domingo, 17 de setembro de 2006

As Amélias pós-modernas

"A religião prestou ao amor um
grande serviço, fazendo dele um pecado."
Anatole France

Abaixo, um texto da Minha Mulher,
inédito e belo como um calice de pétalas.

Desde o lançamento da música “Ai, que saudades da Amélia”, de Ataulfo Alves e Mário Lago, pelos idos de 1942, a figura Amélia passou a representar, para a maioria dos brasileiros, mulher subserviente. O nome passou a ser verbete de dicionário, sendo citado no Houaiss e Aurélio, como sinônimo de "mulher amorosa, passiva e serviçal".

Você faz parte dessa maioria? Grande engano. Amélia existiu sim e foi descoberta pela revista "O Cruzeiro". Era uma lavadeira da família da grande intérprete da música brasileira Aracy de Almeida. Amélia era uma mulher do subúrbio do Rio de Janeiro, que sustentava sozinha nove filhos; talvez por isso não tinha tempo para vaidades.

Bom. Agora já sabemos que Amélia existiu e foi uma mulher de luta. Passemos agora a analisar a letra. De onde foi que tiraram todo esse preconceito contra a pobre Amélia?

A música, na verdade, só faz uma reclamação a uma mulher que não sabe ser companheira, que só faz exigências a um “pobre rapaz”, só pensava em ser vaidosa, ou seja, não somava, só subtraia. A vaidade, na letra, foi um detalhe observado em Amélia, a lavadeira. Afinal, como poderia ter vaidade aquela mulher?

Quando a música surgiu, em 1942, a mulher era uma figura voltada para as atividades do lar, vaidade, naquela época era só para as mulheres de classe mais abastada.
Os tempos passaram, as mulheres mudaram. Uma resolveu arrancar o sutiã e gritar independência. Os homens assustaram, deixaram de proteger porque muitas não queriam e ainda não querem ser protegidas. As mulheres foram à luta e se dividiram em dois times: as feministas e as Amélias pós-modernas. Não vamos entrar na questão do feminismo, acho isso muito machista.


Mas, que negócio é este de Amélia pós-moderna?

É aquela figura, que mesmo com toda a transformação social, que têm emprego, com dupla, tripla jornada ou não, não abriu mão da dedicação ao marido ou companheiro, não perdeu a ternura, o afeto.

Temos ainda aquelas que preferiram não ir para o mercado de trabalho, mas dedicar às coisas do lar, ir ao supermercado, cuidar dos filhos, receber o marido ao anoitecer, partilhar, somar e multiplicar. Dedicar não é subserviência, é afeição.

Não importa se a Amélia é aviadora, professora, frentista, diarista, taxista, se ela é do lar, ou se preferiu secretariar. O que importa é ser Amélia e, ser Amélia não é estar na frente ou atrás, mas ao lado, e não perder a feminilidade, doçura e a ternura.

Estou longe de ser perfeita, mas metade mim é Amélia, a outra também.
Terezinha Barreto

sábado, 16 de setembro de 2006

Na Ribeira, um defensor perpétuo da monarquia

No velho bairro da Ribeira, Natal tem um dos seus pontos onde a Segunda Grande Guerra de alguma forma se fez sentir. Muitos aventureiros abriram bares, o Wonder Bar foi palco e platéia de enormes brigas entre brasileiros e soldados americanos, todos devidamente bêbados e irados, aquela ira dos desordeiros, que passa quando a ressaca vai embora.

Ali, onde os cabarés eram portas abertas para o prazer comprado, todas as prostitutas foram literalmente verificadas pelos médicos americanos, para que não tansmitissem a seus homens qualquer malefício advindo das práticas do amor venéreo.

Todas foram cadastradas e fichadas: Natal, de alguma maneira, estava ocupada pelas tropas.

Já me contaram que os americanos, aproveitando-se de seu porte físico, costumavam provocar brasileiros, que estavam em evidente desvantagem.

Somente esqueciam que o desafio se voltava contra uma gente que tinha origem rural, nordestinos que ainda guardavam com zelo e honra de cavaleiro andante uma boa faca peixeira, cruzada nas costas e segura pelo cinto.

E assim, quando se viam na contigência de uma surra desonrosa, desembainhavam a lâmina, que fazia surgir no rosto do estrangeiro uma espécie de pavor e logo um grito: "No knife! No knife!", seguido de desabalada carreira.

Estou falando por ouvir contar. Na verdade, quero mesmo é falar de Manoel, um barbeiro que ainda hoje trabalha na velha Ribeira. Aos sábados, sempre por lá encontro um grupo de senhores que viveram a Segunda Guerra e me passam os comentários que reproduzi.

Manoel é uma grande figura. Em seu jeito simples, gestos cordiais, conversas amenas, é um defensor perpétuo da moralidade e dos bons costumes, especialmente no que diz respeito à chamada coisa pública.

Está tão descrente das coisas deste país, que se diz monarquista, ostenta o adesivo de uma coroa em um móvel da barbearia e sustenta, com singeleza dos ingênuos e dos dignos, que, se a coisa não deu certo depois da queda da Coroa, tudo deveria voltar a ser como dantes: só um rei, sustenta, tirará o Brasil da masmorra construída pela bandalheira e pelos corruptos.

Hoje é sábado; não vou poder passar no salão de barbeiro de Manoel, o Salão Potengi, homenagem ao rio amado e poluído que ladeia Natal e se atira em abraço ao Atlântico.

Mas certamente lá estarão aqueles senhores de sempre, falando contra o governo, os roubos, os escândalos. E lembrando as velhas figuras da cidade, uma cidade que era bela e menina e hoje, mulher feita, teme que suas ruas venham a se transformar em labirintos do medo e ninhos de angústias, essas coisas do PCC...

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Vestida para votar

"Se o povo não tem pão,
que coma brioches."
Rainha Antonieta,

Elegância, distinção, finesse e delicatessen na hora do lanchinho. Foi com esse look e comportamento que Sophia, filha do tucano Geraldo Alckmin subiu ontem a favela da Rocinha, no Rio, tentando ajudar o pai a arrebanhar votos à sua acanhada campanha pela presidência da República.

Li isso hoje na edição de hoje do JB on line. A menina vem a ser ex-gerente da Daslu, a mais chique loja do país, cuja clientela é composta por dondocas e ricaços, que ali encontram de tudo para satisfazer às suas necessidades narcísicas, à sua incontrolável vontade de parecer belos por fora, já que, por dentro, são seres moralmente ocos, cheios desse vazio que se chama consumismo.

A Daslu é aquela loja, aquela mesmo, que de vez em quanto vive aparecendo nos noticiários por fraudes, sonegação de impostos, contrabando, essas coisas, você sabe...

Diz o jornal: "No calor de quase 40°, a ex-gerente da Daslu, a loja mais cara do país, percorria as vielas da Rocinha. Com uma bolsa da grife italiana Prada atravessada ao corpo, Sophia passava despercebida entre casas e palafitas. Não seria assim, se estivesse só. Mas à sua volta estavam dezenas de seguranças e cabos eleitorais do pai, Geraldo Alckmin."

Seguranças, claro. Já pensou Sophia sendo abordada por algum moleque pedindo um pão? Sorry, periferia...

O texto mostra com clareza o nível de hipocrisia, desrespeito, até mesmo uma certa falta de decência por parte da moça. Dela e do seu pai. Aos 26 anos, ingressou na campanha certamente pensando que sua elegância será suficiente para impressionar outras jovens da favela, para que comprem objetos de uso iguais aos seus.

E, identificando-se com aquele ícone humano e exuberante, venham a adotar um comportamento igual ao seu na hora de votar, a partir da um raciocínio: seja elegante, vote Alckmin.

É sabido que, na sociedade massificada de hoje, produtos de marca são logo pirateados, para atender a um público de baixo poder aquisitivo que, na tentativa de imitar os setores de elite, compram em camelôs objetos similares.

É a reprodução do comportameto e way of life, o discreto charme da burguesia, enganando, pela reprodução falsificada de seus costumes, aqueles que, não podendo ter uma vida melhor, plastificam suas próprias vidas, obscuredendo intimamente seus dias de pobreza. E, com isso, o povo vai sendo levado na conversa.

Considero esse tipo de comportamento uma ofensa, uma afronta, uma agressão àqueles que têm no voto o único meio de tentar mudar a vida desse país. O JB diz ainda que o acessório da jovem, a tal bolsa, custa 1.500 reais, equivalente a cinco meses de aluguel em uma casa de quarto e sala na Rocinha.

E mais: informa que a filha do candidato exibia no visual tênis verde, calça jeans e blusa azul. Tudo, certamente, das melhores grifes da Daslu. Não sei, mas, na dificílima hipótese de eleição de Alckmin, certamente Sophia deverá ser nomeada para algum Ministério da Elegância e Etiqueta.

Afinal, como Maria Antonieta na França, ele certamente entende que o povo - quando pode - come pão. Mas sabe que, em locais distintos, poderia muito bem comer brioches. Então, por que o povo não come brioches? O povo brasileiro precisa refinar seu paladar, conhecer cartas de vinho, usar melhor os talheres. Realmente, não dá para entender o mau gosto dessa gente.

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

A Menina Solitária nunca foi santa

Se você gosta dos filminhos do You Tube e acredita em tudo o que vê por lá, leia a matéria abaixo, transcrita do Estadão. Em seguida, comento.

SÃO PAULO - Ela mostra seu quarto em vídeos na Web. Olha diretamente para câmera, faz confissões pessoais, fala da família, do amigo Daniel. "Nunca fui numa festa", diz num dos vídeos.

Talvez seja a sinceridade com que conversa. Talvez seja a solidão, patente em seu nome (garota solitária, na tradução literal) e em suas confissões para a webcam, que fizeram seus vídeos serem assistidos milhares de vezes por visitantes do portal.

Pena que lonelygirl15 não passe de mais uma criação de uma agência, numa tentativa de capturar o chamado efeito viral, que faz com que vídeos engraçados ou irônicos caiam no gosto popular e se espalhem como febre com menção em blogs e por redes de e-mail e mensagens eletrônicas.

O assunto só veio à tona nas últimas semanas, quando blogs e sites especializados começaram a debater se a história era verdadeira. Tudo veio abaixo quando três fãs, motivados pela curiosidade, rastrearam um e-mail enviado pela garota, apenas para descobrir que a mensagem havia saído da agência de talentos Creative Artists Agency, de Beverly Hills.

A história chegou depois ao Los Angeles Times, que questionou a CAA pela história. A empresa, afirmou que "não confirmaria nem negaria estar envolvida com os vídeos da lonelygirl15."

A confissão veio só agora, em matéria publicada pelo jornal The New York Times: a adolescente, que dizia se chamar Bree, é a atriz Jessica Rose. Segundo a matéria, o vídeo é parte de um projeto piloto do que deverá se tornar um filme.

E que pode ter sucesso duvidoso, já que é difícil prever que os fãs da garota solitária continuarão a acompanhar seus comentários agora que se sabe que tudo não passou de uma armação.

ARMAÇÃO ILIMITADA
A capacidade de falseamento da realidade está tomando rumos extremamente perigosos. E a internet está se tornando o ambiente de comunicação ideal para esse tipo de comportamento. O computador, interligado à grande teia, funciona como elo de uma corrente que une pessoas que jamais se conhecerão, jamais trocarão uma palavra, mas estão virtualmente unidas. Uma relação instável, mas sempre uma relação.

O caso da menina solitária é bastante típico: uma pessoa que não se sabe exatamente em qual ponto dos Estados Unidos se encontra, de repente aparece mostrando seu quarto, expondo sua intimidade, falando de si, insinuando solidão e sofrimento, ao mesmo tempo em que se escondia.

Estava escondida pois o nome não era declinado, apenas usava um indicativo para suscitar alguma forma de sentimendo de atração, piedade, solidariedade, curiosidade ou simplesmente voyeurismo consentido.

Na verdade ela não se queria presença, antes se propunha enigma: "Onde estou? Você jamais descobrirá...Você não me vê, apenas aprecia a minha imagem..." Essa era a verdadeira mensagem da Menina Solitária.

Por trás disso tudo havia todo um sistema de - a expressão é forte mas creio que é essa mesmo - depravação comunicacional, voltado para o tal efeito viral: o espalhar de uma informação na net objetivando formar e manipular público.

Criava-se um fetiche, uma menina-fetiche, um pastiche de ser humano. Ela falsificava um ato relacional, com não se sabe exatamente quantas centenas de milhares de pessoas em todo o mundo. Todas vendo um holograma comportamental. O que ela diria na próxima aparição?

O computador é uma tela por onde podem entrar a magia e a cidadania; mas é também a porta por onde se invade a mais íntima privacidade do ser humano: sua boa fé e seus sentimentos de solidariedade, seu afeto.

A Menina Solitária feriu fundo corações e mentes, somente para servir ao deus mercado e para atender a seus inescrupulosos sacerdotes de mãos de dólar.

terça-feira, 12 de setembro de 2006

O espetáculo do sofrimento cintilante

O Bom Dia Brasil de hoje repercutiu a entrevista televisiva da jovem Natascha Kampusch, a austríaca hoje com 18 anos, que ficou oito anos em cativeiro após ser seqüestrada por um homem que assim a manteve, presa a um cubículo suberrâneo.

As informações da Globo indicavam que ela controlou todo o espetáculo. Estava bem informada a respeito de atualidades, agiu com plena convicção e controle de gestos e palavras: escolheu as perguntas a que responderia, definiu posturas, dialogou com firmeza com a equipe de produção do programa e soube se impor como estrela de seu próprio drama. Está ganhando muito dinheiro. Integrou-se ao circo midiático.

Seu pai, ainda segundo a Globo, também está ganhando dinheiro, só que para criticar a filha, quando afirma que ela está se expondo muito e que deveria se cuidar mais, atentar para seu estado psicológico...

Trata-se de um jogo, uma perversão jornalística, onde todos falsificam sua realidade, objetivando falsificar a realidade dos demais. É a sociedade do simulacro, como diria Boudrillard, o imaginário impulsionando a ficção da realidade.

Logo, logo vem aí um livro, a Globo também confirmou.

O gesto de vender a própria miséria é degradante. E quando mais se ganha esse dinheiro, mais se empobrece quem com ele se enriquece. A exuberância da dor, mais do que nunca, está rendendo dinheiro.

Mais de 400 veículos de comunicação do mundo queriam uma entrevista. Só que isso, esse espetáculo de sofrimento cintilante, não é informação. É degradação a olho nu. Aparentemente, ela não está sofrendo. Creio mais que está sorvendo.

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

Nem Nova Iorque, nem Hiroshima, nem Nagasaki

"Creio que estamos num caminho
irreversível para mais liberdade e democracia.
Mas as coisas poderão mudar."
Presidente George Bush

Os Estados Unidos relembram hoje a tragédia do 11 de setembro de 2001, quando Nova Iorque sofreu pesadamente, tal qual num daqueles filmes em que criaturas como o King Kong promovem detruição e morte, pavor para todos os lados.

O ataque de Osama bin Laden às Torres Gêmeas e ao Pentágono foi um terrível, brutal discurso à sociedade americana, dizendo-lhe até que ponto a violência anti-americana poderá ser acionada.

A semiologia da morte, o texto da intimidação, a manchete de terror gritada em milhões de bocas em todo o mundo, que assistiu pela TV, ao vivo, à queda das Torres Gêmeas, foi uma espécie de telejornalismo pós-moderno, quando a hecatombe chega e traga a todos que a assistem.

Ali não havia telespectadores: em qualquer parte do mundo, quem quer que assistisse o espetáculo da barbárie, era uma vítima também.

Houve ali, pelo efeito-resposta à presença americana no mundo, à forma como se dá essa presença, a globalização da violência. Repartiu-se a dor de forma a atingir a todos os americanos, seja em seus corpos, seja em suas mentes.

O discurso de Osama ofendeu a um sentimento coletivo muito forte aos americanos: seu patriotismo; a Pátria-Mãe foi atingida em sua intimidade, penetrada fundo em seu território de afetos e patrimônio simbólico.

Espera-se que a brutalidade não se repita. Como também se espera que não se repitam Hiroshima e Nagasaki. Nunca mais. Em nenhuma parte do mundo.

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

A prisão que se move

"A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz.
O passado só se deixa fixar como imagem
que relampeja irreversivelmente,
no momento em que é reconhecido."
Walter Benjamin

O texto a seguir está no blog de Mino Carta. Dá um toque do surrealismo da cena brasileira, como uma pincelada sutil de pintor de gênio.

Os cidadãos e os elevadores
Já me permiti dizer que o Brasil é o único país do mundo onde os jornalistas chamam os patrões de colegas. Exemplo clássico: Roberto Marinho, também conhecido como “o nosso companheiro”. Outra faceta única está na maneira pela qual inúmeros cidadãos nativos tomam elevadores. No térreo, pretendem entrar antes que os ocupantes saiam, o vigor de sua atuação em inúmeras oportunidades os faz bem-sucedidos. Não excluiria a possibilidade de que haja indivíduos combalidos, e até inteiras famílias, a viverem dentro dos elevadores há anos, e mesmo há décadas. Adaptaram-se, conformaram-se, resignaram-se. Às vezes sorriem. O brasileiro é cordial.

Perdidos no espaço
A estranha realidade dos tempos de hoje em dia talvez dê razão a Mino Carta, ao estimar, como num labirinto borgiano, a possibilidade de famílias inteiras estarem vivendo em elevadores há décadas, uma vez que, sempre que tentam sair, aqueles que entram nos elevadores, com arte truculenta, vigor e força, as empurram outra vez para dentro.

Imaginemos então um elevador assim, cheio de pessoas, de famílias, de gente que não consegue sair de lá. Para caber tanta gente, será necessário que o elevador cresça para dentro do edifício, transformando-se num grande, profundo e sombrio corredor, onde pessoas se amontoam.

A cordialidade, então, se teria transformado em submissão, permitindo essa viagem insólita. Vivemos tempos estranhos, se é que, alguma vez, este mundo foi são, equilibrado e justo.

Por precaução, quando for entrar num elevador, procure ficar logo perto da porta e, rápido como um raio, escape, assim que ela se abrir. Não perca sua vida por delicadeza.

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

O epílogo da decência

"As pessoas que falam muito mentem sempre,
porque acabam esgotando seu estoque de verdades."
Millôr Fernandes

A Gazeta Mercantil traz, com a naturalidade de um jornal dedicado ao mercado, ou seja, sem qualquer visão crítica ou noção de absurdo, a matéria: "Viagra passa Cialis e volta à liderança." O absurdo aqui tratado, não é qualquer visão moralista a respeito de uma matéria sobre um remédio contra impotência.

Esse jornalismo é flagrado em sua forma até mesmo surrealista, pelo fato de anunciar, de forma acrítica e cínica, que duas empresas de medicamentos, utilizando-se de uma visão apenas mercadológica, colocaram uma parcela da população masculina brasileira não na condição de clientes de um medicamento, mas enquanto consumidores. Ou melhor: pacientes viraram nicho de disputa de marcas.

Leia um trecho da matéria: "Com ofensiva mais agressiva da Pfizer em julho, remédio para impotência vende mais. A disputa pela liderança do mercado brasileiro de medicamentos para tratar a impotência sexual fica mais acirrada entre as multinacionais norte-americanas Pfizer, que desenvolveu o pioneiro Viagra, e a Eli Lilly, que há pouco mais de três anos lançou o concorrente Cialis.

"Viagra, que no primeiro semestre deste ano havia perdido a primeira posição do ranking em faturamento para o remédio da Eli Lilly, retomou ligeiramente a colocação no acumulado de janeiro a julho, conforme o IMS Health, empresa que audita as vendas do setor. No período, faturou R$ 99,86 milhões, ou 41,6% do total do mercado, de R$ 240 milhões. Cialis vendeu R$ 98,93 milhões, detendo 41,2% de participação."

A notícia informa também que os fabricantes do Viagra estão tranqüilizando os médicos quanto à prescrição do medicamento com a exemplar informação de que este pode ser utilizado sem restrição a qualquer tipo de alimento e, veja só, pode-se beber à vontade. O consumo de álcool não traz qualquer problema. Mais claramente, o produto pode ser consumido paralelamente ao álcool, em hotéis, motéis, em meio a uma farra... Ainda a esse respeito da Gazeta informa:

"Quando os concorrentes (disputam esse mercado também o Levitra, da Bayer, e Vivanza, parceria da Bayer e Medley Indústria Farmacêutica) chegaram ao mercado ressaltaram muito isso e criou-se uma impressão, não por culpa deles, é claro, que Viagra não podia. Então, estamos reforçando essa posição."

O que se percebe, a partir as declarações aspeadas, é que os executivos do Viagra - e dos seus concorrentes - estão unicamente disputando mercado. O mundo chegou a um ponto em que o capital perdeu tão completamente qualquer noção de ética e respeito humano, que a disfunção de alguém foi transformada em potencial de consumo.

Segundo a notícia, é grande o esforço publicitário junto aos médicos, a fim de que o Viagra continue a ser uma marca preferida. Uma marca, um produto, não um medicamento. Um produto, tanto quanto uma pastilha de freio que seja apresentada como a melhor para o seu automóvel.

Veja um pouco mais do texto da Gazeta, agora a partir do ponto de vista do concorrente do Viagra: "A gerente de marketing para Cialis da Eli Lilly, Alessandra Batalha, considera que a diferença no acumulado do ano que deu a liderança à Viagra é muito pequena. "Do nosso ponto de vista é um empate técnico." A executiva afirmou que a empresa acredita na retomada da posição para Cialis, destacando que no acumulado do ano em número de comprimidos vendidos o medicamento cresceu 17,4%, enquanto Viagra caiu 9,1%, ante igual fase de 2005. "Os números mostram que podemos bater o concorrente novamente e consolidar a liderança neste ano."

Trata-se de um cinismo cruel e sem limites. Afinal, lamentavelmente, chegamos ao epílogo da decência, como diria o jurista Luís Lopes de Oliveira Filho.

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

A Paz em lugar do horror

O jornalista e poeta Walter Medeiros envia o poema Paz. Espera ver a Paz sendo notícia no jornal. Digo o mesmo.

No chão úmido de um outono triste,
Vejo a beleza das folhas ao chão,
Sentindo comigo aquela emoção,
Que em mim tão forte inda existe.

Na TV, os horrores da guerra,
Que jamais pensaria em ver,
Mas que agora veio acontecer,
Impedindo a paz sobre a terra.

Luta insana de homens sem lei,
Que insistem com um ar imperial,
Em mostrar que detêm tanto poder.
Mesmo assim inda acho que verei,

Qualquer dia num telejornal,
A notícia de que a paz vai nascer.

domingo, 3 de setembro de 2006

Quando o sofrimento vira lucro

"A dor da gente não
sai no jornal."
Trecho de MPB

A notícia abaixo é do Estadão. Os comentários virão após o texto, cuja leitura mostra o quanto a vida tornou-se um espetáculo e o mercado invade até mesmo o campo do respeito à intimidade mais dolorosa e merecedora de resguardo.

VIENA - A jovem Natascha Kampusch falará na próxima semana (esta semana) na televisão austríaca sobre seus mais de oito anos de cativeiro no porão da casa de seu seqüestrador, Wolfgang Priklopil, de quem escapou em um momento de distração deste.

Durante 20 minutos, a moça, que hoje tem 18 anos, explicará diante das câmaras da emissora pública de televisão ORF as aflições e o desespero que sofreu durante os 3.096 dias que passou presa em um minúsculo calabouço construído por Priklopil.

A imprensa local contou neste sábado que, desde que fugiu, Natascha ficou sob os cuidados intensos de uma equipe de terapeutas e psiquiatras em um lugar secreto de Viena e afastada da imprensa, que lhe fez mais de 300 pedidos de entrevistas.

Para acabar com o assédio da mídia, a jovem, aconselhada por especialistas, optou por conceder uma entrevista sobre seus anos como prisioneira do engenheiro de telecomunicações de 44 anos, que cometeu suicídio se atirando na frente de um trem no mesmo dia em que ela fugiu, em 23 de agosto último.

Depois da entrevista, que "não durará muito mais de 20 minutos" - segundo o assessor de imprensa de Natascha, Dietmar Ecker -, a televisão austríaca venderá a fita e os direitos de exibição à imprensa internacional.

Um circo de horrores
Ao ler o segundo parágrafo da matéria, a impressão que se tem é que, dado ao estado emocional da jovem, a TV estatal seria o órgão de comunicação mais apropriado para tratar esse tipo de informação. Como TVs estatais não têm por objetivo o lucro, pelo menos em princípio, a finalidade da matéria seria, unicamente, expor a público um caso chocante de desumanidade, sob a ótica de um jornalismo humanista, para que a vítima se expusesse e impregnasse corações e mentes das pessoas com a sua dor, percebendo, de alguma maneira, solidariedade e amparo vindo dos demais seres humanos, já que a matéria deverá ser exibida globalmente. E pronto. Caso encerrado.

Na seqüência do texto, entretanto, percebe-se que a informação a respeito da entrevista, após "mais de 300 pedidos", foi prestada pelo "assessor de imprensa" de Natascha. Nesse ponto a questão muda de figura: assessores de imprensa custam caro, seu objetivo não é representar doentes ou vítimas, mas personalidades ou entidades que por algum motivo procuraram ou se tornaram alvo do interesse da mídia. Assessores de imprensa são jornalistas que administram fatos, tanto quanto um empresário administra investimentos.

Mais: as características espetaculares da entrevista assumem seus contornos mais claros quando se tem a informação de que a TV estatal ORF venderá os direitos de exibição da entrevista.

Detalhe: a entrevista não terá mais que vinte minutos. O motivo é de ordem técnico-jornalística e também mercadológica, ou seja: trata-se de informação mitigada. E por um motivo muito simples: vinte minutos serão nitidamente insuficientes para que ela exponha todo o seu drama.

Num tempo tão curto assim, ou ela conta a história, de forma resumisíssima, ou fala do seu desespero íntimo, de como viveu internamente aqueles dias terríveis, perdida no labirinto interno de suas angústias. Com isso, ganha-se em expectativa, estima-se a possibilidade de uma nova e rentável aparição, para dar continuidade à história.
É o que em publicidade se chama de teaser: o enigma, a tentação, a curiosidade não totalmente satisfeita. O que teremos a seguir? Vamos ver pelas frinchas da vida...

Frente ao que foi dito, permite-se a suposição de que a moça está participando conscientemente de todo o processo midiático. Sabe que foi montado um circo de horror-show ao seu redor e está desfrutando de maneira mórbida e esperta toda a lucratividade dos seus quinze minutos de fama. Quem sabe, no futuro venha um livro? Já pensou num filme?

Com tudo isso, a TV pública austríaca coloca por terra, pelo menos em relação a si própria, o conceito de jornalismo público, que repudia o sensacionalismo, a exploração barata (nesse caso nem tanto) da miséria humana, o imediatismo, a crueldade jornalística.

A dar-se crédito à matéria do Estadão, que publicou texto da agência EFE ontem, há algumas contradições: se a jovem estava em "local secreto", não estaria sofrendo assédio da imprensa. Se alguém está assim, tão escondido, como pode estar sendo assediado? Como teria recebido mais de "300 pedidos de entrevista", se ninguém podia com ela se comunicar?

Surge então a figura de um assessor de imprensa, para cuidar do assunto. É essa figura quem dá a pista para a orquestração que estava sendo montada. Se a moça não queria falar à imprensa, que se mantivesse distanciada, oculta, buscando na seqüência de sua vida o direito a se manter em anonimato. Por que o assessor de imprensa? Por que esse canal de comunicação com o ambiente de mídia? Por que ela tem interesse, sim, em se expor.

É aí que se configura a organização, o fato administrado, a situação jornalisticamente cifrada, o atiçamento da curiosidade popular, como num espetáculo chulo, onde alguém ou algo disforme ou licencioso está em exibição. Seu declaratório, a se confirmar a informação, deverá ser pungente, tocante. Sua gestualidade, corporalidade, expressão facial comporão um todo performático, um tipo, uma personagem. É isso o que espera a mídia, é isso o que espera agora o circo, no sentido romano do termo: o cruento espetáculo de alguém se despedaçando.

Ou eu estou muito errado, ou há algo de podre no reino dessa dinamarca.

sexta-feira, 1 de setembro de 2006

Na novela eleitoral, tem pouca gente prestando atenção

"Nunca é tão fácil perder-se como
quando se julga conhecer o caminho."
Provérbio chinês

Os jornais têm noticiado os baixos níveis de audiência do horário eleitoral. Em comunicação de massa é preciso que exista, entre o formulador da mensagem e seu destinatário, empatia suficientemente forte por parte do comunicador para que se forme um vínculo entre emissão e atenção. E isso não está acontecendo. O que no Brasil se convencionou chamar de classe política passa por um momento histórico que coloca o candidato na condição muito mais de suspeito do que sujeito interessado em lutar pelo bem comum.

Além disso, informam os jornais que também é baixo o índice dos que se decidem pelo voto a partir da propaganda pela TV ou rádio. Desta forma, baixa empatia e pouca audiência formam um complexo que obriga o político a buscar votos na rua, com passeatas e caminhadas. O discurso de mídia tornou-se peça acessória.

A mensagem televisiva, em sua formulação histórica, aparentemente esgotou ou esvaziou em muito seu potencial de persuasão e sedução. Mais claramente: o político brasileiro acostumou-se a se apresentar ao eleitorado como aquele que estende a mão e dá um pão. Todos anunciam o que fizeram, o que continuarão a fazer, as metas que descortinam. São os mecenas das dádivas com o dinheiro público.

Esse tipo de discurso traz embutida uma mensagem que pode ser assim entendida: o político é aquele ser vocacionado, voltado para os interesses populares. Tanto, que se anuncia como um grande fazedor, um realizador nato, dinâmico, arrojado e íntegro. Do outro lado da TV ou do rádio, parada, pedinte, silenciosa, uma espécie de cidadania passiva, sempre a esperar que o grande líder, o condutor, lhe estenda aos pés obedientes o caminho que o povo, por incompetência, jamais poderia descobrir por si só.

O horário eleitoral tornou-se uma coisa insuportável. Ou melhor, como todos operam de alguma forma o mesmo discurso, alterando-se apenas a forma de cada um o fazer, a insuportabilidade tornou-se tão afilada, tão aperfeiçoada, que terminou por afastar o eleitor.

É preciso entender que o eleitor, quando está na condição de telespectador, tecnicamente é audiência. E o programa eleitoral é também, tecnicamente, um programa, como outro qualquer. Se na sua formulação falham a empatia e o carisma do candidato, do mesmo modo que numa telenovela ou num jornalismo mal feito, o eleitor-audiência, ante a impossibilidade de mudar de canal, simplesmente desliga o televisor, vai ver um vídeo ou DVD ou, se tem TV a cabo, vai para os canais pagos.

De fundo, um grave problema: exatamente o fato de a cidadania ser vista como algo a ser disputado, uma coisa a ser possuída pelo político. Para o político, a cidadania é algo a ser manipulado, atraído, reformatado emocionalmente, a fim de se transformar no produto que ele mais almeja: o voto.

Mas, como a classe política está, muito justamente, em baixa, o palanque eletrônico não funciona como seus atores esperavam. Mas eles sabem: mesmo sendo histriões, alguns serão escalados para o próximo capítulo da história, ganhando um papel a ser desempenhado, às vezes vergonhosamente, no governo, na câmara ou no senado.

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

Comunidades criminosas: quando o orkut incentiva o bandido

"Hoje é muito difícil não ser canalha.
Todas as pressões trabalham para o
nosso aviltamento pessoal e coletivo."
Nelson Rodrigues

Apesar de todos os esforços do Ministério Público, a representação brasileira do Google nega-se a prestar informações a respeito de sites de relacionamentos que reúnem criminosos. Certamente alega-se a liberdade de expressão, para impedir a ação da Justiça. Assim, conforme Nelson Rodrigues, fica, realmente, muito difícil não ser canalha.

Revela-se também outro aspecto perverso: a incapacidade que o Estado brasileiro tem, via Ministério Público ou Poder Judiciário, de enfrentamento a grandes grupos econômicos, como é o caso do Google.

Na China, o Google aceitou passivamente a censura do Estado, não permitindo que chineses que acessam seu mecanismo de busca tenham o direito de procurar informações que o governo considere como contrárias ao interesse nacional.

Sintetizando: o Google, por interesses mercadológicos, rendeu-se à censura da China, ganhando um grande público; aqui, alegando liberdade de expressão, não permite que sejam retirados da net os grupos que se comunicam com intenções criminosas.

Assim, no país da desordem, vale a ordem para garantir que tudo fique como está: os bandidos se comunicando impunemente, a comunicação servindo à disseminação do crime.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Farmácia está vendendo cachaça. E supermercado está vendendo osso de primeira. Você vai perder essa oferta?

"Assim como há uma rua Voluntários da Pátria,
podia haver uma outra que se chamasse,
inversamente, rua Traidores da Pátria."
Nelson Rodrigues

Já vi farmácia vendendo cachaça, sorvete, guloseimas e, claro, remédios. É óbvio que isso é estranho, realmente bizarro. Só no Brasil, convenhamos. Mas, uma coisa é farmácia adicionar, como dizem os marqueteiros, um plus, um mix à sua oferta de mercadorias. Através de uma lógica absurda, eles podem argumentar dizendo que, como em farmácia só se entra por necessidade, nada melhor do que atiçar o consumismo, exibindo algo mais que remédios. Afinal, farmácia é empresa e empresa precisa lucrar. Vá lá que seja...

Agora, supermercado vendendo osso a quilo, aí já acho que chegamos às raias do inaceitável. Você pode pensar assim: mas em supermerdado já se vende mesmo carne e muitas vezes carne com osso. Por que não somente osso?

Ora, entendo, por um motivo muito simples: tal fato demonstra que o poder aquisitivo do povo está caindo de uma maneira tal que, à falta de uma carninha de segunda ou mesmo de terceira para a sopa rala, já há gente comprando somente osso.

Agora, suponho também o seguinte: deve ser osso de primeira. Ossão dos bons, para dar um caldo cheio de sustança, como se dizia no sertão de antigamente, deixando o sujeito pronto para qualquer obra.

Aliás, sobre supermercado, acho tudo lamentável. Supermercado no Brasil não vende qualidade. Seus anúncios não valorizam produtos de primeira, sabor, valor nutritivo, alimento saudável. Supermercado no Brasil vende preço. É isso mesmo. Supermercado vende preço. Todo supermercado é sempre "o que vende mais barato", "tem as melhores promoções" e "sempre dá um jeitinho para o cliente sair satisfeito."

Como se vê, é uma forma perversa de vender. E perversa porque o sistema supermercado sabe do pobre poder aquisitivo do povo, sabe que quem vive com um ou dois salários mínimos não pode se dar ao luxo de comprar qualidade, precisa e quer mesmo é preço mais baixo, mesmo que esse preço mais baixo seja só coisa de publicidade. E sabe também que a maioria do povo brasileiro vive (?) é mesmo com um ou dois salários mínimos.

E assim, enche especialmente horários de TV, com "ofertas" de "preços baixos". E o consumidor, cabisbaixo, tem de se conformar com as tais promoções. Afinal, já pode até comprar osso de primeira para o sopão da família e, se no supermercado tiver sorteio de automóvel, quem sabe ele não ganha um carrinho básico, zerado, para a família?

Nota do Editor: O problema será depois manter o carrinho, entendeu? A Petrobrás já está anunciando que vem aumento de gasolina por aí.

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

Páginas da vida... e sem final feliz

"Fico na frente da televisão para aumentar o meu ódio.
Quando minha cólera está diminuindo e eu
perco a vontade de cobrar o que me devem,
eu sento na frente da televisão e, em pouco tempo, meu ódio volta."
Rubem Fonseca, no conto "O Cobrador"

Dona Nely, a senhora de 68 anos que concedeu um testemunhal à TV Globo para a novela Páginas da Vida, quando abordou superficialmente aspectos de sua vida sexual, trouxe para a sua vida não um drama televisivo, mas todas as dores da realidade: após revelar como ocorrera seu primeiro orgasmo, somente aos 45 anos, perdeu o emprego de oito anos, foi ridicularizada em comunidades do orkut, teve problemas de relacionamento com o filho e a filha, está cheia de contas e de dívidas.

Como compensação, pediu um emprego de faxineira na Globo, mas recebeu como resposta que "fosse se virar." E os 300 reais que a Rede Globo lhe havia prometido pela participação, até hoje não foram pagos.

A informação é do Globo On Line, que pertence ao Sistema Globo, acrescentando que o advogado Marcos Neves deu início a uma ação de reparação por danos morais e materiais contra a TV Globo, Manoel Carlos e Jayme Monjardim, responsáveis por Páginas da Vida.

A ingenuidade de Dona Nelly foi duramente punida por confiar que seu depoimento, pelos aspectos humanos que continha, contribuiria para fazer uma ligação direta, sintonia fina com o real, que a novela supostamente tenta retratar.

Segundo a matéria o depoimento durou mais de uma hora, quando falou sobre sua vida no morro da Mangueira, seus 17 filhos (vivos apenas quatro), sua fé no espiritismo. Enfim, todo um drama, um repertório de vida, do qual foi pinçada apenas uma declaração, exatamente a que mais chocaria o telespectador.

Do modo como foi exposta, Dona Nelly ficou representada como um ser humano que oscila entre o ridículo e o grotesco, pelo fato simples de falar a respeito de sua intimidade; como se o fato de obter prazer sexual seja algo pecaminoso, portanto indigno e necessariamente objeto a ser escondido e recoberto pelo manto do falso pudor.

Novelas não são exatamente o palco mais apropriado para tratar de assuntos sérios, questionar valores, suscitar polêmicas, propor soluções a problemas sociais, como atualmente roteiristas e diretores aparentam fazer. Novelas têm por objetivo abarcar audiências, ganhar pontos sobre emissoras concorrentes e assim fixar uma publicidade veiculada a preços astronômicos em horários de pico.

É falsa a suposição, assim como é falsa a intenção dos noveleiros, de tratar a realidade, trazendo ao telespectador situações de similitude com o dia-a-dia. O drama do favelado, o tiroteio entre bandidos e polícia, tudo isso é re-tratado, estetizado, puxado para dentro do roteiro de maneira a dar a impressão de que se estão criticando problemas sociais ou existenciais.

A situação, hoje, de Dona Nelly, comprova que o aparelho televisivo cresce e se nutre das coisas da vida para, apenas isso, fazer da vida uma história, uma história rentável, vendida a grandes anunciantes.

Agora, as páginas da vida de Dona Nelly se transformaram num livro difícil de ser lido, especialmente porque a única e triste leitora desse livro será, sempre, ela mesma. E pior: é um livro de uma só pagina, que traz em poucas palavras a terrível realidade da personagem solitária em que a transformaram.

Na novela de Dona Nelly, não haverá capítulo seguinte. Muito menos final feliz.

sábado, 26 de agosto de 2006

Cuba está à venda? Os americanos pensam que sim

"Política tem esta desvantagem:
de vez em quando o sujeito
vai preso em nome da liberdade."
Stalislaw Ponte Preta

Pois é: em nome da liberdade, os Estados Unidos estão propondo a Cuba que seu povo seja, na prática, negociado pelo governo, tão logo Fidel morra. É o seguinte: os americanos propõem suspender o embargo de 44 anos, o torniquete ao povo cubano, caso, após a morte de Fidel, haja "uma transição democrática".

Transição democrática significa na prática a adoção do american way of life, devolução das propriedades expropriadas pelo governo fidelista aos antigos capitalistas, enfim, a destruição de todo um sistema de vida e de aspirações do povo cubano, pelo menos ao que eu sei.

A grave situação de saúde do líder cubano, para os americanos, sinalizaria o fim do sistema social e de poder hoje vigente na ilha. Não considero Cuba um paraíso dos trabalhadores, sei que ali a classe operária não chegou ao paraíso, Fidel é um ditador; entendo, entretanto, que o povo cubano, enquanto sociedade organizada, demonstrou historicamente sua capacidade de resistir e enfrentar o poder dos americanos. E, de alguma forma, há algo de grande que forma, na alma cubana, uma força poética, um sentido heróico de enfrentar o abismo.

De alguma forma, tal situação deve ser respeitada.Os povos têm o direito de escolher sua destinação histórica. Foi o que o povo cubano fez. Por sua vez os Estados Unidos não respeitam a autodeterminação dos povos, impõem seu sistema ideológico, seja pela força seja pela persuasão midiática e hoje ocupam hegemonia, ao que me parece, incontestável.

O grande objetivo do americano é dominar, impor sua vontade, espoliar os países de periferia, a fim de atender aos interesses do seu capital, especialmente o capital financeiro, parasitário e mundializado.

As condições históricas fazem supor que estamos vivenciando o fim de uma era. O que esperar da sucessão de Fidel? É um enigma. A História não se repete. Raúl Castro certamente não terá o carisma e a força do irmão, até mesmo pelo fato de que a situação histórica e o contexto internacional são bem diversos da época da revolução cubana, vitoriosa em 1959.

Agora, o mundo globalizado espera, com olhos de predador, pela queda de Fidel, para agarrar seu quinhão de Cuba.

Mais, muito mais, que o estreito território de Guantânamo...

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Liberação da maconha

Posse de droga para consumo pessoal deixa de ser crime

"O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 11.343/06 — a nova Lei de Tóxicos. A lei cria o Sisnad — Sistema Nacional de Políticas sobre Drogas. O objetivo é “prescrever medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas; estabelecer normas para a repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas.

"O texto revoga as leis 6.368/76 e 10.409/02, ambas sobre o mesmo assunto. A principal característica é a descriminalização da posse de droga para consumo pessoal. Outra mudança é o aumento da pena para o tráfico de drogas de 3 a 15 anos para 5 a 15 anos, além de 500 a 1.500 dias-multa."

Parágrafo único. Para fins desta Lei, consideram-se como drogas as substâncias ou os produtos capazes de causar dependência, assim especificados em lei ou relacionados em listas atualizadas periodicamente pelo Poder Executivo da União."

DOS CRIMES E DAS PENAS
"Art. 27. As penas previstas neste Capítulo poderão ser aplicadas isolada ou cumulativamente, bem como substituídas a qualquer tempo, ouvidos o Ministério Público e o defensor.
Art. 28. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas:
I - advertência sobre os efeitos das drogas;
II - prestação de serviços à comunidade;
III - medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo."


Os textos em grifo retirei da seção Consultor Jurídico, do Estadão. A legislação expressa uma evolução no trato do problema do porte e consumo de drogas, pois endurece a ação repressivo-punitiva sobre o traficante e assume uma visão humanista para com o usuário.

É precico entender que, quanto ao traficante, trata-se de um criminoso sobre o qual devem recair as ações policiais-jurídicas, de forma implacável. Quanto ao consumidor, mesmo que assim não se considere, é uma vítima, alguém que, por motivos os mais diversos, entrou em contato com substâncias, drogas ilícitas, assumindo para com estas um comportamento de dependência em maior ou menor grau.

Alguém dirá que a medida terá como conseqüência paralela alguma forma velada de incentivo ao consumo de drogas, uma vez que o usuário não será mais criminalizado. Estaria como que protegido por uma espécie de imunidade. Não creio. Na verdade, o que se impedirá é que milhares de jovens que se utilizam ocasional e fortuitamente de drogas deixem de ser presos, livrem-se de ser jogados em uma cela imunda, onde entrarão em contato com criminosos que, aí sim, os iniciarão no crime e numa espécie de vingança contra a sociedade.

E mais: para os que são efetivamente dependentes, haverá uma chance de recuperação, a possibilidade de tratamento em casas especializadas.

Espero estar certo. A intenção humanitária, confio, deverá superar as eventuais dificuldades que tal medida liberatória venha a acarretar.




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Coisas de Plutão

O jornalista e poeta Walter Medeiros envia o poema Plutão. Abaixo:

O sentimento do mundo
Numa única emoção
Hoje está em Plutão
Em seu desgosto profundo.

Não, não sou lunático,
Hoje sou plutônico,
E estou atônito,
Com choque fático.

Roubaram a paz da Lua,
Festejaram o Corrouteck,
Puseram o Harley em xeque,
No ar cada um flutua.

Já tem Pinterfinder em Marte
Com um samba de Aragão
Universo de ilusão
Por quê não te revoltaste?

Ato tão autoritário
De homens sem coração
Agora cassam Plutão
No fim do nosso cenário.

Setenta e seis anos olhando
Agora que descobriram
Astro que tantos já viram
Seu corpo não é redondo.

Pois agora tem só um
No meu sistema solar
Só Plutão vai povoar
A minha lente sem zoom.

A terra vai esperar
Que um dia de Plutão
Se olhe seu cinturão
Contornado pelo mar.

Quero ir para Plutão,
Defender o seu status
Não me renderei aos fatos
De tamanha aberração.

Como vão me convencer
Que só tem oito planetas
Se vejo em qualquer luneta
Que Plutão ‘stá a crescer?

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

E então, foi proibido mostrar foto de mulher nua no metrô de Tóquio

"As celebridades não têm profissão,
trabalho, esforço, não têm biografia.
O pior é que os jovens acreditam nestas
pessoas e deixam de fazer coisas sérias por isso"
Nélida Piñon - Escritora

A Folha On Line está noticiando o seguinte: "O metrô de Tóquio recusou que uma imagem da estrela pop Britney Spears grávida e nua seja exibida em seus espaços para propaganda. Segundo a administração do metrô, a fotografia é 'muito estimulante' para os jovens japoneses. A imagem da cantora já havia aparecido em agosto na capa da revista norte-americana Harper's Bazaar e vai figurar na capa da edição japonesa de outubro."

No aeroporto de Confins, em Minas Gerais, há um grande painel que diz algo mais ou menos assim: "Os grandes monumentos de Belo Horizonte não estão nas ruas e praças." Em seguida, anuncia o nome de uma casa de prostituição de luxo, onde os "monumentos", mulheres belíssimas, cujas fotos ilustram o painel, são mostradas.

A foto de Britney na Harper's, a rigor, para o Ocidente, não tem maior apelo. Em verdade, ela, para os nossos padrões, até que está muito recatada, até porque a revista é voltada para o público feminino, cujas intenções ao folhear uma revista como aquela são bem diversas de um leitor da Playboy, por exemplo.

Mas a direção da revista e a direção do metrô de Tóquio encontraram uma solução: será colocada uma tarja sobre os braços da artista, cruzados sobre os seios, o que por si só - puro exagero - já impede a sua visão. Na tarja, um pedido de desculpas por esconder uma parte do corpo da futura mamãe.

No caso, temos os dois extremos: uma visão tacanha, tola, atrasada da direção do metrô - uma vez que Britney é um produto de consumo de massa, mas não uma prostituta - e a publicidade escancarada de mulheres de programa no aeroporto.

No primeiro caso temos no mínimo um equívoco; no segundo, um crime. E as autoridades locais sequer mexem um dedo. Na verdade, o ponto a que quero chegar é o seguinte: uma sociedade chegando à obtusidade em termos de organização e burocratização de comportamentos coletivos e, do outro lado do mundo, outra sociedade que permite publicidade de prostituição à solta.

O turismo sexual no Brasil tomou contornos preocupantes, não só pelo fato de que sinaliza interligações com o tráfico de drogas e aporte de criminosos, mas acima de tudo porque traz em seu vácuo centenas e centenas de jovens e mulheres de origem humilde, que vêem nisso uma solução de vida.

Britney é uma celebridade, um produto para consumo de massa, será usada pelo sistema, usará também o sistema do qual é parte integrante e um belo dia será substituída por outra. Ao final da carreira estará certamente rica.

A prostituta, ao contrário, terá chegando a um estágio de decadência tamanho, que, ao ver um antigo retrato seu, sentirá que não valeu a pena.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

É preciso segregar esses nordestinos, senão...

"Apesar de que nasci no Norte,
sou caboco forte, quero trabaiá."
De uma antiga composição nordestina, cujo autor não recordo

Gilberto Dimenstein, na Folha de S. Paulo, deplora que o presidente Lula esteja "manipulando os nordestinos", com o objetivo de ganhar votos, distorcendo uma declaração equivocada de José Serra, candidato ao governo de São Paulo. Segundo o jornalista, Serra, ao comentar o problema da má educação no Estado, disse que isso decorre das migrações. Para Dimenstein, apenas uma frase equivocada, de um "intelectual brilhante".

Eu vejo de outra maneira, ou seja: Serra quis dizer que, pessoas que jamais deveriam ter saído de sua terra natal, tiveram a ousadia de entrar em São Paulo - já pensou?- e hoje poluem a cidade. Poluem socialmente, quero dizer. Todavia, entendo que não foi tão-somente uma frase infeliz. Acho que houve não um equívoco, mas um ato falho.

Sabe-se que o ato falho representa o real pensamento de quem o comete. É um escorrego mental, que trai o pensamento que está bem oculto ou disfarçado. Dimenstein sai em socorro de Serra e argumenta que má qualidade de ensino é fruto de uma situação complexa, não podendo ser debitada a imigrantes. É verdade.

Mas o equívoco do jornalista é o seguinte: Serra tem mesmo preconceito contra os nordestinos e isso pode ser constatado muito facilmente: não é de hoje que se diz que "São Paulo é a maior cidade nordestina", tamanha é a presença de migrantes oriundos desta região. E se a maioria dos migrantes é de nordestinos...

A questão do preconceito contra o Nordeste e seu povo é tão, posso dizer, violenta, que nos versos que transcrevi à abertura deste artigo o compositor diz que "apesar de que nasci no Norte, sou caboco forte, quero trabaiá." Ou seja: o sujeito da discriminação a expõe e até mesmo se expõe como chaga social, pecha, estigma, literalmente pede perdão pela sua origem e se coloca à disposição do patronato, implorando por um emprego, como se a sua disposição de trabalhar fosse não um direito, mas uma interferência na ordem da cidade grande.

A composição é antiga, tanto que o Nordeste é ainda chamado de "Norte". Como também é antigo, muito antigo, o preconceito nefasto que estabeleceu o Nordeste como um território de miséria, habitado por "paraíbas."

Quanto ao presidente Lula, ele mesmo um migrante, pode estar até mesmo tentanto se valer da situação. É muito comum em campanhas políticas, o uso de atos falhos dos adversários. Mas, de qualquer maneira, toca num tema de conteúdo pungente: nordestino é brasileiro; e ninguém é estrangeiro em seu próprio país.

Nota do Redator: durante o Governo Lula, o então ministro do Fome Zero, José Graziano, disse que é preciso impedir os nordestinos de migrar para São Paulo, para que os paulistas não precisem mais andar em carros blindados. Se serve de consolo, já que no Brasil está assegurado o direito de ir e bir, ficam elas por elas.

E aí, o véi começou a aboiar...

"Cabra bom,
não bebe água..."
Ditado sertanejo

Edgar Manso, zootecnista, preserva e gosta das coisas do sertão, sua gente, seu modo de vida, valores e crenças. Vez por outra me envia uns causos, narrando fatos bem sertanejos. Já acertamos para, em mais algum tempo, ele lançar um livro, pois as narrações na verdade são registros de uma cultura, um jeito de ser. Aí vai mais um causo do Edgar.

O velho Lima
A cidade de Passa e Fica localiza-se na região agreste do Estado do Rio Grande do Norte, já na divisa com o estado da Paraíba, sob a proteção da Pedra da Boca, uma formação rochosa belíssima que já se tornou uma atração turística na região. Faz menos de cinqüenta anos que Passa e Fica deixou de ser parte do município de Nova Cruz e se tornou emancipada; os moradores mais idosos contam muitas estórias desse tempo em que a “Princesa do Agreste” ainda nem existia.


Um desses moradores mais “rodados” é Seu Lima, pai dos meus amigos Carlúcio e Lau, e avô do presepeiro conhecido como Barba Azul e das belas irmãs Mônica, Vevé e Lelinha. Sua companheira de longa jornada é a dona Maria, mulher das mãos abençoadas na hora de cozinhar; a perna de boi com pirão que essa mulher faz é de“cego vê o mundo”. E a galinha torrada?... ôôôômi....

O velho Lima já está com oitenta e tantos anos mas continuava durão, forte, cabeça boa, e enxirido que só a pôrra, não podia ver uma menina passando na calçada que já ia logo dizendo:- Ô cepa, ô cepão. Há uns 30 dias , seu Lima teve algum problema que o deixou abobalhado, como se estivesse ficando esclerosado.

A notícia pegou todo mundo de surpresa, pois o velho Lima é uma pessoa muito querida na cidade. Muitos amigos foram visitá-lo mas ele nem os conhecia. Apesar de toda a tristeza é de toda gravidade da situação, o marmotento do Barba Azul, o neto do velho que mora na mesma casa do avô, nos contou uma presepada de seu Lima numa noite dessas que ninguém se agüentou de tanto rir.

O velho Lima, na sua juventude, foi um dos melhores vaqueiros da região, vaqueiro de pegar touro no mato, não é vaqueiro de pista de corrida não, era de “torar amorosa de peito nu”, como dizia ele mesmo. Pois bem, parece que a doença o fez relembrar esses tempos de labuta nas entranhas da caatinga.

Barba Azul contou que estava dormindo quando começou a escutar o seu avô aboiando por dentro de casa, isso era umas duas horas da madrugada:- Oxente? Vô tá endoidando, é? Eu num vou nem lá pra num dar corda ao véio.

E Barba Azul voltou para tentar dormir. Em vão, a zuada só fazia aumentar. Lá pras tantas, quando o “tóra rei” de grito já estava insuportável, Barba Azul escutou também a voz de dona Maria, sua vó. E pensou: - Eu vou lá ver que putaria é essa...

Quando Barba Azul entra na sala (pra seu Lima era um curral de carnaúba) ele tem uma crise de riso; dona Maria tentava pegar seu Lima pelo braço para lhe dar um calmante e ele “plantava-lhe” uma almofada na cabeça (ou seria um chicote de cipó de boi?) e dizia com raiva:- Rai prá lá raca réia, ôôôô, raca réia nojeeeeeeenta, rai, rai, rai, ôôô...

E pegue almofada no quengo de dona Maria. Mais tarde, o silêncio reinou no ambiente, Barba Azul e dona Maria foram dormir achando que seu Lima tinha adormecido no sofá (ou era um côcho de sal?). Na manhã seguinte, veio o grande final da estória, Barba Azul foi para o banheiro que fica no quintal da casa por amor de escovar os dentes quando escutou os gritos do avô:
- Naldinho, Naldinho, chega aqui meu fii. Chega aqui que eu peguei o boi!

Tava seu Lima deitado dentro de uma vala de água servida que passa no quintal da casa, agarrado com um pedaço de pau, se batendo todo e arrudiado de palhas de coqueiro pelo chão.- Naldinho meu filho, passei a noite lutando com esse frexado desse boi aqui dentro desse capim (as palhas do coqueiro), mas quando ele pulou aqui dentro de barreiro (a vala) eu lasquei ele. Tá pensando que faz o véi Lima de besta é bicho nojento?

Graças a Deus, hoje seu Lima está bem, está fazendo uso de medicamentos e se mantém calmo. Ainda bem.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

"Morreu, minha filha; foi Deus quem quis..."

Há momentos em
que silenciar é mentir"
Miguel de Unamuno

Li há pouco matéria no Estadão, abordando a questão do martírio sob o ponto de vista dos muçulmanos. O entendimento é de que o mártir, em sua luta contra os inimigos do islã, além de honrar a família, ainda garante aos seus um lugar no paraíso.

Isso lembrou-me uma visão de mundo entre os pobres do Nordeste, que, consolando os pais pela perda de um filho recém-nascido ou em tenra idade, chamava os pequenos defuntos de anjos, seguindo-se sempre o comentário de alguma comadre: "Tem nada não, minha filha, foi Deus quem quis."

Com isso explicava-se, no ingênuo senso comum, o final de um processo trágico de exclusão social: o menino ou menina filhos de trabalhadores despossuídos, vitimados em decorrência das péssimas condições de vida levadas por sua família.

Suponho que esse entendimento hoje não mais esteja tão arraigado aos pobres do Nordeste. Os anjos são os artistas e outras personalidades famosas e já não têm qualquer candura, muito pelo contrário, apregoam pela TV uma forma de vida hedonista, consumista e de modismos efêmeros.

Os costumes mudaram. Em vez do conformismo amparado pela religião, surgiu o desalento estimulado pelo cotidiano de privações, agora não mais no ambiente rural, mas em pleno e pulsante ambiente urbano.

Entretanto, persiste, na essência, o mal maior: as péssimas condições de vida de uma expressiva parcela da população - e isso não é coisa nordestina apenas. A pobreza e a miséria são bastante bem divididas no País. Minha abordagem quanto aos anjos foi apenas um recurso de entrada no assunto pobreza e ilusão do povo; miséria e manipulação do povo; fome e promessas ao povo, especialmente agora, no período eleitoral.

Com efeito, vivemos num país onde literalmente a condição angelical é dificilmente encontrável. O inefável, o cândido, o deslumbrar celestial, por aqui, talvez somente nas orações de alguma alma piedosa, voltada para obras sacras e pensamentos pios: no mais, trovejam e retumbam as manchetes sobre a corrupção, mas - a gente sabe, né? - nenhum dos denunciados irá para o inferno...

domingo, 20 de agosto de 2006

Matou um filho, matou o outro, matou o outro; depois suicidou-se

"O Senhor me deu,
o Senhor me tirou:
bendito seja o Senhor."
Do Livro de Jó

Desesperado, falido, um empresário matou a tiros, em Alphaville, um condomínio de alto luxo em São Paulo, os três filhos, suicidando-se em seguida. Sem contato com o ex-marido há dias, a costureira Maria de Fátima Diogo foi até o apartamento em companhia de um chaveiro e da polícia. Ao abrir a porta deparou-se, cara a cara, com a dor em forma de morte, num grito em corpo de angústia. Desmaiou. Foi aparada por uma amiga e pelos policiais, que a levaram a um hospital. Nada restou da antiga felicidade.

A notícia está no O Estado de S. Paulo. Contada assim, na frieza da técnica jornalística, a tragédia passa por você como uma paisagem qualquer, das muitas paisagens que habitam o território dos jornais.

Mas, dê-se ao trabalho de imaginar um pouco, percorrer sem pressa o caminho do horror. Uma família rica, um empresário de sucesso, tudo certo, tudo acima do normal, uma vida familiar como poucos têm neste País. Indo um pouco além dos aspectos econômicos e chegando ao plano mais existencial, temos pessoas que tinham à sua disposição, literalmente, o prazer, o prazer de estarem vivas.

Mas vêm os tempos da tarde, quando a noite da derrota se aproxima e de repente tudo se desfaz, a família se racha, o pai perde tudo, dopa os filhos com Lorax e depois, na furiosa calma dos que estão perdidos, mata, um a um, os filhos. Depois, vira a arma contra si e dispara. Pronto. Terminou ali todo um processo de vida, uma multidão de sonhos desabou, pessoas morreram, lágrimas estão regando o drama.

E, em algum canto, guardado em alguma gaveta da polícia técnica, o revólver dos crimes está parado, como a cobra descansa, até que um dia alguém a faça disparar o seu veneno de morte.



sexta-feira, 18 de agosto de 2006

Será Marcola um monge budista?

"A liberdade é defendida com
discursos e atacada
com metralhadoras."
Carlos Drummond de Andrade

A Folha de S. Paulo on line está promovendo uma enquete em que pergunta: "Você acha que, após o seqüestro do repórter Guilherme Portanova, da Rede Globo, o governo de São Paulo deve ceder às pressões da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) e extinguir o RDD (Regime Disciplinar Diferenciado), que impõe regras mais rígidas aos presos?"

As respostas, até quando era redigido este artigo eram: cinco por cento favoráveis aos criminosos; seis por cento se dizem "mais ou menos" a favor, enquanto oitenta e nove por cento dos votos são contrários à capitulação do governo.

A frase de Drummond se encaixa à perfeição com o momento vivido. O poderio do PCC, que agora já articula um canhestro discurso político, deplorando as condições carcerárias do País, dá bem um demonstrativo do quanto o crime organizado no Brasil está ganhando terreno e busca, por meios enviesados, adquirir simpatizantes, a partir de dois pontos: no primeiro ângulo, o discurso do convencimento pela argumentação ideológica, que encontra eco em setores da sociedade; na segunda face, a manutenção do discurso municiado, o discurso da metralhadora como forma e meio de manter sua identidade, potencial ofensivo e modus operandi ou, em outras palavras essência, liame e consistência grupal.

O que chamei de primeiro ângulo está fundado na denúncia das péssimas condições carcerárias do País, e disso ninguém pode discordar. É preciso uma reforma urgente do sistema prisional, a fim de que o apenado tenha condições de viver, de existir, enquanto dura o cumprimento de sua sentença. Não é uma questão de atender às reivindicações dos bandidos; reivindicações, aliás, feitas a partir da barbárie das rebeliões. É preciso, sim, dentro de um processo civilizatório, dar às prisões outras condições, que não as hoje vividas.

Quanto à segunda face, encontamos aí o desmascaramento dos propósitos dos bandidos que, a partir de um tratamento humanitário, querem mesmo é ampliar e consolidar ainda mais seu sistema grupal, o que, em redundância, amplia seu poder de fogo. Ou seja: a sociedade dá amparo ao criminoso, que disso se aproveita para fortalecer-se ainda mais.

O equilíbrio encontra-se no fato de que, a par de melhorar as condições de encarceramento, deve a legislação penal manter-se firme, não ceder a pressões nem intimidamentos, a fim de que, fora dos muros, as quadrilhas sejam desmanteladas e os criminosos, presos, cumpram efetivamente suas penas.

A questão do seqüestro do jornalista da Globo sinaliza muito claramente que outros atentatos do tipo deverão acontecer, não saindo de cogitação atos de terrorismo como bombas, incêndios e ataques a postos policiais e à sociedade civil em geral.

O regime disciplinar diferenciado deve e precisa ser mantido, a fim de que criminosos de alta periculosidade, como Marcola, sejam mantidos sob estrita vigilância, uma vez que sua disposição irrrevogável é manter unida e atuante a estrutura criminosa que, literalmente, administra.

Afinal, as liberdades democráticas e os direitos humanos não devem servir de cunha para aqueles que, como os criminosos, ao agir contra tais liberdades e tais direitos, não venham a se beneficiar da ingenuidade, má fé ou complacência, de quem, a pretexto de defender encarcerados, termina se voltando, aí sim, contra as liberdades democráticas e os direitos humanos daqueles que, em silêncio, sofrem os ataques, o medo, o pavor: as vítimas.

Ou alguém pensa que Marcola foi preso porque é um monge budista, e estava a um passo da iluminação?

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

O crime organizado segue a "Lei de Gérson": leva vantagem em tudo

"O jornalista não tem
amigos ou inimigos."
James Reston

O seqüestro do jornalista Guilherme Portanova, da Rede Globo, libertado após ficar 30 horas em poder do Primeiro Comando da Capital é o demonstrativo maior de que a cada dia cresce o poder, a ousadia e a capacidade intimidatória do grupo criminoso.

Utilizando-se de táticas de terrorismo, os bandidos exigiram a veiculação de um vídeo em que reclamam do sistema penitenciário brasileiro e deixam bem claro que estão dispostos a tudo, para manter-se em situação de impor terror e pânico.

O crescimento do crime organizado no País indica claramente que a situação está assumindo proporções protopolíticas e o PCC, na verdade, já atua como um partido político marginal, uma aberração que estende seu potencial destrutivo e invade o cotidiano, distribuindo angústia e medo.

A mensagem veiculada pelo PCC através da Globo dá claramente o indício de que o PCC tem rudimentos de um discurso político e se prepara, de alguma forma, para ações no plano ideológico, aliando armas e palavras. Com certeza atrairá a seu favor setores da sociedade que se identificam com a defesa dos direitos humanos, que justificarão, senão o uso das armas, pelo menos a intenção do discurso.

Ante a omissão das autoridades, que aparentemente não têm qualquer plano nacional para o combate do crime organizado, é bem possível que esse fenômeno venha somente a crescer, afinal se cristalizando e firmando raízes neste País.

James Reston, na citação feita, não era nenhum ingênuo. Sua frase aduz tão-somente à objetividade do jornalista, quando está cumprindo com seu dever profissional: buscar uma atitude de equilíbrio e colocar a público aquilo que seja contra o público; mesmo que isso lhe custe denunciar um amigo.

O jornalista, sim, tem amigos e inimigos. O bom jornalismo tem como inimigos a corrupção, o crime sob todas as suas formas, a brutalidade, a exploração, o homem enquanto lobo do homem. E muitas vezes tem pago caro por isso: a morte de Tim Lopes ainda ressoa na memória, o caso do repórter da Globo está aí para provar.

É lamentável mas, no Brasil, seguindo a 'Lei de Gérson", o crime está levando vantagem.

domingo, 13 de agosto de 2006

Vontade


Do jornalista e poeta Walter Medeiros recebo o poema "Vontade", publicado em homenagem ao Dia dos Pais.

(A meu pai, José Firmino)

Tenho vontade de ler Drummond,
Aquele Drummond que falava de José:
“Você é duro, José...”

Vontade de ouvir Moacir Franco,
Falando de um louco que vinha
“Das calçadas que o tempo não guardou”.

Vontade de sentir o perfume
Daquelas plantas silvestres,
Nos sítios de Mata Grande.

Vontade de rever aquelas mangueiras,
Que davam tantas sombras e frutos;
E deram lugar a edifícios, no Tirol.

Vontade de reler aquelas revistas
Que o tempo fez sumirem;
E que talvez nem existam mais.

Tenho vontade de ler Drummond,
Aquele Drummond que falava de José:
“Você é duro, José...”.


Walter Medeiros

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Os penitentes vão sair para matar

"Está se deteriorando a bondade brasileira.
De quinze em quinze minutos,
aumenta o desgaste da nossa delicadeza."
Nelson Rodrigues

Estão sendo liberados para o feriado do Dia dos Pais, em todo o País, grande número de criminosos, muitos deles gente de alta periculosidade. Mas talvez alguém diga: mas também não apresentam periculosidade uma expressiva parcela do Congresso Nacional, muitos membros do Judiciário, funcionários públicos de alto escalão, ministros, secretários, empresários...?

Sim, só que esses criminosos, como não mataram ninguém, são, hummmm, bandidos fora de série, bandidos de boas maneiras, não intimidam pelo porte de arma ou assaltos, não. Eles roubam no silêncio das canetas assinando papéis secretos, desviam na calada das conversas noturnas em restaurantes luxuosos, locupletam-se em meio a mesuras e confabulações.

Ou seja: não trazem na figura a estampa do medo que o criminoso encarcerado de há muito tatuou em sua vida em seu modo de ser e aparecer.

Esses criminosos devem ser combatidos de um jeito, o bandido comum, de outro.

Mas vem o Dia dos Pais e os bandidos que possam ser considerados como bons - ao lado de Jesus não havia Dimas, o bom ladrão? pois é... - podem sair às ruas. E lá se vão eles, amplos e folgados, prontos para fazer o que lhes der na cabeça; até mesmo visitar os filhos e ficar, pacatamente, em casa.

Eles estão deixando as penitenciárias, quer dizer, são, objetivamente, penitentes. E o peninente, pelo sentido dicionarizado do termo, é aquele que cumpre penitência, arrepende-se dos seus pecados e/ou acompanha procissões.

Espero que não, mas é bem provável que o PCC faça sua procissão de crimes e de sangue; mais uma procissão, em que louvarão o deus da violência e da matança. E, nessa religião de crimes e de morticínio, os mártires não são seus seguidores, os penitentes libertos, mas os inocentes que fiquem ao alcance de suas balas.

Realmente, como dizia Nelson Rodrigues, estamos perdendo a nossa delicadeza. O brasileiro parece não ser mais um povo cordial.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

O candidato pobre, um homem com fé de carvoeiro

A história é uma galeria
de quadros em que há poucos
originais e muitas cópias."
Tocqueville

Hoje pela manhã uma cena, entre patética e comovente, chamou-me a atenção. Numa oficina de carros, um motorista chegou com seu sacolejante automóvel e pediu para que um mecânico fizesse uma revisão rápida. O homem, coitado, vestido modestamente, era um candidato. Candidato a deputado federal. Pelo menos era isso o que alguns adesivos diziam. Adesivos não, na verdade eram fotos dele, com o nome embaixo, material impresso em computador, com a tinta já quase se acabando.

Estava ali, penso eu, um desses ingênuos que pensam que política se faz com sinceridade, boa vontade e o chamado espírito público.

O homem e o carro formavam uma dupla perfeita: ele sem qualquer carisma, meio calvo, a camisa muito velha. E os cabelos que lhe restaram estavam desgrenhados e enrugados; o carro, por sua vez, cheio de amassados, movia-se sobre quatro pneus carecas. No seu interior, o estofamento parecia ter sido atacado por um gato-do-mato em estado de possessão. O capô, ao ser aberto, expôs um motor que mais parecia uma daquelas máquinas do Professor Pardal.

Aquilo não era um carro: era uma geringonça. Para completar, apafusados a duas armações de ferro, dessas usadas por surfistas para transportar suas pranchas, estavam dois enormes e velhíssimos alto-falantes, para ele a mídia que, certamente supõe, o elevará à condição de colega de classe de mensaleiros, sanguessugas e outros quejandos. Mesmo que ele não tenha vocação para o furto.

Detalhe: os dois alto-falantes estavam presos, literalmente presos, às armações por uma boa e confiável corrente. Afinal, devem fazer parte do pobre patrimônio daquele candidato. Já pensou, não ganhar a campanha e ainda ter seus alto-falantes roubados?

Mas a triste figura desceu do carro e pediu que fosse feito um servicinho qualquer. Ele falava com o recepcionista, quando ouvi esse fiapo de conversa:(recepcionista) "... é, quem manda é a ideologia..."; (o candidato): "É, mas já pensou se eu peço dinheiro a um empresário? É claro que ele vai me dar... Mas, e depois? Depois eu vou ter que pagar o preço dessa ajuda."

Em seguida, feito o servicinho, coisa rápida, negócio para dez minutos, ele agradeceu ao mecânico e tentou fechar o capô. Bateu uma, duas, três vezes. Na quarta tentativa afinal pôde fechar a tampa do motor. Agradeceu e saiu, perdendo-se pelas ruas com sua humilde e ingênua propaganda colada aos vidros do carro, os alto-falantes ainda mudos, o pensamento quem sabe já elucubrando o discurso de estréia na Câmara dos Deputados.

Algum dia um professor meu disse que Santo Tomás de Aquino pedia a Deus para ter uma "fé de carvoeiro", a fé dos simples, e jamais baquear em sua confiança nos desígnios divinos ou cambalear sobre a crença na existência do Pai.

Acho que hoje encontrei um homem com fé de carvoeiro. Montado em sua geringonça estava, como o Quixote, pronto para investir contra os moinhos de vento das candidaturas milionárias que estão surgindo no Rio Grande do Norte, muitas destas, de homens completamente desconhecidos e que fizeram pelo Rio Grande do Norte tanto quanto uma formiga de roça.

Acho que hoje encontrei um homem com fé de carvoeiro. Acho que, como Diógenes, o cínico, encontrei um homem de bem.

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

Uma guerra de cuspe

"O brasileiro não está preparado para ser
"o maior do mundo" em coisa nenhuma.
Ser "o maior do mundo" em qualquer coisa,
mesmo em cuspe à distância,
implica uma grave,
pesada e sufocante responsabilidade."
Nelson Rodrigues

A frase de Nelson Rodrigues nos desnuda a preocupante condição de uma sociedade de conveniência. Coisas tipo jeitinho brasileiro, vâmo vê como é que dá, né? Isso, pelo menos, no que diz respeito às nossas autoridades. Ah, sim. Você tem acompanhado o noticiário a respeito dos atentados em São Paulo? Tem visto na TV postos policiais, bancos e ônibus incendiados? Tem? Creio que sim.

Mas, tem anotado alguma reação mais, digamos, firme, para não dizer viril, do governador tucano Cláudio Lembo, o Cláudio Lento, como diz o pessoal do Casseta e Planeta? Tem? Tem não. Tem não, porque o governador paulista está mais preocupado com as repercussões que uma ajuda federal teria sobre os números de Ibope de Geraldo Alckmin, favorecendo a candidatura Lula, do que com a vida e a integridade do povo da capital paulista.

E, o que é pior, o governo central, ao que parece, não aplica qualquer pressão sobre o Lento, temendo também que isso seja visto como intolerável intromissão ou intervenção, no sentido jurídico do termo, na vida e na cidadania dos paulistanos.

Simplificando, como disse Nelson Rodrigues, seria uma "grave, pesada e sufocante responsabilidade". E isso o pessoal do Poder não está disposto a encarar.

Sabe? Acho que, no fim, o PCC vai deixar tudo no "tá dominado! Tá tudo dominado!", e as autoridades vão disputar algum campeonado de cuspe à distância.

Nota do editor: Só para completar, uma espécie de metáfora ou o que seja, sobre o Brasil. Eu estava, há poucos dias, na irrrequieta companhia de minha neta, Eduarda, num shopping center em Natal. Chovia. Os carros que chegavam ao estacionamento, que fica no subsolo, deixavam cair pingos, que lembravam marcas de cuspe no chão. Ela virou-se para mim e advertiu: "Olha, Vô, cuspe. " Eu respondi que sim. E ela:"Vô, mais cuspe." E vendo mais e mais pingos no chão, avisou:"Cuspe, cuspe, cuspe." Afinal, sentenciou: "Vô, é muito cuspe. Tá havendo uma guerra de cuspe." Pronto. As autoridades brasileiras também estão pensando que, em São Paulo, está havendo, também, uma guerra de cuspe.