terça-feira, 19 de abril de 2011

 ZOORÓSCOPO

Bichano- São geralmente agradáveis, afáveis, movem-se com lentidão e gostam muito de sobra e água fresca. Trata-se de um signo facilmente encontrável  em repartições públicas. No fundo, são boa gente, só não gostam do pesado.

Cascavel - As nascidas em cascavel são o pior tipo de mulher para se casar. Dos homens, diga-se a mesma coisa. Mas, vale um conselho caríssimos cascavelianos: é bom não se meterem com os nascidos em Tijuaçu. Esses são do bem, enfrentam qualquaer cobra, não gostam de brincadeiras e vocês podem se dar mau.

Marimbondo - Aí é preciso ter cuidado. Quem se rege por esse signo não tem qualquer atenção pelos outros, somente pensa em si. Como são geralmente pessoas feias, vingam-se de sua dor ferroando aqueles que, por qualquer equívoco, a eles estão apegados. Todo marimbodiano tem inveja dos que nascem em Abelha. 

Formiga - Nascidos para o trabalho, o formiguiano terá sempre uma condição de vida estável, muito embora dificilmente venha a enriquecer. São valorosos, confiáveis, mas não deve procurar contrair núpcias com quem é de Pavão. Podem acabar no maior buraco. E falidos.

Cavalo - Conhecidos pelo temperamento digamos, forte, para não dizer outra coisa, o cavaliano atrita-se facilmente. Mesmo que o parceiro não o tenha provocado. Cavalo, no entanto, não deve brincar com Hiena. A  mulher em Hiena não leva desaforo para casa e ainda sai rindo depois de armar a confusão.
                    

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces

Monteiro Lobato
Homenagem no Dia Nacional do Livro Infantil
http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://f.i.uol.com.br/folha/ilustrada/images
"Mé dê uma irmolinha pá minha mãe jejuá"


Quando criança, há muit'anos, a Semana Santa tinha algo de especial. Meu olhar de menino via como Meus Pais em sua contrita, simples e magnífica fé se curvavam de forma humilde ao Grandioso, ao Mistério, ao Insondável. A rezação dos fiéis era intensa e havia distribuição de pão aos pobres.

Lembro que ao lado de minhas irmãs santava-me à soleira da porta com um saco de brotes para atender a uma enfieira de pedintes; eram, em sua maioria, crianças como nós que se apresentavam dizendo: "Me dê uma irmolinha pá minha mãe jejuá."  E nós, numa alegria infante, sem perceber que à nossa frente havia todo o drama da fome, atendíamos a cada um com sorriso enorme, como se aquele encontro anual fosse estranha festa. Se havia pobres, devia-se alimentá-los. Radiante e intensa candura do repartir.

 A Semana Santa era um período em que uma espécie de louvor doloroso se espalhava aos quatro cantos. Era como se um uivo humano de culpa se impregnasse nas pessoas. Nas igrejas os santos eram recobertos por sudários roxos. Eu não entendia o porquê daquilo, mas sentia que uma angústia se aninhava naquelas estátuas e que todos deveriam sentir algum medo, um medo básico, obrigatório, e era esse medo básico e incompreensível que eu criança sentia. 

Desde então essa cor, esse roxo sofrido, passou ao meu repretório de temores.  Como o anúncio de que algo grave, temível, uma sentença matizada em tecido, se anunciava a todos, homens ou meninos. Sentença ontem e hoje, só que agora no mundo secular e profano da brutalidade e da espoliação. 

A Semana Santa era penitencial e profunda em sua incompreensibilidade minha. Uma alegria, porém, sempre vinha, quando os padres anunciavam a Ressurreição. Aí, eu sentia um sol dentro de mim, um brilho, uma alegria: tinha passado aquele breve período de clamor e eu tinha a impressão de que Jesus pegava na minha mão. Era isso o que Minha Mãe dizia, com seus grandes olhos verdes. Mesmo assim, eu continuava sem entender porque Ele tinha que morrer todo ano. 

Hoje, a Semana Santa é um evento turístico, um feriadão malandro e cheio de ginga. As pessoas perderam vínculo com as tradições populares que cercavam aqueles dias. E as crianças já não distribuem mais brote à porta de casa. Mas os pobres e famintos continuam buscando pão; só que normalmente lhes é dado circo. 

A Semana Santa virou um grande brinde com vinhos caros e hoje é apenas pacote turístico. Mas o menino que ainda a mim habita me diz que entre o então do clamor rumoroso e ingênuo daquela fé, e o agora dos festivais turísticos, cristalizou-se no coração dos homens a rocha da perda daquela solidariedade tão chã e tão simples, simbolizada na distribuição do pão.

De qualquer forma o Mistério ainda habita a minha alma. Ainda acredito que é preciso ter uma irmola para dar às mães que precisam jejuar.



sábado, 16 de abril de 2011

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A Folha está promovendo um escarcéu em torno de texto que sequer foi publicado, de autoria de FHC. É o que se chama, em jornalês, de "balão de ensaio", uma coisa de jornal que visa "testar" até que ponto alguém pode medir a importância ou impacto de suas palavras ou atitudes midiáticas. O balão de ensaio surge de algo que em si não tem valor algum ou o tem de forma relativa;  visa atender unicamente o interesse de alguém em torno da promoção de seu nome ou instituição a que seja ligado. No caso, o jornal pretende criar e promover um pesudoacontecimento - o "debate" interno do PSDB - a fim de promover esse partido. Leia a matéria.

Oposição discorda de FHC e defende foco no 'povão'

DE SÃO PAULO
Hoje na Folha Líderes da oposição, entre eles Aécio Neves (PSDB-MG), discordaram ontem do teor do artigo em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso propõe que desistam do "povão" para investir na nova classe média, informa reportagem de Catia Seabra, Vera Magalhães e Daniela Lima, publicada na Folha desta quarta-feira (íntegra somente para assinantes do jornal ou do UOL).
Já o ex-governador José Serra fez vários elogios ao texto e disse que este não é o "ponto essencial" do texto. 

Em artigo que será publicado nesta semana e revelado pela Folha, FHC defende uma revisão profunda da estratégia do PSDB e da oposição para voltar ao poder.
O tucano diz que a oposição deveria desistir de conquistar as camadas mais pobres do eleitorado e se conectar com a nova classe média.

Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces

Osni Mubarak
Foto: Amr Nabil
Deu no jornal que o ditador decaído teve um enfarte durante interrogatório. É duro olhar a própria face.

Jornal Nacional - Wellington Menezes - Video -

terça-feira, 12 de abril de 2011

Ladrões agem livremente no setor II do Campus da UFRN e roubam 7 datashows

Recebo da chefia do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes-CCHLA a seguinte mensagem: Verifiquem na página do CCHLA (http://www.cchla.ufrn.br/) os vídeos e imagens da ação de suspeitos relacionada ao furto de sete datashows no Bloco I do Setor II, no sábado, 19 de março de 2011.

Se alguém reconhecer os três suspeitos, por gentileza, informe ao Setor de Segurança da UFRN pelo telefone 08000842050.

A Direção
...........
 
A ocorrência revela, a uma primeira visão, a fragilidade do sistema de vigilância da UFRN. Se não, por que os ladrões agiram com tanta desenvoltura, como mostram o vídeo e as fotos? A implantação de um sistema de câmeras supõe que existam agentes de defesa atentos e aptos a reagir à altura a tais situações. O que se vê é, ao contrário, os presumidos autores do roubo circulando livremente e aparentando despreocupação, à luz do dia.  
 
Pergunta-se: não havia nenhum agente atento às câmeras e assim pronto para reunir pessoal suficiente para enfrentar os criminosos? Por que ninguém viu quando a ação se desenrolava? Por que tamanha falha? E afinal: para que servem mesmo as câmeras? Quais as atitudes tomadas internamente para apurar o fato e descobrir o motivo de tamanha displicência? Como conseguiram entrar e sair sem problema algum? A segurança da UFRN, ao que parece, precisa, no mínimo, de treinamento para executar sua função.

Veja as fotos.
 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Em defesa da greve civil ou o direito de não votar

Estranho país esse nosso, onde somos obrigados a votar como se fosse um direito. Aqui, voto é obrigação. Quer dizer, os políticos não são eleitos, eles se fazem eleger, o que é bem diferente. Somos obrigados a referendar, a cada dois anos, homens e mulheres que comporão a elite mascarada desse baile burlesco. 

Voto deveria ser direito e, sendo direito, caberia a possibilidade de não ser exercido. E esse não-exercer seria uma forma de exercício democrático, um repúdio, um cometimento saudável e urgente. 

Seria o que se chama em Direito um ato comissivo por omissão. No caso, omissão como ausência às urnas mas comparecimento à esfera da sociedade civil indignada com o mar de lama. 

Não prego o absenteísmo ou o indiferentismo; defendo a mobilização cidadã pelo não. Isso serviria de choque cultural às práticas políticas, à impunidade, ao jeitinho, à maracutaia, à perpetuação de candidatos - sempre eleitos ou reeleitos - para continuar com sua sanha de ganância e ganhos sujos.

É preciso ter o direito de não votar. É preciso ter o direito a essa greve civil.

domingo, 10 de abril de 2011

Poemas de Florbela Espanca
 
Fumo

Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas;
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!




O nosso mundo

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?...Que importa o mundo seus orgulhos vãos?...
O mundo, Amor?... As nossas bocas juntas!...




Não ser

Ah! arrancar às carnes laceradas
Seu mísero segredo de consciência!
Ah! poder ser apenas florescência
De astros em puras noites deslumbradas!

Ser nostálgico choupo ao entardecer,
De ramos graves, plácidos, absortos
Na mágica tarefa de viver!
Deu no Estadão:



100 dias de Dilma: a mulher é o estilo

No pós-Lula, a primeira presidente a comandar o Brasil consolida sua marca ao imprimir pulso forte, porém discreto, à gestão; ajuste das contas e ameaça de inflação ainda são desafios



 Dilma Rousseff completa neste domingo, 10, 100 dias no cargo de presidente da República com o feito de ter dirimido a dúvida mais mordaz lançada contra ela por seus opositores durante a campanha eleitoral do ano passado: seria Dilma, criada à imagem e semelhança de Lula, capaz de comandar o País sozinha? Para silenciar os críticos nesse quesito, a primeira mulher a ocupar a Presidência fez questão de imprimir a marca de uma governante austera e discreta.
Veja também:
link
Pulso forte para apagar a sombra do 'mito' do Planalto
linkNo 'núcleo duro', só Palocci e Pimentel
linkNos discursos, a valorização da mulher
linkInflação assombra e câmbio desafia
linkEntrevista: Novo ambiente não permite que Dilma repita Lula
linkUnião vê Osasco como modelo para plano antimiséria
linkAnastasia aproxima Minas do Planalto
especialVeja o especial sobre os 100 dias de Dilma

Tais características provocaram comparações inevitáveis com seu antecessor e padrinho, um político afeito aos discursos e ao embate direto com a oposição, a mesma oposição que, para fustigá-lo e tentar enfraquecer seu mito, passou a elogiar o jeito de Dilma comandar o País. A presidente, no entanto, nunca incentivou de público esse paralelismo, ainda que na política externa e na questão dos direitos humanos tenha adotado medidas frontalmente contrárias à atuação de Lula na área.

Os afagos da oposição se restringiram à forma. No PSDB e no DEM, ganham corpo as críticas ao conteúdo: "gastança" do governo, desaceleração do PAC e ameaça de inflação. O corte de R$ 50 bilhões no Orçamento não convenceu o mercado e os opositores de que as contas públicas estão sob controle. Dúvidas de gestão à parte, resta ao fim dos 100 dias a certeza de que Dilma se impôs. Parafraseando o francês conde de Buffon (1707-1788), para quem "o estilo é o homem", hoje "a mulher é o estilo".

 

Chuva boa que chega e se espalha em luz


Uma chuva mansa enxameia as copas das árvores, alisa as flores, recobre os gramados com suas luzes d'água.
Brisa molhada se espalha de lento em lento e, sem pressa, diz que é ventania amiga e que dela não se espere nem se tema a força de um simum, a potência de um mistral, o rigor de um minuano ou o perigo de um siroco. 

É uma chuva nordestina, daquelas de quem o sertanejo gosta e chama de sua. Boa chuva que cai sobre Natal e escorre pelas calçadas. Boa chuva... boa chuva...

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Criminal minds

O seriado Criminal minds no canal a cabo AXN, trata de um grupo de investigadores do FBI que busca pessoas de comportamento divergente que exercem atitudes de poder violento sobre vítimas indefesas. Wellington Menezes de Oliveira se encaixa perfeitamente no padrão, na tipicidade dos personagens da série. 

As matérias que têm abordado o assunto o apresentam como alguém esquisito, antissocial, alguém dotado de uma espécie de recato mórbido, um ser humano que de algum modo sofria discriminação. Quanto a este último aspecto, vi breve abordagem  numa notícia de TV.

A pólícia está tentando traçar o perfil do assassino, a fim de descobrir a causa ou causas profundas que o levaram ao desatino. A mim, parece que se trata de alguém que tinha da vida visão dolorosa, amargurada. Um ressentimento tão acre e convincente de que a humanidade é má, que tinha nele uma espécie de vítima preferencial, o levou, suponho, ao ato extremo dessa vingança inusitada, paradoxal e chocante. 

Assim, ao construir esse mundo interno, íntimo, pungente, ele criou todas as condições subjetivas e justificadoras do gesto brutal que perpetrou. O acontecimento, que tomou repercussão midiática planetária, e expõe a condição humana em sua maior crueza e bestialidade, nos entristece e nos lança a pergunta desesperada e existencialmente sem resposta: por quê? Até que ponto um ser humano, acossado por seus próprios fantasmas e demônios, pode matar, a partir de justificativas que sua mente angustiada cria para fugir desses mesmos fantasmas?

No fundo ele sabia do mal que causava, tanto que veio o suicídio. No fundo, ao se matar, matou também o mundo sinistro que supunha habitar, atirando-se a si próprio, ferindo de morte sua existência de dores íntimas.


Na carta que deixou salientava sua condição de "virgem" em oposição aos "pecadores" e "adúlteros", ou seja: uma criatura límpida e pura, habitando uma espécie de inferno moral que o atemorizava e do qual fugia pela internert que acessava ao longo de noites inteiras. 

Afinal, uma tragédia sem nome, deixando-nos pasmos e cabisbaixos quanto à condição do homem. Abaixo, reprodução da carta deixada pelo matador.

Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adúltero poderá ter um contato direto comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue, nenhum impuro pode ter contato direto com um virgem sem sua permissão, os que cuidarem de meu sepultamento deverão retirar toda a minha vestimenta, me banhar, me secar e me envolver totalmente despido em um lençol branco que está neste prédio, em uma bolsa que deixei na primeira sala do primeiro andar, após me envolverem neste lençol poderão me colocar em meu caixão. Se possível, quero ser sepultado ao lado da sepultura onde minha mãe dorme. Minha mãe se chama Dicéa Menezes de Oliveira e está sepultada no cemitério Murundu.

Preciso de visita de um fiel seguidor de Deus em minha sepultura pelo menos uma vez, preciso que ele ore diante de minha sepultura pedindo o perdão de Deus pelo o que eu fiz rogando para que na sua vinda Jesus me desperte do sono da morte para a vida eterna.”

"Eu deixei uma casa em Sepetiba da qual nenhum familiar precisa, existem instituições pobres, financiadas por pessoas generosas que cuidam de animais abandonados, eu quero que esse espaço onde eu passei meus últimos meses seja doado a uma dessas instituições, pois os animais são seres muito desprezados e precisam muito mais de proteção e carinho do que os seres humanos que possuem a vantagem de poder se comunicar, trabalhar para se alimentarem, por isso, os que se apropriarem de minha casa, eu peço por favor que tenham bom senso e cumpram o meu pedido, por cumprindo o meu pedido, automaticamente estarão cumprindo a vontade dos pais que desejavam passar esse imóvel para meu nome e todos sabem disso, senão cumprirem meu pedido, automaticamente estarão desrespeitando a vontade dos pais, o que prova que vocês não tem nenhuma consideração pelos nossos pais que já dormem, eu acredito que todos vocês tenham alguma consideração pelos nossos pais, provem isso fazendo o que eu pedi."

quinta-feira, 7 de abril de 2011

 Deu na Folha:

Sistema criminal trata diferente ricos e pobres, afirma De Sanctis

FLÁVIO FERREIRA
DE SÃO PAULO
O desembargador Fausto Martin De Sanctis, que atuou no caso Castelo de Areia, recusou-se ontem a falar sobre o julgamento do STJ que anulou os grampos da operação, mas disse que o sistema criminal do país vive uma situação de "dualidade de tratamento" entre ricos e pobres.
Mastrangelo Reino - 29.out.2009/Folhapress
Fausto Martin De Sanctis disse que o sistema criminal vive uma situação de "dualidade de tratamento" entre ricos e pobres
Fausto Martin De Sanctis disse que o sistema criminal vive uma situação de "dualidade de tratamento" entre ricos e pobres
 
Folha - Como o sr. avalia a decisão do STJ que anulou os grampos da Castelo de Areia?
Fausto De Sanctis - Não posso falar sobre esse caso concreto, mas posso falar sobre o sistema criminal de um modo geral. Em várias situações o Supremo Tribunal Federal já legitimou interceptações após denúncias anônimas e prorrogações de interceptações por longos prazos.
A Justiça tem um compromisso, pois ela serve de estímulo ou desestímulo para outros órgãos de poder. Não se pode comprometer a imagem da Justiça como uma Justiça dual, que trata diferentemente pobres e ricos.
O grande desafio do Judiciário brasileiro é reafirmar o princípio da igualdade e não fazer reafirmações que passam de forma concreta a ideia de que o crime compensa para alguns. A dualidade de tratamento já foi discutida no passado e os países desenvolvidos já superaram essa fase. Mas parece que o Brasil não superou. 

Qual será a repercussão desse julgamento para outros casos que tiveram interceptações após denúncias anônimas?
Não posso falar desse julgamento, mas é nítido para juízes criminais, Ministério Público, Polícia Federal e advogados o desestímulo institucional já existente. Tudo o que é feito é sempre interpretado de maneira favorável às teses provenientes daqueles que lucram muito com elas.
Não existem direitos sem deveres, mas parece que os deveres não são exigidos ou são muito bem flexibilizados em determinadas situações, o que é inconcebível. 

O subprocurador que representou o Ministério Público no julgamento disse ser preciso reavaliar os cuidados nas apurações. O sr. concorda?
Não falo do fato concreto, mas acontece que há uma total desorientação da jurisprudência com relação aos trabalhos de apuração, porque a jurisprudência sempre permitiu interceptações por tempo indeterminado, denúncias anônimas e ações controladas.
A partir do momento em que determinados casos vieram à tona, e não estou falando da Castelo de Areia, a jurisprudência simplesmente vira e interpreta com rigor tal que não se tem como investigar ou processar, pois tudo leva à prescrição, à nulidade ou à inépcia da denúncia.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Subiu no telhado

Assisti ontem, no auditório da Reitoria da UFRN, palestra de Juca Kfouri aos estudantes de Jornalismo. A personalidade solar do jornalista cativou à larga. O espetáculo, no melhor sentido que tenha o termo, ganhou força especialmente porque Kfouri, elegantemente, não tem meias palavras quando se trata de falar desse ofício que tem muito de missão. 
http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.imagensgratis.


Abordou a corrupção no futebol ao mencionar a cartolagem implícita e criticou, sob palmas veementes, a realização no Brasil da Copa e da Olimpíada. Disse que até poderiam ser realizadas, mas sob condições brasileiras, ou seja: sem a gastança que está programada para gáudio de quem vai com ambas ganhar muito dinheiro.

Mas, para mim, o mais importante se deu quando, respondendo a uma indagação, disse que a Copa em Natal "subiu no telhado". 

Para quem não conhece o sentido da expressão, isso quer dizer que Natal será, para minha alegria, retirada de sua condição de subsede da Copa; caiu fora, saiu, perdeu. As obras sequer começaram e não há, isso é opinião minha, sinal mais forte indicando quando tal intentona terá início. Graças.

Melhor assim. O dinheiro a ser esbanjado nessa insanidade será melhor, muito melhor empregado se o for em hospitais, segurança, escola e infraestrutura. 

Antes que esqueça: quando Kfouri disse que a loucura da Copa subiu no telhado foi aplaudido.
Na charge de Angeli, na Folha, a essência da política brasileira. Um petardo.

sábado, 2 de abril de 2011

Vandalismo na rede pública de saúde: o povo tratado a ferro frio

"Isso não é democracia; isso é vandalismo." A afirmativa é de um sofrido e amargo homem, idoso, já bem mais de 60, a respeito da medicina que o Estado brasileiro oferta, ou melhor, impõe, impinge, é o que quero dizer, ao povo. O rápido testemunhal foi feito ao Globo Repórter de ontem, numa das mais sérias, dignas, corajosas e incisivas manifestações de jornalismo que já vi.
Imagem ilustrativo-metafórica da situação
dos hospitais públicos no Brasil: o povo
tratado a ferro frio
 Isso prova: se o patrão deixa, o jornalista faz. Mas, voltemos ao Globo Repórter: a pauta era mostrar como funcionam - ou o contrário disso -, os hospitais públicos desse país. Resultado: uma aterradora realidade de morte por falta de meios de médicos decentes trabalharem, hospitais com obras jamais concluídas e hoje arruinadas, médicos desonestos, médicos insensíveis, lamentos, choro e, para ser um pouco bíblico, ranger de dentes.

O programa foi uma poderosa ação editorial, sob a competência de equipe de profissionais irretocável. A edição ampliava o efeito da denúncia, magnificava a dor, o desespero, a angústia das vítimas desse tipo de assistência - se é que isso é assistência.

Creio que a eficácia editorial do programa, ou seja, sua repercussão, efeito de choque sobre os responsáveis, poderá ser mensurada em alguma declaração do Ministério da Saúde, o que dizem as autoridades setoriais, como se sentem diante do quadro que, digamos assim, administram. Sobre a sociedade, tenho para mim, essa eficácia já se processou: a indignação que sinto certamente é compartilhada por muita gente Brasil afora.

Mas temo que fique nisso mesmo: indignação social, paralisia do governo; perplexidade do cidadão, silêncio pesado de quem deveria agir. No fim, o dinheiro que deveria ser para construção, reforma ou restauração de hospitais irá para a construção de estádios de futebol. O pão e o circo, o pão e o circo. Que bom, que bom...

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Volto a escrever neste sábado.
Emanoel Barreto
Zootecnista agora é profissional de saúde

Recebi do zootecnista Edgar Manso uma boa notícia para a categoria. Compartilho:


Barreto,

Abaixo segue boa notícia para os zootecnistas do RN.
Foi proposta pelo vereador Ney Lopes Junior.
Mandei e-mail para ele e estarei me reunindo com o mesmo na próxima segunda em seu gabinete.

Abraço,
Edgar Manso

Diário Oficial do Município
NATAL, QUINTA-FEIRA, 16 DE DEZEMBRO DE 2010
Página 5

LEI PROMULGADA Nº 0321/2010
Dispõe sobre a Profissão de Zootecnista no Município do Natal, e dá outras providências.
O PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DO NATAL, no uso das atribuições que lhe são conferidas pelo Artigo 22, Inciso XVI, da Lei Orgânica do Município do Natal, e pelo Artigo 201, § 6º, da Resolução nº 337/05 - Regimento Interno - PROMULGA à seguinte Lei:

Art. 1º - Fica reconhecida para todos os efeitos legais, a Profissão de Zootecnista, como
Profissional da Área de Saúde do Município do Natal.

Art. 2º - Esta Lei entra em vigor na data da sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

Sala das Sessões, em Natal, 09 de dezembro de 2010.  

quinta-feira, 31 de março de 2011

Deu na Tribuna que clamor público pressiona contra aumento de IPTU.

Moradores pedem mudança no IPTU


De um lado o secretário de Tributação, André Macedo, respaldado pela legislação e por relatórios técnicos de geoprocessamento, explicando as medidas adotadas pela prefeitura; de outros, líderes comunitários indignados, elevando o tom das críticas e até defendendo a adoção de um movimento de desobediência civil para que o tributo não seja pago enquanto o poder público não der respostas efetivas às demandas dos moradores. Reforçando o tiroteio, vereadores de oposição lamentando à falta de transparência e a insensibilidade da prefeitura na condução do problema.

Foi esta a tônica da audiência pública realizada ontem na Câmara Municipal para discutir o aumento do Imposto Predial e Territorial Urbano de Natal que, em alguns casos, chegou a  de 1.500%, segundo informações do autor da proposta de audiência, vereador George Câmara (PCdoB). 

A desobediência civil foi defendida pelo líder comunitário da Cidade da Esperança Lúcio Carlos, que reclamou do abandono do bairro, o primeiro conjunto habitacional do Brasil, construído no início da década de 1960 pelo então governador Aluízio Alves.  “A Rua Natal está cheia de buracos e lixo. Solicitamos uma ação da prefeitura há mais de um ano e nada foi feito”, disse ele. “É uma sacanagem dizer  que vai tomar a casa de quem não pagar o IPTU”, complementou.

Representando os moradores do loteamento José Sarney, João Bosco Tavares reclamou do aumento exorbitante do imposto e citou o caso de uma residência cujo IPTU subiu para R$ 680, enquanto o do  vizinho foi de R$ 50. “Como pode uma comunidade que tem a maioria das famílias inscritas no Bolsa Família pagar IPTU de R$ 600?”

Antônio Barbosa, da Cidade Satélite, considerou a situação do maior conjunto habitacional da cidade  “uma vergonha” em se tratando de bairro da zona sul. “Parece que os órgãos públicos fecharam os olhos para nós.” Já o representante do Jardim Progresso reclamou da falta de calçamento e de escola e de falhas na iluminação pública e na coleta de lixo. “O caminhão só está passando uma vez por semana”, disse ele.

Insatisfeito com o aumento do imposto, Gilberto Fonseca, do Cidade Praia, desabafou: “A prefeitura  não pode mandar só o cobrador para a nossa comunidade. Ela tem de mandar também o pessoal da ação social, das obras de infraestrutura.”

O advogado das entidades comunitárias,  Luiz Gomes, disse que houve falhas no geoprocessamento, que a verificação dos dados recebidos foi feita por amostragem e sugeriu que a Prefeitura do Natal reconhecesse as falhas e aceitasse uma solução negociada para evitar a judicialização do problema. “É fato que houve erros e que esses erros geraram impacto sócio-econômico nas pessoas, especialmente nas de baixa renda.” Depois de fazer uma explanação dos debates já realizados anteriormente e diante das posições assumidas pela prefeitura, Luiz disse que vai aguardar mais dez dias para então tomar as medidas cabíveis e que torcia por uma solução negociada. “Ao adotar a solução judicial, estamos elegendo um terceiro poder, que é o Judiciário, para resolver um problema administrativo.”

Para o presidente da Federação Estadual dos Conselhos Comunitários e Entidades Beneficentes do Rio Grande do Norte, Paulo César Oliveira, a audiência foi importante porque mostrou os vários aspectos da questão do IPTU. Ele defende a tese de que o Poder Legislativo pode se engajar na luta pela cobrança do tributo levando em conta não apenas questões técnicas, mas também a parte social dos contribuintes.

Para o vereador George Câmara, é fundamental que a prefeitura antes de buscar a todo custo recolher os impostos, dê aos cidadãos natalenses, direitos essenciais como saúde e educação. “Será que o aumento e o valor cobrado pelo IPTU são justos? Temos ruas esburacadas, faltam médicos e remédios, não há limpeza urbana freqüente, falta iluminação e nossa educação vai de mal a pior.

Micarla de Sousa admite levar em conta a questão social

Diante do que foi colocado na audiência pública, a prefeita Micarla de Sousa (PV) pediu um levantamento ao secretário de Tributação sobre a questão do IPTU, inclusive com número de contribuintes isentos. A informação foi dada no final da tarde de ontem pelo secretário executivo do Gabinete Civil, Rivaldo Fernandes, que acompanhou os debates na Câmara Municipal.

Segundo Rivaldo, a prefeita determinou que a Secretaria de Tributação “olhasse de maneira especial” para idosos, desempregados e para as famílias inscritas no programa Bolsa Família do governo federal.

A determinação da prefeita vai obrigar o secretário André Macedo  a mudar o discurso, até então respaldado em questões técnicas e no estrito cumprimento da lei. “A prefeitura vai corrigir todos os erros no cadastro”, garantiu Rivaldo.

Nos 20 minutos a que teve direito no encerramento da audiência, André Macedo perdeu boa parte do tempo justificando a adoção do geoprocessamento. “É impossível fazer a medição de 300 mil imóveis usando a trena.”

Ao responder a uma pergunta sobre arrecadação e aplicação dos recursos do IPTU, o secretário informou que no ano passado foram arrecadados, entre IPTUl e  taxa de limpeza pública, R$ 65 milhões. “Com esse dinheiro não tínhamos nem como pagar as despesas com a coleta de lixo’.
Uma imagem para lembrar o golpe de 64

E a multidão chora a partida do homem público

Alencar: o enterro de um grande morto

O enterro dos grandes mortos é um langor público e profundo. Há uma sinceridade momentânea que grita e quer ser ouvida por todos os jornais. É como se o grande morto reunisse em si todas as saudades dos vivos que deixou para trás, e as homenagens fúnebres, rituais, reverentes, compungidas, dessem à multidão que chora, de alguma maneira chora - chora o corolário de mágoas do existir, chora a hora derradeira de todos nós, chora a perplexidade daquele corpo morto - dissessem àquele que deixou de habitar o corpo que sua figura tinha algo de mítico, antepassado. O cerimonial, em sua matriz mais avoenga, é a repetição do gesto do hominídeo ancestral que urrava ante um corpo que, paralítico de vida, ele agitava, perplexo e inutilmente, buscando trazê-lo de volta ao grupo.

As homenagens a José Alencar não fogem ao padrão. O homem público, agora elevado à condição de desamparo coletivo, agrega à sua condição de grande morto o fato pesaroso de que jamais voltará. Torna-se no noticiário um ser único e, no jornal, encobre as demais informações, como diz Maurice Mouillaud. O fim de um grande homem torna-se o enigna da vida, do viver em sociedade; o enigma do seu discurso, da utopia que defendia, qualquer seja essa utopia, excelsa ou chã, o reveste como armadura histórica e imutável. 

O grande morto, repito, reúne em si todas as saudades, pelo menos no momento em que o paradoxal momento dessa passagem o torna reluzente em todas as manchetes. Depois as saudades se aquietam e voltamos todos a esperar que surja novamente um grande morto. E então a multidão de carpideiras voltará às ruas e clamará àquela perda. Que, no fundo, a todos nós nos atinge e nos faz pensar. Melancolia.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Minha estupidez

François Silvestre, cidadão da vida, escreveu artigo domingo passado no Novo Jornal a respeito da humanidade e sua inominável estupidez. O texto foi, para mim, um reencontro com um amigo que não vejo a anos. Comemorando esse reencontro, enviei-lhe email que compartilho:

Caríssimo François,

Vi, gloriosamente estarrecido, seu artigo de domingo último. Sim amigo,
porque o que você escreveu não é para ser lido, mas visto, apreciado pelo
olhar alumbrado ante mural improvável, ou meticulosamente observado por
visão que se encanta com alguma máquina pequenina e complexa. Foi esse o
meu sentimento. O texto, limitado pelo espaço da mancha gráfica, era
todavia infinito em sua profundidade virtual, o leitor arremetido, puxado
para o centro daquele universo paradoxalmente profundo e plano na página
do jornal.

Serena e lúcida loucura perpassa suas palavras, palavras matizadas,
palavras com cor, volume, corpo. Cor, volume e corpo como somente os
podemos perceber na pintura de um  grande mestre dessa arte que é pintar
com o que se escreve. A palavra vale mais que a imagem quando a palavra é
ela mesma a imagem proposta e visualizada na legalidade interna do texto.
Refiro à  palavra como ato positivo, concretizado, e, sendo assim, visível
no mundo pelos efeitos que provoca. Mesmo que seja um grito, a palavra é
forma corpórea para quem a percebe como escultura. Não estou falando para
os exatos, dirijo-me a quem pensa em paralelo, em contramão, em viés. Uma
conversa amigo, uma grande conversa, é mais que som inteligível articulado
em linguagem; mais que isso, a conversa é monumento.

Sua concepção de humanidade ou de não-humanidade comoveu-me e gratificou o
gesto do meu olhar que via sua obra impressa; e sendo coisa impressa era
imagem, planície a perder de vista. Um marco em meio ao deserto.

Amigo, encerro aqui, mas quero comunicar: tenho me dedicado, nos últimos
tempos, a me tornar um grande, se possível o maior ignorante das cousas e
atos de saber dos que sabem definir o mundo e propor suas soluções. Sou um
ignorante das sabenças definitivas que logo a História revela frágeis como
um dócil vime, sou um ignorante das matemáticas e das lógicas
irreversíveis, sou um ignorante da acurácia que minutos após está cega e
pede um novo modelo interpretativo para atender a intenções as mais
inaceitáveis.

Grato, amigo. Seu artigo, seu mural, mostrou-me que estou no caminho certo
e que devo perseguir a total ignorância. Sabe porquê? Porque continuo sem
entender a lógica, o motivo razoável que dá a alguém a sapiência social, o
direito de ser dono de uma empresa de aviação e nega a outro o direito de
ser dono de um pão, um fugidio pão que lhe mate a fome. E pior: não
entendo porque aquele que tem fome gostaria de ser, ele sim, o dono dos
aviões, de todos os aviões do mundo - e naturalizar tal situação para
sempre.

Abraço grande deste amigo que há anos não o vê,
Emanoel Barreto





terça-feira, 29 de março de 2011

Jô Soares entrevista José Alencar 03/08/2010 (Parte 1 de 5)

Jô Soares entrevista José Alencar 03/08/2010 (Parte 2 de 5)

Jô Soares entrevista José Alencar 03/08/2010 (Parte 3 de 5)

Jô Soares entrevista José Alencar 03/08/2010 (Parte 4 de 5)

Jô Soares entrevista José Alencar 03/08/2010 (Parte 5 de 5)

Recebi de Nabuco Pessoa comentário a respeito da matéria que publiquei sobre a morte do ex-vice-presidente José Alencar, que pode ser lida abaixo deste post. Agradeço a forma elegante como o questionamento me foi feito. Segue o comentário e logo abaixo a minha resposta, como requerido:

Jornalista,

Gostaria da sua opinião sobre o fato do não reconhecimento da filha, o senhor acha que isso não é um fato lastimável e que deveria ser repudiado?

Nabuco Pessoa
.....

Caro Nabuco, 

Realmente foi um fato lastimável, mas isso não o impediu de ser um grande homem público. A decisão judicial quanto à paternidade de José Alencar pode ser lida aqui .

Saudações,
Emanoel Barreto

José de Alencar: na entrevista à TVU, o perfil de um lutador


O então candidato José Alencar nos estúdios da TVU, após a entrevista que concedeu ao programa Xeque-Mate

José de Alencar: o adeus ao grande avô
A morte do ex-vice-presidente José Alencar ocorre após intensa e firme luta contra o câncer. Tive oportunidade de entrevistá-lo, ao lado de estudantes de jornalismo, no programa Xeque-Mate, da TV Universitária, quando de sua primeira e vitoriosa candidatura ao lado de Lula. Dele ficou-me a impressão de um homem simples. 

Sei que me utilizo de lugar comum para fazer a representação de sua figura, tal qual a mim se apresentou. Sei que isso parece reducionismo, sei que não empalma, aparentemente, a sua figura. Mas, o que quis dizer, afinal, com "um homem simples"? Quis dizer o seguinte: simplicidade no sentido de despojamento, falar fácil, pessoa acessível, uma forma de encarnação do grande avô - aquele homem sábio das coisas da vida, sereno e afável; elegante sem pompa, despretensioso e aberto. 

Simplicidade enquanto algo substantivo e vivido. Simplicidade como mineiridade, uma vez que nascido e amante das terras alterosas. 

Lembro bem que durante a entrevista o indaguei se pelo fato de ser um conservador não funcionaria, por isso mesmo, como fiador da candidatura Lula junto aos segmentos que poderiam ver no ex-metalúrgico presença não-confiável na presidência da República. Uma espécie de sociedade de capital e trabalho. Mineiramente disse que não, que Lula seria seu próprio avalista; e detalhou: ele era apenas o vice, o candidato a vice. 

E a entrevista seguiu, informal e muito agradável, mas cumprindo com o papel a nos propusemos eu e os alunos: traçar um perfil do entrevistado. Suponho que a TVU deverá reprisá-la sexta-feira próxima, às sete da noite.

Agora José Alencar se vai. Saudações, velho mineiro. Saudações, grande avô.

domingo, 27 de março de 2011

Um crime inimitável

Caro leitor,

Informo que hoje estou no ano de 1702 e que em plena chuva desembarca de seu landô e se dirige à minha casa um grand signeur. Vestido como os de sua classe, protege-se da pesada água com uma capa curta e se encaminha a mim.
Não o conheço, mas, ao entrar, me informa que fui altamente recomendado por amigo comum para que comigo pudesse partilhar grandes plantos e altos intentos. Coloco-me à disposição e ele me diz: "Aqui vim para que me ajude a tramar um crime inimitável."

Manifestei minha total surpresa e alguma indignação, pois não sou homem de armas, duelista de pistolas ou espadachim da nobre arte do florete, sabre ou espada. Admiro tais habilidades enquanto prática e destreza, mas não enveredo pelos seus resultados, sempre trágicos e lacrimosos. Então, pergunto: "Por que a minha escolha? Sou, sempre fui, apenas um tipógrafo, arte que aprendi com o mestre de Mogúncia por volta de 1439 e até hoje a pratico, esmerando-me na detalhada e delicada construção de tipos preciosos. Apenas isso."

Cavalheirescamente insistente, explica-me o grande senhor: "Não vim aqui para que o crime inimitável seja necessariamente perpetrado, mas para que seja planejado, articulado, estudado; se possível, cientificamente. E que tais planos e conjecturas sejam de tal forma elevados, minuciosos, sutis e corteses que o vitimado, ao morrer, venha a saber que está participando de uma obra d'arte, encontrando aí grande honra e motivos para ser agraciado com tal morte. Sim, meu caro, porque o crime inimitável deve ser levado a efeito sobre alguém de fina sensibilidade, alma estrangeira às vulgaridades e espírito arguto e nobre, atento às artes mais altas, matizes sutis e sons requintados. Refiro, entenda, a um regicídio." 

Ante tal observação pensei estar às voltas com algum magnífico demente, pois, além de me propor um crime, queria elevá-lo à condição perigosíssima de matar um rei. Isso, argumentei, significaria, aí sim, morte certa ao regicida. Mas ele não se deu por vencido. E falou do grande salão onde tal intento seria elegantemente perpetrado, à frente de corte engalanada, com vivas ao monarca, brindes e champanhe. 

Então, contou, o regicida entraria naquele magnificente e ilustre ambiente. Ele próprio um nobre, senhor de título de herdade ancestral, emérito em combates singulares de sabre florete ou espada, amante de damas dulcíssimas e secretas, cujas belezas mais fêmeas e íntimas somente a ele pertenceriam.
E então, caminhando seus distintos sapatos, o regicida iria até o rei e, sem que ninguém, ninguém percebesse, cravaria profundamente, no coração real, dileto, argentino e penetrante punhal. E o faria de tal maneira, e com tal eloquência de modos magistrais e cuidadosos,  que o rei, elegantemente, tombaria em cadeira como se nela estivesse sentando. E certamente, aos olhos dos convivas, daria a impressão de estar cansado da adulação e ademanes, reverências e mesuras que só a falsidade dos aristocratas consegue lucubrar e praticar com gênio assombroso de mentira combinada e ritual. Deixando-se assim, o rei, aparentemente, recostar-se em repouso momentâneo. 

"E então, meu caro, gostou do meu plano? É ou não é um crime inimitável?", disse. E completou: "O rei fecharia de forma sublime as pálpebras, após haver lançado olhar de gratidão ao artista que tão distintamente o havia levado aos braços da Caronte." 

E disse mais: "Não se trata efetivamente de obra de arte?! "E acrescentou: "Depois disso, o regicida - regicida é uma espécie de título nobiliárquico, entende?, disse-me ele - sairia calmamente tocando uma requinta, encantando assim a todos os presentes, que deslumbrados o veriam como a um artista que pusera o rei a dormir e agora se afastava docemente, como suave fauno em busca de ninfa sequiosa de seus prazeres de homem, sobre ela e dentro dela exercidos."

Afinal, persistiu, "é uma grande arte a que pretendo realizar, concorda?" Absolutamente perplexo, convidei-o a tomar algo forte a fim de que, se possível, pudesse refazer seus planos. Chamei a um criado e mandei que trouxesse bebida escalcande, bebida vinda do Brasil, uma terra distante onde os colonizadores fornicam mulheres conhecidas de índias, bebida chamada de cachaça. Esperei, com isso, trazê-lo de volta à realidade, abandonando tão esquisitos e danosos planos. 

Dois tragos e ele, para minha alegria, disse-me, então, altissonante: "Esta bebida ferve o sangue como um tiro de pistolete. E sendo assim, como estou sob as efluências de tal beberagem bárbara, abandono meus planos iniciais."

A atitude deu-me a sensação de que havia vencido meu demencial e sofisticado interlucutor e sua extravagante intentona. Debalde, como logo vi. Para minha surpresa, bradou: "E como sinto ebulir no ser que habita o meu corpo ingente necessidade de agir, eu o farei agora e agora mesmo!" 

Ato contínuo sacou de seu casaco portentosa e poderosa pistola e a descarregou sobre o mordomo que nos havia acabado de servir a cachaça. E o pobre homem caiu, morto, a meus pés.

Isso posto, meu estranho visitante fez-me profunda reverência, tomou mais um trago, correu para o seu landô e desapareceu para sempre. Fora, realmente, um crime inimitável.

 

RITA PAVONE DATEMI UN MARTELLO 64