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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

E aí vem a polícia e diz: "Nossa greve é nosso berro!"

O crescimento da onda de protestos de policiais militares parece indicar tendência de que o movimento ganhe efetivamente contornos nacionais. Se os grevistas da Bahia, pelo menos uma parte deles, não são um bom exemplo, não se pode negar que em essência o movimento não tenha razão. Os governantes, quando candidatos, chamam a assessorá-los marqueteiros que preparam campanhas belíssimas apregoando que, eleito ou eleita, o governante ou a governante farão, pelo simples toque de suas mãos mágicas, um mundo perfeito. Não é bem assim e os governantes sabem disso muito bem.
http://www.google.com.br/imgres?q=policiais&hl=pt-BR&safe=off&client=firefox-

Tais promessas incluem a segurança e, em decorrência disso, segurança feita por pessoal bem remunerado e treinado. O policial é parte do povo; é o povo armado em defesa da sociedade, gente que certamente acreditou e votou nos dirigentes.  Mas, entre o mundo do marketing e o mundo real há uma diferença enorme, abissal, assustadora. E tal realidade abrange os salários dos funcionários armados, que precisam e devem ser compatíveis com os riscos que correm. Os policiais em pé de greve têm sim motivos para o encrespamento. Não para a baderna e o terror social, mas para reivindicar, dentro do bom senso e da prudência, sim. 

A tropa mal paga entra em processo de desagregação dos valores militares, cuja base são disciplina e hierarquia. Contaminada por sentimento desagregador tais valores vêm abaixo e dá-se o que vimos em Salvador.

O movimento nascido na  Bahia pode vir a se constituir em tendência, a levar-se em conta idêntica atitude da PM no Rio. E o que é tendência?  Tendência é propensão de alguém a alguma coisa, medindo-se tal propensão em atitudes visíveis e perceptíveis, com possibilidade de outros se reunirem a tal comportamento tornado socialmente simpático aos que dele possam se tornar adesistas. Então, parece haver uma tendência.

Os policiais, claro, se aproveitam da proximidade do carnaval, festa maior do povo brasileiro e acenam com a possibilidade de uma greve. No Rio isso poderia ter consequências bem maiores e bem piores que em Salvador face ao crime organizado enquistado na sociedade carioca. O governo federal deveria já estar encarando o problema, colocando-o como prioridade para ter solução. Uma política de segurança passa necessariamente por agentes bem remunerados ou próximos disso. Caso contrário vai valer, da parte dos policiais, o lema "nossa greve é nosso berro!"

terça-feira, 15 de março de 2011

Oba-oba pra Obama


Deu na Folha: O governo do Estado do Rio de Janeiro criou um perfil no Facebook para o discurso do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que será feito na cidade do Rio, no domingo.
Para atrair o público ao discurso do presidente, a página do governo no Facebook colocou o discurso como um evento no site. Até as 12h45 desta terça-feira, mais de cem pessoas já tinham "confirmado presença". Muitos internautas deixaram comentários sobre a visita do presidente americano ao Brasil e seu pronunciamento. 
...
Não vejo qualquer necessidade ou importância nesse pronunciamento. Há em andamento algum grande plano ao projeto reunindo Brasil e Estados Unidos? Não, não há. O que existe é um pseudoacontecimento, um acontecimento de mídia, um fato que só acontecerá em função da mídia, para usufruto e paradoxal manipulação da própria mídia ao transmitir e cobrir esse pronunciamento. 

Suponho que o mandatário americano deverá entoar loas às "boas relações" entre os dois países, com isso visando obter visibilidade internacional. Uma maneira de demonstrar que a hegemonia norte-americana é bem aceita e aplaudida no Brasil. Ou melhor, no Brazil. 

Haverá, claro, telões com a imagem de Obama, e legendas, como num filme, entende? Isso dá a dimensão do factoide e o transporta à sua verdadeira essência e realidade: a realidade de ser um simulacro, uma espécie de filme do absurdo, só que exibido de graça e em praça pública. E o governo do Rio ainda chama a moçada a ir e vibrar...

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Pra tudo se acabar na quarta-feira


Fábio Motta/A

O incêndio na Cidade do Samba, se tivesse sido maior, acabando por completo com o estuário de fantasias e carros alegóricos, assumiria aspecto de tragédia nacional.

Pelo simples fato de que o carnaval, que impera no imaginário brasileiro como uma espécie de sagração à nossa alegria, consagração bacante-tropical a festejar ninguém- sabe-bem-o-quê, poderia não se realizar com a monumentalidade costumeira.

Podemos sofrer em filas o ano inteiro, ver pessoas morrendo na fila do INSS para assegurar um direito, podemos amargar problemas enormes na educação,
na segurança, na cultura, nas estradas, podemos
suportar a tragédia na região serrana do Rio, mas não podemos passar sem o carnaval.
Fábio Motta/AE

É preciso sambar, mais que tudo é preciso sambar. É preciso mobilizar milhares de pessoas pobres e desassistidas para que se iludam com a festa, com a orgia patriótico-escapista de ser um rei na avenida - pra tudo se acabar na quarta-feira.
Não se pode negar a importância do carnaval, não se pode ocultar a beleza daquela ópera malandra e esfuziante cruzando a avenida.

É lindo, é incrível, mas é apenas isso: lindo e incrível. É incrível como o sonho pelo sonho organiza multidões formigando de trabalho para preparar um desfile. É lindo pensar-se o sonho louco de ser nada e ao mesmo tempo ser tudo quando se percorre a Sapucaí. Depois, bem, depois vem o Brasil velho do dia a dia.

Talvez a tragédia do carnaval tragado parcialmente pelo fogo nos devesse levar a pensar que bem mais que um sonho, seria melhor começar a preparar a realidade.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Felipe Dana - 15.jan.201/AP

Um dominó trágico desceu na noite de relâmpagos. E as águas do céu se abateram sobre a terra e o homem.

Uma avalancha se arremeteu ladeira abaixo com invasão e ímpeto de fúria elemental e houve choro e ranger de coisas que se despedaçavam. 

Era a engenharia reversa da natureza, matando. 

A queda estrondosa de rochas brutas abalou corações que dormiam - e de repente todos se viram mortos por pedras e montanhas que se despencavam com fragor. 

Um vesúvio frio e implacável dominou tudo. E dessa tormenta o que restou foram as manchetes.
O blog Noticiaemverso envia e publico o poema abaixo. Creio que o autor,cujo nome ainda não descobri, está inaugurando uma forma de literatura de cordel, o netcordel. Segue, abaixo:

A chuva ainda não deu trégua, o sol não raiou
As pessoas ainda juntam os cacos do que restou
É preciso força para retomar a vida, o mundo
Depois de se perder quase tudo num segundo

Tragédia natural não é exclusividade, é verdade...
Por que, então, sofremos mais com as tempestades?
Deus é brasileiro, não temos terremotos nem furacão
Mas pecamos no planejamento, vontade e organização

Portugal passou por suplício como o que se apresenta
Em falecimentos, só 10% daqui: pouco mais de quarenta
Na terra que zombamos ter pouca inteligência
Governos dão de goleada quando há urgência

A Austrália, do outro lado, foi ainda mais exemplar
Como mostrou, na TV, um brasileiro que lá foi morar
Eles monitoram o nível dos rios com grande precisão
Por carta, avisaram todos com 24 horas de antecipação

Mas aqui o relevo é outro, uns dirão
Por si só não justifica, não é explicação
Populismo, impregnado, responde por esse mal
Ah, se nossa inteligência fosse a de Portugal...

(http://noticiaemverso.blogspot.com)
Twitter: @noticiaemverso

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Natureza em fúria: foi um rio que passou em muitas vidas

A tormenta, ou melhor, o tormento que desabou na região serrana do Rio não pode ser creditada à natureza. Pelo menos não unicamente. Centenas de anos de descaso político, o que inclui todos, eu disse todos os governos, terminaram no que vimos.

Foto: Marcos de Paula/AE

A lamentável classe política brasileira  - não é uma classe, claro, mas vamos chama-la assim - somente vê no povo um depósito de votos que de dois em dois anos é aberto para fortuna - no sentido maquiaveliano do termo - de alguns. Vejo no Estadão a matéria a seguir, onde especialista fala sobre, e deplora, esse acontecimento no Rio de Janeiro.

''Brasil não é Bangladesh. Não tem desculpa''



Marcos de Paula/AE

"O Brasil não é Bangladesh e não tem nenhuma desculpa para permitir, no século 21, que pessoas morram em deslizamentos de terras causados por chuva." O alerta foi feito pela consultora externa da ONU e diretora do Centro para a Pesquisa da Epidemiologia de Desastres, Debarati Guha-Sapir. Conhecida como uma das maiores especialistas no mundo em desastres naturais e estratégias para dar respostas a crises, Debarati falou ao Estado e lançou duras críticas ao Brasil. Para ela, só um fator mata depois da chuva: "descaso político."

Como a senhora avalia o drama vivido no Brasil?
Não sei se os brasileiros já fizeram a conta, mas o País já viveu 37 enchentes, em apenas dez anos. É um número enorme e mostra que os problemas das chuvas estão se tornando cada vez mais frequentes no País.

O que vemos com o alto número de mortos é um resultado direto de fenômenos naturais?
Não, de forma alguma. As chuvas são fenômenos naturais. Mas essas pessoas morreram, porque não têm peso político algum e não há vontade política para resolver seus dramas, que se repetem ano após ano.


Custa caro se preparar?
Não. O Brasil é um país que já sabe que tem esse problema de forma recorrente. Portanto, não há desculpa para não se preparar ou se dizer surpreendido pela chuva. Além disso, o Brasil é um país que tem dinheiro, pelo menos para o que quer.

E como se preparar então?
Enchentes ocorrem sempre nos mesmo lugares, portanto, não são surpresas. O problema é que, se nada é feito, elas aparentemente só ficam mais violentas. A segunda grande vantagem de um país que apenas enfrenta enchentes é que a tecnologia para lidar com isso e para preparar áreas é barata e está disponível. O Brasil praticamente só tem um problema natural e não consegue lidar com ele. Imagine se tivesse terremoto, vulcão, furacões...


Titãs- Vossa Excelencia - Entendo nessa composição um resumo da tragédia brasileira. Que grita no horrendo rio que passou na vida de muita gente, os mortos e aquelas que vão lembrar dos mortos

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Opulência e mau gosto nas joias das mulheres de criminosos
Emanoel Barreto

Uma demonstração de opulência e mau gosto. Assim são as joias com que os traficantes do Rio presenteiam as suas mulheres. Sejam as "fiéis", as digamos assim, primeiras damas, ou as outras, as amantes. São preciosidades grosseiras, espalhafatosas, grotescas até.

Uma forma de contrabalançar, pela exuberância do feio, pelo excesso ostentatório, a origem social dos criminosos. Seria uma espécie de discurso de compensação - a demonstrar de alguma forma a perversa degradação a que foram levados pela vida de miséria e exclusão.

Daí o luxo aberrante. Não justifico os criminosos, dou a pista para o seu surgimento.  A matéria é da Folha. As fotos foram cedidas ao jornal pela polícia.
.......

Novas imagens de um levantamento da Polícia Civil para chegar aos chefões do tráfico no Rio de Janeiro, ao qual a Folha teve acesso, mostra outros exemplos de opulência dos presentes que eles costumam dar para suas mulheres.


Nas imagens, as "fiéis" --como são chamadas as mulheres oficiais-- e as amantes exibem correntes que, na avaliação de ourives ouvidos pela reportagem, custam em média R$ 35 mil.
A Folha não identifica as mulheres, pois algumas são menores de idade e outras ainda são investigadas. De acordo com a polícia, há um mercado clandestino de produção de joias para traficantes funcionando no centro antigo da cidade e em alguns bairros da zona norte.
Na tabela dos "ourives do tráfico", quando o "cliente" leva o ouro --várias peças pequenas, provavelmente produto de roubo, que são derretidas--, um cordão pode custar de R$ 4 mil a R$ 15 mil.
Segundo o presidente do IBGM (Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos), Hécliton Santini Henriques, estima-se que o mercado clandestino de produção de joias movimente até R$ 1 bilhão por ano no Brasil --40% do movimento do setor.
 

De acordo com a polícia, há um mercado clandestino de produção de joias para traficantes funcionando no centro antigo da cidade e em alguns bairros da zona norte.
Na tabela dos "ourives do tráfico", quando o "cliente" leva o ouro --várias peças pequenas, provavelmente produto de roubo, que são derretidas--, um cordão pode custar de R$ 4 mil a R$ 15 mil. 

Segundo o presidente do IBGM (Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos), Hécliton Santini Henriques, estima-se que o mercado clandestino de produção de joias movimente até R$ 1 bilhão por ano no Brasil --40% do movimento do setor.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Vestir a carapuça ou o temor das elites no Rio
Emanoel Barreto
Policial do Bope (Apu Gomes)

A ação conjunta das Forças Armadas e polícia demonstrou que, querendo, o Estado faz. Agora, é manter o sistema de poder instalado na favela e ocupar outros espaços onde os bandidos ainda estejam agindo.

Mais que isso, entretanto, é preciso presença social séria e com sentido histórico: os moradores do Alemão e outros locais do mesmo tipo têm direito a esse resgate de sua cidadania.

Tínhamos ali uma espécie Haiti social, abalado pela pobreza, miséria e sismos de violência patrocinados pelos criminosos. Com o tsunami do Estado sobre os bandidos, resta cumprir com função social: voltar-se para o bem-comum.

A situação vivida pelo Rio é fruto de longo, penoso processo histórico de exclusão e sofrimento imposto àqueles brasileiros, geração a geração. É culpa de status quo de essência ominosa, voltada para manter o lucro e as benesses de uma elite cevada na exploração e desumanidade.
Policiais em patrulha (Rafael Andrade)
Quando a ação policial-militar estava em vias de ser destada vi nas coisas de jornal da grande imprensa notícia informando que a direção da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro recomendava com veemência que seus cabeças não saíssem de casa a não ser por motivo imperioso e mais: que, nesse caso, se utilizassem de seus carros blindados.

É a prova do equívoco histórico: depois de estiolar ao longo do tempo histórico as vidas de milhares, quem sabe milhões de pessoas, a elite carioca se retraía, com medo das consequências do seu vandalismo sócio-econômico. Agora, ao que parece, os bandidos se foram. Resta às elites vestir a carapupuça.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Coronel Nascimento esmurra político safado e o cidadão a meu lado ruge: "É isso!"
Emanel Barreto

Somente ondem vi o filme Trope de Elite 2. Falta de tempo, uma coisa e outra e deixei pra lá. Mas, afinal, fui. À parte o fato de que é produção de excelente qualidade, temos ali resumo bem acabado do que seja a nossa sociedade, manifesto em personagens-tipo: o agora Coronel Nascimento em sua crença cega na polícia, os políticos criminosos versus político decente, o policial bom contra o policial bandido, o jornalista safado contrafação da jornalista martirizada.

No início do filme sarcástico letreiro adverte que se trata de "ficção" - apesar das veementes verossimilhanças com o real. Esse real é efetivamente o mundo social de fato, o antro bem brasileiro, o brazilian way of crime em suas diversas manifestações: desde o bandido em sua figuração de agente de violência física, até aquele que ocupa o Poder, tornando o crime orgânico àquele.

A cena em que Nascimento ataca e espanca um político safado foi programada sem dúvida para obtenção de efeito catártico nas plateias de todo o país. O cidadão sente-se personificado no personagem que deita mãos nesse tipo de gente, normalmente impune e afinal impunível uma vez que quase sempre tais facínoras são detentores de mandato e, portanto, donos de muito dinheiro. Soube que quando do lançamento do filme as pessoas aplaudiram a cena.

A obra é ficção sim, mas, acima de tudo, pela sua intensidade, é reflexo poderoso do real, talvez uma espécie de pleonasmo crítico desse real. A reiterada ocorrência de corrupção na nossa vida pública, todavia, não deve ser entendida como algo acima, adventícia, de fora dos nossos costumes cotidianos. Não: os políticos corruptos, os policiais corruptos são advindos da sociedadade mesma, de seus fundamentos e alicerces.

Não é aqui que funcionários públicos, podendo, se utilizam de carros de repartição para uso em fins de semana? Não é aqui que, se possível, se faz aquela contramãozinha rápida só para evitar um incômodo retorno bem mais adiante? Não é aqui que aquele leva para casa uma caixinha de clipes de cima do birô para usar no trabalho escolar do filho? Não é aqui que se utilizam fotocopiadoras do trabalho para interesses pessoais, poupando-se alguns reais e uma fila chata na xerox da esquina?

Pois são essas licenças, essa mostra de "esperteza", elevadas a milésia potência, que dão a pista para os grandes crimes de colarinho branco, dão ao policial corrupto a oportunidade de utilização da máquina de sua corporação para fins delituosos e ao detentor de mandato o sórdito direito de usar o Estado como coisa própria.

É esse o esquema mental do brasileiro que o Coronel Nascimento mostra: a cultura da corrupção como estilo de vida, o glamour cínico de quem quer se dar bem.

Logo ao início o filme sugere que Nascimento vai morrer em meio a rajadas de tiros. No final, aí marcante influência do cinemão americano, ele escapa milagrosamente com apoio providencial dos seus chapas do Bope, que chegam barbarizando a banda podre da polícia e pondo em fuga os atacantes. A meu lado um cidadão disse "é isso!", aplaudindo o poderoso revide de Nascimento ante os policiais corruptos.

Tropa de Elite 2 insinua que haverá a terceira parte. O policial atormentado narrando pela voz incisiva do ator Wagner Moura a grande crise da existência, a grande crise política, a crise de sermos brasileiros. Sabe?, gostaria que houvesse Tropa de Elite 3. Não é isso mesmo? Claro, claro que é. É isso!

domingo, 28 de novembro de 2010

Transcrevo, do Estadão, artigo de autoria do cineasta José Padilha. (EB)

Carcaça de uma sociedade
 José Padilha

Policiais em patrulha (Joel Silva)
Por que o Rio de Janeiro é uma cidade tão violenta? Por que tem um número tão alto de homicídios e de assaltos todo ano? Por que grande parte da capital carioca, sobretudo as áreas mais carentes, está dominada por grupos armados? Por que a história do Rio é marcada pela repetição de acontecimentos traumáticos na área de segurança pública, acontecimentos que chamam a atenção do mundo?


Vigário Geral e Candelária explicitaram a violência absurda da polícia carioca. O sequestro do Ônibus 174 demonstrou a precariedade dessa polícia e deixou à mostra a violência de um ex-menino de rua que preferiu “tentar a sorte” a se entregar ao Estado que o torturou a vida inteira. O brutal assassinato de Tim Lopes mostrou que os traficantes cariocas não são Robin Hoods do morro, mas criminosos que utilizam métodos brutais. A tortura de jornalistas de O Dia por milicianos deu origem à CPI que revelou máfias de bombeiros, policiais civis e policiais militares no comando de comunidades carentes, com o apoio de vereadores, deputados estaduais e até deputados federais. E, finalmente, o ataque sistemático do tráfico a vários pontos da cidade, e a reação subsequente da polícia, “desentocou” um verdadeiro exército armado na Vila Cruzeiro e o expôs para todo mundo ver.


Afinal, por que o Rio de Janeiro é assim?


Uma resposta, a da esquerda naïve, postula que a violência no Rio de Janeiro decorre da miséria e da luta de classes, e diz que para combatê-la é necessário acabar com as diferenças sociais, distribuir a renda e educar a população. Há também a resposta da direita naïve, que reduz a violência do Rio a um problema de repressão e diz que ela se explica pela falta de firmeza da polícia e das leis.


As duas respostas estão erradas, contradizem fatos conhecidos.


A primeira não dá conta de cidades que têm índices de desenvolvimento humanos (IDH) piores do que os do Rio de Janeiro e índices de violência menores. A segunda está na contramão da história, que demonstra que incrementos na repressão podem piorar os índices de violência. Foi assim no governo Marcelo Alencar, quando o Estado adotou a remuneração faroeste e passou a premiar os policiais em função do número de criminosos que “abatiam”. A partir daí, o número de autos de resistência, de policiais que declararam ter matado criminosos que resistiram à prisão, cresceu e continua absurdo até hoje.


Muitas vezes, o passo mais importante para encontrar a solução de um problema é enunciá-lo corretamente. Ônibus 174, Tropa de Elite e Tropa de Elite 2 são uma tentativa de enunciar o problema da segurança pública do Rio de Janeiro a partir da premissa de que a violência carioca resulta, em grande parte, da atuação direta de instituições públicas que convertem miséria em violência. À luz dessa premissa, a violência urbana está relacionada à falta de educação e à concentração de renda, mas a relação não é direta e simples, é intermediada por fatores complexos. Acredito que no Rio o mais importante desses fatores seja o efeito perverso que certas organizações administradas pelo Estado têm sobre parte da população.


Ônibus 174 conta a história de Sandro Rosa do Nascimento, um menino que fugiu de uma tragédia familiar e foi viver nas ruas do Rio. Sandro se tornou um pequeno criminoso para sobreviver. Como menino de rua, viu representantes do Estado (policiais militares) matar crianças como ele na Candelária, foi preso e tratado com extrema violência pelo sistema socioeducativo do Estado, foi espancado e obrigado a conviver com traficantes e criminosos muito mais violentos que ele no Instituto Padre Severino e deu entrada no sistema prisional carioca, onde o Estado o colocou em uma cela superlotada e insalubre. O torturou por anos.


A tese de Ônibus 174, exemplificada pela trajetória de Sandro, é muita clara: as organizações que deveriam reeducar os pequenos criminosos os convertem em criminosos violentos. Não fui eu quem formulou essa tese, diga-se de passagem. Foi o próprio Sandro, que a gritou em altos brados da janela do ônibus para quem quisesse ouvir.


Em Tropa de Elite tentei dizer que a mesma coisa acontece no âmbito da polícia. O Estado trata muito mal os indivíduos que se propõem a trabalhar nas organizações policiais. Paga pouco, treina mal, e os submete a uma cultura organizacional militarizada e kafkiana, que tolera a corrupção e estimula a violência. Como disse o capitão Nascimento: “Quem quer ser polícia no Rio de Janeiro tem que escolher: ou se omite, ou se corrompe, ou vai pra guerra”. Tanto a violência e o desrespeito aos direitos humanos do capitão Nascimento quanto a corrupção desenfreada do capitão Fábio são forjadas no mesmo lugar, pela mesma organização. Certa feita um governador do Rio de Janeiro disse a mim e ao jornalista Rodrigo Pimentel que Tropa de Elite era um filme demasiado pessimista. Em sua opinião, a PM do Rio não era tão corrupta quanto pensávamos. Pelas suas contas, um terço dos policiais do Rio é corrupto, outro terço é honesto, e o restante variava conforme o comando. Se a PM do Rio tem mais de 13 mil homens corruptos, então o problema não são seus homens, é a organização. Os policiais do Rio de Janeiro são vítimas da PM.


A tese de Tropa de Elite, instanciada na trajetória do aspirante André Mathias, é igualmente óbvia: as instituições que deveriam combater a criminalidade convertem boa parte das pessoas que trabalham nelas em policiais corruptos e violentos. Fazem isso com grande eficiência e em altas taxas.


Acredito que cada um dos casos simbólicos que listei, de Vigário Geral à tomada da Vila Cruzeiro, ilustra essa tese. Cada um deles envolve traficantes, policiais corruptos e policiais violentos cuja subjetividade e comportamento criminoso foram moldados por instituições do Estado.


Fiz um terceiro filme, Tropa de Elite 2, para tentar dizer por que o Estado funciona assim. Em Tropa de Elite 2 o capitão Nascimento é promovido a subsecretário de inteligência e obrigado a lidar com as conexões que existem entre a polícia e a política. São essas conexões, muitas vezes calcadas em interesses e lógicas eleitorais, que criam e mantêm as instituições que descrevi nos filmes anteriores.


Voltando ao mundo real, deixo claro que apoio as UPPs e sou favorável a esse projeto do governador Sérgio Cabral. Reconheço que ele é fundamental para recuperar o território que o tráfico tomou. Acredito que o Rio não pode recuar no primeiro confronto. Todavia, acho que o projeto das UPPs é apenas meio projeto, e não um projeto inteiro. Onde está a reforma da polícia? Não a maquiagem, mas a reforma concreta, o programa eficiente de seleção e treinamento de policiais, o programa de capacitação profissional, o pagamento de salários dignos, o seguro saúde e o auxílio-educação para as famílias dos policiais? Onde está a corregedoria que funciona? Onde está a reforma do sistema prisional? A capacitação dos agentes penitenciários? A reforma do sistema socioeducativo? A boa formação dos seus operadores?


O projeto das UPPs é fundamental para a sobrevivência do paciente, mas ignora as causas da doença. Na ausência de uma real reforma das instituições que mencionei, o esforço e o engajamento da população carioca no projeto das UPPs pode ser em vão. Afinal, quem vai ocupar as comunidades libertadas? A mesma polícia que conviveu com o tráfico de drogas na cidade por mais de 30 anos, o viu crescer e se expandir e o deixou se instalar. O projeto das UPPs não é um projeto da polícia, é um projeto do governo. O que garante, no médio ou no longo prazo, quando este governo sair e outro entrar no lugar, que as UPPs não se tornarão áreas de milícia?


Eu me lembro, na ocasião do Ônibus 174, que o então presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, foi à TV prometer um plano nacional capaz de reformar as instituições ligadas à segurança pública em todo o Brasil. Teve dois mandatos para cumprir a promessa, e não o fez. Depois veio o atual presidente Lula, do PT. Apresentou um Plano Nacional de Segurança bem bolado, escrito pelo professor Luiz Eduardo Soares. Estamos ao final do seu segundo mandato e o plano continua engavetado. Finalmente, não vamos esquecer o PMDB, do governador Sérgio Cabral, que em ambos governos nada propôs de significativo na área da segurança. A verdade é que nos últimos 30 anos nossos políticos ficaram vendo inocentes morrer. Lavaram as mãos.


O que aconteceu no Rio de Janeiro nessa semana foi significativo. Creio que vai acontecer de novo se o governador insistir com as UPPs. E, como a Copa do Mundo e a Olimpíada estão aí, não há outra alternativa viável. Os confrontos serão inevitáveis e recorrentes. Espero que esses confrontos sirvam para, além de libertar comunidades carentes, forçar o governo federal a entrar de cabeça na luta contra o crime e implementar um plano de nacional de segurança sério, capaz de resolver de uma vez por todas o problema da segurança pública no Brasil.


JOSÉ PADILHA É CINEASTA E DIRETOR DE 'ÔNIBUS 174', 'TROPA DE ELITE', 'TROPA DE ELITE 2', 'GARAPA' E 'SEGREDOS DA TRIBO'
Tá tudo dominado, mas, cadê os bandidos?
Emanoel Barreto

Polícia invade Alemão: forças atuam em conjunto com Marinha, Exército e Aeronáutica (Felipe Dana)
O UOL diz: O comandante geral Polícia Militar do Rio de Janeiro, Mario Sergio Duarte, afirmou neste domingo (28) que as forças de segurança que entraram no Complexo do Alemão, dominada por criminosos ligados ao tráfico, retomaram o território pouco tempo depois do início da incursão. Segundo ele, houve pouca resistência nessa fase e agora começa a varredura casa a casa.

 "Vencemos. Trouxemos liberdade para o povo do Alemão", disse ele a jornalistas. "Não tivemos dificuldade. Tivemos cobertura dos helicópteros e os blindados fizeram o seu papel", disse Duarte. Outros policiais no local também celebraram a tomada pelas forças de segurança.

Apesar das declarações, não é possível saber se todas as posições de criminosos dentro da favela foram tomadas. O cerco continua e a fase mais perigosa pode ser a de varredura. Até agora, nenhum traficante apareceu preso ou morto.
......

A ação firme das forças de segurança permitiu o domínio do Complexo do Alemão. Ao contrário do que fora informado pelo comando da operação, a invsão não se deu à noite, mas às 8h30 de hoje. Vem agora a fase de varredura casa a casa.

Passada a fase operacional,  as pessoas passarão a viver, quando as tropas forem retiradas, a fase seguinte: constatar em seu cotidiano se os bandidos foram realmente embora ou se voltarão a se reagrupar. Pelo que se dizia nos noticiários, pelo menos 800 criminosos estariam homiziados no Alemão, mas não se tem notícia de enfretamento maior. Para onde foram eles? O jornalismo do front até agora não deu essa resposta nem parece ter questionado as autoridades o motivo de não ter havido o enfrentamento esperado.

informações indicando que teriam escapado por sistemas de esgotos, o que demonstra que a operação teve falha de planejamento: ao que parece, não se levou em conta, além do enfrentamento, a fuga, e por onde esta poderia ocorrer. Será preciso acompanhar o noticiário e o desenvolvimento das ações para ver se isso se configura, explicando-se o motivo de não ter havido enfrentamento.

Como ficou dito no início desta matéria, o UOL afirma que não há condições de saber se todas as posições foram tomadas. A proibição de sobrevoo de helicópteros de jornalistas impede a imprensa de fazer verificações, ficando os jornalistas a depender das informações dos comandandes das tropas.

A questão é o day after, a volta ao cotidiano. Aí entram manutenção da segurança permanente, serviço de inteligência e ação do Estado no plano social. Sem isso, tudo voltará. E pode voltar por meio de atitudes de desfaçatez: o império das milícias, esse misto de criminosos e policiais que exploram os moradores da favelas. A polícia precisa se livrar dessa banda podre.

É ação de longo prazo, que envolve também assistência ao policial, valorização profissional, promoção social também daquele que defende a lei, a fim de que não seja tentado a se corromper.

Imagens ao Vivo da ocupação do complexo do Alemão

sábado, 27 de novembro de 2010

Leio no portal Terra e compartilho: os criminosos parecem não estar dispostos a se entregar, apesar de esforços do coordenador do movimento Afroreggae, José Júnior. Ao invés de obter sinais de boa vontade dos marginais, recebeu ameaças. Leia a matéria:

RJ: coordenador do AfroReggae diz que recebeu ameaça de presos
Luis Bulcão Pinheiro


O coordenador do AfroReggae, José Junior, afirmou no final da tarde deste sábado que ficou muito chateado porque recebeu uma carta do presídio federal de Catanduvas, no Paraná, com ameaças pelo trabalho de tentar tirar as pessoas do tráfico. Ele deixou a favela da Grota, no Complexo do Alemão, por volta das 18h após tentar negociar a rendição de traficantes.

O olhar do soldado (Sérgio Moraes)
José Junior chegou ao Complexo do Alemão no início da tarde deste sábado, para auxiliar na negociação da rendição dos criminosos. Ele subiu a comunidade, passando pelas barricadas da polícia e disse que foi tentar resolver o problema. O coordenador do AfroReggae não deu detalhes de quando recebeu a carta e sobre o conteúdo das ameaças.

Mais cedo, o comandante do Batalhão de Choque Polícia Militar do Rio, coronel Waldir Soares Filho, disse que acredita que há a possibilidade que traficantes tentem passar pelo bloqueio da polícia, ao invés de se entregar, conforme o recomendado. "A hipótese mais real é essa, de tentar passar sem ser identificado", disse.

De acordo com o comandante, a recomendação é de que os traficantes se rendam apresentando as armas sobre a cabeça como determinam as normas internacionais. Segundo ele, até o momento ninguém se apresentou dessa forma. Desde o início dos ataques, no último domingo, pelo menos 38 pessoas morreram em confrontos no Rio de Janeiro.



Os ataques tiveram início na tarde de domingo, dia 21, quando seis homens armados com fuzis abordaram três veículos por volta das 13h na Linha Vermelha, na altura da rodovia Washington Luis. Eles assaltaram os donos dos veículos e incendiaram dois destes carros, abandonando o terceiro. Enquanto fugia, o grupo atacou um carro oficial do Comando da Aeronáutica (Comaer) que andava em velocidade reduzida devido a uma pane mecânica. A quadrilha chegou a arremessar uma granada contra o utilitário Doblò. O ocupante do veículo, o sargento da Aeronáutica Renato Fernandes da Silva, conseguiu escapar ileso. A partir de então, os ataques se multiplicaram.

Na segunda-feira, cartas divulgadas pela imprensa levantaram a hipótese de que o ataque teria sido orquestrado por líderes de facções criminosas que estão no presídio federal de Catanduvas, no Paraná. O governo do Rio afirmou que há informações dos serviços de inteligência que levam a crer no plano de ataque, mas que não há nada confirmado. Na terça, a polícia anunciou que todo o efetivo foi colocado nas ruas para combater os ataques e foi pedido o apoio da Polícia Rodoviária Federal (PRF) para fiscalizar as estradas. Foram registrados 12 presos, três detidos e três mortos.

Abaixo, a crônica da zona de tiro no Rio. E uma seleção de fotos do conflito.

Bandidos regem e confronto bate resistência do tráfico (Sérgio Morais)
Leviatã chegou: Apocalipse now para o crime no Rio
Emanoel Barreto

Leviatã chegou às ruas do crime no Rio. A mão pesada do Estado finalmente se fez sentir, implacável e necessária, sobre aqueles que aterrorizavam aquela infeliz metrópole.

Estava na hora daquela gente bronzeada mostrar seu valor: e em meio a tiros, explosões e presença firme do Poder, com apoio pessoal do presidente Lula, os criminosos estão finalmente em desvantagem.

Leviatã chegou. O Apocalipse dos bandidos parece ter soado. Não é o momento de recuar. Não é um confronto entre exércitos; é um combate contra um magote de homicidas armados e perigosos.

Leviatã chegou. A ofensiva contra os bandidos homiziados no Complexo do Alemão terá, neste final de semana, contornos mais intensos e dramáticos, é o que dizem as informações. Teme-se também que agressões sejam feitas nas ruas para tentar aterrorizar a população neste sábado/domingo.
Policial do Bope patrulha em área de conflito (Fernando Bizerra)

Nos jornais diz-se que os homicidas querem "negociar" antes que as tropas invadam e dominem por completo o Complexo do Alemão. Não é mais o tempo para isso. As tropas das Forças Armadas e da Polícia não podem, sob pena de pôr tudo a perder, acatar essa "negociação". Os resultados psicossociais seriam pesadíssimos e permitiriam à hidra o renascimento de muitas cabeças em pouco tempo.

Soldado do Exército (Antonio Scorza)

Clima de perplexidade tomaria conta das pessoas honradas que vivem naquela área: "Quer dizer que nos fizeram passar por tudo isso, ficar entre dois fogos, morrermos, para, no fim, entregar aos bandidos a vitória moral desse confronto?" - essa seria a grave indagação a percorrer a espinha dorsal arrepiada da opinião pública local e de todo o país.

A tragédia brasileira nos levou a tal situação. A omissão das elites, em sua busca de lucro sem limite e sem senso de consequencias históricas, permitiu o surgimento desse quadro de calamidade. Mas, objetivamente, temos um dado desolador de violência dos criminosos e, diante disso, não é possível contemporizar.

Simplesmente, não dá mais para conviver com tal estado de coisas. E, sendo assim, pelas mãos do presidente Lula, Leviatã chegou.

Jamais se vira tamanha e tão bem organizada atuação do Estado. Os criminosos estão acuados. E vão perder. Leviatã chegou.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Leio na Folha e compartilho:

Rio, Brasil

Janio de Freitas
JÁ FIZERAM com os passageiros de ônibus, há pouco tempo, agora repetem com os de uma van: jogam a gasolina e tocam fogo sem esperar que os passageiros desçam. Desta vez, quatro não conseguiram sair antes de sofrer consequências do incêndio. É possível entender esse grau de perversidade?


Doze mortos. Um horror, como um confronto em qualquer frente de combate militar, mas ocorrido na região da velha e tão cantada Penha.


Já ontem mesmo, "especialistas" -como agora se diz à vontade na imprensa- criticaram a violência mortífera da polícia. Têm razão quanto à violência e à adjetivação, mas se calaram antes de dar resposta a uma pergunta. Denúncias levaram à busca de alguns dos incendiários, que receberam a polícia a bala e se deu o longo combate. Como deveriam ser buscados?


Os bandos de criminosos armados já ultrapassaram há muito tempo as condutas da marginalidade voltada para o assalto, o roubo, o latrocínio, a fuga ao cerco ocasional.


E, sem rapapés, a verdade simples é que os bandos do crime bem armado já não deixam margem alguma para serem enfrentados com padrões menos bárbaros do que os seus próprios.


A urbanização de favelas, a melhoria de suas casas, as Unidades de Polícia Pacificadora, tudo isso é humanamente necessário, está bem feito onde foi feito e não deve parar. Mas, no seu aspecto de correção e prevenção de tendências a condutas marginais, começou muito tarde. A dimensão quantitativa e de criminalidade a que os bandos armados chegaram não permite, a esta altura, a espera pelos resultados do trabalho de reparação nas áreas contaminadas.


Será penoso, mas, sem ter pensado em tempo na reação aos governantes que fizeram de nossas cidades o que elas são, pelo visto estamos destinados a ir aceitando, cada vez mais, até que já nos seja indiferente, a solução mortífera como solução para nossa mínima segurança.


...
Está coberto de razão o jornalista. Não há como enfrentar esses criminsos, a não ser em cadeia de ação e reação. Firme e direta. Os bandidos estão organizados, atuam como terroristas, matam e traficam ante os olhos de uma sociedade que cada dia fica mais a ser sua refém.

A sociedade brasileira permitiu, pelas suas classes dominantes, que chegássemos a tal situação. Agora o governo do Rio faz, tardiamente, ação social nos amibientes de favela. Ação digna de crédito, urgente e necessária, diga-se. Mas, infelizmente, há um lado que assumiu o crime como forma de vida. Uma minoria, entenda-se, mas a cujos atos o cidadão dito comum está exposto, de forma cruel e vergonhosa.

O Estado tem sim obrigação de enfrentar a bala esses criminosos. É preciso apertar o cerco e aplicar, em todo o país, uma política de segurança pública. Existe, suponho, a possibilidade de que o crime entre em fase de migração do Rio e São Paulo para outros estados, uma vez que a ação da polític parece ter tornado insuportável sua sobrevivência naquelas cidades.

Os malfeitores são organizados, têm dinheiro e inteligência suficiente para perpetrar essa migração. Cabe agora uma ação federal, abrangente e forte, a fim de coibir que tais pessoas venham infernizar a vida de quem só deseja viver em paz.
Foto: http://tudoglobal.com/files/2010/11/Viol%C3%AAncia-no-Rio.jpg

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Terrorismo sem terroristas
Emanoel Barreto

As ações de extrema violência de criminosos no Rio de Janeiro parecem indicar que os bandidos estão a perder espaço e assim partem para atos que começam a se assemelhar aos de terroristas. Só falta começarem a explodir bombas em supermercados.

É que os bandidos não lutam contra a ordem em seu plano ideológico, não a contestam em sua matriz essencial. Antes, e apenas isso, tentam preservar seu naco de mercado: garantia de que continuarão o tráfico e certeza de impunidade aos assaltos.

Ou seja: de alguma forma reproduzem a ordem, uma vez que agem movidos pelo mesmo espírito capitalista que rege o sistema. Por isso não são assemelhados juridicamente a terroristas e como tal combatidos.

De qualquer forma as autoridades, agora quando se inicia um aparente ciclo virtuoso de vitórias, precisam manter o cerco e amplir as ações sociais onde os criminosos detinham o mando.

É preciso manter um aparelho policial amplo e de ações intensas, garantindo ao cidadão o direito de ir e vir. Pelo menos isso. É preciso também retirar da corporação policial sua banda pobre, os corruptos, os algozes; de farda ou não,  fim de que esse serviço público cumpra com suas finalidades.
Foto: http://www.google.com/imgres?

quarta-feira, 20 de outubro de 2010


O incidente que resultou em agressão ao candidato Serra, no Rio, é demonstrativo do quanto a campanha à sucessão presidecial se encaminhou a rumos estranhos à democracia. A ação, atribuída a supostos militantes do PT, é o resultado do rebaixamento dos níveis do debate, que escorreu da alta política para os descaminhos de discussões estéreis e histéricas acerca do aborto, vindas do PSDB. Virá agora a vitimização de Serra e, o incidente, seu martírio. O ato vai virar "atentado" e o não-discurso, o vazio de discussão provocada em torno de nada, será o mote dominante daqui por diante, é o que presumo. (EB)
Foto: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgKRkh-m_tq46OiGKbAwBTHY7_goN8b3TkhH3trDmImPV0C1Ufk1JO7IWksdsCUGP1Ae4UMqgI-HaDJIMj8Qwm5G9r2i9tb8SzL0ly3H8h9SIYaMVUJTaTgQjzZOea6VsbQm0W1/s1600/10293317.jpg

sábado, 24 de julho de 2010

A tragédia em Getúlio Vargas

Getúlio, Getúlio, Getúlio...
Emanoel Barreto

Estou relendo Getúlio, do jornalista Juremir Machado. Num extraordinário, estupendo trabalho de recopilação daquela quadra da história brasileira, ele nos leva num mergulho virtual aos últimos dias do caudilho.

As pessoas são personagens. Personagens históricos da tragédia deste país à beira-mar plantado. Misturando registros objetivos a licenças poéticas, vai desde o salão onde Getúlio comandou a última reunião do seu ministério aos ambientes boêmios do Rio, narra - com travessão - diálogos entre Jango e o filho do Presidente, Lutero; deambula pelas ligações do governo com o fascismo e o nazismo, evidencia o tropel de realizações getulistas em meio à brutalidade que perpetrou como ditador.

Trata-se de obra intensa. A miséria do Poder exposta a sangue pulsado. O drama humano, a queda, a débâcle que somos. Os homens se remexendo para permanecer mandando, escumando o ódio, a necessidade de permanecer... a necessidade de...

A releitura só fez fortalecer em mim a descrença em ídolos, em pessoas que se apresentam como salvadoras. A tragédia histórica do homem buscando encontrar soluções místicas ou quase isso em pessoas, em programas partidários, discursos inflamados, o povo como ator patético, coadjuvante.

Vale a pena ler ou reler Getúlio. De qualquer maneira, no Brasil o voto é obrigatório...