| “Natal não consagra nem desconsagra ninguém.” (Luís da Câmara Cascudo) Manoel Francisco dos Santos assim chamado na pia batismal, acabou conhecido mesmo como Mané Garrincha, o craque das pernas tortas. Não, não, jamais deveria ter sido jogador de futebol, muito menos um artista da bola. As pernas tortas seriam o impeditivo final, sua limitação primeira, a sujeitá-lo à vida comum de nós que, admiradores do campo e do gol, somente podemos nos deliciar com as jogadas geniais, incapazes porém de repeti-las. Mas o menino pobre da cidade de Pau Grande, acabou consagrado craque e chamado de alegria do povo. Afinal, não foi ele quem enfiou uma bola por entre as pernas veneráveis de Nílton Santos, a "enciclopédia do futebol"? Não era ele quem driblava um, driblava dois, driblava três e ainda saía correndo sozinho, deixava a bola lá atrás e levava consigo um adversário aturdido? E depois voltava, pegava a bola e fazia o gol? Palhaços: em campo, todos os adversários de Garrincha podiam acabar fazendo papel de palhaços, tantos e desconcertantes eram seus dribles, sempre pela direita, mas com variações. E eram essas variações que faziam a diferença. Em jogos da Seleção, quando pegava um marcador para judas, esse passava a ser chamado de “joão”, ou seja, o bobo, o tolo que ia só ser suplantado, sem conseguir deter o grande Mané. Não sei. É disso que hoje sinto falta no futebol moderno, científico, calculado, frio. Sinto falta da emoção, da jogada poética que é um achado, um vigoroso balé, o craque vai driblando e faz gooooooooooooool!!!!! Tá certo, Garrincha, tá certo... É melhor que isso tudo fique na memória, servindo de exemplo, um museu de emoções que ajudam a inspirar os que hoje, em meio de campo, querem seguir suas pegadas. Os passos do craque serão sempre a trilha mais segura para o grito e o abraço, na alegria do gol. Mas, no fundo, Garrincha era um simples. Não soube desfrutar do dinheiro nem da fama que ganhou. Perdeu tudo: mulher, filhas, Elza Soares, a casa, os carros, tudo, tudo, tudo... Depois, sobrou somente uma grande e depressiva saudade dos dias de glória e os copos de cachaça que preenchiam os seus dias. E, para quem viu, uma passagem melancólica numa escola de samba do Rio, num desfile de carnaval. Mané, deprimido, cabisbaixo, quem sabe embriagado, olhava para baixo, enquando o carro alegórico que o levava seguia avenida adiante. Foi, para mim, a imagem mais triste do jogador de futebol que mais admiro. Mas ficou, ficou Mané, a lembrança dos gols belíssimos e a sinfonia de dribles, que o fizeram magnífico e grandioso. Bravo. Bravíííííííssimo!!!!!!!! |
"Não é justo alguém ter o direito de ter uma empresa de aviação e outro não ter o direito de comer um pão." /////// JAMAIS IDE A UM LUGAR GRANDE DEMAIS. A UM LUGAR AONDE NÃO TENHAIS CORAGEM DA IMENSIDÃO - EMANOEL BARRETO - NATAL/RN
sábado, 3 de junho de 2006
Cadê o drible de Mané?
sexta-feira, 2 de junho de 2006
Vamos prender todo mundo?
| "Penso que se você sabe o que pensa, será muito mais fácil responder à sua pergunta. Não posso responder à sua pergunta." (Presidente George W. Bush) O País inteiro viu: o advogado do tal Marcola acabou saindo preso, algemado, da Comissão Parlamentar que apura o tráfico de armas. Detalhe: a prisão se deu pelo fato de que o advogado comparou os parlamentares a bandidos. Quem viu a cena pela TV sabe: ao ser pressionado pelos deputados sobre como havia aprendido rápido sobre malandragem, afirmou: "Aqui se aprende rápido." Os deputados entenderam rapidamente que ele se referia ao parlamento e a prisão foi coisa de minutos. A questão é exatamente essa: você confia no Congresso Nacional? Você entende que a instituição é efetivamente íntegra, comprometida com os interesses do País, confiável em suas atividades internas? Os recentíssimos casos de mensaleiros e a sua quase integral absolvição trazem à visão pública uma instituição pelo menos, digamos, sombria. Os deputados tiveram razão em mandar prender o advogado - que depois voltou ao plenário para depor, após assinar um termo em que se comprometia a responder a um processo por desacato - mas deve-se levar em consideração que deputados federais e senadores, os políticos de um modo geral, são pessoas que aparecem ao olhar nacional como pessoas cujo comportamento é questionável. E questionável a priori, o que é pior. O advogado, ao ser algemado, ainda "aplaudiu", mesmo com as mãos atadas, o ato de sua prisão. E saiu dizendo que os deputados "queriam uma foto" para se projetar na mídia nacional, prendendo alguém por comportamento de desacato a autoridade. Ao final das contas, o seguinte: de um lado, criminosos altamente organizados, com grande poder de fogo e de dinheiro; de outro, um parlamento cheio de defeitos, infestado de cúmplices, abarrotado de suspeitos. Vamos prender todo mundo? |
"Eu vou é ser ladrão."*
| Eu sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta." (Presidente Lula, no Dia Internacional da Mulher) Ele seguiu avenida abaixo, pensativo. Era já o terceiro emprego que perdia no ano. Apesar de esforçado, chegar sempre no horário, na hora das demissões seu nome constava sempre na lista. Nunca compreendera o motivo de tanta má sorte. Olhou o mundo com um olhar pardo, perdido no meio da confusão do trânsito. Havia recebido o dinheiro pelos dias que havia trabalhado: dava coisa de uns cem reais. Tudo parecia estar dando certo, mas de repente apareceu na empreiteira um sujeito que conhecia um engenheiro por lá e indicou um novo pedreiro. Pronto. Foi o suficiente para, dia seguinte, ele estar desempregado. E agora, o que dizer a Joaquina, aos cinco filhos e à sogra, lá em Felipe Camarão, zona Norte de Natal? Caminhou meio zonzo, sem saber o que fazer. Estava assim, perdido, desde a manhã, quando havia sido despedido: sem rumo. De repente viu, lá na esquina, uma barraca de churrasquinho. Também vendiam cachaça. Seguiu direto até lá. Pediu uma dose e emborcou de um gole. Pediu duas, pediu três. A bebida desceu muriática, queimando todas as raivas e fazendo surgir novos pensamentos de ódio e revolta. Caminhou pela calçada ruminando horrores. Sentou-se no meio-fio e uma rajada de vento polvilhada de areia envolveu seu corpo num abraço de lixa grossa. No meio desse redemoinho de vento e raiva veio voando um jornal. Já velho, de uns cinco dias. Ele pegou o jornal e leu: bandidos haviam chacinado um policial; bandidos haviam assaltado uma mansão e levado muitas jóias; deputados envolvidos em atos de corrupção haviam sido absolvidos; ricaços escapavam da acusação de ter fortunas em paraísos fiscais. Diante de tudo isso, decidiu: "Vou ser ladrão." De que adiantava trabalhar tanto, para, no fim do mês, ver o dinheiro faltando para pagar as contas? Levantou-se e caminhou no rumo da zona Sul da cidade. Afinal viu-se diante de uma mansão. Foi fácil saltar o muro. Atravessou o jardim. Foi fácil abrir a porta. Foi fácil entrar na casa. Subiu ao primeiro andar. Além dele, ninguém. Aparentemente, ninguém. Mas suspeitou: se a porta estava só no trinco, haveria alguém em casa. Será que num tempo como o de hoje, com tanto ladrão por aí, uma pessoa ia deixar a casa só no trinco? Tomou cuidado. De repente, ouviu um barulho de chuveiro. Foi cautelosamente até a suíte de onde vinha o barulho e ficou olhando, pela porta entreaberta. Somente o quarto estava iluminado. O restante da casa era envolvido em penumbra. A escuridão era sua amiga. Mesmo assim, ofegava. Fera no bote da presa. Até que esta apareceu. Saída do banheiro uma mulher de trinta anos, muito bonita, caminhava resplandescente e nua. Ele tremeu. Aí percebeu: nem arma tinha para o assalto. A mulher caminhou até o guarda-roupa e demorou-se, de costas para ele. Voltou-se e tornou a caminhar. Ele a seguia com o olhar. E via também a riqueza, o luxo daquele quarto. Olhava tudo aquilo e comparou com a pobreza de sua casa, a figura triste de sua Joaquina, os moveizinhos baratos, a casinha apertada e feia. A beleza da mulher rica voltou a dominar seu olhar. Ela se perfumava. O aroma espalhou-se pelo quarto e chegou até ele. Aí, sentiu seu próprio cheiro, olhou-se e recuou, recuou, recuou. Caminhou pela semi-obscuridade, chegou até à porta, saltou o muro e escapou. Quando seus pés bateram na calçada, respirou fundo. Encolheu-se a um canto do muro e chorou em silêncio. De repente, ouviu dois tiros vindos de dentro da casa. E um grito horrendo de mulher. E logo em seguida dois jovens saltavam o muro. E ainda deu para ele ouvir quando um deles gritava para o outro: - Cê viu, rapá, aquele otário saiu na frente, nem viu que a gente já tava dentro da casa, e a gente se fez. Dei dois tecos na madame e pegamos o colar! * Este texto é ficcional. |
Coisas do Brasil
Henry Ford
Vejo nos jornais a euforia pela Seleção, a esperança do hexa, a alegria pré-fabricada; vejo nos jornais criminosos sento autorizados a aguardar julgamento em prisão domiciliar; vejo nos jornais políticos entrecruzando tramas; vejo nos jornais um emaranhado do mundo; vejo nos jornais as coisas do Brasil.
O País tem uma das piores distribuições de renda do mundo. Tem, por outro lado, um sistema de crime organizado que daqui a pouco tempo fará inveja as qualquer máfia. E nada de mais efetivo é feito para enfrentar essa situação ou seja: a má distribuição de renda e o banditismo atuando de forma empresarial.
E o que se vê nos jormais se vê também nas ruas, até pelo fato de que o jornal nasce da rua e para a rua volta. A rua não é só aquela por onde você trafega com o seu carro e vê os meninos pedindo esmolas nos sinais. A rua, a grande rua brasileira, é onipresente, especialmente nos gabinetes e salas secretas do poder.
A rua brasileira invade as decisões de poder, como o assaltante invade a loja. Os grandes crimes das ruas têm suas versões light e diet no parlamento, nos grandes encontros financeiros, nos palavrosos acordos políticos e administrativos.
Coisas do Brasil. A rua invade os meios tons das conversas decisórias e dita o tema da próxima negociata. Ah! E o hexa? Também é uma grande negociata. Milhões estão rolando nessa história de Seleção. E quando a gente gritar gol!, as registradoras estarão tilintando e alguém, alguém muito rico, um ser sem face e sem alma, brindará à tolice de milhões (de tolos) ao redor do mundo...
E aí, chegaram aqueles estranhos pacotes... E os deputados taparam o nariz.
Presidente George W. Bush
Veja só o que o Jornal Nacional divulgou em sua edição de ontem: "Gabinetes de nove deputados federais receberam, pelo correio, envelopes que continham fezes. A polícia do Legislativo está investigando a origem da correspondência. Os envelopes partiram de São Paulo e de Minas Gerais. Estavam endereçados a parlamentares do PT, do PP, do PDT e do P-Sol. O material será analisado no laboratório de saúde pública do Distrito Federal."
O texto rápido e seco, típico do jornalismo de TV, mas que lamentavelmente está sendo imitado por algumas tendências do jornalismo impresso, vide Folha de S. Paulo, limitou a umas poucas palavras a informação de atos que, mesmo tendo suas impropriedades, dão uma idéia do quanto o brasileiro já não suporta mais ver o Congresso que temos.
É triste, mas é verdade: aos olhos da nação, o Congresso está mais para antro que para uma reunião de Casas Legislativas e, tanto o Senado quanto a Câmara dos Deputados, são entendidos como instâncias da suspeição e do escambo de favorecimentos imorais, do ócio e do negócio.
Por isso, eis que chegam aos deputados envelopes com material que melhor seria tivesse sido enviado a laboratórios de análises clínicas. Analisando-se, sem trocadilho, a questão, temos aí na verdade uma mensagem, uma metáfora do que pensa o povo a respeito dos deputados. Trata-se da escritura, trata-se de um discurso sujo a respeito daquilo que é sujo. Por vias transversas, uma nova visão da afirmativa bíblica "do pó, ao pó.
"É triste quando as pessoas tomam iniciativas assim: é um indício de que falta fé nas instituições e inexiste credibilidade pelo que se convencionou chamar de classe política. O conteúdo dos envelopes é um grito surdo, um urro de indignação. Pouco civilizado? Certamente. A mensagem foi grosseira? Yes, quer dizer sim. Mas ninguém, ninguém, poderá dizer que, até mesmo do ponto de vista de uma análise semiótica, os remetentes não têm razão...
Estranhei apenas que, pelo menos até hoje, nenhum jornal impresso tenha repercutido o assunto.PS: Agora, se os deputados quiserem saber quem enviou o material, é só chamar os inteligentes, educados e competentíssimos policiais do CSI Miami, que em dois tempos eles descobrem tudo...
Coisas em vão que construímos
| "A vida, como a fizeres,estará contigo em qualquer parte." Chico Xavier O texto abaixo é do meu livro Crônicas para Natal - as crônicas do Jornal do dia. As estátuas têm um tempo só seu. Indivisível tempo. Em singular movimento estático, elas são batalhadoras de instantes congelados. As estátuas, habitantes públicas de todas as praças, homenageiam coisas do passado. São como que sentimentos arquitetados em bronze. Sonoro bronze do tempo. Cercadas pela cidade, as estátuas, em seu conjunto que ensaia emoções, golpeiam com a espada nua as coisas em vão que construímos. |
quarta-feira, 31 de maio de 2006
O ocaso vestido de ridículo
| "Quando você elimina o impossível o que sobra, por mais incrível que pareça, só pode ser a verdade." Arthur Conan Doyle A publicidade brasileira está consolidando uma visão caricata e cruel da velhice. Não são poucos nem raros os comerciais que apresentam os idosos, sejam homens ou mulheres, como seres existencialmente ressequidos, etariamente ridículos, comportamentalmente risíveis e humanamente desprezíveis. Sabe-se que o discurso publicitário tem um tom autoritário, que se disfarça pelos meandros estilístico-visuais da sedução e do convencimento das mensagens. A não ser nos casos em que a campanha publicitária esteja voltada para o público da terceira idade, por exemplo vacinação contra a gripe, geralmente predomina uma mensagem em que o velho aparece sob a tipificação de literalmente um idiota. E isso por oposição à mensagem-padrão, que é o endeusamento da juventude como uma situação a que todos devem almejar. Simples: o quê ou quem não seja jovem, saudável, audaz e belo, terá, por conseqüência inversa, a situação de velho, portanto indesejável. Ocorre que a última faceta do discurso publicitário, seu autoritarismo, sempre mandando o publico consumir algo, senão estará out e portanto à margem da vida, traz oculta a verdadeira intenção da mensagem: em verdade não se elogia a juventude ou ou jovem; busca-se seu convencimento à aquisição de um determinado bem ou serviço. Em última instância, a utilização desse jovem como massa de consumo via ilusão de elogio à essa mesma condição de jovem. E, caindo no que já havia dito antes, sobra ao velho o papel de ser idiota, alguém a ser estigmatizado, papel de embrulho já usado e agora descartável. Trata-se de uma forma de comunicação de massa cruel, merecedora de todo o repúdio. Um anúncio televisivo de que me recordo agora diz respeito à marca Vitarella. No comercial, um velho é chamado a degustar um biscoito. Mas é exposto como surdo, entende tudo errado e se coloca numa situação absolutamente ridícula, ao ser perguntado sobre uma coisa e responder outra. No Brasil não se respeita a experiência e a vivência dos idosos. Que pena: deve ser por isso que nesse país se faz tanta besteira. |
quinta-feira, 25 de maio de 2006
A crônica dos 400 anos
| "Grandes almas sempre encontraram forte oposição de mentes medíocres." Albert Einstein A crônica a seguir eu a publiquei em 2000, quando Natal completou 400 anos. Natal. A cidade renasce, num olhar de orvalho. E o tempo, esse ancião que sabe moldar o futuro, deu a Natal a condição de eterna adolescência. E rebrotada no jardim de si mesma, a cidade escolhe seus caminhos, reconhece seus dramas e tira, dos novelos da vida ,o tecido que veste cada rua, cada beco. Natal é assim: uma cidade bordadeira de teias de futuro, uma menina que guarda suas luzes para cada momento de alegria ou dor. E que cresce, no silêncio das raízes, operando o grande milagre de ter 400 anos e ser amável, jovem e muito linda noiva do sol. |
quarta-feira, 24 de maio de 2006
Silêncio, ela é virgem...*
exceto a mudança."
Heráclito
Natal, anos 50. Festinha no Aero Clube, com Aderaldo e seu solovox de ouro. À frente de uma pequena porém vigorosa banda, Ade encantava as tertúlias de brotos, tocando os hits das big bands e ensaiando os primeiros passos de uma nova dança, que escandalizava os papais e mamães, o rock’n’roll.
Em meio à vertigem da música, Maria Lúcia deixava-se envolver pelos acordes verbais de Anselmo, um rapaz insinuante, mas tido por todas as famílias de bem como um cafajeste. Mas Lucinha foi, foi e foi, dançando ante os olhares cobiçosos e ao mesmo tempo temerosos de suas amigas que, timidamente arrebatadas, queriam um namorado que se vestisse como James Dean.
Depois, em meio à voltagem da festa, Maria Lúcia desapareceu com Anselmo e voltou meia hora depois sozinha, lívida, pasma, transparente. O que foi, o que foi?, todas as amigas perguntavam. Ela somente respondia com uma negativa de cabeça, deixando no ar uma expectativa de medo, temor de uma coisa ruim, desastre no meio da noite. Depois, estourou na gargalhada e súbito calou-se. Acalmou-se e foi dançar com outro rapaz. Até o fim da festa.
“Você viu?”, comentou uma amiga, “Anselmo não voltou com ela. O que terá havido?” Nunca ninguém soube e ela, discretamente, retirou-se da convivência com as meninas, passando a ouvir em casa intermináveis discos de Cely Campelo. Certo dia, um jornal noticiou, letras enormes, tipos de madeira: “Morto o Dr. Sinésio. E sob o grande título, o complemento: “Famoso ginecologista degolado em pleno consultório.”
Maria Lúcia leu a notícia e manteve-se calada, em seu claustro privativo e voluntário. O pai, Dr. Samuel, comentava com a família o trágico desaparecimento do colega e ninguém entendia como um médico podia ser morto em seu consultório, sem que ninguém percebesse: “Pois é. Ele foi encontrado morto de manhã. Quer dizer que alguém, depois do atendimento, entrou lá e pá!, matou o homem!”, espantava-se o Dr. Samuel.
E as mortes se sucederam uma a uma, até chegar a cinco. A cidade estava em polvorosa, mortos cinco ginecologistas e não se tinha um suspeito, um motivo para os crimes, nada. Os médicos especialistas do setor ficaram preocupados e passaram a tomar graves cuidados. Todos mantinham nas gavetas alguma arma, qualquer coisa para se defender.
Uma tarde, tardinha, começo de noite, um deles, Dr. Anderson, um médico recém-formado, mas de grande futuro, atendia a uma jovem e linda cliente. Respeitoso, ele a examinava, mas não deixava de perceber como aquele corpo era belo, intenso e... na mão esquerda, não tinha aliança de casada. Naquele tempo aquilo era gravíssimo. Constatou a gravidez em estado inicial e, para saber algo mais a respeito da cliente, insinuou: “Parabéns, seu marido vai ficar feliz, a senhora está grávida...”
A mulher reagiu como uma mola, num bote de cascavel: “Parabéns não, mentiroso. Eu não sou casada, se não sou casada sou virgem, se sou virgem sou uma moça e uma moça não pode ter filhos. Vocês, médicos, não respeitam a virgindade. Eu já fui a muitos médidos para comprovar que não estou grávida.” E sacou um finíssimo estilete para tentar punir o difamador.
Horas depois, em casa, o Dr. Samuel recebia uma ligação da delegacia de polícia: “Dr. Samuel venha rápido. Sua filha está na cadeia. Foi ela quem matou todos aqueles médicos. O último conseguiu dominá-la.”
Ele foi até lá em companhia da mulher, Dona Arlinda, que em prantos ouviu da filha: - Fui a um bando de difamadores e todos diziam que eu estava grávida. Não sou casada e eles tinham de ficar em silêncio, em respeito à minha virgindade. Ninguém podia dizer que eu estava grávida. É proibido acusar uma moça de estar grávida.
Dia seguinte, ao ler o jornal, Anselmo riu em silêncio e acendeu mais um cigarro. E pensou: "Eu também, Lucinha. Eu também sabia que você não estava grávida. Como você poderia ficar grávida, se a gente nem tinha casado?" E logo em seguida pegou o telefone: ia ligar para Guiomar. Claro, ela também não ficaria grávida. Nem eram casados...
* Este texto é ficcional.
terça-feira, 23 de maio de 2006
O hamster também foi atropelado
sombra: não deixa ver."
Carlos Catañeda
O jornalismo trabalha com um processo de seleção de acontecimentos que tenham saliência em relação aos demais fatos do cotidiano.
A priori, ganham destaque aqueles fatos que tenham carga de dramaticidade,criem tensão, gerem expectativa. Com isso, fundou-se a tradição da tensão jornalística, aquela circunstância comunicacional impactante, que gera no leitor a curiosidade pela leitura do texto.
Em função disso, os jornais estão cheios de notícias com poderoso efeito tensor. Isso pode ser facilmente percebido nos telejornais, especialmente porque estes trabalham com e contra o fator tempo: é preciso comprimir, em cerca de 40 minutos, uma profusão de fatos. E os "mais importantes" são, certamente, aqueles que melhor se enquadrarem no conceito de tensão jornalística.
Vivemos num mundo farto em acontecimentos de forte carga negativa. Como o jornal é parte do mundo, naturalmente reflete toda essa carga. Há poucos dias tive uma experiência, que me fez meditar a respeito dessa realidade e de como é preocupante o tipo de mensagem que o jornalismo dispõe ao público.
Foi assim: fui visitar minha neta, Eduarda, e qual não foi a minha surpresa quando a vi: estava vestida com uma saia da mãe, que lhe chegava aos pés, uma blusa e sapatos de saltos altos. Sim: e, na mão, tinha um lápis. Elogiei sua roupa, sua delicada elegância infantil e perguntei porque aquilo. Ela respondeu: - Vô, eu vou apresentar o Jornal Nacional.
Eu abri um sorriso desse tamanho e disse a ela que sim, que queria assistir ao seu jornal.
Ela disse o que ia fazer e subiu ao primeiro andar da casa onde mora. E completou: - Vô, venha comigo - claro que eu a acompanhei. Ela chegou à mesinha onde faz suas tarefas escolares, mandou-me ficar em silêncio e começou: - O cachorro pastor alemão foi atravessar a rua e foi atropelado pelo caminhão...
Parei. Imaginava que o "Jornal Nacional" de Eduarda seria aberto, digamos assim, com alguma "notícia" a respeito de alguma de suas bonecas ou bichos de pelúcia. Mas imediatamente, fui atropelado pela segunda "notícia": - O macaco foi atravessar a rua e também foi atropelado.
Minha admiração com sua figurinha graciosa cedeu lugar a um sentimento de preocupação: o que estaria havendo? Por que a escolha por fatos da vida, em vez de referências ao seu delicado e belo mundo de menina?
Para tentar suavizar o "noticiário", eu disse: - Eduarda, corte para o repórter Emanoel Barreto. Ele está no jardim zoológico e vai entrevistar um novo leão que chegou.
Ensinei como ela deveria fazer e ela: - Agora, vai falar o repórter Emanoel Barreto, diretamente do zoológico.
Eu entrei no "noticiário" e inventei uma entrevista maluca com o tal leão. Feito isso, cresceram minha surpresa e minha preocupação: - Mas Vô, leão não fala.
Ou seja: ali, no "Jornal Nacional", não valiam as regras da inocência, da ingenuidade. Prevaleciam as normas do mundo, suas dores e sofrimentos. Afinal, é isso mesmo o que os jornais veiculam: as dores do mundo. Lamentavelmente, tenho de admitir que, frente à realidade, não há como fugir: o mundo, feio e triste, jornalisticamente cifrado, também chega às crianças e havia, havia sim, chegado à minha netinha.
Tentei outra vez consertar a situação, mas não adiantou. Compreendi então como é poderosa a cadeia social a que estamos presos. Um mundo de desigualdades, de temores, incertezas, crueldades e dor. E o jornalismo reúne todos esses fios de desolação e tece a trama da tragédia, ao relatar o terror da vida.
Eu disse a Eduarda que estava bom de terminarmos aquele jornal, que queria ver com ela algum desenho ou algo assim. Ela respondeu - Tá bom, Vô: vamos brincar. Mas antes ainda tenho uma notícia.
Qual é? - indaguei.
Ela respondeu - O hamster também foi atropelado.
segunda-feira, 22 de maio de 2006
Beco da Quarentena
| "A avareza é a miséria no agora." Provérbio árabe Abaixo, um registro da Natal boêmia, onde bêbados desvalidos faziam suas farras de desespero. O texto é do meu livro Crônicas para Natal. Na Ribeira há um caminho torto, feio, escuro. É a Travessa da Quarentena, onde, há muito, muito tempo, os deuses desvairados do sexo barato faziam ali suas orgias. O Beco da Quarentena, como ficou na lembrança popular, é esse falido porão da cachaça barata e das mulheres de todos e de ninguém. Ali, vez por outra, passantes cortam caminho, num atalho sem futuro. Ali, quem sabe, nas noites da velha Ribeira, fantasmas de bêbados e marias se juntam. E dançam sua dança de cachaça. |
Código Da Vinci: uma bíblia midiática para uma fé televisiva
| "Comprometemo-nos a trabalhar com ambas as partes para levar o nível de terror a um nível aceitável para ambas as partes." George W. Bush Chegamos a um ponto em que a farsa tomou o lugar do bom senso e o bom senso perdeu a saliência essencial daquilo que seria digno de nota. Tem-se uma prova com a simples leitura da frase do presidente americano, bem como com a celeuma criada em torno da versão filmográfica do Código Da Vinci. Vivemos numa sociedade midiocrática, onde comportamentos podem ser moldados. Não pelo fato de que as pessoas reajam maquinalmente a uma determinada mensagem, como um robô faria a um comando direto. Mas em função de que a criação de esquemas mentais socializados e cristalizados respondem positivamente sempre e quando mensagems de determinado teor tocam pontos socialmente sensibilizados (já notou que supermercados e lojas de roupas estão vendendo em grande escala roupas verde-e-amarelo? - é só para mostrar...) Num mundo de grandes carências, num mundo em que não há mesmo respostas a indagações as mais simples, como a dúvida de uma família favelada se terá o que comer dia seguinte, publicações como o Código Da Vinci assumem o papel de estatutos que até então tinham sobre si a visão de esclarecimento sobre o divino e o mundo. Para muita gente, o Código Da Vinci está substituindo a Bíblia. E isso pelo fato de que o Código Da Vinci é uma espécie de Bíblia midiática, feita sob medida para uma fé claudicante, para os fiéis de uma Igreja Católica que também se transformou numa instituição midiática que tem produtos como o padre Marcelo Rossi e o padre Antônio Maria, que tão bem trabalham suas imagens públicas. Igrejas protestantes também alardeiam milagres; em Natal, chegou a passar um pastor que anunciou claro e bom som: "Venha buscar o seu milagre!" E, ao que parece, uma grande mulditão compareceu. No mais, é o seguinte: reze para o PCC não publicar também sua bíblia de crimes. Na prática, já há tantos adeptos, que, logo logo, seus chefões estarão comandando rituais de iniciação ao crime. |
domingo, 21 de maio de 2006
Agradecer sempre
| Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta,não há ninguém que explique e ninguém que não entenda. Cecília Meireles Agradecer sempre, em todos os instantes, a graça da vida. A vida está até mesmo na lembrança, uma vez que a lembrança é parte da eternidade. E tudo o que é eterno, mesmo aparentemente desaparecido, jamais morre, pois se destina a renascer na perenidade do amor. E a vida, nas mãos de todos nós, é como um segredo que temos, todos sabem, mas ninguém o desvela por inteiro. A sua descoberta é um passo adiante. E esse passo somente o podemos dar para dentro de nós mesmos. |
sexta-feira, 19 de maio de 2006
Os barcos mortos
“Abandonai essa vida de
crimes e legislações, ó infiéis!”
Millôr Fernandes
A crônica abaixo é do meu livro Crônicas para Natal, numa homenagem ao rio que embeleza a cidade e aos seus barcos velhos, parados e esquecidos.
Trágicos em seu silêncio de madeira triste,
os barcos mortos do Potengi são relembranças de marés em preamar.
Grandes corpos de madeira que sofre, seus corpos se vão.
E seguem parados, sem vela ou navegador.
Quantas vezes se fizeram ao mar, quantas vezes
se apressaram no confronto com ondas.
E de todas as batalhas corsárias de que
participaram, voltaram sob a bandeira da vitória.
Pescadores, corajosos, enfrentaram tempos,
bateram milhas, superaram noites.
E agora, guerreiros esquecidos, sucumbem ao silêncio do frio.
E ninguém, ninguém, se lembra que lutaram tanto.
Vamos fazer pesquisa de lata?
| "Há duas maneiras de viver a vida: uma, é como se nada fosse milagre. A outra, com se tudo fosse milagre." Albert Einstein Aprendo muito com a minha netinha, Eduarda. Certo dia, ela me ensinou: - Vô, é proibido prender arara em casa, sabia? Eu ensaiei uma cara de surpresa e disse: - É mesmo, Eduarda? E por quê?" Ela me respondeu de forma bem direta: - É contra a lei. Não se pode prender arara, porque é contra a lei. A conversa continuou: -E o que é "contra a lei"? A resposta foi um primor de doce ingenuidade e, paradoxalmente, de grande pertinência. Veja só: - Vô, contra a lei é contra a lei, ora. Contra a lei, Vô: polícia!.. Ou seja, com seu raciocínio de criança de seis anos de idade, ela sintetizou a coercitividade social quando objetiva a que os cidadãos se adequem às determinações legais. Se é contra a lei, polícia neles. Claro, simples como respirar. Assim, estava explicado por ela, para mim, o conceito de ilegalidade. E as araras, coitadinhas, supostamente protegidas por esse inocente conceito, que aparentemente faria tremer malfeitores de todo o tipo, caso aplicado em sentido amplo. Claro que eu me comprometi com ela, e estou cumprindo: jamais prender uma arara. Ontem ela me ligou, com uma estranha convocação. Ela sabe que participo de todas as suas convocações. Era o seguinte: - Vô, você sabe fazer pesquisa de lata? Eu quase caí: como jornalista, já fiz quase todo tipo de cobertura, passei uma noite inteira observando o hotel onde o Papa João Paulo II passou a noite em Natal, pois o jornal onde eu trabalhava temia que ele sofresse um atentado; estive numa mesma sala que que se encontrava Yasser Arafat; recebi uma visita da repressão do regime de 64 em minha casa e por aí vai. Mas, pesquisa de lata... que me lembre, jamais fiz. Mas, como bom repórter, topei o desafio. "Pronto", pensei, vou fazer uma pesquisa de lata." Por precaução, perguntei o que era a tal pesquisa. Ela não soube me explicar, mas pediu que eu fosse à tarde em sua casa, para ver o que eu poderia fazer. Aceitei na hora. Já pensou, fazer uma pesquisa de lata com a minha netinha? O menino que ainda mora em mim ficou muito contente pelo convite. Mas, pouco depois minha filha, mãe de Eduarda, ligou explicando que era preciso apenas uma latinha, para que ela fizesse uma experiencia escolar. Coisa simples e que ela mesma faria. Fiquei um pouco frustrado, mas mãe e filha precisavam sair naquela mesma tarde e minha pesquisa de lata ficará para outra oportunidade. Tudo isso, além da alegria de falar sobre minha neta, serve também para uma reflexão: acho que o brasileiro precisa entender que há mais coisas contra a lei além de capturar araras. Vejamos: receber dinheiros desviados de fundos públicos, praticar assaltos, latrocínios, enganar o povo com discursos populistas, conviver com a improbidade, governos negociando e fazeendo concessões a bandidos, etc... etc...etc... Coisas que o brasileiro sabe muito bem. Há, evidentemente, muitas coisas que são contra a lei. E se alguém ainda não memorizou o que é ser contra a lei, repito: - Vô, contra a lei é contra a lei, ora. Contra a lei, Vô: polícia!... |
quarta-feira, 17 de maio de 2006
A cidade inteira e linda
é preciso usá-la"
Cícero
Abaixo, transcrição de crônica do meu livro "Crônicas para Natal - as crônicas do Jornal do Dia", publicado em dezembro de 2000.
Natal ergueu-se do tempo como a história real de um sonho. A cidade, hoje com 400 anos, tornou-se encantadora com o passar dos dias e dos muitos verões. Protegida pela Fortaleza dos Reis Magos, a Noiva do Sol, como a chamava Luís da Câmara Cascudo, tornou-se castelã de dias de alegria e veraneio, nadadora mais linda do Atlântico.
E no Atlântico, Natal projeta a praia de Ponta Negra, um sonho no viés da cidade, com o Morro do Careca ao fundo, em suave curva como corpo de mulher. Depois, a Via Costeira, com seu colar de hotéis, enfeita a cidade com jóias da arquitetura. E, nos hotéis, praias que são tapetes de areia branca, santuários reservados de quietude e beleza.
Vaidosa, Natal é cidade feita de avenidas e luzes, alegria e festa. Quem segue pela Avenida Junqueira Ayres, descobre maravilhado a casa de Luís da Câmara Cascudo, o senhor da História, caminheiro do tempo, zelador de lendas e de luas.
E mais adiante, solene, linda, poderosa em sua simplicidade, a Capitania das Artes guarda exposições e beleza, preserva sonhos da imaginação de artistas. Depois, na primeira curva, a imponência do Palácio Potengi e seus salões de nobreza, quando a política tinha o charme da elegância.
E, ali, pertinho, a arquitetura pesada do Palácio Felipe Camarão, a Prefeitura, solene construção com a cara severa da História.A Ribeira é boemia, é noite, cerveja gelada suando tulipas, beleza, juventude e vibração no som de cada instrumento.
Natal é toda feiticeira. E lembra que era ali, bem ali, na Ribeira, que os soldados americanos festejavam seus medos, antes de partir para a África, para lutar contra Rommel, a Raposa do Deserto. Depois, muito sol e muito mar. As dunas se oferecem como montanhas de aventuras, os bares são encantos, namorados.
Redinha é a praia amiga de Natal, logo depois de atravessado o rio Potengi. Mais adiante, Genipabu é um sonho feito de areia, dunas e coqueiros que enfeitam cada olhar. Em Pirangi, o maior cajueiro do mundo é árvore sem fronteiras, a crescer eternamente.
E dos seus galhos que não se acabam mais, brotam lindos frutos, cajus meninos a adoçar cada boca. Natal é cidade bonita, elegante, como mulher que desfila e sabe que todos os olhares estão em suas curvas. E de sua belez nasce uma energia intensa, que acaricia a cada olhar, como se a cada momento de descoberta a cidade renascesse diferente e ainda mais bela.
terça-feira, 16 de maio de 2006
Tenebrosas transações
| "O juiz é condenado quando o criminoso é absolvido." P. Ciro As informações que circulam na imprensa dão conta de que houve, entre o Governo paulista e o criminoso Marcola uma negociação, a fim de que os bandidos reduzam sua brutalidade sobre o povo de São Paulo. Afora o aspecto de rendição que tal comportamento encerra, uma vez que negociar com bandidos é inegavelmente uma forma de fraqueza por parte do governante, há um outro questionamento, esse bem mais grave, que foi a renitente recusa do governador Cláudio Lembo em aceitar ajuda federal. Fica bastante claro que a intenção do governador foi impedir um suposto uso político da baderna durante a próxima campanha eleitoral. A atitude, mesquinha e temerária sob todos os aspectos - uma vez que a onda terrorista poderia ter tomado rumos totalmente incontroláveis - revela bem que tipo de políticos temos neste País. A ajuda oferecida pelo presidente Lula, além de ser regida pelo bom senso e espírito de responsabilidade pública, era efetivamente necessária. Mas o governador "achou" que não, que a polícia paulista poderia, sozinha, superar o impase. Não poderia, e os fatos assim o demonstraram. As rebeliões somente pararam após a ordem do bandido Marcola, ou seja: o crime organizado manteve seu poder de negociação, favorecido pelos apetites político-eleitorais de um governante de baixa estatura cívica. A questão está posta: cessada a ação coletiva dos marginais as coisas tomarão uma aparência de calmaria social, mas a essência, a matriz de poder dos criminosos está preservada. O mesmo diga-se com relação ao Rio, onde as quadrilhas estão muito bem situadas nos morros e de lá poderão literalmente disparar ações contra a cidadania. Não há uma ação coordenada, competente, direcionada para esse enfrentamento; um trabalho que tenha por objetivo reduzir ao mínimo a ação dos criminosos, uma vez que extinguir o crime é algo de que não se pode cogitar, já que se trata de algo inerente à condição humana em sociedade. Com o passar dos anos essa situação, que já assumiu contornos proto-políticos, tenderá a se cristalizar. Já se fala que as facções criminosas tramam eleger representantes no parlamento. E então, afora os deputados e senadores que praticam os crimes de colarinho branco, teremos, afinal, o criminoso comum, o bandido, o salteador de vidas, devidamente entronizado num mandato, legislando a favor de seus interesses. O comportamento do governador de São Paulo foi uma tenebrosa transação, uma negociata cujo preço será pago pela sociedade. |
segunda-feira, 15 de maio de 2006
O silêncio dos inocentes
perversos quanto o estarrecedor silêncio dos bondosos."
Martin L. King
A frase do Dr. Martin Luther King resume à perfeição a crise de autoridade e de competência do Estado brasileiro em reprimir exemplarmente a ação brutal de criminosos. A leniência vai desde uma legislação frouxa e que tende a facilitar a volta de criminosos hediondos ao convívio social, até à lentidão com que as forças da lei e da ordem estão se organizando.
Os bandidos em S. Paulo, agora, além de ataques a bases policiais, estão se voltando contra ônibus e bancos. O objetivo é bastante claro: querem implantar o caos, desestabilizar a sociedade, disseminar o terror. Muitos presídios estão sublevados e aparentemente não há no horizonte um indicativo de quando a baderna será posta sob controle.
Há uma real e efetiva demonstração de força dos criminosos organizados, há uma inequívoca indicação de que tais atos implicarão outros e, da parte do Estado, somente conversas, reuniões, e, claro, a resistência possível da polícia paulista.
Entretanto, o País conta com cerca de 3.000 soldados da Força Pública do Exército e 4.000 mil homens da Força Nacional de Segurança, um grupamento civil integrado por policiais de vários Estados. São tropas de elite, capazes de enfrentar com o poder de fogo necessário a ação bárbara dos criminosos descontrolados. Por que essas tropas não foram acionadas?
Não nego que estou redigindo este artigo movido pelo mais forte sentimento de indignação: não é mais possível ao cidadão comum, o homem do povo, eu, você, qualquer um, conviver em silêncio temeroso e quase reverencial com bandidos da pior espécie.
São eles pessoas sem qualquer sentimento de compaixão, piedade, misericórdia ou respeito pelos direitos humanos. O bandido é um ser despido de humanidade. Ou melhor: o bandido é um ser vestido com as mais ornamentadas e vistosas filigranas que a brutalidade humana concebeu ao longo do tempo. O bandido é a humanidade vestida de sangue.
Não vou negar que as deploráveis condições sócio-econômicas nacionais são a causa primeira, a matriz geradora do banditismo e da criminalidade. É preciso uma ação social séria, de desdobramentos históricos profundos, a fim de reverter-se tal situação. E isso somente será possível com uma justa distribuição de renda, freando-se também o apetite pelo lucro ilimitado, que no Brasil tornou-se uma epidemia.
Mas, no momento, vivemos uma situação real, objetiva, sensível no medo, no pavor que desperta e que já obteve repercussão mundial. Não há como rejeitar que é preciso haver uma reação vigorosa em defesa do cidadão. Silenciar, em nome de qualquer doutrina de ademanes anunciadamente humanitários para com os bandidos, é agir com ingenuidade ou má fé.
Meu entendimento é esse: é preciso reagir: mas, enquanto isso não acontece, ocorre o seguinte: entre os apetites do nosso capitalismo que criou essa situação, e a descontrolada brutalidade dos bandidos, fica o cidadão pobre, o trabalhador, que sofre as conseqüências. Sofre calado, e em toda a plenidute, o silêncio dos inocentes.
sábado, 13 de maio de 2006
A mãe dos meus dias
Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor.
Como as outras, ridículas..."
Fernando Pessoa
Ofereci um cálice de pétalas, ela aceitou.
Ofereci muitos dias de caminhada, ela entendeu.
Ofereci minhas palavras saltimbancas, ela entendeu.
Ofereci gestos e silêncios, ela os soube guardar.
E hoje, Dia das Mães, é a mãe da minha vida e de todos
os meus destinos. E, em assim sendo, somos.
O que foi mesmo que eu comemorei?
do que as duras verdades."
Moliére
Este blog é atualizado diariamente. Entretanto, p0r problemas técnicos, passei quase uma semana sem fazer qualquer acréscimo aos comentários e crônicas. Nesse meio tempo... Garotinho encerrou sua farsesca greve de fome... Evo Morales quase bota o Brasil de joelhos... Sílvio Pereira disse e desdisse que o governo está infestado de corruptos... por efeito de uma decisão do Supremo Tribunal Federal um perigossíssimo assassino foi colocado em regime semi-aberto, medida que deverá beneficiar milhares de outros criminosos hediondos... e vou parar por aí, que a lista é literalmente infinita. Dá até medo.
Assim, com este retorno, sinto-me como se a gente, eu, você, estivéssemos de volta para o futuro. Um futuro incerto e não-sabido, estranho e insensato. Um jogo de luz e sombra, fulgor e escuridão, uma vez que a realidade e a vida são feitas de opostos. E é preciso entender que o oposto negativo, o crime, a devassidão dos costumes políticos, tudo isso é parte da normalidade, integra a vida em sociedade tanto quanto o dormir e o respirar.
É preciso entender que esse "de volta para o futuro", entendido em termos de Brasil, presume a convivência com nossa realidade histórica, com o legado cultural, político, econômico, enfim com o todo que compõe e sociedade brasileira. Sociedade que já está sendo preparada para um grande acontecimento quadrienal: a Copa do Mundo.
Se pensarmos bem, de alguma forma o brasileiro acumula energias para explodi-las todas na Copa. Como se fora um grande e lento processo de decantação de frustrações, dores, desencantos, aqueles sofrimentos todos que vão se depositando na alma do povo, até explodir no grito de gol.
O gol é o divã que aplaca o salário que não vale nada, a péssima escola pública que o filho frequenta, o posto de saúde que nunca funciona, a violência dos criminosos que o Estado não tem competência ou não quer enfrentar, a vontade de trocar aquele carro caindo aos pedaços, a tristeza de não poder comprar aquele remédio caríssimo que o filho precisa, a vontade de... a vontade de... sei lá; você sabe do que estou falando.
Pois bem, chegou o ano da Copa. Os Ronaldinhos estarão mais ricos do que nunca, os jogos terão transmissões impecáveis e a Rede Globo, que se apoderou da Seleção Brasileira como um dos seus produtos de mídia, vai mandar emoções embaladas e você terá a obrigação de concordar com os "comentários" de Galvão Bueno dizendo que a Seleção está ótima, mesmo que o Brasil esteja sendo miseravelmente derrotado.
No fim, se o Brasil for hexacampeão, será vendida mensagem de que "somos todos campeões", ou seja: você, eu, todo mundo no Brasil, deverá comemorar, gritar, beber, dizer "evoé!" como os antigos romanos. Todos estaremos felizes, até que a ressaca vai nos fazer acordar, dia seguinte, com a tristeza de que a alegria passou. E o pior: aquele horrível gosto de guarda-chuva na boca. E mais, no meio da dor de cabeça, a pergunta: "O que foi mesmo que eu comemorei?"
sábado, 6 de maio de 2006
Consciência ambiental
Sabe aquele caminhão, carro ou moto que passa soltando fumaça toda vez que você está indo ou voltando do trabalho, viajando ou curtindo um passeio com a família ou amigos? Na maioria das vezes ficamos revoltados, mas não sabemos exatamente como agir.
Agora existe uma forma de denunciarmos estas agressões ao MEIO AMBIENTE. Basta anotar a placa COMPLETA do veículo (município, letras e números), local e horário que você o viu e depois é só ligar para: 0800-113560 -DISK MEIO AMBIENTE - OPERAÇÃO FUMAÇA PRETA. O motorista receberá uma notificação para fazer uma Vistoria / regulagem no veículo, caso contrário, a multa é de R$ 611,00. Informe este telefone para o maior número de pessoas possível.
sexta-feira, 5 de maio de 2006
Garotinho: de criança, não tem nada
Então me dê o seu e viva feliz."
Autor desconhecido
A notícia abaixo é do Estado de S. Paulo. Em seguida, um comentário.
RIO DE JANEIRO - A greve de fome do ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho, que completou quatro dias, continua provocando reações diversas. Algumas delas debochando da atitude do político. Nesta quinta-feira (ontem), os humoristas do programa Pânico, da Rede TV! tentaram entrar no prédio onde Garotinho está para levar uma mamadeira a ele. Mas a hostilidade de partidários de Garotinho fez com que os humoristas Vesgo e Sílvio tivessem que deixar o local.
Em Sorocaba, no interior de São Paulo, o empresário Arany Marchetti, dono de uma funerária, ofereceu um enterro de graça a Garotinho.
Ele mandou confeccionar faixas com mensagens de pesar, duas coroas de flores e colocou um caixão de defunto modelo luxo numa das salas do principal velório da funerária Ossel, na região central de Sorocaba. Dentro da urna, pôs um boneco com a cara do político.
Dizendo-se apolítico, Marchetti disse que considera a greve de fome do pré-candidato do PMDB à Presidência "uma palhaçada para tomar o tempo" do brasileiro.
"O Garotinho disse que vai ficar em greve até morrer. Já que ele quer aparecer, estamos dando uma contribuição." Segundo o empresário, as despesas do enterro vão ficar por conta da sua funerária.
Um farsante profissional
O ex-governador Anthony Garotinho é realmente o que se poderia chamar de um farsante profissional. Seguidor de um populismo rasteiro, apresentador de soluções remendadas para problemas sociais graves, amigo de figuras que nenhuma pessoa de bem chamaria à sua casa, ele agora quer se apresentar como vítima de um complô - que não existe - para impedir sua candidatura à presidência da República.
Complô ou não, graças a Deus tudo indica que ele não será candidato. Mas, voltemos à questão do farsante. Há muitos anos assisti a um filme, na TV, intitulado "Magnífico farsante". Tratava-se da história de um vigarista. Mas desses vigaristas que o espectador, ao longo da fita, vai simpatizando com ele, gostando dele e acaba torcando para que consiga escapar da polícia, porque, na verdade, o homem era mais um trapalhão que um vigarista.
De alguma forma, Garotinho, que de criança não tem nada, é um farsante bem sucedido. Pelo menos bem sucedido até então. Tanto, que conseguiu alavancar sua carreira de locutor até chegar ao governo do Rio. Só que, ao contrário do personagem cinematográfico, não tem nada de magnífico, sequer um fio de credibilidade para ganhar simpatia e credibilidade.
Fizeram bem os humoristas, ao tentar levar a ele uma mamadeira. Afinal, menininhos precisam tomar o seu leitinho, para crescer fortes e saudáveis. Mas, até quando continuará a farsa da greve de fome? Trata-se, na verdade, de uma jogada de marketing, uma tentativa de vitimizar uma personagem deplorável da cena política brasileira.
Ele tenta chegar ao nível da exaustão, para suscitar na imprensa um clima de expectativa quanto ao seu estado de saúde, originando, a partir daí, uma atmosfera de pesar público, a compaixão orquestrada para com sua saúde.
Não dará certo. Greve de fome exige que quem a pratica tenha biografia, passado de credibilidade para tanto, e mais: é preciso que a causa seja honorável, que sejam nobres e socialmente apreciáveis seus intentos. Não há nada disso nas intenções de Garotinho. A não ser birra infantil de um político que eticamente não passou da primeira infância.
quinta-feira, 4 de maio de 2006
Natal, um instante do mundo
do pensamento, que continua
por conta própria o seu caminho."
Mário Quintana
Do meu livro "Crônicas para Natal".
A grande paisagem do mundo pode ser resumida nas cidades.
Gente, árvores, bichos, rios,
tudo isso sai da natureza e também chega às cidades.
Cada cidade é um instante do mundo e da louca
aventura do Homem, rumo não se sabe bem a quê.
Assim é Natal: uma cidade brotada do mar,
mas que derramou-se para dentro do continente.
Como querendo dar um abraço, lá longe, no sertão.
Veloz e ferina em sua carreira, Natal corre para
todos os lados ao mesmo tempo.
Não, Natal não apenas corre.
Ela se escorre como um rio urbano de asfalto e verde.
E cresce, cresce sempre.E de sua entrada,
portão de paisagem e monumento, viaduto e
mirante ao mesmo tempo, recebe
os visitantes como quem diz: “Entre, a casa é sua.”
terça-feira, 2 de maio de 2006
Denúncia de plágio acadêmico
Prezados, A colega Vera Chaia autorizou-me a divulgar essa denúncia de plágio acadêmico. Devemos redobrar os nossos cuidados.
Um abraço, João Emanuel
Prezado João Estou escrevendo, tardiamente, sobre um fato que aconteceu no penúltimo encontro da Compós.
O trabalho de Andréa Moreira Albuquerque e Isaltina Maria de Azevedo Gomes (UFPE Recife/PE) http://www.unb.br/fac/comunicacaoepolitica/andreaisaltina.pdf apresentado no XIII COMPÓS: São Bernardo do Campo/SP, 2004, é uma cópia de meu artigo ELEIÇÕES NO BRASIL: O ‘MEDO’ COMO ESTRATÉGIA POLÍTICA apresentado no III Encontro Internacional de Estudos de Comunicação e Política, Facom, UFBA, 14 a 16 de dezembro de 2002.
Posteriormente, o artigo foi publicado no livro Eleições presidenciais em 2002 no Brasil - ensaios sobre mídia, cultura e política, de Antonio Albino Rubim (org.), 164 pp., Hacker Editores, São Paulo, 2004.
Na ocasião cheguei a pensar na possibilidade de questionar as autoras judicialmente, mas deixei "para lá". Agora percebo que errei e daí esta manifestação com relação a este trabalho. Escrevo para você tomar conhecimento.
Atenciosamente,
Vera Chaia
Obs: as autoras citam meu trabalho só como referência bibliográfica.
Abrigo Juvino Barreto: o outono da vida
Nos do velho brilha a luz.
Victor Hugo
O texto abaixo é do meu livro "Crônicas para Natal - as crônics do Jornal do Dia."
O tempo desceu sobre eles a sua pesada mão de outono. E a velhice começou a enferrujar seus corpos.
Como árvores antigas, plantadas na floresta esparsa do mundo, os velhos apresentam nos rostos as rugas que escondem o mistério de cada ser humano.
E assim eles vão. Lentos e pesarosos, ao encontro do fim. Um fim que já habita cada um de nós, todos os dias, desde o dia em que nascemos.
Mas o velho traz em si, oculto e eterno, o exato mapa universal da vida. O ensinamento do futuro, de todos os futuros. O horizonte ao longe, o caminho do bem. E essas velhas árvores humanas, como carvalhos a definhar relentos, são exemplos de caminho à procura da luz.
domingo, 30 de abril de 2006
A presença do Dalai Lama
Não há nada que o enfureça mais."
Oscar Wilde
A vinda de Tenzin Gyatso, o Dalai Lama, ao Brasil, teve para mim um misto de missão pregadora da paz e atuação de uma personalidade de mídia, que sabe, e muito bem, misturar e mobilizar público para pronunciar discursos altamente elogiáveis, ganhar dinheiro e liderar líderes de outras religiões, como o rabino Henry Sobel e prelados da Igreja católica. Todos reunidos sob o comando do politicamente correto.
O Dalai Lama é o líder político e religioso do Tibete. Fugiu de lá sob intensa perseguição do truculento governo chinês, que hoje domina o país e, claro, proíbe o budismo, que ali tem o mesmo peso político que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB teve a partir de um determinado momento da ditadura no Brasil pós-64.
Com a fuga, ganhou muito justamente as simpatias do mundo. A partir de então, tornou-se autor de muitos best-sellers e sempre uma referência espiritual para quem não está satisfeito com os discursos e práticas das religiões ocidentais, especialmente o catolicismo e o protestantismo.
Acho que em essência o Dalai Lama é bem intencionado, merece respeito e admiração pelos lemas que professa. Só acho estranho que um homem do espírito ganhe para falar e defender a paz.
sábado, 29 de abril de 2006
O estranho visitante
no lombo de quem mandou dar."
De uma canção de Geraldo Vandré
Era a noite de um estressante dia de trabalho na redação da Tribuna do Norte. As máquinas de escrever, paradas, silenciosas, eram testemunhas do trabalho de finalização do jornal. Eu estava cumprindo mais uma jornada de trabalho diária de cerca de dez horas, atuando numa espécie de fleuma da exaustão: um cansaço metódico e vigilante dirigia meus passos de editor da página cinco, o noticiário sobre Natal.
O negócio funcionava assim: eu fazia a pauta do jornal, e tinha de chegar às seis da manhã; era o chefe de redação e tinha de ficar os dois expedientes; era o editor da página e por isso era obrigado e seguir noite adentro. Somando tudo, dava essas dez horas de trabalho diário. Eu não tinha qualquer intenção hegemônica ao assumir tantos cargos de uma vez só, só se fosse louco: o problema é que a estrutura do jornal era ruim, tão ruim, que tudo acabou por ruir, ou pesar, pesarosamente, sobre os meus ombros.
Na redação, comigo, somente a diagramadora Tânia, que respondia pela programação visual de várias páginas, o que incluia a página cinco. O jornal usava máquinas portáteis, o que facilitava o trabalho. Podia-se pegar a máquina, colocar sobre a mesa da diagramadora e ali mesmo ir titulando as matérias e determinando sua disposição na página.
As redações são assim: vulcões que começam a fervilhar pela manhã, se aquecem ao longo do dia e afinal explodem numa multidão de repórteres apressados no final da tarde, todos colaborando com a grande lava que sai de suas mãos apressadas, numa torrente de textos e de fotos que fervem e se apagam na edição do dia seguinte, não sem antes trovejar sobre os leitores manchetes, gritos, dores e, às vezes, alguma boa notícia.
Pois bem: eu estava já no entrecruzar entre o cansaço e a resistência, quando, sem ser anunciado, silenciosamente um homem de uns trinta e poucos anos cruzou a redação como uma sombra. E essa sombra, de repente, estava ao meu lado. Só notei sua presença quando ele me disse: - Boa noite...
Virei-me e automaticamente respondi ao cumprimento. Não é comum o comparecimento de pessoas estranhas à redação em horários com o aquele. Esqueci de dizer, mas já era mais de oito de noite. E o ano creio que 1980, ditadura em seus momentos finais.
Em seguida, olho no relógio, perguntei: - Sim? - e ele, em rápidas palavras, contou-me que era funcionário do Ministério da Educação, mas especificamente de uma universidade federal (não me lembro de qual) e que estava sofrendo perseguições. Tanto, que vinha sendo transferido sistematicamente de uma universidade para outra tão-logo se organizava em uma cidade. Assim, de mudança em mudança, foi mandado para Natal.
E aqui, continuou, para completar, estava sofrendo ameaças telefônicas. Não precisa dizer que o homem era um dissidente do regime de 64.
Ainda de olho no relógio expliquei que estava no fechamendo da última página; tinha todo o interesse em seu caso, mas pedi que esperasse somente coisa de quinze a vinte minutos, que logo o atenderia.
Nem pensei em lhe explicar que eu de alguma forma também era um fugitivo, ou perseguido, fugitivo e perseguido por aquele expediente que não acabava nunca, por aquelas notícias que jamais paravam de chegar e pela organização do jornal, que levava o fechamento para horário tão tardio.
Fui obrigado a protelar a entrevista, de resto importantíssima: um perseguido político sendo ameaçado na UFRN pelos agentres do regime. O problema era o seguinte: caso eu tomasse decisão contrária, estaria provocando um grave problema de cronograma de fechamento, com pesadas repercussões na área industrial do jornal: o trabalho do parque gráfico. E olhe que, em relação aos tempos de hoje, um fechamento de página interna as oito de noite é inaceitável.
O homem, uma figura de aparência tristonha, cabisbaixo, concordou. Mas foi a concordância dos que não têm outra alternativa, a não ser abaixar a cabeça. Fui tomado por um sentimento de compaixão: estava ali um homem que não tinha a quem apelar, nem à justiça, nem a amigos que certamente não tinha em Natal, muito menos à polícia ou às autoridades.
Restava-lhe apenas procurar esconderijo e proteção no jornal, no escudo de papel de que muitas vezes se vale a sociedade para fazer valer os seus gritos. Escudo que muitas vezes se rasga e dá acatamento às decisões dos fortes e dos brutamontes econômicos, em detrimento do trabalhador e dos desvalidos.
Assim, viu no jornal sua última chance, a talvez única oportunidade para dar um grito de tinta e dizer:"Eu estou sendo perseguido no silêncio dos medos tramados; eu estou correndo perigo de vida; estou sob a mira de uma arma invisível e ninguém, ninguém, quer me ajudar. Agora, pelo menos quero contar tudo isso. E mesmo que eu desapareça em alguma esquina noturna, vocês saberão que eu existi."
Concentrei-me na edição da página. O tempo passou. Tempo pouco, coisa de nada, coisa de quinze minutos a mais, se muito. Terminei afinal. Eu estava com Tânia no "aquário", uma sala que tem uma parte da parede em vidro. Dali podia ver toda a redação. Terminei e disse "pronto!" bem alto, anunciando ao estranho visitante que agora poderíamos conversar.
Enquanto dizia aquela única palavra eu me virava. Foi um movimento rápido, mas hoje, quando o fato é lembrança, é como se as coisas tivessem acontecido em câmera lenta: meus olhos fizeram uma varredura de 180 graus e... lá estava ela. Em lugar do homem, uma solidão intensa; em lugar do ser humano ferido de amarguras, uma cadeira vazia; em lugar de quem sabe um futuro amigo, a presença de uma saída, talvez até mesmo uma fuga para a noite fechada da velha Ribeira. O desespero de alguém sem rumo.
Vencera a desesperança, tinia a vitória do desencanto. Meus quinze minutos foram para ele uma eternidade. E ele correu de volta aos seus horrores, sumindo-se para sempre e deixando na redação silenciosa uma espécie de vento frio de um medo que era só dele. Um medo que, por causa de quinze minutos, não pude compartilhar, nem tentar resolver. Lamento muito, estranho amigo. Lamento muito...
quinta-feira, 27 de abril de 2006
Tio Nilzinho e Tia Nice
mas nada podem contra as sementes."
Khalil Gibran
O tempo não mata o que o amor semeou.
É que a neve do tempo não congela nem pára a firmeza e a profundidade das raízes
daquilo que foi construído a quatro mãos. Tio Nilzinho e Tia Nice são como duas grandes e corajosas árvores da Vida: estendem seus galhos de amizade e carinho a filhos, netos e sobrinhos; a amigos, conhecidos e vizinhos; e trazem a todos que estão à sua volta um exemplo de confiança e paz.
São 50 anos de casados, são 50 anos de vida, são 50 anos de uma profunda amizade de casal, vez que os casais, além do amor, precisam ser amigos de si mesmos, pois é dessa amizade que nasce o sentimento cúmplice do belo.
Tio Nilzinho e Tia Nice, mesmo na distância entre este Rio Grande do Norte e as montanhas de Minas, receba o nosso abraço, nosso afeto e muita admiração. Afinal, as distâncias foram feitas para ser as estradas por onde mais facilmente a saudade nos leva àqueles que amamos.
Emanoel e Teinha
quarta-feira, 26 de abril de 2006
Políticos e tropeços; tropelias e fracassos
não espera acontecer."
Geraldo Vandré
Em sua recente visita a Natal, o candidato a presidente Geraldo Alckmin cometeu senão um ato falho, pelo menos uma confusão verbal: declarou ao Jornal de Hoje Primeira Edição que "o presidente Lula terá uma reeleição difícil." O sentido imediato da afirmativa chega a ser bastante claro: Alckmin admite, antecipadamente, que será derrotado pelo Presidente. Suponho que ele pensava o contrário, mas, de qualquer forma, cometeu o deslize declaratório, que o jornal não soube aproveitar como manchete.
Se os seus raciocínios político-administrativos forem todos desse tipo, o Brasil estará, sob seu governo, numa situação difícil. Já pensou, um presidente pensando de um jeito e agindo de outro? Já pensou, um presidente pensando que pensa de um jeito e desdobrindo depois de um grande erro que na prática a teoria é outra?
Ironias à parte, não confio nas promessas de Alckmin, como também não confio que o presidente Lula, caso venha a ser reeleito, consiga transformar o País no melhor dos mundos. Isso ele já vinha prometendo e deu no que deu.
Se você se vira para o outro lado, Anthony Garotinho está agora sob acusação de ter recebido doações de ninguém menos que um assaltante. Pode? Nunca pensei de ver tanto horror perante os céus...
E chegando a uma terceira margem do rio o que encontramos? Deputados flagrados como usufrutuários de verbas de 15 mil reais, gastas com... gasolina. É realmente um assunto inflamável.
A realidade política brasileira se apresenta como um universo cintilante de encenações, um espetáculo triste e lamentável. Se o Brasil fosse uma caravela, certamente se realizariam todas as terríveis previsões do Velho do Restelo e iríamos a pique bem depressa.
terça-feira, 25 de abril de 2006
É o medo... é o medo...
direitos não é digno deles.
Rui Barbosa
De repente, você se descobre vivendo numa casa com janelas e portas gradeadas; de repente, até mesmo apartamentos estão gradeados. De repente, é o medo que se fez força espalhou-se entre nós. Problemas de má distribuição de renda, rápido e descontrolado processo de urbanização, falências de modelos de comportamentos, mudanças na estrutura familiar que deixou de ser um referente forte de mundo, e estamos aqui, imersos na convivência com o medo.
E aí surgem os condomínios fechados, lugares que se voltam sobre si mesmos, como se fosse possível fugir da violência do mundo. Morar num condomínio fechado, desses de segurança máxima, representa uma das mais vigorosas demonstrações da tentativa humana de fugir daquilo que nós mesmos construímos: uma sociedade de medo, cheia de conflitos, habitada por crises.
E essas comunidades de segurança, luxuosos claustros de conforto, são uma tentativa de evitar-se o mundo, como se fosse possível estar-se num lugar que está fora de todos os lugares.
Mas também é verdade é que nas ruas a insegurança corre lado a lado com os automóveis. E quando você estaciona o carro, corre o sério risco de um assalto, de ter o seu carro roubado ou o toca-CD arrancado com brutalidade.
Quem mora em apartamento tem medo de morar numa casa, quem mora numa casa arranja logo uma cerca elétrica e tenta se fechar. As pessoas parecem não perceber que isso apenas combate, ou tenta combater, os efeitos da violência, a restrição dos atos do criminoso, mediante medidas preventivas.
As causas da violência são sociais, decorrem do tipo de sociedade que construímos: valores, padrões, comportamentos de exclusão, cujas conseqüências redundaram na violência. Junte-se a isso a presença incompetente do Estado para promover políticas públicas de inclusão social, aliada à sua incapacidade de prevenção e repressão ao crime e temos a fórmula perfeita para o império do medo.
E, se é preciso ter para com o criminoso um olhar de humanidade, não se pode transigir com o crime, sob pena de nos tornarmos todos cúmplices ativos da cilada do medo.
segunda-feira, 24 de abril de 2006
O contar de horas
O prazer pode decepcionar;
as possibilidades, nunca.
Soren Kierkegaard
Um novo despertar, para uma vida que continua! Esse encontro, numa idade provecta, soa como arrependimento pelas horas perdidas de um sono, justo e merecidas, porém incapaz de descontar nas horas poucas que me restam.Aos oitenta, após vinte e nove mil e duzentas em que o processo se repetiu, deveria ter se estabelecido com a vida uma condicionante de não mais acabar, esquecendo-me que ela nada mais é que uma fuga da morte.
Rejeito a idéia e olho para o outro lado da cama: uma linda mulher, cheia de vida, divide comigo o espaço para dois, onde quarenta anos nos separam no tempo e em nossos desejos, embora reste uma tênue esperança de fazer com que esse relacionamento não se acabe.Sorrateiramente, afasto o lençol que nos cobre. O dorso nu da mulher amada aparece numa exuberância sem limite e seus dois faróis apontam para mim, como um desafio fosse. Suavemente cubro o que imagino ser só meu...
Levanto, pé ante pé, para preparar nosso desjejum, embora saiba que ela dormirá por bom tempo. Um hábito e um direito adquiridos por ela, quando há três anos, reúnem interesses comuns. Suco de laranja, mamão papaia e torradas de pão integral, dispostos em bandeja de prata, aguardam seu despertar, ao seu lado da cama.
As páginas do jornal que viro, em busca de recomendações de investimentos vantajosos, não podem, no seu farfalhar, despertá-la. Só acontecerá de forma espontânea, quando seu subconsciente chamá-la para a vida.Um breve sussurro, um espreguiçar de braços, gestos incapazes de manter o linho que cobre seu corpo, esconderem um tesouro que nele existe e, lá com seus botões, deve lembrar de Ana Carolina: “Tô nem aí!”
Meu córtex cerebral reage a um passado de cinqüenta anos atrás, desgastado pelo fisiologismo do sistema, de estimular a supra-renal da libido necessária para acontecer... Um sorriso franco, vendo meu carinho renovado, e um desabafo sincero: - Meu coronel!
A consciência da verdade cala fundo. Ontem foi um vestido. Hoje certamente será um sapato, e amanhã o anel pela comemoração do dia dos namorados.Porém, não concordo com tudo que ela sonha. A aliança, símbolo de uma união para sempre desejada, nego definitivamente.É a vingança de quem conta as horas, esperando o relógio parar!