sábado, 1 de março de 2008

Caros Amigos,
Tempos bons, antigos,
Tempos já passados,
Desbotados tempos,
Instantes esquecidos.

Na estrada da vida
Rolando eles vão,
Bela bicicleta,
Amiga, boa, amável,
Ela é pedalada,
Passos sem pisar.

Isso foi na França
Dá pra adivinhar.
O velho e o neto,
O chão por testemunha,
Vivem seus instantes
D'alegria calma.

Bom fim de semana,
Emanoel Barreto
Foto: não consegui identificar autoria

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Ele não é o Pequeno Príncipe


Caros Amigos,
Bilhetíssimo a vocês. Quando descobriu-se que o príncipe Harry estava combatendo contra os talibãs, o Estado inglês resolveu trazer de volta, são e salvo, o pimpolho guerreiro de volta à sua homeland. Acabou-se a brincadeira. Agora, em vez de atirar em religiosos amalucados do terceiro mundo, Harry deverá voltar ao seu quartel e cumprir, suponho, seu período militar em bases menos perigosas.
O que acho deplorável pode ser definido de maneira bem objetiva: é mandar-se um jovem, com licença para matar, como ele fosse encaminhado a algum tipo de jogo ou brincadeira, pelo fato de ele ter (será mesmo?) sangue azul. God save the Queen.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Quantos o Príncipe já matou?

Caros Amigos,
O príncipe Harry, terceiro na sucessão do trono da Inglaterra, está há quase três meses combatendo os talibãs, no Afeganistão. Creio que deve fazer parte dos afazeres de um monarca o aprendizado da morte. Então, é assim que se formam os futuros dirigentes do mundo? As elites, sempre, têm desculpas e explicações para as suas atitudes, especialmente aquelas que dizem respeito ao exercícios do poder via brutalidade.

O discurso oficial, certamente, busca salientar que o príncipe está sendo tratado como qualquer outro jovem em idade de serviço militar. Seria, digamos assim, sua inserção na democracia pelos caminhos das armas. Sem dúvida, é bastante democrática a distribuição de balas contra os afegãos.

Não se trata, aqui, de uma defesa do regime dos talibãs, pela sua própria natureza cruel, desumano e opressor, uma vez que cimentado num fundamentalismo religioso bárbaro e implacável.

A questão volta-se para o fato de que um presuntivo futuro rei inglês seja chamado às armas como parte de sua educação. Segundo o Estadão Online "Harry está em solo afegão desde dezembro. O envio do príncipe não foi informado antes por causa de um acordo entre o Ministério da Defesa e organizações de mídia, entre elas a Associated Press."

E a mídia, para completar, entra em conluio, nesse processo de ocultação. Por que isso? Por que esconder que o Príncipe está na linha defrente e, segundo o jornal, tem-se saído muito bem e corrido os mesmos riscos que seus companheiros de combate? Quem furou o segredo foram uma revista australiana e um jornal alemão.

Detalhe, a foto acima e outras que podem ser vistas no Estadão, na net, não demonstram nada de ação militar. O flagrante é, claramente, posado.

Outro detalhe: Só não foi revelado quantos o Príncipe já matou.
Emanoel Barreto
Foto AP

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Ela não é Flowers que se cheire

Caros Amigos,
As coisas de jornal anunciam que uma cantora da cabaré, Gennifer Flowers, está levando a, digamos, leilão, fitas com gravações de conversas com o ex-presidente Bill Clinton, dos tempos em que ele era seu amante. À época, ele era governador do Arkansas. As fitas foram gravadas secretamente e em 1990 um colecionador japonês, dizem ainda as coisas de jornal, chegou a oferecer cinco milhões de dólares pelo material.

Trata-se, obviamente, de uma trapaça política das mais sujas, praticada exatamente quando a mulher de Bill, Hillary Clinton, enfrenta o senador Barack Obama, na busca de sua indicação como candidata à presidência dos EUA como representante dos democratas. Hillary, por sua vez, também pega pesado com Obama, que a acusa de ter divulgado fotos suas vestidos com trajes típicos da Somália, onde o senador tem suas origens, com raízes muçulmanas.

Como se vê, o ofidiário está cheio. Mas, o caso com Flowers é provavelmente o que expõe a indignidade humana em sua forma mais deplorável. Uma mulher, envolvida com um homem que ocupa posição de destaque na política, trama o uso futuro dessa relação como meio de ganhar dinheiro, muito dinheiro.

Sabe-se que faz parte das hipocrisias norte-americanas, que é tabu, a infidelidade conjugal. Ou seja: desde que fiquem ocultas, podem ocorrer. Gennifer, que não é Flowers que se cheire, esperou esses anos todos, até agora, quando trouxe à tona as gravações. O escândalo político, certamente espera, fará aquecer a temperatura eleitoral, dando preço ao seu produto.

Trata-se, a venda das fitas, de um discurso complicado, esquizofrênico. Vejam só: Flowers põe as fitas ao mercado, esperando que algum sujeito doentio as compre, só para ouvir conversas entre dois amantes; com isso, ela quer dizer que Bill Clinton não presta, pois traiu a mulher; e a traiu com uma cantora de cabaré - e quem era a cantora da cabaré? Ela mesma, Flowers; ou seja: um governador desrespeita seu cargo e sua família com uma mulher de cabaré; afinal, essa mesma cantora vem a público e expõe à respeitável família americana a rosa rubra da indignidade, como que num processo de redenção às avessas: ele era o governador, eu fazia o meu papel. Ele deveria se respeitar, não eu, que era uma mulher de cabaré.

Ela mesma é invadida pelo discurso do establishment e agora o usa para ganhar dinheiro. Encerrando: diz-me com quem andas, que dir-te-ei quem és. E Hillary, que já havia suportado o furacão Lewinski, agora está às voltas com uma Flowers que não se cheira.
Emanoel Barreto
Fonte da foto: Reuters/ Arquivo

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

A Eva do Ibama

Caros Amigos,
O Ibama de Goiás instalou comissão de sindicância para apurar o desvio de 23 mil reais, desde 2005, por uma funcionária que, ao longo desse período, gastou todo esse dinheiro com tratamento de beleza. A beldade, cujo nome, claro, não foi revelado, aplicou o dinheiro em rejuvenescimento facial e corporal.

Suponho que deve haver uma justificativa. É óbvio que, lidando com questões ecológicas, lutando pela preservação e manutenção da natureza em estado de plenitude e beleza, ela deve ter chegado à conclusão que o ser humano é também natureza. E sendo ela mulher, portanto ser humano, é também naturreza e deveria ser preservada. E, nada mais justo, que usar das verbas do Ibama, já que este tem por finalidade defender a natureza. Isso é claro como água que não foi poluída.

Assim sendo, a moça partiu para a luta: deve estar muy bela, guapa y gentil señorita. E agora, com o corpo escultural, poderá caminhar pela selva como a Eva do Ibama e, encontrando-se com a Mãe d'Água, dizer-lhe que não acredite em corrupção no Brasil. Como a Mãe d'Água, corrupção, aqui, também é uma lenda...
Emanoel Barreto

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Aleluia, Gretchen!

Caros Amigos,
Conga! Conga! Conga! A carnavalização da nossa política terá, ao que parece, mais duas insignes figuras: Gretchen, que pretende disputar a prefeitura de Itamaracá, em Pernambuco, e sua filha, Thammy, que intenta ser vereadora por São Paulo, após estrear como atriz pornográfica. Trata-se, como se pode perceber, de duas grandes presenças, cuja visão social e capacidade política são, efetivamente, de admirar.

Ironias à parte, a ocorrência dessas candidaturas, vindo a se confirmar, representará um dado sócio-político a ser levado a sério: a situação chegou a um ponto tal de relaxamento e frouxidão, que figuras típicas do submundo, do caricato e do burlesco encontram-se e sentem-se capacitadas ao exercício de mandatos.

E, eleita uma ou outra, significará um tapa na cara do que se chama de classe política. Todos tão honrados, cheios de moral e pundonor, estarão lado a lado com artistas, digamos assim, de vida livre. É o marginal ocupando um lugar no púlpito antes reservado aos senhores e senhoras do establishment - mas que, na primeira curva da estrada, são flagrados praticando - como direi?-, alcances nos dinheiros públicos.

Com isso, tornam-se iguais à marginália, gerada pelo tipo de sociedade que essas pessoas ajudam a engendrar. Entretanto, os espaços democráticos permitem que, legitimamente, o marginal possa disputar e, claro, desfrutar de um mandato. Não estou falando de bandido; marginal, aqui, é em sentido estrito, aquele que está à margem, que não integra os grupos de dominação.

E como a dança política se aproxima, Gretchen e sua filha poderão, quem sabe, chegar ao Poder. E tome-lhe conga, conga, conga.
Emanoel Barreto
Foto: Ernesto Rodrigues/Agência Estado

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

A luz no fim da dívida

Caros Amigos,
A foto que uso como metáfora do longo caminho que o País percorreu até pagar a dívida externa é de Jean Manzon, o genial fotógrafo francês que fez dupla memorável nos anos 1950 com David Nasser, nos tempos mais vibrantes de O Cruzeiro. O Governo anuncia que foi paga a dívida externa e o País passou, de devedor a credor de outras nações. Não sei se é motivo de orgulho saber que minha pátria agora passou a explorar outros povos. Mas, são as regras do mundo.

Mas a foto, que encontrei por acaso, deu-me a sensação perfeita de caminho percorrido, labirinto subterrâneo, cavernas insondáveis, gente, povo, nação, vidas se movendo no escuro. Fica agora a dívida social, que é cobrada pelas favelas, pelos famintos, pelos que jamais chegarão à universidade.

Na prática, essas pessoas se mantêm no túnel da pobreza e da miséria. E nesse túnel o tempo parou. Mas a foto, pela sua magnificência, é um belo instante do ser humano a caminho do seu próximo passo.
Emanoel Barreto
Fonte: http://fotosite.terra.com.br/novo_futuro/portfolio_pop.php?id=326

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

O momento preciso

Caros Amigos,
A foto acima é de Henry Cartier Bresson, um colecionador de momentos, que congelava em imagens magníficas; ao que sei, sempre em preto e branco, a partir de uma máquina sem maiores recursos técnicos. A ele, bastava o olhar atento, a situação ideal, o ato chamando o olhar, para que surgisse a foto. Coisas de jornal.

Era ele, a partir de seu olhar intenso e descobridor, que captava a vida, o humano ser, o mundo inteiro como que resumido numa foto só.

Foi dele que surgiu a teoria do momento preciso. E o que é isso? Simples: o instante precioso, no momento certo. Um fragmento de tempo, em conexão com um fragmento de espaço se encaixam de uma maneira tal, que permitem o flagrante da vida, a sagração da vida. A rapidez do fotógrafo, a precisão sensível, o momento preciso. É isso. A foto diz tudo.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Eu chamo o carcará

Caros Amigos,
A águia americana busca motivos e oportunidades em todo o mundo para fazer valer sua ótica, seus pontos de vista, apetites, intenções e propósitos. Por que os Estados Unidos podem se colocar como paradigma do mundo, estabelecer seus pontos de vista e seu way of life como marco para o planeta? Por que seus agentes desconfiam de tudo, seu governo sente-se perseguido em todo o planeta e, a troco de tal esquizofrenia, passa a atacar qualquer país que seja visto pela águia como ameaça, mesmo que virtual?

É estranha a moldura ideológica que rege os grandes do mundo. EUA e assemelhados estão sempre preocupados, ofegantes perante a história, vendo inimigos em toda parte e, assim, atacando a todos. Aí, sim, os inimigos aparecem. E, à sua maneira, do jeito que podem, contra-atacam.

Aqui, da minha parte, prefiro lembrar nosso Brasilzinho, nossa patriazinha: "Minha terra tem palmeiras/ Onde canta o sabiá."

Mas acrescento:
Águia besta
Vá embora
Vá voando para lá
Pois se um dia for preciso
Eu chamo o carcará.

Emanoel Barreto
Foto: Luis M. Alvarez, AP/WWP

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Adios, Comandante...



Caros Amigos,

A renúncia de Fidel à presidência de Cuba coincide com a entropia do tempo. Ele sucumbe à condição humana, ao desgaste inexorável que corpo e mente são submetidos ao longo de nosso percurso neste planeta.Paralelamente a isso, o mundo mantinha seu processo de mudança: caía o Muro de Berlim; Moscou seguiu na derribada; a China introduzia novas facetas em seu socialismo oportunista e opressor; psicopatas como Pol Pot, no Camboja, iam à dèbâcle; Enver Hoxa e os Ceaucescu foram expurgados pela história. A Coréia do Norte é a Coréia do Norte. Ou seja, o socialismo, ou comunismo, como queiram, revelava sua inviabilidade - pelo menos na práxis que assumiu.

Cuba, ao lado do Grande Irmão, sofreu um brutal processo de estrangulamento econômico, cujas repercussões históricas impediram, disso não resta dúvida, o desenvolvimento de sua economia. Mesmo assim, em aspectos como educação básica e atenção à saúde, a ilha atende bem ao seu povo.

Não tenho qualquer simpatia por ditaduras, mas suponho que, não fora o garroteamento dos cubanos pelos americanos e países centrais europeus, a realiade sócio-econômica, lá, seria outra. Aquele povo demonstrou, no mínimo, capacidade de resistir; e resistir com dignidade.

Claro que, com a saída de Fidel haverá mudanças: primeiro, ele deixa a presidência para assumir a condição de mito, lenda viva cercada pela aura de ser o grande líder e o maior do povo. Morto, estará elevado ao panteão do socialialismso cubano, ao lado de Che e de Camilo Cienfuegos. Enquanto isso, os EUA estarão em compasso de espera, aguardando, em esquina lúgubre, a sua morte.

Seu substituto deverá estar pronto para as mudanças históricas que virão. Agora, e quando Fidel calar para sempre. O sonho do socialismo, que embalou a minha geração, deixou-nos cara a cara com aquilo que a hipocrisia de muitos hoje chama de socialismo real. Ou seja: deu no que deu e ainda não se quer admitir que fracassou. Pelo menos, nesta quadra da história e da maneira como o socialismo foi levado a efeito. Do outro lado, o capitalismo atroz comemora sua suposta vitória e diz que passou o tempo de se lutar por um sistema mais justo. Mas sei que liberdade vai muito além de ter direito a comprar uma TV digital.

Vejamos o tempo passar. O império do tempo nos dará a resposta, algum dia. Aguardemos.

Emanoel Barreto

Foto: Américo Vermelho-30.jun.1999/Folha Imagem

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Preso perigoso agente infiltrado


Caros Amigos,
Esta perigosíssima cobra é, na verdade, um agente político disfarçado, cujas iníquias finalidades eram penetrar no Congresso e influenciar negativamente deputados e senadores que integram a CPI dos cartões corporativos.
Como sabe-se que a CPI tem todo o interesse de apurar tudo e demonstrar à nação que seus integrantes têm os mais sérios compromissos, o agente infiltrado pôs-se a agir, mas seus planos foram descobertos.
Avisada, a polícia saiu à caça. Rápidos, os agentes da lei capturaram o perigoso agente, que, agora, sob guarda, será levado a um presídio federal e ali mantido sob regime disciplinar diferenciado.
Não serão permitidas visitas e celular. De celular, apenas a cela onde o agente infiltrado será mandito.
Com isso, dizem as autoridades, espera-se que senadores e deputados apurem toda a verdade da gastança com os cartões. Assim, a cobrança de dinheiro público estará resguardada, já que, livres de influenciações maléficas, os congressistas poderão agir com toda a sua pureza d'alma, movidos pelos mais altos sentimentos de cidadania. Todo o País verá isso, no decorrer dos trabalhos. É um momento de regozijo para todos nós.
Emanoel Barreto

sábado, 16 de fevereiro de 2008

E as chuteiras ficaram tristes

Caros Amigos,
As coisas de jornal têm possibilidades múltiplas, ampliando seu leque de abordagem, dando curvas na comunicação. A depender da notícia ou reportagem, as coisas da vida, como o título de um filme, de um livro ou de uma canção, um ditado popular ou algo assim, podem perfeitamente se encaixar no espírito da matéria.

Por exemplo: certa vez, ao fazer uma reportagem sobre depressão, titulei o texto com o seguinte verso de Chico Buarque: "Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu." Percebe? Isso dá mais força ao texto, uma vez que remete o leitor a uma circunstância já experienciada, que foi o contato prévio com a composição famosa de Chico e a situação cinzenta de quem esteja passando por uma depressão.

No caso das charges, como essa de Ique, acima, publicada hoje no JB, temos exemplo claro de como uma determinada manifestação jornalística pode ir além daquilo que dela se espera comumente, e partir para angulações outras.

Comumente a charge é irônica, marcadamente política, tem cunho opinativo e, portanto, editorial. Acontece que charge, por isso mesmo, é um a visão de mundo, uma contemplação que, sendo irônica, não deixa de ter seu conteúdo trágico, uma vez que deplora sarcasticamente a miséria humana na gestão dos negócios da política e do governo. E, sendo visão de mundo, pode alentar-se a abranger outros significados, tratar de outras pulsações do humano gesto nesta vida louca e bela, triste e ao mesmo tempo magnífica.

Ique utilizou o espaço da charge para, vamos dizer assim, uma reflexão sobre a condição humana: um jogador de futebol, rico e famoso, ainda em condições de desfrutar de suas condições de atleta, de repente vê-se lançado ao escanteio da vida, durante uma jogada infeliz. Mais uma, em sua atribulada carreira de quedas e contusões.

Ique conseguiu, com vigor incomum, captar o sentimento de Ronaldo a partir de imagens da TV que o mostravam cabisbaixo, as muletas conduzindo, trôpegas, os pés de quem um dia já foi o melhor do mundo. Veja o traço, perceba o sofrimento que a imagem transmite. E o detalhe: junto ao rosto do jogador, três tracinhos dão o toque que expressam a sua dor. É a vida cabisbaixa e o homem sucumbido a ela.

Tudo parece ser o indício do fim. E reconfirmo: tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Olhai este lírio do pranto



Caros Amigos,

Ai que triste momento da criança, a brincar de perigo sem temer. Com firmeza no olhar tão triste e pobre, ela mostra o troféu que é sua dor.

Sucumbido instante, lamentável proeza.

Aprenderam-lhe artes desumanas, ensinaram-lhe atos ribanceiros. Meio aos pais que lhe forjam vida suja, a criança corre a virar restolho.

E se a vida cobrar, nalgum instante, que lhe pague tão caro um preço vil, a menina terá sempre o direito de enroscar-se e matar quem a picou.

Emanoel Barreto

Fonte: http://www.picarelli.com.br/fotolegendas/fotolegenda012003d.htm

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Comissão para Produzir Inutilidades-CPI




Caros Amigos,
PT e PSDB, como na alegórica foto acima, estão às mil maravilhas. Não, não se trata de uma afirmativa paradoxal: os partidos agora deram para, veja só, brincar de CPI. Como num jogo de amarelinha político, vão ficar atirando pedrinhas e saltitando do plenário para salas de reuniões e de lá para o plenário e deste para as TVs, jornais, rádios e internet, fuxicos e tolices.


De um lado e de outro há telhados de vidro, e as pedrinhas da amarelinha política vão certamente estilhaçar os finos cristais de deslizes, malversações, cambalacho, patranhas, acertos, jogos de luz e sombra. Foi só a oposição falar em CPI, que o Governo entrou na brincadeira e quer também esmiuçar o uso dos cartões corporativos dos tempos de FHC.

Tal panorama, lamentável procedimento de políticos que deveriam ter mais o que fazer, é o mapa exato e perfeito do nosso Congresso: apenas magotes de deputados e senadores trocando acusações, mas deixando blindadas as figuras presidenciais de Lula e FHC. Isso é coisa séria? Francamente, o povo não deveria ser engodado com essa amarelinha. Todos sabemos que a CPI dará em nada; ninguém será preso, dinheiro não será devolvido aos cofres públicos, a sociedade nada terá a lucrar.

Lucrar, lucrar mesmo, somente os partícipes do festim do Poder, que vão jogar sua amarelinha e não vão amarelar quando seus nomes pipocarem nas manchetes das coisas de jornal. Trata-se apenas, como veremos, de uma Comissão para Produzir Inutilidades. No mais, tudo bem.
Emanoel Barreto
* Ah, sim... No You Tube há um filminho de uns 15 segundos, que flagra o presidente Lula dizendo um baita palavrão, ao reclamar de fotógrafos de jornais que, segundo diz, o assediam em demasia.
Foto - Fonte: http://www.radiobras.gov.br/brasilia45anos/brasilia45anos.htm

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Carona com a morte



Caros Amigos,
A guerra no Iraque, com sua ira que se espalha em todas as direções naquele país, é o demonstrativo exato da brutalidade humana que se repete ao infinito. Ao lado dos tanques, caravana de dor, não ladram os cães, mas inocente criança que parece pedir carona. É a ingênua vida estendendo a mão à morte que passa bem perto.

O poderio das caríssimas máquinas de matar passa solerte e vai cumprir com sua sina de destruir e vitimar. A ira que recobre o Iraque com seu véu escuro, de terrível transparência fria, segue. E deixa atrás de si o rastro dos que foram preparados para conduzir a morte, que de há muito pediu carona nas balas e nos canhões.
Emanoel Barreto

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Olha o Obama aí

Caros Amigos,
Sob a proteção do Superman, Barack Obama posa para o futuro. E surge uma pergunta: como reagirá a ultra-direita americana? Será inaceitável a segmentos conservadoress da sociedade norte-americana, a presença de um negro, veja só, na Casa Branca. Não creio que, com ele, haverá mudanças substanciais na política externa dos americanos. Mas, de alguma maneira, seria uma mudança, o surgimento de um novo discurso da presença afro, um embate com o racismo.

Obama, ao colocar-se em comparação com o Superman, atribui a esse comportamento, implicitamente, sua adesão ao establishment, empalmando os valores brancos e dizendo apenas que os negros têm direito a dirigir o país que ajudaram a construir, nada mudando em termos de estrutura ideológica.

De qualquer forma, valeria a tentativa histórica de fazer valer a presença negra e sua importância nas formulações de mundo. Há quem fale que, eleito, em algum ponto do seu mandato seria alvo de atentado. Como se já não bastasse o assassinato de Martin Luther King e a agressão à sua grande pregação em favor dos direitos civis, afinal conquistados pelos negros.

O tempo vai escrevendo a história e cada parte da história tem o seu próprio tempo. George W. Bush riscou o cristal da história com sua guerra e seus terríveis gestos. Obama bem pode ser um bom sinal. Olha o Obama aí, gente!
Emanoel Barreto

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Uma mulher gravemente nua

Caros Amigos,
Talvez o Brasil seja assim: uma mulher gravemente nua, exageradamente rua,
desabaladamente tonta, loucamente bela.
Lindamente tola, desavergonhadamente plena, exuberantemente luz, reveste-se de seios, coxas, sorrisos, nada mais.
E depois, bom... depois, Brasil não sabe...
Emanoel Barreto
*Foto: Marcos D Paula (Estadão Online)
http://www.estadao.com.br/interatividade/Multimidia/ShowFotos.action?produto=Estad%C3%A3o

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Natureza sob ataque

Caros Amigos,
Foto premiada da Agência Reuters, de um gorila morto no Congo, foi veiculada pelo Estadão Online. Um grupo de homens formou um estrado com longas varas, a fim de levar sua bela e magnífica vítima. Um grupo de homens de um país de terceiro mundo, atacando a natureza a troco de miserável soldo. A foto traz somente uma legenda: não dá detalhes, não diz qual a finalidade econômica da morte do animal nem a quantas anda o perigo de extinção da espécie.


Mais: não dá conta de quem são os criminosos que assalariaram aqueles caçadores, a fim de atacar a vida. Sem dúvida de que o mundo, a sociedade planetária, está precisando de um bom repórter, numa boa revista de grandes reportagens, para aprofundar assuntos como esses. Mas, os grandes repórteres estão aposentados, e o jornalismo não pratica mais a reportagem; apenas um noticiário que se volta para a superfície do real e esquece os grandes problemas que se escondem no fundo do poço.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

A moça nua e os pecados federais

Caros Amigos,
Agora que o fogo do carnaval passou; depois que caiu o tapa-sexo de quatro centímetros que a moça usava e ela seguiu, alegre e nua, pela avenida; quando o fogo das manchetes espoca os gastos com os cartões corporativos do governo e a Igreja convoca o povo à oração e à vigília para expiar culpas e pecados, começa realmente o ano. Bem-vindo, 2008.
A oposição, cujo esporte preferido é abrir CPIs, e o governo, em sua inesgotável mestria em fornecer fartos fardos de erros para alimentar essa oposição, entram em campo para o renovado espetáculo da prática política nacional: escândalos e deslizes gastarão muita tinta e papel nas coisas de jornal. Bem vindo-2008.
Vem agora a Semana Santa. Pecadores dos mais diversos escalões, desde aqueles que se apegam a pecados veniais - pecados maneiros, que qualquer padre perdoa -, até aqueles que têm na consciência a certeza de que se cevaram de pecados mortais, pecados capitais, federais, estaduais, municipais e paroquianos, terão a oportunidade de rezar, rezar muito; para, depois, fazer a mesma coisa. Bem-vindo, 2008.
Depois da Semana Santa... sinceramente, não sei. De qualquer maneira, peço: oremos. Mas, mesmo assim, bem-vindo, 2008.
Emanoel Barreto

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Uma festa e um encontro trágico

Caros Amigos,
Quando uma escola de samba passa, qual o Brasil verdadeiro: o das mulheres belas, frenéticas, faunas seminuas, destaques que vêm do asfalto e nada têm a ver com as cabrochas; ou o Brasil dos batuqueiros, da percussão, dos puxadores de samba, dos empurradores de alegorias, pesados mamutes de luxo que o povo pobre e suado da favela ajudou a pagar?

Há aí, suponho, um encontro trágico-bacante entre o hedonismo das pagãs ricaças, belas deusas do dinheiro e fama, e o impulso febril do povo impaciente, que não suporta mais a tristeza e, uma vez por ano, sazonalmente, tem o direito de se sentir alegre em praça pública, mesmo sabendo que essa alegria é falsa, é uma alegria de aluguel e dura só uns cinqüenta minutos de desfile.

Hoje é terça-feira, prenúncio de fim de festa. Amanhã, Cinzas. E os olhos mareados de ressaca estarão sentindo que é hora de rever o mundo com suas cores reais. Tem ainda a escolha das campeãs. Haverá festa e muitos sorrisos. Depois, o País volta à normalidade. Será tempo de conviver com a luta e o salário mínimo.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Zé Pereira

Caros Amigos,
O poeta Walter Medeiros envia para publicação:


Zé Pereira

Viva Zé Pereira,
Português danado,
Cabra sem enfado,
Pela vida inteira.

Viva o Carnaval,
Que tanto admiro,
Mas já me retiro,
Não me levem a mal.

Viva aquele samba,
Feito por Martinho,
Que canto baixinho,
Querendo ser bamba.

Viva a lembrança,
Do pó*, do confetti,
Caetano, Zé Kéti,
Serpentina e lança.

Viva Paulo Maux**,
Nosso eterno Rei,
Nunca esquecerei,
Mas sei que passou.

Viva nossos clubes,
De lindo passado,
Que está gravado,
Não há quem derrube.

Viva uma saudade,
Cá neste meu peito,
De amores sem jeito,
E de felicidade

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Sábado gordo

Caros amigos,
E chegou o carnaval.
A cintilante alegria programada,
o hedonismo sazonal e intenso,
que obriga anualmente o brasileiro a ser feliz.

E chegou o carnaval.
Gente vai cair no samba,
outros seguem rumo à praia.
E o Brasil é obrigado a ser feliz.

Quantas loucuras deslumbrantes,
alegrias filtradas, esperadas dia a dia;
trabalhadas, ansiadas no escuro da alma, vão acontecer.
E o Brasil é obrigado a ser feliz.

Veias, coração e vida
vão destilar, no alambique dos pandeiros,
o absinto de emoções - tão tortas, tão aladas,
passageiras e banalmente essenciais.
E o Brasil é obrigado a ser feliz.

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Emanoel Barreto

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Tristeza não dá samba

Caros Amigos,
A Justiça do Rio proibiu o desfile de um carro alegórico da Unidos de Viradouro, que seguiria pela avanida cheio de esculturas representando judeus chacinados pelos nazistas. Mesmo admitindo-se as boas intenções do carnavalesco, convenhamos: carnaval não é o espaço apropriado para uma crítica desse tipo, especialmente se se utiliza o recurso impressionista de figuras esquálidas amontoadas, como efetivamente aconteceu e foi registrado pelos Aliados.

Isso somente fará reacender a memória da brutalidade, a sensação de sofrimento. Pior: poderá parecer, de alguma forma, escárnio, deboche com quem tanto já sofreu. Como eu vou reverenciar mortos em meio a uma festa - belíssima, indisutivelmente -, feita de libido, narcisismo, explosões de egolatria e fausto? Só um louco para pensar nisso como reverência.

Liberdade de expressão precisa ser exercida com bom senso: a sátira, a caricatura, o texto dionisíaco e sarcástico, quaisquer alusões críticas a pessoas ou fatos, são perfeitamente aceitáveis, desde que instituídos em suas formulações sociais exatas. E o carnaval não é o lugar escolhido pela tristeza, para instalar-se com seu vale de lágrimas. Tristeza não dá samba.
Emanoel Barreto

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

O Lobo e os Três Porquinhos

Caros Amigos,
Como foi visto no texto anterior, o Lobo Mau conseguiu seqüestar o Brasil, depois de atacar a Vovozinha. Chamado a depor numa comissão parlamentar de inquérito, onde também era acusado de tentar derrubar a casa dos Três Porquinhos, defendeu-se: "Também, tudo agora é culpa minha. Não seqüestrei o Brasil, foram outros, que se fizeram passar por Caçadores. Quanto à casa dos Três Porquinhos, nada tenho a dizer, a não ser que ela foi derrubada pelo ex-deputado Sérgio Naya."

E depois, orientado pelo advogado, completou: "E tem mais: eu, pelo menos, sou um Lobo. Mau, mas um Lobo. Eles são porcos.. Por que vocês não investigam eles?" Não disse os nomes dos porquinhos e até hoje a Polícia Federal está atrás deles, que logo ficaram sob a suspeição de ter feito algo de errado pela simples condição de porcos. Com porco, não é?, nunca se sabe...

Quanto ao Brasil, há rumores de que conseguiu escapar do cativeiro. Mas nada ainda foi confirmado.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O Brasil e os Lobos Maus

Caros Amigos,
Quando o Brasil era criança, era um menino muito levado. Tanto, que chegou a surrupiar do Saci Pererê seu chapeuzinho vermelho e saiu por aí, todo lampeiro. Mamãe Brasília, a conselho do preguiçoso Papai Macunaíma, disse ao menino: "Meu filho, não ande pelo caminho da floresta amazônica, pois lá é perigoso. Lá vivem os Lobos Maus, o Papai Lobão e o filhote Lobãozinho."

Mas Brasil era danado e largou-se um dia a andar pela floresta amazônica, quando ia levar doces para Dona Benta, sua Avó, que morava no Sítio do Picapau Amarelo, mas que, por uns meses, estava na Chácara do Torto. Brasil podia ter ido pelo Rio, mas por lá havia muito tiroteio, que nem mesmo o Bope estava conseguindo dar conta. Por São Paulo nada, a poluição do Tietê, o trânsito demencial que enlouquece aquela pobre cidade, o fizeram desistir.

Na verdade, Brasil não tinha mesmo como escapar. Pelo Nordeste também não dava para ir, pois a seca estava rachando a terra, o povo em fome e os políticos ganhando dinheiro e voto com as levas de pessoas que pediam água. Brasil, como estamos vendo, mesmo sendo traquinas e gostando de pilantragens - opa! eu queria dizer peraltagens -, não tinha outro caminho a seguir e meteu-se pela floresta.

Logo que chegou lá, foi recebido a tiros por grandes proprietários, que devastavam a mata para plantar soja. Mais adiante, bala de novo: agora eram garimpeiros, que poluíam rios com mercúrio, atrás de ouro, muito ouro. Mais na frente, mais tiro: grupos criminosos cortavam troncos centenários para transformar em madeira de lei. Vamos ficar por aqui, que senão eu não paro, pois quero mesmo é falar sobre o que interessa: os dois lobos da floresta.

Depois de muito caminhar, Brasil afinal chegou ao Torto. Ia dar um grande abraço na Vovozinha, entregar os doces, passar a noite lá e voltar para casa, feliz da vida.

Pois bem, chegando à Chácara do Torto, Brasilzinho ouviu mesmo foi um grito enorme, desesperado, louco. Os Lobões estavam atacando a Vovozinha, Meu Deus! Brasil ficou sem saber o que fazer: o Papai Lobão gritava que queria seu espaço político, era muito forte e coisa e tal; o Lobãozinho dizia que aquela história de que devia 5 milhões e 500 mil ao fisco era balela e que ele ia provar que era um homem, quer dizer, um lobo bom.

A Vovozinha Dona Benta não aguentava mais: para onde ela ia, os lobões iam atrás. Brasil estava perdido, atônito, quando ouviu a velha canção:

Nós somos os caçadores,
E nada nos amedronta,
Damos mil tiros por dia,
Matamos feras sem conta.

Pronto, Brasil ficou felicíssimo e pulou para dentro da casa da Vovozinha. Agora, estavam salvos. Os caçadores estavam chegando. Os Lobões seriam afastados e a paz voltaria à vida da Vovozinha. Abraçaram-se. Até ensaiaram cantar "Pega eu, que eu sou ladrão", em homenagem a Bezerra da Silva. Mas, nisso, os caçadores chegaram, se apresentaram e... anunciaram o assalto... Agiam em parceria com os Lobões e queriam tudo. Vovozinha desmaiou. Brasil foi seqüestrado e até hoje estão pagando o resgate. Mas, eles não o libertam nunca...
Emanoel Barreto

sábado, 26 de janeiro de 2008

Os carvoeiros

Caros Amigos,
Neste final de semana, ficamos com Manoel Bandeira.
Abraços,
Emanoel Barreto

Meninos carvoeiros

Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
— Eh, carvoero!
E vão tocando os animais com um relho enorme.
Os burros são magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvão de lenha.
A aniagem é toda remendada.
Os carvões caem.

(Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe, dobrando-se com um gemido.)
— Eh, carvoero!
Só mesmo estas crianças raquíticas
Vão bem com estes burrinhos descadeirados.
A madrugada ingênua parece feita para eles . . .
Pequenina, ingênua miséria!

Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis!
—Eh, carvoero!
Quando voltam, vêm mordendo num pão encarvoado,
Encarapitados nas alimárias,
Apostando corrida,
Dançando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos desamparados.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Não podemos amarelar

Caros Amigos,
Os casos de febre amarela, além, é claro, das lamentáveis mortes que provocaram, podem ser entendidos como uma metáfora; bem ao estilo brasileirinho. Vivemos num país de tantos problemas, dificuldades mil e contradições às centenas, que cheguei a uma conclusão: do jeito que está, não podemos amarelar.

É preciso entrar firme no jogo, pisando com maciez no gramado, mas deixando as chuteiras com boas travas, para poder enfrentar o adversário; que, aliás, é um concorrente múltiplo: são as prestações no fim do mês, a gasolina cara, os supermecados vendendo preços em vez de comida, a Universidade reclamando de falta de apoio, e por aí, vai...

Mas, não podemos amarelar. Devemos é seguir em frente. Brasileiro não tem direito de ter medo (já nasceu dentro do perigo); não pode duvidar (pois são muitos os atalhos); nem fugir dos pesadelos (pois já de há muito caminha pela noite); não pode temer o tempo (já que é um povo que entrou na chuva - e é para se molhar ); e sabe que não pode confiar muito, pois como dizia Bezerra da Silva, "Você vê ladrão quando olha pra frente/Você vê ladrão quando olha pra trás."
É isso.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Dê uma chance à paz

Caros Amigos,
Em Minas, um juiz proibiu a comercialização de dois jogos eletrônicos, considerados violentos demais. Crianças e jovens são o público-alvo das empresas que produzem tais jogos, bastante procurados em lan houses.
Não é de hoje que os seres humanos nos divertimos com a violência. Os romanos trouxeram dos etruscos os jogos com gladiadores; no Ocidente e no Oriente, animais como cães, pássaros e até peixes, são utilizados em bárbaros espetáculos. E, em ringues, brutamontes se defrontam em combates cheios de perversidade. A multidão urra e ateia fogo ao circo insano.
Desde já há algum tempo, esses jogos de computador atraem mentes imaturas. De alguma forma, a cultura da violência começa a lançar raízes sociais, refletindo o drama da vida: o mais astuto, cruel, desumano e sanguinário deverá se impor. É a estética da brutalidade. É o discurso negocial do diálogo bruto fazendo valer o seu pregão.
Sofisticando-se nas telas dos computadores, a mensagem da violência faz adeptos, ou melhor, vítimas, uma vez que somente como vítimas pode-se entender que sejam os jovens que a tais jogos se dedicam. Creio que é melhor fazer como John Lennon: dê uma chance à paz.
Emanoel Barreto

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Rumo ao abismo

Caros Amigos,
O mundo está à espreita do que pode acontecer com a economia dos Estados Unidos, como alpinistas que estão presos a uma mesma corda temem que, aquele que vai na frente, se desequlibre e caia, levando todos a uma queda aterrorizante. Essas crises mundiais, desde o terrivelmente inesquecível crack da bolsa de Nova Iorque em 1930, são algo com que a humanidade de alguma maneira convive, para desespero geral, sempre e quando economias estratégicas se desequilibram.

Um complexo, intricado e invasivo processo se espalha, levando junto um importante dado psicossocial que se alastra: o desespero toma conta de todos e, na ânsia de se salvar, esse ser coletivo e imponderável a que chamam mercado, acaba, como Ícaro, precipitando-se no abismo.

E, ao final das contas, lá longe, no fundo do poço, esse ser a que chamam desempregado, olha para seu passado recente, lamenta o que acabou de perder com a crise e, de um modo ou de outro, também se precipita num abismo.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

No fim do túnel

Caros Amigos,
Goethe, em seu leito de morte, teria proferido, como últimas palavras, a famosa expressão: "Luz, mais luz." Enviesando o caso para a realidade brasileira, estamos literalmente precisando de luz, mais luz. Os seguidos anúncios de que estamos às portas de mais um apagão, sempre dando espaço para que o Governo faça seus desmentidos, nos deixam no escuro. Quem terá razão? Os níveis baixos de reservatórios e o acionamento de termelétricas devem ser vistos como indícios bastante claros de que nem tudo é só fogo de palha.

Esperemos que, vindo o apagão e o racionamento de energia elétrica, não fique a conta para o consumidor. Alguém ainda deve se lembrar: quando do último racionamento, veio um reajuste. Como forma de compensar as perdas financeiras dos fornecedores e distribuidores de energia. Ou seja: se o povo não racionasse, pagaria contas astronômicas. Como o racionamento obteve êxito, esse mesmo povo foi punido por cumprir a determinação emanada do Governo. Assim, fica claro que, confirmando-se o apagão, não haverá luz no fim do túnel.
Emanoel Barreto

sábado, 19 de janeiro de 2008

Um poema de Cecília Meireles

Caros Amigos,
Neste final de semana, Cecília Meireles:

Leilão de Jardim

Quem me compra um jardim
com flores?
borboletas de muitas
cores,
lavadeiras e pas-
sarinhos,
ovos verdes e azuis
nos ninhos?

Quem me compra este ca-
racol?

Quem me compra um raio
de sol?

Um lagarto entre o muro
e a hera,
uma estátua da Pri-
mavera?

Quem me compra este for-
migueiro?

E este sapo, que é jar-
dineiro?

E a cigarra e a sua
canção?

E o grilinho dentro
do chão?
(Este é meu leilão!)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Os robôs bobos

Caros Amigos,
Sem maiores detalhes, soube pelas coisas de jornal que a Microsoft desenvolve um programa que permitirá às empresas controlar seus funcionários de tal forma que, além do desempenho profissional, terá até mesmo informações sobre o seu estado emocional.

Trata-se, na verdade, de um programa que invadirá perversa e solertemente até mesmo o mais íntimo dos seres humanos, em proveito do capital. Estaremos vivendo em sua plenitude a genial e sombria metáfora de Chaplin em "Tempos modernos". O mesmo diga-se com relação ao mundo terrível que Orwell previu em "1984". O Grande Irmão invadirá vidas, sonhos, medos e desejos, controlando tudo, punindo e obtendo lucro.

No caso, o Grande Irmão não será o Estado, como estimava Orwell em sua crítica ao stalinismo, mas os grandes conglomerados, as poderosas corporações, numa sociedade mundializada.

Não deve ser coisa para já. Mas, caso venha mesmo a ter aceitação por parte das empresas, significará uma odiosa e deplorável maneira de manipular pessoas, como se fossem robôs; robôs bobos que, diferentemente dos robôs máquina, sofrem e se angustiam, mas, como elas, as máquinas, não reclamam e seguem adiante, sobrevivendo apenas para trabalhar.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

É melhor, você vai ver...

Caros Amigos,
O BBB da Globo está obtendo baixos índices de audiência, quando comparado à sua última edição. Ao que parece, a fórmula está se esgotando. É previsível que, com o passar do tempo, tais produtos de mídia comecem a despencar de popularidade, exatamente pelo seu conteúdo tolo e fugaz. De antemão, o telespectador sabe que as peripécias, episódios e "dramas" dos participantes serão literalmente os mesmos dos programas passados, mudando-se apenas os personagens.

Pedro Bial assoma à cena como um mestre-sala da bobagem. Anuncia, tentar criar no telespectador algum clima de ansiedade, uma estimativa de incerteza sobre o que acontecerá, mas seus esforços estão se revelando inúteis; inúteis, pois o BBB é uma inutilidade e uma falta de respeito à inteligência.

Fenômeno mundial, esses reality shows infestam televisores e buscam capturar corações e mentes. Lamentavelmente, deve-se admitir que conseguem. Milhões de pessoas estão atentas a tais futilidades, preenchendo seu tempo noturno, até que o sono chegue. Mas, no caso específico, o programa está em dacadência. Vejamos por quanto tempo mais ele se segura, até que venha o seu substituto.

O problema é exatamente esse: com a cultura televisiva vigente globalmente, essas ações midiáticas estão se naturalizando, tornando-se como que um conteúdo essencial. As pessoas começam a acreditar nisso. A achar que isso é importante. É aí que está o perigo: a televisão não tem qualquer interesse em exibir conteúdos de qualidade. Elegeu a fatuidade como ato prioritário, aferrou isso ao senso comum e logou êxito e muitos patrocinadores. É um processo perverso que, temo, não venha a ser revertido.

As coisas de jornal, entretanto, dizem que, na internet, há um movimento para que o programa seja boicotado. Está aí uma boa idéia. Quando o BBB começar, dê um jeito: mude de canal ou até mesmo reveja aquele velho DVD. É melhor, você vai ver...
Emanoel Barreto

sábado, 12 de janeiro de 2008

Eu e você

Caros Amigos,
Hoje, ficamos com Vinícius de Moraes. Segue:

Eu sei e você sabe
Já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe
Que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste

Por isso meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham a você.

Assim como o Oceano, só é belo com o luar
Assim como a Canção, só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem, só acontece se chover
Assim como o poeta, só é bem grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor, não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Shame on you, Bush

Caros Amigos,
Vivendo já o final do seu obtuso período à frente do governo norte-americano, George Walker Bush chega ao Oriente Médio. Na verdade, no máximo apenas uma visita para conferir os sinistros resultados para os quais sua sombria administração deu essencial contributo; nada mais que isso. Afinal, Bush está com o prestígio em baixa junto aos americanos, politicamente não terá mais tempo para intervir para um processo de paz na região e, inferno astral para ele, poderá até mesmo ser dispensado de intervir na campanha do futuro candidato republicano, caso seu prestígio despenque ainda mais. Nem seus iguais o querem mais por perto.

Ao longo de dois períodos medíocres à frente da Casa Branca, Bush começa a sair de cena, deixando atrás de si um rastro sangrento e um triste legado: não deu qualquer passo para a melhoria das condições de vida no planeta e apenas contribuiu para alongar no tempo as tragédias que, dia a dia, se desenrolam no Oriente Médio.

Inculto, medíocre, simplório, dotado de uma visão de mundo que privilegiou o imediatismo em detrimento do histórico; a força em secundarização da inteligência; o capital sobrepujando a humanidade, vai se retirar de cena após dar ao mundo uma substanciosa contribuição a toda uma carga de malefícios e indignidades que perseguem os nossos dias. Shame on you, Bush. Shame on you.
Emanoel Barreto

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

BBB: bacante, banal, besteira

Caros Amigos,
A Globo nos chega com mais uma edição do BBB. Apresentado como um reality show, ou seja, um espetáculo real, uma transmissão da vida, com os contrastes de personalidades, interação humana conflitual e competitiva, o programa é, em verdade, a vida roteirizada, estudadamente programada para provocar rumor social.

Os participantes, assim, são personagens: cumprem papéis pré-determinados, numa produção no mínimo questionável, seja do ponto de vista ético, seja quanto à sua proposta de "show".

O horário do programa tem sido criticado por educadores, especialmente quando tratam da questão público infantil. Os especialistas dizem que a criança entra em contato com uma realidade de mídia altamente erotizada, acrescendo-se a isso o fato de que os participantes trabalham valores deploráveis, como a cobiça e a competitividade despida de respeito ao outro. Valem o jogo sujo e a esperteza.

O pior é que, com seu poderio midiático, a Globo faz passar à sociedade brasileira que está exibindo algo importante, algo que deve e precisa mobilizar opiniões, chamar a atenção e provocar uma forma de consenso a favor da validade daquela produção.

Os meios de comunicação, a TV em especial, estão valorizando e valorando esse tipo de programa, disseminando a idéia de que fatuidades são algo essencial. Enfatiza-se o hedonismo, a conversa vazia, o fortalecimento do senso comum na discussão de comportamentos emitidos por pessoas que representam à perfeição esse mesmo senso comum.

É deplorável. Mas é um sucesso, rende dinheiro e vai, de alguma forma, mobilizar esse país em torno de mais um atentado à inteligência.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Tudo volta a ser cinzento

Caros Amigos,
De forma inglória, Glória Maria foi afastada do Fantástico, sendo substituída pela beleza - e competência -, da jornalista Patrícia Poeta. Cid Moreira e Sérgio Chapelin, quando deixaram suas posições de destaque, também haviam sido jogados para fora do Jornal Nacional após muitos anos de trabalho e excelente desempenho.

Para eles, a explicação foi a de que a tendência internacional mandava que telejornais fossem apresentados por jornalistas; não mais por locutores, que não têm qualquer participação na feitura do noticiário, limitando-se a vocalizar material preparado por outros. Isso daria maior credibilidade e vigor ao noticiário.

A Globo anunciou que Glória afasta-se do programa, por dois anos, a fim de dedicar-se a projetos pessoais; leia-se: escrever um livro, tomar aulas de canto e fazer viagens. Isso é o que foi dito.

Quanto a Patrícia Poeta, é uma jovem e talentosa repórter, além de bonita. Mas, se a isso não se juntar uma ação jornalística forte, com material de notório intresse, retirando o programa das platitudes a que se dedica, de nada adiantará um rostinho bonito. O programa continuará com baixa pontuação e alvo de bocejos.

Lembrai-vos de que o Fantástico, em priscas eras, tinha o slogan de "O show da vida". E, como sempre o show tem que continuar, sai Glória, esquecida e pálida, para que uma nova estrela surja no horizonte artificial da mídia da Globo. É isso. E, na verdade, só há coisas fantásticas no Fantástico. A vida não é um show e na segunda-feira tudo volta a ser cinzento.
Emanoel Barreto

sábado, 5 de janeiro de 2008

A vida remasterizada

Caros Amigos,
E cá estamos nós: em 2008. Hoje é o quinto dia do ano e o que temos nós? Literalmente um ano igual ao outro, igual aos 2007 que o antecederam: haverá mortes, tragédias, desastres, corruptos continuarão livres, pessoas bem intencionadas ficarão perplexas com a hediondez universal tornada hábito, norma, padrão exigível para quem queira chegar a algum lugar. É triste.

É a vida remasterizada, re-vista sem repetir-se na unicidade dos fatos, mas revendo-se em essência. Afinal, cada tragédia será única no mundo, bem como os desastres e os atos de libidinagem financeira dos corruptos. Vem aí o Carnaval, onde todos devem despejar sua carga de pecados, delícias e desejos. Esgotada esta, virá a Semana Santa, aplacando consciências e culpas.

Depois, segue a vida. Com seus mistérios e perigos, grandezas e descortínios da paisagem imensa da beleza, que de qualquer maneira existe, seguirá ela rumo ao amanhã. Vamos junto.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

A volta de Uri Geller

Caros Amigos,
As coisas de jornal informam que Uri Geller, aquele que nos anos 1970 surgiu no mundo da notícia como um fenômeno, um homem capaz de dobrar colheres de metal e consertar relógios com o poder da mente, ataca outras vez: agora, anuncia que procura um sucessor, mas que, mesmo assim, não pretende se aposentar. Há uma certa incoerência nisso, mas, tudo bem. Como ele gosta de ser o espetáculo é até compreensível, percebe?

Pois bem: apostando no sucesso dos reality shows, promoverá um concurso numa TV alemã, para encontrar pessoas que tenham "talentos incríveis". Dessas, uma será seu "sucessor". A produção será levada a outros países, até o apogeu: em mais alguns anos, ele fará a escolha final, com um reality show em Las Vegas. Melhor lugar, claro, não existe para tal façanha...

Na sociedade do espetáculo, o israelense pretende tirar o maior proveito. Num mundo onde a fascinação vale mais que a realidade, quando a simulação e a dissimulação imperam sobre mentes que estão adestradas como aquele cãozinho de Pavlov, as proezas de Geller chegam bem a calhar.

Povos inteiros passam fome, nações se curvam ao peso da pobreza e da miséria; na intimidade de casas, no oculto das palafitas, no esconderijo amargo de corações aterrorizados, a condição humana grita seu uivo mais doloroso. Enquanto isso, tipos como Geller se aproveitam da situação planetária de pão e circo para encher os olhos das pessoas de fatos incríveis ou situações no mínimo ridículas, como o BBB, que pautam a agenda do público e se inserem no cotidiano - como se o mexerico fosse algo de importante, como se a decência seja algo deplorável.

Não tenho dúvida de que o sucesso será estrondoso e até suspeito que o programa venha a ter sua versão brasileira. Enquanto isso, oremos.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Ferro, sangue, fogo

Caros Amigos,
A violência volta a mostrar sua face mais indignamente brutal no Quênia.
A eleição presidencial, como espoleta do ódio, permitiu a explosão de ódios tribais, distribuindo com espantosa eficácia, dor, medo e sofrimento. É lamentável como, na África, populações inteiras são submetidas a sistemas sociais onde imperam situações históricas que privilegiam minorias e repartem, sobejamente a fome, a exclusão, a angústia.

E tais situações devem ser debitadas aos países ocidentais que, especialmente a partir do século 19, intervieram de forma espoliadora e desumana sobre povos e culturas consideradas por tais países como bárbaras e inferiores. A simetria material e econômica entre povos tão diversos, assegurou ao Ocidente uma cruel e longa hegemonia sobre os povos africanos dominados e colonizados.

O resultado é o que vemos agora: povos, cuja identidade foi violada, herdaram, após a saída dos colonizadores o que deles havia de pior, somando-se a isso as desavenças internas. O Quênia, em seu momento atual, é apenas mais uma demonstração de como a África precisa encontrar-se em seu destino. A brutalidade que jornais e TVs de todo o mundo exibem é reflexo tristemente claro do quanto homens, mulheres e crianças, naquele continente, sofrem com o peso esmagador do abandono, da corrupção, da insensibilidade.
Emanoel Barreto