tecnicamente, para a lei brasileira, isso é homicídio doloso.

O assunto, ao que parece, não provocou maiores alardes: não houve mobilizações de grupos religiosos bramindo, cenas de choradeiras nos programas de telejornalismo. Afinal, a morte é parte do processo da vida. Do fim da vida, mas, paradoxalmente, a morte é parte da vida. É o fim de um ciclo.

Socialmente, entretanto, a morte é vista como um acontecimento doloroso, uma espécie de acinte divino a um suposto direito de o homem permanecer em sua condição animada para sempre. Em especial quando quem deu o grande salto é jovem ou morreu de alguma forma de acidente.

A ortotanásia não é uma decisão calculista de abandono ou indiferença. É, apenas isso, a compreensão de que alguém, por haver chegado o momento, precisa deixar de existir.

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

Crônicas para Natal

O Forte e Natal

Fortaleza dos Reis Magos: ancorada

no tempo, observadora
da História, guarda
os quatrocentos anos de Natal
como o seu maior tesouro.

Céu, sol, vento, mar.
Pedra sobre pedra ergueu-se a Fortaleza,

tornou-se amiga do mar, aliada à cidade
que nascia e tinha,
a partir de suas muralhas,
a certeza de ser invencível.

Da Praia do Forte, turistas e

natalenses têm seus passos guiados
pela passarela que se debruça sobre
as ondas, descobrindo em seus corredores,
passo a passo, canto a canto, as marcas
do tempo, lembranças que estão vivas até hoje.

Fortaleza dos Reis Magos: como

um grande navio, quem sabe um
gigante do mar esculpido em granito,
aninhou-se em Natal para aqui dormir
seu grande sono, enquanto a cidade de
Câmara Cascudo festeja
uma juventude que nunca terá fim.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Como Chacrinha, Lula também sabe confundir

A Folha de S. Paulo online publicou a seguinte notícia: "O líder do governo na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), disse nesta quinta-feira que, se o Congresso aprovar reajuste de 16,67% para os aposentados do INSS que ganham acima de um salário mínimo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve vetar o aumento. Chinaglia reconheceu que o governo não tem maioria para evitar que o percentual maior seja aprovado e fazer prevalecer sua proposta de conceder 5,01%, por isso a alternativa pode ser o veto."

Acho estranha essa posição do presidente Lula, manifesta através do líder do seu partido na Câmara. O PT, ao longo de sua história, e antes de Lula presidente, dizia lutar por aumento para os trabalhadores, até porque se apresenta como o partido dos trabalhadores.

É aposentado não foi trabalhador? Aposentado foi trabalhador, sim. E trabalhou, certamente em sua expressiva maioria, em condições salariais adversas, ou seja, é gente que passou a vida inteira sob a opressão do salário mínimo. Além de desumana, a ação do presidente é incoerente com a cartilha que o PT defendia.

Disse ainda a Folha, registrando as palavras do deputado: "O reajuste é um tema difícil de se trabalhar. Ninguém se sente à vontade para negar um pleito aos aposentados.Uma parte da base tem dificuldades. Se viermos a perder esta votação ou o Senado corrige ou o presidente tomará a decisão de vetar [o reajuste] como já fez".

Isso, a meu ver, já é um indício bastante veemente do que será o segundo governo Lula. Não vejo justificativa para euforias, expectativas esfuziantes. Nada prenuncia que teremos um período de desenvolvimento em altos percentuais. O tempo será de arrocho e de desencanto. Temo que haverá choro e ranger de dentes.

Veja só o que ainda informa a Folha, na mesma matéria: "Para tentar convencer a oposição a não insistir num aumento maior do que os 5%, Chinaglia disse que os aposentados podem ficar sem reajuste. "Não haverá uma terceira MP sobre o assunto. Neste caso, a assessoria jurídica do Planalto já informou que o presidente só poderá recompor a perda da inflação."

O líder do partido do presidente deixa claro assim que, caso haja deputados ou senadores dispostos a trabalhar em favor do povo, o governo atuará decisivamente no garroteamento do povo, ou pelo menos de uma parcela do povo. Houve claramente uma ameaça.

Lula não levará em conta fatores como as vidas que se desgastaram em trabalhos cansativos, monótonos e sem qualquer perspectiva de ascenção para milhões de homens e mulheres; não levará em conta aqueles que precisavam ir ao médico, mas não tinham dinheiro para pagar planos de saúde; os que não tinham dinheiro para pagar cursinhos para os filhos; os que jamais fizeram uma viagem de férias...

Não; zelará, apenas, pela sua manutenção hegemônica e pelo dinheiro, que negará aos aposentados. Chacrinha dizia: "Não vim para explicar; vim para confundir." E o presidente Lula sabe muito bem confundir. Tanto, que está reeleito.

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Adiada votação da censura na internet

A Comissão de Constituição de Justiça do Senado adiou a apreciação, que seria feita hoje, do projeto de lei que dispõe sobre a intervenção do Estado na liberdade de expressão via internet.

O projeto tem por finalidade essencial a busca de facilidades para a captura de criminosos que usam a intetnet para suas atividades. Mas resultaria, na verdade, numa devassa da intimidade dos internautas que não se voltam para tais fins, uma vez que, sempre que acessassem a internet, seus dados estariam sendo registrados, do início ao fim da sessão.

Ante a perversidade dos resultados e frente ao repúdio de setores da sociedade, como os provedores de internet e usuários em geral, a CCJ resolveu não colocar a matéria em apreciação.

Esse tipo de legislação, nos moldes em que está formulada, somente interessa a quem não deseja uma sociedade democrática e plural. A internet, com todos os erros que possa permitir, desde o roubo de senhas bancárias a sites de cunho racista, é um espaço público novo e promissor.

E promissor exatamente pela sua condição caótica e incontrolada, o que permite desde facilidades para a obtenção de informes para um trabalho escolar, até a transmissão de dados sumamente importantes para pessoas ou empresas.

Não se pode permitir que o Estado chegue a avançar sobre a vida das pessoas de uma forma tal que, em futuro não muito distante, teríamos um perigossíssimo sistema controlador de mentes.

Detalhe: os dados de cada internauta poderiam ser usados como arma e meio de chantagens e explorações por criminosos que, utilizando-se dessas informações, aí sim, implantariam uma literal rede criminosa. E tudo a partir de uma lei que queria colocar os bandidos contra a parede.

terça-feira, 7 de novembro de 2006

Internet: a vigilância pode chegar até você

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado vota amanhã, dia 8, projeto de lei do senador tucano Eduardo Azeredo, que disciplina o uso da internet. Disciplina é modo de dizer: na verdade, o que a legislação fará e institucionalizar a censura à liberdade de expressão. O projeto será também apreciado pelo plenário do Senado, bem como a Comissão de Constituição e Justiça e plenário da Câmara, até ter redação final ou ser rejeitado.

Veja o que o portal Terra informa a respeito do assunto: "Dentre todos os dispositivos inclusos no texto, o mais polêmico é a determinação de que todo aquele que prover acesso à Internet terá de arquivar informações do usuário como o nome completo, data de nascimento e endereço residencial, além dos dados de endereço eletrônico, identificador de acesso, senha ou similar, data, hora de início e término, e referência GMT da conexão. A medida tem sido alvo de críticas enérgicas entre aqueles que prezam pela privacidade e o anonimato na rede, sob a alegação de que dados de cunho pessoal não devem ficar em bancos de dados, expostos a uma possível devassa judicial, além do possível extravio para fins escusos."

O objetivo da lei, de fundo,é bom: rastrear aqueles que cometem crimes como pedofilia, apropriação de senhas bancárias e de cartões de crédito e outras formas de ações socialmente inaceitáveis, como comércio de drogas e difamação de pessoas seja por texto ou imagens.

O problema é que, na busca por punir criminosos, a rede assim disciplinada tornará sua malha tão fina que vai acabar por invadir não só a privavidade do usuário, mas até mesmo sua intimidade, tal o grau da devassa que fará em seus dados pessoais e de uso da web.

A favor da manutenção do atual estado de coisas pode-se argumentar que não são poucas as notícias a respeito da desarticulação de quadrilhas pela polícia, bastando unicamente o rastreamento do uso do computador dos criminosos. Entretanto, é válida a tipificação de crimes de internet, uma vez que o código penal não contempla com clareza tais situações.

Claro: quando o código foi redigido,em 1940, ninguém no mundo pensava que um dia teríamos algo como a grande teia. Houve alterações para ajustamento aos tempos, mas estas mostram-se ainda insuficientes para criminalizar pessoas pelo uso indevido da internet.

Resumindo: o Congresso Nacional precisa ter competência para tornar insuportável a vida dos criminosos que se utilizam da internet. Mas deve garantir a intimidade e a cidadania de quem está apenas se utilizando de uma ferramenta tecnológica para finalidades legais.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Lunação, um poema, um enigma

O jornalista e poeta Walter Medeiros envia o enigmático "Lunação". Um enigma que não devora: alerta - tudo é mesmo um complexo amplexo. Segue:

A hora ficou estática
Com a falácia artística
Que nem era nada mística
Ou questão de matemática.

Foi uma coisa tão prática
Uma posição política
Pretensamente analítica
Mas de forma tão enfática.

Em meio a tanta temática
Numa ocasião fatídica
Nada de zona onírica
Resultando-se apática.

Só podia ser galática
Sem uma margem profética
Era triste, esquelética,
Saudade de era bombástica.

Virou uma noite cáustica
Para uma gente famélica
Sem natureza Angélica
Ou de uma história náutica.

Ante noite emblemática
A gente ainda cética
Se perde até na estética
De aparência lunática.

E o tempo sorumbático
Deixa só um tom patético
Num meio pouco poético
Que descortina dramático.

Sombras de delírio fático
Alucinação tão bélica
Vida de base lotérica
Um azar não esporádico.

Acham até dogmático
Porém é pouco idílica
Longe de ter face lírica
Nada sinalagmático.

Toda essa sintomática
Fere a questão científica
Mas a razão magnífica
Dirá que faça um sabático

domingo, 5 de novembro de 2006

Crônicas para Natal

Cajueiro de Pirangi*

Grande árvore, és frondosa esperança

do amanhã,
uma vez que o futuro
somente pode ser visto na coragem da vida.

Cajueiro de Pirangi. Teus galhos formam

os longos braços do teu eterno crescer.

És como um roteiro sem rumo e

apenas cresces. E crescendo, acabas sendo um ninho,
casa, proteção, carinho.
Gente se sente bem
dentro do teu vigoroso abraço.

Ser vegetal, tão imóvel e tão vivo.

Cajueiro, és total, completo e infinito.

Que sejas, sempre, a grande árvore.

Nordestiníssimo, és, para nós,
a grande e verdadeira árvore de Natal.
....
*Considerado o maior cajueiro do mundo, inclusive fazendo parte do Guiness Book, o cajueiro de Pirangi foi plantado em 1888 por um pescador local, chamado Luiz Inácio de Oliveira. Reza a lenda que o responsável pela árvore de 7500 metros quadrados faleceu aos 93 anos de idade, debaixo de sua sombra.

O espantoso crescimento do cajueiro é atribuído a uma anomalia que faz com que os galhos cresçam para baixo, ao invés de seguir a direção contrária, crescendo para cima e para os lados. Quando eles chegam ao chão, começam a criar novas raízes o que faz com que a árvore aumente.
Na época de colheita, os visitantes podem se deliciar com seus frutos, que ultrapassam os oitenta mil. No local, há guias que falam inglês e espanhol e existe uma infra-estrutura de apoio que conta com banheiros, loja de souvenires e quiosques de alimentação. A praia de Pirangi fica a 25 quilômetros de Natal. (Fonte: Brazilonboard.com)

sábado, 4 de novembro de 2006

A Terra, azul e linda, vai ficando acinzentada

A humanidade não está muito preocupada com a preservação do meio ambiente. Desde as grandes indústrias e seus magnatas internacionais, até aquela pessoa que passa e, do carro, atira uma garafa plástica vazia pela janela,uma espessa maioria dos humanos está contribuindo - e com grande eficácia - para a degradação dos ecossistemas.

Já se fala que em mais 150 anos o processo mundial de desertificação estará bastante avançado. E 150 anos, do ponto de vista histórico, é muito pouco tempo. Além disso, o aumento da temperatura propiciará o degelo dos pólos e o aumento do nível dos oceanos, com conseqüências drásticas em todos os continentes.

Afora a poluição do ar e dos cursos de água e tudo o que já citei aqui, convivemos com outra espécie de poluição: a poluição da mente das pessoas; de forma socialmente densa, criou-se uma convicção de que se deve explorar a natureza até o extremo, esquecendo-se todos de que também somos natureza.
A urbanização não nos tirou a condição de seres naturais.

Entretanto, em meio a esse caos, leio no Estadão: "Volks lança célula combustível", que permitirá o acionamento de uma tecnologia menos poluente para os automóveis. Isso traz algum alívio, até porque o petróleo é uma fonte de combustível não-renovável. E a informação indica que, lentamente, já se pensa na sua substituição. Diz a matéria:

"SÃO PAULO - A Volkswagen divulgou esta semana um novo tipo de célula a combustível que, em sua opinião, abrirá a porta para produção em série de veículos com essa tecnologia menos poluente. A célula a combustível é um sistema que torna possível que os próprios veículos produzam energia elétrica. Ela se baseia na combinação química de hidrogênio e oxigênio, elementos que se transformam em água e que, no momento da reação, liberam energia suficiente para mover um veículo. "

Acrescenta o texto:"A escalada dos preços de combustíveis e a preocupação crescente pela preservação do meio ambiente moveram a indústria automobilística a buscar alternativas que assegurem a mobilidade no futuro.
A companhia francesa PSA Peugeot Citroën considera que este avanço tecnológico mudará a indústria automobilística e afirma que seus automóveis vão circular em 2010 com hidrogênio e lançar vapor d´água."


São ainda tímidas as manifestações práticas com relação ao problema da poluição e de alternativas ao uso da gasolina. É que os grandes capitais não têm interesse em gastos imediatos quando podem manter em funcionamento um determinado tipo de situação perversa, desde que lhes seja favorável.

Enquanto isso, a Terra, que como dizia Garagin "é azul e linda", vai ficando cinzenta, os homens mais embotados e o futuro mais incerto e escorregadio. Que pena.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

A privacidade de Lula

Vi, on line, no Estadão e JB fotos do presidente Lula em repouso familiar, numa praia. Os jornais exibiram as fotos como troféus; como se uma personalidade pública e midiática não tivesse direito à privacidade. É como se do homem público jamais se descolasse a identidade do político e do chefe de governo.

A rigor, qual o interesse dos leitores em ver fotos do presidente, Dona Marísa Letícia e parentes em traje de banho, aproveitando o sol e as águas do Atlântico, como os outros mortais? Se fosse assim, deveriam também ser feitas fotos do casal em sua vida familiar, na intimidade do lar.

Não gosto desse tipo de jornalismo, a não ser em caso particularíssimo, se e caso acontecimentos supervenientes interferissem diretamente junto ao presidente na hora em que estivesse na praia. Exemplo: se ele fosse vítima de algum atentado ou sofresse um acidente.

Fica implícito que defendo a presença de repórteres e fotógrafos cobrindo o lazer presidencial para registrar qualquer eventualidade, recusando-me entretanto a publicar as fotos sem que nada de extraordinário houvesse para ser trazido a público.

Entendo que jornal deve cobrir tudo, mas tudo o que for de interesse público, respeitando-se porém a privacidade e a intimidade quando sobre estas não incidam fatos de importância e de relevo.

Jornalismo que se limita a mostrar as fotos de um presidente de república em atividade de lazer familiar, cai na ribanceira do voyeurismo e desrespeita até mesmo a representatividade da instituição jornalística.

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

Crônicas para Natal

A pátria das águas

As pequenas e audazes caravelas do Potengi

repousam calmas em seu silêncio de água.

São animais de madeira, dóceis e treinados.

Mas quando estão nevegando, mastigando instantes,
percorrendo momentos,
esfregam-se no corpo líquido da água-mulher
e são desbravadores de prazer.

O Centro Náutico Potengi, onde a

força do braço é motor de popa, é a pátria
das águas, desses barcos e de seus marinheiros.

E são todos corsários da vida forte,

amigos do sol e do suave ondular
de águas que abraçam.

.............

Favela do Maruim

Natal tem, nas Rocas, bem escondida,

uma ferida, pequena chaga social,
chamada favela do Maruim.

Espremido entre o rio e a rua,

o Maruim é o lixo discreto,
é a dor calada do silêncio.

Na lama, caminham pés que

nunca chegarão a parte alguma.
Nesses pés caminham vidas que
de há muito foram apagadas.

terça-feira, 31 de outubro de 2006

As manchetes da vida

Estou lendo "A fabricação do presente", de Carlos Eduardo Franciscato. É um belo estudo a respeito da questão da atualidade no jornalismo: a temporalidade do presente, a efemeridade dos acontecimentos, como os jornais trabalham na busca pela informação daquilo que esteja em acontecimento temporalmente próximo.

Isso me faz lembrar como tudo é rápido, fugaz e passageiro. Basta tomarmos um exemplo bem recente: a reeleição do presidente Lula. Houve todo aquele processo de luta, os debates, as acusações, o enfrentamento dos dois turnos. E, como num passe de mágica, Lula ganha mais um mandato. Passou. Rápido, não? Pois é: aquele presente... virou História.

Vem agora a expectativa pela nomeação da equipe de governo; os jornais vão tentar antecipar a composição do ministério e, logo mais, daqui a quatro anos, tudo virou passado. Entre o então e o futuro, entre a incerteza e o abismo, entre a salvação e a derrocada o tempo não se mede em segundos, horas, dias ou anos.

Entre um ponto e outro da existência o tempo se mede pelo relógio da espera, que se move com os ponteiros da paciência e da ansiedade. O presente é uma entidade impermanente. Somente percebemos isso quando paramos: na espera do atendimento do médico, na fila do elevador, naquele sinal vermelho que não fecha nunca, na terrível cadeira do dentista. Quando estamos em movimento, entretanto, temos a impressão de acompanhar o presente, segui-lo por todos os caminhos. Não percebemos o tempo passar.

E afinal, quando olhamos aquele jornal amarelado, aquela revista envelhecida, as fotos dos galãs hoje velhotes, a visão das divas agora velhas, percebemos como tudo passou e bem depressa. As manchetes nem sempre se confirmaram e o tempo passou, silencioso e sério.

Os jornais podem até fabricar o presente. O que não podem é garantir que, como lembrança, história ou marco de tragédia ou comemoração, o presente venha a ser algo que valeu a pena ser vivido com a alma lavada de ansiedade ou medo. Como os jornais, a vida também tem suas edições. Compete a cada um de nós saber compor sua manchete.

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Lula leu Maquiavel?

Reeleito o presidente Lula, saímos da fase dos sonhos gerenciados pelo marketing, para entrar no chão às vezes firme às vezes instável da realidade. O governante, para liderar, deve reunir virtudes que vão da serenidade frente ao momento da vitória à sabedoria para dosar sua convivência com os contrários, sem que destes se torne cúmplice ou submisso.

O presidente Lula terá que administrar bem sua convivência com os contrários, seja aqueles que são adversários, mas que que o apoiarão a troco da divisão do bolo do Poder, seja daqueles que o acossarão como oposicionistas, ferrenhos e às claras. Será um governo politicamente difícil.

Vejamos: os contrários que se aliarão a ele sob o soldo de participar do poder são como os mercenários, tropas cujo uso Maquiavel desaconselhava. São estas, por sua natureza, inconfiáveis: lutam por vantagens e debandam quando sentem-se em risco ou não recebem tudo o que pretendiam. São, como muito bem afirma a expressão, "soldados da fortuna". E podem muito bem bandear-se para o lado dos inimigos.

Maquiavel atribuía à palavra fortuna o sentido de sorte, o imponderável, a álea histórica de cuja contextualização brotam as condições favoráveis ao príncipe, para que este chegue ou se mantenha no poder. E à palavra virtù, as qualidades do líder que tem a compreensão exata do momento que vive, e que de alguma maneira desencadeou, para assim tomar as medidas mais adequadas com o objetivo também de empoderar-se.

Aparentemente Lula reuniu os dois requisitos. Tanto que se reelegeu. Agora virão os desafios: as esperanças do povo versus os apetites elitistas de quem quer manter privilégios históricos em detrimento de valores como saúde, educação, seguridade social, salários dignos, emprego, perspectiva de vida e a utopia que cada ser humano tem de ser feliz.

Vejamos até que ponto o presidente Lula, com as alianças que fará, estará mais voltado para o social ou sintonizado mais finamente com os grandes interesses dos grupos de pressão.

Lula pode até não ter lido Maquiavel, mas certamente fará um governo de sobrevivência, sua e de seu grupo, seguindo, mesmo intuitivamente, as regras fluidas da preamar política. E, se assim o fizer, não tenhamos dúvida de que os grandes vencedores serão os mercenários. E, deles, Maquiavel não gostava.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Caros amigos...

Por motivos de ordem técnica, este blog somente voltará a ser atualizado domingo próximo. Até lá, vejam o debate e cada um pense no que dizem os dois atores políticos em disputa. Domingo, fiquem certos, voltaremos ao batente.
Abraços,
Emanoel Barreto

O Timor está sem leme e não há timoneiros para dar rumo ao barco

Uma das falhas do jornalismo noticioso, aquele centrado no fato momentaneamente relevante, é que não contextualiza o acontecimento noticiado e dá ao leitor uma visão reducionista da situação. Foi assim com o Timor Leste, quando aquele país libertou-se formalmente da Indonésia, em 1999.

A idéia passada pela imprensa em geral foi a de que, retirados os indonésios e empossado Xanana Gusmão na presidência, o povo timorense, pobre porém unido por um sentimento de pertença e identidade nacional, caminharia, mesmo que lentamente, para um patamar melhor do que aquele ocupado quando da presença dos seus exploradores.

Tudo estava em ordem e havendo ordem haveria progresso, dentro da melhor visão positivista da História. Acontece que não foi bem assim. E o jornalismo não se deu conta disso. Não por incompetência. Mas por comprimento das rotinas de trabalho, que dão prioridade total ao novo, ao inusitado, ao conflito que se alastra e se alonga no tempo.

Por este raciocínio, terminou a guerra, acabou-se o interesse. E vamos esquecer o Timor, as coisas por lá estão dentro de uma cotidianidade e como tal os dias serão um igual ao outro.

E é então que encontramos outra falha do jornalismo factual: esquecer um assunto ou tema quando este entra na condição de coisa contínua, perdendo então aquele condição essencial de noticiabilidade, que é o ineditismo e novidade.

Com isso, questões graves como a do Timor, são esquecidas. E o público, imerso e abrangido pela memória jornalística, que rege e expõe o presente da sociedade, também esquece e relega o assunto à condição de coisa passada e acabada.

Redijo tudo isso a propósito de uma matéria que li no JB, falando de que no aeroporto internacional de Dili, a capital do Timor, houve um violento confronto entre gangues e soldados australianos, que comandam a segurança no país. Morreu um civil.

O embate foi tão violento, diz o jornal, que, à falta de outras armas, os agressores, tão obcecados pela luta estavam que, além de armas de fogo, se utilizavam de pedras, arcos e flechas. E o jornalismo, à época da libertação, não alertou ao mundo que o Timor precisava muito mais do que uma libertação formal, uma independência que era mais um grito de alívio ante a saída dos indonésios.

Timor precisava e precisa da ajuda internacional, o que não tem sito propiciado com eficiência. E aparentemente nunca o será, pois o país não tem qualquer importância para potências de alto calibre como os EUA ou Inglaterra.

Não sou tolo para afirmar que jornalismo consegue encaminhar os destinos de um povo. Mas é sua missão tratar dos fatos sob todos os ângulos e em nenhum momento a imprensa emitiu material interpretativo mostrando que a liberdade do Timor poderia e efetivamente se transformou em baderna.

Há muita fome, a economia está em estado desolador e os esforços que ali são feitos por entidades internacionais e voluntários, por si sós não darão conta de solucionar problemas estrututurais e conjunturais muito graves.

Lembrete: o Brasil tem tropas no Haiti, que está em situação idêntica à do Timor. O assunto Haiti está esquecido na mídia nacional. Creio que somente voltará a ser abordado caso morra algum soldado brasileiro em confronto com os bandidos que aterrorizam o sofrido povo da terra do nada saudoso Papa Doc. E então, quando correr sangue brasileiro sob as balas de criminosos, as manchetes virão zunindo. Para logo depois o assunto Brasil no Haiti ser jogado ao porão do esquecimento.

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Quando o jornalismo usa a dor como espetáculo

A notícia abaixo foi publicada no Estadão e revela como o jornalismo, enquanto técnica redacional, sucumbe, pela pressa na informação, à indiferença ao drama humano. E assim, limita-se a reportar algum acontecimento pelo ineditismo, estranheza do fato ou peculiaridade sensacionalista, sem levar em conta valores como sensibilizar-se com o drama alheio. Leia:

"SÃO PAULO - Os meninos britânicos Layton e Kaydon Richardson são, de fato, o caso de uma chance em um milhão: segundo médicos, essa é a probabilidade de irmãos gêmeos terem cores de pele diferentes. As crianças nasceram em 23 de julho, mesmo dia em que a mãe, Kerry Richardson, de 27 anos, casou-se.

"Quando nasceram, eram praticamente da mesma cor", disse a mãe ao The Journal, periódico da região de Newcastle, da Inglaterra. "Mas, nos últimos meses, Layton ficou mais loiro, como o pai, e Kaydon, escuro como eu". Kerry tem ancestrais nigerianos. O pai é branco, mas não mantém mais contato com a família."

Percebe-se claramente, pelo texto curto, que o objetivo é unicamente mostrar o inesperado, colocando na última linha que "o pai é branco, mas não mantém mais contato com a família". Existe aí um caso claro de abandono de mulher e filhos à própria sorte, afora o fato de interesse científico.

Em ambos os aspectos a falta de profundidade, a inexistência de interesse humano em torno do assunto fica à mostra. O jornalismo, em nome de trazer informações de fácil compreensão a um público difuso, optou, especialmente nos últimos anos, por desfazer-se de um trabalho textual mais aprofundado, estilisticamente apurado.

Uma ação estilística mais elaborada, além do fator estético redacional, traz na raiz do texto o sentimento de solidariedade do jornalista. Isso é facilmente percebido pelo leitor. Não precisa nem deve ser piegas, mas se o jornal trata de fatos em que o ser humano é literalmente o centro, deve também o repórter mostrar-se humano o suficiente para poder perceber a dor e a situação do outro antes de trazer a público, no texto, a condição humana como espetáculo a ser visto de longe.

terça-feira, 24 de outubro de 2006

Vítimas da lavagem cerebral

Do Forum Nacional de Professores de Jornalismo resgatei este excelente texto do professor Fábio Messa. Segue o "Vítimas da lavagem cerebral".

Olá pessoal,
permitam-me que eu me intrometa, peço licença para adentrar na dicussão.

Minha participação será breve. É que costumo ler e estar a par do que se discute aqui, acompanho bastante as discussões, ainda da arquibancada, mas hoje levanto o braço daqui da arquibancada, só pra dizer acrescentar algo:

Somos professores de cursos de comunicação social, o que pressupõe que tenhamos um olhar um pouco mais aguçado (semiológica e sociologicamente) diante dos fenômenos de massa. Fico pensando se não é um dispêndio desnecessário de energia, ficarmos tomando partido sobre esses 2 atuais personagens mitológicos e midiáticos do momento, que são os dois sujeitos candidatos à presidência.

Pessoal, o que interessa sabermos pontos de vista particulares sobre intenção de voto? O que nos acrescenta termos de ficar de picuinhas, enxertando textos daqui, textos dali, que exaltem uns, destruam outros, numa luta retórica insossa. Será que a gente precisa atachar outros discursos pra fortalecer os nossos? Será que não sabemos ser convincentes por nós mesmos?

O que é isso? Vamos pelo menos nos deslocar alguns metros desses mesmos referentes (vendo de longe), só para ver se conseguimos enxergar que estamos não só assistindo, mas até protagonizando mais um dos tantos fenômenos de massa, que é o que diz respeito às campanhas para eleição. Olhem o efeito catártico que isso tem provocado!! Olhem esse mimetismo todo que esses discursos têm causado!!

Será que não podemos ser um pouquinho mais maduros pra perceber que esse entorpecimento narcótico que os meios fizeram sobre determinados temas, não foi justamente para ficarmos esgotados de tanto ouvir falar neste ou naquele candidato etc??????

Será que é preciso lembrar que estamos com o melhor exemplo de propaganda ideológica (e não cobertura jornalística) dos últimos tempos. Pessoal, é inacreditável que estamos indo pro meio do picadeiro, com todos ao redor na arquibancada assistindo, pra ficar discutindo sobre essas narrativas criadas previsivelmente pelos meios de comunicação...

vamos canalizar nossas energias para, pelo menos, percebermos que essa lavagem cerebral está afetando até as nossas cabeças, doutores, phds etc.

assim, estamos nos confundindo com a mesma massa ignota, que acredita piamente em tudo o que está impresso ou registrado em imagens...

Tá faltando leitura em meio a isso tudo. Vcs me desculpem,mas creio que faltou leitura, muito antes de estarmos nessa condição, isso nos remete a questões básicas talvez nunca compreendidas, ainda em nossa fase de formação.


Vamos reler (ou talvez ler pela primeira vez) muitas da teorias da comunicação de massa como as da bala mágica, da influência seletiva, da presunção coletiva etc. pra ver se não é isso que se está se repetindo...e estamos completamente enquadrados nisso tudo, servindo de ilustração para o senso comum cooptado...

De certa forma, isso tudo me assusta, porque me faz pensar no tipo de bagagem e enfase sobre os conhecimentos que é dada em sala de aula...

É isso, desculpem mais uma vez a intromissão,mas a passionalidade só persuade, não convence.

Um abraço, e faço votos que os ânimos sejam apaziguados
.
Fábio Messa

Debate? Que debate?

O debate repetiu o espetáculo de um confronto cujo único objetivo é manter os dois candidatos na mídia, ao invés de trazer a público questões nacionais de conteúdo.

Cumprindo os papéis que lhes haviam sido administrados pelas suas farmácias magistrais do marketing, Lula e Alckmin agiram segundo o que lhes havia sido determinado pelos respectivos scripts. Não há muito o que comentar.

É triste, mas os candidados apenas cumprem uma espécie de tabela, nesse campeonato onde o grande derrotado são os destinos do País.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Um encontro solenemente vergonhoso

Teremos hoje mais um debate, o penúltimo, entre os presidenciáveis. A rigor, trata-se de uma encenação, um pseudo-acontecimento, um acontecimento midiático, ou seja: traçado e incluído na grade de programação de uma TV, no caso a Record, com o intuito de apresentar aos telespectadores um espetáculo, mesmo que seja o espetáculo da falsa discussão dos destinos nacionais.

O embuste, que conta com a participação por inteiro dos dois candidatos, cumprirá um ritual telejornalístico aliado a uma atitude cênico-teatral: os candidatos tentarão se apresentar segundo um padrão apolíneo. Só que aí a condição apolínea não estará ligada à situação do deus grego da beleza viril e da música: mas ao perfil daquele que representaria a face mais bela da política brasileira.

Como disse em comentário anterior, os debates viraram uma espécie de novela. Este será o penúltimo capítulo. O grand finale, como seria óbvio, caberá à rainha mãe da dramaturgia televisiva da tragédia brasileira, a Rede Globo. Será sexta-feira próxima, em horário ainda indefinido, pelo menos ao instante em que este artigo era escrito.

Creio que nada haverá de novo ou emocionante, já que estamos falando de um espetáculo. Os dois atores estarão representando seus papéis. Alckmin tentanto alckmizar a situação brasileira garantindo que, do seu governo, brotará a pedra filosofal que transformará tudo em ouro e, quem sabe, até mesmo será possível obter o elixir da longa vida - também objetivo dos alquimistas tradicionais, como nos relata a história.

Lula, garantindo que tantos milhões de brasileiros atingiram a condição de pessoas de classe média e as coisas vão continuar melhorando. São ambos atores adestrados e aptos a buscar o voto do povo. Lula leva a vantagem de que pegou, como no no gancho seco e rápido de Popó, o adversário Alckmin em seu ponto fraco, ao alertar que, eleito, este continuará a sanha privatista de FHC.

Pronto. Foi o suficiente para que a maioria dos votantes se bandeasse para o lado do candidato do PT que, por precaução, não usa mais a estrela vermelha do partido, mas outra, em tom verde e amarelo. Por precaução, é melhor não mostrar que ainda mantém convivência partidária íntima com indívíduos de, vejamos, poucos escrúpulos políticos, não é mesmo?

No mais, é esperarmos o espetáculo da noite. Cada um cumprirá seu triste papel de tentar se mostrar ao povo como bom e justo. Na verdade, teremos apenas um confronto solenemente vergonhoso de dois homens que, embusteiros, cúmplices de corruptos, vão dizer ao povo que, cada um sim, é o melhor.

domingo, 22 de outubro de 2006

"O ocaso dos bárbaros"

"A história dos grandes
acontecimentos do mundo não
é mais do que a história dos seus crimes"
Voltaire

O título que uso neste artigo é o mesmo de um velho filme a que, por algum motivo, nunca assisti - apesar de ter sido imensa a vontade. A fita foi exibida ao longo de alguns dias dos anos 1960, no velho e hoje inexistente Cinema Rex, em Natal. Os descaminhos da memória guardam, com carinho alentado, essas recordações de um menino que acreditava haver no mundo lugar para a vitória do Bem. E, na tela do cinema, o Bem sempre vencia.

Mas voltemos ao filme: pelos cartazes que o cinema exibia, mostrando algumas das suas cenas, havia homens recobertos por peles de animais e armados com arcos e flechas. Eram os bárbaros. Seus adversários seriam certamente os romanos, para os quais todos os demais homens eram "bárbaros" pela simples condição de não haver nascido em Roma.

Dá até vontade de continuar nesta divagação, lembrando meus velhos tempos jovens, falar sobre os filmes seriados, onde o Zorro enfrentava inimigos terríveis; e um chinês malévolo, chamado Fu Man Chu, chefiava um grupo de fanáticos - também chineses - com o objetivo de... nem-mesmo-sei-o-quê... - mas era algo como dominar o mundo, controlar as pessoas, essas coisas...

Mas o que quero mesmo, ao falar de império, é fazer referência ao magnífico texto do jornalista Mauro Santayana, "O manual do declínio", publicado pelo jornal do Brasil, na coluna Coisas da Política.

Ali, com seu estilo primoroso, precioso para quem sabe sorver o prazer de um grande texto, Mauro Santayana analisa, dentro do limitadíssimo espaço de uma coluna de jornal, as condições atuais do império norte-americano e os indícios de que suas estruturas começam a estalar.

Citando autores consagrados, lembra que, como os seres vivos, os impérios também têm um nascimento, crescimento e morte. Concordo com ele quando sugere que um império dá mostras de estafa histórica ao ficar sob o comando de um usurpador.

E cita que Bush, como usurpador, somente chegou à presidência por manobras da Suprema Corte, que não levou em conta comprovações de fraude a seu favor, na contagem de votos. E o que se seguiu a isso foi a formação de uma equipe agressiva e rapinante, que levou os EUA, como no Vietnã, a cair num lodaçal enorme: a invasão do Iraque.

E de lá terão dificuldade para sair: a retirada em massa das tropas significará capitulação, desonra e angústia para um povo que já foi desmoralizado pelos vietnamitas; e a saída, mesmo que aos poucos, também representará uma derrota. Uma derrota homeopática, mas uma derrota.

Os americanos esperavam encontrar nos iraquianos um povo de covardes, mas viram-se frente à frente com uma desesperada, fanática e férrea resistência, da qual não conseguirão se desvencilhar a não ser pela debandada. Mas fugir, às vezes, é difícil, é muito difícil; disso não se tenha dúvida. No caso dos EUA, até para ser covarde, vai dar muito trabalho.

Santayana fala também nos milhares de soldados e mercenários americanos mortos e no luto das famílias. E iria mais longe, se mais longas fossem as páginas dos jornais, tratando, com refinada competência, dos desastres da barbárie americana.

Observa também da questão sob o prisma da condição humana, lembrando que poucos são os que conseguem subir e ter a honra de morrer na plenitude de seus louros. E mais: é preciso saber subir, ter dignidade e humildade, uma vez que a descida à planície é o caminho no qual você encontrará com aqueles a quem porventura destratou, esqueceu ou descartou. E por ter feito isso,não terá mãos a apoiá-lo quando seus pés trôpegos estiverem buscando o caminho da descida e do fim.

Vale a pena ler essas coisas de jornal, quando bem escritas e tocadas pela sensibilidade às vezes pungente de um grande artista do texto, um spalla da palavra impressa, como Mauro Santayana. Ele conduz seu texto como Tárrega conduzia os acordes de sua guitarra gitana.

Tive a oportunidade de conhecê-lo e chamei-o respeitosamente de "Professor". Ele me respondeu: "Não me chame de professor. Não tenho títulos. Não tenho sequer o segundo ano primário..."
É realmente um grande Professor.
Emanoel Barreto

sábado, 21 de outubro de 2006

O que dizia Cora Coralina

Não, não: hoje não dá para falar em política, nas jogadas da farmácia magistral do marketing dos candidatos à presidência da República. Cansa, sabe?, ouvir a retórica retumbante do "eu prometo", "o outro está sempre errado", essas coisas. Nessa noite de sábado, vou transcrever um poema de Cora Coralina. Por uns instantes, vamos ler quem falava da vida e da verdade. É, "O cântico da terra".

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.
Eu sou a fonte original de toda vida.

Sou o chão que se prende à tua casa.
Eu sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.

Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.

Só em mim acharás descanso e Paz.
Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.

A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.
A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.

O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste o pão de tua casa.
E um dia bem distante a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu
seio tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça. Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,do gado e da tulha.
Fartura teremos e donos de sítio felizes seremos.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Entre o estúdio e a realidade da presidência da República

Enquanto as pesquisas prenunciam a vitória de Lula, prossegue o ciclo, melhor diria o circo dos debates, onde os atores políticos procuram se apresentar segundo o melhor figurino, aquele perfil que efetivamente atenda àquilo que chamamos de cidadania.

Alckmin, no SBT, desvestiu a armadura de candidato combativo e adotou uma postura mais compatível com sua imagem histórica. Com isso, passou a idéia de que aquele comportamento agressivo na TV Band fora apenas o cumprimento de um papel que lhe fossa passado pelo seu marketing. Ninguém muda de personalidade. E isso até mesmo o senso comum sabe.

A farmácia magistral de Alckmin falhou ao tentar impor ao candidato uma figura que não se adéqua à sua essência enquanto pessoa. Lula, que esteve sempre mais próximo do seu perfil histórico - com seu discurso de que trabalha sempre pelos pobres - apelou para a ironia, para olhar de forma olímpica e do alto para o adversário que aparenta despencar, segundo o que os jornais dizem com a publicação das pesquisas de intenção de votos.

Mas, ninguém se engane: ambos estão apenas interpretando papéis. Da cenografia dos debates ao gabinete presidencial a distância é grande. As vivências dos candidatos em estúdio são bem diversas daquilo que é vivido por um presidente da República.

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Perdidos no espaço, ou a demência transformada em lei

O Estadão publica a seguinte matéria. Li, entre perplexo e indignado. Seguem trechos da notícia:

"WASHINGTON - O presidente dos EUA, George W. Bush, assinou uma ordem que reivindica a seu país o direito de negar a adversários acesso ao uso do espaço fora da Terra para finalidades "hostis aos interesses dos Estados Unidos". Bush também afirma que os EUA vão se opor a tratados internacionais que limitem o uso ou acesso dos americanos ao espaço.

"Consistente com essa política, os EUA irão: preservar seus direitos, capacidades e liberdade de ação no espaço; dissuadir ou impedir outros de interferir com esses direitos ou de desenvolver a capacidade de fazê-lo; fazer o que for necessário para proteger suas capacidades espaciais; responder a interferência; e negar, se necessário, a adversários o uso de capacidades espaciais hostis aos interesses nacionais americanos".

Os donos do mundo

A arrogância americana parece não ter limite. A atitude de Bush, reveladora de que tipo de mentalidade literalmente preside o imaginário do povo americano - a principal nação do mundo, a América para os americanos, todos os demais povos são um perigo, todos os demais povos devem ser subservientes aos interesses dos Estados Unidos - demonstra a que ponto chegam a arrogância e o imperialismo nascido naquelas terras.

A primeira figura que me chega, para comparar com Bush, é a de Hitler e seus propósitos de superioridade do povo alemão. Deu no que deu. A determinação posta em vigor por Washington faz-me lembrar a idéia do "espaço vital" hitlerista.

Só que agora, em sua nova formulação, o esoaço vital surge nas feições daqueles tiranos de histórias em quadrinhos e seus sonhos assombrosos de dominação do mundo.

A mais forte metáfora para tanto, quem nos deu foi Chaplin, com o seu "O Grande Ditador". Na cena mais vigorosa do filme, o ditador, brincando com um globo terrestre esvoaçante, traz às suas mãos sinistras a materialização do pesadelo que pensava impor ao mundo. De repente, o globo de plástico se fura e murcha. E ele perde seu doentio e falso domínio sobre a Terra.

À época, Chaplin criticava Hitler e lamentava,temia pelo destino da humanidade. Bush também quer brincar com a Terra. Concorre com loucos como os fundamentalistas islâmicos,o governo da Coréia do Norte, e o governo de Israel.

O ser humano prossegue em sua maravilhosa e terrificante aventura no mundo. Esperemos que algum dia todos possam parar e imaginar, como Lennon, um mundo de paz e cantar: "Você pode dizer que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único."

Se isso não acontecer, estaremos, como naquele velho seriado de TV dos anos 1960, perdidos no espaço.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

O marketing político como farmácia magistral

No início do século passado,o receituário médico era levado às chamadas farmácias magistrais. A designação pomposa, imperativa, solene em sua enunciação, indicava que a receita, em seu potencial curativo, quase mágico, passaria por mãos adestradas e devotadas ao fim dos males que afligiam o sofredor doente.

Os farmacêuticos manipulavam as fórmulas miraculosas, que em seu esoterismo químico, no ambiente segredual e oculto do austero laboratório, eram como poções que logo depois deveriam ser unicamente sorvidas, ritualmente utilizadas, vindo afinal a cura, a libertação do sofrimento, do medo, da dor.

Não cabia ao paciente saber o mistério, a aura que cercava o pequeno frasco que continha literalmente o seu regresso à saúde. Não havia bula. A fé guiava todo o pvocesso.

Se formos traçar um paralelo entre as farmácias magistrais e o marketing político, encontraremos alguma proximidade. Para o político, o marqueteiro e sua equipe de redadores, diretores de arte, pessoal de estúdio de TV (esse muito especialmente) e de internet, formam como que uma farmácia magistral de campanha.

É dessa farmácia de formulação de símbolos que, espera o político, deverá sair a fórmula mágica, o filtro salvador de sua imagem, a pavimentação de sua campanha rumo à vitória.

É dessa farmácia de efeitos midiáticos que brotará para o público a visão de que o candidato é puro e reto em suas intenções, ítegro em seus princípios e apto ao exercício do cargo pelo qual luta.

E o adversário, esse ser perigoso e terrível, deve, isso sim, ser temido pelo povo como se fora o mal a ser previamente afastado do corpo social pela vacina do marketing. Para tanto, basta votar naquele que é digno e justo e o povo será feliz. Simples assim.

As farmácias magistrais da política estão, neste exato momento, trabalhando com vigor e decisão para seduzir o povo a escolher entre Lula e Alckmin. Temos, na verdade, dois homens, com todos os defeitos e virtudes comuns a toda a humanidade.

Sei que a visão do parágrafo acima é simplista em sua formulação. Na verdade, tenho consciência de que pratico um reducionismo. Mas esse raciocínio tem um sentido. Explico: ambos estão manipulando suas fórmulas simbólicas para se apresentar não como homens,mas como líderes, seres olímpicos, isentos de erros e dúvidas,e de que em seus governos tudo será modificado. Estão sendo elevados da condição de homens ao estatuto de demiúrgos. E isso não é verdade. Estão ambos blefando, para dizer o mínimo.

Eleito, um ou outro não poderá fazer tudo o que prometeu: seja em função das limitações que terão necessariamente a que se curvar, como alianças para dar governabilidade ao País, seja em função de fatores estruturais.

É preciso entender que o próximo governo terá grandes desafios na área social, na segurança, na seguridade social, no relacionamento internacional, na defesa do ecossistema, no enfrentamento ao capital, especialmente o capital financeiro. A lista seria casuística e quase interminável, tantos os desafios.

Acreditar radicalmente que um ou outro será o salvador, o portador da formulação magistral, ou é radicalismo cego ou ingenuidade de quem bebeu sem pensar a formúla da farmácia do marketing da sedução.

Creio que a ponderção seria o melhor caminho para uma decisão de voto. Tenho a suposição de que Lula, como já afirmei em artigos anteriores, seria aquele que, apesar de tudo o que temos visto em matéria de corrupção em seu partido, seria o nome a ser escolhido. Remeto-me ao seu passado para manter minha nesga de confiança.

As farmácias magistrais já se perdem no tempo. E os líderes, como em todas as épocas históricas do que chamamos de civilização, foram sempre homens, apenas isso, homens. E nenhum deles logrou levar adiante, mesmo os mais sinceros, as realizações inteiras de seus melhores e mais bem intencionados propósitos .

E ao povo, no fim, sobram apenas o panis et circencis; afora o repertório de dor e dúvidas que sempre habitaram a vida do povo, de todos os povos, em todos os tempos.

Uma coisa é fim de carreira, outra é dacadência vestida de vaidade

Nada entendo de futebol, até mesmo perdi o interesse em qualquer jogo da Seleção, desde que compreendi que a equipe hoje não mais representa aquela idéia antiga que Nelson Rodrigues falava, de ser a Seleção "a Pátria de chuteiras".

Hoje, o que se tem é um grupo de mercenários midiatizados, vendidos a peso de ouro a multinacionais do esporte: os clubes europeus e as empresas que produzem material esportivo.

Mas, na verdade o que quero dizer tem a ver com Romário, o chamado Baixinho, que tantas alegrias deu à torcida do Flamengo. Romário bem que tentou, mas jamais chegou a ser um pelé. Agora, quando descobre que desce a rampa da vida, rampa que levará a todos nós a um ocaso, busca desesperadamente chegar aos mil gols, a marca final da glamorosa carreira de Pelé.

Pelo que li, parece que vai ser contratado por um timeco não sei bem de onde, aqui no Brasil, e agora foi chamado a disputar na Austrália um final de campeonato. Na notícia está dito que ele promete "muitos gols".

Vou agora para uma questão mais a aberta: a questão de sabermos quando devemos parar. O ser humano precisa compreender que as coisas são impermanentes. O tempo passa e, com ele, o homem. Se você descobre que algo plajenado tornou-se impossível de ser atingido, deve descobrir outras motivações e, literalmente, sair de campo, coisa que o craque parece não haver compreendido.

É uma pena. Melhor seria haver pendurado as chuteiras quando as glórias ainda o cercavam, do que atirar-se a um jogo em que, mesmo vindo a completar os mil gols, já não mais terá o sabor juvenil da vitória final alcançada em pleno vigor.

sábado, 14 de outubro de 2006

Pedaços da vida, lembranças de Natal

Do meu livro Crônicas para Natal, dois excertos. Dois pedaços de um tempo que vivi como jornalista, trazendo à cena da crônica as coisas de Natal, quando a cidade completava quatro séculos, há seis anos.

A jóia e seu segredo
Jóia de prata, erguida, linda, como um pingo

de elegância no Centro da cidade.

O relógio do Sesc é a caixinha de música do tempo,
tocando uma música que ninguém ouve.


Ninguém ouve, mas entende: uma sinfonia de horas
compassadas, intermináveis horas, futuras e sempre presentes.
Indecisas até o próximo minuto.

Refinada ampulheta, esmerada arquitetura esculpida
em tons de prata, o relógio do Sesc é delicada agulha fiandeira
de dias, informante mudo de que tudo passa.
Quem sabe, esse relógio não seria um cofre delicado,

metal precioso escondendo, dentro, o segredo da eternidade?

Arquitetura bordada de beleza
Casa senhorial, grande edifício de beleza.
Arquitetura elegante, linhas discretas, imponente
simplicidade, o Solar Bela Vista é um sonho bordado pela engenharia clássica.

Suas escadarias são atalhos para se chegar
a um tempo onde as construções eram obras de arte
e os arquitetos esculpiam casas como quem faz um anel de diamante.

Solar Bela vista, salões amplos, onde a arte
descobriu aconchego, seus grandes portais sustentam
cortinas invisíveis. Nobre casa, nobre morada da beleza,
nobre construção feita de grandeza.

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

Meu caro sobrinho, Bruno...

Bruno,
Seu talento e competência pessoal - que o fizeram em menos de três anos passar de foca desajeitado a conceituado jornalista em Mossoró, apesar da pouca idade - me pedem para comentar o noticiário político local, as coisas, os casos, as cavilações e ademanes da política norte-rio-grandense.

Estou acompanhando, neste canto virtual, as coisas do mundo e da política, enquanto, numa espécie de retiro em minha própria cidade, afastei-me do convívio social, preferindo ver o mundo à distância. O volume de estudos a que tenho me dedicado me impede de participar de encontros, almoços, amenidades.

E, para ser sincero, ando mesmo meio descrente da humanidade. Os fracassos da humanidade acabam sendo os nossos próprios fracassos. Assim, é preferível ver os seres humanos com o óculo da internet. E, preferentemente, o mundo que me fica mais distante, como o da política nacional e as coisas todas, loucas ou belas, insanas ou maravilhosas, que fazem o dia-a-dia do nosso tempo.

Mas estou esperando o desfecho da eleição para governador. Sei que muita coisa saltará da caixa-preta da política, tão-logo seja eleito o governador ou governadora. E aí, sim, teremos muito o que comentar. Sem dúvida, com a colaboração do seu texto, hoje o texto de um repórter afinado com o mais alto diapasão da política. Vamos em frente. Espero suas colaborações.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Um homem feito de ninguém

O Bom Dia Brasil cita pesquisa do Dataflha para anunciar: Lula está com 56 por cento das intenções de voto, enquanto Alckmin está com 44, votos válidos. Salvo fato novo contrário a Lula - será que o PT tem ainda algo de podre em seu reino da Dinamarca para prejudicar Lula? - a reeleição segue, em relativa segurança.

A permanecer assim, a situação tenderá a um processo inercial de recuperação de votos por parte de Lula, que teria apenas, pelo efeito-dossiê, retardado o anúncio de sua vitória.

Aos poucos vai se desmanchando a névoa que recobria a figura de Alckmin, de repente guindado à condição de oponente com aparentemente chances de vitória. O candidato em si, em sua essência, jamais teve condições de eleição; não tem biografia para competir com a do presidente Lula.

Ganhou espaços midiáticos que o positivaram frente ao eleitorado em função do dossiê Vedoin. Só isso. E, por isso, o fog da mídia, que nessas horas mais confunde do que explica, permitiu que ele caminhasse pelas ruas do Brasil com a suposta aparência da figura que viria redimir a nação de todas as crateras éticas e criminosas escavadas pelos mais íntimos amigos e seguidores do presidente Lula.

Não veja qualquer incoerência neste texto: quando falo da comparação de biografias, não faça elogio a Lula. Faço justiça. Ele foi, realmente, um grande líder sindical e uma figura que sinalizou ao povo a esperança de um Brasil melhor. Maculou seu passado ao conviver com sequazes ao invés de assessores e ao acobertar asseclas em detrimento de colaboradores. Esse o seu erro, que a história julgará.

Alckmin, ao que sei, foi uma figura apagada e, frente a todos os que se opuseram à ditadura, um homem feito de ninguém. Que eu saiba, é isso. Corrija-me se eu estiver errado.

As pesquisas, desta forma, vão pavimentando a volta de Lula à presidência. Esperemos que não haja novos escândalos e que o presidente efetivamente cumpra o que tinha como compromisso histórico com a nação.

terça-feira, 10 de outubro de 2006

Jornais estão "fulanizando" a campanha

Após o enfrentamento entre Lula e Alckmin, os jornais estão obsessivamente debatendo o debate. Ou seja: não estão acrescentando nada de útil ou importante à agenda das discussões. O momento agora seria de cobrar dos candidatos que, no próximo encontro, tragam a público questões de conteúdo, ao invés de troca de acusações.

Ficar discutindo, em manchetes e textos quem foi melhor ou pior, em nada contribui para o esclarecimento do eleitorado a respeito do voto. Se os jornais passassem a trazer ao espetáculo midiático aspectos programáticos, assuntos de profundidade social, projetos e planos, estariam, sim, dando um passo adiante. Abririam o leque da agenda pública para a inclusão de novas perspectivas na campanha presidencial.

O que hoje ocorre, entretanto, é a fulanização da campanha, fulano versus sicrano, ou, mais claramente, o esvaziamento do plano das idéias em favor do preenchimento da ribalta política.

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

Os debates agora têm capítulos: viraram uma novela

Troca de acusações, escambo de falta de cidadania. Assim pode ser resumido o debate de ontem entre Lula e Alckmin. O petista, que leu muitas das perguntas feitas ao adversário, relembrou os escândalos dos governos tucanos, enquanto Alckmin, olhando diretamente para as câmeras, parecia mais preparado. Claro, foi programado para dar essa impressão.

Tanto foi preparado, que, em vez de seu comportamento midiático diário, em que aparenta bom-mocismo, dava mais a impressão de um arrojado orador, um tipo combativo e polemista emérito. Nada disso, apenas um, talvez, bom aluno do marqueteiro que o orientou.

Para a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy, Alckmin apresentou-se como um "candidato de plástico", tal a impostura do candidato. Quanto a Lula, limitou-se a tergiversar frente às acusações, não respondendo frontalmente a qualquer questionamento. Diga-se de passagem, o mesmo foi feito pelo adversário. Era como se jogassem futebol sem bola.

Li há poucos minutos na versão on line do Estadão uma enquete em que Lula fora visto como vencedor do confronto por 24.79%, enquanto Alckmin obtinha 75.21% da preferência. O jornal não informava o total de votantes. E essa pesquisas pela internet não têm qualquer valor, do ponto de vista técnico.

São mais uma curiosidade. Mas curioso mesmo é que um país chegue ao ponto de ter num palco de TV dois candidatos a presidente da República onde cada um busca o voto popular não pelas suas virtudes, mas pela tentativa de comprovar que é o menos ruim.

Quanto ao espetáculo em si, a Folha disse: "a TV Bandeirantes informou que o debate entre os dois candidatos rendeu 14,2 pontos de audiência, na média apurada pelo instituto Ibope, em sua medição prévia. Nos momentos de pico, a emissora chegou aos 20 pontos, mas não o suficiente para atingir a liderança do horário. A TV Bandeirantes ainda chegou ao segundo lugar, mas somente por alguns minutos e revezando-se com o SBT."

Resumo: o confronto perdeu para o Fantástico, que é programa de TV típico, é espetáculo declarado. Ou seja: o povo ficou mesmo com a fantasia, em vez do pesadelo em que se transformou a eleição presidencial.

De qualquer forma, agora o jogo está aberto. A expectativa é quanto ao próximo confronto. Os debates estão novelizados. Estamos em plena idade mídia na campanha presidencial. Vem aí o próximo debate. The show must go on.

domingo, 8 de outubro de 2006

A cidadania acabrunhada

"O espetáculo não é um conjunto
de imagens, mas uma relação
social entre pessoas, mediada
por imagens."
Guy Debord , no livro "A sociedade do espetáculo"

O debate hoje na Band, entre o presidente Lula e Geraldo Alckmin, se encaixa à perfeição na frase de abertura desta coluna. Tristemente, este país vê seu destino histórico literalmente dependende de um espetáculo televisivo, a ser repetido proximamente pela Globo.

Tristemente, o debate resulta das condições histórico-político-comunicacionais do país, que parece ter se transformado num grande palco, onde políticos encenam uma ópera bufa e o povo paga para ver.

O resultado do primeiro turno foi claríssimo: Lula tinha tudo para ganhar, mas, por incompetência sua e de seus assessores não soube conduzir o clima que lhe era favorável e terminou perdendo terreno para o tucanato. Nisso, é óbvio, teve também o auxílio luxuoso do pandeiro da ala corrupta do PT. A fusão foi fatal para liquidar as pretensões de Lula a uma vitória no primeiro turno.

E Alckmin, que parecia fadado a sofrer uma, como se dizia antigamente, fragorosa derrota, conseguiu dobrar os ânimos petistas e agora mantém algum alento de chegar à presidência da República.

Suspeito que teremos hoje não um debate de idéias, um confronto de visões de mundo, propostas de governo, emissão de compromissos com a socidade.

Os candidatos entrarão na arena da Band como os gladiadores, que não eram heróis, nem guerreiros, mas homens degradados. Não se enfrentavam em batalhas, mas numa carnificina. O que veremos hoje à noite deverá ser um combate, uma troca de acusações. Cada um procurando provar que é bom, reto e justo.

Todos os participantes, desde os candidatos, passando pelos jornalistas, os convidados que estarão no estúdio e especialmente o povo, aqui colocado na condição técnica de telespectador, sabem que ali está em andamento não um debate na essência do termo, mas uma simulação, um simulacro de debate.

Na verdade, estarão se enfrentando dois seres humanos que, desesperadamente, lutam para chegar a um ponto do Poder: a presidência da República. Como ambos são portadores de comportamento político reprovável, cada um buscará apor ao outro todos os defeitos éticos possíveis.

Resumindo: Lula deu total guarida a todos os atos de corrupção de seus seguidores; Alckmin trabalhou firmemente contra a instalação de qualquer CPI que quisesse apurar casos de corrupção em seu governo. Ou seja: é um pelo outro. Ou, como diria o ditado popular: o sujo falando do mal-lavado.

Temo que venha a se tornar um espetáculo deprimente. Será impossível a emissão de um raciócínio mais elaborado, pois o tempo para perguntas e resposta é curtíssimo: perguntas deverão ser feitas em 45 segundos e respostas em dois minutos.

É a ditadura do espetáculo televisivo colaborando para decidir os destinos nacionais. Eu disse "colaborando"? É a ditadura do jogo político, suas sendas escuras, suas retóricas vazias, ajudando a formar o futuro da nação, do seu povo, dos seus pobres. Eu disse "ajudando"?

Sim, quem sabe, ajudando no sentido de Judas; no sentido de traição ao social pelo ganho dos trinta dinheiros do Poder e tudo o que se pode fazer com esse Poder.

A cidadania está acabrunhada. Às oito da noite o Coliseu da Band abre seus espaços. Ave Caesar, morituri te salutant .

sábado, 7 de outubro de 2006

Se fosse nos EUA, era terrorismo

De uma coisa estejamos certos: se o acidente entre o Legacy e o Boing da Gol tivesse sido nos Estados Unidos e os pilotos fossem brasileiros, na certa os dois estariam presos. Como terroristas.

Sem dúvida alguma, qualquer acidente aviatório, nas condições desse que aconteceu no Brasil, lá seria investigado como ato de terrorismo - a esquizofrenia coletiva americana, seu etnocentrisimo doentio, impõe tal comportamento.

Aqui, cumpre-se uma investigação sigilosa e, salvo falha de minha memória, as imagens dos pilotos americanos não foram expostas nem eles concederam entrevistas.

Quem fala em seu nome é um advogado. Quando começaram as investigações, foi-lhes garantida a privacidade. A meu entendimento, caso seja constatada falha dos pilotos eles são criminosos, são assassinos. Cometerem 154 homicídios culposos por imperícia, imprudência ou negligência. A conferir.
Emanoel Barreto