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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Em matéria com enquadramento neutro a Folha entrevista Lula. Uma boa matéria. Jornalismo é, dentre outras coisas, antecipar a possibilidade de acontecimentos. É o que mostro na notícia que compartilho.
 
Lula admite se candidatar novamente à Presidência
"Não posso dizer que não porque sou vivo", diz, sobre disputar novo mandato

Para petista, Barack Obama não tomou "atitude na hora certa" e paga preço de crise herdada de Bush

(Foto) Divulgação/Rede TV
Lula durante entrevista ao programa ‘É Notícia’, concedida em Juazeiro do Norte (CE)

KENNEDY ALENCAR
DE BRASÍLIA

A menos de 15 dias de deixar a Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que poderá ser candidato novamente ao Palácio do Planalto.
Em entrevista ao programa "É Notícia", da RedeTV!, Lula respondeu se voltaria a disputar a Presidência um dia: "Não posso dizer que não porque sou vivo. Sou presidente de honra de um partido, sou um político nato, construí uma relação política extraordinária".

Fez uma ressalva: "Vamos trabalhar para a Dilma fazer um bom governo e, quando chegar a hora certa, a gente vê o que vai acontecer".
Na entrevista, que foi ao ar na madrugada de hoje, Lula ainda fez reparos à política de Barack Obama, lembrou momentos ruins do governo, como as saídas de José Dirceu e Antonio Palocci, e defendeu a política econômica.

Volta ao Planalto
"A gente nunca pode dizer não. Eu fico até com medo, amanhã alguém vai assistir à tua entrevista, e dizer que Lula diz que pode ser candidato. Eu não posso dizer que não porque eu sou vivo, sou presidente de honra de um partido, sou um político nato, construí uma relação política extraordinária."

"O Brasil tem uma gama de líderes extraordinários. Tem a Dilma [Rousseff] que pode ser reeleita tranquilamente. Você tem [os governadores] Eduardo Campos, Jaques Wagner, Sérgio Cabral. Tem a oposição do Aécio [Neves, senador do PSDB de Minas]. Tem o [ex-governador José] Serra (PSDB-SP), que diz que ainda vai fazer oposição. O que não falta é candidato. É muito difícil dar qualquer palpite agora."
"Vamos trabalhar para a Dilma fazer um bom governo e quando chegar a hora a gente vê o que vai acontecer."

Crise do Senado
Disse que a crise do Senado, em 2009, foi tentativa de golpe da oposição e que apoiou José Sarney para manter "a institucionalidade".
"O que estava acontecendo ali era uma tentativa de golpe no Senado para que o vice, tucano [Marconi Perillo, de Goiás], assumisse. É lógico, só um ingênuo é que não percebe as coisas."

Dirceu e Palocci
"Na Casa Civil, teve uma dubiedade entre o animal político que o Zé Dirceu era e a necessidade de ser o gerente do governo. Na minha opinião, era peso demais para uma pessoa tocar."
"Devemos muito ao Palocci. Era preciso ser como o Palocci foi naquele primeiro momento. Fiquei nervoso com o Palocci quando, em 2005, a economia caiu muito. (...) Ele reconheceu que houve exagero no endurecimento."

Mantega e Meirelles
Lula disse ser "grato" ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, e ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles: "Pode ter críticas de que houve erro aqui, demora ali, mas, quando você vai fazer uma síntese, percebe que a fotografia é mais positiva do que negativa".

Mensalão
Voltou a dizer que, quando deixar a Presidência, vai "estudar um pouco o que aconteceu no período". "Não acredito [que houve compra de apoio de parlamentares]."
Diz que foi "lambança eleitoral" e que petistas deveriam ter assumido isso. "Agora, passados cinco anos, de cabeça fria, vou reler a imprensa. Vou ver o que aconteceu em cada jornal, em cada revista, para que a gente possa remontar, [fazer] um juízo de valor do que aconteceu."

Papel de Marisa
O presidente contou que a primeira-dama, Marisa Letícia, "dá palpite" sobre governo. "A Marisa fala das coisas que sente e normalmente tem razão, porque ela fala coisa que o povo pensa."
"Vou dar um exemplo de coisas importante em que a Marisa me ajudou. [Na campanha de 2006] Marisa era a maior incentivadora que eu tinha que ir para os debates, que eu deveria triturar meus adversários. Eu achava que eu não deveria ir, mas ela estava certa."

Obama
Lula disse ser "fã" do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. "Ele só tinha que ter a ousadia que o povo americano teve votando nele. Recebeu uma herança maldita do governo Bush. O país quebrou. Como não tomou as atitudes nas horas certas, vem para as costas dele. Eu dizia para ele: "Presidente Obama, se você não fizer as coisas na hora correta, daqui um ano essa crise está nas tuas costas". Porque a crise era do Bush."

Vida de presidente
"O mais doloroso é a vida de um presidente. A vida de um presidente é muito solitária."
"Tem o dedo de Deus nessa coisa [ter sido eleito presidente]." "O preconceito raivoso de setores conservadores da sociedade brasileira me fez mais forte, pois eu tinha que provar todo santo dia que eu tinha que ser mais capaz do que eles."

Pós-Presidência
"Vou descansar. Tirar umas férias que não tiro há 30 anos. Uns dois meses num lugar onde eu não tenha que fazer nada, discutir política, fazer absolutamente nada."
"Normal eu nunca mais vou ser, mas um brasileiro o mais próximo da normalidade possível. Vou conseguir." "Vai ser bom para o Brasil, vai ser bom para a Dilma, vai ser bom para todo mundo se eu ensinar como um ex-presidente tem que se portar."

"Quero tirar tudo da Presidência de dentro de mim. Preciso voltar a ser o Lula. Voltar a ser um cidadão mais próximo da normalidade possível. Se deixo a Presidência dia 1º e dia 2 começo a dar palpite na política, eu vou estar tendo ingerência em coisa que eu não devo."

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Datafolha reconfirma tendêndia pró-Dilma
Emanoel Barreto

Eis o que dizem as coisas de jornal da Folha: Pesquisa Datafolha realizada ontem voltou a indicar estabilidade no quadro da corrida presidencial, com Dilma Rousseff (PT) mantendo liderança de 12 pontos sobre José Serra (PSDB).

A diferença agora é que o percentual de indecisos caiu de 8% para 4% em dois dias. Essa redução nesse grupo de eleitores indica que há cada vez menos espaço para mudanças na tendência de favoritismo da candidata do PT.

O levantamento do Datafolha, encomendado pela Folha, foi realizado ontem em 256 cidades e com 4.205 entrevistas. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

A lei da gravidade política às vezes é tão poderosa quanto os mais sólidos princípios newtonianos. É o que vemos neste resto de reta final da disputa pela presidência da República. Mesmo a Folha, o jornal que mais decididamente apoia a candidatura
Serra, tem de admitir com a publicação de pesquisa feita pelo instituto da casa.

O jornal, mesmo assim, tenta resgatar o tema "aborto", principal argumento serrista para chegar à presidência, requentando a matéria com a manchete "Papa cobra ação de bispos do Brasil contra aborto". Não deu certo, não dará certo especialmente agora, com a decidida cristalização de votos pró-Dilma.

Ao que tudo indica, consultadas as urnas domingo próximo, o resultado estará configurado e a petista

Estimo que, com isso, pretende-se mostrar que a aliança PT-PMDB teria sido tão-somente uma reunião de intentos, um agrupamento cujo único intuito seria o apoderamento do Estado para fins políticos, beneficiando grupos ou estamentos.

O governo do PT tem, efetivamente, essa marca: a reunião de interesses divergentes em torno do presidente Lula. A seu lado assentam-se empresários do agronegócio e tendências mais à esquerda, trabalhadores e empresários, bem como segmentos dos mais diversos matizes ideológicos.

Essa composição, que é díspar, sei disso, terminou por assegurar ao país um período de equilíbrio econômico talvez nunca visto. Haverá disputas por cargos? Sim. Mas o mais importante será a predominância de um discurso voltado para o social. Vamos ver o que acontece. A prática política em sua dinâmica histórica e a participação da sociedade civil exigindo de Dilma que cumpra com o compromisso assumido de dar prioridade ao que vem do povo.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A campanha de Serra ou "xô Satanás!"
Emanoel Barreto

A coordenação da candidatura Serra parece não haver percebido a falha de comunicação  em que incidiu ao escolher o "aborto" como tema de campanha. Ou melhor: haver introduzido um processo maniqueístico, milenarista em processo político: a luta entre o "Bem", ele, Serra, o pregador cristão de última hora, e o "Mal", Dilma, a malvada.

Esse discurso somente funcionará entre pessoas, público tecnicamente falando, que já estejam sensibilizadas. É norma básica de qualquer processo de comunicação: você não sensibiliza quem é insensível a determinada mensagem. Exemplo: convencer um democrata que o fascismo e o nazismo são boas práticas pólíticas.

Desta forma, Serra não só não conseguirá motivar a seu favor pessoas esclarecidas que tenham votado em Marina, como provavelmente as levará a optar por Dilma. E isso por um motivo simples: é preciso ser muito tolo para dar crédito às palavras do candidato que não tem tradição alguma - pelo menos publicamente - de ser católico praticante.
Assim, inexiste em seu discurso algo basilar: sinceridade. Percebendo o público que se trata tão-somente de atitude de marketing político cairá a máscara do bom samaritano.

Quando um discurso é manifesto ocorrem simultaneamente dois efeitos: o discurso em si, a mensagem em seu pronunciamento, e a percepção que dela se tem. Quando ator da fala não se configura credível o dizer é inócuo.

Além do mais, alguém medianamente capacitado a decifrar o mundo em que vivemos sabe que a questão do aborto não é programa de governo, isso de um ponto de vista de política pública estrutural. No segmento saúde pública o aborto é apenas um detalhe; as pessoas estão mais preocupadas com o bom funcionamento da máquina de atendimento: hospitais, postos de saúde, saneamento e esgoto.

O que se pretende é encaminhar a discussão a partir do obscurantismo, do uso da fé, da manipulação do valor vida como algo sagrado. Trata-se da falsificação desse discurso, que tem conteúdo místico, levando-o para o campo da ideologia. Somente alguém muito tapado não percebe. 

Quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir sabe que tenho razão. 
É isso ou ficar gritando - quem sabe se dirigindo a Serra: "Xô, Satanás!".

Foto: http://www.google.com.br/imgres?imgurl=https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjOiHqdIq-MnzsGR4EjH2CqD6k2rprM8sqPKBsppFvyKBBH-gbeCdIfSAG6qsgy2JgfInATgPju9rc0PlGlt7KcuUQPt1yMh9vLGmzAgCouoFg64OMj855hU99L4lSYsFT-7jjcTA/s400/SERRA-BELZEBU.jpg&imgrefurl=http://seguealinha.blogspot.com/2009/02/armadilha-de-satanas.html&usg=__OFS9HXd8xkjJQ6CP3m2LdluKVuc=&h=314&w=277&sz=32&hl=pt-br&start=0&sig2=jRhAazsbjMHYWjMmn2Cj6g&zoom=1&tbnid=6I5mXzRCgoQ5FM:&tbnh=137&tbnw=120&ei=IoSvTNvkHoP98AbFxvycCQ&prev=/images%3Fq%3Dserra%2Bsatanas%26um%3D1%26hl%3Dpt-br%26safe%3Doff%26client%3Dfirefox-a%26sa%3DN%26rls%3Dorg.mozilla:pt-BR:official%26biw%3D1024%26bih%3D425%26tbs%3Disch:1&um=1&itbs=1&iact=rc&dur=592&oei=IoSvTNvkHoP98AbFxvycCQ&esq=1&page=1&ndsp=12&ved=1t:429,r:5,s:0&tx=68&ty=42

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O PV? O PV não existe. Quem existe é Marina
Emanoel Barreto

Há um grande equívoco quando se fala no "apoio do PV" seja a Dilma ou a Serra. O PV em si vale pouco ou quase nada. Na verdade, o PV hoje é Marina. O que se disputa é o apoio ou algo que disso se aproxime, de Marina. O PV entra como nome da fantasia.

E os membros do partido sabem disso.Ela é a esmeralda, a pedra verde e valiosa de que todos querem se apossar. Por sua vez, Marina também sabe que em outro partido ela não teria espaço suficiente para crescer. Assim, por coerência e conveniência, valoriza seu capital político e dá andamento ao processo de negociação.

Sabe que precisa sair de mãos limpas e biografia imaculada para se lançar candidata à presidência em 2014. Da forma como conduzir as negociações terá amealhado prestígio ético valioso.
Por suposto, deverá encontrar alguma forma de discurso que a mantenha alinhada a uma postura que revele comportamento compatível com o que pregou na campanha.
Foto: http://www.google.com/imgres?imgurl=https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhg1MhuA3mu5KhEnwIIvDCWQjiTSsMrEcRFEFN6kjBh9XE7sHcttsqrJvH1YFyviX8AXPplesFlROykzFK3CtZETvOaWd9de39gDI_c_B4YOlfk0odkDQDkyLzLSyFum_w78P7YcA/s1600/marina-silva.jpg&imgrefurl=http://pvsantacruzrn.blogspot.com/2010_06_01_archive.html&usg=___16TzQIjPH-GbxxpSbPMUIDkJ-I=&h=551&w=800&sz=64&hl=en&start=10&sig2=_QaINSAzahN5m4T63Yn2zw&zoom=1&tbnid=mvuViKMWBb-o2M:&tbnh=113&tbnw=151&ei=hs6tTK75KYP6lweM8IDjBQ&prev=/images%3Fq%3Dmarina%2Bpv%26um%3D1%26hl%3Den%26sa%3DN%26biw%3D1003%26bih%3D404%26tbs%3Disch:10%2C290&um=1&itbs=1&biw=1003&bih=404&iact=rc&dur=160&oei=e86tTIDrGYXGlQeW79GHBQ&esq=2&page=2&ndsp=12&ved=1t:429,r:1,s:10&tx=47

terça-feira, 5 de outubro de 2010

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Agora é a campanha "do bem contra o mal"
Emanoel Barreto

Agora, o tom da campanha de Serra, pelo menos no que diz respeito à sua aliada Folha de S. Paulo, estará voltado para o factoide "aborto como programa de governo". Essa e a manchete do jornal: "PT já discute retirar aborto do programa de governo".  Na matéria de página interna o jornal revela que o programa pró-aborto é na verdade um programa do partido, do PT, não do governo.

A troca de "programa de partido" por "programa de governo" não é tão sutil assim: a primeira acepção indica uma proposta partidária, a defesa de um ponto de vista do partido enquanto membro da sociedade civil; a segunda é política pública que sequer foi lembrada pelo governo Lula.

A Folha menciona também que isso seria uma forma de Dilma acalmar os "eleitores evangélicos", colocados como fator suposto para ascensão de Marina na votação.

O que se pretende com isso é criar na agenda pública um assunto tematizado, centrado em convicções religiosas e morais. Isso afasta o debate de assuntos relevantes, levando a campanha para a ideia maniquista do "bem", Serra que seria contra o aborto, e o "mal", figurado em Dilma, por pertencer a partido que acata a prática do abordo.

A campanha de Serra nesta segunda fase estará centrada no slogan de que ele "é do bem". A ideia será repassada a partir de jingle que diz: "Para o Brasil andar pra frente/ não tenha medo não/ o cara é bom/ e é do bem".

A respeito, informa a Folha: "Outro jingle lista ações de Serra, como o genérico e mutirão, numa tentativa de apresentar um candidato que trabalha para os mais humildes, "para cuidar de quem precisa". Serra, diz o jingle, "cuida do idoso, da gestante e do neném".

Trata-se da criação de um não-acontecimento, o falso debate em torno do aborto, surgindo Serra como ator milenarista a salvar a família brasileira e seus valores como se estes estivesem em jogo, não o andamento de uma campanha política eivada, como deve ser, de ideologia e dissenso das classes. 

O que se busca é a ocultação do uso ideológico do aborto em substituição dos grandes temas que englobam o desenvolvimento e os reclamos da classe trabalhadora. O trabalhador passa a ser chamado de "povo" entidade anistórica enquanto aglomerado humano regido por  tradições e costumes. O povo só assume historicidade quando se lhe apega a condição de não-elite, de despossuído.


Usar falsamente a questão periférica do aborto como tema de campanha é arte marqueteira a manobrar pronunciamento que desvia a foco do debate. Assim, esperemos, este segundo turno promete.


Imagem: http://www.google.com/imgres?imgurl=http://bp3.blogger.com/_qRZD4CdeNUc/R7Wxq-ddkdI/AAAAAAAAASQ/cdXa1fMtp-M/s400/monstro.JPG&imgrefurl=http://autoxiro.blogspot.com/&usg=__IeGXgMWPeEB6GkK-dvAHrFyMPkU=&h=300&w=400&sz=54&hl=en&start=193&zoom=1&tbnid=yRhZAkwstKhpnM:&tbnh=124&tbnw=165&prev=/images%3Fq%3Do%2Bmal%26um%3D1%26hl%3Den%26safe%3Doff%26sa%3DN%26biw%3D1003%26bih%3D562%26tbs%3Disch:10%2C5365&um=1&itbs=1&ei=U4qrTNnnN4H78Aa00diHCA&biw=1003&bih=562&iact=rc&dur=203&oei=ndsp=16&ved=1t:429,r:7,s:193&tx=88&ty=49

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

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Eleitorado-cabeça foi a sorte de Marina
Emanoel Barreto

Talvez Marina não seja tão incógnita assim com relação ao segundo turno: seus votos vieram das classes médias, insuflados pelas denúncias de corrupção na Casa Civil. Houve, desta forma, uma repulsa desses segmentos que, ao contrário do que se possa pensar, não são votos de cabresto. São votos de um eleitorado-cabeça e, consequentemente, votos produto de reflexão. Não significa que irão para Serra.

Marina, já pensando na eleição de 2014, como já disse, certamente não desejaria alinhar-se a Serra. Isso contaminaria seu perfil, que pretende preservar como capital simbólico a fim de lançar-se à nova empreitada.

Ela sabe que ao apoiar abertamente um ou outro candidatos estará avalizando seu discurso, correndo o risco de esvaziar seu próprio discurso. Já disse também que pretende convocar o Partido Verde a fim de que seja decidido qual o rumo a tomar.

Assim, seria menos perigoso a seus propósitos algum alinhamento a Dilma, uma ação transversal, mas para isso teria que denunciar Serra como neoliberal e dizer que com sua atitude busca evitar que o Brasil volte ao domínio desse tipo de ator político. Desta forma, justificaria seu apoio condicional a Dilma.

A verde vive um grande momento e como agente política sabe que deve tirar dele o melhor proveito. Ao eleitorado que a sufragou passou a ideia de pessoa ética, candidata-cidadã e sem dúvida quer manter essa imagem pública.

Ademais, pode também tirar partido apoiando Dilma com a simbólica condição de fiel da balança. Mas, não esqueçamos: seus fotos não foram votos "dela". Foram votos circunstanciais. Tanto, que somente a eles teve acesso após as denúncias envolvendo a então ministra Erenice.

Se esses eleitores optarem por Dilma a fim de evitar a volta do tucanato, não será de admirar. De qualquer forma, a candidata de Lula sai em vantagem. O resto é esperar fatos novos até o dia 31.
Foto: http://www.google.com/imgres?imgurl=http://www.greenparty.org.uk/assets/images/subjects/800pxMarina_Silva_

sábado, 2 de outubro de 2010

O ridículo grotesco

Serra faz a dança do pinico. Um homem público em busca de uma privada
Emanoel Barreto

O filósofo cínico Diógenes costumava caminhar ao meio-dia levando uma tocha acesa. Quando indagado a respeito do comportamento que mais se assmelhava à loucura respondia: "Estou procurando um homem de bem". A essência da filosofia cínica, que muitas vezes se manifetasva numa práxis de enfrentamento com o estatuído, era essa: austeridade e uma visão trágica da existência humana, o que de alguma forma inclui o ridículo, usado para criticar a hipocrisia, como fazia Diógenes.

Com o passar dos tempos o termo cínico passou a designar, por uma espécie de semântica equivocada, o índivíduo aproveitador, aquele que ri da honradez em proveito próprio, aquele que inverte a realidade para dela tirar proveito mesmo à custa da sua própria desgraça. 

É o que vemos nessa foto de Serra encimando a primeira página da Folha. Ao lado de Alckmin faz a lamentável "dança do Pânico", expondo-se ambos a deplorável momento de suas vidas. Esse tipo de manifestação de dança urbana, bem típica de um certo senso comum, certamente não faz parte da vida dos dois. 

Todavia, aceitam essa humilhação sorridentes, catando aqui e acolá supostos votos por tentarem se dizer "iguais ao povo" quando este se manifesta em atos de grosseria, vulgaridade e baixeza.

Basta trocar uma letra e temos a dança do pinico.
E em busca de um pinico Serra mostra a quanto um homem público pode se abaixar. É o ridículo grotesco em sua máxima manifestação. Um homem público em busca de uma privada.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Contra fatos não há lamentos

Folha tenta apagar o sol com a manchete
Emanoel Barreto 

Há uma regra básica no jornalismo que diz: "Jamais brigue com os fatos". E isso a Folha vem desobedecendo. Segue idêntico comportamento da Rede Globo com relação às Diretas Já. 

Então, a briga com os fatos era a negativa da existência do movimento de sociedade civil. A direção da Globo supunha que não noticiando as mobilizações, o grito das ruas, esta deixaria de existir.Veio afinal a render-se à realidade quando, dentro do movimento, surgiu outro movimento que era sintetizado pelo clamor: "O povo não é bobo; abaixo a Rede Globo." 

A Folha acompanha a  mesma tática de avestruz. E tenta de todas as formas negar a consolidada tendência de eleição de Dilma. A manchete da Folha é o seu lamento antrecipado. Pelo jeito, depois da apuração dos votos vai sair com  manchete  garantindo que Serra foi eleito e que este país vive só uma ilusão de óptica..

E aí, Serra voltou a falar com Pai Véi, o macumbeiro, para resolver sua vida. E aí, disse Pai Véi:

Pai Véi, o macumbeiro

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Eu vi o que vocês fizeram no debate passado
Emanoel Barreto

Os debates televisivos se transformaram em cerimônias, rituais midiáticos, onde os participantes dizem sempre a mesma coisa apenas mudando as palavras. Uma tautologia, em outras palavras. Dilma insistirá nas vitórias do governo com suas políticas públicas, Serra vai garantir que ele é mesmo o melhor, Marina vai defender o  crescimento-verde e Plínio, que se transformou numa espécie de velhote irreverente, atirando para todos os lados, sustentará tal comportamento.

Resumo: tudo o que você já viu ontem na Record será repetido no gran finale, o debate-máximo, o imperial encontro num estúdio da TV Globo, claro. Esse o grande momento, pomposo e cheio de ocorrências de respeito à emissora dos Marinho.

Mais resumo e para explicar melhor o que seja o ritual midiático. Em palavras simples, é a entrevista - aqui incluindo os debates - em que o declarante diz algo que já se sabe, exatamente o que o público, adestrado pelos meios de comunicação, espera que ele diga. Exemplo clássico é a entrevista do jogador de futebol: "Estou preparado tecnicamente e fisicamente e espero ter um bom desempenho, ajudando a minha equipe a chegar à vitória". 
Não é isso mesmo?


Pois bem: mesmo admitindo-se que o debate torna os candidatos mais transparentes, e não torna, porque ali eles estão treinados para se comportar daquela forma, esse tipo de programa apenas reforça a política-espetáculo, uma produção que tem interesse em se apresentar como emocionante. Um confronto, um jogo passado em arena tornada pública por se publicar.


Mas, vamos esperar o gran finale midiático e depois votar. Ah, sim: tem ainda a pesquisa final, aquela também espetacularizada e, no caso, antecipadora da vitória virtual de Dilma. 

Agora, estabeleçamos uma coisa: faço a crítica ao processo midiático, não implicando isso numa adesão a suposta imparcialidade ou neutralidade. Não sou imparcial ou neutro, não há ninguém assim. Podemos até ser serenos numa apreciação e daí resulta a nossa - de qualquer jornalista - credibilidade. 

Quem acompanha este Coisas de Jornal deve saber que esta folha de internet tem simpatia por Dilma por entender que ela é a melhor escolha. Tanto que vem sendo atacada por todos os lados pelos jornalões. 


Mas, vamos esperar o debate final e a pesquisa final. Depois, votar. Depois, deixar que a história continue sua viagem louca sobre a face da Terra.
Imagem: http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://1.bp.blogspot.com/




 

domingo, 19 de setembro de 2010

E vêm aí as novas pesquisas de intenção de voto
Emanoel Barreto

Vox Populi, Datafolha e Ibope deverão divulgar resultados de pesquisas realizadas após a demissão da ministra Erenice. Tudo foi programado pela grande imprensa para buscar a derrubada da candidatura Rousseff. Fatos foram buscados às pressas, acontecimentos foram catalogados e usados. Nada vem dando certo.


Não tenha dúvida de que, permanecendo a tendência dilmista, Serra está virtualmente derrotado. A grande imprensa vem agindo como partido político em trabalho de propaganda subliminar mas, até agora, apesar de todos os balanços, a nau petista se mantém no rumo.

Ao que parece, as TVs e jornais nacionais de referência não entenderam que a agenda da mídia nem sempre consegue determinar a agenda pública. Escândalos somente se realizam quando pessoas se manifestam indignadas. Não havendo indignação, nem manifestação dessa indignação, não há escândalo.

Isso está bastante claro no livro "O escândalo político", do sociólogo americano John B. Thompson. O escândalo, na verdade, não está centrado na figura do escandalizado, mas no coletivo, no social. É aí que mora o escândalo: no sentimendo das pessoas vivenciado de maneira coletiva a partir de valores fundamentais de referência.

De nada adianta levantar casos se as pessoas não se interessam. E não se interessam por motivos vários. Que vão da simples indiferença pela política à banalização do próprio fato escandalizado. O que a imprensa tornou comum passa a ser tido como normal. E quando esse normal se confronta com um governo que vem dando certo a tentativa de escandalizar fracassa.
Agora, só resta esperar os resultados das pesquisas.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Folha admite vitória de Dilma, mas insiste em acontecimento-nada para atacar candidata do PT
Emanoel Barreto

A matéria abaixo está na Folha e dá conta de que Dilma venceria no primeiro turno. Traz, além disso, um detalhe de qualidade: apesar da fuzilaria da grande mídia, Folha em destaque, contra a candidatura da petista, nada, nada mudou o voto já cristalizado do eleitorado.

A informação enfática da mídia em torno do assunto - essa a explicação do fenômeno - é apenas isso: a informação enfática da mídia em torno do assunto. Falta-lhe, para ter legitimidade, repercussão na vida cotidiana das pessoas. Ou seja: os jornais e TVs acusam Dilma e o PT de uma enxurrada de coisas que a rigor não vão mudar as vidas de ninguém, para melhor ou pior.

Saber que se está dizendo que alguém fez algo supostamente errado não tem tanta importância prática no contexto do cotidiano quanto saber, por exemplo, que a inflação está descontolada e que com isso o preço da gasolina irá disparar. Se o PSDB conseguisse anunciar isso - e não vai porque não há condições de contexto histórico para tanto - aí sim a candidatura Serra poderia decolar. Em caso contrário, não.

O que o cidadão vê, lê e ouve é apenas isso: um troca-troca de palavras via TV e jornais; um acontecimento-nada, vazio de sentido social. E, o que é pior, um troca-troca de palavras que se dá somente nas manchetes, ausente dos grandes problemas nacionais, distante da realidade de quem está espremido num ônibus ou num metrô, sofre com o atendimento na saúde, teme os traficantes... mas teve alguma forma de elevação em seu salário.

Até Serra está se recusando a discutir essa tal quebra de sigilo por haver percebido que é pura perda de tempo (leia matéria em post de ontem, onde ele briga com apresentadora que o queria interrogar a respeito). Enfim, tudo se encaminha para a derrota de Serra. Sua campanha sempre padeceu de um sentido de causa, faltou-lhe conteúdo, faltou-lhe discurso, faltou o que prometer.

Para encerrar: mesmo dizendo que Dilma venceria no primeiro turno, a Folha deu manchetona de primeira página falando em escândalo. Manchete desse tipo, em suas linhas, letras garrafais, seguidas de subtítulo detalhado somente para grandes casos. E o jornal, querendo forçar os acontecimentos, busca produzir um acontecimento-manchete que, todavia, é apenas isso, um acontecimento-manchete, um acontecimento-nada.
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Abaixo, a matéria da Folha.
Dilma tem 51% e venceria no 1º turno


FERNANDO RODRIGUES
DE BRASÍLIA

Apesar do intenso noticiário das últimas semanas sobre a quebra dos sigilos fiscais de tucanos, a corrida presidencial entrou em fase de alta estabilidade nas taxas de intenção de voto dos principais candidatos. Dilma Rousseff (PT) venceria a disputa no primeiro turnos e a eleição fosse hoje. Segundo pesquisa Datafolha nos dias 13 a 15 deste mês com 11.784 entrevistas em todo o país, a petista tem 51%. Oscilou um ponto percentual para cima em relação ao levantamento anterior, dos dias 8 e 9.


A margem de erro máxima é de dois pontos, para mais ou para menos. Quando se consideram só os votos válidos, os dados apenas aos candidatos (excluindo-se os brancos e os nulos), Dilma vai a 57%. José Serra (PSDB) ficou exatamente como há uma semana, com 27%. Marina Silva (PV) também repetiu sua taxa de 11%. Em votos válidos, o tucano tem 30%. A verde fica com 12%. Há 4% que dizem votar em branco, nulo ou nenhum. Outros 7% se declaram indecisos. Os demais seis candidatos não pontuaram, segundo o Datafolha -que realizou a pesquisa sob encomenda da Folha e da Rede Globo.






ESCÂNDALO DA RECEITA


O levantamento comprovou que teve impacto mínimo até agora, quase imperceptível, o escândalo da quebra de sigilo de tucanos e da filha de Serra, Veronica. O Datafolha apurou que 57% dos eleitores tomaram conhecimento do assunto. Mas, apesar de a maioria conhecer o caso, só 12% se consideram bem informados a respeito.


As taxas de maior conhecimento estão entre os mais escolarizados (86%) e os que têm maior renda mensal (84%). Mas esses segmentos são minoritários no eleitorado e não provocaram alterações no quadro geral.


Numa estratificação apenas dos que se declaram mais bem informados, a taxa de intenção de votos de Dilma fica em 46% (contra os 51%no cômputo geral). Serra vai a 33% e Marina oscila para 14%. Ou seja, a soma do tucano com a verde daria 47%, e o cenário seria de um possível segundo turno.


No outro extremo, entretanto, quando são separados apenas os eleitores que nunca ouviram falar do caso da quebra de sigilos fiscais de tucanos, Dilma vai a 53%, Serra desce a 24% e Marina pontua apenas 8%. A estabilidade do quadro geral apurado pelo Datafolha também aparece em quase todos os segmentos pesquisados pelo instituto.






SEGUNDO TURNO


Na simulação de segundo turno, Dilma venceria com 57%, contra 35%de Serra. Os percentuais eram 56% e 35% há uma semana. Do ponto de vista geográfico, as únicas variações significativas e além da margem de erro ocorreram no Paraná, no Rio Grande do Sul, em Brasília e em Belo Horizonte. Dilma perdeu oito pontos em Curitiba (PR) e voltou a ficar atrás de Serra nessa capital. A petista tem 28%, contra 36% do tucano. No Paraná como um todo, ela recuou cinco pontos -mas ainda lidera por 41% a 35%.


A petista também piorou seu desempenho em Brasília, saindo de 51% para 43%, mas continua líder porque Serra está com 21%. No Rio Grande do Sul e em Belo Horizonte ocorreu o inverso, com Dilma melhorando seu desempenho.


Entre os gaúchos, a petista foi de 43% para 45%, e Serra desceu de 38% para 34%. Na capital mineira, a petista foi de 40% para 44%. Serra oscilou de 23% para 25%.









O Pixador

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Leio no JB online e compartilho:
Serra se irrita e ameaça deixar entrevista em programa de TV

Priscila Tieppo, Portal Terra

SÃO PAULO - Em gravação do programa Jogo do Poder, da CNT, o candidato do PSDB à presidência da República, José Serra, se irritou com perguntas sobre a quebra de sigilos de tucanos e pesquisas e ameaçou deixar a entrevista.

O candidato disse que eles "estavam perdendo tempo falando daqueles assuntos", enquanto podiam dar ênfase aos programas de governo dele. Após a apresentadora Márcia Peltier citar que a quebra de sigilo teria acontecido em 2009, antes do anúncio das candidaturas à presidência, Serra subiu o tom:

- Que antes da candidatura, Márcia? Nós estamos gastando tempo aqui precioso, estamos repetindo os argumentos do PT, que você sabe que são fajutos, estamos perdendo tempo aqui.

Márcia tentou contemporizar, mas não conseguiu acalmá-lo. "A candidata do PT virá aqui?", perguntou. Após a afirmativa de Márcia, ele retrucou: "então, pergunta para ela".

"Agora nós vamos falar sobre programas", tentou prosseguir a apresentadora. Neste momento, Serra levantou-se e ameaçou sair do estúdio. Tentando arrumar o fio do microfone, disse: "eu não vou dar essa entrevista, você me desculpa".

Márcia insistiu dizendo que eles falariam de programa de governo, mas ele se manteve firme. "Faz de conta que eu não vim". "Mas porquê, candidato?", disse, ainda sentada. "Porque não tem nada a ver com pergunta, não é um troço sério. (...) Apaga aqui". "O que o senhor quer que apague?", perguntou Márcia. "Apague a TV pra gente conversar".

Márcia pediu que as câmeras fossem desligadas e as luzes do estúdio apagadas, mas Serra continuou falando: "porque isso aqui está parecendo montado". "Montado para quem? Aqui não tem isso", defendeu a jornalista.

O candidato voltou a reclamar da pauta das perguntas - que até então, havia se fixado nos acessos fiscais e sobre as pesquisas. "Me disseram que eu ia falar de política e economia".

Depois de conversar reservadamente com Márcia e o apresentador Alon Feuerwerker, Serra voltou ao estúdio e respondeu a questionamentos sobre economia, saúde e saneamento básico.


Ao final da gravação, Serra foi questionado pelos jornalistas que estavam no local sobre sua irritação. O candidato negou ter se irritado e afirmou que apenas estava "com estômago ruim" porque não tinha tomado café da manhã.

Segundo a assessoria de imprensa da emissora, as perguntas feitas ao candidatos sobre os assuntos que o incomodaram serão mantidas na edição que irá ao ar nesta quarta-feira (15), às 22h50. A reportagem do Terra , que se encontrava numa sala vizinha ao estúdio, tem o diálogo gravado.

Serra destacou suas propostas de governo nas gravações dos blocos seguintes e, sobre a questão da Receita Federal, o candidato disse que pediria a demissão do secretário, Otacílio Cartaxo, e do corregedor-geral da instituição, Antonio Carlos Costa D'Ávila.

"Eu teria demitido o secretário e o corregedor da Receita. Eles são não só os responsáveis como também têm ocultado provas sistematicamente. Eu começaria por aí", afirmou.

domingo, 12 de setembro de 2010

Dilma isso, Dilma aquilo, Dilma aquilo outro. E ela dominou a cena
Emanoel Barreto

O UOL, da Folha, está dizendo agora mesmo, depois do debate na Rede TV!, que Serra e Dilma "se atacaram". Não é verdade. O que ocorreu foi uma investida maciça de todos os demais participantes - Serra, Plínio e Marina - sobre Dilma, sem perceber que com isso a colocaram como protagonista da cena.

Criaram um ambiente de ação e reação, sobressaindo-se a reação da candidata tal a forma como foi pressionada. Essa questão do discurso, que já rendeu teses e teses, tem por base coisas como o que se afirma e os efeitos do que se afirma. Efeitos pretendidos e resultados não desejados.

Veja bem: quando uma afirmativa suscita vantagem para o interlocutor-oponente, essa mesma afirmativa revela-se falha em sua assertividade, especialmente quando em tom acusatório. Foi o que aconteceu. Obteve-se o efeito indesejado, quando o que se queria era abater a adversária.

Esse caso de sigilos violados, esse grande acontecimento-nada, foi usado por Serra, mas falhou. Até mesmo porque ele não tinha controle sobre seu pronunciamento e sempre terminava por ter o microfone cortado, uma vez que excedia o tempo de um minuto e meio para falar.

O debate começou com uma pergunta que antigamente era chamada de "pergunta de bolso", aquela em que o indagado dificilmente consegue se safar. O mediador da Folha pediu que Dilma falasse a respeito do maior sucesso e do maior fracasso do governo Lula.

O objetivo era nitidamente da espaço a uma manchete nesta segunda-feira, relatando "objetivamente" palavras de Dilma admitindo fracasso do governo ao qual está ligada. Falho a tentativa. Ela conseguiu se sair bem, falou do sucesso das obras sociais e afirmou que não houve fracassos.

Bom, o resto foi o resto. Um ritual de perguntas e respostas que o eleitor já está cansado de ouvir.
Deu na Folha. Manchete: Filho de braço direito de Dilma atua como lobista

Se for assim, o que faz o irmão do tio do padrinho do irmão da tia do concunhado do cunhado da tetraneta da neta do neto do pai do sogro da namorada do segundo casamento da mãe da avó do irmão da avó-torta do padrastro da trisavó do avô da madrinha do sogro do tetravô de um rapaz que um dia se casou com a mãe de um irmão do gêmeo de um padre que era filho de outro padre e que por sua vez estava pretendendo deixar batina porque era irmão de uma moça que era prima de um tio de um avô do braço esquerdo de Dilma?
O braço esquerdo de Dilma vende picolé? Se for, tá errado. Pode não, vender picolé.
Carta Capital quebra o sigilo da farsa da quebra de sigilo

Leia abaixo a matéria da Revista dirigida por Mino Carta (EB).

30 de janeiro de 2001, o peemedebista Michel Temer, então presidente da Câmara dos Deputados, enviou um ofício ao Banco Central, comandado à época pelo economista Armínio Fraga. Queria explicações sobre um caso escabroso. Naquele mesmo mês, por cerca de 20 dias, os dados de quase 60 milhões de correntistas brasileiros haviam ficado expostos à visitação pública na internet, no que é, provavelmente uma das maiores quebras de sigilo bancário da história do País. O site responsável pelo crime, filial brasileira de uma empresa argentina, se chamava Decidir.com e, curiosamente, tinha registro em Miami, nos Estados Unidos, em nome de seis sócios. Dois deles eram empresárias brasileiras: Verônica Allende Serra e Verônica Dantas Rodenburg.


Ironia do destino, a advogada Verônica Serra, 41 anos, é hoje a principal estrela da campanha política do pai, José Serra, justamente por ser vítima de uma ainda mal explicada quebra de sigilo fiscal cometida por funcionários da Receita Federal. A violação dos dados de Verônica tem sido extensamente explorada na campanha eleitoral. Serra acusou diretamente Dilma Rousseff de responsabilidade pelo crime, embora tenha abrandado o discurso nos últimos dias.

Naquele começo de 2001, ainda durante o segundo mandato do presidente FHC, Temer não haveria de receber uma reposta de Fraga. Esta, se enviada algum dia, nunca foi registrada no protocolo da presidência da Casa. O deputado deixou o cargo menos de um mês depois de enviar o ofício ao Banco Central e foi sucedido pelo tucano Aécio Neves, ex-governador de Minas Gerais, hoje candidato ao Senado. Passados nove anos, o hoje candidato a vice na chapa de Dilma Rousseff garante que nunca mais teve qualquer informação sobre o assunto, nem do Banco Central nem de autoridade federal alguma. Nem ele nem ninguém.

Graças à leniência do governo FHC e à então boa vontade da mídia, que não enxergou, como agora, nenhum indício de um grave atentado contra os direitos dos cidadãos, a história ficou reduzida a um escândalo de emissão de cheques sem fundos por parte de deputados federais.

Temer decidiu chamar o Banco Central às falas no mesmo dia em que uma matéria da Folha de São Paulo informava que, graças ao passe livre do Decidir.com, era possível a qualquer um acessar não só os dados bancários de todos os brasileiros com conta corrente ativa, mas também o Cadastro de Emitentes de Cheques sem Fundos (CCF), a chamada “lista negra”do BC. Com base nessa facilidade, o jornal paulistano acessou os dados bancários de 692 autoridades brasileiras e se concentrou na existência de 18 deputados enrolados com cheques sem fundos, posteriormente constrangidos pela exposição pública de suas mazelas financeiras.

Entre esses parlamentares despontava o deputado Severino Cavalcanti, então do PPB (atual PP) de Pernambuco, que acabaria por se tornar presidente da Câmara dos Deputados, em 2005, com o apoio da oposição comandada pelo PSDB e pelo ex-PFL (atual DEM). Os congressistas expostos pela reportagem pertenciam a partidos diversos: um do PL, um do PPB, dois do PT, três do PFL, cinco do PSDB e seis do PMDB. Desses, apenas três permanecem com mandato na Câmara, Paulo Rocha (PT-PA), Gervásio Silva (DEM-SC) e Aníbal Gomes (PMDB-CE). Por conta da campanha eleitoral, CartaCapital conseguiu contato com apenas um deles, Paulo Rocha. Via assessoria de imprensa, ele informou apenas não se lembrar de ter entrado ou não com alguma ação judicial contra a Decidir.com por causa da quebra de sigilo bancário.

Na época do ocorrido, a reportagem da Folha ignorou a presença societária na Decidir.com tanto de Verônica Serra, filha do candidato tucano, como de Verônica Dantas, irmã do banqueiro Daniel Dantas, dono do Opportunity. Verônica D. e o irmão Dantas foram indiciados, em 2008, pela Operação Satiagraha, da Polícia Federal, por crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, sonegação fiscal, formação de quadrilha, gestão fraudulenta de instituição financeira e empréstimo vedado. Verônica também é investigada por participação no suborno a um delegado federal que resultou na condenação do irmão a dez anos de cadeia. E também por irregularidades cometidas pelo Opportunity Fund: nos anos 90, à revelia das leis brasileiras, o fundo operava dinheiro de nacionais no exterior por meio de uma facilidade criada pelo BC chamada Anexo IV e dirigida apenas a estrangeiros.

A forma como a empresa das duas Verônicas conseguiu acesso aos dados de milhões de correntistas brasileiros, feita a partir de um convênio com o Banco do Brasil, sob a presidência do tucano Paolo Zaghen, é fruto de uma negociação nebulosa. A Decidir.com não existe mais no Brasil desde março de 2002, quando foi tornada inativa em Miami, e a dupla tem se recusado, sistematicamente, a sequer admitir que fossem sócias, apesar das evidências documentais a respeito. À época, uma funcionária do site, Cíntia Yamamoto, disse ao jornal que a Decidir.com dedicava-se a orientar o comércio sobre a inadimplência de pessoas físicas e jurídicas, nos moldes da Serasa, empresa criada por bancos em 1968. Uma “falha”no sistema teria deixado os dados abertos ao público. Para acessá-los, bastava digitar o nome completo dos correntistas.

A informação dada por Yamamoto não era, porém, verdadeira. O site da Decidir.com, da forma como foi criado em Miami, tinha o seguinte aviso para potenciais clientes interessados em participar de negócios no Brasil: “encontre em nossa base de licitações a oportunidade certa para se tornar um fornecedor do Estado”. Era, por assim dizer, um balcão facilitador montado nos Estados Unidos que tinha como sócias a filha do então ministro da Saúde, titular de uma pasta recheada de pesadas licitações, e a irmã de um banqueiro que havia participado ativamente das privatizações do governo FHC.

A ação do Decidir.com é crime de quebra de sigilo fiscal. O uso do CCF do Banco Central é disciplinado pela Resolução 1.682 do Conselho Monetário Nacional, de 31 de janeiro de 1990, que proíbe divulgação de dados a terceiros. A divulgação das informações também é caracterizada como quebra de sigilo bancário pela Lei n˚ 4.595, de 1964. O Banco Central deveria ter instaurado um processo administrativo para averiguar os termos do convênio feito entre a Decidir.com e o Banco do Brasil, pois a empresa não era uma entidade de defesa do crédito, mas de promoção de concorrência. As duas também deveriam ter sido alvo de uma investigação da polícia federal, mas nada disso ocorreu. O ministro da Justiça de então era José Gregori, atual tesoureiro da campanha de Serra.

A inércia do Ministério da Justiça, no caso, pode ser explicada pelas circunstâncias políticas do período. A Polícia Federal era comandada por um tucano de carteirinha, o delgado Agílio Monteiro Filho, que chegou a se candidatar, sem sucesso, à Câmara dos Deputados em 2002, pelo PSDB. A vida de Serra e de outros integrantes do partido, entre os quais o presidente Fernando Henrique, estava razoavelmente bagunçada por conta de outra investigação, relativa ao caso do chamado Dossiê Cayman, uma papelada falsa, forjada por uma quadrilha de brasileiros em Miami, que insinuava a existência de uma conta tucana clandestina no Caribe para guardar dinheiro supostamente desviado das privatizações. Portanto, uma nova investigação a envolver Serra, ainda mais com a família de Dantas a reboque, seria politicamente um desastre para quem pretendia, no ano seguinte, se candidatar à Presidência. A morte súbita do caso, sem que nenhuma autoridade federal tivesse se animado a investigar a monumental quebra de sigilo bancário não chega a ser, por isso, um mistério insondável.

Além de Temer, apenas outro parlamentar, o ex-deputado bispo Wanderval, que pertencia ao PL de São Paulo, se interessou pelo assunto. Em fevereiro de 2001, ele encaminhou um requerimento de informações ao então ministro da Fazenda, Pedro Malan, no qual solicitava providências a respeito do vazamento de informações bancárias promovido pela Decidir.com. Fora da política desde 2006, o bispo não foi encontrado por CartaCapital para informar se houve resposta. Também procurada, a assessoria do Banco Central não deu qualquer informação oficial sobre as razões de o órgão não ter tomado medidas administrativas e judiciais quando soube da quebra de sigilo bancário.

Fundada em 5 de março de 2000, a Decidir.com foi registrada na Divisão de Corporações do estado da Flórida, com endereço em um prédio comercial da elegante Brickell Avenue, em Miami. Tratava-se da subsidiária americana de uma empresa de mesmo nome criada na Argentina, mas também com filiais no Chile (onde Verônica Serra nasceu, em 1969, quando o pai estava exilado), México, Venezuela e Brasil. A diretoria-executiva registrada em Miami era composta, além de Verônica Serra, por Verônica Dantas, do Oportunity, Brian Kim, do Citibank, e por mais três sócios da Decidir.com da Argentina, Guy Nevo, Esteban Nofal e Esteban Brenman. À época, o Citi era o grande fiador dos negócios de Dantas mundo afora. Segundo informação das autoridades dos Estados Unidos, a empresa fechou dois anos depois, em 5 de março de 2002. Manteve-se apenas em Buenos Aires, mas com um novo slogan: “com os nossos serviços você poderá concretizar negócios seguros, evitando riscos desnecessários”.

Quando se associou a Verônica D. Na Decidir.com, em 2000, Verônica S. era diretora para a América Latina da companhia de investimentos International Real Returns (IRR), de Nova York, que administrava uma carteira de negócios de 660 bilhões de dólares. Advogada formada pela Universidade de São Paulo, com pós-graduação em Harvard, nos EUA, Verônica S. Também se tornou conselheira de uma série de companhias dedicadas ao comércio digital na América Latina, entre elas a Patagon.com, Chinook.com, TokenZone.com, Gemelo.com, Edgix, BB2W, Latinarte.com, Movilogic e Endeavor Brasil. Entre 1997 e 1998, havia sido vice-presidente da Leucadia National Corporation, uma companhia de investimentos de 3 bilhões de dólares especializada nos mercados da América Latina, Ásia e Europa. Também foi funcionária do Goldman Sachs, em Nova York.

Verônica S. ainda era sócia do pai na ACP – Análise da Conjuntura Econômica e Perspectivas Ltda, fundada em 1993. A empresa funcionava em um escritório no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, cujo proprietário era o cunhado do candidato tucano, Gregório Marin Preciado, ex-integrante do conselho de administração do Banco do Estado de São Paulo (Banespa), nomeado quando Serra era secretário de Planejamento do governo de São Paulo, em 1993. Preciado obteve uma redução de dívida no Banco do Brasil de 448 milhões de reais para irrisórios 4,1 milhões de reais no governo FHC, quando Ricardo Sérgio de Oliveira, ex-arrecadador de campanha de Serra, era diretor da área internacional do BB e articulava as privatizações.


Por coincidência, as relações de Verônica S. com a Decidir.com e a ACP fazem parte do livro Os Porões da Privataria, a ser lançado pelo jornalista Amaury Ribeiro Jr. Em 2011.

De acordo com o texto de Ribeiro Jr., a Decidir.com foi basicamente financiada, no Brasil, pelo Banco Opportunity com um capital de 5 milhões de dólares. Em seguida, transferiu-se, com o nome de Decidir International Limited, para o escritório do Ctco Building, em Road Town, Ilha de Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas, famoso paraíso fiscal no Caribe. De lá, afirma o jornalista, a Decidir.com internalizou 10 milhões de reais em ações da empresa no Brasil, que funcionava no escritório da própria Verônica S. A essas empresas deslocadas para vários lugares, mas sempre com o mesmo nome, o repórter apelida, no livro, de “empresas-camaleão”.

Oficialmente, Verônica S. e Verônica D. abandonaram a Decidir.com em março de 2001 por conta do chamado “estouro da bolha” da internet – iniciado um ano antes, em 2000, quando elas se associaram em Miami. A saída de ambas da sociedade coincide, porém, com a operação abafa que se seguiu à notícia sobre a quebra de sigilo bancário dos brasileiros pela companhia. Em julho de 2008, logo depois da Operação Satiagraha, a filha de Serra chegou a divulgar uma nota oficial para tentar descolar o seu nome da irmã de Dantas. “Não conheço Verônica Dantas, nem pessoalmente, nem de vista, nem por telefone, nem por e-mail”, anunciou.

Segundo ela, a irmã do banqueiro nunca participou de nenhuma reunião de conselho da Decidir.com. Os encontros mensais ocorriam, em geral, em Buenos Aires. Verônica Serra garantiu que a xará foi apenas “indicada”pelo Consórcio Citibank Venture Capital (CVC)/Opportunity como representante no conselho de administração da empresa fundada em Miami. Ela também negou ter sido sócia da Decidir.com, mas apenas “representante”da IRR na empresa. Mas os documentos oficiais a desmentem.







sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Nova pesquisa: é grave a situação de Serra
Emanoel Barreto

Pesquisa Datafolha diz, segundo o UOL: A 23 dias da eleição, pesquisa Datafolha realizada nos dias 8 e 9 de setembro aponta para um quadro de estabilidade na disputa presidencial.


Com 50% das intenções de voto, a candidata petista Dilma Rousseff manteve o percentual registrado na pesquisa anterior, realizada há cinco dias.

Seu principal adversário, o tucano José Serra, oscilou negativamente um ponto percentual e registrou agora 27% das menções do eleitorado. Marina Silva (PV) foi de 10% para 11%.


Todas as variações estão dentro da margem de erro do levantamento, que é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
...
A não ser o surgimento de fato-novo veraz a favor de Serra, a eleição à presidência está decidida; virtualmente decidida. a tentativa da grande imprensa ao lucubrar a "denúncia" de violação de sigilo fiscal de familiares de Serra gorou.

Não havendo reação social ao anúncio de tais acontecimentos não há escândalo e a grande imprensa e a assessoria de Serra já deveria ter visto isso há tempos. As manchetes, por isso mesmo, não são manchetes, porque não ancoradas na objetividade de acusar acontecimento-choque. O que há, o que há mesmo é um fato-nada, um acontecimento-nada. E nada mais que isso.

Pror sua vez, o anúncio de pesquisas favoráveis a Dilma vem funcionando como um fole que estimula o fogo: quando mais se fala delas, mais estas a fazem conhecida. O resto é por gravidade. E, realmente, é grave a situação de Serra.