sexta-feira, 31 de março de 2006

Não traga o dragão

"Gagarin subiu, subiu,
Foi até o espaço sideral.
Chegando lá na lua ele sorriu:
vou m'imbora pro Brasil,
Que o negócio é carnaval"
(Marchinha de carnaval, quando o russo Yúri Gagarin fez a primeira viagem espacial)

O astronauta brasileiro Marcos Pontes vai passar oito dias no espaço, enquanto seus companheiros lá ficarão por seis meses. A imprensa está comemorando o fato com os clarins do heroísmo. O fato não está sendo analisado. Está sendo relatado.

O que de tão importante para a ciência pode ser constatado em apenas oito dias? Foram 35 milhões de reais, para uma viagenzinha espacial. Muito, para um país cujo povo tem tão pouco.

Este comentário é curto. Espero apenas que, ao voltar, se ele não puder trazer São Jorge para nos ajudar, não traga, por acaso, em meio às suas tralhas astronáuticas, o dragão. Se isso ocorrer, estamos em má situação: como não mais existem cavaleiros andantes, nem mesmo Dom Quixote, quem nos salvará da fera?

Não vou, não vou e não vou...

"Na guerra, o essencial é a vitória;
não campanhas prolongadas."
(General chinês Sun Tzu, em "A arte da guerra")

O ex-ministro Palocci disse que não ia, porque estava com estresse. Okamotto, aquele que pagou do própio bolso 23 mil reais de uma dívida do presidente Lula para com o PT, também não vai. Mais claramente, esse pessoal está sendo chamado, chamado não, intimado a depor pela Polícia Federal, mas não vai.

Não vai, não vai e não vai. E não acontece nada.

Uma pergunta: a polícia perdeu seu... poder de polícia? Quer dizer que suspeitos, pessoas notoriamente envolvidas com transações ilegais, se apresentam para depor quando querem, se querem ou se puderem? Lamentável, não?

A questão de Okamotto, dirigente supremo do Senac, chegou ao deboche: um agente foi entregar a intimação, que ele não recebeu porque "estava viajando", foi o que disse uma secretária e assim publicado pela imprensa. Só que, à saída, o agente voltou por qualquer motivo e viu ninguém menos que Okamotto saindo de uma sala e entrando em outra.

Espere aí: isso não tipifica alguma figura delituosa? O sujeito não poderia ter sido preso ali mesmo, por tentativa de obstrução do trabalho policial? A situação brasileira, cheia de enigmas morais, viscosidades éticas, transvios de conduta ideológica, chega agora ao cúmulo da cretinice.

Elementos de alta periculosidade - sim, corrupção e desmandos com os dinheiros públicos, a meu ver, tipificam periculosidade - caminham à solta e, soltos, futuramente voltarão a delinqüir.

Eu supunha que uma intimação policial tinha força coativa, era uma imposição, não uma escolha por parte do intimado. Em meio a um governo que em seu cerne acumula toda uma gama de desregramentos e depravações políticas e administrativas, o presidente Lula pensa sua próxima intentona: voltar a dirigir - eu disse dirigir? - os destinos do Brasil.

Na verdade, ele intenta dirigir as desditas do Brasil. Nisso ele é muito bom.

quinta-feira, 30 de março de 2006

Banalização da Carta Magna

"Muitas vezes a inteligência
vale mais que o conhecimento."
(Einstein)

O jornalista Walter Medeiros envia artigo cuja transcrição segue abaixo.


O mundo tem visto a repetição cotidiana de imagens que, antigamente, a ficção seria acusada de imaginar demais, caso as produzisse em películas cinematográficas. A aventura destruidora e mortal do presidente Bush no Iraque, com mortes aos milhares, depois da aventura louca no Afeganistão, em busca de Osama Bin Laden, que até hoje não encontrou.


Aqueles campos de prisioneiros criados pelos americanos em Guantânamo, que vez por outra vêm à tona, mostrando imagens horrorosas, que só lembram os campos nazistas, e tantas outras situações fartamente “ilustram” os telejornais através dos relatos sobre a vida, o poder e a morte dos traficantes de drogas e outros.

Os produtores do Fantástico, por exemplo, parece que perderam a noção do próprio nome do programa e transformaram a chamada revista eletrônica do domingo em mais um programa de reportagem policial; não bastasse o Linha Direta, que presta seus serviços e desserviços também toda semana.

Desta forma vai se consolidando na sociedade a cultura do fato policial em primeiro lugar, invertendo completamente a ordem de interesse que qualquer sociedade saudável tem, de deixar para o vulgo as páginas ensangüentadas dos jornais caça-níqueis.

Pois esta banalização da violência vai mais longe e começa a contaminar os ambientes onde se podia esperar que não ocorresse, em vista de certos mantos protetores que encontramos nos regimentos e regulamentos internos das casas legislativas.

E chega pelas vozes de advogados que, a título de discutirem questões ligadas ao cotidiano dos processos administrativos e judiciais, extrapolam no linguajar, de forma completamente diferente daqueles tempos em que se usava o latim no âmbito jurídico e a linguagem chula era rechaçada, para manter elevado o nível das discussões.

O fato que motiva estas considerações se deu no dia 28.03.2006 durante reunião da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal. Tratavam sobre as vantagens ou desvantagens de implantar a chamada Super-Receita e para tanto vieram representantes de diversos setores do serviço público federal e entidades representativas de categorias profissionais envolvidas na questão.

Os argumentos até que eram fortes e pertinentes, mas de uma hora para outra começaram a achar que havia um desamparo de certos setores que, devido à legislação vigente, teriam desvantagens ou desequilíbrio ante as regalias estatais.
Meses atrás escrevi artigo sobre violência, onde enumerava as formas como a sociedade recebe ou é invadida pela mídia, principalmente, com termos incitantes, muitas vezes utilizados até inadvertidamente e sem nenhuma intenção de cultuá-los.


No futebol, tudo é “gang”, “máfia”, “tiro de longe”, “vamos agredir mais”, “vamos combater”, etc. Fato que se repete em programas, novelas e telejornais. Da mesma forma que nas escolas as crianças e jovens usam termos que nem no chamado baixo meretrício usavam antigamente.

Mas o que chocou naquela discussão entabulada no Senado Federal, com transmissão ao vivo para todo o Brasil, foi a explicação que altos funcionários (altos pelo menos no status) da Receita Federal, que condenavam o poder de certo colegiado de decidir contra o contribuinte sem opção de recurso.

Aquele que teria um leque imenso de palavras a utilizar para representar sua indignação foi tão longe e, o pior, sem qualquer estranheza dos presentes, para definir em três palavras o que achava do cerceamento dos direitos dos contribuintes: “Estupraram a Constituição”.

A afirmação, esdrúxula - por mais metafórica que tenha sido - constitui um desrespeito àquele documento que veio trazer um novo ordenamento jurídico para o Brasil, no rumo da legalidade e da legitimidade. Diz a doutrina e a lei, sobre o estupro: “crime contra os costumes consistente em constranger mulher, mediante violência ou grave ameaça, a manter conjunção carnal.”

Aceitar com naturalidade aquelas palavras, seria o mesmo que considerar normal as ocorrências costumeiras nos presídios, onde os presos que declaram com ar de sabedoria o Artigo do Código Penal onde estão enquadrados, cometem mais crimes ao alegarem que fazem justiça com as próprias mãos, para punir os estupradores que chegam com o fim de cumprir suas sentenças.
(
walterm.nat@terra.com.br )

Insegurança e Estado

"Inimigos sabem que quando a França
envia um regimento da Legião Estrangeira
é porque quer acabar com o conflito rapidamente."
(Gianni Carta, jornalista)

A frase acima, pinçada do livro "Velho Novo Jornalismo", dá bem a dimensão de quanto o problema da violência, quando atinge pontos socialmente inaceitáveis, precisa de uma ação enérgica do Estado, sob pena de estar encaminhando o conjunto da sociedade ao descalabro, ao desequilíbrio, ao medo.

Refiro-me à histórica leniência do Estado brasileiro para com o crime organizado, aqui e, em especial, no Rio de Janeiro. Ontem, o Jornal de Hoje Primeira Edição abordou a existência de um ponto de venda de drogas a apenas 100 metros de uma delegacia em Neópolis. O fato é do conhecimento da polícia e nada foi feito.

Em função da matéria, apenas reduziu-se um pouco o tráfico. Mas, depois, tudo volta ao normal, ou seja: os bandidos voltarão a agir com desenvoltura, violência e impunidade.

O caso no Rio, milhares de vezes mais grave do que o de Natal, onde também se comerciam largamente drogas de todos os tipos, demonstra com bastante clareza a ineficiência decisória do Estado em enfrentar com rigor, quero dizer, com ação implacável, a ação dos criminosos.

A situação no Rio já chegou ao ponto do insuportável e, historicamente, mantendo-se o atual quadro, poderá trazer conseqüências as mais dramáticas, uma vez que os bandidos têm organização e inegável poder de fogo.

Junte-se a isso o fato de que bandidos autores de crimes hediondos poderão ser beneficiados com prisão semi-aberta. Com isso estarão novamente nas ruas, livres e rápidos, para voltar à prática do seu ofício de morte. Cidadãos vão morrer e os bandidos terão sempre uma nova chance para voltar ao crime.

O Estado tem o dever de garantir ao cidadão o exercício da cidadania e isso inclui o direito de ir a vir. Com a ação dos bandidos, esse direito está duramente atingido. Portanto, é preciso dos aparelhos policiais não apenas uma presença meramente legal, mas uma ação eficazmente presente.







quarta-feira, 29 de março de 2006

As minhas duas mortes

A crase não foi feita
para humilhar ninguém.”
( Poeta Ferreira Gullar)


A jornalista minha colega olhou para mim com cara de espanto, botou a mão na boca, arregalou os olhos. De repente, inverteu a marcha de suas emoções confusas e começou a rir. Correu para mim e me abraçou.

Parei, aceitei o abraço da amiga, que se manifestava sincero e forte, carinhoso e solidário, de uma solidariedade que eu não esperava pois, pelo menos para mim, não havia comigo qualquer resquício de carência ou necessidade de apoio e portanto aquela recepção me parecia sem sentido.

- O que houve? - balbuciei.
- Ora, você não soube? - respondeu, interrogativa.
Não, de jeito algum, eu sabia o que havia acontecido. Só que, “o que havia acontecido”, era bem simples: um boato havia varrido alguns setores do nosso jornalismo, dando conta da... minha "prematura e lamentável morte".


Só que ninguém, nem mesmo a minha amiga, sabia me explicar do que eu havia morrido: se do coração, de raiva, isquemia, atropelamento, trombose, hepatite, inflamação de garganta, topada ou qualquer outra causa, incluindo assalto ou doença do sono.

Mas, que eu tinha morrido, tinha morrido. E pronto. Por isso, a expressão de alegria, equivalente a ter reencontrado um ressurrecto. Mas... como ela soubera da minha morte? Não se lembrava direito, mas uma outra colega havia comentado sobre isso. E com muita convicção.


Mas agora, alegria, alegria, tudo estava desfeito. E ela saiu por aí, trombeteando meu renascimento. Ufa, cumprimentei minha amiga novamente, fui embora e fiquei feliz por estar vivo.

Essa foi minha primeira morte. A outra foi assim: em finais dos anos 80, foram trasladados para Natal os restos mortais de Emanuel Bezerra, estudante morto pelo aparelho repressor do regime de 64. O rapaz fora assassinado durante sessões de tortura quando o regime, a título de impedir a ditadura do proletariado, impunha a ditadura dos privilegiados.

Aí, veja só: começaram os anúncios de que os despojos viriam para Natal, só que com um detalhe: eram os "restos mortais do estudante Emanoel Barreto.” Digo isso porque assisti a um noticiário de TV onde meu nome era citado, ouvi em rádio e li em jornal.

Claro, comecei a ficar apreensivo com a surrealista situação: teria eu já desencarnado e não saberia? Será que eu era já um fantasma a vagar entre os vivos, sem qualquer noção de que as pessoas não me viam e eu, tolamente, pensava estar entre os que respiram? Como eu me supunha vivo e acreditava não haver enlouquecido, comecei a tomar precauções.


Aqui acolá, em vários meios de comunicação, havia a inclusão do meu nome e aí temi que fosse se espalhar novamente a onda de boatos sobre mais uma morte minha. Comecei a ligar para as redações e lembrar que ele, o outro, era Emanuel Bazerra. Eu era Emanoel Barreto, se lembravam?, e que eu não, eu não havia morrido.

E assim consegui que as coisas mudassem. Meu temor era que familiares meus tomassem conhecimento da notícia. A alguns comuniquei que estava vivo e até me submeti ao teste de São Tomé: qualquer um poderia me tocar, para confirmar que eu falava a verdade.

A outros não tive tempo de comunicar que estava vivo. Milagrosamente, estes não tomaram conhecimento do noticiário. Mas afinal, para minha tranqüilidade, chegaram os restos do rapaz e ele foi sepultado, em meio a grandes demonstrações do pessoal da esquerda, lamentando o brutal assassinato daquele brasileiro. Assim, eu e ele ficamos em paz. Mas ainda hoje penso: ainda bem que não mandaram rezar a minha missa de sétimo dia...

terça-feira, 28 de março de 2006

Dança do ventre

"Tudo o que fazemos, cansa.
Feliz daquele que não perde as forças."
(Goethe)

A crônica abaixo é do meu livro "Crônicas para Natal - as crônicas do Jornal do Dia".

E a dança se fez carne e habitou entre nós.
Movimentos fortes, femininos gestos, curvas siamesas que enviesam sonhos.

E dos véus e mãos que se encaminham surge a mulher, feita toda de lentos caminhos, passos vagarosos, tendas e mistérios.


Lendas que se achegam, gestos faiscantes, brisas do deserto, curvas lampejantes.


A dança do ventre é vida que se espalha e fica contida, toda, no instante mesmo desse desmaio programado e calmo.


A insustentável leveza da mentira

"O lado mais fraco
é o da mentira."
(Do caseiro Francenildo Santos, ao saber da demissão de Palocci)

Depois da dança da deputada Ângela Guadagnin, foi a vez do ministro Palocci dançar. Envolvido em explicações demasiadamente complicadas, verdadeiros labirintos de uma retórica do insustentável, o ministro utilizou-se em sua carta ao presidente Lula de um eufemismo, para dizer que estava pedindo "afastamento". Não, ele estava pedindo demissão.

E foi atendido. A edição de hoje do Diário Oficial da União traz a saída do ex-ministro como sendo "a pedido", ou seja: ele não foi demitido, não foi posto para fora. Habituado a conviver com a improbidade, o presidente Lula fez esse último afago ao ex-colaborador. O mesmo deve ser dito quanto ao ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, também saiu "a pedido".

O caso é exemplar: os poderosos acreditam-se acima e além do comum dos mortais. E esse foi o erro do então ministro Palocci. A teia de intrigas montada para desmoralizar o humilde caseiro se esgarçou e agora a mentira virou tiras, trapos de uma conjura de alto risco.

Talvez, a pedido do povo, tenha chegado a hora de o Governo começar a agir com decência. Não adianta passar Mantega no pão, que dessa vez não vai dar para o povo engolir.

segunda-feira, 27 de março de 2006

Quando a terra é ferida

A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás;
mas só pode ser vivida olhando-se para a frente.
( Soren Kierkegaard, 1813-1855)

A Via Costeira, antes de ser o que é hoje, a grande e esfuziante estrada que alegra até mesmo a mais renitente depressão, tinha, por incrível que pareça, o mesmo traçado básico de hoje, só que em meio a um cerrado matagal. Era um caminho estreito, difícil de percorrer: a pé ou de carro.


Pois bem: certo dia, acompanhado por amigos, um conhecido meu começou a trilhar a senda da descoberta. Andou, andou, andou, partindo de Areia Preta, superou todos os percalços do caminho até que, - choque! -, descobriu um brutal, violento, inaceitável trabalho de devastação e retirada de terra, formando já uma gigantesca cratera.

Sabe onde isso ficava? Ficava, ou melhor, fica (pois a devastação não foi reconstituída), ao lado de uma curva bem fechada. Vá pela Via Costeira e você verá: são uns paredões enormes, vermelhos, uma grande cratera, escavada a pá e máquinas pesadas. Meu amigo parou, viu e, dias depois, contou-me.

Pedi a Wellington Medeiros, chefe de reportagem da Tribuna do Norte, para colocar o assunto em pauta e, numa bela, tarde tomei o rumo do perigo. Foi um trabalhão: a Kombi do jornal mal se sustinha sobre as rodas, tantas e tão inclinadas as curvas, tantos e tão traiçoeiros os areais movediços.

Cheguei afinal e, mal dava para acreditar: cerca de dez caminhões moviam-se com grande facilidade na larguíssima cratera, todos com muitos trabalhadores enlouquecidos em sua tarefa de destruir a natureza. Era barro de primeiríssima qualidade, para construções de luxo em Natal.

Desci da Kombi em companhia do fotógrafo e logo dezenas de olhos raivosos se cravaram na dupla. Para facilitar o trabalho, mandei que ele fosse fotografando para um lado, que eu entrevistava pelo outro. Se um fosse capturado, daria tempo do outro se meter na Kombi e fugir. Depois, era usar a força da direção do jornal, para ver se livrava quem estivesse preso, ou melhor, sob seqüestro.

Mas, não sei porquê, não houve, nada, nenhuma manifestação maior de agressividade, a não ser respostas dada de má vontade, caras fechadas, bocas rugindo monossílabos, expressões ruminando horrores. Mas, dava pena ver: os enormes paredões, lavrados de barro vermelho, como que sangravam seu sangue de terra, exibindo as feridas da brutalidade.

De um jeito ou de outro consegui apurar quem era o manda-chuva: um atravessador qualquer, que literalmente havia descoberto aquela mina e a estava vendendo em retalhos, em caminhões, a ricaços de Natal.

Os caminhões e escavadeiras moviam-se cruelmente sobre aquele corpo da natureza, pisoteando suas entranhas de forma brutal, sumariamente indigna, extensamente estúpida. Ficamos cerca de meia hora apurando o assunto e saímos quando um sujeito, responsável pelos trabalhos, ia chegando e, aí sim, demonstrando disposições belicosas.

Aproximou-se, perguntou o que era aquilo, eu expliquei que era uma reportagem. Ele sabia que estava errado e não tentou impedir a saída da equipe. Amaldiçoou-nos com um olhar fervente e sumiu no meio da buraqueira.

A matéria foi publicada dia seguinte. Dois ou três dias depois, o que acontece? Uma reunião entre os Comandos da Marinha (a área é terreno de Marinha), Polícia Federal e outras entidades federais e pronto: todos foram impedidos de trabalhar na Via Costeira e banidos para sempre de sua infernal missão de matar aquela linda natureza.

domingo, 26 de março de 2006

O homem é o momento

“O nascimento não é um
ato. É um processo.”
(Erich Fromm)

"Quem faz o homem é o momento.” A lapidar afirmativa me era repetida vezes e vezes quando criança, sendo atribuída a meu avô. Mais claramente: diante de circunstâncias inesperadas ou ameaçadoras, alguém pode ter atitudes incrivelmente coerentes e fortes para enfrentar seu medo interior, seguindo-se reação igual e contrária àquilo que o cerca.


A magnífica frase, essencializando toda uma filosofia popular, deve ser entendida e levada a sério. Afinal, somos tudo e nada, algo e coisa alguma, dependendo sempre do momento. Da mesma forma, encontramos na frase de abertura da coluna a visão humanista de Erich Fromm, lembrando que o nascimento é um processo.

Detalhe: o nascer não se exaure na circunstância do vir ao mundo, ser parido. Não. O nascer está sempre ocorrendo ou porvir, dependendo do que tenhamos em mente: se já nos acomodamos a nós mesmos, paramos e não mais precisamos nascer; se queremos um pouco mais do eu, um horizonte a mais dentro de nós mesmos, estaremos pois nesse eterno processo do nascer.

A sabedoria do sertão pode casar magistralmente com o saber dos mais renomados mestres.

sábado, 25 de março de 2006

Vergonha de ser honesto

"Muitas são as leis num estado corruptíssimo."
(Tácito, orador romano)


SÃO PAULO - Depois de ficar presa durante 128 dias no Cadeião Pinheiros, acusada de ter roubado um pote de manteiga, a doméstica Angélica Aparecida Souza Teodoro, de 18 anos, foi libertada na manhã desta sexta-feira. Ao sair do cadeião, Angélica, emocionada, abraçou a mãe, Maria Nazaré de Souza, de 48 anos.

Na noite de quinta-feira, 22, o ministro Paulo Gallotti, da Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), concedeu a liminar que determinou a libertação de Angélica.

Angélica entrou com pedido de habeas-corpus no Superior Tribunal de Justiça após ter o pedido negado pela justiça paulista. Desempregada, a doméstica tem um filho de dois anos. A defesa da doméstica argumentou que, ao tentar furtar o pote de manteiga, no valor de R$ 3,20, não houve ameaça contra o dono do estabelecimento, o que não justifica a prisão. Além disso, o fato de ela estar passando fome no momento do crime ameniza o delito.

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A notícia acima foi retirada d'O Estado de S. Paulo e, não fora pela dramaticidade que em si o caso encerra, poderia muito bem constar entre os textos de Kafka, o escritor que retratava a realidade como um absurdo.

O que essa senhora praticou - e disso qualquer advogado sabe - foi o chamado furto famélico, aquele em que o ser humano, não tendo condições econômico-financeiras, nem mais a quem apelar, seja como mendigo ou como alguém que busque alguma forma de apoio junto a amigos ou familiares, pratica furto de pequena monta, cuja subtração não levará à falência ou prejuízo maior, físico ou material, o proprietário da coisa furtada.

O furto envolveu um pote de manteiga de valor ínfimo, mas, para a vítima - sim, aquela senhora é uma vítima da estrutura da sociedade brasileira - totalmente inacessível, dada a sua condição de extrema pobreza, agravada pelo fato de estar desempregada. Mas, qual o resultado? Nada menos que 128 dias de cadeia. Junte-se a isso a morosidade cruel da Justiça paulista, que a manteve presa, quando pediu por liberdade.

Não é preciso ser um jurista para ver que aquela moça furtou por absoluta necessidade. Mas não entendeu assim o julgador paulista. Foi preciso o caso chegar ao Supremo, para ser deferida sua soltura.

Enquanto isso, nos escaninhos do Poder figurões e maiorais lotam suas contas com dinheiros escusos e, disso todos já sabemos: nada lhes acontecerá. O plenário da Câmara dos Deputados já virou palco da dança da deputada Ângela Guadagnin, que, entre o grotesco e o ridículo, oscilava sua balouçante alegria comemorando a liberação de um dos usufrutuários do mensalão.

Em artigo no Jornal de Hoje, o procurador de Justiça Luiz Lopes de Oliveira Filho, escreveu: "Ângela e sua dança, para mim, foram o epílogo da decência." A força da imagem, a fineza estilística sintetizam bem o estado de depravação a que chegamos: comemora-se com macaquices num plenário a absolvição de um tipo que participou notoriamente de um esquema de corrupção.

Rui Barbosa tinha razão: no Brasil já há quem tenha vergonha de ser honesto e comemore escancaradamente a vitória dos que vivem às custas da pobreza do povo. É realmente o epílogo da decência.

sexta-feira, 24 de março de 2006

Não, não: não está havendo nada

"Não deixe para amanhã
o que pode gozar hoje."
(Lenina, personagem de "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley)

Não, não, creio que não. Creio que está tudo bem no Brasil: não há corrupção, ninguém apoderou-se de dinheiros públicos, ninguém financiou campanhas com dinheiro de caixa dois, nenhum publicitário guardou milhões em paraísos fiscais, o presidente Lula de nada sabe; até porque é um homem que não convive com a improbidade.

Não, não. Não está havendo nada. O que se diz por aí é alucinação. Sim, é isso, é somente alucinação. Uma grandiosa, estupefaciente e penetrante alucinação, que nos faz pensar que estão acontecento coisas terríveis, como a morte do prefeito Celso Daniel e ameaça aos seus familiares, que, também paranóicos, fugiram para o exterior, tomando porém destino ignorado. Que absurdo.

Mas é tudo só impressão. É só uma sensação. Estamos todos sob um processo de auto-sugestão, que nos leva ao pessimismo e daí a suspeitarmos que estaria havendo, como diria Chico Buarque, tenebrosas transações.

Assim, fique tranqüilo. E ainda pegando uma carona nas composições de Chico Buarque, faça o seguinte: quando a polícia chegar, chame o ladrão. É que... nesse país, os ladrões resolvem tudo. Tudo. Tudo. Tudo.

PS: O caso do caseiro, com trocadilho e tudo o mais, também é fruto de alguma ação do Grande Houdini. Ninguém mandou quebrar seu sigilo bancário, não aconteceu nada. Pensando bem, será que você existe?




quinta-feira, 23 de março de 2006

O remédio da morte

“Fiado somente para maiores de 130 anos, acompanhados dos seus avores e trazendo os documento.” (Letreiro de barraca, na Redinha) Claudenício, 26 anos, pegador de caranguejo, chegou naquela noite à casa e teve de Mariana, a mulher, a notícia mais terrível que poderia receber: Valdetário, o único filho do casal, estava em febre: “Ele está pegando fogo.” Angustiado, lançou um olhar medroso para a figurinha que se debatia na rede esgarçada. O medo não era da doença em si, pois confiava que fosse só uma inflamação de garganta, e ele poderia salvar o menino comprando algum remédio - o medo era de não ter o dinheiro para o tal remédio. Sua mão tímida percorreu o pobre labirinto do bolso vazio e somente encontrou terra molhada do mangue. “E agora?” - ele virou-se para a mulher. “Sei não” - ela balbuciou. Claudenício olhou para um lado, para o outro. Via pouco, a luzinha da lamparina mal dava para mostrar a carinha esquálida do filho tremendo de febre. Um vento frio e ruim rosnava em volta do casebre ao lado das águas malcheirosas, de onde vinham nuvens de mosquitos se refestelar nos corpos magros da família. “Tem dinheiro não”, disse como se Mariana já não soubesse. Ela estendeu a mão e tocou o corpo do filho. “Vala-me minha Mãe de Deus, que o menino quase que me queima de febre.” E a mulher afundou num pranto lancinante, penetrante, cortando de sofrimento os ouvidos de Claudenício. “Mariana”, ele disse, enquanto pegava uma faca e colocava na cintura, “vou atrás do remédio.Vou lá na farmácia. E só volto com ele. Enrole o menino num pano, dê água, molhe ele e espere: eu volto.” A mulher curvou a vista e ele desapareceu no meio da lama e da noite. Correu o mais que pôde, até chegar a uma pequena farmácia. Bateu na porta, bateu de novo e outra vez, até que Seu Pereira, o dono, apareceu. Claudenício contou tudo depressa, garantiu que pagava logo que pudesse: “O senhor sabe que eu pago, porque já paguei outras vezes, não sabe?”, mas o homem não se compadeceu:"Tem remédio não. Sem dinheiro, tem remédio não." Claudenício sentiu raiva, mas sentiu principalmente humilhaçãol. Ele, um homem pobre e honrado, jamais havia deixado de pagar uma dívida. O dono da famácia era um que sabia disso. Depois, a raiva superou a humilhação e a humilhação virou coragem, uma coragem doida, vinda não se sabe de onde. Uma coragem pintada de desespero. Então, ele não contou conversa: puxou a faca e encostou no pescoço do homem: “Não tou robando. Tou pedindo emprestado e pago com dinheiro, quando puder.” Tremendo, Pereira entrou na farmácia, enrolou um pacotinho num papel e entregou a Claudenício: "Taí o remédio, pode levar. Claudenício voltou para casa. Correndo em meio à lama, o mais que podia . Chegou, entrou em casa e mandou a mulher dar uma colherada ao menino: “Uma não: dá logo duas.” Ela obedeceu, sem sequer verificar o que estava dando ao filho. O menino engoliu tudo, em meio a uma careta terrível. E logo vieram um choro mais forte, convulsões e, depois, a morte do menino, em meio ao silêncio noturno da lama. O dono da farmácia havia entregue a Claudenício um poderoso raticida. Era o que dizia o rótulo, cúmplice da escuridão e daquele desespero.

segunda-feira, 20 de março de 2006

Birimba e a égua

"Matamo três soldado,
quatro cabo e um sargento.
Cumpadre Mané Bento,
só faltava tu."
(Jackson do Pandeiro, em forró)

Trago mais um dos Causos do Edgar. São sempre histórias com personagens do povo, gente do sertão, com a marca da autenticidade nordestina, em seus dizeres e falares.

Hoje me lembrei de um rapaz chamado Roberto Moura do Nascimento, nome bonito, tão bonito que nunca poderia ser pronunciado sem constrangimento pelos seus companheiros de trabalho na Fazenda Umbuzeiro, por esse motivo muitos só o conheceram pelo não tão belo apelido de Birimba. O porquê dessa alcunha é ignorado até mesmo pelo proprietário do nome.

A Fazenda Umbuzeiro fica no município de Passa e Fica, próspera cidade do agreste potiguar vigiada pela imponente Pedra da Boca, que apesar de pertencer ao município de Araruna - PB, foi adotada e é venerada pelos passifiquenses. Além das belezas naturais, a cidade de Passa e Fica é exímia produtora de cabras presepeiros.

Marmotas e fuleragens são infindáveis por lá. Não precisa nem ser natural da cidade, basta morar lá um tempo e ter na genética uma predisposição para fuleragem que o camarada já se torna protagonista de presepadas de todo tamanho. Birimba chegou na Umbuzeiro em março de 2005, trazido por mim que na época gerenciava todas as atividades da propriedade para cuidar dos eqüinos e iniciar alguns animais na sadia atividade da vaquejada.

Eu já conhecia o trabalho do elemento pois ele morou um tempo na granja de Madílson, vulgo Neninha, motorista e amigo da nossa família. Meu único medo na época era pelo fato do rapaz ter uma relação um pouco tumultuada com cachaça, o bicho tinha um "óido" tão grande das "marvada" que não podia ver uma que já queria acabar com ela... bebendo é claro.

Fiz as devidas recomendações sobre o comportamento exigido pela empresa e sobre as punições aos atos que viessem a prejudicar o bom andamento dos trabalhos e lhe dei um voto de confiança. Pois bem: alguns meses se passaram e num sábado qualquer desses aí, haveria um bolão de vaquejada no vizinho município de Serra de São Bento, do amigo prefeito Chico de Erasmo.

Logo na quarta-feira Birimba me pediu autorização para participar do evento e levar um animal da fazenda, como a folga dele era no domingo e eu também estaria por lá pois também gosto da brincadeira, liberei o intrépido rapaz para que ele se preparasse hepática e psicológicamente.

O bolão foi um sucesso, Birimba até se classificou para disputar o prêmio em dinheiro mas não obtesse sucesso. Já era um pouco tarde e procurei o indivíduo para irmos embora, minha preocupação era que Birimba "infiasse a cara na cana", enlouquecesse em cima da Serra e resolvesse descer voando lá de cima.

Quando eu o encontrei ele ainda estava sóbrio, pelo menos estava falando, respirando e se mexendo, já eram ótimos sinais numa situação como aquela. Quando o chamei para irmos ele me alertou que precisava ficar mais um pouco para embarcar os cavalos no caminhão e "gerenciar" todo o processo. Ele estava certo, é necessário cuidado nessa hora: inocentemente, deleguei essa responsabilidade ao prestativo funcionário e desci para Umbuzeiro.

Ao acordar no domingo, tomei café, e saí para dar uma fiscalizada na fazenda, estava tudo tranquilo... esse era o grande problema... perguntas não saíam da minha cabeça: onde estará Birimba? Será que deu tudo certo na volta? Será que ele bebeu muito? Todas as respostas eu tive quando resolvi descer até os estábulos . O infiliz do Birimba tinha acabado de chegar, estava "bebo cego", e como todo bebo tem uns raciocínios inexplicáveis, ele resolver dar banho numa égua que nem tinha ido ao bolão.

Quando eu chego no local da peleja vi uma cena tão engraçada que nem tive condições de repreender o ato de irresponsabilidade de Birimba. Estavam lá, de baixo para cima, nessa ordem: o pé de Birimba (descalço), o casco da égua (em cima do pé descalço), a égua, a orelha da égua e preso nessa orelha estava Birimba, mordendo com toda força e pendurado como se fosse um brinco.

O mais engraçado de tudo é que em vez de tentar empurrar o animal (o de quatro patas) para sair de cima de seu pé, o máximo que ele conseguia fazer era dizer com a voz um pouco obstruída pela orelha da égua:
- Sua frexaaaaaaada, você me pegou aí em baixo mas eu le lasco aqui em cima!!! Tá ouvindo?

Como não estaria? O cabra com a boca socada nas "oiça" da coitada. Até hoje não sei se aquilo era um problema de manejo ou, se os dois fossem gente, uma briguinha de namorados.

sábado, 18 de março de 2006

O baobá: árvore com lâminas no azul

"Fi-lo, porque qui-lo."
(Ex-presidente Jânio Quadros, sobre sua renúncia)

A Crônica a seguir é parte do meu livro "Crônicas para Natal, as crônicas do Jornal do Dia", publicado no ano de 2000.

Nodoso tronco da vida. Árvore.
Baobá imenso, enorme elefante vegetal.

Semente gerada no seio fecundo e primitivo da África,
desabrochou aqui, nas terras de um sol festeiro e nordestino.

Grande baobá, gigante de fibras vivas, fizeste,
como fez o Potengi, a alegria dos olhos de Saint Exupery,
o escritor que pintava nuvens com palavras.

E hoje, imóvel como a eternidade, contemplas o ocaso do século 20.
Mas teus galhos continuarão como lâminas no azul.

quinta-feira, 16 de março de 2006

Quando a terra é boa

“E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...”
(Mário Sá Carneiro - 1890/1916 - Portugal)

Quem olha o sertão sofrido, seco, cansado, faminto, se não conhecer o Nordeste, chega até a pensar que aqui é o país da tristeza. Mas quem conhece o sertão chovido, terra molhada e boa, sabe bem das belezas que lá existem.

Sertão é tradição, é luta, é poesia que brota do chão que traz em si um celeiro de fartura.Em junho, nas festas de São João, comemora-se com alegria inteira a dádiva do milho, a memória popular revivendo antigos rituais de vida amiga da terra.

Quando a terra é boa, o chão é semente ritual. E terra boa é terra molhada da chuva de Deus.Mas hoje a realidade é um drama, fenômeno natural atiçado pela displicência política, pela falta de decisão, pela modorra dos eternos gabinetes que olham e calam, sem olhar para o povo que clama trabalho e pão.

O sertão é uma grande espera, dizia Guimarães Rosa. Mas esperar é atitude de sábio, de quem encontra em si as forças necessárias e urgentes para enfrentar incertezas e medos. E vencer; mesmo que a vitória demore, como as chuvas que tardam, mas um dia chegam. Vão chegar.

quarta-feira, 15 de março de 2006

Ze de Nuca: não foi cachaça, mas ficou tonto...

"Seu doutor uma esmola
a um homem que é são,
ou lhe mata de vergonha,
ou vicia o cidadão."
(Luís Gonzaga)

De Edgar Manso recebo este causo. Edgar gosta da vida no sertão e está preparando um livro relatando coisas e casos do povo nordestino. O autor preserva o modo e o jeito de falar, bem típico do nordestino do campo. Leia abaixo:

Toda cidade pequena tem suas peculiaridades, e as do nosso interior nordestino não poderiam ser diferentes. Jacaraú, no nosso vizinho estado da Paraíba é uma dessas pequenas cidades. Pequena mas muito agradável, faz divisa com o Rio Grande do Norte, ali pelas entranhas do nosso agreste, quase colado com Pedro Velho, cidade do balneário mais animado dos domingos.

Zé de Nuca é um amigo que tenho por aquelas bandas, amigo de verdade. Cabra bom, trabalhador, honesto e muito inteligente, não teve estudo mas é formado na universidade da vida com menção honrosa.

Zé é um homem de seus 56 anos mas tem uma energia de menino, poucas pessoas tem a disposição dele para trabalhar, e se depois do trabalho aparecerem umas garrafinhas de cachaça paraibana escoltadas por galinhas caipiras abatidas na hora, aí é que o serviço do homem rende.

Um pouco afastado de Jacaraú existe um lugarejo denominado de Jerimum. São seis ou dez casinhas fincadas no meio dos canaviais, um verdadeiro oásis para quem vem trafegando naquelas tortuosas estradas carroçais e seco para bebericar e jogar conversa fora.

Nesse verdadeiro paraíso funciona o bar de dona Francisca, o estabelecimento serve a melhor galinha caipira que já comi até hoje, sempre regada a uma boa cachacinha. O local é totalmente familiar, dona Francisca cozinha, suas duas filhas servem e seu marido, o internacionalmente conhecido "Quincão Buceteiro", providencia o abate das galinhas, a retirada dos cocos e a segurança do ambiente, afinal de contas o elemento usa na cinta uma peixeira meio graúda que se não matar da furada mata do "tétuno", como ele gosta de dizer.

Como não poderia deixar de ser, onde tem ingredientes como matutos e cachaça, tem marmota também. Zé de Nuca até o ano de 2004 nunca tinha ido a médico, tinha uma saúde de Leão, quando era indagado sobre quando faria o famigerado "exame de prósta" ele se alvoroçava e dizia: "No meu furico ninguém chafurda!"

Em março de 2004 houve um bolão de vaquejada no vizinho município de Rio Tinto, Zé não corre mais, mas ainda gosta muito de participar da fuzarca. Foi nessa noite que aconteceu uma das estórias mais engraçadas que já ouvi.

O bolão começou ao meio-dia do sábado e nessa hora lá estavam Zé e seus dois filhos mais velhos que praticam esse esporte nordestino, logo acharam a cabroada e começaram o tirinete de cana, conversa vai conversa vem e chega a noite, hora dos vaqueiros bons entrarem na pista, todos se arrumam perto da cerca para ver melhor, a poeira cobre no centro, é queda de boi, queda de vaqueiro cambão, boi na faixa e a ritumba entra pela madrugada.

Lá pelas três da madrugada Zé de Nuca se afasta para dar uma mijada do outro lado da cerca, quando termina e pensa em voltar para junto de seus amigos ele se sente mal, ele não faz a menor idéia do que seja pois havia parado de beber logo cedo portanto não era efeito da cana.

Então, se sentindo muito mal ele resolveu dar o recado aos filhos que já ia para casa, quando foi passar por entre os arames da cerca não conseguiu se manter equilibrado e passou na maior dificuldade. Zé estava sendo acometido por um AVC, nunca passaria isto pela sua cabeça, e ele continuou na sua intenção de se despedir.

Quando ele chegou próximo da turma seu filho se virou e achou ele com a cara estranha: - O que é pai? Zé tentou responder e não conseguiu, só fez balbuciar e não disse nada, aí ele resolver fazer um gesto indicando que já ia embora e partiu.

Graças a Deus Zé de Nuca conseguiu dirigir até em casa e sua mulher solicitou rapidamente uma ambulância para levá-lo à João Pessoa e deu tudo bem. Mas o melhor da estória ainda está por vir: quando o filho de Zé voltou pro meio da turma logo perguntaram onde estava Zé de Nuca, aí seu filho respondeu: - Hômi, pai é foda. Tava tão embriagado que num conseguia nem falar, gemia, gemia e num dizia nada. Só sei que se virou e saiu as queda pra pegar o carro. Ô hõmi trabaioso!!!.

terça-feira, 14 de março de 2006

Dia da Poesia: em parte, vira luz...

“É que eu sonho esvair-me em vícios de marfim...”
(Sá Carneiro, em Certa vez na noite ruivamente)

Hoje é o Dia da Poesia. Não quer dizer que é o dia do verso, aquele conjunto de palavras que, ao fim da leitura de uma quadra, por exemplo, resulta numa rima. Não, poesia é muito mais. Porque poesia é sentimento, é interioridade vivida internamente e exposta pela palavra.

É panorama humano íntimo que deságua no gesto escrito, o poema. Creio que seja até mesmo mais que isso: poesia é ato de viver, poesia é ato de coragem. Coragem de ser dissidente, coragem de se expor ante aqueles que pensam que tudo sabem, que tudo podem e por isso tudo pedem.

Poesia é atitude voltada para a reflexão. Portanto, está parada dentro de você, muito embora seja, dentro dela mesma, um redemoinho. Poesia é feita a passos de ferro.

Poesia é caminho que não vai a lugar algum,
uma vez que o poeta
busca sempre a incerteza jamais o porto.

Sem o porto, ele parte;
em parte fica;
em partes se desfaz;
em partes se constrói;
em parte vira luz.
Depois, tudo escurece.
Só isso.
E, como nos interrogatórios,
nada mais digo,
nem nada mais me seja perguntado.

Antes porém, de retirar-me, resolvi, para marcar a data, transcrever Mar Português, de Fernando Pessoa. Sá Carneiro, citado acima, é também poeta português.

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena?
Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o Céu.

Do jornalista e poeta Walter Medeiros recebo "Espetacular", poema que segue abaixo:

No rumo Oeste
Nuvens douradas
Viam prata
Pelo Céu azul.

E o fim da tarde
Mostra uma dimensão
Espetacular
No horizonte.

Desenho único
Do infinito
De um momento
Angelical.

Pela estrada
O automóvel
Quer alcançar
O que se esvai.

E o desenho
Troca de estrela
Contente com
O contorno lunar.

Noite que cobre
Com manto puro
Relvas e rios
Pelo sertão.

Campos de amor,
Muita labuta,
Sossego, luta,
Um esplendor.





segunda-feira, 13 de março de 2006

Prenderam o ladrão e a polícia sumiu

"Bandido é bandido;
polícia é polícia."
(Do assaltante Lúcio Flávio)

Houve, em Natal um homicídio cometido, como se diz no jargão jurídico, com “requintes de perversidade.” Um velho vigia da Galeria Olímpio, no Alecrim, fora atacado, dominado e, indefeso, morto por um rapaz louro, que logo ficou conhecido como Galego da Galeria.

Ao que me lembro, o velho, amarrado com arame, foi golpeado com um bastão ou algo assim, até a morte. A falta de detalhes deve-se ao fato de que, quando ocorreu o crime, eu ainda não estava em jornal e portanto valho-me das informações que via na imprensa e, claro, não dá para recordar com exatidão.

Pois bem, o Galego acabou fugindo e a polícia começou a perseguição. Nesse meio tempo eu comecei a trabalhar no Diário de Natal. Nessa época o Diário saía às segundas, à tarde. Assim, aos domingos nós trabalhávamos, preparando a edição do dia seguinte.
Eu chegava à redação às sete da noite e pegava o material coletado pelo repórter Pepe dos Santos. Eu reescrevia as anotações dele. “Traduzia Pepe”, como se dizia na redação, uma vez que ele trazia, em texto literalmente bruto, um emaranhado de informações que precisavam receber ordenamento.

Ele apurava muita coisa, era extremamente detalhista, mas, na hora de redigir... Pois bem, eu estava, em finais de 74, na hoje extinta editoria de polícia. Tinha coisa de uns dois meses de jornal.

Num domingo, pela manhã, fui fazer a cobertura nas delegacias. Por algum motivo Pepe estava sem condições de trabalhar. Saí na Kombi do jornal dando uma geral nas delegacias. Fatos de importância viravam notícia, coisas menores (queda-de-bebo como se dizia) iam para a coluna Ronda, transformados em notinhas de cinco ou seis linhas.

Pois bem, logo que chegamos a uma delegacia, na Ribeira, estava um sujeito à porta, um alcagüete, contando detalhes de uma perseguição: ninguém menos que o Galego da Galeria tinha sido preso. E o tipo se gabava de, mesmo sem ser policial, ter participado da caçada. Somente não alardeou ter atirado também.

“A puliça cercou o cara e mandou bala”, contava.” Era cada rajada que até fazia medo”, continuou, e disse: “ Quando a rajada cobria, ele dava cada pulo que era isso”, e levantava o braço coisa de meio metro, para mostrar como o bandido saltava, encolhendo as pernas para não ser atingido.

Ele retardava a informação mais importante, a prisão do bandido, para valorizar o seu relato e prender a atenção de alguns homens que estavam à sua volta. Eu não conhecia nenhum deles e, entre irritado e ansioso pelo desfecho da conversa comprida, perguntei: “E afinal, ele foi preso?”

Fora, fora preso, confirmou o homem. “E está aí, nessa delegacia. Pode entrar”, disse, como se fosse a maior autoridade policial do Estado. Eu não pensei duas vezes, meti o pé e fui entrando. Era o máximo. O Galego da Gelaria, o bandido mais perigoso do Estado, preso, e eu ali. Inexperiente, sem fontes na polícia, sem sequer uma identidade profissional que me garantisse, fui entrando.

Nessa época o grande repórter policial de Natal era mesmo o velho Pepe dos Santos, hoje um dinossauro e aposentado (outro dia falo mais dessa grande figura). Ele sim, tinha fontes e conhecia todo o submundo do crime.

Fui entrando, fui entrando e não é que não havia um só guarda, delegado soldado, nada, ninguém, para tomar conta do bandido? A delegacia estava completamente desguarnecida. Entrei e lá estava, numa cela, sozinho, sentado no chão, ninguém menos que o Galego.

Olhei e vi, numa parede, sustentado por dois pedaços de ferro cravados lado a lado, um grosso pedaço de pau, certamente para espancar os presos. Lembrai-vos de que nessa época ainda vivíamos a ditadura militar e direitos humanos eram o mesmo que nada.

O criminoso contou como havia fugido, como havia resistido à prisão, como fizera de tudo para não ser preso.

Aí, quando eu falava com o Galego... Bom, nesse momento, imagine só, entra o investigador relapso, aquele que havia deixado a cadeia sem guarda. Ele entrou e foi logo dizendo “Ei! Que negócio é esse?”

Parei. Pensei: “E agora?”

Agora? Agora era enfrentar o homem.
Ato contínuo, respondi: “Nada, não é nada, estou só falando com o Galego.”
E ele: “Pode não.”
E arremeteu: “E daqui não sai ninguém. Não sai nem o senhor e nem esse seu papel na mão”, referia-se às minhas anotações. As coisas tinham se complicado como eu jamais havia suposto.

O policial caminhou decidido em direção a mim. Eu estava sentado no chão, cara a cara com o bandido. Levantei-me dei espaço ao policial, que seguiu como quem fosse direto para a cela. Recuei, de forma a que ele ficasse de costas para as grades do xadrez.

Foi aí onde ele errou. Ele aceitou meu jogo e ficou de costas para o Galego, cruzei as mãos às costas protegendo o papel e fui saindo, pé ante pé, passo a passo, caminhando de costas, os olhos fixos no investigador. O homem, nunca compreendi porquê, parou e ficou olhando minha escapada, até que cheguei à porta da delegacia e ao sol do domingo. Respirei fundo e corri para a Kombi. Eu tinha uma grande notícia e o policial burro amargava uma derrota íntima frente a um foca sem fontes.


sábado, 11 de março de 2006

Eduarda

Esta crônica é uma homenagem à vida, expressa na figura inocente da minha primeira neta, a doce Eduarda, menina linda, feita de azul.

"A vida brota do amor e se refaz em si mesma, a cada instante de luz.
"A suave beleza da vida que nasceu se enlaça na ternura das mãos que a sustentam.
"E o lindo olhar da inocência reflete a existência de Deus.

"O pequeno raio de sol, matinal e ameno, é amigo de todas as manhãs.
"A natureza inteira é como um bosque de paz,

que prepara um ninho para a pequena vida.

"Vida, és amiga da verdade simples, das plantas e do azul.
"E te lanças em caminhos que reconhecem as mãos que te protegem.

"A pequena Eduarda é esse ser lindo da vida.
"Pequena menina de gestos de nuvens.
"Que os sons e todas as cores do mundo acompanhem os teus passos."

Ciumenta

"O homem nasce nu, molhado
e faminto; o pior vem depois."
(De um velho filme de caubói que, um dia, assisti)


De Zilda Neves recebi a crônica que segue abaixo, "Ciumenta".

Ela tinha um gênio difícil; brigava por qualquer coisa e com todo mundo!
No condomínio onde morávamos, não tinha amigas nem vizinhos; todo mundo passava por ela, preferindo abaixar a cabeça, com medo de apenas, num cumprimento, ter seu dia estragado, por um simples "bom dia".


Fosse risonho e receptivo, imaginava o incauto pretendendo uma aproximação que ela repudiava, e aí estava formado o banzé: -Nunca me viu não? Questionava de chofre, não dando tempo ao atingido por um petardo oral inimaginável.

Depois de dar três passos e olhando para trás, se o infeliz ainda, aturdido, estivesse parado, descarregava a bateria:- Vai querer o quê? Tempo bastante para desistência do amável cidadão, disposto a não ser mais educado.

Ninguém entendia como o marido, se casados fossem, aturava aquela mulher! Só ele sabia.

Na cama, era uma candura de mulher; bastava tirar a camisola, vestia-se de fêmea, cobrindo seu corpo, com a sensibilidade do amor que pode mais que a razão, sendo impossível não ser do jeito que os outros, acreditem ela seja. Apenas eu!

O que todo mundo vê, não corresponde ao sentido interior, justificativa de um ciúme consumidor e quase sempre sabe mais que a verdade, fato bastante para fazer-me imaginar que a idéia de morrer sozinho é uma desgraça, e não posso correr o risco.

O ciúme é próprio de quem ama; ela jamais derramou uma lágrima fácil, quando, razões de seu coração era atingido. Preferia um esgar, disposta a uma refrega de conseqüência imprevisível, a secar uma gota, que as costas da mão pudessem enxugar.

Não partilhava seus segredos, nem contava aventuras contidas em sua vida: nem do corpo, nem da alma; parecia compreender já ter se dado conta, num passado remoto, serem impunes a um futuro que se avizinha, deixando entender ao companheiro, não esquecer - se a vida lhe for breve - onde enterrou seu segredo.

Porém, nem sempre foi assim; dotada de personalidade forte, guardava nas profundezas do seu ser, uma possessividade controlada, exacerbada com o passar dos anos e das imposições que a vida lhe ofereceu. Seus dotes físicos mostravam-lhe essa verdade, fato bastante para criar um quê de reserva, e uma visão ciumenta de si própria. Percebia olhares furtivos, ao cruzar com pensamentos menos nobres, onde seu atual companheiro, fora um deles.

A vida a dois, fortalece um permanente descobrir, no jogo do amor, permitindo reconhecer que as tentativas, embora frustradas, avolumavam-se no amiudar de se dar e que o tempo encarrega-se de contemplar desejos recônditos.
As primeiras insinuações pareciam ser vencidas com um argumento imaginado inquestionável: “Quer entrar, onde só deve sair”?


A contramão dos fatos, jogou por terra, outras virtudes mais fortes para o primeiro embate, ficando os anos como um aliado, no novo se entregar.
A soma, julgada perfeita, alicerçou um questionamento, onde o ciúme extrapolou de uma forma acintosa ao parceiro, mais ainda assim, dizia-se a mulher mais feliz do mundo!

quinta-feira, 9 de março de 2006

Canalhas!

"A desonra é como a cicatriz na casca de uma árvore:
o tempo, longe de apagá-la, só faz aumentá-la cada vez mais."
(Autor desconhecido)

A Câmara dos Deputados perpetrou ontem um dos mais lamentáveis espetáculos que a podrura do seu plenário sórdido já pôde vomitar: absolveu dois usuários do mensalão, o deputado Professor Luizinho e o deputado Roberto Brant. O primeiro do PT, o segundo do PFL. A bile política, dizem os jornais da grande imprensa, foi secretada por um acordão reunindo PT, PSDB e PFL.

O grande mictório em que se transformou a Câmara dos Deputados salvou Roberto Brant com 283 votos, contra 156. Quando foi evacuar, o deputado Professor Luizinho
foi acolitado por 253 parlamentares (eu disse parlamentares?) contra 183. Outro envolvido no mensalão, Romeu Queiroz, do PTB, bem antes, já havia sido salvo por seus pares, melhor diria, pedreiros de latrinas.

Agora virão outros. Vejamos como as coisas vão acontecer. A manter-se a atual tendência, todos os calígulas irão triunfar. E, como você sabe, Calígula foi aquele imperador romano que prostituiu as mulheres dos senadores para arrecadar dinheiro para o Estado romano e fez de seu cavalo, Incitatus, também um grande tribuno. O cavalo foi sagrado senador, que, naquele tempo, era algo vitalício.


No Brasil, Incitatus sem dúvida alguma teria muito a ensinar. E os deputados muito a aprender. Afinal, Incitatus viria dos tempos das grandes bacanais que, em último caso, eram apenas festas religiosas, em honra ao grande deus Baco. E como os deputados gostam mesmo é de um balaco-baco, veja só, tudo estaria às mil maravilhas.
Mas Incitatus não poderia vir. E agora, fazer o quê? Esperar? Sofrer? Gritar? Lamentarmo-nos todos, cobrir nossas cabeças com cinzas e dirigirmo-nos a algum áugure ou oráculo, para saber o que acontecerá? Em verdade, em verdade vos digo: não acontecerá nada! Todos sairão com suas coroas de louros, como atletas do mundo olímpico clássico.
De uma coisa, entretanto, tenho certeza: o plenário da Câmara dos Deputados é um extrato perfeito da sociedade brasileira. Estamos ali, literalmente, representados. Somos um povo lasso, ideologicamente apascentado, leniente para com o crime, frouxo em enfrentamentos que defendam a ética e a moral. As próximas eleições vão comprovar o que digo.
Cada vez que alguém corrompe o guarda de trânsito com uma nota de dez reais, sempre que um funcionário público chega tarde ao trabalho, quando o médico deixa de ir ao posto de saúde para trabalhar, quando na academia alguém compra uma dissertação de mestrado pela internet, tudo isso, de alguma maneira, se reflete nas escolhas dos representantes políticos. É uma questão cultural, um processo de osmose, que se multiplica e se amplia, salta dos atos microscópicos do cotidiano e alcança toda a largueza das esferas políticas mais altas. Há as exceções, é claro. Mas...
Então, vamos dizer como Macunaíma:"Que preguiça..."

quarta-feira, 8 de março de 2006

A Mulher

"Tenho duas mãos,
e o sentimento do mundo."
(Carlos Drummond de Andrade)

Este texto é dedicado a Minha Mulher, em seu Dia.

Ela caminha, calma, em seu silêncio de manhã mais nascente. Suave, tece nossa vida como uma penélope que não precisa olhar para o horizonte, à espera de um navio que jamais chega. Seus passos abrem caminhos, suas mãos escolhem e colhem gestos de abraço. A ela, sempre, ofereço matizes sutis de nossas tardes. Minha Mulher.


Companheira, amiga, corajosa, tem enfrentado comigo todas as termópilas. É uma doce guerreira, valquíria de todas as horas. Minha Mulher.

É Mulher em festa, em cores, em sons magníficos; transforma-se em brilho quando é preciso, e em tons de luz e sombra quando chegam os momentos de nós dois. Minha Mulher.

Caminhamos em praias distantes e nos encontramos nas terras mais altas. Minha Mulher.

E quando os golpes ferozes da vida se abatem de rijo sobre o casal, somos recobertos pelo escudo de nossas cumplicidades sinuosas, pondo abaixo todos os dardos. Minha Mulher.

Conhecemos atalhos, descobrimos encontros, passamos ao largo da felicidade sonante, aquela que se compra com o dinheiro. Nossa moeda é intangível. Nossa felicidade é secreta. Minha Mulher.

A cicuta do Tempo jamais chegou à nossa taça. Brindamos à sagração de uma primavera que supera todos os dias as fronteiras do amanhã e do depois. Minha Mulher.

A ela, sempre, ofereço um cálice de pétalas para iluminar, com réstia de estrelas, o seu olhar candente de ternuras. Minha Mulher.

Ela não nasceu, floresce. Brota em cercanias secretas e mergulha numa paz que soubemos descobrir. Minha Mulher.


terça-feira, 7 de março de 2006

Brasil: o que vai acontecer?

"Ladrão que rouba ladrão,
tem cem anos de perdão"
(Sabedoria popular)

Atenção, atenção, muita atenção para as previsões quanto ao futuro próximo deste imenso País.

Delúbio Soares: não vai acontecer nada.
Marcos Valério: não vai acontecer nada.
Juiz Lalau: nesses dias estará solto.
José Genoíno: não vai acontecer nada.

Paulo Maluf: não vai acontecer nada.
Senador Eduardo Azeredo: não vai acontecer nada.
Duda Mendonça: não vai acontecer nada.
Waldomiro Diniz: não vai acontecer nada.

Assassinos do prefeito Celso Daniel: não vai acontecer nada.
Autores de crimes hediondos: podem cumprir pena em regime semi-aberto.
Paulo Okamoto, presidente do Sebrae: não vai acontecer nada.
Presidente Lula: vai continuar fazendo tudo e não vai acontecer nada.



domingo, 5 de março de 2006

O encontro dos sorrisos

“ Televisão é goma de
mascar para os olhos.”

(Frank Lloyd Wright, arquiteto americano)


Com o tempo, os adultos passamos a valorizar mais o tempo. Gosto de reencontrar pessoas, gosto de reencontrar amigos. Não apenas pelo reencontro em si, que muitas vezes é muito agradável, mas pelo voyeurismo de observar o que mudou naquela pessoa, como está, quais foram as transformações que assumiu, se o sorriso é o mesmo, se tornou-se amargo, enfim se...

Nos últimos dias, tive a oportunidade de rever amigos, amigos antigos, gente que comigo já cruzou caminhos, atravessou momentos, codividiu perplexidades. Foi estranho, pois, num deles, predominava o sentimento ocre da dor, zelosamente guardada no cofre dos ressentimentos com a vida; em outro, sobressaía ainda o sorriso jovial e franco do existir.

No primeiro, no que fez a opção pela dor, o cumprimento do reencontro mal passou de um grunhido. Sem um aperto de mão, sem um abraço, um tapinha nas costas. Fiquei parado, olhando o meu amigo, enquanto caminhava por entre a multidão de problemas - pois ele vê em cada pessoa um problema - com os quais tem que conviver.

Conheço a figura, sei que não é má pessoa. Sei de suas lutas, sei de quantas ondas já se esbateram contra a quilha do seu barco e quantas vezes quase soçobrou, saindo da tempestade com as velas em frangalhos e o estandarte de luta totalmente roto. E ele assumiu tudo isso, bebeu esse cálice até o fim e embriagou-se nele, como que guardando dentro de si todo o ódio de que já foi vítima. Uma vacina, entende? Assim, quando mais mal vier, ele já estará tão cheio, que nada o atingirá.

O outro amigo, ao contrário, mesmo tendo passado por problemas complicados, suportado a flecha lhe varando a armadura e ferindo o corpo, resistiu. E trazia, senão o sorriso das manhãs, uma vez que já se faz inverno a sua vida, trazia aquela alegria calma de quem não precisa da gargalhada para mostrar que está feliz, ou do grito para explicar que está em chamas. Algum dia espero ser assim também.

sábado, 4 de março de 2006

Natal vista do alto

"Deus não pode
jogar dados."
(Albert Einstein)

A crônica abaixo é do meu livro Crônicas para Natal - as crônicas do Jornal do Dia.

A cidade se espalha e cresce, como paisagem de prédios e céu.
Inteira enquanto parte de si mesma, Natal é música de casas e paredes, torres e paisagem humana e bela.


Ruas ainda calmas, como se a cidade ainda não tivesse a malícia urbana, Natal é porto de sua própria chegada.

E se a amplidão do mundo a torna pequenina, Natal se deixa colher nas manhãs de todo dia. E cresce em silêncio e calma. Ainda.

quarta-feira, 1 de março de 2006

O maior pintor do mundo

O jornalista não tem amigos ou inimigos.”
(James Reston, jornalista americano)

O repórter-fotográfico Paulo Saulo costumava chegar à redação do Diário de Natal, inícios dos anos 70, sempre com novidades, falando alto, gesticulando muito. Uma vez, e isso já contei, veio com a história de um sujeito que fazia esculturas em vidro, a partir de velhas lâmpadas fluorescentes. Resultado: fui com ele fazer a matéria, o quarto onde o cara trabalhava quase explode com um bujão de gás (as esculturas eram feitas com vidro incandescente) e, no fim, ele confessou que sequer havia colocado filme na máquina.

Pois agora, veja só essa: uma tarde, coisa de duas e meia, ele entrou novamente feito um louco, redação adentro. Nesse tempo, a redação do Diário era onde hoje fica o parque gráfico. Mas, então , trabalhava-se assim mesmo: birôs metidos entre grandes cilindros de papéis, as rotativas ao fundo. Às segundas-feiras, meio da tarde, elas começavam a funcionar endiabradas, imprimindo a edição especial, que saía coisa de cinco e meia.

A rotativa imprimindo uma edição vespertina e nós preparando a edição do dia seguinte. Era um barulho enlouquecedor. Mas era bom, era muito bom.

Sim, mas, o que eu ia dizendo? Sim: ele entrou feito um louco pela redação e berrou que trazia em sua companhia ninguém menos que “o maior pintor do mundo”. Com isso, parou todo mundo, claro. Quem seria o maior pintor do mundo? Miguel Ângelo certamente ficaria no rastro; Boticelli a mesma coisa; Picasso nem se fala; Da Vince, hummm...; Salvador Dali, pra quê?

E então apresentou-se o maior pintor do mundo: ninguém menos que... um desconhecido... Isso mesmo: um ilustre desconhecido, mas catalogado por Paulo Saulo como o maior. E sabe por que o homem era o maior...? Pelo fato simples de que o sujeito era um incrível miniaturista. Ou seja: era o maior porque pintava o menor.

Veja só que loucura: ele pintava em cabeças de alfinetes. Utilizando-se de uma técnica preciosíssima, cuidadosíssimo, pacientíssimo, ele pegava um fio de pincel, também finíssimo e, toque a toque, reproduzia, por exemplo, a Última Ceia, numa cabeça de alfinete. Para pintar, tanto como para ver o resultado do trabalho, servia-se de uma poderosa lupa. Olhando por ela, dava para você ver as figurinhas: Jesus ao centro, os apóstolos, a grande mesa, tudo em cores, forte, incrível.

Havia outras obras, mas já não me lembro quais. Mas, como havia uma dificuldade intransponível (ninguém conseguiria fotografar as miniaturas) a matéria, acabou não sendo feita e assim o maior-pintor-do-mundo acabou passando pela redação do DN e de lá voltando para o seu mais completo e ínfimo anonimato.

Hoje, olhando bem, creio que Saulo tinha uma certa razão: a pequenez daquelas imagens, fruto de um grande trabalho, talvez valesse àquele homem o título de ser o maior... Havia ali um estranho desvelamento, um dedicação insana, personalíssima, humana, incompreendida e incompreensível: por que ele não se dedicava a pintar em tamanho convencional?

Por acaso não sabia que aquilo jamais lhe renderia dinheiro? Havia arte naquilo? Havia, admitamos que havia. Afinal, aquele pobre artista dedicava-se à imensa tarefa de ser ele mesmo. Mesmo que isso não valesse um centavo e, do mundo, ganhasse apenas o elogio de um fotógrafo que o proclamou como o maior pintor do mundo.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

Donos de nada

"Os presidentes passam, a imprensa fica."
(Sylvino de Godoy Neto, presidente da Associação Nacional de Jornais.)

A partir de hoje, estarei publicando trechos do meu livro "Crônicas para Natal - as crônicas do Jornal do Dia".

São visões, entendimentos, momentos, captados de Natal, seus momentos, seu povo, suas belezas e misérias, grandezas e limitações. A crônica abaixo volta-se para as favelas de Natal. Favela enquanto instante social grafado na geografia dos dramas da minha cidade. Seus moradores são, como diz o título, "Donos de nada".

É uma crônica curta, como curtos e pobres são os dias dos que têm o nada como propriedade e estilo de vida. Vejamos:

Diagrama da pobreza, descaminho dos donos de nada, a favela é o rumo perdido, o norte desorientado.

Alagada de problemas, passada de dores, a favela é o universo dos que vivem em vão. O povo tem a fome tatuada na boca.

E se apresenta como alguém que perdeu a própria sorte.

Favela. Ali, são todos passageiros. Dormem nas nuvens da incerteza e se alimentam de todas as dores do mundo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Mais de mil palhaços no salão

''Coloquei minha casa sobre o nada
e por isso o mundo me pertence.''
(Johann Wolfgang Goethe)

E então, chegou o Carnaval-Brasil. Há festa e a seca se serve do sofrimento do homem no sertão. Mais de mil palhaços no salão.

Chegou o carnaval e os bandidos, no Rio, alvejam os passantes em vigança à morte de um traficante. Mais de mil palhaços no salão.

É carnaval e as crianças esmolam nos sinais. Há fome e ranger de dentes. Mais de mil palhaços no salão.

É carnaval: os hopitais públicos são locais de sofrimento e dor. Os planos de saúde comerciam a medicina e fazem da saúde uma mercadoria. Mais de mil palhaços no salão.

O carnaval chegou, os tamborins estão tocando as cuícas roncando e os gringos chegam para o seu período de orgia. O turismo sexual dá lucros e quadrilhas se enriquecem. Mais de mil palhaços no salão.

O carnaval está aí. Meninos e meninas são usados como objeto sexual, servem ao dinheiro e a seus adoradores. Famílias se dobram ao peso da miséria. Mais de mil palhaços no salão.

Evoé, Momo! Os produtores de álcool exploram o povo e vão ganhar muito dinheiro. A gasolina, com menor teor de álcool em sua mistura, deverá subir de preço, dizem os noticiários. Mais de mil palhaços no salão.

O carnaval está em todas as alegrias. Mas alguém vai morrer depois de comprar alguma droga a um traficante; uma menor será ofendida e humilhada por um turista rico; o grande capital financeiro quer dominar os destinos do País; as universidades continuarão precisando de dinheiro e um idoso estará sofrendo em alguma fila, implorando alguma miséria assistencial oficial. Mais de mil palhaços no salão.

Depois, quarta-feira-de-cinzas: Mais de mil palhaços, mais de mil palhaços...



O jornalista e poeta Walter Medeiros manda o poema "Zé Pereira", lembrando os velhos carnavais. Abaixo:

Viva Zé Pereira,
Português danado,
Cabra sem enfado,
Pela vida inteira.

Viva o Carnaval,
Que tanto admiro,
Mas já me retiro,
Não me leve a mal.

Viva aquele samba,
Feito por Martinho,
Que canto baixinho,
Querendo ser bamba.

Viva a lembrança,
Do pó, do confetti,
Caetano, Zé Kéti,
Serpentina e lança.

Viva Paulo Maux,
Nosso eterno Rei,
Nunca esquecerei,
Mas sei que passou.

Viva nossos clubes,
De lindo passado,
Que está gravado,
Bailes que iludem.

Viva uma saudade,
Cá neste meu peito,
De amores sem jeito,

E de felicidade.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

A mordaça dos loucos, o silêncio da imprensa

Antigamente as coisas eram piores.
Só que, depois, foram piorando mais um pouco.”
(Paulo Mendes Campos)

Início dos anos 80, eu chefiava a reportagem da Tribuna do Norte e tive a oportunidade de conviver com uma jovem e talentosa repórter, Josimey Costa, e com um instável, mas também genial fotógrafo, Paulo Barossi, um rapaz que um dia fazia fotos espetaculares, mas, dia seguinte, furava a pauta e, na falta de um bom material, me dizia, estendendo a mão cheia de fotografias velhas: “Veja aí, Barreto, lá no arquivo tinha isso.”

Pois bem: certa vez, pautei a dupla para uma matéria no Hospital João Machado, o Hospital Colônia, para constatar suas condições de funcionamento. Eles foram, mas chegando lá, foram barrados na portaria. Eu pensei: “O que o pessoal do hospital tem a esconder? Aí tem coisa...”

E dei a seguinte ordem a Josimey e Barossi: “Vistam-se de branco, como se fossem acadêmicos de medicina e revirem aquele hospital. Vamos ver o que de tão ruim há, para ser oculto.”

Eles foram. Foram e viram tudo o que se passava no hospital. À entrada, sequer foram perturbados e, lá dentro, deram um show de jornalismo investigativo, jornalismo de flagrante. Juventude e decisão de fazer jornal de denúncia, jornal a favor do ser humano, jornal contra a humilhação dos pobres, loucos e desvalidos.


Eles foram e viram seres humanos reduzidos a condições miseráveis, doentes nus jogados em camas imundas, doentes perambulando como almas penadas, pessoas presas em celas gradeadas. Doentes estendendo-se as mãos, como que tentando, através do contato físico, compensar o tratamento humano e necessário a que tinham direito, mas ao qual não tinham acesso.

Se a loucura é uma forma de dor, e se a dor é condição mais presente da condição humana, de alguma forma somos todos loucos. Mas os deserdados da loucura, em sua autenticidade solitária, ali não tinham direito ao gesto afetivo, ao abraço longo, ao carinho amigo.

O Colônia era um inferno. Uma espécie de campo de concentração de pessoas mentalmente insanas levadas à indigência. Era um espetáculo dantesco. Estava aí o motivo pelo qual o Colônia era um tabu, um local secreto, fechado, impossível de dar acesso aos olhos de imprensa. Mas, a decisão dos repórteres em fazer a matéria era tamanha, que eles literalmente se fizeram invisíveis aos olhos dos funcionários e médicos e vasculharam tudo.

Andaram por salas, corredores, perpassando todo o horror do hospital. As fotos, em preto e branco, capturavam toda a dramaticidade daqueles instantes de sofrimento e abandono. Até que... foram descobertos. Estavam avançando sobre a cozinha, quando alguém afinal desconfiou e os flagrou. Ali, finalmente descobertos, após a magnífica matéria, foram identificados como jornalistas e retirados.

Ainda bem que não houve qualquer retaliação violenta dos funcionários do hospital contra os repórteres. A dupla voltou, vibrando, com uma produção digna de qualquer grande publicação: pela indignação do conteúdo do texto que Josimey produziu e pelas fotos de Paulo Barossi trouxe - creio que essas fotos ainda hoje existem no arquivo da Tribuna.

Denúncia pura, brutalidade flagrada, desumanidade exposta aos olhos da cidadania.

Só que (também decepção para mim), a direção do hospital intercedeu junto ao comando supremo da Tribuna e a matéria simplesmente foi parar na cesta seção (o cesto de papel, onde na época, eram jogados os textos imprestáveis).

Na época eu também era jovem e vi esfumaçar-se num acordo de diretores todo o esforço de uma talentosa tarde jornalística.
Nota do redator: creio que, hoje, o hospital esteja em melhores condições.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

O Brasil virou um show. Fiquemos todos felizes

“Eu não creio em Deus, é verdade.
Mas nem por isso sou ateu.”
(Albert Camus)
Vivemos hoje a sociedade do espetáculo e do simulacro. Não vou entrar em discussões acadêmicas sobre esta visão de mundo. Este é um artigo jornalístico, não um ensaio. A comprovação, no Brasil, foi o recentíssimo show dos Stones, e as apresentações, hoje e amanhã, do U2, cujo líder , Bono Vox, visitou o presidente Lula.
Vamos por partes: quanto aos Stones, ocorreu o que qualquer pessoa de bom senso poderia antever: foi um espetáculo pleno de vigor encenado, referências musicais programadas, atitudes de uma rebeldia desengavetada e sempre renovada a cada apresentação. Ou alguém pensa que Jagger está criticanto padrões estéticos, comportamentos convencionais e outras coisas do tipo?
Jagger é um capitalista e está administrando, muito bem, seu capital: financeiro e midiático. E está se dando muito bem. O show vai virar DVD, foi visto ao vivo nos Estados Unidos e outros países e muita gente ficou pensando que participou de um "acontecimento histórico". Mas, histórico como? Onde estavam a essência, a irreverência, a força de uma mensagem de contestação?
Houve sem dúvida um espetáculo bem feito, profissional, impecável, como compete a grandes artistas. A emoção é que foi plastificada, embalada e vendida: a grandes empresas e à prefeitura do Rio.
Por outro lado, outros grandes do rock estão no Brasil. O pessoal do U2 fará suas duas apresentações. Enquanto isso, o líder teve audiência com o presidente Lula. Puro marketing, de parte a parte. O cantor tem fama de participar de espetáculos beneficentes e ergue sua voz contra injustiças sociais. Muito bem.
Mas, daí a ser recebido por um presidente de república, vai uma grande distância. Não creio que nenhum conselho de Bono tenha tido o condão de dar a Lula algum tipo de iluminação, aberto o caminho para o nirvana político, social e, por que não, ético.
O roqueiro aproveitou a oportunidade para cultivar sua imagem de campeão de causas da pobreza universal e o presidente também teve o seu ganho: politicamente correto, recebeu um artista globalizado. Esperemos que este tenha dado conselhos sobre como acabar com a viôlência dos criminosos que infestam o Rio de Janeiro.
Enquanto isso, fomos redescobertos. Agora não mais os portugueses para trocar bugigangas com os índios. Pelo menos como porto para celebridades. Depois, eles vão embora. A fome fica, a corrupção persiste, o morticínio se mantém. Mas, pelo menos, damos ao povo pão e circo.