domingo, 10 de fevereiro de 2008

Olha o Obama aí

Caros Amigos,
Sob a proteção do Superman, Barack Obama posa para o futuro. E surge uma pergunta: como reagirá a ultra-direita americana? Será inaceitável a segmentos conservadoress da sociedade norte-americana, a presença de um negro, veja só, na Casa Branca. Não creio que, com ele, haverá mudanças substanciais na política externa dos americanos. Mas, de alguma maneira, seria uma mudança, o surgimento de um novo discurso da presença afro, um embate com o racismo.

Obama, ao colocar-se em comparação com o Superman, atribui a esse comportamento, implicitamente, sua adesão ao establishment, empalmando os valores brancos e dizendo apenas que os negros têm direito a dirigir o país que ajudaram a construir, nada mudando em termos de estrutura ideológica.

De qualquer forma, valeria a tentativa histórica de fazer valer a presença negra e sua importância nas formulações de mundo. Há quem fale que, eleito, em algum ponto do seu mandato seria alvo de atentado. Como se já não bastasse o assassinato de Martin Luther King e a agressão à sua grande pregação em favor dos direitos civis, afinal conquistados pelos negros.

O tempo vai escrevendo a história e cada parte da história tem o seu próprio tempo. George W. Bush riscou o cristal da história com sua guerra e seus terríveis gestos. Obama bem pode ser um bom sinal. Olha o Obama aí, gente!
Emanoel Barreto

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Uma mulher gravemente nua

Caros Amigos,
Talvez o Brasil seja assim: uma mulher gravemente nua, exageradamente rua,
desabaladamente tonta, loucamente bela.
Lindamente tola, desavergonhadamente plena, exuberantemente luz, reveste-se de seios, coxas, sorrisos, nada mais.
E depois, bom... depois, Brasil não sabe...
Emanoel Barreto
*Foto: Marcos D Paula (Estadão Online)
http://www.estadao.com.br/interatividade/Multimidia/ShowFotos.action?produto=Estad%C3%A3o

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Natureza sob ataque

Caros Amigos,
Foto premiada da Agência Reuters, de um gorila morto no Congo, foi veiculada pelo Estadão Online. Um grupo de homens formou um estrado com longas varas, a fim de levar sua bela e magnífica vítima. Um grupo de homens de um país de terceiro mundo, atacando a natureza a troco de miserável soldo. A foto traz somente uma legenda: não dá detalhes, não diz qual a finalidade econômica da morte do animal nem a quantas anda o perigo de extinção da espécie.


Mais: não dá conta de quem são os criminosos que assalariaram aqueles caçadores, a fim de atacar a vida. Sem dúvida de que o mundo, a sociedade planetária, está precisando de um bom repórter, numa boa revista de grandes reportagens, para aprofundar assuntos como esses. Mas, os grandes repórteres estão aposentados, e o jornalismo não pratica mais a reportagem; apenas um noticiário que se volta para a superfície do real e esquece os grandes problemas que se escondem no fundo do poço.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

A moça nua e os pecados federais

Caros Amigos,
Agora que o fogo do carnaval passou; depois que caiu o tapa-sexo de quatro centímetros que a moça usava e ela seguiu, alegre e nua, pela avenida; quando o fogo das manchetes espoca os gastos com os cartões corporativos do governo e a Igreja convoca o povo à oração e à vigília para expiar culpas e pecados, começa realmente o ano. Bem-vindo, 2008.
A oposição, cujo esporte preferido é abrir CPIs, e o governo, em sua inesgotável mestria em fornecer fartos fardos de erros para alimentar essa oposição, entram em campo para o renovado espetáculo da prática política nacional: escândalos e deslizes gastarão muita tinta e papel nas coisas de jornal. Bem vindo-2008.
Vem agora a Semana Santa. Pecadores dos mais diversos escalões, desde aqueles que se apegam a pecados veniais - pecados maneiros, que qualquer padre perdoa -, até aqueles que têm na consciência a certeza de que se cevaram de pecados mortais, pecados capitais, federais, estaduais, municipais e paroquianos, terão a oportunidade de rezar, rezar muito; para, depois, fazer a mesma coisa. Bem-vindo, 2008.
Depois da Semana Santa... sinceramente, não sei. De qualquer maneira, peço: oremos. Mas, mesmo assim, bem-vindo, 2008.
Emanoel Barreto

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Uma festa e um encontro trágico

Caros Amigos,
Quando uma escola de samba passa, qual o Brasil verdadeiro: o das mulheres belas, frenéticas, faunas seminuas, destaques que vêm do asfalto e nada têm a ver com as cabrochas; ou o Brasil dos batuqueiros, da percussão, dos puxadores de samba, dos empurradores de alegorias, pesados mamutes de luxo que o povo pobre e suado da favela ajudou a pagar?

Há aí, suponho, um encontro trágico-bacante entre o hedonismo das pagãs ricaças, belas deusas do dinheiro e fama, e o impulso febril do povo impaciente, que não suporta mais a tristeza e, uma vez por ano, sazonalmente, tem o direito de se sentir alegre em praça pública, mesmo sabendo que essa alegria é falsa, é uma alegria de aluguel e dura só uns cinqüenta minutos de desfile.

Hoje é terça-feira, prenúncio de fim de festa. Amanhã, Cinzas. E os olhos mareados de ressaca estarão sentindo que é hora de rever o mundo com suas cores reais. Tem ainda a escolha das campeãs. Haverá festa e muitos sorrisos. Depois, o País volta à normalidade. Será tempo de conviver com a luta e o salário mínimo.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Zé Pereira

Caros Amigos,
O poeta Walter Medeiros envia para publicação:


Zé Pereira

Viva Zé Pereira,
Português danado,
Cabra sem enfado,
Pela vida inteira.

Viva o Carnaval,
Que tanto admiro,
Mas já me retiro,
Não me levem a mal.

Viva aquele samba,
Feito por Martinho,
Que canto baixinho,
Querendo ser bamba.

Viva a lembrança,
Do pó*, do confetti,
Caetano, Zé Kéti,
Serpentina e lança.

Viva Paulo Maux**,
Nosso eterno Rei,
Nunca esquecerei,
Mas sei que passou.

Viva nossos clubes,
De lindo passado,
Que está gravado,
Não há quem derrube.

Viva uma saudade,
Cá neste meu peito,
De amores sem jeito,
E de felicidade

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Sábado gordo

Caros amigos,
E chegou o carnaval.
A cintilante alegria programada,
o hedonismo sazonal e intenso,
que obriga anualmente o brasileiro a ser feliz.

E chegou o carnaval.
Gente vai cair no samba,
outros seguem rumo à praia.
E o Brasil é obrigado a ser feliz.

Quantas loucuras deslumbrantes,
alegrias filtradas, esperadas dia a dia;
trabalhadas, ansiadas no escuro da alma, vão acontecer.
E o Brasil é obrigado a ser feliz.

Veias, coração e vida
vão destilar, no alambique dos pandeiros,
o absinto de emoções - tão tortas, tão aladas,
passageiras e banalmente essenciais.
E o Brasil é obrigado a ser feliz.

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Emanoel Barreto

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Tristeza não dá samba

Caros Amigos,
A Justiça do Rio proibiu o desfile de um carro alegórico da Unidos de Viradouro, que seguiria pela avanida cheio de esculturas representando judeus chacinados pelos nazistas. Mesmo admitindo-se as boas intenções do carnavalesco, convenhamos: carnaval não é o espaço apropriado para uma crítica desse tipo, especialmente se se utiliza o recurso impressionista de figuras esquálidas amontoadas, como efetivamente aconteceu e foi registrado pelos Aliados.

Isso somente fará reacender a memória da brutalidade, a sensação de sofrimento. Pior: poderá parecer, de alguma forma, escárnio, deboche com quem tanto já sofreu. Como eu vou reverenciar mortos em meio a uma festa - belíssima, indisutivelmente -, feita de libido, narcisismo, explosões de egolatria e fausto? Só um louco para pensar nisso como reverência.

Liberdade de expressão precisa ser exercida com bom senso: a sátira, a caricatura, o texto dionisíaco e sarcástico, quaisquer alusões críticas a pessoas ou fatos, são perfeitamente aceitáveis, desde que instituídos em suas formulações sociais exatas. E o carnaval não é o lugar escolhido pela tristeza, para instalar-se com seu vale de lágrimas. Tristeza não dá samba.
Emanoel Barreto

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

O Lobo e os Três Porquinhos

Caros Amigos,
Como foi visto no texto anterior, o Lobo Mau conseguiu seqüestar o Brasil, depois de atacar a Vovozinha. Chamado a depor numa comissão parlamentar de inquérito, onde também era acusado de tentar derrubar a casa dos Três Porquinhos, defendeu-se: "Também, tudo agora é culpa minha. Não seqüestrei o Brasil, foram outros, que se fizeram passar por Caçadores. Quanto à casa dos Três Porquinhos, nada tenho a dizer, a não ser que ela foi derrubada pelo ex-deputado Sérgio Naya."

E depois, orientado pelo advogado, completou: "E tem mais: eu, pelo menos, sou um Lobo. Mau, mas um Lobo. Eles são porcos.. Por que vocês não investigam eles?" Não disse os nomes dos porquinhos e até hoje a Polícia Federal está atrás deles, que logo ficaram sob a suspeição de ter feito algo de errado pela simples condição de porcos. Com porco, não é?, nunca se sabe...

Quanto ao Brasil, há rumores de que conseguiu escapar do cativeiro. Mas nada ainda foi confirmado.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O Brasil e os Lobos Maus

Caros Amigos,
Quando o Brasil era criança, era um menino muito levado. Tanto, que chegou a surrupiar do Saci Pererê seu chapeuzinho vermelho e saiu por aí, todo lampeiro. Mamãe Brasília, a conselho do preguiçoso Papai Macunaíma, disse ao menino: "Meu filho, não ande pelo caminho da floresta amazônica, pois lá é perigoso. Lá vivem os Lobos Maus, o Papai Lobão e o filhote Lobãozinho."

Mas Brasil era danado e largou-se um dia a andar pela floresta amazônica, quando ia levar doces para Dona Benta, sua Avó, que morava no Sítio do Picapau Amarelo, mas que, por uns meses, estava na Chácara do Torto. Brasil podia ter ido pelo Rio, mas por lá havia muito tiroteio, que nem mesmo o Bope estava conseguindo dar conta. Por São Paulo nada, a poluição do Tietê, o trânsito demencial que enlouquece aquela pobre cidade, o fizeram desistir.

Na verdade, Brasil não tinha mesmo como escapar. Pelo Nordeste também não dava para ir, pois a seca estava rachando a terra, o povo em fome e os políticos ganhando dinheiro e voto com as levas de pessoas que pediam água. Brasil, como estamos vendo, mesmo sendo traquinas e gostando de pilantragens - opa! eu queria dizer peraltagens -, não tinha outro caminho a seguir e meteu-se pela floresta.

Logo que chegou lá, foi recebido a tiros por grandes proprietários, que devastavam a mata para plantar soja. Mais adiante, bala de novo: agora eram garimpeiros, que poluíam rios com mercúrio, atrás de ouro, muito ouro. Mais na frente, mais tiro: grupos criminosos cortavam troncos centenários para transformar em madeira de lei. Vamos ficar por aqui, que senão eu não paro, pois quero mesmo é falar sobre o que interessa: os dois lobos da floresta.

Depois de muito caminhar, Brasil afinal chegou ao Torto. Ia dar um grande abraço na Vovozinha, entregar os doces, passar a noite lá e voltar para casa, feliz da vida.

Pois bem, chegando à Chácara do Torto, Brasilzinho ouviu mesmo foi um grito enorme, desesperado, louco. Os Lobões estavam atacando a Vovozinha, Meu Deus! Brasil ficou sem saber o que fazer: o Papai Lobão gritava que queria seu espaço político, era muito forte e coisa e tal; o Lobãozinho dizia que aquela história de que devia 5 milhões e 500 mil ao fisco era balela e que ele ia provar que era um homem, quer dizer, um lobo bom.

A Vovozinha Dona Benta não aguentava mais: para onde ela ia, os lobões iam atrás. Brasil estava perdido, atônito, quando ouviu a velha canção:

Nós somos os caçadores,
E nada nos amedronta,
Damos mil tiros por dia,
Matamos feras sem conta.

Pronto, Brasil ficou felicíssimo e pulou para dentro da casa da Vovozinha. Agora, estavam salvos. Os caçadores estavam chegando. Os Lobões seriam afastados e a paz voltaria à vida da Vovozinha. Abraçaram-se. Até ensaiaram cantar "Pega eu, que eu sou ladrão", em homenagem a Bezerra da Silva. Mas, nisso, os caçadores chegaram, se apresentaram e... anunciaram o assalto... Agiam em parceria com os Lobões e queriam tudo. Vovozinha desmaiou. Brasil foi seqüestrado e até hoje estão pagando o resgate. Mas, eles não o libertam nunca...
Emanoel Barreto

sábado, 26 de janeiro de 2008

Os carvoeiros

Caros Amigos,
Neste final de semana, ficamos com Manoel Bandeira.
Abraços,
Emanoel Barreto

Meninos carvoeiros

Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
— Eh, carvoero!
E vão tocando os animais com um relho enorme.
Os burros são magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvão de lenha.
A aniagem é toda remendada.
Os carvões caem.

(Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe, dobrando-se com um gemido.)
— Eh, carvoero!
Só mesmo estas crianças raquíticas
Vão bem com estes burrinhos descadeirados.
A madrugada ingênua parece feita para eles . . .
Pequenina, ingênua miséria!

Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis!
—Eh, carvoero!
Quando voltam, vêm mordendo num pão encarvoado,
Encarapitados nas alimárias,
Apostando corrida,
Dançando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos desamparados.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Não podemos amarelar

Caros Amigos,
Os casos de febre amarela, além, é claro, das lamentáveis mortes que provocaram, podem ser entendidos como uma metáfora; bem ao estilo brasileirinho. Vivemos num país de tantos problemas, dificuldades mil e contradições às centenas, que cheguei a uma conclusão: do jeito que está, não podemos amarelar.

É preciso entrar firme no jogo, pisando com maciez no gramado, mas deixando as chuteiras com boas travas, para poder enfrentar o adversário; que, aliás, é um concorrente múltiplo: são as prestações no fim do mês, a gasolina cara, os supermecados vendendo preços em vez de comida, a Universidade reclamando de falta de apoio, e por aí, vai...

Mas, não podemos amarelar. Devemos é seguir em frente. Brasileiro não tem direito de ter medo (já nasceu dentro do perigo); não pode duvidar (pois são muitos os atalhos); nem fugir dos pesadelos (pois já de há muito caminha pela noite); não pode temer o tempo (já que é um povo que entrou na chuva - e é para se molhar ); e sabe que não pode confiar muito, pois como dizia Bezerra da Silva, "Você vê ladrão quando olha pra frente/Você vê ladrão quando olha pra trás."
É isso.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Dê uma chance à paz

Caros Amigos,
Em Minas, um juiz proibiu a comercialização de dois jogos eletrônicos, considerados violentos demais. Crianças e jovens são o público-alvo das empresas que produzem tais jogos, bastante procurados em lan houses.
Não é de hoje que os seres humanos nos divertimos com a violência. Os romanos trouxeram dos etruscos os jogos com gladiadores; no Ocidente e no Oriente, animais como cães, pássaros e até peixes, são utilizados em bárbaros espetáculos. E, em ringues, brutamontes se defrontam em combates cheios de perversidade. A multidão urra e ateia fogo ao circo insano.
Desde já há algum tempo, esses jogos de computador atraem mentes imaturas. De alguma forma, a cultura da violência começa a lançar raízes sociais, refletindo o drama da vida: o mais astuto, cruel, desumano e sanguinário deverá se impor. É a estética da brutalidade. É o discurso negocial do diálogo bruto fazendo valer o seu pregão.
Sofisticando-se nas telas dos computadores, a mensagem da violência faz adeptos, ou melhor, vítimas, uma vez que somente como vítimas pode-se entender que sejam os jovens que a tais jogos se dedicam. Creio que é melhor fazer como John Lennon: dê uma chance à paz.
Emanoel Barreto

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Rumo ao abismo

Caros Amigos,
O mundo está à espreita do que pode acontecer com a economia dos Estados Unidos, como alpinistas que estão presos a uma mesma corda temem que, aquele que vai na frente, se desequlibre e caia, levando todos a uma queda aterrorizante. Essas crises mundiais, desde o terrivelmente inesquecível crack da bolsa de Nova Iorque em 1930, são algo com que a humanidade de alguma maneira convive, para desespero geral, sempre e quando economias estratégicas se desequilibram.

Um complexo, intricado e invasivo processo se espalha, levando junto um importante dado psicossocial que se alastra: o desespero toma conta de todos e, na ânsia de se salvar, esse ser coletivo e imponderável a que chamam mercado, acaba, como Ícaro, precipitando-se no abismo.

E, ao final das contas, lá longe, no fundo do poço, esse ser a que chamam desempregado, olha para seu passado recente, lamenta o que acabou de perder com a crise e, de um modo ou de outro, também se precipita num abismo.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

No fim do túnel

Caros Amigos,
Goethe, em seu leito de morte, teria proferido, como últimas palavras, a famosa expressão: "Luz, mais luz." Enviesando o caso para a realidade brasileira, estamos literalmente precisando de luz, mais luz. Os seguidos anúncios de que estamos às portas de mais um apagão, sempre dando espaço para que o Governo faça seus desmentidos, nos deixam no escuro. Quem terá razão? Os níveis baixos de reservatórios e o acionamento de termelétricas devem ser vistos como indícios bastante claros de que nem tudo é só fogo de palha.

Esperemos que, vindo o apagão e o racionamento de energia elétrica, não fique a conta para o consumidor. Alguém ainda deve se lembrar: quando do último racionamento, veio um reajuste. Como forma de compensar as perdas financeiras dos fornecedores e distribuidores de energia. Ou seja: se o povo não racionasse, pagaria contas astronômicas. Como o racionamento obteve êxito, esse mesmo povo foi punido por cumprir a determinação emanada do Governo. Assim, fica claro que, confirmando-se o apagão, não haverá luz no fim do túnel.
Emanoel Barreto

sábado, 19 de janeiro de 2008

Um poema de Cecília Meireles

Caros Amigos,
Neste final de semana, Cecília Meireles:

Leilão de Jardim

Quem me compra um jardim
com flores?
borboletas de muitas
cores,
lavadeiras e pas-
sarinhos,
ovos verdes e azuis
nos ninhos?

Quem me compra este ca-
racol?

Quem me compra um raio
de sol?

Um lagarto entre o muro
e a hera,
uma estátua da Pri-
mavera?

Quem me compra este for-
migueiro?

E este sapo, que é jar-
dineiro?

E a cigarra e a sua
canção?

E o grilinho dentro
do chão?
(Este é meu leilão!)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Os robôs bobos

Caros Amigos,
Sem maiores detalhes, soube pelas coisas de jornal que a Microsoft desenvolve um programa que permitirá às empresas controlar seus funcionários de tal forma que, além do desempenho profissional, terá até mesmo informações sobre o seu estado emocional.

Trata-se, na verdade, de um programa que invadirá perversa e solertemente até mesmo o mais íntimo dos seres humanos, em proveito do capital. Estaremos vivendo em sua plenitude a genial e sombria metáfora de Chaplin em "Tempos modernos". O mesmo diga-se com relação ao mundo terrível que Orwell previu em "1984". O Grande Irmão invadirá vidas, sonhos, medos e desejos, controlando tudo, punindo e obtendo lucro.

No caso, o Grande Irmão não será o Estado, como estimava Orwell em sua crítica ao stalinismo, mas os grandes conglomerados, as poderosas corporações, numa sociedade mundializada.

Não deve ser coisa para já. Mas, caso venha mesmo a ter aceitação por parte das empresas, significará uma odiosa e deplorável maneira de manipular pessoas, como se fossem robôs; robôs bobos que, diferentemente dos robôs máquina, sofrem e se angustiam, mas, como elas, as máquinas, não reclamam e seguem adiante, sobrevivendo apenas para trabalhar.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

É melhor, você vai ver...

Caros Amigos,
O BBB da Globo está obtendo baixos índices de audiência, quando comparado à sua última edição. Ao que parece, a fórmula está se esgotando. É previsível que, com o passar do tempo, tais produtos de mídia comecem a despencar de popularidade, exatamente pelo seu conteúdo tolo e fugaz. De antemão, o telespectador sabe que as peripécias, episódios e "dramas" dos participantes serão literalmente os mesmos dos programas passados, mudando-se apenas os personagens.

Pedro Bial assoma à cena como um mestre-sala da bobagem. Anuncia, tentar criar no telespectador algum clima de ansiedade, uma estimativa de incerteza sobre o que acontecerá, mas seus esforços estão se revelando inúteis; inúteis, pois o BBB é uma inutilidade e uma falta de respeito à inteligência.

Fenômeno mundial, esses reality shows infestam televisores e buscam capturar corações e mentes. Lamentavelmente, deve-se admitir que conseguem. Milhões de pessoas estão atentas a tais futilidades, preenchendo seu tempo noturno, até que o sono chegue. Mas, no caso específico, o programa está em dacadência. Vejamos por quanto tempo mais ele se segura, até que venha o seu substituto.

O problema é exatamente esse: com a cultura televisiva vigente globalmente, essas ações midiáticas estão se naturalizando, tornando-se como que um conteúdo essencial. As pessoas começam a acreditar nisso. A achar que isso é importante. É aí que está o perigo: a televisão não tem qualquer interesse em exibir conteúdos de qualidade. Elegeu a fatuidade como ato prioritário, aferrou isso ao senso comum e logou êxito e muitos patrocinadores. É um processo perverso que, temo, não venha a ser revertido.

As coisas de jornal, entretanto, dizem que, na internet, há um movimento para que o programa seja boicotado. Está aí uma boa idéia. Quando o BBB começar, dê um jeito: mude de canal ou até mesmo reveja aquele velho DVD. É melhor, você vai ver...
Emanoel Barreto

sábado, 12 de janeiro de 2008

Eu e você

Caros Amigos,
Hoje, ficamos com Vinícius de Moraes. Segue:

Eu sei e você sabe
Já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe
Que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste

Por isso meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham a você.

Assim como o Oceano, só é belo com o luar
Assim como a Canção, só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem, só acontece se chover
Assim como o poeta, só é bem grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor, não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Shame on you, Bush

Caros Amigos,
Vivendo já o final do seu obtuso período à frente do governo norte-americano, George Walker Bush chega ao Oriente Médio. Na verdade, no máximo apenas uma visita para conferir os sinistros resultados para os quais sua sombria administração deu essencial contributo; nada mais que isso. Afinal, Bush está com o prestígio em baixa junto aos americanos, politicamente não terá mais tempo para intervir para um processo de paz na região e, inferno astral para ele, poderá até mesmo ser dispensado de intervir na campanha do futuro candidato republicano, caso seu prestígio despenque ainda mais. Nem seus iguais o querem mais por perto.

Ao longo de dois períodos medíocres à frente da Casa Branca, Bush começa a sair de cena, deixando atrás de si um rastro sangrento e um triste legado: não deu qualquer passo para a melhoria das condições de vida no planeta e apenas contribuiu para alongar no tempo as tragédias que, dia a dia, se desenrolam no Oriente Médio.

Inculto, medíocre, simplório, dotado de uma visão de mundo que privilegiou o imediatismo em detrimento do histórico; a força em secundarização da inteligência; o capital sobrepujando a humanidade, vai se retirar de cena após dar ao mundo uma substanciosa contribuição a toda uma carga de malefícios e indignidades que perseguem os nossos dias. Shame on you, Bush. Shame on you.
Emanoel Barreto

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

BBB: bacante, banal, besteira

Caros Amigos,
A Globo nos chega com mais uma edição do BBB. Apresentado como um reality show, ou seja, um espetáculo real, uma transmissão da vida, com os contrastes de personalidades, interação humana conflitual e competitiva, o programa é, em verdade, a vida roteirizada, estudadamente programada para provocar rumor social.

Os participantes, assim, são personagens: cumprem papéis pré-determinados, numa produção no mínimo questionável, seja do ponto de vista ético, seja quanto à sua proposta de "show".

O horário do programa tem sido criticado por educadores, especialmente quando tratam da questão público infantil. Os especialistas dizem que a criança entra em contato com uma realidade de mídia altamente erotizada, acrescendo-se a isso o fato de que os participantes trabalham valores deploráveis, como a cobiça e a competitividade despida de respeito ao outro. Valem o jogo sujo e a esperteza.

O pior é que, com seu poderio midiático, a Globo faz passar à sociedade brasileira que está exibindo algo importante, algo que deve e precisa mobilizar opiniões, chamar a atenção e provocar uma forma de consenso a favor da validade daquela produção.

Os meios de comunicação, a TV em especial, estão valorizando e valorando esse tipo de programa, disseminando a idéia de que fatuidades são algo essencial. Enfatiza-se o hedonismo, a conversa vazia, o fortalecimento do senso comum na discussão de comportamentos emitidos por pessoas que representam à perfeição esse mesmo senso comum.

É deplorável. Mas é um sucesso, rende dinheiro e vai, de alguma forma, mobilizar esse país em torno de mais um atentado à inteligência.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Tudo volta a ser cinzento

Caros Amigos,
De forma inglória, Glória Maria foi afastada do Fantástico, sendo substituída pela beleza - e competência -, da jornalista Patrícia Poeta. Cid Moreira e Sérgio Chapelin, quando deixaram suas posições de destaque, também haviam sido jogados para fora do Jornal Nacional após muitos anos de trabalho e excelente desempenho.

Para eles, a explicação foi a de que a tendência internacional mandava que telejornais fossem apresentados por jornalistas; não mais por locutores, que não têm qualquer participação na feitura do noticiário, limitando-se a vocalizar material preparado por outros. Isso daria maior credibilidade e vigor ao noticiário.

A Globo anunciou que Glória afasta-se do programa, por dois anos, a fim de dedicar-se a projetos pessoais; leia-se: escrever um livro, tomar aulas de canto e fazer viagens. Isso é o que foi dito.

Quanto a Patrícia Poeta, é uma jovem e talentosa repórter, além de bonita. Mas, se a isso não se juntar uma ação jornalística forte, com material de notório intresse, retirando o programa das platitudes a que se dedica, de nada adiantará um rostinho bonito. O programa continuará com baixa pontuação e alvo de bocejos.

Lembrai-vos de que o Fantástico, em priscas eras, tinha o slogan de "O show da vida". E, como sempre o show tem que continuar, sai Glória, esquecida e pálida, para que uma nova estrela surja no horizonte artificial da mídia da Globo. É isso. E, na verdade, só há coisas fantásticas no Fantástico. A vida não é um show e na segunda-feira tudo volta a ser cinzento.
Emanoel Barreto

sábado, 5 de janeiro de 2008

A vida remasterizada

Caros Amigos,
E cá estamos nós: em 2008. Hoje é o quinto dia do ano e o que temos nós? Literalmente um ano igual ao outro, igual aos 2007 que o antecederam: haverá mortes, tragédias, desastres, corruptos continuarão livres, pessoas bem intencionadas ficarão perplexas com a hediondez universal tornada hábito, norma, padrão exigível para quem queira chegar a algum lugar. É triste.

É a vida remasterizada, re-vista sem repetir-se na unicidade dos fatos, mas revendo-se em essência. Afinal, cada tragédia será única no mundo, bem como os desastres e os atos de libidinagem financeira dos corruptos. Vem aí o Carnaval, onde todos devem despejar sua carga de pecados, delícias e desejos. Esgotada esta, virá a Semana Santa, aplacando consciências e culpas.

Depois, segue a vida. Com seus mistérios e perigos, grandezas e descortínios da paisagem imensa da beleza, que de qualquer maneira existe, seguirá ela rumo ao amanhã. Vamos junto.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

A volta de Uri Geller

Caros Amigos,
As coisas de jornal informam que Uri Geller, aquele que nos anos 1970 surgiu no mundo da notícia como um fenômeno, um homem capaz de dobrar colheres de metal e consertar relógios com o poder da mente, ataca outras vez: agora, anuncia que procura um sucessor, mas que, mesmo assim, não pretende se aposentar. Há uma certa incoerência nisso, mas, tudo bem. Como ele gosta de ser o espetáculo é até compreensível, percebe?

Pois bem: apostando no sucesso dos reality shows, promoverá um concurso numa TV alemã, para encontrar pessoas que tenham "talentos incríveis". Dessas, uma será seu "sucessor". A produção será levada a outros países, até o apogeu: em mais alguns anos, ele fará a escolha final, com um reality show em Las Vegas. Melhor lugar, claro, não existe para tal façanha...

Na sociedade do espetáculo, o israelense pretende tirar o maior proveito. Num mundo onde a fascinação vale mais que a realidade, quando a simulação e a dissimulação imperam sobre mentes que estão adestradas como aquele cãozinho de Pavlov, as proezas de Geller chegam bem a calhar.

Povos inteiros passam fome, nações se curvam ao peso da pobreza e da miséria; na intimidade de casas, no oculto das palafitas, no esconderijo amargo de corações aterrorizados, a condição humana grita seu uivo mais doloroso. Enquanto isso, tipos como Geller se aproveitam da situação planetária de pão e circo para encher os olhos das pessoas de fatos incríveis ou situações no mínimo ridículas, como o BBB, que pautam a agenda do público e se inserem no cotidiano - como se o mexerico fosse algo de importante, como se a decência seja algo deplorável.

Não tenho dúvida de que o sucesso será estrondoso e até suspeito que o programa venha a ter sua versão brasileira. Enquanto isso, oremos.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Ferro, sangue, fogo

Caros Amigos,
A violência volta a mostrar sua face mais indignamente brutal no Quênia.
A eleição presidencial, como espoleta do ódio, permitiu a explosão de ódios tribais, distribuindo com espantosa eficácia, dor, medo e sofrimento. É lamentável como, na África, populações inteiras são submetidas a sistemas sociais onde imperam situações históricas que privilegiam minorias e repartem, sobejamente a fome, a exclusão, a angústia.

E tais situações devem ser debitadas aos países ocidentais que, especialmente a partir do século 19, intervieram de forma espoliadora e desumana sobre povos e culturas consideradas por tais países como bárbaras e inferiores. A simetria material e econômica entre povos tão diversos, assegurou ao Ocidente uma cruel e longa hegemonia sobre os povos africanos dominados e colonizados.

O resultado é o que vemos agora: povos, cuja identidade foi violada, herdaram, após a saída dos colonizadores o que deles havia de pior, somando-se a isso as desavenças internas. O Quênia, em seu momento atual, é apenas mais uma demonstração de como a África precisa encontrar-se em seu destino. A brutalidade que jornais e TVs de todo o mundo exibem é reflexo tristemente claro do quanto homens, mulheres e crianças, naquele continente, sofrem com o peso esmagador do abandono, da corrupção, da insensibilidade.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Que venga la vida...

Caros Amigos,
Que o ano novo seja
como a taça de campanhe,
que alegra o instante fugaz
da vida em festa.
e jamais como a gota
de cicuta do cotidiano atroz e perigoso.
Abraço grande.
Emanoel Barreto

sábado, 29 de dezembro de 2007

Fiat lux

Caros Amigos,
É bom olhar a luz e ver tudo perfeito.
Cores, nuanças, matizes sutis.
Formas, declives, curvas, ladeiras.
É bom olhar a luz e ver tudo perfeito.

É bom descobrir a dimensão: profundidade,
largura, altura. É bom voltar a ver o mundo
por inteiro.

Como numa sinfonia de cores, massas e volumes,
o olhar passeia, num alumbramento intenso e
calmo - a serenidade mora nesse encontro.

As cores exalam seu perfume luminoso; e cada
grão de vida tem sua força própria, que o olhar
descobre, encontra e abraça

Faça-se a luz, para que o olhar mergulhe e
se misture ao sereno turbihão radioso.
E que o pôr-do-sol, seja como a epifania
de quem reencontrou a luz.
Emanoel Barreto

*Este texto é um deo gratias. Uma ação médica bem sucedida deu-me de volta a visão plena, após um grande e pesado feixe de anos usando óculos. É incrível ver o mundo em suas cores mais reais. Viva o azul e viva a vida. Carpe diem.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

A saudação dos gladiadores

Caros Amigos,
O ano termina com a manutenção da insânia,
da violência sectária e demencial do
radicalismo mais atroz.
Ódio e sangue explodem como se fossem
uma espécie de dádiva bestial.
A morte de Benazir Bhutto, como uma fagulha
dantesca da irracionalidade humana
é bastante elucidativa do quadro
deplorável desse estágio que o mundo vive.

Sua presença no cenário mundial
era como uma delicada chama em meio
ao furação político que comanda corações
e mentes dos poderosos.
Sua busca por dar ao Paquistão acesso às
liberdades democráticas servia como
exemplo a radicais como George W. Bush,
Osama bin Laden e os narcotraficantes
que se intitulam libertadores da Colômbia.

O mundo inteiro perdeu uma de suas
mais expressivas figuras, dentre os que,
como ela, buscavam a paz, a solidariedade,
justiça social, dignidade humana.
Não é de hoje que a humanidade
convive com déspotas e com armas.
Sua morte é emblemática: significa que,
como no tempo dos césares, a espada faz a lei,
e essa lei manda matar.

Frente a tão brutal acontecimento vale
uma reflexão: até que ponto a violência
continuará em sua escalada gritante?
Esperemos que, apesar do pantanal que
martiriza aqueles que se voltam
para respeitar e engrandecer a vida,
continuem a brilhar as pequenas chamas
daqueles que desejam um mundo melhor.
Sim, porque, mantendo-se a situação
atual, prevalecerá a soturna saudação
dos gladiadores:
"Ave, César, os que vão morrer te saúdam."
Emanoel Barreto

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

E aí, Jesus?

Caros Amigos,
Hoje, uma mensagem ao Aniversariante:

E aí, Jesus?
Na manjedoura muitos presentes,
além dos que Te deram os Reis Magos?
Os amigos chegam alegres,
dando-Lhe abraços, desejando
Feliz Aniversiário?

E aí, Jesus?
A humanidade está feliz,
satisfeita, vive em paz
e segue o que Tu ensinaste?

E aí, jesus?
O Homem pensa em acabar
a fome no mundo, estender
a mão, dar um abraço?

E aí, Jesus?
Já percebeu que a paz está acuada
em meio às balas, à ferocidade e à
loucura de Bush e bin Laden?

E aí, Jesus?
Ainda Vais pregar o
Sermão da Montanha?
Sim, Tu deverias pregar
outra vez e atrair
multidões,, derramando
Tua palavra.

E aí, Jesus?
É Teu aniversário.
Feliz data, Menino-Deus.
E que, quem sabe, algum dia,
haja vozes para ouvir a Tua voz.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Caros Amigos,
O bispo de Barra (BA), D. Luiz Flávio Cappio, até esta tarde mantinha a greve de fome, em protesto à transposição das águas do Rio São Francisco. Essas atitudes de greve de fome são uma forma de chamar a atenção da sociedade via mídia. São uma atitude de extrema, garantindo-se ao seu autor ou autores visibilidade, na busca de fazer valer seus pontos de vista.

São aceitáveis, quando tratam de assunto de importância social e histórica irrecusável, como o despertar de uma ação de salvação nacional, numa mobilização em larga escala, que somente possa ser despertada por uma ação extrema, como a greve de fome.

Não é o caso, quando se trata do São Francisco. Estudos comprovam a viabilidade do projeto e sua importância para o semi-árido de vários Estados nordestinos. E mesmo que surjam argumentos contrários, não são suficientemente fortes para que se tome tal atitude.

Uma greve de fome assume aspectos e contornos de martírio: nesse caso, a auto-imolação de alguém em favor de uma causa maior. Dom Cáppio, inegavelmente um homem sério e de incontestável honradez, cometeu um equívoco, ao se propor a tanto. Haveria outros modos, como por exemplo, convocar a sociedade civil a se manifestar. Tem carisma a condições para tanto. Será lamentável se vier a morrer, pois sua presença seria reclamada sempre, em favor de outras causas.
Emanoel Barreto

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

A Rua Chile

A Rua Chile, na Ribeira,
é mesmo como o Chile:
estreito território de belezas,
encantos, deslumbre...

Caminho de ferro para o trem,

acalenta, ao longo do tempo,
inacabado e perene romance com o Potengi.

Casarões renascidos pelas tintas

e pela sensibilidade;
amigos, brindes e poesia;
agradável ponto de Natal.

A rua Chile é uma pátria.

Ali, o antigo é parte da História,
que se diz presente na
reconstrução do tempo que passou
Emanoel Barreto

domingo, 16 de dezembro de 2007

Avenida Rio Branco

A Avenida Rio Branco começa no Baldo,
em meio ao trânsito louco e desequilibrado.

Multidão de carros neuróticos disputam espaço e vez,

como se estivessem escalando grande montanha de asfalto.

Velha avenida, antiga estrada dentro de Natal,

a Rio Branco sobe sua própria ladeira,
pára em seus sinais
e afinal se lança feito louca para a Ribeira.

E no secular bairro velho da cidade,

a Rio Branco é vertente que deságua
no silêncio das coisas antigas.
E ali deixa descansar seu desespero de ser avenida.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Meu Destino

Caros Amigos,
Deixo vocês hoje com "Meu Destino", poema de Cora Coralina.

Nas palmas de tuas mãos

leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes – íamos sozinhos
por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida...
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado com a pedra branca
da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida...

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

A democracia e a CPMF

Caros Amigos,
Com a derrota do Governo, que viu rejeitada a aprovação da vigência da CPMF até 2011, o Senado deu uma demonstração de que, quando as forças da democracia agem livremente, prevalece o interesse social. Não que o Senado seja uma Casa de homens e mulheres essencialmente bons - a história tem comprovado o contrário - mas, de alguma maneira, anunciou-se como uma instituição que pode acertar.

Quando do transcurso da votação, percebeu-se claramente o processo democrático em andamento. As argumentações e contra-argumentações, as atitudes do Governo, cujos representantes parlamentares tentavam cooptar votos em favor da CPMF, até chegar-se ao ponto de o presidente Lula enviar uma carta-compromisso, garantindo que cem por cento dos recursos seriam aplicados em saúde, destinação inicial da CPMF.

Agora, virão os debates a respeito da reforma tributária. O País segue em frente. E, ao final das contas, todos verão que, mesmo sem a CPMF, haverá dinheiro para manter-se em funcionamento a máquina do Estado.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Um mistério e muito sofrimento

Caros Amigos,
As coisas de jornal estão informando que a cidade portuguesa de Praia da Luz está em campanha para esquecer a tragédia da menina inflesa Madeleine McCann, desaparecida de um hotel de lá, desde o dia 3 de maio. Velas e fotos da criança de quatro anos estão sendo retiradas de vitrines e outros locais de acesso ao público, com o objetivo de que o balneário não venha a perder turistas.

O caso todo é bem estranho: os pais chegaram a ser suspeitos da morte da menina, enquanto se procurava a pessoa ou pessoas que possivelmente a seqüestraram. Até agora, nada há de conclusivo. Por isso mesmo, os moradores da cidade começam a se preocupar unicamente com suas vidas e, claro, com seus ganhos com o turismo.

Esse fato nos remete à questão do heroísmo ou do martírio através da mídia. Enquanto havia a suspeita, indício forte de que uma criança inocente havia sido seqüestrada, ou seja, do ponto de vista de mídia surgia a figura do mártir, todos os votos de solidariedade se voltaram para a figurinha adorável de Madeleine, cuja foto pontilhou todos os jornais europeus.

Agora, desfeita a imagem, pela suspeita de que os pais a tivesse por algum motivo matado a criança, a aura de martírio esfumaçou-se, mesmo admitindo-se que ela, de alguma forma, viveu momentos de muita dor, seja quando foi morta, seja quando foi levada e supostamente também assassinada.

Mesmo com motivos para querer saber do seu desaparecimento, os moradores preferem se voltar para a vidinha de sua cidade. A polícia de Portugal não teve competência para desvendar o caso, e agora um mistério e muito sofrimento começam a ser esquecidos entre as brumas de um crime, para afinal se perder na noite das lembranças tristes.
Emanoel Barreto

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

A voz sinistra do Mão Branca

Caros Amigos,
Minha Filha lembrou-me aqui meus tempos de repórter policial. E pediu uma história. Lembrei-me do seguinte: Natal, nos anos 80, Natal foi varrida por uma onda de violência que tinha começado no Rio, onde alguém, que se identificava como Mão Branca, estava matando bandidos, todo santo dia. Aqui, foi imitado.
Aqui, alguém que também se identificava como Mão Branca, começou uma ação de extermínio. Um matador, ou matadores ferozes, nunca se soube exatamente quem, atacava bandidos e deixav junto aos corpos mensagens anunciando que outros teriam o mesmo destino. E assinava: Mão Branca.
O matador chegou mesmo a enviar aos jornais uma lista com nomes. Num desenho grosseiro, um punho masculino segurava uma balança onde, em cada prato, estavam os nomes. Polvorosa no mundo do crime. Reduziu-se em muito o número de assaltos. Não havia dia em que, pela manhã, os repórteres não encontrassem, em terrenos baldios, corpos de criminosos assassinados.
Então, numa manhã de sábado, eu estava na redação da Tribuna do Norte, quando um dos telefones tocou. Atendi. Do outro lado, uma voz metálica, forte, sinistra e tensa, anunciou: "Aqui é Mão Branca. Com quem falo?" Cobri o fone com a mão para ele não ouvir e gritei: 'Pessoal, cala a boca todo mundo, que eu estou com Mão Branca no telefone!'" A redação parou. Um largo silêncio aguardava o desfecho do telefonema.
Voltei a falar com aquela misteriosa voz e respondi: "Fala com Barreto." Ele retrucou: "Pois bem, Barreto, vá até as proximidades da Alpargatas, que você vai encontrar mais um." Quando tentei continuar a conversa, o sinistro personagem calou. Mas, antes disse: "Procure, Barreto, que você encontra." Ouvi um clique e a ligação estava terminada.
Não pensei um minuto : chamei Ivanízio Ramos, um fotógrafo pé-quente, meu velho amigo, e saímos voando da redação em direção a um dos carros da reportagem. A direção estava entregue à perícia de Leonardo, chefe do setor de transportes. Leonardo era atirado, corajoso e manejava com firmeza o volante. Acho que aquele Fusca nunca correu tanto, quando naquele dia.
Leonardo saiu costurando o trânsito. Se dava, ele cortava o sinal; se não, encontrava um jeito de ganhar a dianteira, logo que o sinal abria. E o carro zunia, numa carreira louca e decidida. Comigo mesmo, eu pensava: "Só espero que a gente não acabe morrendo, com essa história de Mão Branca." E o carro continuava, como se tivesse vida e estivesse maluco.
Afinal, chegamos à área onde estaria o corpo. Começamos a andar por locais ermos, estradinhas de barro. Silêncio grande. Somente o vento fazia barulho, agitando as folhas do matagal. O carro, agora, bem devagar. Quando descíamos para procurar o corpo, por precaução o motor ficava ligado e as portas abertas... Cuidado nunca era demais.
Caminhamos pelo meio do mato e nada. Vamos em frente. Nada, outra vez. Retomamos a procura. Depois de mais de meia hora de busca, vimos uma pequena aglomeração. Ao lado das pessoas, alguma coisa parecida com uma cova rasa. Pronto: era ali. Ivanízio preparou a máquina. Chegamos. Descemos do carro e fomos até lá.
Os tipos começaram a cavar. Usavam pedaços da pau, cacos de telha, tudo o que estivesse à mão. Cavaram, cavaram e nada. Afinal, descobrimos: a cova fora um logro. O telefonema uma astuciosa armadilha para chamar a atenção do jornal. Mão Branca não havia matado ninguém. Mas, aposto, o sujeito que fez a ligação devia estar por lá.
Moral da história: repórter tem de estar preparado para tudo. Até mesmo para não encontrar a notícia. Mas, dias depois desse ocorrido, o pesadelo estourava nas manchetes: Mão Branca tinha voltado a matar.
Emanoel Barreto

sábado, 8 de dezembro de 2007

Vamos falar com Drummond

Caros amigos,
Circula na net uma foto comovente: ao lado da estátua de Carlos Drummond de Andrade, no Rio, um homem pobremente vestido, tendo ao lado um saco plástico, desses de supermercado, conversa com a imagem do poeta. O flagrante mostra-o gesticudando, indicador apontado, como se estivesse defendendo um ponto de vista ou pedindo uma opinião.

O modo como a estátua foi esculpida, dá-lhe impressionante poder de humanizar-se; parece mesmo um homem, calmo, olhando a paisagem urbana, intensa e colorida do Rio, ou, quem sabe, pacientemente ouvindo uma conversa.

Tocou-me, a foto. Aquele brasileiro, bêbado ou louco - quem sabe as duas coisas - representou, ao meu olhar, uma enternecedora e trágica visão do nosso povo. Do nosso povozinho, da nossa patriazinha, como diria Vinícius.

Simplezinho, pobrezinho, aquele homem se dirigia à estátua como quem conversasse com alguém de sua total confiança, trazendo na expressão da face a manifestação de um gesto íntimo de decepção, de emoção intensa e sofrida: um desabafo, uma cobrança. Dava a impressão de referir-se a um terceiro. Talvez reclamasse a respeito deste terceiro, mas tudo feito de forma cordata. Pela express~çao facial, era uma reclamação sem intenção de confronto. Uma exigência de desculpas, quem sabe mesmo a súplica por um pedido de perdão.

E Drummond, em seu saliente silêncio de bronze, mas com um olhar tão humano e tão compreensivo, ouvia pacientemente aquelas palavras e, quem sabe, em sua placidez de estátua não lhe estaria, de algum modo, dizendo o que fazer.

Talvez somente um poeta morto, e sua estátua, transformada em oráculo, nos possa dizer o caminho e indicar as pedras que nele estejam. Talvez, aí, o Brasil encontre seus passos.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

O destino missionário de Xuxa

Caros Amigos,
O JB On Line trouxe um questionamento da maior importância aos seus leitores: quer saber se Xuxa deve se dedicar aos jovens. Já pensou? Importantíssimo: tanto a pergunta, quanto a dedicação de Xuxa aos jovens. Ela, que já tanto bem faz às nossas crianças, deveria agora, missionária e sã, voltar seus atributos intelectuais e éticos em favor da juventude que, coitada, à falta de uma líder como aquela expressiva figura midiática, está perdida, sem saber o que fazer.

Esse tipo de jornalismo, é óbvio, é da maior importância, uma vez que trata de questão de vital essencialidade para todo o País: a participação expressiva de Xuxa em favor das grandes causas, vez que ela é líder nata e, historicamente, tem-se postado ao debate, na discussão dos grandes temas.

Ironias minhas à parte, é claro que o JB quis saber mesmo é se se o leitor-internauta entenderia o momento atual como o mais propício para Xuxa buscar inserir-se no nicho de mercado formado pelo consumidor juvenil. É sabido que ela já praticamente esgotou o filão infantil e em mais uns breves anos estará cumprido o seu ciclo como apresentadora. Mas aí, questiono ainda assim: por que valorizar tanto essa figura, a ponto de pedir opiniões a respeito de seus próximos passos mercadológicos? Por que um jornal perder tempo com isso, quando há assuntos e temas sérios a ser tratados junto ao seu leitorado?

Quando o jornalismo se encaminha para a fatuidade, para a exaltação dos faits divers, especialmente se força um questionamento, como é o caso, está prestando um desserviço ao leitor. Mais que isso, está prestando um desserviço à sociedade, que certamente espera ver, nas páginas, coisas de jornal mais, digamos, consistentes.

Sei que o JB deu fez uma viragem editorial que prioriza a informação espetacularizada; basta ver a diagramação de sua primeira página, e seu conteúdo visual, muito colorido e com o título do jornal em azul. Mas, de alguma maneira, deveria manter em nível mais alto as discussões que propõe a seu leitorado. Infelizmente os tempos mudaram e o velho JB já não é mais o mesmo.
Emanoel Barreto

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Cobras criadas

Caros Amigos,
O Senado Federal cobriu-se de vergonha, ao garantir o mandato do seu ex-presidente, Ranan Calheiros. Contra todos os indícios de quebra do decoro parlamentar, em questão de minutos ele foi absolvido e o processo mandado a arquivo. Pergunta-se: até onde chegaremos, com um Senado assim? Até quando o povo poderá ser achacado com procedimentos desse tipo? Ao que tudo indica, per omnia seculum seculorum...
O ofidiário do Senado, sem dúvida, já estava orquestrado em mãos ocultas, espertalhonas, de quantos as mergulharam no charco do parlamento poluído. O caso Ranan Calheiros é apenas um, mais um, a refletir que tipo de cultura política está firmemente enraizada na vida pública do País. O jogo de interesses, a troca de favorecimentos, facilitações e insidiosas práticas, volta a ser o marco profundamente encravado, ferindo largamente a honradez e respeitabilidade nacionais.
Com isso, permanece e se alastra a desconfiança no que se convencionou chamar de classe política. Isso ofende a cidadania, macula a fé no desempenho dos representantes e os torna como que um bando um quadrilha, a atacar com ferocidade incomum valores éticos, e a devastar, com gênio assombroso e prodigiosa desfaçatez, o respeito e a retidão.
A Nação foi, mais uma vez, vilipendiada. Por favor, um minuto de silêncio.
Emanoel Barreto