"Não é justo alguém ter o direito de ter uma empresa de aviação e outro não ter o direito de comer um pão." /////// JAMAIS IDE A UM LUGAR GRANDE DEMAIS. A UM LUGAR AONDE NÃO TENHAIS CORAGEM DA IMENSIDÃO - EMANOEL BARRETO - NATAL/RN
sexta-feira, 13 de abril de 2007
O monstro atacou. Logo virou manchete
Entendo que o jornalismo, por dever de ofício, não pode negar-se a mostrar o pavor e o triste, mas não deve fazer deles seu material básico para a notícia. Mas é assim que ocorre: estranhamente, as pessoas são levadas a escolher a brutalidade para se entreter, o estarrecimento como atrativo do olhar social. Um jornal com primeira página somente de boas notícias fatalmente seria levado à falência. Faltaria o componente essencial que o jornalismo estabeleceu historicamente: a tensão.
E não estou falando dos jornais sensacionalistas. Falo da imprensa séria. É que há, entre jornal e leitor, um acerto prévio de que, diariamente, em suas páginas serão encontradas notícias de alguma forma inusitadas. É importante falar da violência para denunciá-la, do crime para acusá-lo, do terror para repudiá-lo. Mas jamais banalizar a dor como mercadoria, manchete vendável ao prazer monstruoso da curiosidade mórbida.
Falo isso em função de fotos que vi na Folha Online e na TV, mostrando um crocodilo que havia arrancado o braço de um funcionário de zoológico em Taiwan. Fotos e vídeo mostram claramente o braco preso às mandíbulas do animal, como naqueles filmes de sangue e suspense, massacres e lacerações.
São imagens chocantes. O material poderia muito bem ter sido editado, de maneira a veicular a informação, sem detalhar a brutalidade. Mas aí prevelaceu a lógica de crueldade, não se levando em conta o olhar de perplexidade e o gesto de repúdio, o susto e o grito de se ver, no jornalismo, tanto horror perante os céus.
quinta-feira, 12 de abril de 2007
Crônicas para Natal: Os barcos do Potengi
rota, desafio e prazer
aos barcos e homens que o vivem.
O rio Potengi, estuário de águas mansas
enroscado na Ribeira,
tem em seus barcos habitantes calmos,
seres vivos de madeira.
Construídos com dedicação e detalhes,
são obras primas da simplicidade.
Sem imponência ou grandiosidade programadas,
eles são como o povo:
enfrentam a travessia sem medo de que,
em meio às águas, surja, de repente, grave pesadelo.
Barcos, do Potengi,
amigos singelos
da gente navegante.
quarta-feira, 11 de abril de 2007
O legado de Ícaro
terça-feira, 10 de abril de 2007
O Brasil está dando certo...
Na verdade, deveria ter dito: "O Brasil está dando um certo..."
Explicando: o Brasil está dando um certo desprezo à vida das pessoas, quando permite que os bandidos ajam com tanta liberdade no Rio;
O Brasil está tendo um certo descaso com a educação, quando deixa que as escolas públicas caiam no descrédito e no abandono;
o Brasil está dando um certo abandono aos passageiros de avião, quando deixa que os descontroladores de vôo fiquem planando e as pessoas sofrendo nos aeroportos.
O Brasil está dando um certo apoio ao sofrimento das pessoas nas filas do SUS, quando faltam médicos nos postos de saúde e os medicamentos escasseiam;
o Brasil está dando um certo incentivo a políticos aproveitadores, quando demora tanto a fazer a reforma política;
o Brasil está tendo um certo desapreço com a Amazônia, quando permite a continuação das queimadas e o avanço das fazendas, detruindo a floresta;
o Brasil está tendo um certo desrespeito aos direitos humanos, quando permite que ainda haja trabalho escravo em fazendas.
O Brasil está dando um certo valor à fome do povo, à fome do povo por gols, por jogos panamericanos na TV, pelo brado de Galvão Bueno, heróico e retumbante, anunciando alguma vitória da Seleção... Espera, certamente, que um dia, num passe de mágica, esteja todo o povo satisfeito e as pessoas vivendo felizes para sempre.
domingo, 8 de abril de 2007
O salário da brutalidade
Uma das mais terríveis conseqüências será a savanização da amazônia, com a floresta tropical úmida transformada em um largo espaço de vegetação pobre e rasteira. As mudanças climáticas serão devastadoras, pois a floresta funcionada como elemento de equilíbrio climático da Terra.
A cultura ocidantal, em função dos rumos históricos que tomou, colocado o certo conceito de progresso como elemento a ser permanentemente observado, não importanto os custos sociais e ambientais rsultantes, dá bem uma idéia de que tipo de mentalidade presidiu e preside as intenções supostamente desenvolvimentistas da elite sócio-econômica mundial.
Os desníveis sócio-econômicos, por sua vez, permitiram a premitem a formação de multidões de pobres e miseráveis que, em função de suas condições de existência e ignorância, tambêm vêm no meio ambiente apenas uma fonte predatória de retirada da sobrevivência e depósito de lixo.
Assim, lixo e luxo, cobiça e miséria, trabalham numa espécie de parceria do absurdo para a destruição ambiental, das espécies animais e vegetais e do próprio homem. O perigo ronda a nossa existência, cavamos nosso próprio abismo e agora ele diz que está pronto e vai, sim, cobrar o preço de sua existência. O salário da nossa brutalidade será, não tenha dúvida, a nossa morte.
quinta-feira, 5 de abril de 2007
Dança do ventre
e habitou entre nós.
Movimentos fortes,
femininos gestos,
curvas siamesas
que enviesam sonhos.
E dos véus e mãos que se encaminham
surge a mulher,
feita toda de lentos caminhos,
passos vagarosos,
tendas e mistérios.
Lendas que se achegam,
gestos faiscantes,
brisas do deserto,
curvas lampejantes.
A dança do ventre é vida
que se espalha e fica contida, toda,
no instante mesmo
desse desmaio programado e calmo.
quarta-feira, 4 de abril de 2007
O martírio de um homem digno
O assunto está quase saindo da agenda, mas vale a pena comentar: restou sobejamente esclarecido que ele estava sob efeito de poderosas medicações, que resultaram em transtornos emocionais e comportamentais, cujas conseqüências sociais foram o furto de algumas gratavas de griffe e enorme repercussão no jornalismo.
A grande falha da imprensa, que cobriu o fato como episódio, foi exatamente não fazer referência ao Henry Sobel que sempre se postou a favor de causas humanitárias e enfrentou a ditadura - foi ele quem participou de uma cerimônia ecumênica em São Paulo, quando do sepultamento do jornalista Wladimir Herzog, apresentado pelos seus algozes como suicida. Se o fosse, teria sido sepultado em área apropriada a tanto, já que Wladimir era judeu e os judeus repudiam os suicidas. Sobel o sepultou com todas as honras. Estava aí a sua resposta silenciosa e firme à ditadura. O sistema começou a balançar a partir desse fato.
Ao falar sobre o incidente nos Estados Unidos, disse, em declarações à imprensa, ser impossível "explicar o inexplicável" e que o "Henry Sobel que se estava vendo ali, nao era o "Henry Sobel que todos já conheciam" - referindo-se a seus dramas atuais.
O jornalismo não tem o direito de atormentar um homem de bem quando este passa por uma queda, mas tem a obrigação de exaltar seus passos e feitos, que em muito superam essa queda. Henry Sobel é um exemplo a ser seguido: honrado, digno e justo.
terça-feira, 3 de abril de 2007
Os controladores que descontrolam a vida do País
De fundo, é justa a reivindicação salarial dos sargentos amotinados, mas foi perversa a forma como se procedeu para assegurar ganhos salariais e de mudança de estatudo, com a desmilitarização do setor.
O mesmo se diz da polícia federal, que já acena com um movimento de greve. Também não são raras as mobilizações das polícias militares e civis dos estados, em busca de melhores salários.
O Estado brasileiro, por sua parte, também tem culpa. É do Estado, aqui entendido em sentido amplo, a responsabilidade pela remuneração desses servidores. Permitir a defasagem salarial é efetivamente inaceitável, pois a atividade é estressante. A manutenção desse estado de coisas permite a formação desse tipo de massa crítica, que desencaminha tais setores de seus perfis originais, fazendo-os buscar assemelhar-se a entidades sindicais civis cujos serviços, paralisados, não trazem conseqüências tão drásticas.
Será preciso haver sensibilidade para com as reivindicações, mas sem permitir a quebra da disciplina e o caos instalado. Acima de tudo, é preciso prever que, com a desmilitarização, os controladores estarão fora ao alcance do código penal militar e assim poderão manter todo o País refém de seus objetivos pecuniários, sempre que o desejarem.
Deve-se resolver o assunto de uma vez por todas. Atender às reivindicações, dentro do bom senso e das possibilidades do erário, mas deixar legislativamente claro que é inadmissível que uma minoria explore taticamente a sociedade em geral, a fim de atingir seus objetivos.
segunda-feira, 2 de abril de 2007
A necessidade da fama
Trata-se, de fundo, de uma questão existencial. Alguém que viu seu tempo passar, viveu inegavelmente momentos de grandiosidade, foi arrogante e vaidoso e de repente compreende que a vida é passageira, rápida e ilusória em seus instantes de aplausos.
A necessidade de ter a fama preservada com um marco, o desejo de, de alguma forma, igualar-se Pelé, mesmo que seja só por espelhamento, movem o jogador que mendiga glória tão mesquinha: a de enganar-se com um suposto milésimo gol, como quando festejava as grandes vitórias em tardes de domingo, Maracanã lotado. Que saudade.
É a pobreza humana, que se manifesta na busca de construir uma estátua que se desmanchará quando o jornal for atirado de lado e a manchete for parar no lixo.
domingo, 1 de abril de 2007
Literalmente, um morto-vivo
SAIU NO NEW YORK TIMES
Gerentes de uma editora americana estão tentando descobrir por que ninguém notou que um dos seus empregados estava morto, sentado à sua mesa havia cindo dias, até que alguém perguntou se ele estava bem.George Turklebaum, 51, que trabalhava como revisor em uma firma de Nova York há 30 anos, sofreu um ataque cardíaco no andar onde trabalhava (andar aberto, sem divisórias) com outros 23 funcionários.
Ele morreu na segunda-feira, mas ninguém notou até o sábado seguinte pela manhã, quando um funcionário da limpeza o questionou por que ainda estava trabalhando no final de semana.Seu chefe, Elliot Wachiaski, disse: "O George era sempre o primeiro a chegar todo dia e o último a sair no final do expediente.Ele estava sempre envolvido no seu trabalho e o fazia sozinho."
Ironicamente, George estava revisando um livro médico quando morreu.Sugestão: de vez em quando, balance a cabeça para os seus colegas de trabalho terem certeza de que você está vivo. E...moral da história : "Não trabalhe demais. Ninguém nota mesmo... Só quando você atrapalha a faxina... "
sábado, 31 de março de 2007
A castidade com que abria as coxas
A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estreita, como se alargava.
Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres
em mim ressuscitados.
Era Adão,primeiro gesto nu
ante a primeira negritude de corpo feminino.
Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.
terça-feira, 27 de março de 2007
De como o pobre leva uma vida de segunda mão e o ricaço sorri e festeja sua doce vida
Era a chamada República de Ribeirão Preto, pois seus integrantes eram todos daquela cidade e na mansão se encontravam para festas e negócios escusos, dizia a imprensa há um ano, louvando-se nas denúncias de Francenildo, caseiro do delicioso antro e testemunha privilegiada do que ali se passava.
Resultado da ação de Francenildo: está desmpregado,vive de pequenos serviços e foi abandonado pela mulher que levou consigo o filho do casal, temento represálias. Palloci está deputado federal, tem livro publicado e vive muito bem. O processo contra ele dormita em alguma gaveta do Supremo Tribunal Federal, esperando parecer do Ministério Público. Quando, ninguém sabe.
Essas informações estão nos jornais e já podem ser incorporadas ao repertório de desgraças que compõem o cotidiano anônimo, a vida barata, angustiantezinha, péssima, a existência de segunda mão de milhões de brasileiros.
O honesto pagando o preço de ter integridade; o ricaço desfrutando do convescote do Poder, comendo as tâmaras da doce vida. O honrado atirado à margem, à sarjeta da vida; o mastim das benesses pronto para mostrar os dentes, protegido por um mandato federal. Oremos.
sexta-feira, 23 de março de 2007
Mais dinheiro para os políticos
Esperemos que sim e que ele consiga fazer algo para que os políticos, seus colegas, não prossigam funcionando como saqueadores do dinheiro do povo brasileiro.
Caso venha a ser aprovado em plenário, o reajuste será uma espécie de esbórnia, uma festa em que predominam o hedonismo e o desregramento. Mais que isso, será um acinte, uma ofensa, uma forma de criminalidade política com requintes de perversidade, ante quem ganha salário mínimo, sofre nas filas do SUS e sabe que o dia seguinte será igual, em sofrimento e dor.
Vamos ver como as coisas andam. Vade retro.
quinta-feira, 22 de março de 2007
Se deixarmos a água morrer
vamos fazer uma reflexão:
se deixarmos que a água acabe,
se permitirmos que os rios sequem,
as nascentes morram,
as fontes desapareçam,
Se deixarmos água escorrer
no esgoto,
se perder nas sarjetas,
transformar-se em limo,
Somente teremos, se tivermos,
lágrimas para irrigar sofrimentos,
sofrimentos que nós mesmos buscamos.
quarta-feira, 21 de março de 2007
Campanha política no You Tube: a nova arma da política
Enquanto isso, todos os recursos comunicacionais são mobilizados, para popularizar nomes e, paralelamente, desgastar adversários. É o caso da senadora Hilary Clinton, mulher do ex-presidente Bill Clinton, apresentada em um filmete no You Tube como se fora a figura do Grande Irmão, o Big Brother do livro "1984", de George Orwell, obra levada às telas do cinema pelo diretor Ridley Scott.
No You Tube, uma imagem da senadora é atacada por uma manifestante que, de martelo na mão, investe contra a tela onde seu retrato está pintado. Mas o adversário da Hilary, o candidato democrata Barack Obama, também já foi alvo desse tipo de recurso de mídia, com o objetivo de desgastá-lo.
Como a internet ainda é um território ainda não totalmente disciplinado legalmente, é bem provável que na próxima campanha para prefeito, no Brasil, venha a ser utilizado largamente e com grande repercussão. Ainda é uma mídia altrnativa, eleitoralmente, mas com largas possibilidades de obtenção de êxito.
Filmes no You Tube, orkuts e blogs poderão e serão usados para enaltecer e principalmente desgastar candidaturas. A Justiça Eleitoral não terá como controlar esse país virtual, essa terra enigmática e imponderável, libertária e anarquista que é a internet.
Basta postar alguma mensagem contra alguém, fazer repercussão nas mídias impressa e televisiva e a audiência na net estará garantida. Sem controle de horário e de conteúdo. Vamos aguardar.
terça-feira, 20 de março de 2007
Vamos salvar os animais e o bicho-homem
De acordo com reportagem divulgada nesta terça-feira pelo jornal alemão Bild, Knut é visitado por centenas de pessoas todos os dias, come frango desfiado com purê e dorme com um urso de pelúcia - segundo os funcionários do zoológico, ele costuma pegar no sono ouvindo canções de Elvis Presley.
segunda-feira, 19 de março de 2007
Second Life: a vida falsificada na internet
Chama-se Second Life e, na verdade, como mentira, servirá para compensar o vazio de uma sociedade globalizada, onde se busca a aparência em vez da essência.
Com o Second Life pode-se viver dentro do computador. Seu ícone se relacionando com outros e permitindo a experienciação de um mundo paralelo. A fuga da realidade deverá encantar a muitos.
Pessoas poderão abandonar a monotonia de suas vidas no cotidiano e viver relacionamentos falsificados, imergindo num mundo virtual.
A experiência é nova, ainda não há indicativos de que terá adesão em massa: mas é uma promessa escapista da opressão do dia-a-dia. E certamente não faltará quem deseje colocar a máscara da internet e viver momentos de satisfação.
domingo, 18 de março de 2007
Vidas que se apagam
Sofria especialmente por uma delas, a que fora sua grande paixão juvenil, sucumbir acossada pelo tempo, esgarçando a beleza antiga em rugas, desmanchando-se aos poucos em morte lenta, dissolvendo a vida pingo a pingo.
Não li o texto do velho cronista, homem que viveu nos tempos de Bilac, das valsinhas, sonetos fechados com chave-de-ouro, serenatas e suspiros de meiga ansiedade: romance. Li o texto que falava sobre o texto.
Não lamento as mulheres que envelhecem, a beleza que murcha, se encolhe e cai. Não lamento os homens que se encurvam, ficam tristes e perdidos em seus desertos vazios, ocultos em cada um.
Homens e mulheres são e estão presos à condição humana; presos à vida como a ávore presa ao chão. Mas, se presa ao chão a árvore ganha vida, o homem, preso à vida, caminha depressa para o seu fim.
As árvores de Natal
Natal está perdendo suas árvores devido à estupidez dos seus administradores. Cerca de 100 árvores foram cortadas em cem dias, em apenas duas avenidas. Ante a necessidade de preservar o meio ambiente, recorremos à sensibilidade do poeta paraibano Augusto dos Anjos, em soneto que é um verdadeiro manifesto, após o que não deveríamos precisar dizer mais nada.
A árvore da serra
As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!
— Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pos almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma! ...
— Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa:
«Não mate a árvore, pai, para que eu viva!»
E quando a árvore, olhando a pátria serra,
Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!
sexta-feira, 16 de março de 2007
Parece até Matrix. Será?
Na Inglaterra, a Rainha chegou, há poucos dias, a receber a ganhadora do BB de lá. Era uma jovem indiana, que fora vítima de racismo por parte dos demais participantes. Veja-se a que ponto chegou a força da TV: uma cabeça coroada recebendo uma celebridade de ocasião.
Esse programa é uma iniciativa perversa. Em sua total ênfase à banalidade, em sua busca de colocar em pauta trivialidades e frivolidades, além da monumental ignorância e incultura de seus participantes, o programa reafirma um dos mais lamentáveis traços do estágio social que estamos vivendo: a discussão da tolice.
A Folha anuncia também que um argentino será introduzido na casa e que um brasileiro será levado ao BB da Argentina. Trata-se de uma ação de marketing, que atiçará, ainda mais, olhares e ouvidos ao que se passa ali.
A realidade está sendo tão falsificada, que às vezes dá até para pensar que já estamos vivendo no mundo de Matrix. Será?
quinta-feira, 15 de março de 2007
Um poema
Feitos
Que vim fazer nessa terra?
Contemplar, certamente,
Essas flores vermelhas
De contornos amarelos;
A árvore sertaneja, toda verde,
Balançando ao vento forte;
Aquelas nuvens brancas
Que fazem belo fundo para o edifício;
Os senhores dos ventos
Que emitem este som para o âmago.
Mais que isso, conseqüente,
Vim sofrer aquelas dores de amor,
Sentir a dificuldade do pão de cada dia,
Olhar as noites frias nas sarjetas,
Buscar felicidade em cada canto.
Além disso, certamente,
Vim conhecer as injustiças sociais,
Lutar clamando por melhores dias,
Abrir caminhos para fantasias,
Amar o mundo e buscar a paz.
quarta-feira, 14 de março de 2007
TV estatal: para que gastar dinheiro com isso?
Além de ser um sistema de comunicação preso a um projeto político, e portanto correia de transmissão do ideário do governo e do governante, representará um grave dispêndio de recursos, que melhor seriam aplicados junto às TVs públicas, para que cumpram melhor e com mais qualidade as suas funções de divulgação cultural e jornalística.
Do modo como a proposta está apresentada, sem sequer passar pelo senado e pela câmara dos deputados, representa apenas a criação de um sistema de comunicação de massa monolítico e de mão única, passando, permanentemente, mensagens favoráveis ao governo, num trabalho de agendamento estatal da opinião pública.
É algo atrasado e manipulador. Lembra a determinação getulista que criou a Voz do Brasil, que até hoje agrilhoa todas as rádios brasileiras, obrigadas a retransmitir um programa acrítico e superficial e que, a rigor, não informa nada. Limita-se a relatar atos da burocracia dos três Poderes, num desfile oficialalesco.
terça-feira, 13 de março de 2007
Encruzilhada*
a boca aberta, o brado.
Não adianta o brado,
a decisão, o gesto.
Não adianta o gesto,
o caminhar, coragem.
Não adianta a coragem,
a decisão, o passo.
Não adianta o passo,
o olhar longe, a força.
Não adianta a força,
a mão sutil, poesia.
Não se adiante.
Não adianta.
*A tristeza habita todas as manchete. E as mãos tristonhas dos pobres do mundo dizem que, lamentavelmente, não adianta.
segunda-feira, 12 de março de 2007
BBB: a humilhação como atração principal
Faustão, além do linguajar rasteiro, cheio de artimanhas verbais, está pronto para humilhar, a qualquer instante, quem lhe caia às maõs, para alguma "entrevista" - às vezes algum coitado, sem fama ou dinheiro, é chamdao ao palco para falar sobre alguma tolice.
O apresentador prima por salientar aspectos da vida em que alguém sempre sai perdendo, punido por uma exposição de mídia que atrai olhares e juízos de valor a respeito da vítima. Alguém termina sempre como culpado por ter sido submetido a algum vexame. E o público uiva, aplaudindo o infortúnio purgando, cada indivíduo, previamente, o medo de um dia ali estar, exposto e midiaticamente espancado.
O exemplo mais claro são as Cassetadas, em que pessoas são mostradas em situações ridículas, grvadas em vídeos caseiros. Faustão está fazendo a louvação de um relacionamento cotidiano baseado no deboche e na falta de respeito. Banaliza a dor e o sofrimento de quem é ofendido.
No que refere ao Big Brother, há o elogio à falta de escrúpulos, a reverência à desonestidade, a absolvição de qualquer culpa moral, tudo sob o pálio de que ali há uma "competição".
Competição que se apresenta às claras como um jogo sujo, um processo de ocultção dos verdadeiros interesses da Globo: lucrar a qualquer preço, retirar dinheiro de tolos que fazem ligações de celulares e aumentam em mais alguns milhões a fortuna do grupo Marinho.
E como as pessoas participam... Dão "opiniões", manifestam-se "indignação", "criticam", "falam" sobre as "qualidades" de indivíduos que participam de uma espécie de turnê da estupidez mas que, apesar disso, são capazes de mobilizar uma ponderável parcela da nação.
No fundo, de alguma maneira, todos sabem que estão vendo e sendo chamados a participar de uma grotesqueria, sabem que estão imersos numa encenação à qual todos se curvam de bom grado. As pessoas flutuam entre a realidade e a encenação dessa tragédia programada: o BBB levará alguém ao pódio da vitória do um milhão mas, antes, vai triturar os demais participantes.
O BBB é uma manifestação de que tipo de sociedade está sendo construída. Pessoas são humilhadas, levadas a fazer publicamente atos em que suas condições físicas e emocionais são levadas ao limite. Sua intimidade, também. Gente é açulada a agir de maneira sórdida e truculenta. O público é chamado a presenciar com prazer atos de degradação.
É o espetáculo da violência estetizada. A brutalidade, literalmente, como padrão global de qualidade.
domingo, 11 de março de 2007
Crônicas para Natal
As pequenas e audazes
caravelas do Potengi
repousam calmas
em seu silêncio de água.
São animais de madeira,
dóceis e treinados.
Mas quando estão nevegando,
mastigando instantes,
percorrendo momentos,
esfregam-se no corpo líquido
da água-mulher
e são desbravadores de prazer.
O Centro Náutico Potengi,
onde a força do braço
é motor de popa,
é a pátria das águas,
desses barcos
e de seus marinheiros.
E são todos corsários
da vida forte, amigos do sol
e do suave ondular
das águas que abraçam as
ágeis embarcações.
sexta-feira, 9 de março de 2007
O Senhor da Guerra chegou: a polícia manda o povo calar
Trata-se de uma foto-editorial clássica: perfeita sob todos os enquadramentos, sólida enquanto captura de um momento intenso, pujante pela forma como demonstra a brutalidade como o homem é dominado, pungente como depoimento daquele momento de vida de um brasileiro.
O mais lamentável é que relata como brasileiros são colocados nas ruas para oprimir outros brasileiros, que vêm a público dizer que não concordam com a vinda, ao País,de um homem que representa a nação mais autoritária e arrogante do mundo.
Um homem que, utilizando-se da política do big stick, invade com suas tropas outros países sob a alegativa de defensor das liberdades e da democracia. Bush vem ao Brasil unicamente para defender os interesses do sistema de dominação que representa e integra.
A foto foi publicada também na grande imprensa americana. Tecnicamente perfeita, humanamente tocante, é em si um lamento e uma advertência trágica: o turismo do Senhor da Guerra é garantido por forças policiais; o gemido de um povo, sua dor, seu protesto, é calado ao pisar das botas e golpes de cassetete.
quinta-feira, 8 de março de 2007
O Dia da Minha Mulher
e belo o nome de
todos os nossos sentimentos.
E guarda, frente ao mundo,
um silêncio que é só seu;
um silêncio tão forte e tão denso,
que é idioma que somente
eu e ela o podemos falar.
Viramos, eu e ela, par
que se transformou em um;
dois que se fizeram únicos;
Somos um gesto e estamos
longe, no grande silêncio de nós dois.
terça-feira, 6 de março de 2007
Bush vem aí
Em suma, vem pressionar o presidente Lula para que facilite a presença de investidores americanos no País e, mais que isso, deixar claro que os Estados Unidos têm interesse no etanol aqui produzido,mas que não haverá qualquer redução no que diz respeito às sobretaxas que incidem, lá, sobre esse produto.
Vem, claro, reafirmar uma política de dominação, mediante um discurso aparentemente amigável.
Para os Estados Unidos, o Brasil só é parceiro quando lhes interessa; mas parceiro de segunda linha, parceiro prestador de serviços.
Caso o Governo brasileiro não adote uma retórica mais firme, de agora por diante, quando o gigante do Norte apresenta fraqueza com relação ao etanol, continuaremos como periferia submissa, nessa e nas demais questões econômicas.
segunda-feira, 5 de março de 2007
Crônicas para Natal
Casa senhorial,
grande edifício de beleza.
Arquitetura elegante,
linhas discretas,
imponente simplicidade,
o Solar Bela Vista
é um sonho
bordado pela
engenharia clássica.
Suas escadarias
são atalhos para
se chegar a um tempo
onde as construções
eram obras de arte
e os arquitetos
esculpiam casas como quem faz
um anel de diamante.
Solar Bela vista,
salões amplos,
onde a arte
descobriu aconchego,
seus grandes portais
sustentam cortinas invisíveis.
Nobre casa,
nobre morada
da beleza,
nobre construção
feita de grandeza.
domingo, 4 de março de 2007
A velhas notícias de todos os dias, num mundo cinza e muito frio
maneira, estamos vivendo uma
nova idade do gelo.
É o gelo cinzento e esfumaçado das
ruas, das casas, dos abrigos
dos desabrigados, das balas e de um
pesado medo.
A idade do gelo que vivemos é a da frieza
dos homens, quando um grito da publicidade
fala mais alto que o abraço, o gesto, o olhar.
A idade do gelo que vivemos é a do dinheiro,
que espalha lucros e fome; trabalho e exploração;
vantagens e perdas; espoliadores e espoliados.
Há uma estranha névoa cinza no mundo
E todos os jornais já nascem velhos,
de tanto que publicam a renovação diária da infâmia.
sexta-feira, 2 de março de 2007
Violência na TV: está na novela, mas tem fundo de verdade
O diferencial está em uma palavra: violência. E seus termos agregados - banditismo, desumanidade, criminalidade. As telenovelas puxaram para sua ordem de organização do cotidiano, para a sua agenda de mídia, a violência como elemento essencial.
De alguma forma, esse tipo de produção terminou por adicionar ao seu repertório a violência em suas mais amplas manifestações. É claro que a agenda midiática, tomando-se como base o jornalismo de TV, serviu de inspiração às telenovelas, uma vez que a ênfase jornalística sobre a violência, que tem crescido muito no Brasil, somente tende a repercutir tal noticiário.
As telenovelas, desta forma, passaram, sem que fosse intenção de seus diretores, a reproduzir a realidade das ruas. Terminaram funcionando como elementos de reprodução do cotidiano.
E podem, caso haja determinação nesse sentido, passar a funcionar como elemento crítico dessa mesma realidade. Basta dar um toque mais aprofundado e psicológico aos personagens, que a telenovela acrescentará ao seu perfil mais essa característica, além das já conhecidas abordagens, melosas e choramingas.
É claro que as TVs não farão isso de graça. Será preciso patrocinar essa nova formatação, para que, pagando-se, a novela televisiva venha a despertar alguma forma de abordagem crítica do clima de violência atualmente experienciado pelo País.
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007
Jornalismo e Direitos Fundamentais
Jornalismo e Direitos Fundamentais
Alguns biógrafos de Joseph Goebbels, quando tratam de sua vida amorosa,
relacionam seu namoro com Anka Stalhern como sendo o indutor de seu romance
Michael (publicado em 1929). É possível que a paixão de Michael por Hertha,
figuras centrais do enredo da obra, retrate a vida do Goebbels e Anka, entre
1918 e 1922. Anka reaparece na vida de Goebbels quando ele, já ministro,
conseguiu-lhe um trabalho na redação do Die Dame.
Fatos como esse foram comuns na história oculta da imprensa brasileira desde os seus primórdios. Desocupados e desempregadas, sem a menor aptidão pela
profissão, se tornaram jornalistas pelo simples fato de serem amigos (ou algo
mais) de alguém que detinha algum poder político ou econômico que pudesse
interferir na saúde financeira da empresa de comunicação.
Jornalismo no Brasil, até 1969, era sinônimo de subemprego para muitos
“profissionais”. Era regra, por exemplo, uma emissora de rádio contratar
funcionários públicos como “setoristas” para cobrir os seus próprios
departamentos. Juntando os baixos salários pagos pela repartição e pela empresa radiofônica, o jornalista do setor tinha um valor agregado aos seus vencimentos representado pelo “agrado” dado por aqueles que o procuravam para resolver alguma situação irregular junto ao órgão público. Multas de trânsito,
regularização de loteamentos, re-ligação de água, asfaltamento de ruas e até
nome de vias públicas faziam parte do conjunto de problemas que esses
“profissionais de imprensa” conseguiam resolver.
Essa promíscua convivência entre o poder, o jornalismo e a conduta aética do
comunicador foi drasticamente reduzida com a regulamentação profissional. Ainda que a legislação tenha sido excessivamente pormenorizada na descrição de funções e especialidades, não se pode negar que ela veio como uma solução para amainar os efeitos do mau jornalismo. Contudo, como toda aplicação de leis no Brasil, foram produzidas emendas para acomodar alguns casos, não raro inspiradas em interesses particulares.
Com a abertura democrática, as reformas feitas na legislação foram insuficientes
para impedir que algumas categorias, em defesa das liberdades de informação e
opinião, se insurgissem contra o que foi taxado de entulho autoritário. E a
história começou a ser reescrita. Os defensores da abertura do mercado
profissional baniram alguns motivos que foram propulsores da regulamentação.
Deixaram de citar, por exemplo, que muitos jornalistas foram cassados e
perseguidos por defenderem as liberdades democráticas e que suas vagas no
mercado foram preenchidas por “profissionais” fiéis ao regime.
Resistência - Na Escola de Comunicações e Artes, um dos berços da
regulamentação, os professores que permaneceram no quadro docente do
Departamento de Jornalismo e Editoração, resistiram durante dois anos aos
ataques da ditadura que pretendia substituir os professores encarcerados e
cassados por “jornalistas” e professores que desfrutavam da confiança dos
representantes da ditadura com assento na Reitoria.
Os argumentos apresentados levam a crer que a legislação sobre a profissão de
jornalista já cumpriu o seu desígnio. Por esse motivo os ataques à sua
existência se intensificaram e o discurso centrado na defesa da liberdade de
informar e opinar avança e encobre as verdadeiras razões que alimentam essa
pressão sobre os destinos do direito fundamental do cidadão de ser informado e
de opinar.
Mesmo com o Decreto-Lei 972-69 em plena vigência, é possível desvendar algumas razões subjacentes à campanha contra a regulamentação profissional. As práticas que esperam a liberalização do mercado profissional, criadas pelas empresas com a anuência de jornalistas, apontam para o descolamento da atividade de sua função social, tornando-a parte de uma mera engrenagem de relações de trabalho assalariado.
Algumas emissoras de rádio, por exemplo, têm boa parte da grade entregue a
articulistas que, em geral, têm os seus comentários veiculados a cada seis
horas de programação. É claro que esse tipo de participação é importante para a
sociedade. Ela necessita da opinião abalizada de suas lideranças. Entretanto, a
grande maioria desses articulistas defende interesses próprios ou de
organizações. Fazem direta ou indiretamente marketing de suas consultorias para agregar valor aos seus contratos.
Os políticos encontram nesse expediente uma forma de estarem presentes junto ao eleitorado visando à manutenção do poder ou alimentando o desejo de tê-lo. Essa demonstração de “responsabilidade social”, não raro, é uma permuta: a emissora recebe algum tipo de aconselhamento do articulista e ele pode vender serviço, produto ou idéia aos ouvintes.
No jornalismo impresso essa prática é menos corrente nos grandes veículos,
entretanto, nos pequenos jornais ela cobre boa parte da área impressa de textos
próprios. A título de cobertura social, literatura e serviço público, os
colaboradores tornam dispensáveis os jornalistas e criam consciente ou
inconscientemente uma rede de dominação de idéias e fatos que sufocam o
noticiário de interesse da comunidade. Esses colaboradores são movidos pelo
egocêntrico desejo de pertencerem ao olimpo local.
Na televisão, a distorção da essência do Jornalismo, talvez seja mais grave do
que nas demais medias. Os apresentadores, travestidos de jornalistas e usando o vocabulário da área, entrevistam e editorializam falas a respeito de fatos. Sem
o menor vínculo com a Ética Jornalística, mas buscando pontos de audiência
necessários à manutenção de seus programas e à negociação de contratos, esses pseudojornalistas fazem do fato um show e do sensacionalismo um padrão.
O modelo de noticiar da Internet, principalmente o que tenta fazer o chamado
jornalismo em tempo real, veio sepultar de vez a natureza jornalística da
notícia. Na luta por alguns segundos a mais de audiência em relação ao
concorrente, as informações são transformadas em fatos jornalísticos e estes em
notícias sem qualquer critério de noticiabilidade. Os redatores na maioria das
vezes desconhecem a que público se dirigem e por isso mesmo são responsáveis
por redes de rumores e boatos que se disseminam pela rede sem a possibilidade
de controle. A essência do Jornalismo, representada pela apuração, inexiste.
No mercado profissional está havendo uma verdadeira subversão. Algumas empresas,para se livrarem dos custos sociais de seus empregados, implementaram a prática de transformar os seus jornalistas em “Pessoas Jurídicas”.
Essas “Pessoas Jurídicas” lançaram-se no mercado do lucro fácil e se transformaram em codificadores autônomos, que vendem a força de trabalho que coordenam (formada por alguns profissionais autônomos e muitos estagiários) pela maior oferta. Não interessa a esses olimpianos a história da empresa, do empregador, os fundamentos ideológicos e os compromissos sociais e políticos (ou a falta deles) que pairam sobre a organização. São “Pessoas Jurídicas” que, como camaleões, assumem os matizes ditados pelo patronato. Perderam de vez o vínculo do jornalismo com a sociedade e, por isso mesmo, desprezam os princípios éticos e os compromissos da profissão com os direitos fundamentais do cidadão.
Bombardeio - Esses motivos são as partes mais visíveis do bombardeio que vem
sendo feito contra a regulamentação da profissão. É importante observar que a
batalha já se dá dentro do próprio território dos jornalistas. Os insurgentes,
munidos de discursos envolventes, conquistam a simpatia daqueles que se
aproveitam da oportunidade para, sorrateiramente, minar o campo inimigo. Não
faltaram “jornalistas” que se aproveitaram do recente vácuo jurídico para obter
o registro profissional. Mais do que nunca é preciso entender que o Jornalismo é uma das formas de defesa dos direitos fundamentais do homem. A sua existência pressupõe a proteção de direitos básicos do indivíduo, principalmente daquele que não têm acesso aos meios. E essa certeza é dada pelo comprometimento do verdadeiro profissional com a ética.
A defesa da primeira geração dos direitos fundamentais - aqueles relacionados à
liberdade - coloca o jornalista na linha de frente pela limitação do poder
público, principalmente porque o seu compromisso maior é com o exercício pleno
da cidadania. A existência de uma classe eticamente organizada e com
compromissos formais com essa bandeira garante que os cidadãos tenham acesso aos meios, independentemente de cor, raça, religião, nível intelectual,
condição educacional, trabalho e classe social.
A igualdade, que constitui a segunda geração dos direitos fundamentais, tem no
jornalista um instrumento importante para que ela se consubstancie. A sua ação,
que por dever de ofício prega a audiência dos vários lados do fato, permite que
os direitos sociais dos cidadãos possam ser protegidos contra a prevalência do
poder econômico, social ou político. A ação jornalística procura dar a todos os
membros da comunidade a possibilidade de acesso à informação e à opinião.
A defesa da terceira geração dos direitos fundamentais também é parte integrante das atividades do jornalista. O preceito fundamental de que “todos são iguais perante a lei”, portanto com direito ao desenvolvimento, à comunicação, ao consumo e a própria individualidade, faz parte da cultura jornalística que,dentro de seus limites de atuação, oferece à sociedade condições para defender-se das organizações que venham colocar em riscos esses direitos.
O discurso de que o fim da regulamentação da profissão de jornalista será a
retomada da liberdade de informação torna-se, pois, uma falácia. A
possibilidade de que todos tenham acesso à comunicação não garante que todos
façam uso dela. Obstáculos de toda ordem podem afastar o cidadão de seu direito de opinar e informar e permitir que aqueles que têm habilidades, competências técnicas e, de certa forma, intimidade com os meios, possam construir aparelhos ideológicos que destruam esses direitos fundamentais que fazem parte da organicidade das funções jornalísticas.
A discussão que se apresenta atualmente para a sociedade, em grau de maior
importância do que a própria regulamentação profissional, é a que refere ao
conceito de Jornalismo face às novas tecnologias e recentes práticas de
comunicação patrocinadas pelos modernos meios.
Construir blog ou site com formato jornalístico não garante que o conteúdo o
seja, assim como nunca foi correto afirmar que é jornalista quem escreve em um
meio com a forma de jornal. A natureza do Jornalismo está consubstanciada na
apuração e na responsabilidade ética. O Jornalista é o valor agregado que dá à
informação o status de notícia por se tratar de um profissional compromissado
com os seus fundamentos.
A regulamentação, com certeza, não garante que o jornalista cumpra as obrigações idealmente inerentes à sua função social. Ela, por si só, não o credencia como defensor dos direitos do cidadão. Mas, a considerar a nossa história recente, é um instrumento que institui valores e comportamentos que resultam em segurança para as instituições que emanam da sociedade democrática.
terça-feira, 27 de fevereiro de 2007
Crônicas para Natal
Passo a passo
o grande edifício aliou-se ao tempo.
Abrigou lembranças
em suas paredes austeras
e passou a fazer
da História
o seu mais precioso tesouro.
Instituto Histórico,
a permanente Casa da Memória.
Aqui estão abrigadas
as recordações de uma Natal antiga,
de um tempo em que sinhás
e sinhazinhas cruzavam,
tímidas, as ruas
pequenas e calmas
da cidade menina.
O Instituto Histórico
encerra em suas paredes
os preciosos papéis
da alquimia das datas.
Ali estão os caminhos
e passagens secretas da História.
O Instituto
é o sótão do tempo,
onde estão guardadas,
e descansam,
todas as lembranças
de uma Natal
antiga do ontem
e menina do amanhã.
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007
Tudo de cabeça-para-baixo
É uma foto-editorial, cifrada, demonstra a quantas anda a administração da cidade em termos de providências para garantir ao cidadão direito a uma moradia condigna e segura e, estendendo-se sua interpretação, o mesmo diga-se quanto ao Brasil.
No Rio, há uns três dias, foi morto com dezenas de tiros o chefe das milícias, as tropas paralelas à polícia que estão dando cabo dos bandidos, mas extorquindo dinheiro das famílias para impedir a volta dos criminosos.
É a demonstração da fragilidade, da inação, da falta de compromisso do Estado brasileiro. É a visão exata e lamentável das entranhas de uma instituição que estabeleceu-se ao longo do tempo a partir da compromissos espúrios, sórdidos interesses de elites aproveitadoras e finalidades escusas: manter a qualquer custo a situação de privilégios, à custa do sacrifício de gerações, ao longo da história.
sábado, 24 de fevereiro de 2007
As crenças que produzimos; nossos deuses em vão
e o dinheiro nos trouxe tanto mal.
Acreditamos no automóvel,
e o automóvel nos
transportou a um mundo poluído.
Acreditamos no direito à
autodefesa e terminamos
matando quem
não nos queria agredir.
Acreditamos no agrotóxico
e terminamos nos
alimentando com veneno.
Acreditamos nos bancos
e pagamos tão alto
para que eles fiquem
com o nosso dinheiro.
Acreditamos na vida
em cidades e terminamos
habitando campos de morte.
Temos esses deuses, e vivemos
tão mal.Temos tantas crenças
e perdemos a fé.
Temos... Temos... Temos...
Não, eu acho que não temos...
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007
Alô? Aqui é da Bandidos S. A.
A modalidade de crime é um demonstrativo do quanto a sociedade brasileira está à mercê dos criminosos, cuja presença e consistência quase corporativa começa a assustar a quantos se ponham a pensar a respeito.
Nossa brutal disparidade de renda, o crescimento da pobreza e da miséria, a falta de perspectivas para milhões de brasileiros, tudo isso, aliado à inépcia das autoridades policiais e à proverbial incapacidade de o Estado brasileiro estabelecer políticas sociais, paralelas às de ação repressiva, dão um indicativo bastante exato do quanto estaremos expostos aos criminosos, em futuro bastante próximo.
É bastante possível que, em muito, muito pouco tempo, os seqüestros telefônicos sejam assim: "Alô? Aqui é da Bandidos S.A. Estamos com seu filho em nosso poder. Compre 15 mil reais de nossas ações, ou então ele vai aparecer
na rua ral, às tantas horas. Morto."
Do outro lado, choro e dor. São as lágrimas dos inocentes.
Da parte do Estado, silêncio. É a frieza dos incompetentes.
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007
Brasil SA. Nesses dias, eles registram essa marca
É assim que nossos produtos vão sendo dominados pelo grande capital internacional.
E como os países de centro estão sempre de olho em nossas riquezas naturais e produtos típicos, completa-se o quadro: nós os imitamos, eles nos tomam; nós perdemos e ainda ficamos agradecidos só porque a moça viu na vitrine algum salamaleque da moda e, imediatamente, comprou. E ficou pensando que é norte-americana.
Nesses dias, eles resitram a marca "Brasil" e, aí, sim, seremos obrigados a pagar royalties para morar nesta pátria e ficaremos impedidos de dizer: "Dos filhos deste solo és mãe gentil/ Pátria amada, Brasil."
terça-feira, 20 de fevereiro de 2007
É carnaval. E daí?
E daí?
Ainda tem pobre morrendo de fome.
É carnaval.
E daí?
Tem político que tem fome de ganância.
É carnaval.
E daí?
A violência rosna na pistola do bandido.
É carnaval.
E daí?
Daqui a pouco será quarta-feira
e o País estará todo coberto de cinzas.
sábado, 17 de fevereiro de 2007
Os bandidos acuados
Suponho que a ação em desenvolvimento, com o apoio da Força Nacional de Segurança, é pontual e tática, devendo portanto evoluir para um tratamento estratégico e intenso, mantendo os criminosos permanentemente sob a mira da polícia.
É claro que a questão do tráfico no País é algo complexo e historicamente enraizado. Não há como negar que a simples ação atualmente em andamento no Rio não vai desarticular esse tipo de atividade, até porque suas ramificações se estendem para muito além dos morros e chega aos gabinetes e ambientes VIP.
A atuação policial deve ser o indicativo de que a sociedade começa a se posicionar, através do seu aparelho de repressão, e a dizer aos criminosos que eles agora terão um limite.
Mesmo assim, pontual e tática, a atitude já representa alguma coisa. Agora, é esperar que a presença da polícia nas ruas e um trabalho competente de inteligência venham a resultar num arrocho tal que os bandidos sejam contidos.
Por outro lado, é preciso promover a denúncia da cultura das drogas, convencer o jovem de que a droga não deve significar um estilo de vida e que, em si, não leva a nada.
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007
Gastando à toa o meu inglês
A cidade vira um democrático estardalhaço de alegrias. Gente que veio da Escandinávia troca o branco da pele pelo queimado do sol nordestino, gente que veio de outros Estados brasileiros adora essa paisagem de paraíso, gente que veio não-sei-de-onde fica alegre, vira jovem, vira menino.
E os daqui, os que de alguma maneira vivem do turismo, aproveitam para trabalhar e ganhar o seu dinheiro. Então, surge um comércio simples, o comércio dos que sobrevivem de vender água de coco, uma dose de caipirinha, casquinho de caranguejo e uma cervejinha gelada.
Esses, sabe-se lá como, aprendem palavras ou expressões básicas em inglês e saem por aí, pelas praias, vendendo. Sorridentes, oferecem: "Beer?"
E os estrangeiros: "Oh, yes".
E os vendedores: "Tá bem, tá aqui a sua beer."
Às vezes, os vendedores confundem as pessoas. Basta que você seja confundido com um nórdico, para ser abordado. E foi isso o que aconteceu, com a minha mulher e com uma conhada, em férias conosco.
Elas estavam nas imediações da Fortaleza dos Reis Magos, monumental construção portuguesa e um dos símbolos da cidade, quando, de repente, um menino disse: "Beer?"
E mais uma vez "Beer?" Elas não comprenderam a abordagem, até perceber que estavam em meio a um grupo de famílias da Escandinávia.
Como eles acenaram que não, que não queriam a cerveja, o menino passou a pedir: "Money, money."
Afinal, elas, em português, disseram que não queriam nada nem tinham trocado. Sabe qual foi a resposta dele?
"Ah, aqui perdi meu tempo. Estou gastando à toa o meu inglês."