terça-feira, 20 de junho de 2006

Um jogo de futebol que virou um jogo de espelhos... distorcidos

"Dai ao povo pão e circo."
Ditado romano

O jogo da Seleção contra a Austrália deu bem uma mostra não apenas da qualidade de entrosamento entre os jogadores brasileiros, bem como, acima de tudo, demonstra como acontecimentos de grande porte, como a Copa do Mundo, estão a serviço de grandes investidores internacionais, numa espécie de processo de fraude, simulacro de manipulação.

Tomando como exemplo a triste figura de Ronaldo, vejamos: antes do início do jogo, a Rede Globo veiculou um videoclip, quando o cantor Marcelo D2 enaltecia a figura olimpiana do jogador, cujas imagens eram literalmente reluzentes, como se o próprio Apolo estivesse em campo. A camisa amarela da Seleção rebrilhava, como se de repente um representante do panteão grego tivessse descido à Terra para deslumbrar os olhos dos mortais ante sua presença divina.

O clip todo estava voltado para o enaltecimento das qualidades heróicas de Ronaldo, com chutes magníficos, gols sensacionais, soerguimentos dramáticos, quase martirizados do atleta, após agressões de adversários. Uma pergunta: por que isso? Por que esse foco numa só pessoa, quando futebol é jogo de equipe, é ação técnica e tática, é comportamento coordenado, conjugado?

A resposta é simples: tem muito dinheiro investido em Ronaldo, dinheiro de multinacionais, fortunas de risco aplicadas nos pés de um homem. E a Rede Globo tem também, claro, seus interesses comerciais, que não são poucos. Então, vamos louvar o grande craque.

O que se viu, no entanto, foi uma figura bisonha, jogando convencionalmente. Ronaldo é um dado desse grande acontecimento midiático que é a Copa. Um acontecimento desse tipo envolve toda uma grandiosa e dispendiosa estrutura humana e material e tem seu suporte na crença que inculca em milhões de pessoas de que ali está se passando algo fenomenal, importantíssimo, imperdível. Perdendo-se a visão de tal acontecimento, o ser humano estará alijado de um certo sentimento de pertença àquele grupo global instantâneo e fugaz. Quem perdeu de ver, perdeu de viver.

Além disso, é essencial ao acontecimento de mídia, programado e estetizado, que haja dois públicos: o público que o assiste ao vivo, e o público que o vê ou nos telões ou nas TVs.

É preciso na realidade um meta-acontecimento, um acontecimento dentro do outro, um impulsionando o outro, para gerar a ilusão de que todos estão congraçados e participantes, quando em verdade estão sendo utilizados, para as finalidades lucrativas dos grandes empreendedores.

É preciso que eu saiba que muitos estão vendo os jogos ao vivo, ao mesmo tempo que aqueles também sabem que estão sendo vistos. O jogo é o motivo, mas o público também é espetáculo.

Eis aí explicado o grande mistério para a manutenção de Ronaldo na equipe: dinheiro. Muito dinheiro investido num jogador que por muitos motivos, além de sua tendência a engordar, não está bem mas que precisa ser apresentado como "fenômeno."

Se você viu o jogo de domingo, uma pergunta: por que, após a disputa, Galvão Bueno, o mesmo que tinha "tantas esperanças" na recuperação de Ronaldo, não deplorou seu pífio desempenho? Por que o assunto foi "esquecido"? Pelo fato simples de que não há interesse econômico em abordar algo a respeito de investimento tão malfadado, como foi esse que o grande capital internacional e a Rede Globo fizeram em Ronaldo.

Mas vamos ver, vamos ver até aonde o Brasil chega. E só para encerrar: Casagrande, um comentarista que suponho seja digno de respeito, já advertiu: do jeito que a Seleção está, é um perigo enfrentar a equipe de Gana. Já pensou, a que ponto a Seleção chegou?

sexta-feira, 16 de junho de 2006

Farinha pouca, meu pirão primeiro...

"Se o mundo é parecido
com o que eu vejo, prefiro
acreditar no mundo do meu jeito."
Renato Russo

O Jornal do Brasil informa que a Câmara dos Deputados será renovada em cerca de 60 por cento. Número bastante expressivo. Seria a colheita que os atuais detentores de mandado terão, após tantos escândalos e omissões de punição aos culpados. É uma forma de mobilização popular, retirando do plenário nomes que em nada contribuíram para com o bem estar social. Na canção "Pra não dizer que não falei de flores", Geraldo Vandré dizia que "quem sabe faz a hora, não espera acontecer".

O povo brasileiro precisa fazer a sua hora, para impedir que hordas de deputados que só têm compromisso com seus próprios interesses, cheguem para ocupar mandatos e se tornarem mandões, ao invés de mandatários por delegação popular. É preciso que estes cheguem atrasados ao encontro com a História e assim percam a hora de ser reinvestidos em novos mandatos. Basta que não se vote neles. Assim perderão o trem da História.

A construção de uma democracia representativa é obra de gerações, é uma construção que nos obriga a um pensar e a um fazer coletivos, a fim de que a República não se transforme numa coisa pública porém privatizada aos apetites daqueles que somente se voltam para legislar em favor de privilegiados.

Não há mais como encarar como natural, procedimentos que somente envergonham a nação e punem cruelmente os desvalidos, os esquecidos, os que sobrevivem de salário mínimo.

As injustiças sociais se consolidam cada vez que um deputado se utiliza do mandato para fechar negócios, obter lucros, levar vantagem. Sempre e quando o mandato vira balcão de negócios, de alguma forma misteriosa e perversa a máquina pública nega atenção àquele filho de pobre que deixa de ser atendido num posto de saúde, ou uma escolinha de periferia se transforma em ponto de encontro para traficantes e outros bandidos.

A cultura da corrupção precisa e deve ser combatida pelos que têm ética e padrões morais comprometidos com a coisa pública. Caso contrário, teremos sempre um país nivelado pela régua curta dos que se regem pelo ditado do "farinha pouca, meu pirão primeiro."

quinta-feira, 15 de junho de 2006

A mulher azul

"Mas eu desconfio que a pessoa livre,
realmente livre, é aquela que
não tem medo do ridículo."
Luíz Fernando Veríssimo


Ela acorda com as manhãs e traz nas mãos ainda o brilho dos sonhos, caminhos percorridos na vastidão desse indizível pensar. E anda em passos de silêncio enquanto o jardim espalha pétalas de brumas.

Ela traz o olhar de sono, mas sorri com leves gestos. E nada impede o seu manso carinho.A mulher azul, delicadamente azul, matiza as manhãs com seu despertar e faz do dia que ainda vai explodir em sol a promessa de que, se houver luta, haverá coragem; e de que, se houver alegria, saberemos conviver com todos os seus gestos e fazer a vida rebrilhar de orvalho.


A mulher azul é feita de marfim. E traz nos olhos caminhos que levam a uma floresta que se perde nos confins dos dias que virão.

terça-feira, 13 de junho de 2006

Nós viemos aqui pra jogar ou pra manquejar?

"Treino é treino,
jogo é jogo."
Didi, o Príncipe Etíope

Como se viu, a frase de Didi é lapidar. O inventor da folha-seca, com simplicidade, demonstrou que, em campo, de nada adiantou quarteto mágico, nem qualquer mirabolância de mídia, para endeusar a Seleção. Na verdade, em lugar da mirabolância com que se buscou colocar os jogadores como seres lieralmente imbatíveis em campo, faltou foi mira na bola, mira no gol.
Os treinos foram treinos. O jogo foi o jogo. E que jogo...
Não houve uma vitória, em seu sentido maior e preciso. Houve, isso sim, alívio. No mais, é registrar, com relação a Ronaldo, a definição dicionarizada: Fenômeno: ser ou objeto com algo de anormal ou extraordinário, classificação atribuída a Ronaldo, camisa 9 da Seleção brasileira, pelo fato de que, somente uma pessoa anormal ou extraordinária, consegue receber todo mês um salário em torno de R$ 12 milhões no Real Madrid, ser escalado para a Copa de 2006 e a única coisa que conseguiu fazer no jogo contra a Croácia foi papel de joão-teimoso, aquele boneco de borracha ou de plástico que cai e levanta, cai e levanta...
Então, é isso mesmo: treino é treino, jogo é jogo. No mais, é tomar cuidado com essas imagens construídas, de pessoas acima do comum, insuperáveis. E se a Seleção é a Pátria de chuteiras, vale lembrar que as de Ronaldo causaram calos. Então, calo por calo, é bom ficar calado e ver a realidade com olhos, digamos, menos emotivos. A não ser que a Pátria queira sair mancando a cada nova partida.

segunda-feira, 12 de junho de 2006

De Seleção, heroísmo e a triste verdade dos meninos nos sinais de trânsito

"A Seleção é a
pátria de chuteiras."
Nelson Rodrigues

O Brasil aguarda com alegria ansiosa e antecipada a entrada em campo da Seleção. Nem de longe se pensa ou se admite um insucesso. Nem de longe se pensa ou se admite que teremos um espetáculo, aqui entendido como encenação. Claro, um jogo de futebol tem algo de encenação, tem um roteiro, um script, ou seja: as regras, com punições e premiações ao longo da partida.

Mas o brasileiro, de um modo geral, supõe, acredita e vê no jogo apenas o seu lado de confronto supostamente patriótico. E em toda batalha há, sempre, a figura mítica do herói, aquele ser elevado à condição de sublime. Aquele que se supera em esforços e decisão de levar adiante a missão, superando limitações físicas, cansaço e temor. O herói luta por uma causa; o jogador atua para atender às expectativas daqueles a quem representa.

Como no caso há uma convergência, que mistura a presença do jogador com a figura do herói, a brisa do Brasil beija e balança as bandeirolas da torcida, em vez do auriverde pendão da nossa terra. Um herói estaria envolto nos objetivos da pátria. O jogador tem um contrato a cumprir e volta-se para atender expectativas e estas se transformam em exigência de gritos de gol.

O desmanche de imagem construída é bem simples de fazer: se, numa guerra, o herói volta derrotado, o povo inteiro lhe rende homenagens, pois sabe que colocou a vida em jogo para defender uma causa. No futebol, falhando o herói, a resposta a seu ato inconcluso será a vaia, sua renegação, quem sabe sua queda.

O futebol, enquanto espetáculo, nada tem de heróico. Na verdade, não há causa alguma a defender. A construção do espetáculo, que inclui e envolve a presença do público, é que nos dá a sensação de que veremos o desfilar olimpiano do lutador emérito. Apenas isso.

As mudanças sofridas pelo espetáculo futebolístico transformaram as partidas, de confrontos esportivos, em acontecimentos de mídia, criteriosamente organizados para render lucros e reinvestimentos. A Seleção, hoje, é um produto da Rede Globo, integra com exclusividade sua grade de programação. A Seleção não é a pátria de chuteiras, mas tão-somente uma grife, uma marca sofisticada e vendida a peso de ouro a grandes anunciantes.

A Seleção é uma imagem em movimento, um conjunto de jogadores caríssimos, intangíveis e pessoalmente invisíveis ao comum dos brasileiros, até mesmo pelo fato de que muitos atuam na Europa. Não há heroísmo em suas atitudes, apenas belas jogadas de craques consumados.

Se a Seleção vencer hoje, se chegar a ser hexa, comemore, vibre, cante, grite gol. Afinal, o futebol é parte da nossa cultura, revolui na cotidianidade do nosso imaginário, sem dúvida nenhuma alegra as nossas vidas. Mas, quando a Copa acabar, olhe para os lados e veja a nossa realidade. Talvez o heroísmo esteja no olhar do menino que joga malabares no próximo sinal de trânsito.


domingo, 11 de junho de 2006

Ave, César!

"Quando se aposentarem, por favor,
não fiquem em casa atrapalhando a família.
Tem que procurar alguma coisa para fazer."
Presidente Luís Inácio Lula da Silva.


O presidente Lula deu ontem, numa espécie de ato falho, uma idéia de como vai tratar pensionistas e aposentados, vale dizer os trabalhadores do Brasil, caso venham a se confirmar os maus presságios de sua reeleição: em Serra, no Espírito Santo, ao inaugurar um gasoduto, disse que a sociedade "precisa compreender" que é necessário um aprofundamento na reforma previdenciária.

Em outras palavras, foi uma ameaça ao povo brasileiro que, ante tais observaões, somente pode vislumbrar duas expectativas: o segundo Governo Lula deverá ampliar o tempo de serviço e de contribuição para a aposentadoria ou deverá haver um aumento nas contribuições, ou até mesmo as duas coisas.

Disse também que frente ao aumento da expectativa de vida das pessoas não há como a previdência continuar funcionando nos moldes atuais. Espere: o presidente quer que as pessoas morram mais depressa? Quer que as pessoas morram mais jovens para o Estado, um Estado Tio Patinhas, amealhe mais dinheiro?

Isso me lembra o trabalho do povo egípcio, que vergava sua vida em honra e glória dos faraós, na construção de seus... túmulos. É, pois as pirâmides nada mais são do que túmulos. E a construção de túmulos valia a vida do povo. Hoje, a construção dos túmulos é a manutenção de um Estado cada vez mais distanciado de suas funções de bem-estar social. Quer dizer, mais desumano, mais cruel, mais despótico em sua fome de impostos e quaisquer outras formas de contribuições arrancadas da sociedade.

Não vejo com bons olhos o que vem por aí. Não percebo em nenhum dos pré-candidatos qualquer indicadivo de que as coisas no Brasil venham a melhorar, tanto por motivos macroeconômicos e sociais, quando pela inserção do País na trama da globalização, cujo ideário é o lucro do capital internacional.

Parece que, ao povo, só resta mesmo continuar a construir pirâmides, enquanto o Estado espera que as pessoas comecem, com isso, a morrer mais cedo. E, como os gladiadores, dizer: "Ave César. Os que vão morrer te saúdam."

sábado, 10 de junho de 2006

Caros amigos...

Negócio é o seguinte: estou colaborando com o jornal www.achei.ca, dirigido pela advogada Priscilla Amaral, que mora no Canadá, mas tem tudo de uma boa jornalista. A publicação é voltada para a comunidade brasileira no Canadá. O jornal ficou on line a partir ontem. Minha coluna chama-se "Caros Amigos..."

Se achar interessante, pode dar uma conferida.
Abração,
Emanoel Barreto

sexta-feira, 9 de junho de 2006

Muito doido, bicho.. muito doido...

"Se não tivermos êxito,
corremos o risco de fracassar."
Presidente George W. Bush

Bom, o Tribunal Superior Eleitoral entendeu que não havia entendido nada da política brasileira e afinal seu plenário se entendeu, juntou-se ao desentendimento geral dos partidos políticos, por entender que é preciso entender que nesse país não há entendimento e assim é preciso permitir que os políticos continuem a se entender e a se atender em suas conveniências, ao mesmo tempo em que promovem o desentendimento do povo, que não entende afinal o que seja um partido político. Mas mesmo assim vota.

Entendeu? Não? É isso mesmo, não dá para entender. Afinal, como é possível entender que um ministro judicante, supostamente dotado de notável saber jurídico, vai voltar atrás numa decisão grave, séria, cuja eficácia atingiria fundamentalmente todo um sistema político? E mais, porque tomou a decisão de impedir as coligações sem antes consultar seu capital de conhecimentos jurídicos? E pior: a decisão era necessária e urgente, para esses políticos aprenderem que partido se faz a partir de confissões ideológicas internalizadas e vividas, não ao sabor de conveniências de ocasião.

A decisão do ministro Marco Aurélio Melo, admita-se, foi tomada literalmente em cima da hora. Ora, esse ministro não pensa nas consqüências dos seus atos jurídicos? Deveria pensar. Agora, tomar uma decisão dessas, ser esta aprovada em colegiado, para depois voltar atrás, é coonestar a cena brasileira, que é de triste figura.

Mas, afinal, a Copa começa hoje a vai ficar todo mundo louco. E mais uma confusãozinha não vai alterar muito, né não? Afinal, os políticos foram apascentados, vão fazer o seu repasto e todos nós devemos entender que é preciso que haja um entendimento a fim de que todos possam seguir de maneira coordenada em direção ao entendimento que de há muito esse país busca, a fim de poder entender porque vivemos nos desentendendo na tentativa de entender porque há tanta confusão.

PS: Para completar o samba do crioulo doido fica aqui um registro:gooooooooooooooooooooooooooool!!!!!!!!!! Né não?

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Se o povo não tem pão, que coma gols

"Tem gente que se acha honesta
só porque não sabia nada."
Millôr Fernandes

Vamos combinar assim: a partir de amanhã, o Brasil fecha para balanço. Balanço do samba embalado pelos pés de jogadores milionários; balanço do vai-e-vem dos garçons servindo chope; balanço do nosso eterno berço esplêndido.

Vamos todos nos deitar nas redes armadas nos estádios alemães e ficar embalados pela gritaria que vai ninar o povo a cada novo grito de gol. É assim de quatro em quatro anos. Esse país inteiro pára, boquiaberto, encantado pelo sortilégio das jogadas, dos passes geniais, das defesas incríveis, dos pênaltis e da ansiedade pela vitória da Seleção.

Esse país inteiro pára, compensando num processo de busca insensata alguma coisa, um não-sei-quê nacional, que nos fará sentirmo-nos completos, recheados, remidos das culpas sociais que assolam corações e mentes do Oiapoque ao Chuí.

Não tem boa educação para todos? Gol da Seleção e faz de conta que está tudo bem. Falta segurança e o PCC é um medo que pode explodir a qualquer momento? Gol da Seleção e estaremos certos, por instantes, de que um dia a coisa tem jeito. O posto de saúde, que já não funciona, agora é que fecha mesmo as portas por causa dos jogos? Palmas para a Seleção, que vai nos livrar da dor de cabeça que é esperar inutilmente por uma ficha de consulta a um médico que dificilmente aparece no trabalho.

Amanhã terá início um espetáculo mundializado, programado, marketizado, totalmente plastificado para dar a todos, especialmente a nós, brasileiros, a sensação de que tudo vai bem e que somos, todos, obrigados a grudar um sorriso na cara e trazer na boca um berro de louvação.

A partir de amanhã vamos dar um balanço no caixa das emoções contidas e dos bolsos vazios, das vontades não atendidas e dos desvãos das desigualdades sociais. Vamos sorrir, vamos brindar, vamos fechar as repartições mais cedo, aliás nem mesmo vamos abri-las. Afinal, é Copa do Mundo e este país tem de fechar para balanço.

Aliás, nem é balanço; é balancete, porque a Copa nem dura tanto tempo. Mas, no fim, você vai ver o tamanho da conta.

A barbárie como prática política

"Existem verdades que a gente
só pode dizer depois de
ter conquistado o direito de dizê-las."
Jean Cocteau

A invasão da Câmara dos Deputados por uma multidão de baderneiros ligados ao Movimento de Libertação dos Sem-terra, mesmo recebendo repúdio da opinião pública nacional pela falta de respeito ao Poder Legislativo, permite e até obriga a uma reflexão: ações como essa misturam, confundem num só grito o comportamento desordeiro com as legítimas reivindicações democráticas.

E por quê? Pelo fato simples de que o Congresso Nacional perdeu o respeito próprio permitindo, por uma espécie de gravidade social, que escorram até as suas salas as mazelas de grupos marginais aos movimentos sociais, escorados num raciocínio primário: quem não se respeita, não merece ser respeitado.

Ao atacar a Câmara, a horda gritava contra os deputados acusações como "mensaleiros", "corruptos", "ladrões". É aí que está o perigo: um Congresso desmoralizado, um Congresso coalhado de políticos inconfiáveis, termina por atrair para si, literalmente, os seus iguais.

E as violências morais que o Congresso tem assacado contra a nação, sofrem uma espécie de metáfora social perversa e se transformam em violência agenciada por um grupo de desordeiros.

Mas é preciso preservar a instituição legislativa. Não se pode conviver com os ataques impunes ao Legislativo. Há salvação, sim. O processo histórico pode nos levar a ter algum dia a democracia representativa manifesta nas ações de um Congresso íntegro.

Por enquanto, lamentavelmente, o País convive ora com a ação dos bandidos contra os agentes da lei, como ocorreu há cerca de 15 dias em São Paulo, agora com a ação de desordeiros contra quem faz as leis.

Ao fundo, um grave problema histórico baliza o quadro: a péssima divisão de renda que provocou uma estrutura social danificada por uma situação de pobreza, miséria, fome, rede de serviços públicos ineficaz e uma cultura que faz o povo buscar nos pés de jogadores de futebol a graça que a vida lhe nega em saúde, trabalho e pão.

terça-feira, 6 de junho de 2006

Viver bem

"As dúvidas são mais cruéis

do que as duras verdades"

Moliére

Quando a manhã surge, com as suas mãos rosadas, é o sinal que a vida desperta num brilho de cristal, o cristal do orvalho da noite que passou.


Assim deve ser a vida: suave, delicado presente que recebemos todos os dias. Vamos viver bem esse presente. Mesmo que depois ele mostre seus perigos.


Viver bem é responder com o gesto do abraço ao grito que nos ameaça; é transformar em canção o grito que muitas vezes está ardendo dentro de você.


Viver bem é dizer sim a quem só recebeu da vida o desprezo e o não. Viver bem é dar atenção ao olhar inocente da criança. É ajudar. É unir.


É seguir em frente, mesmo quando tudo diz que chegou a hora de desistir.
Viver bem é olhar para si mesmo e sentir que um sorriso diz mais que mil palavras. É saber que há pedras no caminho. Mas, apesar das pedras, o caminho chama e aí você diz: eu vou.

Viver bem é acreditar, é descobrir o mar e os barcos que nele habitam. É estar de mãos dadas com a simplicidade.


Viver bem é um desafio, um mistério, um encontro. É caminhar no escuro, mesmo sentindo o medo arranhar seus pés.


É acreditar no maravilhoso e entender a magia dos momentos, de todos os momentos, desse grande momento que se chama Vida.



domingo, 4 de junho de 2006

Invasão de privacidade

"A violência destrói o que ela pretende defender:
a dignidade da vida, a liberdade do ser humano."
João Paulo II

O Governo de São Paulo está gestando uma ação administrativa que faria entrar em pânico até mesmo um personagem do livro "1984", de George Orwell. A Folha de S. Paulo informou que a idéia é vender dados sigilosos dos cidadãos que estejam em poder do Estado a empresas privadas, para que assim se possa controlar melhor a vida das pessoas.

Até mesmo uma equipe já viajou aos Estados Unidos, onde a deplorável atitude já está em prática em algumas cidades, a fim de ganhar conhecimentos a respeito do assunto. Falando objetivamente: de posse de informações a respeito do cidadão, uma empresa de seguros poderá obrigar uma pessoa a pagar mais caro para segurar seu carro, caso venha a saber que, há muitos anos, esta se envolveu em um acidente automobilístico.

Mais: alguém que tome determinado tipo de medicamento, os tais medicamentos controlados, poderá não ser admitido em uma empresa, caso tal informação chegue a seu conhecimento.

Diariamente, ao acessarmos a internet, de alguma maneira deixamos rastros, que passam a compor o capital simbólico de empresas ou indivíduos nos mais diversos pontos do planeta. Aos poucos, o cidadão, o indivíduo, passa a ser visto como alguém sob vigia, observância permanente. E tudo para atender aos interesses de corporações transnacionais, cujo anseio de lucro e domínio têm como limite o infinito.

sábado, 3 de junho de 2006

Cadê o drible de Mané?

Natal não consagra
nem desconsagra ninguém.”
(Luís da Câmara Cascudo)

Manoel Francisco dos Santos assim chamado na pia batismal, acabou conhecido mesmo como Mané Garrincha, o craque das pernas tortas. Não, não, jamais deveria ter sido jogador de futebol, muito menos um artista da bola.

As pernas tortas seriam o impeditivo final, sua limitação primeira, a sujeitá-lo à vida comum de nós que, admiradores do campo e do gol, somente podemos nos deliciar com as jogadas geniais, incapazes porém de repeti-las. Mas o menino pobre da cidade de Pau Grande, acabou consagrado craque e chamado de alegria do povo.

Afinal, não foi ele quem enfiou uma bola por entre as pernas veneráveis de Nílton Santos, a "enciclopédia do futebol"? Não era ele quem driblava um, driblava dois, driblava três e ainda saía correndo sozinho, deixava a bola lá atrás e levava consigo um adversário aturdido? E depois voltava, pegava a bola e fazia o gol?

Palhaços: em campo, todos os adversários de Garrincha podiam acabar fazendo papel de palhaços, tantos e desconcertantes eram seus dribles, sempre pela direita, mas com variações. E eram essas variações que faziam a diferença.

Em jogos da Seleção, quando pegava um marcador para judas, esse passava a ser chamado de “joão”, ou seja, o bobo, o tolo que ia só ser suplantado, sem conseguir deter o grande Mané. Não sei. É disso que hoje sinto falta no futebol moderno, científico, calculado, frio.

Sinto falta da emoção, da jogada poética que é um achado, um vigoroso balé, o craque vai driblando e faz gooooooooooooool!!!!! Tá certo, Garrincha, tá certo... É melhor que isso tudo fique na memória, servindo de exemplo, um museu de emoções que ajudam a inspirar os que hoje, em meio de campo, querem seguir suas pegadas. Os passos do craque serão sempre a trilha mais segura para o grito e o abraço, na alegria do gol.

Mas, no fundo, Garrincha era um simples. Não soube desfrutar do dinheiro nem da fama que ganhou. Perdeu tudo: mulher, filhas, Elza Soares, a casa, os carros, tudo, tudo, tudo...

Depois, sobrou somente uma grande e depressiva saudade dos dias de glória e os copos de cachaça que preenchiam os seus dias. E, para quem viu, uma passagem melancólica numa escola de samba do Rio, num desfile de carnaval. Mané, deprimido, cabisbaixo, quem sabe embriagado, olhava para baixo, enquando o carro alegórico que o levava seguia avenida adiante.

Foi, para mim, a imagem mais triste do jogador de futebol que mais admiro. Mas ficou, ficou Mané, a lembrança dos gols belíssimos e a sinfonia de dribles, que o fizeram magnífico e grandioso. Bravo. Bravíííííííssimo!!!!!!!!

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Vamos prender todo mundo?

"Penso que se você sabe o que pensa,
será muito mais fácil responder à sua pergunta.
Não posso responder à sua pergunta."
(Presidente George W. Bush)

O País inteiro viu: o advogado do tal Marcola acabou saindo preso, algemado, da Comissão Parlamentar que apura o tráfico de armas. Detalhe: a prisão se deu pelo fato de que o advogado comparou os parlamentares a bandidos. Quem viu a cena pela TV sabe: ao ser pressionado pelos deputados sobre como havia aprendido rápido sobre malandragem, afirmou: "Aqui se aprende rápido."

Os deputados entenderam rapidamente que ele se referia ao parlamento e a prisão foi coisa de minutos. A questão é exatamente essa: você confia no Congresso Nacional? Você entende que a instituição é efetivamente íntegra, comprometida com os interesses do País, confiável em suas atividades internas?

Os recentíssimos casos de mensaleiros e a sua quase integral absolvição trazem à visão pública uma instituição pelo menos, digamos, sombria. Os deputados tiveram razão em mandar prender o advogado - que depois voltou ao plenário para depor, após assinar um termo em que se comprometia a responder a um processo por desacato - mas deve-se levar em consideração que deputados federais e senadores, os políticos de um modo geral, são pessoas que aparecem ao olhar nacional como pessoas cujo comportamento é questionável. E questionável a priori, o que é pior.

O advogado, ao ser algemado, ainda "aplaudiu", mesmo com as mãos atadas, o ato de sua prisão. E saiu dizendo que os deputados "queriam uma foto" para se projetar na mídia nacional, prendendo alguém por comportamento de desacato a autoridade.

Ao final das contas, o seguinte: de um lado, criminosos altamente organizados, com grande poder de fogo e de dinheiro; de outro, um parlamento cheio de defeitos, infestado de cúmplices, abarrotado de suspeitos. Vamos prender todo mundo?

"Eu vou é ser ladrão."*

Eu sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta."
(Presidente Lula, no Dia Internacional da Mulher)

Ele seguiu avenida abaixo, pensativo. Era já o terceiro emprego que perdia no ano. Apesar de esforçado, chegar sempre no horário, na hora das demissões seu nome constava sempre na lista. Nunca compreendera o motivo de tanta má sorte. Olhou o mundo com um olhar pardo, perdido no meio da confusão do trânsito.

Havia recebido o dinheiro pelos dias que havia trabalhado: dava coisa de uns cem reais. Tudo parecia estar dando certo, mas de repente apareceu na empreiteira um sujeito que conhecia um engenheiro por lá e indicou um novo pedreiro. Pronto. Foi o suficiente para, dia seguinte, ele estar desempregado. E agora, o que dizer a Joaquina, aos cinco filhos e à sogra, lá em Felipe Camarão, zona Norte de Natal?

Caminhou meio zonzo, sem saber o que fazer. Estava assim, perdido, desde a manhã, quando havia sido despedido: sem rumo. De repente viu, lá na esquina, uma barraca de churrasquinho. Também vendiam cachaça. Seguiu direto até lá. Pediu uma dose e emborcou de um gole. Pediu duas, pediu três. A bebida desceu muriática, queimando todas as raivas e fazendo surgir novos pensamentos de ódio e revolta.

Caminhou pela calçada ruminando horrores. Sentou-se no meio-fio e uma rajada de vento polvilhada de areia envolveu seu corpo num abraço de lixa grossa. No meio desse redemoinho de vento e raiva veio voando um jornal. Já velho, de uns cinco dias.

Ele pegou o jornal e leu: bandidos haviam chacinado um policial; bandidos haviam assaltado uma mansão e levado muitas jóias; deputados envolvidos em atos de corrupção haviam sido absolvidos; ricaços escapavam da acusação de ter fortunas em paraísos fiscais.

Diante de tudo isso, decidiu: "Vou ser ladrão." De que adiantava trabalhar tanto, para, no fim do mês, ver o dinheiro faltando para pagar as contas? Levantou-se e caminhou no rumo da zona Sul da cidade. Afinal viu-se diante de uma mansão. Foi fácil saltar o muro. Atravessou o jardim. Foi fácil abrir a porta. Foi fácil entrar na casa.

Subiu ao primeiro andar. Além dele, ninguém. Aparentemente, ninguém. Mas suspeitou: se a porta estava só no trinco, haveria alguém em casa. Será que num tempo como o de hoje, com tanto ladrão por aí, uma pessoa ia deixar a casa só no trinco? Tomou cuidado.

De repente, ouviu um barulho de chuveiro. Foi cautelosamente até a suíte de onde vinha o barulho e ficou olhando, pela porta entreaberta. Somente o quarto estava iluminado. O restante da casa era envolvido em penumbra. A escuridão era sua amiga. Mesmo assim, ofegava. Fera no bote da presa. Até que esta apareceu.

Saída do banheiro uma mulher de trinta anos, muito bonita, caminhava resplandescente e nua. Ele tremeu. Aí percebeu: nem arma tinha para o assalto. A mulher caminhou até o guarda-roupa e demorou-se, de costas para ele. Voltou-se e tornou a caminhar. Ele a seguia com o olhar. E via também a riqueza, o luxo daquele quarto.

Olhava tudo aquilo e comparou com a pobreza de sua casa, a figura triste de sua Joaquina, os moveizinhos baratos, a casinha apertada e feia. A beleza da mulher rica voltou a dominar seu olhar. Ela se perfumava. O aroma espalhou-se pelo quarto e chegou até ele.

Aí, sentiu seu próprio cheiro, olhou-se e recuou, recuou, recuou. Caminhou pela semi-obscuridade, chegou até à porta, saltou o muro e escapou. Quando seus pés bateram na calçada, respirou fundo. Encolheu-se a um canto do muro e chorou em silêncio.

De repente, ouviu dois tiros vindos de dentro da casa. E um grito horrendo de mulher. E logo em seguida dois jovens saltavam o muro. E ainda deu para ele ouvir quando um deles gritava para o outro: - Cê viu, rapá, aquele otário saiu na frente, nem viu que a gente já tava dentro da casa, e a gente se fez. Dei dois tecos na madame e pegamos o colar!
* Este texto é ficcional.

Coisas do Brasil

"Nossos fracasos são, às vezes, mais frutíferos que os sucessos."
Henry Ford

Vejo nos jornais a euforia pela Seleção, a esperança do hexa, a alegria pré-fabricada; vejo nos jornais criminosos sento autorizados a aguardar julgamento em prisão domiciliar; vejo nos jornais políticos entrecruzando tramas; vejo nos jornais um emaranhado do mundo; vejo nos jornais as coisas do Brasil.

O País tem uma das piores distribuições de renda do mundo. Tem, por outro lado, um sistema de crime organizado que daqui a pouco tempo fará inveja as qualquer máfia. E nada de mais efetivo é feito para enfrentar essa situação ou seja: a má distribuição de renda e o banditismo atuando de forma empresarial.

E o que se vê nos jormais se vê também nas ruas, até pelo fato de que o jornal nasce da rua e para a rua volta. A rua não é só aquela por onde você trafega com o seu carro e vê os meninos pedindo esmolas nos sinais. A rua, a grande rua brasileira, é onipresente, especialmente nos gabinetes e salas secretas do poder.

A rua brasileira invade as decisões de poder, como o assaltante invade a loja. Os grandes crimes das ruas têm suas versões light e diet no parlamento, nos grandes encontros financeiros, nos palavrosos acordos políticos e administrativos.

Coisas do Brasil. A rua invade os meios tons das conversas decisórias e dita o tema da próxima negociata. Ah! E o hexa? Também é uma grande negociata. Milhões estão rolando nessa história de Seleção. E quando a gente gritar gol!, as registradoras estarão tilintando e alguém, alguém muito rico, um ser sem face e sem alma, brindará à tolice de milhões (de tolos) ao redor do mundo...

E aí, chegaram aqueles estranhos pacotes... E os deputados taparam o nariz.

"Creio que estamos num caminho irreversível para mais liberdade e democracia. Mas as coisas poderão mudar."
Presidente George W. Bush

Veja só o que o Jornal Nacional divulgou em sua edição de ontem: "Gabinetes de nove deputados federais receberam, pelo correio, envelopes que continham fezes. A polícia do Legislativo está investigando a origem da correspondência. Os envelopes partiram de São Paulo e de Minas Gerais. Estavam endereçados a parlamentares do PT, do PP, do PDT e do P-Sol. O material será analisado no laboratório de saúde pública do Distrito Federal."

O texto rápido e seco, típico do jornalismo de TV, mas que lamentavelmente está sendo imitado por algumas tendências do jornalismo impresso, vide Folha de S. Paulo, limitou a umas poucas palavras a informação de atos que, mesmo tendo suas impropriedades, dão uma idéia do quanto o brasileiro já não suporta mais ver o Congresso que temos.

É triste, mas é verdade: aos olhos da nação, o Congresso está mais para antro que para uma reunião de Casas Legislativas e, tanto o Senado quanto a Câmara dos Deputados, são entendidos como instâncias da suspeição e do escambo de favorecimentos imorais, do ócio e do negócio.

Por isso, eis que chegam aos deputados envelopes com material que melhor seria tivesse sido enviado a laboratórios de análises clínicas. Analisando-se, sem trocadilho, a questão, temos aí na verdade uma mensagem, uma metáfora do que pensa o povo a respeito dos deputados. Trata-se da escritura, trata-se de um discurso sujo a respeito daquilo que é sujo. Por vias transversas, uma nova visão da afirmativa bíblica "do pó, ao pó.

"É triste quando as pessoas tomam iniciativas assim: é um indício de que falta fé nas instituições e inexiste credibilidade pelo que se convencionou chamar de classe política. O conteúdo dos envelopes é um grito surdo, um urro de indignação. Pouco civilizado? Certamente. A mensagem foi grosseira? Yes, quer dizer sim. Mas ninguém, ninguém, poderá dizer que, até mesmo do ponto de vista de uma análise semiótica, os remetentes não têm razão...

Estranhei apenas que, pelo menos até hoje, nenhum jornal impresso tenha repercutido o assunto.PS: Agora, se os deputados quiserem saber quem enviou o material, é só chamar os inteligentes, educados e competentíssimos policiais do CSI Miami, que em dois tempos eles descobrem tudo...

Coisas em vão que construímos

"A vida, como a fizeres,estará
contigo em qualquer parte."
Chico Xavier

O texto abaixo é do meu livro Crônicas para Natal - as crônicas do Jornal do dia.
As estátuas têm um tempo só seu. Indivisível tempo.

Em singular movimento
estático, elas são
batalhadoras de
instantes congelados.

As estátuas, habitantes públicas de
todas as praças, homenageiam
coisas do passado. São como que
sentimentos arquitetados em bronze.
Sonoro bronze do tempo.

Cercadas pela cidade, as estátuas,
em seu conjunto que ensaia emoções,
golpeiam com a espada nua
as coisas em vão que construímos.


quarta-feira, 31 de maio de 2006

O ocaso vestido de ridículo

"Quando você elimina o impossível
o que sobra, por mais incrível
que pareça, só pode ser a verdade."
Arthur Conan Doyle


A publicidade brasileira está consolidando uma visão caricata e cruel da velhice.
Não são poucos nem raros os comerciais que apresentam os idosos, sejam homens ou mulheres, como seres existencialmente ressequidos, etariamente ridículos, comportamentalmente risíveis e humanamente desprezíveis.

Sabe-se que o discurso publicitário tem um tom autoritário, que se disfarça pelos meandros estilístico-visuais da sedução e do convencimento das mensagens. A não ser nos casos em que a campanha publicitária esteja voltada para o público da terceira idade, por exemplo vacinação contra a gripe, geralmente predomina uma mensagem em que o velho aparece sob a tipificação de literalmente um idiota.

E isso por oposição à mensagem-padrão, que é o endeusamento da juventude como uma situação a que todos devem almejar. Simples: o quê ou quem não seja jovem, saudável, audaz e belo, terá, por conseqüência inversa, a situação de velho, portanto indesejável.

Ocorre que a última faceta do discurso publicitário, seu autoritarismo, sempre mandando o publico consumir algo, senão estará out e portanto à margem da vida, traz oculta a verdadeira intenção da mensagem: em verdade não se elogia a juventude ou ou jovem; busca-se seu convencimento à aquisição de um determinado bem ou serviço. Em última instância, a utilização desse jovem como massa de consumo via ilusão de elogio à essa mesma condição de jovem.

E, caindo no que já havia dito antes, sobra ao velho o papel de ser idiota, alguém a ser estigmatizado, papel de embrulho já usado e agora descartável. Trata-se de uma forma de comunicação de massa cruel, merecedora de todo o repúdio.

Um anúncio televisivo de que me recordo agora diz respeito à marca Vitarella. No comercial, um velho é chamado a degustar um biscoito. Mas é exposto como surdo, entende tudo errado e se coloca numa situação absolutamente ridícula, ao ser perguntado sobre uma coisa e responder outra.

No Brasil não se respeita a experiência e a vivência dos idosos. Que pena: deve ser por isso que nesse país se faz tanta besteira.

quinta-feira, 25 de maio de 2006

A crônica dos 400 anos

"Grandes almas sempre encontraram
forte oposição de mentes medíocres."
Albert Einstein

A crônica a seguir eu a publiquei em 2000, quando Natal completou 400 anos.

Natal. A cidade renasce, num olhar de orvalho.
E o tempo, esse ancião que sabe moldar o futuro,

deu a Natal a condição de eterna adolescência.

E rebrotada no jardim de si mesma, a cidade escolhe
seus caminhos, reconhece seus dramas e
tira, dos novelos da vida ,o tecido que veste cada rua, cada beco.

Natal é assim: uma cidade bordadeira de teias de futuro,
uma menina que guarda suas luzes
para cada momento de alegria ou dor.

E que cresce, no silêncio das raízes,
operando o grande milagre de ter 400 anos
e ser amável, jovem e muito linda noiva do sol.

quarta-feira, 24 de maio de 2006

Silêncio, ela é virgem...*

"Não há nada permanente,
exceto a mudança."
Heráclito

Natal, anos 50. Festinha no Aero Clube, com Aderaldo e seu solovox de ouro. À frente de uma pequena porém vigorosa banda, Ade encantava as tertúlias de brotos, tocando os hits das big bands e ensaiando os primeiros passos de uma nova dança, que escandalizava os papais e mamães, o rock’n’roll.

Em meio à vertigem da música, Maria Lúcia deixava-se envolver pelos acordes verbais de Anselmo, um rapaz insinuante, mas tido por todas as famílias de bem como um cafajeste. Mas Lucinha foi, foi e foi, dançando ante os olhares cobiçosos e ao mesmo tempo temerosos de suas amigas que, timidamente arrebatadas, queriam um namorado que se vestisse como James Dean.

Depois, em meio à voltagem da festa, Maria Lúcia desapareceu com Anselmo e voltou meia hora depois sozinha, lívida, pasma, transparente. O que foi, o que foi?, todas as amigas perguntavam. Ela somente respondia com uma negativa de cabeça, deixando no ar uma expectativa de medo, temor de uma coisa ruim, desastre no meio da noite. Depois, estourou na gargalhada e súbito calou-se. Acalmou-se e foi dançar com outro rapaz. Até o fim da festa.

“Você viu?”, comentou uma amiga, “Anselmo não voltou com ela. O que terá havido?” Nunca ninguém soube e ela, discretamente, retirou-se da convivência com as meninas, passando a ouvir em casa intermináveis discos de Cely Campelo. Certo dia, um jornal noticiou, letras enormes, tipos de madeira: “Morto o Dr. Sinésio. E sob o grande título, o complemento: “Famoso ginecologista degolado em pleno consultório.”

Maria Lúcia leu a notícia e manteve-se calada, em seu claustro privativo e voluntário. O pai, Dr. Samuel, comentava com a família o trágico desaparecimento do colega e ninguém entendia como um médico podia ser morto em seu consultório, sem que ninguém percebesse: “Pois é. Ele foi encontrado morto de manhã. Quer dizer que alguém, depois do atendimento, entrou lá e pá!, matou o homem!”, espantava-se o Dr. Samuel.

E as mortes se sucederam uma a uma, até chegar a cinco. A cidade estava em polvorosa, mortos cinco ginecologistas e não se tinha um suspeito, um motivo para os crimes, nada. Os médicos especialistas do setor ficaram preocupados e passaram a tomar graves cuidados. Todos mantinham nas gavetas alguma arma, qualquer coisa para se defender.

Uma tarde, tardinha, começo de noite, um deles, Dr. Anderson, um médico recém-formado, mas de grande futuro, atendia a uma jovem e linda cliente. Respeitoso, ele a examinava, mas não deixava de perceber como aquele corpo era belo, intenso e... na mão esquerda, não tinha aliança de casada. Naquele tempo aquilo era gravíssimo. Constatou a gravidez em estado inicial e, para saber algo mais a respeito da cliente, insinuou: “Parabéns, seu marido vai ficar feliz, a senhora está grávida...”

A mulher reagiu como uma mola, num bote de cascavel: “Parabéns não, mentiroso. Eu não sou casada, se não sou casada sou virgem, se sou virgem sou uma moça e uma moça não pode ter filhos. Vocês, médicos, não respeitam a virgindade. Eu já fui a muitos médidos para comprovar que não estou grávida.” E sacou um finíssimo estilete para tentar punir o difamador.

Horas depois, em casa, o Dr. Samuel recebia uma ligação da delegacia de polícia: “Dr. Samuel venha rápido. Sua filha está na cadeia. Foi ela quem matou todos aqueles médicos. O último conseguiu dominá-la.”

Ele foi até lá em companhia da mulher, Dona Arlinda, que em prantos ouviu da filha: - Fui a um bando de difamadores e todos diziam que eu estava grávida. Não sou casada e eles tinham de ficar em silêncio, em respeito à minha virgindade. Ninguém podia dizer que eu estava grávida. É proibido acusar uma moça de estar grávida.

Dia seguinte, ao ler o jornal, Anselmo riu em silêncio e acendeu mais um cigarro. E pensou: "Eu também, Lucinha. Eu também sabia que você não estava grávida. Como você poderia ficar grávida, se a gente nem tinha casado?" E logo em seguida pegou o telefone: ia ligar para Guiomar. Claro, ela também não ficaria grávida. Nem eram casados...
* Este texto é ficcional.

terça-feira, 23 de maio de 2006

O hamster também foi atropelado

"Muita luz é como muita
sombra: não deixa ver."
Carlos Catañeda


O jornalismo trabalha com um processo de seleção de acontecimentos que tenham saliência em relação aos demais fatos do cotidiano.
A priori, ganham destaque aqueles fatos que tenham carga de dramaticidade,criem tensão, gerem expectativa. Com isso, fundou-se a tradição da tensão jornalística, aquela circunstância comunicacional impactante, que gera no leitor a curiosidade pela leitura do texto.

Em função disso, os jornais estão cheios de notícias com poderoso efeito tensor. Isso pode ser facilmente percebido nos telejornais, especialmente porque estes trabalham com e contra o fator tempo: é preciso comprimir, em cerca de 40 minutos, uma profusão de fatos. E os "mais importantes" são, certamente, aqueles que melhor se enquadrarem no conceito de tensão jornalística.

Vivemos num mundo farto em acontecimentos de forte carga negativa. Como o jornal é parte do mundo, naturalmente reflete toda essa carga. Há poucos dias tive uma experiência, que me fez meditar a respeito dessa realidade e de como é preocupante o tipo de mensagem que o jornalismo dispõe ao público.

Foi assim: fui visitar minha neta, Eduarda, e qual não foi a minha surpresa quando a vi: estava vestida com uma saia da mãe, que lhe chegava aos pés, uma blusa e sapatos de saltos altos. Sim: e, na mão, tinha um lápis. Elogiei sua roupa, sua delicada elegância infantil e perguntei porque aquilo. Ela respondeu: - Vô, eu vou apresentar o Jornal Nacional.

Eu abri um sorriso desse tamanho e disse a ela que sim, que queria assistir ao seu jornal.
Ela disse o que ia fazer e subiu ao primeiro andar da casa onde mora. E completou: - Vô, venha comigo - claro que eu a acompanhei. Ela chegou à mesinha onde faz suas tarefas escolares, mandou-me ficar em silêncio e começou: - O cachorro pastor alemão foi atravessar a rua e foi atropelado pelo caminhão...

Parei. Imaginava que o "Jornal Nacional" de Eduarda seria aberto, digamos assim, com alguma "notícia" a respeito de alguma de suas bonecas ou bichos de pelúcia. Mas imediatamente, fui atropelado pela segunda "notícia": - O macaco foi atravessar a rua e também foi atropelado.

Minha admiração com sua figurinha graciosa cedeu lugar a um sentimento de preocupação: o que estaria havendo? Por que a escolha por fatos da vida, em vez de referências ao seu delicado e belo mundo de menina?

Para tentar suavizar o "noticiário", eu disse: - Eduarda, corte para o repórter Emanoel Barreto. Ele está no jardim zoológico e vai entrevistar um novo leão que chegou.

Ensinei como ela deveria fazer e ela: - Agora, vai falar o repórter Emanoel Barreto, diretamente do zoológico.

Eu entrei no "noticiário" e inventei uma entrevista maluca com o tal leão. Feito isso, cresceram minha surpresa e minha preocupação: - Mas Vô, leão não fala.

Ou seja: ali, no "Jornal Nacional", não valiam as regras da inocência, da ingenuidade. Prevaleciam as normas do mundo, suas dores e sofrimentos. Afinal, é isso mesmo o que os jornais veiculam: as dores do mundo. Lamentavelmente, tenho de admitir que, frente à realidade, não há como fugir: o mundo, feio e triste, jornalisticamente cifrado, também chega às crianças e havia, havia sim, chegado à minha netinha.

Tentei outra vez consertar a situação, mas não adiantou. Compreendi então como é poderosa a cadeia social a que estamos presos. Um mundo de desigualdades, de temores, incertezas, crueldades e dor. E o jornalismo reúne todos esses fios de desolação e tece a trama da tragédia, ao relatar o terror da vida.

Eu disse a Eduarda que estava bom de terminarmos aquele jornal, que queria ver com ela algum desenho ou algo assim. Ela respondeu - Tá bom, Vô: vamos brincar. Mas antes ainda tenho uma notícia.

Qual é? - indaguei.
Ela respondeu - O hamster também foi atropelado.

segunda-feira, 22 de maio de 2006

Beco da Quarentena

"A avareza é a
miséria no agora."
Provérbio árabe


Abaixo, um registro da Natal boêmia, onde bêbados desvalidos faziam suas farras de desespero. O texto é do meu livro Crônicas para Natal.

Na Ribeira há um caminho torto, feio, escuro.
É a Travessa da Quarentena, onde, há
muito, muito tempo, os deuses desvairados
do sexo barato faziam ali suas orgias.

O Beco da Quarentena, como ficou na

lembrança popular, é esse falido porão
da cachaça barata e das mulheres de todos
e de ninguém.

Ali, vez por outra, passantes cortam

caminho, num atalho sem futuro.

Ali, quem sabe, nas noites da velha Ribeira,

fantasmas de bêbados e marias se juntam.
E dançam sua dança de cachaça.

Código Da Vinci: uma bíblia midiática para uma fé televisiva

"Comprometemo-nos a trabalhar
com ambas as partes para levar o nível
de terror a um nível aceitável
para ambas as partes."
George W. Bush

Chegamos a um ponto em que a farsa tomou o lugar do bom senso e o bom senso perdeu a saliência essencial daquilo que seria digno de nota. Tem-se uma prova com a simples leitura da frase do presidente americano, bem como com a celeuma criada em torno da versão filmográfica do Código Da Vinci.

Vivemos numa sociedade midiocrática, onde comportamentos podem ser moldados. Não pelo fato de que as pessoas reajam maquinalmente a uma determinada mensagem, como um robô faria a um comando direto.

Mas em função de que a criação de esquemas mentais socializados e cristalizados respondem positivamente sempre e quando mensagems de determinado teor tocam pontos socialmente sensibilizados (já notou que supermercados e lojas de roupas estão vendendo em grande escala roupas verde-e-amarelo? - é só para mostrar...)

Num mundo de grandes carências, num mundo em que não há mesmo respostas a indagações as mais simples, como a dúvida de uma família favelada se terá o que comer dia seguinte, publicações como o Código Da Vinci assumem o papel de estatutos que até então tinham sobre si a visão de esclarecimento sobre o divino e o mundo.

Para muita gente, o Código Da Vinci está substituindo a Bíblia. E isso pelo fato de que o Código Da Vinci é uma espécie de Bíblia midiática, feita sob medida para uma fé claudicante, para os fiéis de uma Igreja Católica que também se transformou numa instituição midiática que tem produtos como o padre Marcelo Rossi e o padre Antônio Maria, que tão bem trabalham suas imagens públicas.

Igrejas protestantes também alardeiam milagres; em Natal, chegou a passar um pastor que anunciou claro e bom som: "Venha buscar o seu milagre!" E, ao que parece, uma grande mulditão compareceu.

No mais, é o seguinte: reze para o PCC não publicar também sua bíblia de crimes. Na prática, já há tantos adeptos, que, logo logo, seus chefões estarão comandando rituais de iniciação ao crime.



domingo, 21 de maio de 2006

Agradecer sempre

Liberdade é uma palavra que o sonho humano
alimenta,não há ninguém que
explique e ninguém que não entenda.
Cecília Meireles

Agradecer sempre, em todos os instantes, a graça da vida.

A vida está até mesmo na lembrança, uma vez que a lembrança
é parte da eternidade.
E tudo o que é eterno,

mesmo aparentemente desaparecido,
jamais morre, pois se destina a renascer na perenidade do amor.

E a vida, nas mãos de todos nós, é como um segredo que
temos, todos sabem, mas ninguém o desvela por inteiro.
A sua descoberta é um passo adiante.
E esse passo somente o podemos

dar para dentro de nós mesmos.




sexta-feira, 19 de maio de 2006

Os barcos mortos

“Abandonai essa vida de

crimes e legislações, ó infiéis!”

Millôr Fernandes

A crônica abaixo é do meu livro Crônicas para Natal, numa homenagem ao rio que embeleza a cidade e aos seus barcos velhos, parados e esquecidos.

Trágicos em seu silêncio de madeira triste,

os barcos mortos do Potengi são relembranças de marés em preamar.

Grandes corpos de madeira que sofre, seus corpos se vão.

E seguem parados, sem vela ou navegador.

Quantas vezes se fizeram ao mar, quantas vezes

se apressaram no confronto com ondas.

E de todas as batalhas corsárias de que

participaram, voltaram sob a bandeira da vitória.

Pescadores, corajosos, enfrentaram tempos,

bateram milhas, superaram noites.

E agora, guerreiros esquecidos, sucumbem ao silêncio do frio.

E ninguém, ninguém, se lembra que lutaram tanto.

Vamos fazer pesquisa de lata?

"Há duas maneiras de viver a vida: uma, é como se nada fosse milagre. A outra, com se tudo fosse milagre." Albert Einstein

Aprendo muito com a minha netinha, Eduarda. Certo dia, ela me ensinou: - Vô, é proibido prender arara em casa, sabia? Eu ensaiei uma cara de surpresa e disse: - É mesmo, Eduarda? E por quê?"

Ela me respondeu de forma bem direta: - É contra a lei. Não se pode prender arara, porque é contra a lei. A conversa continuou: -E o que é "contra a lei"? A resposta foi um primor de doce ingenuidade e, paradoxalmente, de grande pertinência. Veja só: - Vô, contra a lei é contra a lei, ora. Contra a lei, Vô: polícia!..

Ou seja, com seu raciocínio de criança de seis anos de idade, ela sintetizou a coercitividade social quando objetiva a que os cidadãos se adequem às determinações legais. Se é contra a lei, polícia neles.

Claro, simples como respirar. Assim, estava explicado por ela, para mim, o conceito de ilegalidade. E as araras, coitadinhas, supostamente protegidas por esse inocente conceito, que aparentemente faria tremer malfeitores de todo o tipo, caso aplicado em sentido amplo.
Claro que eu me comprometi com ela, e estou cumprindo: jamais prender uma arara. Ontem ela me ligou, com uma estranha convocação. Ela sabe que participo de todas as suas convocações. Era o seguinte: - Vô, você sabe fazer pesquisa de lata?


Eu quase caí: como jornalista, já fiz quase todo tipo de cobertura, passei uma noite inteira observando o hotel onde o Papa João Paulo II passou a noite em Natal, pois o jornal onde eu trabalhava temia que ele sofresse um atentado; estive numa mesma sala que que se encontrava Yasser Arafat; recebi uma visita da repressão do regime de 64 em minha casa e por aí vai. Mas, pesquisa de lata... que me lembre, jamais fiz.

Mas, como bom repórter, topei o desafio. "Pronto", pensei, vou fazer uma pesquisa de lata." Por precaução, perguntei o que era a tal pesquisa. Ela não soube me explicar, mas pediu que eu fosse à tarde em sua casa, para ver o que eu poderia fazer. Aceitei na hora. Já pensou, fazer uma pesquisa de lata com a minha netinha? O menino que ainda mora em mim ficou muito contente pelo convite.

Mas, pouco depois minha filha, mãe de Eduarda, ligou explicando que era preciso apenas uma latinha, para que ela fizesse uma experiencia escolar. Coisa simples e que ela mesma faria. Fiquei um pouco frustrado, mas mãe e filha precisavam sair naquela mesma tarde e minha pesquisa de lata ficará para outra oportunidade.

Tudo isso, além da alegria de falar sobre minha neta, serve também para uma reflexão: acho que o brasileiro precisa entender que há mais coisas contra a lei além de capturar araras. Vejamos: receber dinheiros desviados de fundos públicos, praticar assaltos, latrocínios, enganar o povo com discursos populistas, conviver com a improbidade, governos negociando e fazeendo concessões a bandidos, etc... etc...etc... Coisas que o brasileiro sabe muito bem.
Há, evidentemente, muitas coisas que são contra a lei. E se alguém ainda não memorizou o que é ser contra a lei, repito: - Vô, contra a lei é contra a lei, ora. Contra a lei, Vô: polícia!...

quarta-feira, 17 de maio de 2006

A cidade inteira e linda

"Não basta conquistar a sabedoria;
é preciso usá-la"
Cícero



Abaixo, transcrição de crônica do meu livro "Crônicas para Natal - as crônicas do Jornal do Dia", publicado em dezembro de 2000.

Natal ergueu-se do tempo como a história real de um sonho. A cidade, hoje com 400 anos, tornou-se encantadora com o passar dos dias e dos muitos verões. Protegida pela Fortaleza dos Reis Magos, a Noiva do Sol, como a chamava Luís da Câmara Cascudo, tornou-se castelã de dias de alegria e veraneio, nadadora mais linda do Atlântico.

E no Atlântico, Natal projeta a praia de Ponta Negra, um sonho no viés da cidade, com o Morro do Careca ao fundo, em suave curva como corpo de mulher. Depois, a Via Costeira, com seu colar de hotéis, enfeita a cidade com jóias da arquitetura. E, nos hotéis, praias que são tapetes de areia branca, santuários reservados de quietude e beleza.

Vaidosa, Natal é cidade feita de avenidas e luzes, alegria e festa. Quem segue pela Avenida Junqueira Ayres, descobre maravilhado a casa de Luís da Câmara Cascudo, o senhor da História, caminheiro do tempo, zelador de lendas e de luas.

E mais adiante, solene, linda, poderosa em sua simplicidade, a Capitania das Artes guarda exposições e beleza, preserva sonhos da imaginação de artistas. Depois, na primeira curva, a imponência do Palácio Potengi e seus salões de nobreza, quando a política tinha o charme da elegância.

E, ali, pertinho, a arquitetura pesada do Palácio Felipe Camarão, a Prefeitura, solene construção com a cara severa da História.A Ribeira é boemia, é noite, cerveja gelada suando tulipas, beleza, juventude e vibração no som de cada instrumento.

Natal é toda feiticeira. E lembra que era ali, bem ali, na Ribeira, que os soldados americanos festejavam seus medos, antes de partir para a África, para lutar contra Rommel, a Raposa do Deserto. Depois, muito sol e muito mar. As dunas se oferecem como montanhas de aventuras, os bares são encantos, namorados.

Redinha é a praia amiga de Natal, logo depois de atravessado o rio Potengi. Mais adiante, Genipabu é um sonho feito de areia, dunas e coqueiros que enfeitam cada olhar. Em Pirangi, o maior cajueiro do mundo é árvore sem fronteiras, a crescer eternamente.

E dos seus galhos que não se acabam mais, brotam lindos frutos, cajus meninos a adoçar cada boca. Natal é cidade bonita, elegante, como mulher que desfila e sabe que todos os olhares estão em suas curvas. E de sua belez nasce uma energia intensa, que acaricia a cada olhar, como se a cada momento de descoberta a cidade renascesse diferente e ainda mais bela.

terça-feira, 16 de maio de 2006

Tenebrosas transações

"O juiz é condenado quando
o criminoso é absolvido."
P. Ciro

As informações que circulam na imprensa dão conta de que houve, entre o Governo paulista e o criminoso Marcola uma negociação, a fim de que os bandidos reduzam sua brutalidade sobre o povo de São Paulo. Afora o aspecto de rendição que tal comportamento encerra, uma vez que negociar com bandidos é inegavelmente uma forma de fraqueza por parte do governante, há um outro questionamento, esse bem mais grave, que foi a renitente recusa do governador Cláudio Lembo em aceitar ajuda federal.

Fica bastante claro que a intenção do governador foi impedir um suposto uso político da baderna durante a próxima campanha eleitoral. A atitude, mesquinha e temerária sob todos os aspectos - uma vez que a onda terrorista poderia ter tomado rumos totalmente incontroláveis - revela bem que tipo de políticos temos neste País.

A ajuda oferecida pelo presidente Lula, além de ser regida pelo bom senso e espírito de responsabilidade pública, era efetivamente necessária. Mas o governador "achou" que não, que a polícia paulista poderia, sozinha, superar o impase. Não poderia, e os fatos assim o demonstraram.

As rebeliões somente pararam após a ordem do bandido Marcola, ou seja: o crime organizado manteve seu poder de negociação, favorecido pelos apetites político-eleitorais de um governante de baixa estatura cívica.

A questão está posta: cessada a ação coletiva dos marginais as coisas tomarão uma aparência de calmaria social, mas a essência, a matriz de poder dos criminosos está preservada.

O mesmo diga-se com relação ao Rio, onde as quadrilhas estão muito bem situadas nos morros e de lá poderão literalmente disparar ações contra a cidadania. Não há uma ação coordenada, competente, direcionada para esse enfrentamento; um trabalho que tenha por objetivo reduzir ao mínimo a ação dos criminosos, uma vez que extinguir o crime é algo de que não se pode cogitar, já que se trata de algo inerente à condição humana em sociedade.

Com o passar dos anos essa situação, que já assumiu contornos proto-políticos, tenderá a se cristalizar. Já se fala que as facções criminosas tramam eleger representantes no parlamento.

E então, afora os deputados e senadores que praticam os crimes de colarinho branco, teremos, afinal, o criminoso comum, o bandido, o salteador de vidas, devidamente entronizado num mandato, legislando a favor de seus interesses.

O comportamento do governador de São Paulo foi uma tenebrosa transação, uma negociata cujo preço será pago pela sociedade.


segunda-feira, 15 de maio de 2006

O silêncio dos inocentes

"Nossa geração não lamenta tanto os crimes dos
perversos quanto o estarrecedor silêncio dos bondosos."
Martin L. King

A frase do Dr. Martin Luther King resume à perfeição a crise de autoridade e de competência do Estado brasileiro em reprimir exemplarmente a ação brutal de criminosos. A leniência vai desde uma legislação frouxa e que tende a facilitar a volta de criminosos hediondos ao convívio social, até à lentidão com que as forças da lei e da ordem estão se organizando.

Os bandidos em S. Paulo, agora, além de ataques a bases policiais, estão se voltando contra ônibus e bancos. O objetivo é bastante claro: querem implantar o caos, desestabilizar a sociedade, disseminar o terror. Muitos presídios estão sublevados e aparentemente não há no horizonte um indicativo de quando a baderna será posta sob controle.

Há uma real e efetiva demonstração de força dos criminosos organizados, há uma inequívoca indicação de que tais atos implicarão outros e, da parte do Estado, somente conversas, reuniões, e, claro, a resistência possível da polícia paulista.

Entretanto, o País conta com cerca de 3.000 soldados da Força Pública do Exército e 4.000 mil homens da Força Nacional de Segurança, um grupamento civil integrado por policiais de vários Estados. São tropas de elite, capazes de enfrentar com o poder de fogo necessário a ação bárbara dos criminosos descontrolados. Por que essas tropas não foram acionadas?

Não nego que estou redigindo este artigo movido pelo mais forte sentimento de indignação: não é mais possível ao cidadão comum, o homem do povo, eu, você, qualquer um, conviver em silêncio temeroso e quase reverencial com bandidos da pior espécie.

São eles pessoas sem qualquer sentimento de compaixão, piedade, misericórdia ou respeito pelos direitos humanos. O bandido é um ser despido de humanidade. Ou melhor: o bandido é um ser vestido com as mais ornamentadas e vistosas filigranas que a brutalidade humana concebeu ao longo do tempo. O bandido é a humanidade vestida de sangue.

Não vou negar que as deploráveis condições sócio-econômicas nacionais são a causa primeira, a matriz geradora do banditismo e da criminalidade. É preciso uma ação social séria, de desdobramentos históricos profundos, a fim de reverter-se tal situação. E isso somente será possível com uma justa distribuição de renda, freando-se também o apetite pelo lucro ilimitado, que no Brasil tornou-se uma epidemia.

Mas, no momento, vivemos uma situação real, objetiva, sensível no medo, no pavor que desperta e que já obteve repercussão mundial. Não há como rejeitar que é preciso haver uma reação vigorosa em defesa do cidadão. Silenciar, em nome de qualquer doutrina de ademanes anunciadamente humanitários para com os bandidos, é agir com ingenuidade ou má fé.

Meu entendimento é esse: é preciso reagir: mas, enquanto isso não acontece, ocorre o seguinte: entre os apetites do nosso capitalismo que criou essa situação, e a descontrolada brutalidade dos bandidos, fica o cidadão pobre, o trabalhador, que sofre as conseqüências. Sofre calado, e em toda a plenidute, o silêncio dos inocentes.