quinta-feira, 16 de junho de 2011

Algo de podre, podre poder

Transcrevo da Folha e abaixo comento:  
A Câmara dos Deputados aprovou ontem à noite o texto básico de uma medida provisória que permitirá ao governo federal manter em segredo orçamentos feitos pelos próprios órgãos da União, de Estados e municípios para as obras da Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada do Rio em 2016.

A decisão foi incluída de última hora no novo texto da medida provisória 527, que cria o RDC (Regime Diferenciado de Contratações), específico para os eventos.
Com a mudança, não será possível afirmar, por exemplo, se a Copa-2014 estourou ou não o orçamento. O texto final, porém, ainda pode ser alterado, já que os destaques só serão avaliados no dia 28.


Pelo texto atual, só órgãos de controle, como os tribunais de contas, receberão os dados. Ainda assim, apenas quando o governo considerar conveniente repassá-los -e sob a determinação expressa de não divulgá-los.
A MP altera ou flexibiliza dispositivos da Lei de Licitações (8.666/1993) para as obras da Copa e dos Jogos. O governo tenta mudar a lei desde 2010, mas esbarrava na resistência da oposição.


Normalmente, a administração pública divulga no edital da concorrência quanto estima pagar por obra ou serviço (orçamento prévio).
O cálculo é feito através da aplicação de tabelas oficiais ou em pesquisas de mercado. O valor é usado para balizar o julgamento das propostas. O governo alega que a divulgação pode estimular a formação de cartéis e manipulação de preços.


Na versão que o Planalto tentou aprovar em maio, a MP prometia disponibilizar os valores aos órgãos de controle e não havia restrição à revelação dos dados.
Além disso, os órgãos de controle poderiam solicitar informações antes ou depois do final da licitação. Agora, a MP diz que o orçamento prévio será disponibilizado "estritamente" a órgãos de controle, com "caráter sigiloso". Também foi retirada do texto a garantia de acesso a qualquer momento por esses mesmos órgãos.


Em tese, portanto, o governo poderia informar valores só após o fim das obras.
O texto foi reescrito ontem pelo deputado José Guimarães (PT-CE), após reunião do colégio de líderes dos partidos governistas na Câmara.
O RDC estabelece outros pontos polêmicos, como a possibilidade de aumentar o valor de um contrato sem limite, na mesma licitação.


Hoje, pela lei, esses aditivos estão limitados a 25% (obras novas) e 50% (reformas).
A ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) pediu unidade na base aliada na votação da MP.


O Ministério das Relações Institucionais disse à Folha que o caráter sigiloso do orçamento estava "implícito" no texto anterior e que a mudança ocorreu para deixar a redação "mais clara".


Ainda segundo a assessoria de Ideli, a possibilidade de sigilo é prevista na Constituição "quando há interesse do Estado e da sociedade".
A alegação é que a abertura de preços reduziria a competitividade e que tudo estará, em algum momento, disponível a órgãos de fiscalização.

...... 
 O sigilo em torno do uso, ou abuso de dinheiros públicos é algo que indicia, suscita de antemão a suspeita. Por que manter fora do alcance da sociedade o emprego dessas verbas? A Copa de 2014 é um evento de dimensões ciclópicas, está atraindo um enxame - ou um magote, uma curriola -, de gente que vai ganhar dinheiro, muito dinheiro. Dinheiro que sem dúvida faltará naquele escolinha de bairro, nas finanças de um hospital público, nas verbas para a Universidade brasileira. Só para ficar nesses exemplos.


O segredamento tem ares de coisa mancomunada, trama, tramoia, conluio protegido por lei. É caso paradoxal, engenhosa manobra político-legal para garantir o convescote que vai girar em torno da copa como moscas sobre... você sabe.


Isso é só o início do que será a Copa em termos de finanças. Depois, depois ficaremos como ficou a África do Sul: elefantes brancos plantados pelo país afora e o povo, bom o povo teve o seu quinhão: gritou gol e ficou feliz pra danado.
A sombra, assombração ou o pudor do Poder

Inventiva, engenho e arte. O talento do fotógrafo cujo nome não pude apurar, flagrou esse instante magistral, transporto a instigante metáfora das coisas do Poder.

O ministro em desgraça é advertido pela sombra da presidente. 

Surreal formulação das coisas, dos escaninhos do Poder: a fantasmática sombra como espectro da punição, dedo em riste àquele que desobedeceu às normas - que deveriam reger - o pudor do Poder. Genial momento de fotógrafo que desconheço.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Transcrevo da Assessoria de Imprensa da UFRN.

Livro
Marize Castro revela preciosidades sobre Zila Mamede


A escritora Marize Castro lança nesta sexta-feira, às 11h30, na Cooperativa Cultural da UFRN, seu mais novo livro: " O Silencioso Exercício de Semear Bibliotecas ". A publicação, resultado da sua dissertação no mestrado em Educação, é um profundo trabalho de pesquisa sobre a obra e a convivência de Zila Mamede com os livros.
Ninguém melhor do que Marize para falar do seu ensaio sobre a trajetória de Zila e sua dedicação na organização de bibliotecas. Confira a entrevista:

Qual a sua relação com Zila Mamede?
Conheci Zila e sua poesia na década de 1980. Ela era a poeta em Natal que mais me suscitava curiosidade. Admirava (ainda admiro, claro) sua preocupação com a forma, seu trabalho com a palavra. Fui vê-la pessoalmente pela primeira vez durante uma aula do Laboratório de Criatividade – uma experiência interessante, que reunia os jovens poetas da época, com professores-poetas como Luís Carlos Guimarães e Franco Jasiello. Zila foi convidada para falar sobre seu processo de criação. Depois da sua fala eu fiquei ainda mais interessada para conhecer sua poesia. No entanto, só fui apresentada a ela em 1984, quando ela estava lançando o seu último livro “A Herança”. Quem nos apresentou foi o poeta Nei Leandro de Castro. Uma semana depois eu lancei meu primeiro livro, “Marrons Crepons Marfins”, e Zila Mamede foi a primeira pessoa da fila para quem eu autografei. Depois não mais deixamos de nos falar. Há um capítulo no livro que eu narro todos os nossos encontros até a sua morte, em 1985.

O que levou você a escrever “O silencioso exercício de semear bibliotecas”?
O livro é fruto de minha dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN, sob a orientação da professora Arisnete Câmara de Morais. Como disse antes, Zila Mamede e sua obra sempre foram de meu interesse. Quando ingressei na pós-graduação esse interesse tornou-se muito mais vigoroso. Pensei: eu posso estudar Zila no mestrado! Então fui ver o que já haviam falado sobre Zila na academia e constatei que a poeta já havia sido estudada, como relato no primeiro capítulo do livro, porém o importantíssimo trabalho dela como bibliotecária permanecia inédito. Daí, resolvi contar a trajetória dessa mulher excepcional semeando bibliotecas naquela Natal da década de 1960.

Foi difícil pesquisar o universo de Zila Mamede com os livros?
Consultei livros de memória de autores como Mailde Pinto Galvão e Umberto Peregrino, mas para reconstituir o trabalho pioneiro realizado por Zila na biblioteconomia potiguar obtive também depoimentos de familiares e de profissionais que trabalharam com ela e, também, fui aos chamados setores de pesquisa dos jornais Tribuna do Norte e Diário de Natal. Inúmeros exemplares desses periódicos foram investigados, sustentando, iluminando a pesquisa. Enfim, nesses arquivos encontrei verdadeiras preciosidades sobre Zila Mamede nos textos assinados por nomes como Sanderson Negreiros, Woden Madruga e Dorian Jorge Freire.

Qual a importância desta obra para a UFRN e para a cultura do RN?
Diferentes abordagens trouxeram Zila Mamede à academia, mas a sua prática na área da biblioteconomia ainda não havia sido estudada. O trabalho pioneiro realizado por Zila de organizar bibliotecas no Rio Grande do Norte e de formar profissionais para trabalharem nessa “construção cheia de livros” – utilizando uma das acepções do Dictionnaire, de Furetière –, estava para ser contado. Este livro narra a trajetória pessoal e a trajetória profissional de uma pessoa que organizou as bibliotecas mais importantes do Rio Grande do Norte: a Biblioteca Central Zila Mamede, da UFRN, e a Biblioteca Pública Câmara Cascudo, acho que somente este dado responde a questão.
Não sou exatamente um admirador da linha editorial da Folha mas esse editorial abaixo vale a pena ler.


A sete chaves

Numa vitória do Estado contra a sociedade, Planalto ensaia recuo na promessa de dar acesso a papéis sigilosos após um máximo de 50 anos

Sob argumentos nada claros, o governo federal indica ter voltado atrás na promessa de empenhar-se pelo fim do sigilo eterno nos documentos oficiais do país.

Pela lei atual, os papéis de teor considerado "ultrassecreto" ficam 30 anos inacessíveis ao público, e esse prazo pode ser renovado indefinidamente. A Câmara dos Deputados decidiu, no ano passado, diminuir para 25 anos o tempo do sigilo, autorizando sua renovação por uma vez apenas.
Mesmo levando em conta a eventual gravidade das informações contidas em papéis do tipo, um total de 50 anos para sua divulgação não parece imprudente.
O projeto da Câmara foi encaminhado ao Senado Federal; a presidente Dilma Rousseff comprometera-se a apoiar sua votação tal como o texto se encontrava.
Recuou, entretanto. Ontem, a nova ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, acrescentou a isso a disposição do governo de manter a renovação do prazo do sigilo por tantas vezes quanto se considerar necessário.
Impede-se, assim, o acesso a informações que, em última análise, não são propriedade do governo, mas de toda a sociedade.
Vieram de dois antigos governantes, segundo se noticia, gestões para manter indefinidamente a guarda dos segredos de Estado. Os ex-presidentes José Sarney e Fernando Collor, hoje senadores, respectivamente, pelo PMDB do Amapá e pelo PTB de Alagoas, manifestaram suas preocupações.
Considerando-se as datas em que ocuparam a Presidência da República, ambos estariam preservados de divulgações inconvenientes por um bom tempo.
Estaria então sendo avaliado, pela ótica dos ex-presidentes, o perigo da divulgação de fatos ainda mais remotos? Quais?

Eis o mistério. Fala-se em acordos celebrados há mais de um século, relativos às fronteiras do país. À medida que se aponta para assuntos desse tipo, contudo, o segredo se torna paradoxal: vêm a público os seus motivos (ou pretextos), mas não seus termos.

Só resta a impressão de que algo -não se sabe o quê, e talvez qualquer outra coisa também- deve ficar escondido. O sigilo justifica o sigilo, eternamente.

Compreende-se a necessidade de cautela. Mas é comum, nas relações entre Estado e sociedade, que o argumento termine levando a abusos muito além dos supostos motivos que a originaram.

Como que movido pela própria natureza, o Estado resiste ao julgamento da opinião pública, mesmo em assuntos recobertos pela pátina do tempo. Pela intensidade da reação, contudo, pode-se inferir o quanto de democracia, ou de autoritarismo, há em seus atos.

Buracos de Natal - Por alunos de Reportagem Pesquisa e Entrevista - UFRN

terça-feira, 14 de junho de 2011

Uma oração

Jorge Luis Borges

Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. 

Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. 

A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. 

Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.

Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.
O povo, o povo são restos a pagar. O povo é uma dívida cuja herança recai sobre o próprio povo. O povo é uma névoa que se esfumaça na penumbra dos gabinetes.

O Aadurn-Sindicato é um processo irreversível



Editorial publicado na coluna da ADURN no Jornal Tribuna do Norte, dia 12/06/2011

Consolidar uma nova forma de organização sindical. É com este objetivo que na próxima quinta-feira, 16 de junho, estaremos realizando uma Assembleia Geral, convocada para convalidar a decisão tomada pela categoria e pelos associados em julho do ano passado em criar o Sindicato dos Docentes das Universidades Federais com base territorial em Natal, Caicó, Currais Novos, Santa Cruz, Macaíba, Macau e Nova Cruz, o ADURN-Sindicato.

O direito dos professores de IFES de se organizar autonomamente em entidades locais, de base municipal, estadual ou nacional é inquestionável, e está amparado na Constituição Federal, na CLT e na Portaria 186 que disciplina a formação e desmembramento de sindicatos no Brasil.

A transformação da ADURN em Sindicato e a formação de um Novo Movimento Docente, plural, democrático e representativo, é uma reação legítima dos professores ao aparelhamento por partidos e correntes que a Andes sofreu ao longo dos anos e que a afastou, definitivamente, dos anseios dos professores das IFES. Isto levou os professores a buscarem novas alternativas de organização, como os Sindicatos Locais e o PROIFES-Fórum, na busca de canais de negociação efetiva de seus interesses, os quais têm obtido pleno sucesso, com os acordos salariais de 2008 a 2010, com a recuperação da isonomia entre ativos e aposentados, com a equiparação das carreiras de ensino superior, básico, técnico e tecnológico, entre outras conquistas históricas.

Esse processo é irreversível, porque emana da vontade expressa pelas bases, que democrática e soberanamente têm aprovado em assembleias massivas e históricas a transformação e a criação de entidades autônomas em relação à Andes.
Reiteramos o compromisso da Diretoria em defender os interesses específicos da categoria, convictos que poderemos contar com o apoio de todos os colegas professores para que possamos aperfeiçoar a democracia sindical, convalidando o ADURN-Sindicato.
É um momento significativo, pois estamos diante de um processo decisório dos docentes na tentativa de construir uma entidade que volte a colocar a categoria dos professores como eixo central de sua linha de ação.

A Diretoria da ADURN reitera que é favorável a mais ampla liberdade de associação dos docentes e que deseja a unidade dos professores na sua luta por um Novo Movimento Docente justo, plural e soberano, mantendo-se autônoma diante de todos os agentes políticos, inclusive o Estado e o aparelho estatal. O movimento dos trabalhadores, especificamente o movimento docente, deve ser pautado pelos interesses da categoria.
Ao defender o direito de cada professor a tomar o posicionamento político que lhe for mais conveniente, a Diretoria da ADURN considera positivo esse novo movimento e espera que, de forma equilibrada, o debate seja conduzido e que se respeite o encaminhamento do processo presente.

A Diretoria manterá sua postura firme em defesa do aprofundamento da democracia na ADURN, pois acredita que a criação do ADURN-Sindicato:
(a) Adéqua a nossa entidade à legislação em vigor, tornando-o um sindicato de fato e de direito. Além de termos a identidade jurídica própria (que já possuímos), teremos todas as prerrogativas legais inerentes a um sindicato;

(b) Reforça a tese da reorganização do movimento docente das federais em bases federativas, já que a nossa entidade construirá a federação dos professores das IFES, aumentando nossa capacidade interlocutória e firmando nossa identidade sindical;

(c) É um passo adiante da nossa entidade, já que aponta para a modernização das estruturas internas da mesma, com a criação de um Conselho Fiscal; o fortalecimento do Conselho de Representantes e a introdução do plebiscito como forma mais democrática de discussão de questões pertinentes;

(d) Significa que a nossa entidade, que será independente e soberana, estará mais próxima dos professores da UFRN, na medida em que seremos nós e não uma direção nacional, que decidirá os rumos a serem tomados nos aspectos políticos, jurídicos e financeiros.

A ADURN se prepara para dar esse salto qualitativo e esperamos contar com a presença dos docentes da UFRN no auditório da Escola de Enfermagem (Campus Central da UFRN, em frente ao Restaurante Universitário), na próxima quinta-feira (16) para escrevermos mais uma página da história da nossa entidade. Lembrando que a sua presença às 9h30min é imprescindível para a instalação da Assembleia.

sábado, 11 de junho de 2011

Sereias ou 0 retroprojetor que encanta

Na aula de ontem com estudantes de Oficina de Texto falei a respeito da crônica, esse gênero bem brasileiro. A crônica se constroi de assuntos pequenos, limitadas parcelas da vida, esquecidos instantes de quase ninguém e que quase ninguém percebe, vê  ou sente. É essa a matéria prima do cronista: o trivial, o tolo esquecido, o delicado refugo da vida que de repente no texto se dá a conhecer.
Ulisses, amarrado, enfrentando o canto magnífico e enganador das sereias

Como exemplo peguei um retroprojetor. Como se fosse um bicho vivo e cheio de manhas ele insistia em não se deixar manusear. Quero dizer: aquela haste que dá suporte à lente estava presa na lateral e aparentava ser impossível erguê-la. 

Depois de muita luta alevantou-se a lente e lá estava a máquina de ver: altaneira e firme como um grande olho de cristal e observar o mundo.

E então, pronta a minha metáfora de coisa insignificante e magnífica, disse que o retro podia ser encarado como uma máquina mágica, uma máquina que via ao contrário, porque uma máquina que exibia o seu olhar. Ao contrário de nós, que puxamos com o olhar a vida - puxamos para nós, puxamos para dentro de nós, para as nossas emoções caladas, o que está no mundo.

Assim, o retro passava a ser vivo e trazia pela luz ao mundo o mundo que escondia em seu ego de objeto vivificado. Os fios como fibras nervosas; a eletricidade como  força,  anima que a fazia coisa alumbradora.

Depois fomos à internet e vimos jornais de outras partes do mundo, jornais de longe de Natal e daquela sala do Setor II. A crônica da vida em mundo virtual envivecido. Acho que foi um grande-pequeno momento. Acho não, foi. 

E aqui, tratando dessa situação momentânea, passageira e de beleza que pude perceber, terminei fazendo uma crônica que se completa com o seu olhar de leitor que por acaso achegou a essa praia feita de letras, remansos e calmaria que dá o que pensar; pensar como meditação boba, de jornalista que datilografa como o fazia em priscas eras, em meio e volutas de cigarro e litros de café.


PS: um dia, ainda um dia, encontrarei uma praia secreta e distante, onde verei sereias. Como Ulisses, como Ulisses...
Leio na Folha e reproduzo:

Edição destaca pioneirismo de Braga

Ao ocupar vão entre jornalismo e literatura, capixaba é apontado como fundador da crônica moderna brasileira

Lançamento traz carta e texto inéditos, além de antologia de trechos, depoimentos, fotos e análises sobre autor

Fotos Divulgação/Arquivo Roberto Seljan Braga

O cronista Rubem Braga em autorretrato não datado

FABIO VICTOR
DE SÃO PAULO

Cigano, Seu Rubis, Lobo, Urso, Sabiá da Crônica, Príncipe da Crônica, Fazendeiro do Ar, Velho Braga.
Quietarrão que disfarçava o banzo em tantos apelidos -alguns dados por si próprio- , jornalista que elevou a crônica ao nível de grande literatura, Rubem Braga (1913-1990) volta à ribalta.
É o homenageado da nova edição dos "Cadernos de Literatura Brasileira", do Instituto Moreira Salles. A série iniciada em 1996, que alcança o 26º número, pela primeira vez se debruça sobre um cronista típico, alguém que fez da miudeza do cotidiano seu substrato e do jornal seu meio.

A deferência se justifica. Como aponta José Castello num ensaio da edição, ao se colocar simultaneamente à margem da literatura e da imprensa, perfilando-se num intervalo entre os dois, Braga "afirma a absoluta singularidade do que escreve" e "se torna o fundador da crônica moderna brasileira".

"Nossa escolha é o reconhecimento da crônica como uma forma literária autenticamente brasileira e de Rubem Braga como nosso cronista mais interessante", diz Antonio Fernando de Franceschi, diretor editorial dos "CLB". A edição do volume é de Manuel da Costa Pinto.
Em termos biográficos, a homenagem não traz novidades para quem leu "Um Cigano Fazendeiro do Ar" (Globo), a biografia de Braga escrita pelo jornalista Marco Antonio de Carvalho.

Mas há uma crônica inédita em livro (e possivelmente na mídia, segundo os editores), em que Braga detalha a criação do seu lendário terraço numa cobertura em Ipanema. E uma carta do cronista a Miguel Arraes (1916-2005), felicitando-o pela eleição ao governo de Pernambuco em 62. Marca dos "CLB", o diferencial está também no conjunto sintético sobre vida e obra do cronista, nas fotos, na antologia de frases e nas análises e depoimentos.
Nesta última seção estão textos de Danuza Leão (leia trecho ao lado), do jornalista Claudio Mello e Souza e do tradutor Boris Schnaiderman -que participou da campanha da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra e critica a cobertura que Braga fez do conflito como enviado do "Diário Carioca".

Além do ensaio de Castello, há os de Humberto Werneck (que selecionou, com Michel Laub, trechos de crônicas) e de Sérgio Augusto. Entre os deslizes, um que decerto faria Braga resmungar: na introdução do "Caderno" ("Folha de Rosto"), há termos e expressões como "inconsútil", "do alto do seu dossel" e "restaura o labor", tão distantes de seu estilo límpido e desempolado.

Como complemento ao lançamento, o blog do IMS (blogdoims.uol.com.br) vai publicar nos próximos dias as três melhores crônicas de Braga escolhidas por um time de jornalistas e escritores. O IMS não bateu o martelo sobre o próximo homenageado dos "Cadernos", mas Franceschi dá a pista. "Vale lembrar que em 2012 teremos os 110 anos de nascimento de Drummond."

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Comunicar erros

Pedimos encarecidamente a quem perceber súbitas e louváveis mudanças de comportamento em

Filhos pródigos
Maridos viciados em cartas
Obcecados por jogos eletrônicos
Políticos corruptos
Portadores de egos narcísicos
Desocupados
Preguiçosos
Mentirosos
Funcionários absenteístas
Fraudadores do fisco
Trambiqueiros de todas as espécies
Passadores de cheques sem fundos
Bebedores de cachaça de macumba
Falsários
Difamadores
E outros elementos que tais,

Comunicar com urgência às autoridades policiais. Esses tipos estarão tramando alguma coisa.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Refocilar no ragabofe

Encerrada rapidamente, a crise no governo é apenas mais um espetáculo da cena brasileira em seu plano político. Enredado em meio a denúncias de concupiscência, digamos concupiscência financeira, Palocci deixa o palco e vejo na Folha que anunciou que agora "quer emagrecer, viajar de férias e retomar a empresa". A "empresa" é a mesma com a qual amuentou seu patrimônio vinte vezes em quatro anos.  

Afastado Palocci, o que temos? Ou melhor, o que tivemos? Muito simples: um homem flagrado em meio às suas trabalhadas com dinheiro e supostamente tráfico de influência, a Folha de S. Paulo capitaneando seu bombardeio, a oposição falando em CPI, blá, blá, blá... Tudo encenação, tudo patuscada. Palocci somente fez o que muitos opositores, podendo, fariam ou fazem. A Folha, por sua vez, não trataria assim alguém do PSDB.

O que quero dizer é que isso é Brasil. Palocci, de forma precautória, já foi inocentado por instância jurídica garantindo-se para o futuro, a CPI acho que não sai e os opositores ficarão à espreita de alguma falha no governo para nova investida. Todos são um mesmo tipo, todos jogam a mesma partida, seguem as mesmas regras, refocilam no mesmo regabofe.

O povo? O povo espera é Copa do Mundo...

quinta-feira, 2 de junho de 2011


Falta de quorum inviabiliza realização da Assembléia


Com o objetivo de convalidar a decisão da categoria docente em transformara ADURN em Sindicato, a entidade convocou Assembléia para esta quinta-feira, 2 de junho. Obedecendo o horário para sua instalação, a primeira convocação aconteceu às 8h30min, no Auditório da reitoria, com segunda convocação às 9h. Contudo, não foi atingido o quorum necessário para sua realização, com a presença de pelo menos 2% dos atuais 2.278 sindicalizados da ADURN.


“Lamento não termos atingido o quorum, pois este é um momento importante para oficializar o caráter livre e soberano da ADURN, escrevendo uma nova página na história do movimento docente. Mas temos a certeza de que a categoria já em diversas ocasiões manifestaram apoio à nossa proposta e que nós queremos encerrar este processo em respeito aos nossos associados”, ressaltou o presidente da ADURN, João Bosco Araújo.


A efetivação do processo consolidará a caminhada que teve como ápice o dia 08 de julho de 2010, quando a maioria dos filiados à ADURN decidiu transformar a entidade em ADURN-Sindicato. Os desafios postos ao Movimento Docente exigem uma organização em que a representação respeite as diversidades colocadas no cotidiano dos professores e propicie uma ampliação do espaço de discussão para problemas que se apresentam no seu dia-a-dia.


“A categoria disse sim à uma nova fase na história da nossa entidade em que reverenciamos o passado daqueles que construíram a nossa história e que agora entrará definitivamente no universo da organização sindical brasileira, cuja célula é o sindicato.


A soberania e a independência da ADURN representará a oportunidade de que a nossa categoria estabeleça, para as futuras diretorias, prioridades nas ações que sejam favoráveis aos professores da UFRN”, enfatiza o diretor de Política Sindical da ADURN, Wellington Duarte.
O povo está nu ou tristes trópicos

O encaminhamento da realização da Copa de 2014 dá-me a sensação de que autoridades e sociedade vivenciam os efeitos do soma, uma beberagem que as personagens de "Admirável mundo novo" ingeriam para sentir-se felizes e ajustadas a uma dada realidade perversa. Será que ninguém percebe que este país precisa de algo mais, muito mais que estádios suntuosos de futebol, templos alucinados de grandeza voltada a uma aventura desportiva que deixará, especialmente aos mais necessitados, uma herança maldita, uma dívida impagável, um custo social imenso e lamentável?
Retirantes, de Portinari: uma visão pungente da condição do povo

Na imprensa, o que se questiona é se as obras estão ou não atrasadas, criticando-se esse atraso. Não há matérias, editoriais, artigos, ação jornalística incisiva questionando a realização da Copa. Algum jornal já pautou repórter para que vá à África do Sul e veja sua realidade após a Copa ali realizada? Algum jornal já pensou em relatar o que ficou de bom, o que mudou na vida dos pobres e miseráveis daquele país? Não. O que se acompanha é o sonho faraônico, o erguimento da grande pirâmide dos estádios chamados de arenas, onde os jogadores, os neogladiadores, irão se enfrentar em prélios renhidos, lutas pela bola.

O povo geme e chora todos os dias nos noticiários televisivos lamentando sua triste sina ante ataques de criminosos, sofrimento nas filas enormes alinhadas frente a postos de saúde e hospitais que mal funcionam ou não funcionam, escolas onde falta merenda, estradas que desafiam a perícia e a paciência dos motoristas. 

A corrupção se alastra como praga incurável e em torno disso há um silêncio grande, no máximo o velho ditado: é isso mesmo.

E assim o povo, adestrado historicamente a esperar felicidade num grito de gol, espera a Copa. E a grande procissão de infelizes canta loas e pede para ver chuteiras em ação. O povo está nu e quer sambar cachaça. O povo está bêbado de gol, esquecendo que a ressaca dessa Copa o levará a uma cozinha vazia. O povo aplaude e ainda pede bis, pois logo depois vai querer a Olimpíada. Tristes trópicos.

domingo, 29 de maio de 2011

 A beleza de Helena

Leio no Estadão matéria do jornalista Luiz Carlos Merten, do Estadão, a respeito de Catherine Deneuve. No trecho que selecionei, registro inusitado: um dos repórteres ficou literalmente paralisado à frente do mito. Diz matéria:

Passaram-se os anos - as décadas -, mas o tempo continua respeitando a bela da tarde. Catherine Deneuve é uma senhora, mas prescinde das plásticas e do botox para continuar impressionando. Se recorreu ao bisturi, foi com muita parcimônia. A silhueta é que está mais pesada. Ela não é mais a loira delgada que cantava e dançava com a irmã, Françoise Dorléac, em Duas Garotas Românticas (Les Demoiselles de Rochefort), de Jacques Demy. Mas canta no novo Christophe Honoré, Les Bien-Aimés, Os Bem-Amados, que encerrou o Festival de Cannes, no domingo passado.
No início da tarde daquele dia, Catherine recebeu um reduzido grupo de jornalistas - quatro, incluindo o repórter do Estado, mas um ficou mudo, decerto pelo choque provocado por estar diante do mito - para falar do filme e de sua extraordinária carreira.

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 Os jornalistas construímos os mitos, exaltamos qualidades e apresentamos defeitos e os mitos aparecem. Positivados ou discrepantes, apolíneos ou bizarros. E muitas vezes, diante de nossa própria obra, caímos a seus pés. A verdade e a ilusão tornam-se aceitáveis desde que lhes tenhamos fé. E assim, diante daquilo que foi criado, perante e beleza de Afrodite, o repórter caiu: como caíam, dizem, as tropas gregas ao ver caminhando pelas cimeiras das muralhas de Troia o perfil magnífico de Helena.

sábado, 28 de maio de 2011

Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces

Liza Minelli
O sangue dos inocentes

Leio na Folha e, abaixo, comento:

MATHEUS MAGENTA
SÍLVIA FREIRE

DE SÃO PAULO

O agricultor Adelino Ramos, líder do MCC (Movimento Camponês Corumbiara), considerado um dos movimentos sociais agrários mais radicais do país, foi morto a tiros ontem em Vista Alegre do Abunã, distrito de Porto Velho (RO).
http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://1.bp.blogspot.com

Foi o terceiro assassinato, só nesta semana, de pessoas que estão no levantamento de ameaçados de morte feito pela CPT (Comissão Pastoral da Terra), ligada à Igreja Católica. Na terça-feira, um casal de líderes extrativistas foi morto em Nova Ipixuna (PA).
Ramos era um dos sobreviventes do massacre de Corumbiara, que ocorreu em 1995 durante a desocupação de uma fazenda em Rondônia. No conflito, foram mortos dez sem-terra e dois PMs.
Os ministros Maria do Rosário (Direitos Humanos) e Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) divulgaram nota repudiando o assassinato do agricultor e cobrando da polícia uma investigação rigorosa.
Eles atribuem a morte a uma provável perseguição aos movimentos sociais.
Segundo a CPT, Ramos denunciava a ação de madeireiros na região da divisa entre Acre, Amazonas e Rondônia.

Ele e um grupo de trabalhadores rurais reivindicavam a criação de um assentamento agrário no local.
No início do mês, o Ibama apreendeu cabeças de gado e madeira no local, que é área de preservação ambiental.

"Isso leva a crer que esse tenha sido o motivo de sua morte", disse a CPT, em nota.
Em 2009, Ramos disse à Ouvidoria Agrária Nacional que sofria ameaças de morte.
Segundo a Polícia Civil de Rondônia, o agricultor foi morto a tiros por um motociclista enquanto vendia verduras produzidas no acampamento onde vivia.
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Análise de texto simples revela: o agricultor era "radical". Ou seja: no subtexto está sugerido que o agricultor era "agressivo", "desafiador", "empedernido", "animoso". Portanto, distanciado do que seria de se esperar de "um homem de bom senso", dialogal e sereno. Objetivamente, o agricultor era "ruim" e sendo assim atraiu a si a reação que o matou.
http://www.google.com.br/search?um=1&hl=pt-BR&safe=off&client=firefox-a&rlz

Percebe como numa só palavra o jornal redigiu todo um editorial? Nota como numa contextualização rasa e pedestre se transfere à vítima a condição de culpada? Esse tipo de jornalismo justifica tudo ou pelo menos amaina e esmaece a fúria de criminosos a soldo de seus mandantes.

Por que não se disse que o agricultor era "coerente" com seus princípios e os efetivava em prática de protesto e denúncia à ação dos que exploram os trabalhadores e ameaçam a natureza? 

Nos últimos dias tem sido noticiado um ascenso do número de mortes de trabalhadores do campo e não vejo na imprensa nenhum sinal de indignação, cobrança editorial ao governo federal para que investigue vigorosamente os crimes e, paralelo a isso, envie pessoal  de segurança que garanta a vida de pessoas ameaçadas. Mais: não há qualquer ação jornalística exigindo uma política de preservação dos recursos naturais, colocando áreas vitais como setores de preservação permanente. 

Os criminosos continuam  lavando suas mãos em sangue e esses herodes sabem que sua impunidade é coisa garantida.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Tempos modernos

Com estardalhaço a Rede Globo lançou em forma de noticiário a chegada dos tablets ao mercado nacional. Foi no jornal da manhã, aquele apresentado por Renato Machado. A notícia cantava loas à maquininha e mostrava até a imagem de jovem que alevantava o seu iPad como um troféu. E, você acredita, os infelizes que estavam na filha de compras aplaudiam tão incrível privilégio? Isso mesmo. Depois, claro, todos saíam felicíssimos: ao comprar cada um o seu deixavam a condição de infelizes, acabavam de apalpar a felicidade.

Ressalto: a portabilidade dos computadores, é óbvio, tornou-se algo importante para os dias de hoje. O computador é ferramenta aliada ao nosso, digamos, desempenho diário. Somos, em parte, maquinizados, mas isso é processso histórico que começou quando as máquinas surgiram e fomos obrigados a nos capacitar a seu uso. 

A questão é que da forma como as coisas estão sendo encaminhadas pelo marketing o homem, que poderia e deveria usar as máquinas como uma espécie de prótese social para seu desempenho seja no trabalho, no lazer, enfim, na vida cotidiana, protetizou-se em função da relação de deslumbre com aparelhinhos como o iPad.

Você sente-se como que obrigado a usar todos os "recursos" do iPad como se fosse um ritual de inserção aos tempos modernos. Veja bem, a palavra recurso indicia algo a seu dispor e, diz o Houaiss, é um substantivo que designa "meio empregado para vencer dificuldade ou embaraço". Todavia, numa espécie de semântica comportamental, o substantivo, o meio, passou a coisa essencial e coloca o ser humano como periférico adstrito à coisa central, ao "recurso". E a pessoa torna-se modernete com o seu iPad reluzente.

Não nego a importância ou validade da iniciativa em si, como instrumental facilitador de nossas vidas. O que deploro é a forma como isso é vendido, tornando-o grilhão de quem o deveria vivenciar como artefato. A sensação de que se deve comprá-lo, a fim de não "ficar por fora".

quinta-feira, 26 de maio de 2011

 Dinheiro não, trabalho sim


http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://tribunaterraboa.com.br
Estão falando em aprovar o financiamento público de campanha eleitoral. Como cidadão, sou contra. Uma campanha nacional repudiando essa manobra chegaria em boa hora. Se não há dinheiro para saúde, educação, segurança, conservação de estradas e aumento do funcionalismo, como há verba para garantir campanha a políticos profissionais? 

Outra coisa: o que garante que eles irão desativar o caixa dois? Nada. Assim, é importante que haja um movimento de sociedade civil em oposição a essa, digamos, atitude, que não diz respeito aos interesses sociais.

O caldo de cultura política nacional é farto em exemplos de locupletação dos dinheiros públicos sem que seus usufrutuários sejam punidos. Desta forma, financiar campanha de políticos será literalmente lhes entregar um cheque em branco, dinheiro que será pessimamente empregado. É preciso acabar com a farra. Dinheiro não, trabalho sim. 

Financiar campanha política é transformar o esbulho em prática institucional, a matreirice em gesto legalizado, a esperteza em golpe socialmente aprovado. Dinheiro não, trabalho sim.

domingo, 22 de maio de 2011

Do  Observatório da Imprensa:


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LÍNGUA & LINGUAGEM
Escrever, falar, pensar

Por Alberto Dines em 20/5/2011
Comentário para o programa radiofônico do OI, 20/5/2011
Escrever bem é pensar bem. Quem tirou este ditado do esquecimento foi, aparentemente, o grande jornalista e exímio prosador mineiro Otto Lara Resende. Erro de concordância, além de doer nos ouvidos, atravanca o pensamento, trava a comunicação. Cria ruídos, comunica erradamente.

É bem-vinda e salutar a polêmica sobre a correção da linguagem motivada pelo livro didático Por uma vida melhor, do Ministério da Educação, que sugere uma indulgência com os erros de gramática. Este contencioso é um dos melhores serviços que a imprensa pode prestar à sociedade.

Mas se a imprensa está efetivamente empenhada em levar adiante a pendência conviria que examinasse o seu próprio desempenho como ferramenta para a divulgação das normas cultas.

Missão da mídia Não podemos deixar de reconhecer que a mídia impressa escreve mal, nosso rádio e nossa TV expressam-se pior ainda. São muitas as exceções, mas também muitas são as comprovações da regra.
Nossos blogs repousam nos impropérios e o Twitter – como sentenciou o escritor e prêmio Nobel de Literatura José Saramago (1922-2010) – está próximo dos grunhidos. Acontece que estes grunhidos muito em breve poderão constituir um jargão. Este é o perigo, porque o jargão é uma "linguagem viciada, disparatada", segundo o dicionarista Antonio Houaiss (1915-1999).

O jargão, na verdade, é uma sublíngua que pode até ser reabilitada e requalificada, mas isso leva séculos. A reversão só acontecerá quando esse jargão for capaz de produzir uma literatura e expressar idéias abstratas.
Cabe à mídia, tanto impressa como falada, evitar que o idioma se transforme em jargão. Ela – e não o governo – será a sua primeira vítima.

sábado, 21 de maio de 2011

Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces

Bob Dylan
http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://i1.r7.com/data/files
Irmã Dulce e o tumulto

--- Walter Medeiros* 
 
O noticiário tem falado sobre a beatificação da Irmã Dulce, neste domingo, 22 de maio de 2011, em Salvador/BA. São aguardadas setenta mil pessoas na cerimônia que mudará a condição daquela que levou a vida realizado um trabalho de valor inestimável em favor dos menos favorecidos. Sua biografia mostra que aquela freira começou ainda jovem a cuidar dos pobres e doentes. Seis décadas atrás ela improvisou uma enfermaria num galinheiro em terreno onde hoje há um hospital que atende gratuitamente 150 mil pessoas por mês e emprega muita gente que ela amparou. E na forma das leis canônicas, a ela é atribuído um milagre considerado comprovado. Irmã Dulce morreu em 1992, aos 78 anos. 
 
A imagem da nova beata, tão marcante – aparentemente frágil, mas ao mesmo tempo tão forte – faz recordar um episódio vivido nos anos oitenta, em Salvador, quando da realização do Congresso Nacional dos Jornalistas Profissionais. Naquela época eu era delegado do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Norte e Diretor da Federação Nacional dos Jornalistas. Havia uma disputa muito grande entre os jornalistas ligados aos partidos da esquerda e o Partido dos Trabalhadores – PT, ao mesmo tempo em que todos lutavam pelas liberdades democráticas, eleições livres, pelo fim do regime militar. 

Mas nas discussões, a coisa era bem acirrada. Haviam debates acalorados e qualificados entre companheiros da estirpe de Audálio Dantas, Rogério Medeiros, Armando Rollemberg e tantos outros, que muito fizeram nas históricas lutas da nossa categoria. Numa tarde do Congresso de Jornalistas, havia um impasse, um petista subiu à mesa e tomou o microfone para tentar forçar o rumo da assembléia. A platéia discordou do tumulto e partiu para uma imensa vaia: trezentos jornalistas vaiando a mesa no Centro de Convenções.

Estava agendada para aquela mesma hora uma visita de Irmã Dulce, que proferiria uma mensagem aos presentes. Ela chegou pontualmente e, desavisadamente, abriram a porta que dava acesso ao auditório e a introduziram ao recinto. Em  meio àquela ovação, lá seguia aquela freira pequena e magra, de vestes brancas, no rumo da mesa dos trabalhos, debaixo de vaia. 

Rapidamente a platéia percebeu, e numa cena impressionante a vaia foi revertida numa sucessão de aplausos jamais presenciada. O clima mudou completamente e ela fez sua rápida preleção.
Depois que ela saiu, não havia mais aquele ímpeto de desacato, de briga, de enfrentamento violento, pois houvera até alguém com um microfone na mão para passar em outro alguém. A assembléia retomou seu ritmo normal e os jornalistas brasileiros concluíram sua pauta de reivindicações e protestos por dias melhores para o povo brasileiro. Recordo bem aquele momento, em que qualquer um percebia que o destino de Irmã Dulce seria algo além daquele seu trabalho social, que por si só já era uma coisa tão inegavelmente divina.
*Jornalista
Lalo de Almeida/Folhapress
Vida de povo, vida de gado

Leio na Folha e logo abaixo comento: Em um abrigo de ônibus da avenida Padre Pereira de Andrade, em Alto de Pinheiros (zona oeste de SP), garranchos coloridos formam um painel de pichações. Na av. professor Fonseca Rodrigues, perto da praça Panamericana, o spray deixa um palavrão e a reivindicação: "Passe livre aos estudantes".
A situação de abandono e depredação dos cerca de 7.000 abrigos de ônibus com cobertura da capital foi constatada pela Folha em 20 pontos diferentes, nas zonas oeste, sul e central. 

O sentimento comum entre os usuários ouvidos é de resignação. "É comum tomar chuva debaixo do abrigo, mas a gente nem repara, porque já estamos acostumados", diz a doméstica Simone Molica, 42, que estava na avenida Jabaquara. 


"Onde há abrigos, estão mal conservados, falta limpeza, pintura e arrumar as coberturas, que muitas vezes estão quebradas", diz a professora Rosa Maia, 37, que esperava um ônibus na av. Brigadeiro Luís Antônio."Às vezes todas as telhas estão quebradas", diz o aposentado Eliakim Bezerra, 69, na rua Fagundes Filho, na Saúde (zona sul). O ponto ficou cerca de seis meses com o teto arrebentado e foi consertado há um mês. 

Em toda a cidade, há cerca de 19 mil pontos de ônibus --63% deles não têm cobertura. Apenas 4.000 possuem assentos, que são colocados preferencialmente perto de hospitais, escolas e asilos.
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Elegia do povo só


Sina ou sorte perigosa, eis a visão do povo: 
largado à própria sorte, cabisbaixo e perdedor. 
Acostumado com o medo, se abriga sempre ao léu.
Depois, triste e decaído,
caminha ao seu próprio fim


Nos arrabaldes da vida, se perde onde puder.
Se puder, pede ajuda, que de ninguém não terá.
E tendo o que não é ter
Sabe que jamais terá o que o seria o tal ter. 


O povo é um bicho manso,
perdido num campo grande.
É gado que come a fome
E da fome enche a barriga.

Depois nem berrar não pode
Que disso desaprendeu.
E calado segue o passo
Até se tornar jamais.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

 A Adurn como sindicato

Recebi da Associação dos Docentes da UFRN-Adurn, texto que abaixo publico:

Por que o ADURN-Sindicato? Para que a entidade tenha identidade própria e seja, de fato e de direito, um Sindicato,com todas as suas prerrogativas organizacionais e jurídicas.

E o que há de novo no ADURN-Sindicato? Além de adequar a entidade às normas legais vigentes e ao espírito do Novo Movimento Docente, a categoria aprovou um Estatuto que privilegia a democracia direta, instituindo o plebiscito como forma de colocar o associado sempre em consonância com a discussão das grandes questões que envolvam a categoria docente.

Para consolidar o ADURN-Sindicato, 20% dos associados precisam participar da Assembléia no dia 2 de junho e convalidar o que já foi decidido e aprovado pela maioria da categoria em julho de 2010.

Consolidar o ADURN-Sindicato é olhar para o futuro. Para um Sindicato que terá LIBERDADE para decidir seus rumos, SOBERANIA para tratar de temas que tenham impacto direto na categoria e INDEPENDÊNCIA para contribuir para a construção da FEDERAÇÃO de professores das IFES.

Portanto, a Diretoria da ADURN CONVOCA a categoria, pedindo que os colegas façam um esforço para comparecer à Assembléia no dia 2 de junho, no auditório da Reitoria da UFRN.

Fortaleça sua entidade. Participe!
Por uma ADURN Livre e Soberana!

terça-feira, 17 de maio de 2011

Depoimento da professora Amanda Gurgel

Deu no Observatório da Imprensa:

COMUNICAÇÃO INCOMUNICÁVEL
Quarto Poder pediu demissão
Por Alberto Dines em 17/5/2011
Até recentemente quem estava nas manchetes da mídia impressa era a própria mídia impressa: "O jornalismo no papel vai acabar", "Jornais estão condenados" etc., etc., são títulos fake, obviamente inventados por este observador para retratar o clima funesto e apocalíptico que envolvia e envolve tudo o que se relaciona com a mídia impressa.
Acontece que nos últimos tempos o noticiário vem se encaminhado na direção contrária: quem está visivelmente atrapalhada é a vasta galáxia cibernética. E, apesar disso, nem os veículos impressos nem os digitais conseguem recolher, compactar, contextualizar e dimensionar a sucessão de acidentes numa análise serena e ordenada.

Em pouco menos de um mês tivemos os buracos na "nuvem" da Amazon, a admissão do fracasso do jornal-tablete The Daily, depois o perturbador aviso da Sony de que as conexões do sistema Playstation foram manipuladas por hackers.

Agora são emitidas sérias advertências sobre a iminência de uma bolha causada pela irracionalidade da competição entre as empresas de TI. Campeia uma briga de foice entre os alucinados gigantes do setor. O mundo midiático jamais assistiu a um vale-tudo com estas proporções e intensidade.

Real e virtual
Entre as dramáticas revoluções ocorridas desde o fim do século 19 no campo da comunicação – pelo menos 10 – nenhuma foi tão drástica, surpreendente, trepidante e desnorteadora como a que estamos vivenciando, como agentes ou pacientes.
O grande problema é que este desvario está sendo informado de forma fragmentada, intermitente, insuficiente e disfarçada. A mídia digital não tem fôlego nem perspectiva para se autoanalisar enquanto a mídia tradicional encontra-se tão emasculada e autoaviltada que perdeu suas referências e a capacidade de enunciá-las.

"Paramos as máquinas, amanhã estaremos no twitter", proclama o "Cidadão Kane, Parte II". A mídia impressa assumiu-se como moribunda quando anunciou o seu funeral como se fosse façanha. E, enquanto não some definitivamente, saracoteia travestida de internet fingindo-se wired, plugada. O virtual impõe-se ao real, tudo é símile e simulação.

Processo irrefreável O espetáculo chamado progresso tem os comunicadores como protagonistas, mas não consegue se comunicar. Estamos vivendo uma hora estelar com a cabeça enfiada na areia e o bumbum apontado para a Via Láctea. Simplesmente porque os papeis estão trocados e truncados – vendedores de maquinetas imaginam-se filósofos e filósofos estão mesmerizados: preferem investir nas bolsas em vez de tomar a sua dose diária de cicuta.
É evidente que o processo digital não será revertido, nem freado. É evidente também que esta alucinação generalizada só interessa aqueles que cansaram de ser Quarto Poder.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Transcrito do Forum Nacional dos Professores de Jornalismo
O fim da educação
Nelson Pretto
De Salvador (BA)

A vida de pesquisador nas universidades está ficando cada dia mais estranha. Quando comecei minha vida acadêmica no Instituto de Física da Universidade Federal da Bahia, recebi logo na chegada um lugarzinho, uma sala com ar condicionado, escrivaninha, cadeira, máquina de datilografar, um telefone - que na verdade não funcionava lá muito bem! -, papel e caneta. Os livros, estavam na biblioteca ou os comprávamos, porque também não se publicava tanto quanto hoje. Dividia a sala com mais um colega e, dessa forma, fazia minhas pesquisas sobre o ensino de ciências e dava aulas na graduação. Depois, passei a integrar o corpo docente da pós-graduação em Educação e, também por lá, sem nenhum luxo e bem menos infra, tinha as condições mínimas para pesquisar sobre a qualidade dos livros didáticos, campo inicial de pesquisa na minha vida universitária.
O tempo foi passando e a universidade foi se especializando no seu novo jeito de ser. Foi crescendo e ganhando força a pós-graduação, apareceram os grupos de pesquisas que passaram a ser cadastrados no CNPq, surgiu o Currículo Lattes - o Orkut da academia -, a CAPES intensificou a avaliação da pós-graduação e... a guerra começou. Com as demandas para a pesquisa cada dia sendo maiores e o com os recursos minguando (o Brasil investe em C&T apenas 1,2% do PIB enquanto os Estados Unidos, por exemplo, investem 2,7%), a avaliação da produtividade - palavrinha estranha no campo da pesquisa científica, não?! - ganha corpo, no Brasil e no mundo. "Publicar ou perecer" virou o mantra de todo professor-pesquisador. Mais do que isso, nas universidades não temos mais aquelas condições básicas dadas pela própria instituição já que, de um lado, ela foi perdendo cada vez mais seu orçamento de custeio e, de outro, as demandas aumentaram muito uma vez que, mesmo na área das Humanas, necessitamos de muito mais tecnologia. Por conta disso, temos que, literalmente, "correr atrás" de recursos através dos chamados editais. Assim, cada grupo de pesquisa vive em função de sua capacidade de captação de recursos - quem diria que estaríamos falando assim, não é?! - e transformaram-se em verdadeiros setores administrativos nas universidades. Demandam secretários, contadores (esses, seguramente, os mais importantes!), administradores, bibliotecários, constituindo-se em um verdadeiro aparato burocrático para dar conta das cobranças formais de cada um destes editais e de suas famigeradas prestações de contas.
Pois quando pensamos que já estávamos no limite, e os colegas Waldemar Sguissardi e João dos Reis da Silva Jr com o seu "O trabalho intensificado nas Federais" mostraram bem o fundo do poço, sabemos através do colega Manoel Barral-Neto no seu blog "Sciencia totum circumit orbem" que pesquisadores chineses estão recebendo um "estímulo" equivalente a 50 mil reais para publicar suas pesquisas nas revistas de "alto impacto" científico, a exemplo da Science. Nos comentários que se seguiram ao texto, tomamos conhecimento com a postagem de Renato J. Ribeiro que a Universidade Estadual Paulista (UNESP) está dando um prêmio de cerca de 15 mil reais para quem publicar na Science ou Nature, duas revistas de alto "fator de impacto".
Também de São Paulo outra noticia veio à tona recentemente: o resultado da última avaliação realizada pelo Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp) apontou que os estudantes não se deram muito bem na avaliação de 2010. É com base no rendimento dos alunos que os professores da rede estadual paulista recebem uma gratificação - um bônus - no seu salário, num esquema denominado "pagamento por performace", implantando no Estado supostamente para "estimular" a melhoria da educação paulista. O que se viu com os últimos resultados é que essa estratégia não funcionou.
E não funcionou porque esse não pode ser o foco da avaliação da educação. A educação, em todos os níveis, precisa ser fortalecida, mas não como o espaço da competição e sim como um espaço de formação de valores, da colaboração e da ética. Em qualquer dos seus níveis, a educação precisa ser compreendida como um direito de todo o cidadão e que não pode ser trocada por uns trocados.
Lembro Milton Santos: "essa ideia de que a universidade é uma instituição como qualquer outra, o que inclui até mesmo a sua associação com o mercado, dificulta muito esse exercício de pensar". De fato, com um dinheirinho extra por cada publicação, com um novo edital disponível para o próximo projeto, com a avaliação da CAPES na pós-graduação batendo às portas, deixando todos de cabelo em pé, e com a lógica do "publicar ou perecer", parece que estamos chegando perto do fim da universidade enquanto espaço do pensar e do criar conceitos. Viramos, pura e simplesmente, o espaço da reprodução do instituído.
E isso é, no mínimo, lamentável. Na verdade, é o próprio fim da educação.


Nelson Pretto é professor e já foi diretor (2000-2004 e 2004-2008) da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia. Membro titular do Conselho de Cultura do Estado da Bahia. Físico, mestre em Educação e Doutor em Comunicação.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Chuva três dias sem parar
 
Agrada-me a chuva. Percalços à parte,
o tamboril da água em gotas sobre o telhado, 
os vidros embaçados da casa ou do carro, 
os passos apressados em meio à torrente que cai,
o recolhimento das pessoas, disso eu gosto.
Agrada-me a chuva. 
Tomara que chova três dias sem parar.