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quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Frei Damião falava ao povo e a multidão pedia o comunismo

 Por Emanoel Barreto

 Creio que foi no ano da graça de 1980 que tive a oportunidade de entrevistar a venerável figura de Frei Damião, o santo do sertão, amado do povo, protegido de Deus e de Nossa Senhora, vindo da distante cidade de Bozzano, Itália, para cuidar do rebanho de sertanejos, preservar a fé e encaminhar as almas todas para o Céu.

Fui à cidade de Ceará Mirim, pouco mais de 40 minutos de Natal, onde ele se encontrava. Encontrei-o na igreja matriz. Abençoado templo povoado por imagens de santos e de anjos, querubins e serafins. A pequena e cândida figura atendia em confissão a enorme fila de mulheres cobertas por véus e envoltas em doce auréola de rezadeiras, como só as existem no Nordeste. Mulheres suadas de fé.

E eu fiquei olhando para elas. Atentei para suas bocas que fervilhavam baixinho rezas velhas, mistérios sussurrados em uma língua estranha que jamais consegui apreender desde quando, ainda menino, olhava minhas tias fervorosas diante de uma vela e de uma imagem de Nossa Senhora. Deviam ser coisas muito altas, evoladas da inefável religião dos bons, áugúrios de uma vida melhor depois da morte, quem sabe o repouso calmo no regaço da Virgem.

Preste atenção na boca de uma velha rezadeira: é ali que mora a alma, tenho certeza. A minha mente de repórter, todavia, estava preocupada com algo mais urgente e menos devoto: o tempo. Eu tinha hora para voltar à Tribuna do Norte e fazer o meu texto.

Com alguma insistência junto a um auxiliar do beato consegui parar a confissão e ele me atendeu. Confesso, sem trocadilho algum, que nem mesmo sei o que perguntei. Mas, o que mais valia era relatar o encontro dulcíssimo do pastor com o seu rebanho, captar o ambiente angélico, a doçura do olhar do Frei, seus conselhos e penitências passadas àquelas pessoas sacras e pias.

Saí, confesso novamente, com a alma cheia de alguma candura - certamente meu coração de repórter, feio e mau, tocado pelos instantes miríficos. Assim, de volta à redação, encontro com outra figura humana portentosa: Dorian Jorge Freire, diretor de Redação. Católico, minúsculo de tamanho, mas enorme em sabedoria e humanismo.

Terminado o meu texto, Dorian, que também tinha grande espírito de humor, contou-me o seguinte: 

Certa vez, Barreto, Frei Damião estava com suas missões pelos sertões distantes. Fazia sua costumeira pregação contra o pecado, a devassidão e o adultério. Defendia o sacramento do matrimônio e dizia que, sem ser casado, o casal era "como o cachorro e a cachorra, o touro e a vaca." . Advertia também a todos contra o perigo do comunismo vermelho e ateu.

E dizia: "O comunismo é pecado grande, pecado mortal. O comunismo é a besta-fera que vem para desafiar o Evangelho. O comunismo é o perigo até mesmo para as mocinhas." O povo olhava e ouvia tudo, pasmo, temeroso, pronto para fugir, caso o comunismo chegasse a qualquer instante.

  Parecia até que o comunismo estava por ali, pronto para desferir seu bote. Afinal, Frei Damião fez sua última invectica contra o comunismo periculoso e bradou ao povo sertanejo, como se fora um novo Conselheiro: "E então, quereis o comunismo?, e o contrito povo, procissão desvelada e crente, respondeu piedosamente, em coro monumental "Quereis!"

 

 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Como a ditadura vigiava a Cooperativa dos Jornalistas de Natal

Por Emanoel Barreto

A Fundação da Coojornat, Cooperativa dos Jornalistas de Natal-Coojornat, aconteceu dia 1º de outubro de 1977. Para os jovens que a haviam criado - com o incentivo do cartunista Henfil, então morando em Natal -, era uma conquista. Uma fresta na luta contra a ditadura. Dermi Azevedo era o presidente, Arlindo de Melo Freire vice, e eu secretário – Dermi e Arlindo hoje são saudade.

Dias depois da fundação, uma desagradável surpresa: uma desagradável surpresa pelo menos para mim. Veja só: nós havíamos alugado uma casa na Rua São Tomé, Cidade Alta, em frente ao Senac. Ali seria a sede da Coojornat. Num sábado, poucas semanas após a autorização para funcionamento, fazíamos uma espécie de inauguração festiva, um congraçamento. Cheguei por lá mais ou menos às três da tarde; da rua ouvi música. Som muito alto. Estranhei, porque não tínhamos contratado qualquer serviço de som, muito menos com aquela potência toda.

Parei o carro a uns 20 metros da Cooperativa, pensando: "Quem diabo contratou esse som?", e continuei andando. Quando cheguei em frente ao Senac, descobri: a música vinha de lá mesmo, do Senac, que promovia alguma festividade. Superada a pequena dúvida entrei na sede da Coojornat e fiquei por lá, conversando com um e com outro. Nisso, entram dois sujeitos que se dirigiram a mim e se "identificaram": um era "jornalista", o outro "bancário".

Estranhei a visita por um motivo simples: o que um bancário teria de interesse numa cooperativa de jornalistas?  E o "bancário" era o que mais perguntava. Expliquei que eu era o secretário da Cooperativa e falei do projeto como um todo. Então, o que se dizia jornalista quis saber se eu tinha o estatuto da Coojornat. Respondi que sim, mas o documento estava em minha casa. Rápido, ele perguntou: "Posso passar lá, para ver os estatutos?", eu respondi que sim, dei o endereço e marquei para que ele fosse à noite me procurar.

Os tipos agradeceram e foram embora. Minutos depois chega Dermi Azevedo e eu lhe  conto o caso, já sentindo que boa coisa aquela visita não fora . Dermi disse: "Barreto, você ficou doido? Isso é o SNI, Barreto."
Respondi: "Dermi, eu sei, rapaz. Mas, quem não deve não teme. Os caras vão lá em casa lá pelas sete da noite.Vamos ver no que vai dar."

E Dermi: "Então, tome cuidado". E cuidado foi o que não deixei de tomar. Avisei a um cunhado que morava vizinho e mim.  À minha mulher, grávida de nossa segunda filha alertei que iríamos receber um mau elemento. Feito isso, começou a espera. Meu cunhado ficou na sala da casa dele aguardando para intervir se fosse preciso, enquanto minha mulher estava trancada num quarto.

Devo dizer: não sei se a pouca idade - eu tinha 26 anos - ou a convicção de que nada fazíamos de errado, mas o fato é que a palavra medo sequer me passou pela cabeça. Havia, claro, a certeza de que alguém muito mal-intencionado viria, mas o enfrentamento não me causou qualquer abalo. Estava precavido, intimidado não. 

Pouco depois das sete o sujeito chegou. Subiu os degraus da entrada da minha casa e eu o recebi. "Boa noite, boa noite. Vamos sentar", foi o diálogo inicial. O elemento sentou-se a meu lado e aí começou um ridículo interrogatório travestido de conversa. O treinamento do agente, um reles espião de baixíssima categoria, era básico. Limitava-se fazer perguntas que tentavam induzir-me a dar respostas de contestação à ditadura, como se fosse ele um jornalista insatisfeito com o regime, em confidência com um colega.

Exemplo: "A Cooperativa trabalha para quem?
Resposta: "Somos uma entidade, uma cooperativa de mão-de-obra intelectual. Prestaremos serviços de assessoria de imprensa e teremos um jornal próprio."
"Vão trabalhar também para o governo?"

Ao que eu disse: "Se formos contratados, por exemplo, por uma Secretaria de Estado para fazer assessoria de imprensa, consultoria ou um jornal, sim."
E ele: "Mas, aí, vocês vão perder a independência."

Eu disse: "A finalidade da cooperativa não se resume ao jornal próprio. Queremos ampliar o espaço de trabalho da categoria, entende? E saiba que isso não vai interferir em nossa independência."

E a conversa seguiu nesse tom. Eu sabia que tinha de dar respostas exatamente opostas ao que ele esperava de mim. Ou seja: se concordasse com tudo o que ele dissesse contra o governo daria ao agente munição para fazer relatório dizendo que a Coojornat era mesmo uma célula comunista perigosíssima. E nesse conto de vigário eu não iria cair. Então, dava respostas as mais cândidas possíveis. 

Percebendo que a tática investigativa tosca não estava dando certo - a abordagem pura e simples da atuação da Cooperativa -, ele partiu para o ataque direto: começou a falar mal do ditador Ernesto Geisel. Para o investigador, era a última cartada. O agora ou nunca. Fechei-me em retranca e em nenhum momento concordei com o que ele dizia. Afinal o homem desfechou um golpe fendente: "Esse presidente é um safado."

Não sei de onde tirei um argumento inesperado, mas sei que que desarmou o sujeito: "Acho que não. Pelo que soube, ele já foi secretário da Segurança no Rio Grande do Norte - e disse lá um ano qualquer - e, nessa época, um rapaz foi preso sob acusação de ser comunista. Depois, descobriram que o cara não era comunista coisa nenhuma e ele, Geisel, foi pessoalmente libertar o prisioneiro." 

Mesmo assim o investigador não se deu por vencido: Disse: "É, mas tem uns assessores escrotos..." O "assessor escroto", para o agente, era o ministro de Minas e Energia, Shigeaki Ueki que já admitira a possibiolidade, mesmo que longínque de privatizar a Petrobras. O investigador disse isso com todas da letras: "Ele quer entregar a Petrobras." Aí eu comecei a ficar irritado com o nível sórdido da investigação e fui claro com o tipo: "Colega, você tem aí algum documento que prove que você é jornalista? Como você sabe em nossa profissão tem muito picareta, e dessa gente não gosto."

Ele respondeu: "Claro". E escandiu a palavra: "Claaaaaaaaaaaaaaaaaaaro!" E então, na sequência da resposta, cometeu o erro que o desmascarou por completo. Disse: "É bom você me pedir o documento, amigo. Em nossa profissão tem muita infiltração. Nunca se sabe, né?"

Explicando: picareta, em jornalismo, é aquele cara que vive de expedientes, ganha propinas,  faz louvações, essas coisas. Infiltração, algo bem diferente. Infiltrado dizia-se de pessoa de esquerda que atuava em qualquer ambiente visando difundir a ideologia socialista, os famosos agitadores

Em seguida ele, pelo excesso de documentos que me apresentou, provou o que não era. Puxou do bolso uns dez documentos que o diziam jornalista: desde uma fajuta carteira de sindicato até uma autorização para cobrir visita presidencial à Paraíba, estado de onde se dizia originário. Mostrou também carteira de radialista, noticiarista de não-sei-de-onde, repórter de jornal-fulano-de-tal; isso, aquilo, aquilo outro. 

Pronto: para mim, estava desmontada a farsa. Mas ele insistia: "Você me disse que tem os estatutos da cooperativa, não foi?

Eu disse: "Foi." E completei: "Por sinal, é idêntico ao da Coojornal, do Rio Grande do Sul, com pequeníssimas modificações, relativas à realidade local."
Qual não foi minha surpresa quando ele disse: "Ah, mas se é assim, não quero." Respondi: "O quê? Não quer?", perguntei, já começando a me exaltar. "Não quer, por quê?"

Ele respondeu: "Porque os estatutos da Coojornal nós - veja bem - nós já temos..."
Eu disse: "Mas eu insisto."

Saí um instante da sala, e voltei com um calhamaço na mão. Mantive-me de pé, deixando claro que ele tinha de sair de minha casa. "Pronto", eu disse. E continuei: "Está tudo aqui. O amigo veio buscar, o amigo vai levar."

E quase atirei a papelada em cima dele. Acho que, naquele instante, o agente viu que tinha perdido o seu tempo: não iria levar nenhum relatório espetacular a seus maiores, nem  jactar-se de haver descoberto um terrível complô comunista em Natal. 

Entreguei os papéis e mantive-me de pé; grosseiramente de pé. O sujeito, sentado e perplexo. Afinal levantou-se, pôs o documento debaixo do braço e pediu desculpas pelo tempo que me havia 

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Jornalistas exigem aumento salarial; não dá mais pra segurar

Recebo da jornalista Mara Medeiros informe a respeito da reivindicação salarial da categoria, que amarga no Rio Grande do Norte o pior salário do país. Situação indigna e inaceitável. Os jornalistas precisam e devem mobilizar-se, reunir esforços, somar competências. Enfim, agir sob o comando da consigna habilidade e força a fim de superar essa etapa que somente nos amesquinha enquanto pessoas, profissionais e sujeitos históricos.
http://www.google.com.br/imgres?q=journalism&hl

No texto recebido registra-se o comparecimento de oito - oito! - jornalistas à assembeia que decidiu pela mobilização. Assim não dá. Precisamos criar sentimento de classe, firmar uma cultura de resistência e um senso comum de repúdio a uma situação conjuntural que se mostra perversa ante nossa falta de ação. Temos seguidamente sucumbido ante o poderio das empresas que se negam a uma negociação madura e dignificante de seus trabalhadores.

Segue a matéria recebida:

O novo piso salarial dos jornalistas a ser sugerido na negociação com o patronato, decidido em Assembleia realizada nesta terça-feira, é de R$ 1.194,00. Um aumento de R$ 244 sobre o piso atual de R$ 950. O reajuste equivale a pouco mais de 25%.

A base de cálculo incluiu 7,4% da inflação do período (R$ 70,3), mais 7,5% do PIB (R$ 71,25), e ainda um ganho real de R$ 10,24% (R$ 97,28). A porcentagem do ganho real foi calculada para que atingíssemos a média salarial dos pisos no Nordeste.

Também ficou acordado que iremos pedir R$ 416,9 de auxílio alimentação. O valor equivale a R$ 18,95 ao dia e por 22 dias úteis. Esse cálculo também não é aleatório. Foi baseado na pesquisa Assert com os valores pagos no Nordeste.

A soma, portanto, do reajuste do novo piso, mais o auxílio alimentação, daria o valor de R$ 1.611,00. As cláusulas ditas sociais, como anuênio, hora extra etc, serão as mesmas negociadas no ano passado e que não foram aprovadas pelo patronato.

A diretoria do Sindjorn atualizará essa pauta, que será protocolada e entregue ainda essa semana aos patrões, para que seja marcada a data da primeira negociação, estimada em um prazo de 10 dias.

Para que consigamos atingir essas metas precisamos de muito mais participação da categoria do que foi visto nesta primeira assembleia. Foram oito jornalistas, afora a diretoria. Agradecemos também a presença do vereador George Câmara.

Daremos início à mobilização. Tentaremos contato com os DCEs das universidades para chamar estudantes. Já estão sendo providenciadas audiências públicas na Câmara e Assembleia para discutirmos o assunto e levarmos ao conhecimento da sociedade.

Mas o mais importante é a presença da categoria. No ano passamos conseguimos a maior mobilização das últimas décadas. Mas diante das discussões burocráticas durante as assembleias e a demora da negociação, o movimento perdeu força e finalizamos com uma meta aquém do esperado.

Aprendemos com o ocorrido e este ano queremos mais. A pauta social tão discutida no ano passado já está praticamente fechada. As assembleias serão realizadas para discutir a mobilização e possíveis ações enérgicas para atingirmos nosso propósito.

Por isso, precisamos da força de vocês, jornalistas. Conclamamos, sobretudo os estudante e concursados. Vocês podem nos ajudar muito nessas ações. Sabemos o quanto é difícil aos empregados da iniciativa privada. Ainda assim, temos a certeza da participação de muitos.

Por fim, agradecemos a presença nesta primeira assembleia dos oito jornalistas presentes: Gustavo Farache, Edmo Sinedino, Wagner Lopes, Patrícia Cordeiro, Alexandre Othon, Rafael Duarte, e do repórter fotográfico Ney Douglas.

OBS: O blog dos Jornalistas do RN em Luto voltou à ativa. Para saber o dia-a-dia da campanha e da mobilização, basta acessar http://jornalistasdornemluto.blogspot.com/

À luta jornalistas!

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Visite www.jornalistasdornemluto.blogspot.com

sábado, 21 de maio de 2011

Irmã Dulce e o tumulto

--- Walter Medeiros* 
 
O noticiário tem falado sobre a beatificação da Irmã Dulce, neste domingo, 22 de maio de 2011, em Salvador/BA. São aguardadas setenta mil pessoas na cerimônia que mudará a condição daquela que levou a vida realizado um trabalho de valor inestimável em favor dos menos favorecidos. Sua biografia mostra que aquela freira começou ainda jovem a cuidar dos pobres e doentes. Seis décadas atrás ela improvisou uma enfermaria num galinheiro em terreno onde hoje há um hospital que atende gratuitamente 150 mil pessoas por mês e emprega muita gente que ela amparou. E na forma das leis canônicas, a ela é atribuído um milagre considerado comprovado. Irmã Dulce morreu em 1992, aos 78 anos. 
 
A imagem da nova beata, tão marcante – aparentemente frágil, mas ao mesmo tempo tão forte – faz recordar um episódio vivido nos anos oitenta, em Salvador, quando da realização do Congresso Nacional dos Jornalistas Profissionais. Naquela época eu era delegado do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Norte e Diretor da Federação Nacional dos Jornalistas. Havia uma disputa muito grande entre os jornalistas ligados aos partidos da esquerda e o Partido dos Trabalhadores – PT, ao mesmo tempo em que todos lutavam pelas liberdades democráticas, eleições livres, pelo fim do regime militar. 

Mas nas discussões, a coisa era bem acirrada. Haviam debates acalorados e qualificados entre companheiros da estirpe de Audálio Dantas, Rogério Medeiros, Armando Rollemberg e tantos outros, que muito fizeram nas históricas lutas da nossa categoria. Numa tarde do Congresso de Jornalistas, havia um impasse, um petista subiu à mesa e tomou o microfone para tentar forçar o rumo da assembléia. A platéia discordou do tumulto e partiu para uma imensa vaia: trezentos jornalistas vaiando a mesa no Centro de Convenções.

Estava agendada para aquela mesma hora uma visita de Irmã Dulce, que proferiria uma mensagem aos presentes. Ela chegou pontualmente e, desavisadamente, abriram a porta que dava acesso ao auditório e a introduziram ao recinto. Em  meio àquela ovação, lá seguia aquela freira pequena e magra, de vestes brancas, no rumo da mesa dos trabalhos, debaixo de vaia. 

Rapidamente a platéia percebeu, e numa cena impressionante a vaia foi revertida numa sucessão de aplausos jamais presenciada. O clima mudou completamente e ela fez sua rápida preleção.
Depois que ela saiu, não havia mais aquele ímpeto de desacato, de briga, de enfrentamento violento, pois houvera até alguém com um microfone na mão para passar em outro alguém. A assembléia retomou seu ritmo normal e os jornalistas brasileiros concluíram sua pauta de reivindicações e protestos por dias melhores para o povo brasileiro. Recordo bem aquele momento, em que qualquer um percebia que o destino de Irmã Dulce seria algo além daquele seu trabalho social, que por si só já era uma coisa tão inegavelmente divina.
*Jornalista

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Jornalistas do RN têm o pior salário do país
Emanoel Barreto

Os jornalistas estão em campanha salarial, tentando reverter situação histórica que nos coloca como o mais baixo piso salarial do país: 900 reais. Os empresários do setor propõem  aumento de 31 reais. 

É isso mesmo: 31 reais. Somos uma categoria representativa, o jornalismo está entre as profissões estruturantes de uma sociedade, como a saúde, o direito, a educação e as engenharias.

O que se pretende é um salto de qualidade. O respeito a trabalhadores que sempre foram aviltados em sua condição. Abaixo, mensagens de colegas solidários à nossa categoria.

Prezados e prezadas colegas,
 
Nesta quarta-feira (10), na Delegacia Regional do Trabalho, às 10 horas da manhã, acontece um Ato Público pela valorização dos jornalistas do RN. Como sabemos, nosso colegas recebem um piso de R$ 900,00, o menor do Brasil. É lamentável formarmos, todos os anos, um número expressivo de jornalistas e assistirmos ao descaso e à maneira pouco digna que são tratados no mercado de trabalho. A proposta, que os empresários do RN colocaram em pauta, eleva o salário, em termos práticos, em apenas R$ 31,00. Ademais, o empresariado pretende extinguir as folgas dominicais, um retrocesso na legislação trabalhista à pré-CLT.

Convidamos a todos e todas, independente da habilitação que ensinam, a encampar, junto com jornalistas do RN, a luta por melhores condições de trabalho. Motivemos os alunos e as alunas para comparecer a esse ato de cidadania.

Dessa forma, coloco-me, não como Chefe de Departamento de Comunicação Social, mas como um colega sensível à luta de seus pares.

Estou certo que a valorização da categoria desencadeará em um processo de reconhecimento do Comunicador Social, do nosso curso e de nossa profissão.

 
Atenciosamente,
 Adriano Charles da Silva Cruz
Jornalista e Professor da UFRN
......
Caro Adriano e colegas,
Sua iniciativa é valorosa.
Acrescento que a mudança dessa situação depende de todos assumirmos posturas mais assertivas em relação ao campo da atuação dos jornalistas e ao próprio exercício da profissão. 

Os níveis salariais tão baixos refletem não só, mas também, a nossa falta de mobilização como categoria, que permite inclusive o exercício simultâneo de atividades de repórter e assessor de comunicação. 

Os patrões sabem disso e compensam os baixos salários do jornalismo com melhores salários nas assessorias, o que é ruim para todos, e mais ainda para os que não têm essa duplicidade de atuação. Nós, professores da área, devemos chamar atenção para isso, pois acredito que é um caminho para melhorar a dignidade da nossa profissão e permitir que se possa sobreviver com a atividade de jornalista no Rio Grande do Norte.
Abraços,
Josimey
--

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A federação Nacional dos Jornalistas toma posição contra no golpe midiático. Abaixo, manifesto dos profissionais:

Em defesa dos jornalistas, da ética e do direito à informação


O conceito de golpe midiático ganhou notoriedade nos últimos dias. O debate é

público e parte da constatação de que setores da imprensa passaram a atuar de

maneira a privilegiar uma candidatura em detrimento de outra. É legítimo - e

desejável – que as direções das empresas jornalísticas explicitem suas opções

políticas, partidárias e eleitorais. O que é inaceitável é que o façam também fora


dos espaços editoriais. Distorcer, selecionar, divulgar opiniões como se fossem fatos não é exercer o jornalismo, mas, sim, manipular o noticiário cotidiano segundoresses outros que não os de informar com veracidade.


Se esses recursos são usados para influenciar ou determinar o resultado de uma
eleição configura-se golpe com o objetivo de interferir na vontade popular. Não se
trata aqui do uso da força, mas sim de técnicas de manipulação da
opinião pública. Neste contexto, o uso do conceito “golpe midiático” é
perfeitamente compreensível.


Este estado de coisas só acontece porque os jornalistas perderam força e importância

no processo de elaboração da informação no interior das empresas. Cada vez menos

jornalistas detêm o poder da informação que será fornecida à opinião pública. Ela
passa por uma triagem prévia já no seu processo de edição e aqueles que descumprem a
dita orientação editorial são penalizados. Também nunca conseguem atingir cargos de

direção que, agora, são ocupados por executivos que atendem aos interesses de

comitês, bancos associados, acionistas etc.


Esse estado de coisas não apenas abre espaço para que a mídia atenda a interesses
outros que não o do cidadão, como também avilta a profissão de jornalista, precariza

condições de trabalho e achata salários. A consequência mais trágica disso é a

necessidade de se adaptar ao “esquema da empresa” para garantir o emprego, mesmo em detrimento dos valores mais caros.


Para avançar nessa discussão é necessário estabelecer a premissa de que informar a
população sobre os desmandos do governo (qualquer deles) é dever da imprensa.

Orquestrar campanhas pró ou contra candidatos é abuso de poder. A linha divisória

entre esses campos é tênue e cabe ao jornalista, respeitando o profissionalismo e a

ética, estabelecer o limite tendo em conta o que é de interesse público.


Não podemos incorrer no erro de instaurar na cobertura de fatos políticos os erros
cometidos em outras áreas, ou seja, o pré-julgamento (que dispensa provas, pois o

suspeito está condenado previamente) e o jornalismo espetáculo (que expõe situações

de maneira emocional para provocar reações extremadas).


A ideia de debater e protestar contra esse estado de coisas resultou na realização
do ato em defesa da democracia e contra o golpismo

midiático realizado no auditório do Sindicato dos Jornalistas. A proposta surgiu em

conversa entre blogueiros, foi assumida pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa
Barão de Itararé, que procurou o Sindicato dos Jornalistas e este aceitou sediar o
evento.

A sociedade sabe que o local ideal para este debate é o Sindicato dos Jornalistas.

Não apenas porque os jornalistas são parte importante nesse processo, mas,

principalmente, pela tradição da entidade em ser um espaço democrático aberto às

diversas manifestações públicas e de interesse social.


O que está em discussão são duas concepções opostas, uma que considera a informação
um bem privado, passível de uso conforme interesses pessoais, e outra que entende a
ação como direito social, portanto, regulado por um “contrato social”,
exatamente como acontece com a saúde ou a educação.

Ter direito de resposta, garantir espaço para que o contraditório apareça,  impedir o monopólio da mídia, tornar transparente os mecanismos de outorga das
empresas de rádio e TV, destinar parte da verba oficial para pequenos veículos,
criar a rede pública de comunicação, regulamentar as profissões envolvidas com a

mídia, não são atos de censura, são movimentos em defesa da liberdade de expressão

e cidadania!


O grupo dos liberais quer, a qualquer custo, impedir que o conceito de direito
social seja estendido à informação. A confusão feita entre liberdade de opinião, de

imprensa, de informação, de profissão e o conceito de censura e de controle público

é intencional. Essa confusão é visível na argumentação utilizada pelo Ministro

Gilmar Mendes para acabar com a necessidade do diploma de jornalismo. O objetivo é

impedir que as ideias por trás das palavras sejam claramente entendidas pelo cidadão

e, assim, interditar qualquer reivindicação popular nesse campo.

A liberdade de imprensa é o principal instrumento do jornalista profissional. Não é propriedade dos proprietários
dos de comunicação. O verdadeiro ato em favor da liberdade de imprensa é
feito em defesa do jornalista e, por consequência, diminui o poder da empresa. O

problema é que, a exemplo do que escreveu George Orwell no livro 1984 quando criou

a novilíngua (que pretendia reduzir o vocabulário, eliminar sinônimos e fundir

palavras para diminuir a capacidade de pensamento), o conceito de liberdade de

imprensa foi virado pelo avesso e, uma vez apropriado pela empresa de comunicação,
passou a diminuir o papel do jornalista obrigando-o a se submeter às engrenagens do
poder empresarial. Não é por acaso que existe a frase, ao mesmo tempo trágica e

engraçada, de que apenas existe “liberdade de empresa”.

Não é por acaso que o debate sobre liberdade de imprensa e democratização da mídia

está presente na campanha eleitoral deste ano. Não é uma briga entre partidos ou

candidatos, é uma questão bastante difundida na sociedade e que exige
posicionamento público das autoridades. A Associação Nacional de Jornais - ANJ
está preparando um código de autoregulamentação para a imprensa que vem,

exatamente, no sentido de fazer algo para impedir que o Estado ou a sociedade

organizada o faça. Lembremos das palavras do escritor Giuseppe Tomasi di

Lampedusa, em O Leopardo, “mudar para continuar igual”.


O debate público precisa ser aprofundado e ele não será feito com preconceitos
ideológicos, mas, sim, a partir de análise apurada da realidade e das necessidades

da democracia que, entendemos, não se concretiza sem o chamado “contrato social” que

regra a atividade humana, impedindo que os mais fortes destruam os mais fracos.


Estamos clamando pela verdadeira liberdade de imprensa, pela ética profissional e

pelo direito do cidadão de informar e ser informado!


Brasília, 25 de setembro de 2010
Federação Nacional dos Jornalistas