quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O futuro americano é negro

Impedido de publicar postagens devido a problemas no meu computador volto agora, quando Obama é o presidente eleito. A eleição tem algo de essencialmente simbólico: a Casa Branca dirigida por um negro.
Não é um mero trocadilho, um drible que a história dá no segregacionismo, na exclusão, na pobreza que lá existe, e muita. Não se trata de, enfim, de uma cambalhota ideológica, uma surpresa do processo político: o que se vê é a ponta de um iceberg, a possibilidade lenta de uma mudança social e étnica. Um primeiro passo.
A ascensão de Obama é simbólica em função de outro aspecto: ele surge como uma espécie de antídoto para tudo o que a nação americana vive em seu momento histórico. Representa o recuo de uma corrente de pensamento reacionária, belicista e bronca, o declínio, pelo menos atualmente, do que há de pior na política dos Estados Unidos.
Estiolada por um governo que meteu o país em mais uma guerra, permitiu que o sistema financeiro agisse às cegas e gananciosamente, e incapaz de garantir a segurança interna com os ataques do 11 de setembro de 2001, a nação pede arreglo pelos erros e injustiças raciais e elege um negro.
Obama foi eleito sob a proteção das asas de um sonho: reerguer o país e sua auto-estima, seu orgulho imperial e seu patriotismo quase seminal; estilhaçar a crise econômica e o dilema do Iraque e fazer despertar um olhar novo sobre a presença e importância dos negros na construção do país. Isso foi o que o marketing vendeu. Isso foi o que prevaleceu. É bom que tenha sido assim, muito melhor que MacCain.
Obama, todavia, assumirá sob o peso da realidade. Do homem ideal, do líder, do condottiero, restará a figura humana que é, em si, falha e limitada. E virão, agora sim, os problemas, o mundo real, o presidente em ação.
O mundo inteiro vibrou a favor do jovem, do negro, do intelectual carismático. Agora, virá o americano, que não poderá - ninguém pode -, cumprir todos os compromissos de campanha. De qualquer forma, espera-se que se inaugure algo de novo, mais humano - aí no sentido de solidariedade ou compaixão -, para que se amenize o imperialismo e o torniquete que os americanos aplicam àqueles sobre quem se impõem.
Falando assim, parece que quem está sonhando sou eu. Vamos ver até que ponto. De qualquer forma, nessa quadra da história o futuro americano é negro. E, pelo menos isso, é bom, muito bom.
Emanoel Barreto

sábado, 1 de novembro de 2008

A Mulher inteira e bela

A Mulher inteira, o corpo belo.
O instante, o abraço, o olhar querendo...

Ela.

Terna, bela, completamente plena.

O momento que é só de nós dois,
numa manhã que se fez luz. E plenilúnio.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

E a turma toda pede Obama

A quatro dias da eleição presidencial dos Estados Unidos, o mundo conspira Obama, espera e pede pela sua eleição. Um sentimento de que algo de podre no reino da Coca-Cola precisa e pode ser levado ao charco da história. É como se alguma coisa nova, essencialmente nova, estivesse por acontecer. Especificando: retirada das tropas do Iraque, redução do imperialismo americano, bondade distribuída à mancheia.

Melhor seguir em marcha lenta: a rigor, as pessoas não sabem exatamente o que ele pensa. Seu discurso foi programado para abranger o máximo possível de público, tornando-o simpático à eleição daquele que poderá vir a ser o primeiro presidente negro dos EUA.

"Obama é o candidato favorito de 42% da população de várias cidades do mundo, enquanto apenas 12% votariam em seu adversário republicano, John McCain, segundo pesquisa da rede de TV britânica BBC." Essa informação está nas coisas de jornal da Folha.

De alguma forma, Obama é visto como a antítese de Bush, que por sua vez é, socialmente, a encarnação do mal. Nesse jogo de dualidade bem/mal, a balança pende para o lado do "bem". E quem "é" o "bem"? Obama, claro. O raciocínio maniqueísta e simplificador do senso comum funciona sempre assim: de maneira a reduzir tudo a oito ou oitenta.

Esquecem as pessoas que ele é, antes de tudo americano, antes mesmo de ser negro. Tanto que está aí, candidato com chances reais de vitória. É irrecusável que sua presença será sempre melhor que a de Bush. Mas não se pode esquecer que sua alma é a de um norte-americano. E todo americano pensa assim: "God bless America...". Do mesmo modo que nós dizemos: "Deus é brasileiro..."

O trabalho de marketing é exatamente esse: produzir um personagem. Personagem que, depois de eleito, dará lugar ao pragmatismo do homem, o que nos remete a representante do establishment, da velha ordem americana.

Também espero que seja eleito. Mas tenhamos paciência para o que trará em termos de política externa. Será positiva a presença de um negro na presidência; como símbolo, como indício de um princípio de mudança. Mas, daí à sua idealização, heroicização, caímos no terreno da fantasia. E isso não é bom. Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.
Emanoel Barreto

A rua de um lado só

Meu amigo, poeta e jornalista Walter Medeiros, envia este desabafo. O registro do descaso da prefeitura de Natal.
Emanoel Barreto

Os moradores da rua Neuza Farache receberam com alegria a visita de emissoras de TV, para mostrarem como andam obras da Prefeitura em Capim Macio. As equipes chegaram sem alguns problemas, porque estamos num período sem chuvas, pois no inverno a rua fica inacessível, ilhada por lagoas de todos os lados. No momento, entretanto, o problema é outro.

A rua Neuza Farache nunca tinha enfrentado problema além da poeira do período seco, embora pela ausência de pavimentação tenha sido há décadas uma rua de um lado só, pois os veículos só trafegam pelo lado direito no rumo oeste-leste.

Há cerca de seis meses, a Prefeitura escavacou tudo, fazendo uma vala de 2,5 m de profundidade por 1,2 m de largura, para instalar canos que se supõe para esgoto e drenagem. Escavacou e deixou tudo fofo, areia solta, casas inacessíveis. Cada morador teve de se virar para improvisar acessos dos mais diversos formatos.

Há dez dias uma equipe de obras chegou para fazer o mesmo serviço novamente. Emitiram a ordem de serviço e já estavam escavacando novamente, até que os moradores alertaram e suspenderam a repetição da “obra”. Mesmo assim, já era tarde, pois passaram uma máquina para aplainar, que piorou a situação.

Como se não bastasse, agora os caminhões carregados de areia trafegam sem parar, afundando o caminho dos carros, rompendo encanações da CAERN, fazendo atolar carros, ônibus, micro-ônibus, caminhões. De nada adianta contato, mensagem, telefonema para a SEMOV. Damião Pita atende, promete, mas não manda fazer nada.

Hoje amanheceu com um trecho compactado. Nada mais, nada menos que dois canos que romperam ontem e passaram a tarde jorrando água no leito da rua, o que amenizou a situação em um pequeno percurso. Mas os caminhões já voltaram a trafegar, o sol começa a secar a areia e mais tarde tudo volta àquela normalidade horrorosa.

O pior de tudo é o desrespeito aos moradores, pois a Prefeitura não informa nada sobre o que está sendo feito. Enterrou os canos, mas nada diz sobre o possível próximo passo. Ao invés de resolver os problemas da comunidade, sua presença com os serviços em ruas adjacentes causa novos problemas aos moradores da rua Neuza Farache.
Walter Medeiros

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O Neto que virá

A Vida surge, doce e calma,
no corpo da mulher-menina, eternamente filha.

O Neto começa a ser antes mesmo de existir, e faz
brotar no rosto do Avô uma alegria terna.

É, já, uma beleza imensa.
Há música no ar, e a cor suave da noite em Natal
prenuncia uma nova alegria que virá.
Emanoel Barreto

Conversar com Cascudo

Conversar com Cascudo era descobrir o tempo velho passando à sua frente. Era mergulhar na história arcaica escrita pelo povo. Era virar páginas e páginas inteiras de cores, fandangos, jangadas, bichos e gentes; vozes de acá, nascidas ibéricas ou africanas. Conversar com Cascudo era perscrutar a vida no seu mais íntimo significado de coisa humana.

Conversar com Cascudo era descobrir um homem feito de sabedoria. Conversar com Cascudo era viajar o chão do sertão, a noite, a brenha secreta; cruviana esfriando o passo do cavalo do vaqueiro em noite de plenilúnio: arrepio com medo de lobisomem.

Conversar com Caascudo era alumbrar-se com as visagens, os cantos todos, os aboios, a comida da terra; caçuás, canga e cantiga de botar menino para dormir. Conversar com Cascudo era ouvir o tempo severo do Nordeste em sua eterna e serena espera pela chuva criadeira.

Conversar com Cascudo era ouvir o sábio da aldeia, tão dele e tão canguleira. Conversar com Cascudo agora é uma saudade, quando a vida já não anda em cavalo baixeiro e estamos todos à mercê e ao léu do não-sei-mais.
Emanoel Barreto

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Morreu o filho

Luquinha passava em frente a uma mansão, onde havia uma grande multidão. Luquinha, desempregado, morador de palafita; somente ele e a mulher. O único filho morrera por falta de um remédio, que ele não pudera comprar. Ficou meio louco deste então. Andava a esmo, passava dias sem ir em casa.

E Luquinha parou: queria saber o que acontecia. A polícia cercava a casa. Era um seqüestro. Dentro da mansão, um bandido que fugira dos policiais mantinha sob mira arma um menino, filho do dono da casa. Como se chamava o homem, o dono da casa? Seu Macieira, alguém disse.

Luquinha calou. Rodeou a casa. O cerco fora mal feito e ele encontrou um jeito de entrar na casa. Saltou o muro alto, correu ao lado da deliciosa piscina, entrou pela porta dos fundos. Caminhou em silêncio e viu que o bandido e o menino estavam na sala, ele falando ao celular com a polícia.

Luquinha foi ao primeiro andar, mexeu numas gavetas no quarto do casal e encontrou uma arma.
Atirou-se escada abaixo. Parou, mirou no bandido e mandou:

- Se vira pra mim! Se vira, vagabundo! Se vira, que é pra morrer!

O homem tremeu. Empurrou o menino de lado e voltou-se para Luquinha. Queria se defender. Inútil. A bala do 38 pegou-0 na testa e ele desabou. A polícia então invadiu a casa. Quando os agentes entraram, encontraram a seguinte cena: Luquinha deitado de bruços, demonstrando rendição, o bandido morto e morto também o menino.
Seu Macieira entrou e seu rosto assumiu a feição de uma máscara da morte. Dirigiu-se a Luquinha e quis saber:

- Quem é você? Como entrou aqui? Matou o bandido depois que ele matou meu filho?- Não - respondeu Luquinha. - Matei o bandido e matei seu filho.
Seu Macieira estava perplexo: - Por quê?

Luquinha respondeu: - Se lembra aquele remédio que você me negou, naquele dia em que fui lá na sua farmácia? Eu ia receber dinheiro no outro dia e ia lhe pagar. Mas não, você não podia esperar. Morreu meu filho. Agora morreu o seu.

Emanoel Barreto

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Lado negro, não: lado branco

O preconceito e a brutalidade estão fundamente atracados no mar da extrema direita americana. Os skinheads, neonazistas, sociopatas, planejavam uma onda de morticínio a negros, culminando com um atendado a Barack Obama, informam as coisas de jornal.

A sociedade norte-americana, em suas neuroses, loucuras e obsessões, cultiva comportamentos sombrios: o de alguém que se arma e sai atirando a esmo, matando sem distinção; o de matar o presidente da república; o de não aceitar a igualdade entre negros e brancos.

A aparentemente próxima vitória de Obama está fazendo estremecer os cânones dos ultra-conservadores, tocando as cordas mais sensíveis do preconceito: não há como admitir um negro dirigindo o maior império da Terra.

Desde o início da campanha jornais já estimavam atentados a Obama, especialmente quando e se eleito. Agora, o FBI desarma essa trama. Na foto, Daniuel Cowart, um dos presoso.

As investigações, caso sejam aprofundadas e, se aprofundadas, trazidas a público, poderão desvelar se haveria alguém, alguém em posição mais alta, a guiar as mãos sangrentas que agiriam.

Uma possível eleição de Obama será um marco, um dado essencial a superar a condição de conjuntura e assimilar-se à estrutura sócio-política norte-americana. Será somente um golpe assestado a essa estrutura, não significando seu desmanche. Mas será simbólico o suficiente para ampliar espaços mais democráticos e ares políticos menos esfumaçados.

A ação dos neonazistas, todavia, não deixa dúvida: ainda é forte o lado negro no gigante do norte. Lado negro, não, desculpe: lado branco.

Emanoel Barreto

Idioma português: navegar sem rumo, ao léu, não sei, talvez...

A Folha traz a seguinte informação:

"Faltando apenas dois meses para que as novas regras ortográficas entrem em vigor no Brasil, nem mesmo os especialistas em língua portuguesa conseguem chegar a um consenso sobre como determinadas palavras serão escritas a partir de 1º de janeiro de 2009.
As divergências aparecem nos dicionários "Houaiss" (ed. Objetiva) e "Aurélio" (ed. Positivo), nas recém-lançadas versões de bolso, que já contemplam as mudanças ortográficas. O "pára-raios" de hoje, por exemplo, virou "para-raios" no primeiro e "pararraios" no segundo.
A lista de diferenças continua. A versão mini do "Houaiss" grafa "sub-reptício" e "para-lama". Em outra direção, o novo "Aurélio" traz "subreptício" e "paralama".
Prevendo o impasse, antes mesmo do lançamento dos dicionários, a ABL (Academia Brasileira de Letras) tomou para si a difícil missão de dirimir essas e outras dúvidas. A palavra final da entidade deverá sair apenas em fevereiro, quando as novas regras ortográficas já estiverem valendo."
.....
Não vejo qualquer praticidade nessa mudança. Em nada vai facilitar a escrita ou compreensão dos textos. A não ser alguma mudança na escritura dos patrícios, que deixarão, por exemplo, de escrever direcção para grafar direção. Dará, podemos dizer, um ar mais moderno ao textos dos portugueses. Do jeito que eles escrevem, parecem estar sempre em 1500.




No mais, não vejo qualquer vantagem. Trocamos seis por meia dúzia e ainda temos três mais três de troco.


Emanoel Barreto

sábado, 25 de outubro de 2008

"Comportamento Geral"



Só para meditar: o governo brasileiro já está pensando em premiar banqueiro desonesto, caso seja atingido pela crise. Ou seja: eles raspam o tacho do nosso dinheiro e ainda terão um prêmio. Só para pensar, neste fim de semana, deixo você com Gonzaguinha e a letra de "Comportamento Geral".

Emanoel Barreto

.......

Você deve notar que não tem mais tutu
e dizer que não está preocupado
Você deve lutar pela xepa da feira
e dizer que está recompensado

Você deve estampar sempre um ar de alegria
e dizer: tudo tem melhorado
Você deve rezar pelo bem do patrão
e esquecer que está desempregado


Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabar em teu Carnaval


Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabar em teu Carnaval


Você deve aprender a baixar a cabeça
E dizer sempre: "Muito obrigado"
São palavras que ainda te deixam dizer
Por ser homem bem disciplinado
Deve pois só fazer pelo bem da Nação
Tudo aquilo que for ordenado

Pra ganhar um Fuscão no juízo final
E diploma de bem comportado
Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal

Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabar em teu Carnaval
Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal

Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabarem com teu Carnaval?
Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal

E um Fuscão no juízo final
Você merece, você merece
E diploma de bem comportado
Você merece, você merece

Esqueça que está desempregado
Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Here comes the sun

OI,
O mundo é normalmente cruel, feio, cinzento, mau.

Mas, que tal virar a página, e perceber algo belo, intenso, nosso, confidencialmente nosso?

Hoje, vamos ver o lado bom da vida. O começo, a força, a fé, a confiança. Decisão sem medo do que virá.
A noiva luzente, que acredita num casamento que vai ser seu amanhã, eterno e radioso.

Para trás a bala, o grito, a dor, o imperfeito.

Vamos ser o teclado do piano, o texto maravilhoso, o acorde maior, o instante pleno de vida e juventude: ímpeto.

Sejamos o sol; límpido, grandioso, alucinante e terno; calmo e aconchegante, manhã que desejamos, praia e mar aberto.

Um abraço, e ouça uma canção.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Quando a TV puxa o gatilho

Caras e Caros,
As TVs estão espremendo, até à última gota, o terrificante espetáculo por elas mesmas criados, com a morte da menina Eloá. Nenhum jornalista chegou ao pódio dos monitores para analisar seu papel, sua participação, sua presença para a deflagração das balas que tiraram a vida inocente.

Foi a TV, sim, quem disparou o revólver do criminoso. A polícia, permitam-me, falhou miseravelmente. Falhou ao permitir o retorno da segunda menina ao apartamento, falhou em suas técnicas de negociação. Mas foi a TV quem patrocinou a realização daquele reality show, hediondo e imoral.

Se o carrasco não tivesse se sentido como prima donna daquele circo de crueldade, se não tivesse dado entrevistas ao vivo, se não houvesse sido chamado de apenas um jovem apaixonado, trabalhador e calmo, certamente não teria prolongado até o limite do insustentável aquele funesto acontecimento.

Precisa a polícia brasileira aprimorar seus métodos táticos para enfrentar situações como aquela; precisa a TV admitir-se como terceiro ator, deplorável, indecoroso e sujo, de tudo o que aconteceu.
Emanoel Barreto

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Marcacos me mordam!

Veja,
O tipo aí na foto é Marcos Valério, famoso desde que foi denunciado como envolvido no mensalão. "Macacos me mordam!", como diziam os personagens de antigas histórias em quadrinhos, o homem, até em fotografia, sabe se esconder muito bem. Mesmo que hoje esteja preso. Mas sai já, sai já...

E, saindo da cadeia, poderemos dizer "Marcacos andaram mordendo o dinheiro dos brasileiros." E morderam muito, e mordem, todos os dias. A corrupção é coisa nossa, tão antiga e farta como as capitanias hereditárias, que El Rey de Portugal distribuía aos ricaços daquele tempo.

A corrupção é doença. Um estranho e invisível vírus. Na verdade, um vírus mais intangível que o ar. O ar, pelo menos, podemos senti-lo. O vírus da corrupção, não. Ele existe, digamos assim, numa certa esfera espiritual. Pronto, é isso: o vírus da corrupção tem sua existência nas matrizes mais profundas, reptilianas, da mente dos corruptos. Já se nasce com essa propensão, disseram-me alguns cientistas que estudam o caso em laboratório.

Quem sou eu para discordar? Esses cientistas, uma vez, conseguiram isolá-lo. Mas, isolado, conseguiu fugir. Como? Muito simples: contaminando um dos próprios cientistas.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Compre Batom... Compre Batom...

A Folha informa: "O publicitário Duda Mendonça trabalha desde o início do segundo turno na campanha de Marcio Lacerda (PSB), em Belo Horizonte, conforme revelou hoje o próprio candidato socialista. Duda Mendonça faz, disse Lacerda, uma espécie de "consultoria informal"."

Os marqueteiros são vistos pelos políticos como uma espécie de magos, bruxos poderosos da comunicação, cujo saber esotérico, carisma quase místico, teria o poder de manipular corações e mentes. E afinal, garantir a eleição. Se fosse verdade, todas as eleições majoritárias terminariam empatadas.

E é isso mesmo o que acontece: nos tempos antigos, à época clássica, reis e demais poderosos entregavam, ou pensabem entegar, os destinos de batalhas e o futuro do reino à sapiência de áugures e pitonisas, cujos insondáveis saberes perscrutavam o futuro.

Eles estudavam os vôos dos pássaros, vísceras de animais e a partir daí faziam seus presságios, permitindo ao monarca tomar a decisão supostamente mais acertada. De alguma forma, isso transmutou-se e hoje o áugure é o marqueteiro. É ele que se apresenta como a pedra mais preciosa da coroa, tem a postura autoritária e os ademanes do sacerdote que preside o oráculo da comunicação.

Sua palavra tatem o condão das cerimônias secretas, o poder de chamar a favor do candidato as idéias que salvarão a campanha quase perdida, entufar as multidões e fazê-las crer: "Esse é o homem."

A marqueteria é isso: a superstição dos áugures colocada como fórmula alquímica que fará da pedra comum e mistificadora do político, transformar-se na pedra filosofal, aquela que, ao tocar em qualquer substância inferior, a transformaria em ouro.
Como dizia aquele antigo comercial: "Compre Batom... Compre Batom..."
Emanoel Barreto

domingo, 19 de outubro de 2008

O sinistro talento

Cara Amiga,
Caro Amigo,

O sinistro talento
é morador de todos os gatilhos.

O sinistro talento
desperta sem pensar.

E depois de ser
tão totalmente,
mente.

E, na mente do matador,
se fez justiça.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Um amor escuro e torto

Cara Amiga,
Caro Amigo,

O desfecho do seqüestro deu-se dentro de um panorama bastante previsível. Um desequilibrado, tonto de amor doentio, acabou trazendo ao reality show a face horrenda da dor televisada. Até que ponto a TV pode ser responsabilizada, é um fato a ser analisado depois, à luz de dados que a própria imprensa deve e tem de trazer a público.

Por enquanto, a imprensa questiona a ação da polícia. Mas, qual a influência do noticiário ao vivo que a TV teve sobre o criminoso? Uma mente perturbada, um ego ferido em seu amor próprio, em sua vaidade, em sua ânsia de ter como objeto seu uma segunda pessoa tem, sim, território emocional fértil para ali semear suas insanidades, mesmo que momentâneas.

O matador sentiu-se inequivocamente o ator principal dessa tragédia. No pequeno apartamento, ali estabelecido o seu mesquinho império, ele ditava sua lei. Era algoz, mas se supunha vítima e isso era o suficiente para exercer o seu domínio sombrio. Com a TV veiculando milhares de vezes seu nome, alardeando sua lamentável notoriedade, o criminoso via-se como que amparado.

Os apelos, as tentativas de negociação, validavam, para ele, a centralidade de sua figura, a suposta pungência do seu drama. Ele superdimensionava sua dor. Ele e o seu escuro amor eram o centro do mundo. E o largo palco da mídia dava-lhe a sensação de ter razão. Deu no que deu. O jornalismo precisa pesar muito sua disposição para dar cobertura a acontecimentos assim.
A polícia precisa estar melhor preparada para agir.
Emanoel Barreto

Desligue o televisor

Cara Amiga,
Caro Amigo,

Continua o espetáculo do cárcere privado da jovem Eloá. O seqüestrador está tendo seus quinze minutos de fama. E seu drama - algo em si, simplório -, transformou-se em motivo de atenção nacional, pala intervenção televisiva que mudou em espetáculo um ato que mais precisaria da presença de um bom psicólogo.

A situação tem obviamente aspectos jornalisticamente relevantes, mas a presença da TV ao vivo, como elemento alimentador amplia, isso sim, sua dramaticidade, ao invés de contribuir para o desfecho. O seqüestrador, ao sentir-se como ator principal, alguém nacionalmente valorizado, é estimulado a agir, sustentando a situação. A interveniência televisiva, como tal, contribui para prejudicar, não para ajudar a dar fim ao seqüestro.

Caso persista a situação, sem que surja solução em seu horizonte humano, perderá paulatinamente seu interesse. Isso porque a continuidade, a rotinização de algum fato, o transforma em coisa cotidiana, comum, banal. Perdendo-se o interesse, cairá pouco a pouco de relevância e não terá mais o interesse das emissoras. Seria então a hora de a polícia, de forma competente e segura, convencer o rapaz a se entregar.

Quanto mais rápido as Tvs deixarem de dar atenção ao fato, mais rapidamente o problema será resolvido.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Um reality show de verdade: e muito perigoso

Cara Amiga,
Caro Amigo,

No momento em que escrevo, Lindemberg Fernandes Alves, o seqüestrador da jovem Eloá estava pedindo a presença de alguém que seja torcedor do São Paulo Futebol Clube, para ajudar nas negociações. Antes, ele havia estendido na janela uma camisa com o emblema do time. Revelando-se um negociador talentoso tentou criar, com a atitude, um liame afetivo com a numerosa torcida do time. A TV informava que um diretor do São Paulo iria se apresentar para interferir, a fim de que a situação tenha logo um desfecho e que este seja o menos traumático possível.

A sensação de que sua atitude se tansformava em espetáculo televisivo, um realitiy show de alto impacto, sem regras e capaz de mobilizar largamente o público, fez com que ele agora tenha atitudes de estrela. São os efeitos perversos do jornalismo intensivo da TV. Um acontecimento que poderia muito bem terminar após uma negociação bem dirigida, agora ameaça tomar rumos imprevisíveis.

O rapaz, que demonstrou ser ou pelo menos estar em situação psicológica de desequilíbrio, pode assumir-se como estrela de mídia e querer criar seu espetáculo; espetáculo a que deu margem a cobertura intensiva e ao vivo a Record News. Claro, rádios e jornais também cobrem o fato e isso retroalimenta seu efeito dramático.

O jovem considera-se vítima. Agrediu a moça para se apresentar como tal. E nada melhor para uma vítima, que na verdade se vitimizou, que parecer assim aos olhos da multidão de telespectadores. E assumindo-se como vítima, terá o palco grande da TV para encenar loucuras que, sem a TV, certamente não teria encenado
.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O pão que o Diabo amassou

Cara Amiga,
Caro amigo,

As coisas de jornal em todo o mundo começam a sinalizar a iminência de uma recessão. Ao que parece, o mundo vai comer o pão que o Diabo amassou. Esse pão vem sendo amassado há muito tempo e agora, quando os bancos não vêem mais perspectivas de livrar-se de tão incômodo banquete, vão reparti-lo com a chamada economia real, ou seja: com a mesa de quem não participou da preparação dessa torpe iguaria.

Mais claramente: vai ser socializado o prejuízo, uma vez que os lucros já foram embolsados. E o deus mercado, que é fielmente adorado pelo Diabo, revela-se impotente para desfazer seu próprio feitiço. Quando isso ocorre, historicamente tudo o que há de pior é repartido. As elites estarão a salvo, a massa humana que vá para o inferno.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

All that jazz


Cara Amiga,
Caro amigo,

A foto, feita em 1954, mostra o então jovem trumpetista Chet Baker. É o que se poderia chamar de flagrante posado, mesmo que isso seja um paradoxo. Mas paradoxal era Chet, em sua música e talentos privilegiados; e o autor da foto, William Claxon, que morreu aos 80 anos sábado passado.

Chet era paradoxal em sua estatura musical, diretamente proporcional em seu envolvimento com as drogas. Claxon era paradoxal em sua competência para selecionar momentos essenciais, instantes de luz e sombras, passos e gestos de gente no mundo.

Trabalhava com privilégio na fotografia dos grandes músicos. E nada melhor do que conviver com grandes músicos, para se compreender a magia dramática de seu trabalho, perceptível e intocável, sensibilizador e intenso.
Deixa literalmente uma imagem do que seja o grande fotógrafo: a atenção, o ato e a captura do momento preciso.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Oração da Bolsa - ou Vade Retro Mr. Dollar

Cara amiga,
Caro Amigo,

Dólar nosso que estais no Inferno,
maldito seja o teu nome.
Não venha a nós o vosso terror
nem seja feita a vossa vontade,
nem aqui, ou em parte alguma.

O pão nosso de cada dia,
não tomai.
Perdoai as dívidas que nunca fizemos,
assim como nós perdoamos tudo o que
nos tomastes.

Não nos deixeis cair na recessão,
mas livrai-nos do vosso Mal.
Amém.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Os otários querem futebol

Cara Amiga,
Caro Amigo,

As notícias, as coisas de jornal, informam que "o Rio Grande do Norte segue firme como candidato para ser uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. Na próxima semana, Natal receberá os técnicos que farão um levantamento das cidades que buscam sediar os jogos. Eles virão com objetivo de fazer um estudo que será finalizado no dia 14 de dezembro e que servirá de base para a escolha das cidades-sede."
O Estado brasileiro fará descomunal esforço para desperdiçar dinheiro público com a Copa do Mundo, em 2014. E isso, como se não tivéssemos problemas como o combate às drogas, uma rede de saúde lastimável, péssimos salários pagos a professores dos três níveis, defesa do meio ambiente, proteção à Amazônia, malha rodoviária em péssimo estado... Fiquemos por aqui.
No Rio Grande do Norte, estado riquíssimo, como se sabe, a farra com o dinheiro do contribuinte terá resultado inversamente proporcional às suntuosas instalações que a Fifa exigirá. Ou seja: quanto mais se gastar com futebol, menos haverá para fazer funcionar de verdade postos de saúde, escolas, aparelho policial, etc... etc... etc...
A desculpa será o surrado refrão de que a Copa incentivará o turismo e, por gravidade, outros segmentos da economia serão dinamizados. Balela. Uns poucos lucrarão com esses jogos e a população ficará segundo a lei do pão e circo.
Tolos das mais variadas espécies gritarão como loucos a cada gol, e se sentirão honrados em ser enganados. Na volta à casa, serão assaltados e reclamarão. Não terão esse direito: o dinheiro para o trabalho da polícia foi todo gasto com futebol, sob o aplauso daqueles mesmos bobos. Então: calaboca!
Espero que o Rio Grande do Norte não seja escolhido pela Fifa. Se mal temos dinheiro para dar aumento ao funcionalismo, de onde tiraremos recursos para gastar com bola?
Emanoel Barreto

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A guerra do fogo

Cara Amiga,
Caro amigo,
O filme "A guerra do fogo", talvez você se lembre, é uma grande metáfora da condição humana, um magnífico trabalho poético. Em sua trama, a descoberta da solidariedade e a sobreposição do que hoje chamamos de amor, ao instinto básico de reprodução.
No final, uma cena belíssima, intrigante, instigante, desafiadora: ao fundo, bem distante, a noite que se derrama sobre o mundo é riscada por um pontinho de luz, na caverna onde o homem passou da hominização à humanização. Aquele pontinho de luz era o graphos, a escrita poética a nos mostrar o início da nossa aventura sobre a Terra: um ser frágil, dependente de um fogo tão imponderável e perigoso, quanto amigo e essencial.
Creio que você poderá encontrar essa produção numa videolocadora.
Da época tratada pelo filme até agora, passou-se um tempo incontável para os nossos pobres relógios. Relógios que só marcam horas, mas não registram os momentos humanos das horas, a ação trágica do homem; o tinir da espada, a explosão da bomba.
Talvez somente nos reste buscar uma caverna e sentirmo-nos como aquele pequeno grupo de homens e mulheres, perdidos naquele tempo: acender uma pequena chama e esperar.
Emanoel Barreto

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A fera, o ferro e o ferido


Cara Amiga,
Caro Amigo,
Quem com fera fere, com ela será ferido.
Quem com sangue pinta, com ele será tingido.
Quem com erro anda, desterro é o seu destino.
Quem com ferro marca, de fera será chamado.
Quem as feras chama, no fogo será queimado.
Quem se envolve em lama, revolve seu próprio eu.
Quem do revólver saca, engole sua mesma bala.
Quem embala o ódio, tem como presente o gatilho.
Quem tem no presente a fera, o sangue e o desterro;
o fogo, a lama e o revólver, se envolve tanto em ódio,
que então um dia descobre: para sempre estivera morto.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A perfeição da desgraça

Cara Amiga,
Caro Amigo,


A eleição para prefeito de Natal resultou no que se esperava. A Câmara de Vereadores foi re-novada em 50 por cento. E la nave va...

No cenário profundo, uma crise se posta com a força de um tsuname. As elites financeiras, donas de tudo, brincaram demais com dinheiro. Venderam e compraram demais papéis podres e agora, se falharem as medidas que os governos tentam acionar, algum miserável no Brasil ou na Somália, ficará mais miserável. As elites financeiras, não tenha dúvida, sobreviverão; e continuarão maquinando planos para mais lucros, mais fome, mais desolação.

A irracionalidade que domina o mundo desde os tempos das mais antigas civilizações, arremete para mais insensatez, apoiada agora na sofisticação, aprimoramento e agudização da tecnologia, o que permite ao homem chegar à perfeição da desgraça.

Multidões sucumbem ao peso da ideologia e do fundamentalismo, religioso ou financeiro. Nunca a religião deu tanto lucro, jamais as armas renderam tanto. O desvario neoliberal apodera-se de tudo e de todos. Corpos e mentes obedecem docilmente.

E no silêncio grande das favelas e dos becos, surgem novos e novos famintos e bandidos; do mesmo modo que, no silêncio dos grandes escritórios de Wall Street, algum sorriso sarcástico comemora. A crise é só um susto para a síndrome de Tio Patinhas.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Nem vida, ou gesto ou destino

Caras Amigas,
Caros Amigos,

Tão iguais e cada um sozinho.
Multidão que nem direitos tem.
Para onde vão, não se sabe nem se conta.
O seu tempo é sempre o depois.

E depois que as portas não se abrem,
estão calados e não têm o que dizer.
Suas todas palavras se gastaram,
na garganta a voz se afundou.

E quem não tem palavra, nem gesto nem destino,
já não tem vida, que a vida é isso:
palavra, gesto e destino.
Emanoel Barreto

A vergonha que o fogo não ilumina

Caras Amigas,
Caros amigos,

A foto de Joana Lima, do Diário de Natal, mostra detalhe da manifestação de ontem, contra a corrupção na Câmara Municipal de Natal, envolvendo os vereadores Renato Dantas, Adão Eridan, Sargento Siqueira, Emilson Medeiros, Dickson Nasser, Geraldo Neto, Júlio Protásio, Edivan Martins, Salatiel de Sousa, Aluisio Machado, Adenúbio Melo, Aquino Neto e Carlos Santos. Ao que consta, receberam propina da imobiliária Abreu Imóveis para adequar o Plano Diretor de Natal aos interesses da empresa.

Grupos de manifestantes queimaram bonecos que representavam os envolvidos. O protesto chegou a parar o trânsito no Centro. Os jornais, os impressos, digo, cobriram o assunto. Mas, estranhamente, as TVs, não.

Tenho muito tempo de jornal para saber que não existem matérias privativas de impresso e matérias privativas de TV. Muito ao contrário, jornais e TV sempre intercambiaram as informações. Ou seja: material veiculado na TV é aproveitado pelo impresso e vice-versa.

Não é estranho que nenhuma TV tenha tido o cuidado de não cobrir o acontecimento? Incompetência ou coisa mesmo de diretores comprometidos com os vereadores? Ninguém tem vergonha? Ninguém tem ética? Onde está o jornalismo?
Amigas e Amigos: vocês sabem a resposta.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Complicado, incoerente, ilógico



Caras Amigas,

Caros Amigos,


Domingo, a cidadania acorrerá às urnas para eleger seus representantes. Do ponto de vista gramatical uma assertiva irretorquível em termos de compreensibilidade; juridicamente, uma verdade. Mas, do ponto de vista social, vocês acreditam mesmo nessa afirmativa? Não será mais uma mentira, um equívoco, quem sabe a expressão de um projeto mal-intencionado?


Meu pessimismo à parte, na verdade uma provocação a que se pense sério a respeito, é preciso desconfiar do que os políticos dizem. A avalanche de promessas, "compromissos com o povo", soluções virtualmente para todos os problemas de Natal, vocês acreditam mesmo nisso?


Perceberam como, a cada dois anos, surgem e se renovam programas de governo municipal e estadual que vão nos tirar para sempre das trevas? E, por falar nisso, onde estão as luzes? Certamente os políticos não pagaram a conta e foi cortada.


Outra coisa, renovar quer dizer tornar novo aquilo que era velho: re-novar. Ou seja: renovar significa, nada mais nada menos, que manter o velho em seu lugar. Renovar não quer dizer nada. Melhor: quer dizer exatamente isso: nada.


A cultura política nacional recende a falcatruas, golpes, alianças espúrias, conluios, tramas, gente mancomunada para transformar a coisa pública em coisa privada. Será preciso um longo período histórico, um choque cultural profundo e estrutural, para que as coisas comecem a mudar.


Mas, enfim, vamos votar. Mesmo sabendo que, com o voto, voltam os mesmos a dizer: re-novar.

Emanoel Barreto

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Gatilho

Caras Amigas,
Caros Amigos,

A arma a alma desarma.

A arma ama a morte.
A arma parte a vida.
A bala, o grito, o fim.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

E agora, deus mercado?

Caras Amigas,
Caros Amigos,

Venha a nós ó Príncipe Valente,
já que agora o dólar nos faltou.
E quando o deus mercado nos esquece,
valei-nos, ó figuras
saídas da imaginação.

E se o dinheiro é também criado,
é ilusão, é fruto, é criação;
é também farsa imaginada, sempre pronta
a fugir, desfalecer.

E da mesma forma que os heróis
dos quadrinhos sempre nos enganam,
o dinheiro é também astuto.

Só que, farsa, ele é real;
ilusório, pode ser tocado;
e, criação, ele se inverte - e, querendo, pode, até mesmo, matar, roubar, nos destruir.
Emanoel Barreto

sábado, 27 de setembro de 2008

A Liberdade em busca de um beco

Caras Amigas,
Caros Amigos,

Na foto de Evandro Teixeira, fotógrafo velha-guarda do então grande JB, um momento do tempo, instante congelado da ditadura perseguindo quem queria a liberdade como coisa cotidiana.

Liberdade, direito portátil e feito para todos.

Entre o momento da foto, que, creio, foi feita em 1968, e o instante do agora, já se passaram muitos anos. A Liberdade virou afinal um direito portátil. Mas, atenção, essa é uma liberdade formal, prescrita nos códigos, prevista em lei.

Então, e o povo? O povo que aquele jovem perseguido representa tão bem, onde estará? Aquele jovem lutava pelos direitos, dentre eles o direito de votar, a liberdade de votar.

Bem, o povo, o povo ganhou o direito de votar, afinal. Melhor dizendo, ganhou o direito para votar, ou seja: ganhou a obrigação de votar nos mesmos nomes, com as mesmas promessas, os mesmos encantos de um futuro reluzente, uma era fabulosa, onde todos serão felizes e fim.

O que quero dizer? Digo que há uma diferença entre o direito de votar e o direito para votar. A primeira situação pressupõe, simplificando, uma sociedade democrática, o que inclui melhor divisão de renda, consciência de classe e uma sociedade civil atenta, esclarecida e atuante. A segunda, indica mesmo o que já disse: uma obrigação de comparecer às urnas.

Mais claramente, os que são candidatos não são eleitos; fazem-se eleger, o que é sutilmente diverso da primeira situação. E o povo, bem, o povo segue perseguido, em busca do próximo beco da história, onde possa parar e ofegar.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Do gemido das ruas aos silêncios e sotaques



Caras Amigas,
Caros amigos,

A política tem um lado espetáculo. Desde a Grécia antiga, quando os chamados homens livres compareciam à praça para debater as questões da cidade a oratória, a argumentação, a eloqüência, os grandes gestos retóricos, já compunham o dado dramático, encenador-teatral da arte política.

O espetáculo, hoje mais que nunca, é parte da política. Na atual campanha pela prefeitura do Natal, duas candidatas se apresentam com favoritismo frente aos demais: Fátima Bezerra e Micarla de Sousa. Das duas, Micarla parece ser a que tem chances reais de vitória.

Dois aspectos, para isso, devem ser levados em conta: a questão da mídia, que favorece Micarla, e o esvaziamento do discurso contestador, que fora o referente ideológico maior de Fátima.

Surgida do movimento sindical dos professores, Fátima chegou à Assembléia Legislativa como um furacão. Ela era a voz das ruas, o gemido do povo, o grito crispado dizendo "Não!". Agora, integrante de uma coligação que tem a consistência de uma lâmina de cavaco-chinês, está irreconhecível.

Hoje, a Fátima furacão cedeu espaço a uma candidata que repete diariamente um rol de realizações do governo Lula, numa ladainha cansativa e desgastada, típica dos políticos tradicionais.

As mazelas sociais, seus malefícios, são agora postos por ela pelo seu lado B, ou seja: existem, mas estão sendo tratadas, mesmo que, em sã consciência, todos saibam que medidas pontuais não revertem a situação trágica do povo.

Fátima perdeu o discurso: eis a real face, o fato que explica a perda do poderio eleitoral de Fátima. Fátima silenciou a voz que nela palpitava. O furacão transformou-se em tempestade tropical, perdeu força e pode acabar como brisa ligeira, dessas que, aos finais de tarde, tocam docemente os corpos de veranistas afortunados.

Ninguém pode, de repente, renegar seu passado. Ninguém pode transformar-se de um instante para o outro, esse o problema.

Quanto a Micarla, sua visibilidade diária, sua eloqüência visual, estão dando conta do recado. Utilizando-se de um sotaque que nada tem de nordestino, estranhíssimo, convoca a seu favor simpatias e, certamente espera, votos.

Resultado: uma, por perda de identidade e outra, por assumir uma identidade de mídia, são personagens do nosso tempo, do tempo da sociedade do espetáculo.

Fátima, ao anunciar benesses, confia que o povo acreditará que a vida melhorou, só porque a televisão está dizendo; Micarla, ao prometer benesses afins, garante que não: ela é que trará as benesses - a televisão também está dizendo.

Enfim: a perda do discurso prejudicou Fátima; e ao incorporar um discurso de massa, Micarla ganha o que Fátima perdeu. Em ambas, o discurso vazio. O povo, bem, o povo, ora acredita, ora não.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Os livros, esses bons amigos; os computadores, esses malucos que nos enlouquecem




Caras Amigas,

Caros Amigos,

Após, digamos, uma grande luta, consegui afinal recolocar o computador para funcionar. E cada vez mais me convenço do seguinte: essas máquinas têm uma espécie de vida. Quero dizer: algo como uma quase-vida.

Ao contrário dos livros, que são amigáveis, sensíveis ao toque das mãos e jamais faltam ao que deles esperamos, os computadores, não: são bichos bonitos, uma espécie de ave-do-paraíso, porém indócil e imprevisível. Quando menos se espera, eles nos enviam, como direi, uma mensagem dizendo que não obedecem. E pronto.

Livros são seres vivos bons e pacificados. Têm essência e consistência. Livros pensam. E a cada leitura, se for mesmo um bom livro, vocês podem navegar e navegar em suas páginas que, de alguma maneira, encontrão um novo encanto, um porto mais adiante, uma paisagem que a sensibilidade até então não habia percebido.

Quanto aos computadores, são como os pôneis dos tempos do correio a cavalo: intrépidos, impulsivos; corcoveiam em suas dunas digitais. E se o cavaleiro não for bom ou estiver distraído, pode, vejam só, ser destruído.

Anos e anos de pesquisa e trabalho podem ser levados para a zona etérea do disco ríogido e desaparecer em meio ao seu mar de informações. Então, adeus e só nos resta chorar. Se tanto.

Continuo amigo dos computadores, mas com saudade das velhas e boas máquinas de escrever. Quero ter sempre um por perto, mas sempre pronto para o próximo sobressalto. Espero que o mesmo se dê com vocês.
Emanoel Barreto

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Os computadores, esses seres estranhos


Caras Amigas,
Caros Amigos,

Problemas com o computador mantiveram-me afastado.
Computador, máquina fotográfica digital, laptop, carros também com sistemas eletrônicos no motor, GPS, palm-top... Cada vez mais dependemos da informática. Isso é bom, mas tem seu preço. O defeito no meu computaror foi no disco rígido, aliás, é no disco rígido.
O técnico virá mais tarde instalar um novo, mas deixou-me uma dúvida aterrorizante: teme pelo backup, pois o disco antigo pode estar com os arquivos corrompidos. Se isso se concretizar, toda a minha produção para a Universidade poderá estar perdida. Um trabalho de anos...

A informatização tem dessas coisas. Minha última esperança está no pen drive. Frente a isso, lembro-me das velhas e confiáveis máquinas de escrever. Tão antigas e tão boas: escreveu, estava ali, no papel. Pronto: seu trabalho, seu esforço, estava à mão, palpável e visível. Agora, não: é preciso tomar mil cuidados, cercar-se de precauções, caminhar num território virtual ao mesmo tempo maravilhoso e não totalmente confiável.

Chegamos ao tempo em que as máquinas de alguma forma fazem exigências. Seu mecanismo é algo volátil, bem diferente da troca de uma roda dentada ou um parafuso. Lidamos com o imaterial e o intocável, e a vida parece habitar esses estranhos seres que são os computadores.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Breve histórico da corrupção, a engenhosa invenção do cientista De Putado

Caras Amigas,
Caros Amigos,

Lobista não se contentava com o que tinha. Caminhando pelos meandros da burocracia, trilhando tapetes e gabinetes, salas e palácios, resolveu que deveria desenvolver ao máximo sua capacidade de, digamos, lobar.

Lendo um jornal, viu uma notícia a respeito de transgênicos e resolveu: iria ser um lobista transgênico. Assim, ó: misturando suas habilidades naturais para enganar, conluiar, mancomunar, trapacear, burlar, tramar, fraudar, gorar, espoliar, conspurcar, garrotear, procrastinar e influenciar, com um toque de outras qualidades malignas que iria buscar imediatamente, com certeza obteria novos e maiores lucros às suas ações. Lobista sofria da Síndrome dos Irmãos Metralha. Mal incurável e endêmico no Brasil.

Daí à prática foi um passo: caminhando na praia, encontrou-se com um enorme polvo a quem propôs negócio: na fabulosa máquina de mimetização do Professor De Putado, poderiam formar um só organismo e melhor: metamorfosear-se o quanto quisessem, garantindo desta forma mais agilidade aos golpes. O polvo topava? Claro, claro que sim, topava. Estavam acertados. E tiveram o seguinte diálogo:
- Ramo trabalhar?
-Ramo.
- Então ramo.
-Bora.

E foram ao gabinete do cientista De Putado, que imediatamente os meteu na engenhosa máquina. Dez minutos depois, estavam unidos numa só, enorme e pegajosa criatura. A nova descoberta de De Putado recebeu o nome de Corrupção e deste então invade, penetra, se mete e aprofunda em tudo quanto é canto onde possa haver dinheiro.

E, até hoje, ninguém conseguiu pegar a criatura.
Se a virem, é fácil identificar: come dinheiro e somente freqüenta ambientes de alta$ tran$açõe$.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Um caso literalmente de polícia

Caras Amigas,
Caros amigos,
As coisas de jornal do Estadão informam o seguinte:
"Gravações telefônicas em posse do Ministério Público foram decisivas para o pedido de prisão do diretor-executivo da Polícia Federal, delegado Romero Menezes. Os grampos mostrariam Menezes pressionando o superintendente da PF no Amapá, Anderson Rui Fontel de Oliveira, a favorecer seu irmão José Gomes de Menezes Junior.De acordo com informações do Ministério Público, nas conversas, gravadas com autorização judicial, o segundo homem na hierarquia da PF reclama da demora de Fontel em concluir o processo em que o irmão pede o credenciamento como instrutor de tiro. As conversas indicariam ainda que Menezes estaria articulando o afastamento do superintendente do cargo, caso a exigência não fosse atendida."
O papel social de uma pessoa, ou seja, aquele conjunto de atributos que supostamente deva ter para assumir aquilo que dela se espera, indicam que, de um policial, especialmente ocupando um alto cargo em sua corporação, seja o de comportamento ilibado. E isso em sentido o mais amplo possível.
Afinal, será ele quem vai dar vida ao "longo braço da lei", como diziam os livrinhos de bolso. Ao que está dito, esse delegado age de maneira completamente imprópria, para colocarmos sua avaliação de maneira elegante.
O proclamado distanciamento do policial de sua missão é um dado, apenas mais um dado, a demonstrar como a corrupção chegou ao estágio de endemia. A Polícia Federal, para fazer um comparativo cinematográfico, é o nosso FBI. No cinema, seus agentes são apresentados como incorruptíveis, densamente presos à sua ética, às suas responsabilidades. Verdadeiro ou não, é isso o que o cinema mostra.
Agora, voltando à nossa realidade, temos um escândalo, quando o delegado reclama prebenda empregatícia para um irmão e estaria até mesmo mancomunando para descartar um colega. Ao que parece, estamos mesmo muito longe de 007, o agente secreto inglês, charmoso e envolvente que, em meio a uma conquista e outra, cumpria à risca o seu dever.
Aqui, além de faltar aplomb e um toque de elegância, a polícia precisa de polícia.
Emanoel Barreto