Hoje, trago um poema de Carlos Drummond de Andrade. Hoje, não quero falar das dissensões do mundo, dos miseráveis ódios do cotidiano, nenhum comentário sobre o motim dos controladores de vôo, ou as últimas indignidades dos políticos. Fiquemos com Drommond. É melhor assim. É bem melhor. Veja.
A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estreita, como se alargava.
Ah, coito, coito, morte de tão vida,
sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres
em mim ressuscitados.
Era Adão,primeiro gesto nu
ante a primeira negritude de corpo feminino.
Roupa e tempo jaziam pelo chão.
E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.
"Não é justo alguém ter o direito de ter uma empresa de aviação e outro não ter o direito de comer um pão." /////// JAMAIS IDE A UM LUGAR GRANDE DEMAIS. A UM LUGAR AONDE NÃO TENHAIS CORAGEM DA IMENSIDÃO - EMANOEL BARRETO - NATAL/RN
sábado, 31 de março de 2007
terça-feira, 27 de março de 2007
De como o pobre leva uma vida de segunda mão e o ricaço sorri e festeja sua doce vida
Francenildo dos Santos Costa é o nome de um brasileiro que teve a coragem de denunciar a corrupção e apontou o hoje deputado federal Antônio Palloci ex-ministro da Fazenda, como integrante de um núcleo formado por altos figurões do Governo Lula,que seu reuniam em uma mansão no Lago Sul, em Brasília.
Era a chamada República de Ribeirão Preto, pois seus integrantes eram todos daquela cidade e na mansão se encontravam para festas e negócios escusos, dizia a imprensa há um ano, louvando-se nas denúncias de Francenildo, caseiro do delicioso antro e testemunha privilegiada do que ali se passava.
Resultado da ação de Francenildo: está desmpregado,vive de pequenos serviços e foi abandonado pela mulher que levou consigo o filho do casal, temento represálias. Palloci está deputado federal, tem livro publicado e vive muito bem. O processo contra ele dormita em alguma gaveta do Supremo Tribunal Federal, esperando parecer do Ministério Público. Quando, ninguém sabe.
Essas informações estão nos jornais e já podem ser incorporadas ao repertório de desgraças que compõem o cotidiano anônimo, a vida barata, angustiantezinha, péssima, a existência de segunda mão de milhões de brasileiros.
O honesto pagando o preço de ter integridade; o ricaço desfrutando do convescote do Poder, comendo as tâmaras da doce vida. O honrado atirado à margem, à sarjeta da vida; o mastim das benesses pronto para mostrar os dentes, protegido por um mandato federal. Oremos.
Era a chamada República de Ribeirão Preto, pois seus integrantes eram todos daquela cidade e na mansão se encontravam para festas e negócios escusos, dizia a imprensa há um ano, louvando-se nas denúncias de Francenildo, caseiro do delicioso antro e testemunha privilegiada do que ali se passava.
Resultado da ação de Francenildo: está desmpregado,vive de pequenos serviços e foi abandonado pela mulher que levou consigo o filho do casal, temento represálias. Palloci está deputado federal, tem livro publicado e vive muito bem. O processo contra ele dormita em alguma gaveta do Supremo Tribunal Federal, esperando parecer do Ministério Público. Quando, ninguém sabe.
Essas informações estão nos jornais e já podem ser incorporadas ao repertório de desgraças que compõem o cotidiano anônimo, a vida barata, angustiantezinha, péssima, a existência de segunda mão de milhões de brasileiros.
O honesto pagando o preço de ter integridade; o ricaço desfrutando do convescote do Poder, comendo as tâmaras da doce vida. O honrado atirado à margem, à sarjeta da vida; o mastim das benesses pronto para mostrar os dentes, protegido por um mandato federal. Oremos.
sexta-feira, 23 de março de 2007
Mais dinheiro para os políticos
Deputados e senadores voltam à carga, com a intentona de reajustar seus vencimentos. Em cascata, esse aumento terá reprecussões nas Assembléias Legislativas e Câmaras Municipais. O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia, manifestou estupefação e disse que não teve qualquer ingerência com a proposta de assalto aos cofres públicos.
Esperemos que sim e que ele consiga fazer algo para que os políticos, seus colegas, não prossigam funcionando como saqueadores do dinheiro do povo brasileiro.
Caso venha a ser aprovado em plenário, o reajuste será uma espécie de esbórnia, uma festa em que predominam o hedonismo e o desregramento. Mais que isso, será um acinte, uma ofensa, uma forma de criminalidade política com requintes de perversidade, ante quem ganha salário mínimo, sofre nas filas do SUS e sabe que o dia seguinte será igual, em sofrimento e dor.
Vamos ver como as coisas andam. Vade retro.
Esperemos que sim e que ele consiga fazer algo para que os políticos, seus colegas, não prossigam funcionando como saqueadores do dinheiro do povo brasileiro.
Caso venha a ser aprovado em plenário, o reajuste será uma espécie de esbórnia, uma festa em que predominam o hedonismo e o desregramento. Mais que isso, será um acinte, uma ofensa, uma forma de criminalidade política com requintes de perversidade, ante quem ganha salário mínimo, sofre nas filas do SUS e sabe que o dia seguinte será igual, em sofrimento e dor.
Vamos ver como as coisas andam. Vade retro.
quinta-feira, 22 de março de 2007
Se deixarmos a água morrer
No Dia Internacional da Água,
vamos fazer uma reflexão:
se deixarmos que a água acabe,
se permitirmos que os rios sequem,
as nascentes morram,
as fontes desapareçam,
Se deixarmos água escorrer
no esgoto,
se perder nas sarjetas,
transformar-se em limo,
Somente teremos, se tivermos,
lágrimas para irrigar sofrimentos,
sofrimentos que nós mesmos buscamos.
vamos fazer uma reflexão:
se deixarmos que a água acabe,
se permitirmos que os rios sequem,
as nascentes morram,
as fontes desapareçam,
Se deixarmos água escorrer
no esgoto,
se perder nas sarjetas,
transformar-se em limo,
Somente teremos, se tivermos,
lágrimas para irrigar sofrimentos,
sofrimentos que nós mesmos buscamos.
quarta-feira, 21 de março de 2007
Campanha política no You Tube: a nova arma da política
A campanha política presidencial nos Estados Unidos ainda está em fase de preparação. Democratas de republicanos disputam internamente, a fim de decidir quem serão seus representantes à sucessão do presidente Bush.
Enquanto isso, todos os recursos comunicacionais são mobilizados, para popularizar nomes e, paralelamente, desgastar adversários. É o caso da senadora Hilary Clinton, mulher do ex-presidente Bill Clinton, apresentada em um filmete no You Tube como se fora a figura do Grande Irmão, o Big Brother do livro "1984", de George Orwell, obra levada às telas do cinema pelo diretor Ridley Scott.
No You Tube, uma imagem da senadora é atacada por uma manifestante que, de martelo na mão, investe contra a tela onde seu retrato está pintado. Mas o adversário da Hilary, o candidato democrata Barack Obama, também já foi alvo desse tipo de recurso de mídia, com o objetivo de desgastá-lo.
Como a internet ainda é um território ainda não totalmente disciplinado legalmente, é bem provável que na próxima campanha para prefeito, no Brasil, venha a ser utilizado largamente e com grande repercussão. Ainda é uma mídia altrnativa, eleitoralmente, mas com largas possibilidades de obtenção de êxito.
Filmes no You Tube, orkuts e blogs poderão e serão usados para enaltecer e principalmente desgastar candidaturas. A Justiça Eleitoral não terá como controlar esse país virtual, essa terra enigmática e imponderável, libertária e anarquista que é a internet.
Basta postar alguma mensagem contra alguém, fazer repercussão nas mídias impressa e televisiva e a audiência na net estará garantida. Sem controle de horário e de conteúdo. Vamos aguardar.
Enquanto isso, todos os recursos comunicacionais são mobilizados, para popularizar nomes e, paralelamente, desgastar adversários. É o caso da senadora Hilary Clinton, mulher do ex-presidente Bill Clinton, apresentada em um filmete no You Tube como se fora a figura do Grande Irmão, o Big Brother do livro "1984", de George Orwell, obra levada às telas do cinema pelo diretor Ridley Scott.
No You Tube, uma imagem da senadora é atacada por uma manifestante que, de martelo na mão, investe contra a tela onde seu retrato está pintado. Mas o adversário da Hilary, o candidato democrata Barack Obama, também já foi alvo desse tipo de recurso de mídia, com o objetivo de desgastá-lo.
Como a internet ainda é um território ainda não totalmente disciplinado legalmente, é bem provável que na próxima campanha para prefeito, no Brasil, venha a ser utilizado largamente e com grande repercussão. Ainda é uma mídia altrnativa, eleitoralmente, mas com largas possibilidades de obtenção de êxito.
Filmes no You Tube, orkuts e blogs poderão e serão usados para enaltecer e principalmente desgastar candidaturas. A Justiça Eleitoral não terá como controlar esse país virtual, essa terra enigmática e imponderável, libertária e anarquista que é a internet.
Basta postar alguma mensagem contra alguém, fazer repercussão nas mídias impressa e televisiva e a audiência na net estará garantida. Sem controle de horário e de conteúdo. Vamos aguardar.
terça-feira, 20 de março de 2007
Vamos salvar os animais e o bicho-homem
Leia o que a Revista Veja está publicando online a respeito de um adorável ursinho que foi adotado pelos funcionários de um zoológico, após ser abandonado pela mãe:
O filhote de urso polar Knut tornou-se mundialmente conhecido depois de ser abandonado pela mãe e "adotado" pelos funcionários do zoológico de Berlim - desde então, é tratado como se fosse um bebê, bem alimentado e mimado por todos.
Os ativistas de proteção dos animais, contudo, reclamam desse tratamento especial. Para eles, o procedimento é "desumano" e torna impossível a sobrevivência do urso. Um deles chegou a sugerir até que o animal seja sacrificado.
De acordo com reportagem divulgada nesta terça-feira pelo jornal alemão Bild, Knut é visitado por centenas de pessoas todos os dias, come frango desfiado com purê e dorme com um urso de pelúcia - segundo os funcionários do zoológico, ele costuma pegar no sono ouvindo canções de Elvis Presley.
O filhote já posou para uma das mais famosas fotógrafas do planeta, Annie Leibovitz, da revista Vanity Fair americana. Para os ativistas, porém, tudo isso prejudica o urso.
Respeito à natureza à parte, mas isso é coisa de ambientalista que prescisa arranjar o que fazer. Em nenhum momento o aninal está sendo submetido a qualqur tratamento "desumano". Ao contrário, é bem "humano" o apego por animaizinhos bonitos e que, no imaginário coletivo, despertam afeição e desejo de toque e carinho, como os ursinhos de pelúcia.
É também bastante "humana" a necessidade de aprisionar animais para expô-los em zoológicos, a fim de que atraiam a curiosidade do senso comum.
A rigor, os animais selvagns deveriam estar em seus habitats. Mas, ante a imperiosidde de manutenção dos zoológicos, que o cativeiro reflita o mais próximo possivel as condições naturais de onde o animal foi retirado.
Quanto à sugestão de matar o animal, essa sim revela uma visão limitada e tosca, radical e cruel, de quem se diz defensor dos bichos e de seu habitat.
A discussão, a grande discussão, deveria ser em torno de uma ação holística para a preservação da Terra e de todos os seus habitantes, o que o inclui o bicho- homem. Vamos salvar os animais sim, mas vamos nos salvar também.
segunda-feira, 19 de março de 2007
Second Life: a vida falsificada na internet
Há uma novidade na internet, que deverá, parece, ganhar adeptos e popularidade: a criação do que está sendo chamado de avatar. Uma espécie de alter ego virtual, que tem a possibilidade de interagir com outros avatares, que por sua vez representam outros internautas. É um simulacro da vida.
Chama-se Second Life e, na verdade, como mentira, servirá para compensar o vazio de uma sociedade globalizada, onde se busca a aparência em vez da essência.
Com o Second Life pode-se viver dentro do computador. Seu ícone se relacionando com outros e permitindo a experienciação de um mundo paralelo. A fuga da realidade deverá encantar a muitos.
Pessoas poderão abandonar a monotonia de suas vidas no cotidiano e viver relacionamentos falsificados, imergindo num mundo virtual.
A experiência é nova, ainda não há indicativos de que terá adesão em massa: mas é uma promessa escapista da opressão do dia-a-dia. E certamente não faltará quem deseje colocar a máscara da internet e viver momentos de satisfação.
Chama-se Second Life e, na verdade, como mentira, servirá para compensar o vazio de uma sociedade globalizada, onde se busca a aparência em vez da essência.
Com o Second Life pode-se viver dentro do computador. Seu ícone se relacionando com outros e permitindo a experienciação de um mundo paralelo. A fuga da realidade deverá encantar a muitos.
Pessoas poderão abandonar a monotonia de suas vidas no cotidiano e viver relacionamentos falsificados, imergindo num mundo virtual.
A experiência é nova, ainda não há indicativos de que terá adesão em massa: mas é uma promessa escapista da opressão do dia-a-dia. E certamente não faltará quem deseje colocar a máscara da internet e viver momentos de satisfação.
domingo, 18 de março de 2007
Vidas que se apagam
Certa vez li, em jornal, crônica que se remetia à vida de um velho cronista que, por sua vez, em crônica, lamentara o esmaecimento da beleza das moças do seu tempo. E dizia como era triste,frio como uma tarde velha, ver aquelas mulheres, outrora moças tão lindas, mirradas, desbotadas, fenecendo.
Sofria especialmente por uma delas, a que fora sua grande paixão juvenil, sucumbir acossada pelo tempo, esgarçando a beleza antiga em rugas, desmanchando-se aos poucos em morte lenta, dissolvendo a vida pingo a pingo.
Não li o texto do velho cronista, homem que viveu nos tempos de Bilac, das valsinhas, sonetos fechados com chave-de-ouro, serenatas e suspiros de meiga ansiedade: romance. Li o texto que falava sobre o texto.
Não lamento as mulheres que envelhecem, a beleza que murcha, se encolhe e cai. Não lamento os homens que se encurvam, ficam tristes e perdidos em seus desertos vazios, ocultos em cada um.
Homens e mulheres são e estão presos à condição humana; presos à vida como a ávore presa ao chão. Mas, se presa ao chão a árvore ganha vida, o homem, preso à vida, caminha depressa para o seu fim.
Sofria especialmente por uma delas, a que fora sua grande paixão juvenil, sucumbir acossada pelo tempo, esgarçando a beleza antiga em rugas, desmanchando-se aos poucos em morte lenta, dissolvendo a vida pingo a pingo.
Não li o texto do velho cronista, homem que viveu nos tempos de Bilac, das valsinhas, sonetos fechados com chave-de-ouro, serenatas e suspiros de meiga ansiedade: romance. Li o texto que falava sobre o texto.
Não lamento as mulheres que envelhecem, a beleza que murcha, se encolhe e cai. Não lamento os homens que se encurvam, ficam tristes e perdidos em seus desertos vazios, ocultos em cada um.
Homens e mulheres são e estão presos à condição humana; presos à vida como a ávore presa ao chão. Mas, se presa ao chão a árvore ganha vida, o homem, preso à vida, caminha depressa para o seu fim.
As árvores de Natal
Meu amigo Walter Medeiros envia o seguinte texto:
Natal está perdendo suas árvores devido à estupidez dos seus administradores. Cerca de 100 árvores foram cortadas em cem dias, em apenas duas avenidas. Ante a necessidade de preservar o meio ambiente, recorremos à sensibilidade do poeta paraibano Augusto dos Anjos, em soneto que é um verdadeiro manifesto, após o que não deveríamos precisar dizer mais nada.
A árvore da serra
As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!
— Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pos almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma! ...
— Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa:
«Não mate a árvore, pai, para que eu viva!»
E quando a árvore, olhando a pátria serra,
Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!
Natal está perdendo suas árvores devido à estupidez dos seus administradores. Cerca de 100 árvores foram cortadas em cem dias, em apenas duas avenidas. Ante a necessidade de preservar o meio ambiente, recorremos à sensibilidade do poeta paraibano Augusto dos Anjos, em soneto que é um verdadeiro manifesto, após o que não deveríamos precisar dizer mais nada.
A árvore da serra
As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!
— Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pos almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma! ...
— Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa:
«Não mate a árvore, pai, para que eu viva!»
E quando a árvore, olhando a pátria serra,
Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!
sexta-feira, 16 de março de 2007
Parece até Matrix. Será?
A Folha Online cobre regularmente os "acontecimentos" do Big Brother Brasil. Atitivade midiática voltada para mobilizar milhões de telespectadores, e destes arrecadar milhões de reais, o BB é um fato falso, uma mistificação, uma simulação de acontecimento dentro do processo televisivo. Igual iniciativa ocorre em outros países, uma vez que o Big Brother é uma espécie de franquia internacional.
Na Inglaterra, a Rainha chegou, há poucos dias, a receber a ganhadora do BB de lá. Era uma jovem indiana, que fora vítima de racismo por parte dos demais participantes. Veja-se a que ponto chegou a força da TV: uma cabeça coroada recebendo uma celebridade de ocasião.
Esse programa é uma iniciativa perversa. Em sua total ênfase à banalidade, em sua busca de colocar em pauta trivialidades e frivolidades, além da monumental ignorância e incultura de seus participantes, o programa reafirma um dos mais lamentáveis traços do estágio social que estamos vivendo: a discussão da tolice.
A Folha anuncia também que um argentino será introduzido na casa e que um brasileiro será levado ao BB da Argentina. Trata-se de uma ação de marketing, que atiçará, ainda mais, olhares e ouvidos ao que se passa ali.
A realidade está sendo tão falsificada, que às vezes dá até para pensar que já estamos vivendo no mundo de Matrix. Será?
Na Inglaterra, a Rainha chegou, há poucos dias, a receber a ganhadora do BB de lá. Era uma jovem indiana, que fora vítima de racismo por parte dos demais participantes. Veja-se a que ponto chegou a força da TV: uma cabeça coroada recebendo uma celebridade de ocasião.
Esse programa é uma iniciativa perversa. Em sua total ênfase à banalidade, em sua busca de colocar em pauta trivialidades e frivolidades, além da monumental ignorância e incultura de seus participantes, o programa reafirma um dos mais lamentáveis traços do estágio social que estamos vivendo: a discussão da tolice.
A Folha anuncia também que um argentino será introduzido na casa e que um brasileiro será levado ao BB da Argentina. Trata-se de uma ação de marketing, que atiçará, ainda mais, olhares e ouvidos ao que se passa ali.
A realidade está sendo tão falsificada, que às vezes dá até para pensar que já estamos vivendo no mundo de Matrix. Será?
quinta-feira, 15 de março de 2007
Um poema
O jornalista e poeta Walter Medeiros enviou o seguinte poema:
Feitos
Que vim fazer nessa terra?
Contemplar, certamente,
Essas flores vermelhas
De contornos amarelos;
A árvore sertaneja, toda verde,
Balançando ao vento forte;
Aquelas nuvens brancas
Que fazem belo fundo para o edifício;
Os senhores dos ventos
Que emitem este som para o âmago.
Mais que isso, conseqüente,
Vim sofrer aquelas dores de amor,
Sentir a dificuldade do pão de cada dia,
Olhar as noites frias nas sarjetas,
Buscar felicidade em cada canto.
Além disso, certamente,
Vim conhecer as injustiças sociais,
Lutar clamando por melhores dias,
Abrir caminhos para fantasias,
Amar o mundo e buscar a paz.
Feitos
Que vim fazer nessa terra?
Contemplar, certamente,
Essas flores vermelhas
De contornos amarelos;
A árvore sertaneja, toda verde,
Balançando ao vento forte;
Aquelas nuvens brancas
Que fazem belo fundo para o edifício;
Os senhores dos ventos
Que emitem este som para o âmago.
Mais que isso, conseqüente,
Vim sofrer aquelas dores de amor,
Sentir a dificuldade do pão de cada dia,
Olhar as noites frias nas sarjetas,
Buscar felicidade em cada canto.
Além disso, certamente,
Vim conhecer as injustiças sociais,
Lutar clamando por melhores dias,
Abrir caminhos para fantasias,
Amar o mundo e buscar a paz.
quarta-feira, 14 de março de 2007
TV estatal: para que gastar dinheiro com isso?
O ministro das Comunicações, Hélio Costa, tenta levar adiante uma proposta que vai de encontro a todos os princípios democráticos que possam ser encontrados na comunicação de massa: a implantação de uma TV estatal, cujo único objetivo é tratar das questões e dos interesses do Executivo. Mas claramente, é uma TV voltada para a exaltação da figura do presidente da República. E isso a um custo de 250 milhões de reais, a ser gastos ao longo do mandato do presidente Lula.
Além de ser um sistema de comunicação preso a um projeto político, e portanto correia de transmissão do ideário do governo e do governante, representará um grave dispêndio de recursos, que melhor seriam aplicados junto às TVs públicas, para que cumpram melhor e com mais qualidade as suas funções de divulgação cultural e jornalística.
Do modo como a proposta está apresentada, sem sequer passar pelo senado e pela câmara dos deputados, representa apenas a criação de um sistema de comunicação de massa monolítico e de mão única, passando, permanentemente, mensagens favoráveis ao governo, num trabalho de agendamento estatal da opinião pública.
É algo atrasado e manipulador. Lembra a determinação getulista que criou a Voz do Brasil, que até hoje agrilhoa todas as rádios brasileiras, obrigadas a retransmitir um programa acrítico e superficial e que, a rigor, não informa nada. Limita-se a relatar atos da burocracia dos três Poderes, num desfile oficialalesco.
Além de ser um sistema de comunicação preso a um projeto político, e portanto correia de transmissão do ideário do governo e do governante, representará um grave dispêndio de recursos, que melhor seriam aplicados junto às TVs públicas, para que cumpram melhor e com mais qualidade as suas funções de divulgação cultural e jornalística.
Do modo como a proposta está apresentada, sem sequer passar pelo senado e pela câmara dos deputados, representa apenas a criação de um sistema de comunicação de massa monolítico e de mão única, passando, permanentemente, mensagens favoráveis ao governo, num trabalho de agendamento estatal da opinião pública.
É algo atrasado e manipulador. Lembra a determinação getulista que criou a Voz do Brasil, que até hoje agrilhoa todas as rádios brasileiras, obrigadas a retransmitir um programa acrítico e superficial e que, a rigor, não informa nada. Limita-se a relatar atos da burocracia dos três Poderes, num desfile oficialalesco.
terça-feira, 13 de março de 2007
Encruzilhada*
Não adianta o grito,
a boca aberta, o brado.
Não adianta o brado,
a decisão, o gesto.
Não adianta o gesto,
o caminhar, coragem.
Não adianta a coragem,
a decisão, o passo.
Não adianta o passo,
o olhar longe, a força.
Não adianta a força,
a mão sutil, poesia.
Não se adiante.
Não adianta.
*A tristeza habita todas as manchete. E as mãos tristonhas dos pobres do mundo dizem que, lamentavelmente, não adianta.
a boca aberta, o brado.
Não adianta o brado,
a decisão, o gesto.
Não adianta o gesto,
o caminhar, coragem.
Não adianta a coragem,
a decisão, o passo.
Não adianta o passo,
o olhar longe, a força.
Não adianta a força,
a mão sutil, poesia.
Não se adiante.
Não adianta.
*A tristeza habita todas as manchete. E as mãos tristonhas dos pobres do mundo dizem que, lamentavelmente, não adianta.
segunda-feira, 12 de março de 2007
BBB: a humilhação como atração principal
A programação popularesca, vulgar, voltada para uma estética musical no mínino duvidosa; enfática na valoração da desonestidade como ordem instituída e vigorosa na exaltação da falta de ética como princípio para as relações humanas, tem pautado a TV brasileira, especialmente no que diz respeito a programas como os do Faustão e Big Brother Brasil.
Faustão, além do linguajar rasteiro, cheio de artimanhas verbais, está pronto para humilhar, a qualquer instante, quem lhe caia às maõs, para alguma "entrevista" - às vezes algum coitado, sem fama ou dinheiro, é chamdao ao palco para falar sobre alguma tolice.
O apresentador prima por salientar aspectos da vida em que alguém sempre sai perdendo, punido por uma exposição de mídia que atrai olhares e juízos de valor a respeito da vítima. Alguém termina sempre como culpado por ter sido submetido a algum vexame. E o público uiva, aplaudindo o infortúnio purgando, cada indivíduo, previamente, o medo de um dia ali estar, exposto e midiaticamente espancado.
O exemplo mais claro são as Cassetadas, em que pessoas são mostradas em situações ridículas, grvadas em vídeos caseiros. Faustão está fazendo a louvação de um relacionamento cotidiano baseado no deboche e na falta de respeito. Banaliza a dor e o sofrimento de quem é ofendido.
No que refere ao Big Brother, há o elogio à falta de escrúpulos, a reverência à desonestidade, a absolvição de qualquer culpa moral, tudo sob o pálio de que ali há uma "competição".
Competição que se apresenta às claras como um jogo sujo, um processo de ocultção dos verdadeiros interesses da Globo: lucrar a qualquer preço, retirar dinheiro de tolos que fazem ligações de celulares e aumentam em mais alguns milhões a fortuna do grupo Marinho.
E como as pessoas participam... Dão "opiniões", manifestam-se "indignação", "criticam", "falam" sobre as "qualidades" de indivíduos que participam de uma espécie de turnê da estupidez mas que, apesar disso, são capazes de mobilizar uma ponderável parcela da nação.
No fundo, de alguma maneira, todos sabem que estão vendo e sendo chamados a participar de uma grotesqueria, sabem que estão imersos numa encenação à qual todos se curvam de bom grado. As pessoas flutuam entre a realidade e a encenação dessa tragédia programada: o BBB levará alguém ao pódio da vitória do um milhão mas, antes, vai triturar os demais participantes.
O BBB é uma manifestação de que tipo de sociedade está sendo construída. Pessoas são humilhadas, levadas a fazer publicamente atos em que suas condições físicas e emocionais são levadas ao limite. Sua intimidade, também. Gente é açulada a agir de maneira sórdida e truculenta. O público é chamado a presenciar com prazer atos de degradação.
É o espetáculo da violência estetizada. A brutalidade, literalmente, como padrão global de qualidade.
Faustão, além do linguajar rasteiro, cheio de artimanhas verbais, está pronto para humilhar, a qualquer instante, quem lhe caia às maõs, para alguma "entrevista" - às vezes algum coitado, sem fama ou dinheiro, é chamdao ao palco para falar sobre alguma tolice.
O apresentador prima por salientar aspectos da vida em que alguém sempre sai perdendo, punido por uma exposição de mídia que atrai olhares e juízos de valor a respeito da vítima. Alguém termina sempre como culpado por ter sido submetido a algum vexame. E o público uiva, aplaudindo o infortúnio purgando, cada indivíduo, previamente, o medo de um dia ali estar, exposto e midiaticamente espancado.
O exemplo mais claro são as Cassetadas, em que pessoas são mostradas em situações ridículas, grvadas em vídeos caseiros. Faustão está fazendo a louvação de um relacionamento cotidiano baseado no deboche e na falta de respeito. Banaliza a dor e o sofrimento de quem é ofendido.
No que refere ao Big Brother, há o elogio à falta de escrúpulos, a reverência à desonestidade, a absolvição de qualquer culpa moral, tudo sob o pálio de que ali há uma "competição".
Competição que se apresenta às claras como um jogo sujo, um processo de ocultção dos verdadeiros interesses da Globo: lucrar a qualquer preço, retirar dinheiro de tolos que fazem ligações de celulares e aumentam em mais alguns milhões a fortuna do grupo Marinho.
E como as pessoas participam... Dão "opiniões", manifestam-se "indignação", "criticam", "falam" sobre as "qualidades" de indivíduos que participam de uma espécie de turnê da estupidez mas que, apesar disso, são capazes de mobilizar uma ponderável parcela da nação.
No fundo, de alguma maneira, todos sabem que estão vendo e sendo chamados a participar de uma grotesqueria, sabem que estão imersos numa encenação à qual todos se curvam de bom grado. As pessoas flutuam entre a realidade e a encenação dessa tragédia programada: o BBB levará alguém ao pódio da vitória do um milhão mas, antes, vai triturar os demais participantes.
O BBB é uma manifestação de que tipo de sociedade está sendo construída. Pessoas são humilhadas, levadas a fazer publicamente atos em que suas condições físicas e emocionais são levadas ao limite. Sua intimidade, também. Gente é açulada a agir de maneira sórdida e truculenta. O público é chamado a presenciar com prazer atos de degradação.
É o espetáculo da violência estetizada. A brutalidade, literalmente, como padrão global de qualidade.
domingo, 11 de março de 2007
Crônicas para Natal
A pátria das águas
As pequenas e audazes
caravelas do Potengi
repousam calmas
em seu silêncio de água.
São animais de madeira,
dóceis e treinados.
Mas quando estão nevegando,
mastigando instantes,
percorrendo momentos,
esfregam-se no corpo líquido
da água-mulher
e são desbravadores de prazer.
O Centro Náutico Potengi,
onde a força do braço
é motor de popa,
é a pátria das águas,
desses barcos
e de seus marinheiros.
E são todos corsários
da vida forte, amigos do sol
e do suave ondular
das águas que abraçam as
ágeis embarcações.
As pequenas e audazes
caravelas do Potengi
repousam calmas
em seu silêncio de água.
São animais de madeira,
dóceis e treinados.
Mas quando estão nevegando,
mastigando instantes,
percorrendo momentos,
esfregam-se no corpo líquido
da água-mulher
e são desbravadores de prazer.
O Centro Náutico Potengi,
onde a força do braço
é motor de popa,
é a pátria das águas,
desses barcos
e de seus marinheiros.
E são todos corsários
da vida forte, amigos do sol
e do suave ondular
das águas que abraçam as
ágeis embarcações.
sexta-feira, 9 de março de 2007
O Senhor da Guerra chegou: a polícia manda o povo calar
É impressionante a foto publicada hoje pelo Jornal do Brasil na primeira página: três soldados agridem um homem que participava, ontem, de protesto na Avenida Paulista, pela vinda do presidente George W. Bush ao Brasil.
Trata-se de uma foto-editorial clássica: perfeita sob todos os enquadramentos, sólida enquanto captura de um momento intenso, pujante pela forma como demonstra a brutalidade como o homem é dominado, pungente como depoimento daquele momento de vida de um brasileiro.
O mais lamentável é que relata como brasileiros são colocados nas ruas para oprimir outros brasileiros, que vêm a público dizer que não concordam com a vinda, ao País,de um homem que representa a nação mais autoritária e arrogante do mundo.
Um homem que, utilizando-se da política do big stick, invade com suas tropas outros países sob a alegativa de defensor das liberdades e da democracia. Bush vem ao Brasil unicamente para defender os interesses do sistema de dominação que representa e integra.
A foto foi publicada também na grande imprensa americana. Tecnicamente perfeita, humanamente tocante, é em si um lamento e uma advertência trágica: o turismo do Senhor da Guerra é garantido por forças policiais; o gemido de um povo, sua dor, seu protesto, é calado ao pisar das botas e golpes de cassetete.
Trata-se de uma foto-editorial clássica: perfeita sob todos os enquadramentos, sólida enquanto captura de um momento intenso, pujante pela forma como demonstra a brutalidade como o homem é dominado, pungente como depoimento daquele momento de vida de um brasileiro.
O mais lamentável é que relata como brasileiros são colocados nas ruas para oprimir outros brasileiros, que vêm a público dizer que não concordam com a vinda, ao País,de um homem que representa a nação mais autoritária e arrogante do mundo.
Um homem que, utilizando-se da política do big stick, invade com suas tropas outros países sob a alegativa de defensor das liberdades e da democracia. Bush vem ao Brasil unicamente para defender os interesses do sistema de dominação que representa e integra.
A foto foi publicada também na grande imprensa americana. Tecnicamente perfeita, humanamente tocante, é em si um lamento e uma advertência trágica: o turismo do Senhor da Guerra é garantido por forças policiais; o gemido de um povo, sua dor, seu protesto, é calado ao pisar das botas e golpes de cassetete.
quinta-feira, 8 de março de 2007
O Dia da Minha Mulher
Ela tem no olhar exato
e belo o nome de
todos os nossos sentimentos.
E guarda, frente ao mundo,
um silêncio que é só seu;
um silêncio tão forte e tão denso,
que é idioma que somente
eu e ela o podemos falar.
Viramos, eu e ela, par
que se transformou em um;
dois que se fizeram únicos;
Somos um gesto e estamos
longe, no grande silêncio de nós dois.
e belo o nome de
todos os nossos sentimentos.
E guarda, frente ao mundo,
um silêncio que é só seu;
um silêncio tão forte e tão denso,
que é idioma que somente
eu e ela o podemos falar.
Viramos, eu e ela, par
que se transformou em um;
dois que se fizeram únicos;
Somos um gesto e estamos
longe, no grande silêncio de nós dois.
terça-feira, 6 de março de 2007
Bush vem aí
O presidente George W. Bush chega ao Brasil nesta quinta, dia 8, fica menos de 24 horas e segue para novos compromissos internacionais.
Em suma, vem pressionar o presidente Lula para que facilite a presença de investidores americanos no País e, mais que isso, deixar claro que os Estados Unidos têm interesse no etanol aqui produzido,mas que não haverá qualquer redução no que diz respeito às sobretaxas que incidem, lá, sobre esse produto.
Vem, claro, reafirmar uma política de dominação, mediante um discurso aparentemente amigável.
Para os Estados Unidos, o Brasil só é parceiro quando lhes interessa; mas parceiro de segunda linha, parceiro prestador de serviços.
Caso o Governo brasileiro não adote uma retórica mais firme, de agora por diante, quando o gigante do Norte apresenta fraqueza com relação ao etanol, continuaremos como periferia submissa, nessa e nas demais questões econômicas.
Em suma, vem pressionar o presidente Lula para que facilite a presença de investidores americanos no País e, mais que isso, deixar claro que os Estados Unidos têm interesse no etanol aqui produzido,mas que não haverá qualquer redução no que diz respeito às sobretaxas que incidem, lá, sobre esse produto.
Vem, claro, reafirmar uma política de dominação, mediante um discurso aparentemente amigável.
Para os Estados Unidos, o Brasil só é parceiro quando lhes interessa; mas parceiro de segunda linha, parceiro prestador de serviços.
Caso o Governo brasileiro não adote uma retórica mais firme, de agora por diante, quando o gigante do Norte apresenta fraqueza com relação ao etanol, continuaremos como periferia submissa, nessa e nas demais questões econômicas.
segunda-feira, 5 de março de 2007
Crônicas para Natal
Arquitetura bordada de beleza
Casa senhorial,
grande edifício de beleza.
Arquitetura elegante,
linhas discretas,
imponente simplicidade,
o Solar Bela Vista
é um sonho
bordado pela
engenharia clássica.
Suas escadarias
são atalhos para
se chegar a um tempo
onde as construções
eram obras de arte
e os arquitetos
esculpiam casas como quem faz
um anel de diamante.
Solar Bela vista,
salões amplos,
onde a arte
descobriu aconchego,
seus grandes portais
sustentam cortinas invisíveis.
Nobre casa,
nobre morada
da beleza,
nobre construção
feita de grandeza.
Casa senhorial,
grande edifício de beleza.
Arquitetura elegante,
linhas discretas,
imponente simplicidade,
o Solar Bela Vista
é um sonho
bordado pela
engenharia clássica.
Suas escadarias
são atalhos para
se chegar a um tempo
onde as construções
eram obras de arte
e os arquitetos
esculpiam casas como quem faz
um anel de diamante.
Solar Bela vista,
salões amplos,
onde a arte
descobriu aconchego,
seus grandes portais
sustentam cortinas invisíveis.
Nobre casa,
nobre morada
da beleza,
nobre construção
feita de grandeza.
domingo, 4 de março de 2007
A velhas notícias de todos os dias, num mundo cinza e muito frio
De alguma estranha e perversa
maneira, estamos vivendo uma
nova idade do gelo.
É o gelo cinzento e esfumaçado das
ruas, das casas, dos abrigos
dos desabrigados, das balas e de um
pesado medo.
A idade do gelo que vivemos é a da frieza
dos homens, quando um grito da publicidade
fala mais alto que o abraço, o gesto, o olhar.
A idade do gelo que vivemos é a do dinheiro,
que espalha lucros e fome; trabalho e exploração;
vantagens e perdas; espoliadores e espoliados.
Há uma estranha névoa cinza no mundo
E todos os jornais já nascem velhos,
de tanto que publicam a renovação diária da infâmia.
maneira, estamos vivendo uma
nova idade do gelo.
É o gelo cinzento e esfumaçado das
ruas, das casas, dos abrigos
dos desabrigados, das balas e de um
pesado medo.
A idade do gelo que vivemos é a da frieza
dos homens, quando um grito da publicidade
fala mais alto que o abraço, o gesto, o olhar.
A idade do gelo que vivemos é a do dinheiro,
que espalha lucros e fome; trabalho e exploração;
vantagens e perdas; espoliadores e espoliados.
Há uma estranha névoa cinza no mundo
E todos os jornais já nascem velhos,
de tanto que publicam a renovação diária da infâmia.
sexta-feira, 2 de março de 2007
Violência na TV: está na novela, mas tem fundo de verdade
Sobre a televisão, especialmente no que diz respeito às novelas, não se pode mais afirmar em plenitude: "É verdade que é mentira", ou seja: na TV, muitos dados da chamada vida real passam a compor os capítulos, lado a lado com o tradicional melodrama - amores incompreendidos, a mocinha que sofre, o rapaz bom que se vê injustiçado e não pode casar com a sua amada.
O diferencial está em uma palavra: violência. E seus termos agregados - banditismo, desumanidade, criminalidade. As telenovelas puxaram para sua ordem de organização do cotidiano, para a sua agenda de mídia, a violência como elemento essencial.
De alguma forma, esse tipo de produção terminou por adicionar ao seu repertório a violência em suas mais amplas manifestações. É claro que a agenda midiática, tomando-se como base o jornalismo de TV, serviu de inspiração às telenovelas, uma vez que a ênfase jornalística sobre a violência, que tem crescido muito no Brasil, somente tende a repercutir tal noticiário.
As telenovelas, desta forma, passaram, sem que fosse intenção de seus diretores, a reproduzir a realidade das ruas. Terminaram funcionando como elementos de reprodução do cotidiano.
E podem, caso haja determinação nesse sentido, passar a funcionar como elemento crítico dessa mesma realidade. Basta dar um toque mais aprofundado e psicológico aos personagens, que a telenovela acrescentará ao seu perfil mais essa característica, além das já conhecidas abordagens, melosas e choramingas.
É claro que as TVs não farão isso de graça. Será preciso patrocinar essa nova formatação, para que, pagando-se, a novela televisiva venha a despertar alguma forma de abordagem crítica do clima de violência atualmente experienciado pelo País.
O diferencial está em uma palavra: violência. E seus termos agregados - banditismo, desumanidade, criminalidade. As telenovelas puxaram para sua ordem de organização do cotidiano, para a sua agenda de mídia, a violência como elemento essencial.
De alguma forma, esse tipo de produção terminou por adicionar ao seu repertório a violência em suas mais amplas manifestações. É claro que a agenda midiática, tomando-se como base o jornalismo de TV, serviu de inspiração às telenovelas, uma vez que a ênfase jornalística sobre a violência, que tem crescido muito no Brasil, somente tende a repercutir tal noticiário.
As telenovelas, desta forma, passaram, sem que fosse intenção de seus diretores, a reproduzir a realidade das ruas. Terminaram funcionando como elementos de reprodução do cotidiano.
E podem, caso haja determinação nesse sentido, passar a funcionar como elemento crítico dessa mesma realidade. Basta dar um toque mais aprofundado e psicológico aos personagens, que a telenovela acrescentará ao seu perfil mais essa característica, além das já conhecidas abordagens, melosas e choramingas.
É claro que as TVs não farão isso de graça. Será preciso patrocinar essa nova formatação, para que, pagando-se, a novela televisiva venha a despertar alguma forma de abordagem crítica do clima de violência atualmente experienciado pelo País.
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007
Jornalismo e Direitos Fundamentais
Transcrevo artigo do professor José Coelho Sobrinho, membro do Forum Nacional de Professores de Jornalismo. Trata-se de reflexão suficientemente embasada, para que se pense com seriedade a respeito da prática da profissão. Segue:
Jornalismo e Direitos Fundamentais
Alguns biógrafos de Joseph Goebbels, quando tratam de sua vida amorosa,
relacionam seu namoro com Anka Stalhern como sendo o indutor de seu romance
Michael (publicado em 1929). É possível que a paixão de Michael por Hertha,
figuras centrais do enredo da obra, retrate a vida do Goebbels e Anka, entre
1918 e 1922. Anka reaparece na vida de Goebbels quando ele, já ministro,
conseguiu-lhe um trabalho na redação do Die Dame.
Fatos como esse foram comuns na história oculta da imprensa brasileira desde os seus primórdios. Desocupados e desempregadas, sem a menor aptidão pela
profissão, se tornaram jornalistas pelo simples fato de serem amigos (ou algo
mais) de alguém que detinha algum poder político ou econômico que pudesse
interferir na saúde financeira da empresa de comunicação.
Jornalismo no Brasil, até 1969, era sinônimo de subemprego para muitos
“profissionais”. Era regra, por exemplo, uma emissora de rádio contratar
funcionários públicos como “setoristas” para cobrir os seus próprios
departamentos. Juntando os baixos salários pagos pela repartição e pela empresa radiofônica, o jornalista do setor tinha um valor agregado aos seus vencimentos representado pelo “agrado” dado por aqueles que o procuravam para resolver alguma situação irregular junto ao órgão público. Multas de trânsito,
regularização de loteamentos, re-ligação de água, asfaltamento de ruas e até
nome de vias públicas faziam parte do conjunto de problemas que esses
“profissionais de imprensa” conseguiam resolver.
Essa promíscua convivência entre o poder, o jornalismo e a conduta aética do
comunicador foi drasticamente reduzida com a regulamentação profissional. Ainda que a legislação tenha sido excessivamente pormenorizada na descrição de funções e especialidades, não se pode negar que ela veio como uma solução para amainar os efeitos do mau jornalismo. Contudo, como toda aplicação de leis no Brasil, foram produzidas emendas para acomodar alguns casos, não raro inspiradas em interesses particulares.
Com a abertura democrática, as reformas feitas na legislação foram insuficientes
para impedir que algumas categorias, em defesa das liberdades de informação e
opinião, se insurgissem contra o que foi taxado de entulho autoritário. E a
história começou a ser reescrita. Os defensores da abertura do mercado
profissional baniram alguns motivos que foram propulsores da regulamentação.
Deixaram de citar, por exemplo, que muitos jornalistas foram cassados e
perseguidos por defenderem as liberdades democráticas e que suas vagas no
mercado foram preenchidas por “profissionais” fiéis ao regime.
Resistência - Na Escola de Comunicações e Artes, um dos berços da
regulamentação, os professores que permaneceram no quadro docente do
Departamento de Jornalismo e Editoração, resistiram durante dois anos aos
ataques da ditadura que pretendia substituir os professores encarcerados e
cassados por “jornalistas” e professores que desfrutavam da confiança dos
representantes da ditadura com assento na Reitoria.
Os argumentos apresentados levam a crer que a legislação sobre a profissão de
jornalista já cumpriu o seu desígnio. Por esse motivo os ataques à sua
existência se intensificaram e o discurso centrado na defesa da liberdade de
informar e opinar avança e encobre as verdadeiras razões que alimentam essa
pressão sobre os destinos do direito fundamental do cidadão de ser informado e
de opinar.
Mesmo com o Decreto-Lei 972-69 em plena vigência, é possível desvendar algumas razões subjacentes à campanha contra a regulamentação profissional. As práticas que esperam a liberalização do mercado profissional, criadas pelas empresas com a anuência de jornalistas, apontam para o descolamento da atividade de sua função social, tornando-a parte de uma mera engrenagem de relações de trabalho assalariado.
Algumas emissoras de rádio, por exemplo, têm boa parte da grade entregue a
articulistas que, em geral, têm os seus comentários veiculados a cada seis
horas de programação. É claro que esse tipo de participação é importante para a
sociedade. Ela necessita da opinião abalizada de suas lideranças. Entretanto, a
grande maioria desses articulistas defende interesses próprios ou de
organizações. Fazem direta ou indiretamente marketing de suas consultorias para agregar valor aos seus contratos.
Os políticos encontram nesse expediente uma forma de estarem presentes junto ao eleitorado visando à manutenção do poder ou alimentando o desejo de tê-lo. Essa demonstração de “responsabilidade social”, não raro, é uma permuta: a emissora recebe algum tipo de aconselhamento do articulista e ele pode vender serviço, produto ou idéia aos ouvintes.
No jornalismo impresso essa prática é menos corrente nos grandes veículos,
entretanto, nos pequenos jornais ela cobre boa parte da área impressa de textos
próprios. A título de cobertura social, literatura e serviço público, os
colaboradores tornam dispensáveis os jornalistas e criam consciente ou
inconscientemente uma rede de dominação de idéias e fatos que sufocam o
noticiário de interesse da comunidade. Esses colaboradores são movidos pelo
egocêntrico desejo de pertencerem ao olimpo local.
Na televisão, a distorção da essência do Jornalismo, talvez seja mais grave do
que nas demais medias. Os apresentadores, travestidos de jornalistas e usando o vocabulário da área, entrevistam e editorializam falas a respeito de fatos. Sem
o menor vínculo com a Ética Jornalística, mas buscando pontos de audiência
necessários à manutenção de seus programas e à negociação de contratos, esses pseudojornalistas fazem do fato um show e do sensacionalismo um padrão.
O modelo de noticiar da Internet, principalmente o que tenta fazer o chamado
jornalismo em tempo real, veio sepultar de vez a natureza jornalística da
notícia. Na luta por alguns segundos a mais de audiência em relação ao
concorrente, as informações são transformadas em fatos jornalísticos e estes em
notícias sem qualquer critério de noticiabilidade. Os redatores na maioria das
vezes desconhecem a que público se dirigem e por isso mesmo são responsáveis
por redes de rumores e boatos que se disseminam pela rede sem a possibilidade
de controle. A essência do Jornalismo, representada pela apuração, inexiste.
No mercado profissional está havendo uma verdadeira subversão. Algumas empresas,para se livrarem dos custos sociais de seus empregados, implementaram a prática de transformar os seus jornalistas em “Pessoas Jurídicas”.
Essas “Pessoas Jurídicas” lançaram-se no mercado do lucro fácil e se transformaram em codificadores autônomos, que vendem a força de trabalho que coordenam (formada por alguns profissionais autônomos e muitos estagiários) pela maior oferta. Não interessa a esses olimpianos a história da empresa, do empregador, os fundamentos ideológicos e os compromissos sociais e políticos (ou a falta deles) que pairam sobre a organização. São “Pessoas Jurídicas” que, como camaleões, assumem os matizes ditados pelo patronato. Perderam de vez o vínculo do jornalismo com a sociedade e, por isso mesmo, desprezam os princípios éticos e os compromissos da profissão com os direitos fundamentais do cidadão.
Bombardeio - Esses motivos são as partes mais visíveis do bombardeio que vem
sendo feito contra a regulamentação da profissão. É importante observar que a
batalha já se dá dentro do próprio território dos jornalistas. Os insurgentes,
munidos de discursos envolventes, conquistam a simpatia daqueles que se
aproveitam da oportunidade para, sorrateiramente, minar o campo inimigo. Não
faltaram “jornalistas” que se aproveitaram do recente vácuo jurídico para obter
o registro profissional. Mais do que nunca é preciso entender que o Jornalismo é uma das formas de defesa dos direitos fundamentais do homem. A sua existência pressupõe a proteção de direitos básicos do indivíduo, principalmente daquele que não têm acesso aos meios. E essa certeza é dada pelo comprometimento do verdadeiro profissional com a ética.
A defesa da primeira geração dos direitos fundamentais - aqueles relacionados à
liberdade - coloca o jornalista na linha de frente pela limitação do poder
público, principalmente porque o seu compromisso maior é com o exercício pleno
da cidadania. A existência de uma classe eticamente organizada e com
compromissos formais com essa bandeira garante que os cidadãos tenham acesso aos meios, independentemente de cor, raça, religião, nível intelectual,
condição educacional, trabalho e classe social.
A igualdade, que constitui a segunda geração dos direitos fundamentais, tem no
jornalista um instrumento importante para que ela se consubstancie. A sua ação,
que por dever de ofício prega a audiência dos vários lados do fato, permite que
os direitos sociais dos cidadãos possam ser protegidos contra a prevalência do
poder econômico, social ou político. A ação jornalística procura dar a todos os
membros da comunidade a possibilidade de acesso à informação e à opinião.
A defesa da terceira geração dos direitos fundamentais também é parte integrante das atividades do jornalista. O preceito fundamental de que “todos são iguais perante a lei”, portanto com direito ao desenvolvimento, à comunicação, ao consumo e a própria individualidade, faz parte da cultura jornalística que,dentro de seus limites de atuação, oferece à sociedade condições para defender-se das organizações que venham colocar em riscos esses direitos.
O discurso de que o fim da regulamentação da profissão de jornalista será a
retomada da liberdade de informação torna-se, pois, uma falácia. A
possibilidade de que todos tenham acesso à comunicação não garante que todos
façam uso dela. Obstáculos de toda ordem podem afastar o cidadão de seu direito de opinar e informar e permitir que aqueles que têm habilidades, competências técnicas e, de certa forma, intimidade com os meios, possam construir aparelhos ideológicos que destruam esses direitos fundamentais que fazem parte da organicidade das funções jornalísticas.
A discussão que se apresenta atualmente para a sociedade, em grau de maior
importância do que a própria regulamentação profissional, é a que refere ao
conceito de Jornalismo face às novas tecnologias e recentes práticas de
comunicação patrocinadas pelos modernos meios.
Construir blog ou site com formato jornalístico não garante que o conteúdo o
seja, assim como nunca foi correto afirmar que é jornalista quem escreve em um
meio com a forma de jornal. A natureza do Jornalismo está consubstanciada na
apuração e na responsabilidade ética. O Jornalista é o valor agregado que dá à
informação o status de notícia por se tratar de um profissional compromissado
com os seus fundamentos.
A regulamentação, com certeza, não garante que o jornalista cumpra as obrigações idealmente inerentes à sua função social. Ela, por si só, não o credencia como defensor dos direitos do cidadão. Mas, a considerar a nossa história recente, é um instrumento que institui valores e comportamentos que resultam em segurança para as instituições que emanam da sociedade democrática.
Jornalismo e Direitos Fundamentais
Alguns biógrafos de Joseph Goebbels, quando tratam de sua vida amorosa,
relacionam seu namoro com Anka Stalhern como sendo o indutor de seu romance
Michael (publicado em 1929). É possível que a paixão de Michael por Hertha,
figuras centrais do enredo da obra, retrate a vida do Goebbels e Anka, entre
1918 e 1922. Anka reaparece na vida de Goebbels quando ele, já ministro,
conseguiu-lhe um trabalho na redação do Die Dame.
Fatos como esse foram comuns na história oculta da imprensa brasileira desde os seus primórdios. Desocupados e desempregadas, sem a menor aptidão pela
profissão, se tornaram jornalistas pelo simples fato de serem amigos (ou algo
mais) de alguém que detinha algum poder político ou econômico que pudesse
interferir na saúde financeira da empresa de comunicação.
Jornalismo no Brasil, até 1969, era sinônimo de subemprego para muitos
“profissionais”. Era regra, por exemplo, uma emissora de rádio contratar
funcionários públicos como “setoristas” para cobrir os seus próprios
departamentos. Juntando os baixos salários pagos pela repartição e pela empresa radiofônica, o jornalista do setor tinha um valor agregado aos seus vencimentos representado pelo “agrado” dado por aqueles que o procuravam para resolver alguma situação irregular junto ao órgão público. Multas de trânsito,
regularização de loteamentos, re-ligação de água, asfaltamento de ruas e até
nome de vias públicas faziam parte do conjunto de problemas que esses
“profissionais de imprensa” conseguiam resolver.
Essa promíscua convivência entre o poder, o jornalismo e a conduta aética do
comunicador foi drasticamente reduzida com a regulamentação profissional. Ainda que a legislação tenha sido excessivamente pormenorizada na descrição de funções e especialidades, não se pode negar que ela veio como uma solução para amainar os efeitos do mau jornalismo. Contudo, como toda aplicação de leis no Brasil, foram produzidas emendas para acomodar alguns casos, não raro inspiradas em interesses particulares.
Com a abertura democrática, as reformas feitas na legislação foram insuficientes
para impedir que algumas categorias, em defesa das liberdades de informação e
opinião, se insurgissem contra o que foi taxado de entulho autoritário. E a
história começou a ser reescrita. Os defensores da abertura do mercado
profissional baniram alguns motivos que foram propulsores da regulamentação.
Deixaram de citar, por exemplo, que muitos jornalistas foram cassados e
perseguidos por defenderem as liberdades democráticas e que suas vagas no
mercado foram preenchidas por “profissionais” fiéis ao regime.
Resistência - Na Escola de Comunicações e Artes, um dos berços da
regulamentação, os professores que permaneceram no quadro docente do
Departamento de Jornalismo e Editoração, resistiram durante dois anos aos
ataques da ditadura que pretendia substituir os professores encarcerados e
cassados por “jornalistas” e professores que desfrutavam da confiança dos
representantes da ditadura com assento na Reitoria.
Os argumentos apresentados levam a crer que a legislação sobre a profissão de
jornalista já cumpriu o seu desígnio. Por esse motivo os ataques à sua
existência se intensificaram e o discurso centrado na defesa da liberdade de
informar e opinar avança e encobre as verdadeiras razões que alimentam essa
pressão sobre os destinos do direito fundamental do cidadão de ser informado e
de opinar.
Mesmo com o Decreto-Lei 972-69 em plena vigência, é possível desvendar algumas razões subjacentes à campanha contra a regulamentação profissional. As práticas que esperam a liberalização do mercado profissional, criadas pelas empresas com a anuência de jornalistas, apontam para o descolamento da atividade de sua função social, tornando-a parte de uma mera engrenagem de relações de trabalho assalariado.
Algumas emissoras de rádio, por exemplo, têm boa parte da grade entregue a
articulistas que, em geral, têm os seus comentários veiculados a cada seis
horas de programação. É claro que esse tipo de participação é importante para a
sociedade. Ela necessita da opinião abalizada de suas lideranças. Entretanto, a
grande maioria desses articulistas defende interesses próprios ou de
organizações. Fazem direta ou indiretamente marketing de suas consultorias para agregar valor aos seus contratos.
Os políticos encontram nesse expediente uma forma de estarem presentes junto ao eleitorado visando à manutenção do poder ou alimentando o desejo de tê-lo. Essa demonstração de “responsabilidade social”, não raro, é uma permuta: a emissora recebe algum tipo de aconselhamento do articulista e ele pode vender serviço, produto ou idéia aos ouvintes.
No jornalismo impresso essa prática é menos corrente nos grandes veículos,
entretanto, nos pequenos jornais ela cobre boa parte da área impressa de textos
próprios. A título de cobertura social, literatura e serviço público, os
colaboradores tornam dispensáveis os jornalistas e criam consciente ou
inconscientemente uma rede de dominação de idéias e fatos que sufocam o
noticiário de interesse da comunidade. Esses colaboradores são movidos pelo
egocêntrico desejo de pertencerem ao olimpo local.
Na televisão, a distorção da essência do Jornalismo, talvez seja mais grave do
que nas demais medias. Os apresentadores, travestidos de jornalistas e usando o vocabulário da área, entrevistam e editorializam falas a respeito de fatos. Sem
o menor vínculo com a Ética Jornalística, mas buscando pontos de audiência
necessários à manutenção de seus programas e à negociação de contratos, esses pseudojornalistas fazem do fato um show e do sensacionalismo um padrão.
O modelo de noticiar da Internet, principalmente o que tenta fazer o chamado
jornalismo em tempo real, veio sepultar de vez a natureza jornalística da
notícia. Na luta por alguns segundos a mais de audiência em relação ao
concorrente, as informações são transformadas em fatos jornalísticos e estes em
notícias sem qualquer critério de noticiabilidade. Os redatores na maioria das
vezes desconhecem a que público se dirigem e por isso mesmo são responsáveis
por redes de rumores e boatos que se disseminam pela rede sem a possibilidade
de controle. A essência do Jornalismo, representada pela apuração, inexiste.
No mercado profissional está havendo uma verdadeira subversão. Algumas empresas,para se livrarem dos custos sociais de seus empregados, implementaram a prática de transformar os seus jornalistas em “Pessoas Jurídicas”.
Essas “Pessoas Jurídicas” lançaram-se no mercado do lucro fácil e se transformaram em codificadores autônomos, que vendem a força de trabalho que coordenam (formada por alguns profissionais autônomos e muitos estagiários) pela maior oferta. Não interessa a esses olimpianos a história da empresa, do empregador, os fundamentos ideológicos e os compromissos sociais e políticos (ou a falta deles) que pairam sobre a organização. São “Pessoas Jurídicas” que, como camaleões, assumem os matizes ditados pelo patronato. Perderam de vez o vínculo do jornalismo com a sociedade e, por isso mesmo, desprezam os princípios éticos e os compromissos da profissão com os direitos fundamentais do cidadão.
Bombardeio - Esses motivos são as partes mais visíveis do bombardeio que vem
sendo feito contra a regulamentação da profissão. É importante observar que a
batalha já se dá dentro do próprio território dos jornalistas. Os insurgentes,
munidos de discursos envolventes, conquistam a simpatia daqueles que se
aproveitam da oportunidade para, sorrateiramente, minar o campo inimigo. Não
faltaram “jornalistas” que se aproveitaram do recente vácuo jurídico para obter
o registro profissional. Mais do que nunca é preciso entender que o Jornalismo é uma das formas de defesa dos direitos fundamentais do homem. A sua existência pressupõe a proteção de direitos básicos do indivíduo, principalmente daquele que não têm acesso aos meios. E essa certeza é dada pelo comprometimento do verdadeiro profissional com a ética.
A defesa da primeira geração dos direitos fundamentais - aqueles relacionados à
liberdade - coloca o jornalista na linha de frente pela limitação do poder
público, principalmente porque o seu compromisso maior é com o exercício pleno
da cidadania. A existência de uma classe eticamente organizada e com
compromissos formais com essa bandeira garante que os cidadãos tenham acesso aos meios, independentemente de cor, raça, religião, nível intelectual,
condição educacional, trabalho e classe social.
A igualdade, que constitui a segunda geração dos direitos fundamentais, tem no
jornalista um instrumento importante para que ela se consubstancie. A sua ação,
que por dever de ofício prega a audiência dos vários lados do fato, permite que
os direitos sociais dos cidadãos possam ser protegidos contra a prevalência do
poder econômico, social ou político. A ação jornalística procura dar a todos os
membros da comunidade a possibilidade de acesso à informação e à opinião.
A defesa da terceira geração dos direitos fundamentais também é parte integrante das atividades do jornalista. O preceito fundamental de que “todos são iguais perante a lei”, portanto com direito ao desenvolvimento, à comunicação, ao consumo e a própria individualidade, faz parte da cultura jornalística que,dentro de seus limites de atuação, oferece à sociedade condições para defender-se das organizações que venham colocar em riscos esses direitos.
O discurso de que o fim da regulamentação da profissão de jornalista será a
retomada da liberdade de informação torna-se, pois, uma falácia. A
possibilidade de que todos tenham acesso à comunicação não garante que todos
façam uso dela. Obstáculos de toda ordem podem afastar o cidadão de seu direito de opinar e informar e permitir que aqueles que têm habilidades, competências técnicas e, de certa forma, intimidade com os meios, possam construir aparelhos ideológicos que destruam esses direitos fundamentais que fazem parte da organicidade das funções jornalísticas.
A discussão que se apresenta atualmente para a sociedade, em grau de maior
importância do que a própria regulamentação profissional, é a que refere ao
conceito de Jornalismo face às novas tecnologias e recentes práticas de
comunicação patrocinadas pelos modernos meios.
Construir blog ou site com formato jornalístico não garante que o conteúdo o
seja, assim como nunca foi correto afirmar que é jornalista quem escreve em um
meio com a forma de jornal. A natureza do Jornalismo está consubstanciada na
apuração e na responsabilidade ética. O Jornalista é o valor agregado que dá à
informação o status de notícia por se tratar de um profissional compromissado
com os seus fundamentos.
A regulamentação, com certeza, não garante que o jornalista cumpra as obrigações idealmente inerentes à sua função social. Ela, por si só, não o credencia como defensor dos direitos do cidadão. Mas, a considerar a nossa história recente, é um instrumento que institui valores e comportamentos que resultam em segurança para as instituições que emanam da sociedade democrática.
terça-feira, 27 de fevereiro de 2007
Crônicas para Natal
A Casa da Memória
Passo a passo
o grande edifício aliou-se ao tempo.
Abrigou lembranças
em suas paredes austeras
e passou a fazer
da História
o seu mais precioso tesouro.
Instituto Histórico,
a permanente Casa da Memória.
Aqui estão abrigadas
as recordações de uma Natal antiga,
de um tempo em que sinhás
e sinhazinhas cruzavam,
tímidas, as ruas
pequenas e calmas
da cidade menina.
O Instituto Histórico
encerra em suas paredes
os preciosos papéis
da alquimia das datas.
Ali estão os caminhos
e passagens secretas da História.
O Instituto
é o sótão do tempo,
onde estão guardadas,
e descansam,
todas as lembranças
de uma Natal
antiga do ontem
e menina do amanhã.
Passo a passo
o grande edifício aliou-se ao tempo.
Abrigou lembranças
em suas paredes austeras
e passou a fazer
da História
o seu mais precioso tesouro.
Instituto Histórico,
a permanente Casa da Memória.
Aqui estão abrigadas
as recordações de uma Natal antiga,
de um tempo em que sinhás
e sinhazinhas cruzavam,
tímidas, as ruas
pequenas e calmas
da cidade menina.
O Instituto Histórico
encerra em suas paredes
os preciosos papéis
da alquimia das datas.
Ali estão os caminhos
e passagens secretas da História.
O Instituto
é o sótão do tempo,
onde estão guardadas,
e descansam,
todas as lembranças
de uma Natal
antiga do ontem
e menina do amanhã.
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007
Tudo de cabeça-para-baixo
A principal foto de capa da Folha de S. Paulo mostra uma rua alagada e, nas águas, as imagens refletidas estão invertidas. Ou seja: a cidade está de cabeça-para-baixo.
É uma foto-editorial, cifrada, demonstra a quantas anda a administração da cidade em termos de providências para garantir ao cidadão direito a uma moradia condigna e segura e, estendendo-se sua interpretação, o mesmo diga-se quanto ao Brasil.
No Rio, há uns três dias, foi morto com dezenas de tiros o chefe das milícias, as tropas paralelas à polícia que estão dando cabo dos bandidos, mas extorquindo dinheiro das famílias para impedir a volta dos criminosos.
É a demonstração da fragilidade, da inação, da falta de compromisso do Estado brasileiro. É a visão exata e lamentável das entranhas de uma instituição que estabeleceu-se ao longo do tempo a partir da compromissos espúrios, sórdidos interesses de elites aproveitadoras e finalidades escusas: manter a qualquer custo a situação de privilégios, à custa do sacrifício de gerações, ao longo da história.
É uma foto-editorial, cifrada, demonstra a quantas anda a administração da cidade em termos de providências para garantir ao cidadão direito a uma moradia condigna e segura e, estendendo-se sua interpretação, o mesmo diga-se quanto ao Brasil.
No Rio, há uns três dias, foi morto com dezenas de tiros o chefe das milícias, as tropas paralelas à polícia que estão dando cabo dos bandidos, mas extorquindo dinheiro das famílias para impedir a volta dos criminosos.
É a demonstração da fragilidade, da inação, da falta de compromisso do Estado brasileiro. É a visão exata e lamentável das entranhas de uma instituição que estabeleceu-se ao longo do tempo a partir da compromissos espúrios, sórdidos interesses de elites aproveitadoras e finalidades escusas: manter a qualquer custo a situação de privilégios, à custa do sacrifício de gerações, ao longo da história.
sábado, 24 de fevereiro de 2007
As crenças que produzimos; nossos deuses em vão
Acreditamos no dinheiro,
e o dinheiro nos trouxe tanto mal.
Acreditamos no automóvel,
e o automóvel nos
transportou a um mundo poluído.
Acreditamos no direito à
autodefesa e terminamos
matando quem
não nos queria agredir.
Acreditamos no agrotóxico
e terminamos nos
alimentando com veneno.
Acreditamos nos bancos
e pagamos tão alto
para que eles fiquem
com o nosso dinheiro.
Acreditamos na vida
em cidades e terminamos
habitando campos de morte.
Temos esses deuses, e vivemos
tão mal.Temos tantas crenças
e perdemos a fé.
Temos... Temos... Temos...
Não, eu acho que não temos...
e o dinheiro nos trouxe tanto mal.
Acreditamos no automóvel,
e o automóvel nos
transportou a um mundo poluído.
Acreditamos no direito à
autodefesa e terminamos
matando quem
não nos queria agredir.
Acreditamos no agrotóxico
e terminamos nos
alimentando com veneno.
Acreditamos nos bancos
e pagamos tão alto
para que eles fiquem
com o nosso dinheiro.
Acreditamos na vida
em cidades e terminamos
habitando campos de morte.
Temos esses deuses, e vivemos
tão mal.Temos tantas crenças
e perdemos a fé.
Temos... Temos... Temos...
Não, eu acho que não temos...
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007
Alô? Aqui é da Bandidos S. A.
A matéria de capa da Veja trata da questão dos falsos seqüestros, aqueles em que as vítimas, através de contatos por telefones celulares,são convencidas por bandidos de que estes estão com alguém da família em seu poder, exigindo então o pagamento de um "resgate".
A modalidade de crime é um demonstrativo do quanto a sociedade brasileira está à mercê dos criminosos, cuja presença e consistência quase corporativa começa a assustar a quantos se ponham a pensar a respeito.
Nossa brutal disparidade de renda, o crescimento da pobreza e da miséria, a falta de perspectivas para milhões de brasileiros, tudo isso, aliado à inépcia das autoridades policiais e à proverbial incapacidade de o Estado brasileiro estabelecer políticas sociais, paralelas às de ação repressiva, dão um indicativo bastante exato do quanto estaremos expostos aos criminosos, em futuro bastante próximo.
É bastante possível que, em muito, muito pouco tempo, os seqüestros telefônicos sejam assim: "Alô? Aqui é da Bandidos S.A. Estamos com seu filho em nosso poder. Compre 15 mil reais de nossas ações, ou então ele vai aparecer
na rua ral, às tantas horas. Morto."
Do outro lado, choro e dor. São as lágrimas dos inocentes.
Da parte do Estado, silêncio. É a frieza dos incompetentes.
A modalidade de crime é um demonstrativo do quanto a sociedade brasileira está à mercê dos criminosos, cuja presença e consistência quase corporativa começa a assustar a quantos se ponham a pensar a respeito.
Nossa brutal disparidade de renda, o crescimento da pobreza e da miséria, a falta de perspectivas para milhões de brasileiros, tudo isso, aliado à inépcia das autoridades policiais e à proverbial incapacidade de o Estado brasileiro estabelecer políticas sociais, paralelas às de ação repressiva, dão um indicativo bastante exato do quanto estaremos expostos aos criminosos, em futuro bastante próximo.
É bastante possível que, em muito, muito pouco tempo, os seqüestros telefônicos sejam assim: "Alô? Aqui é da Bandidos S.A. Estamos com seu filho em nosso poder. Compre 15 mil reais de nossas ações, ou então ele vai aparecer
na rua ral, às tantas horas. Morto."
Do outro lado, choro e dor. São as lágrimas dos inocentes.
Da parte do Estado, silêncio. É a frieza dos incompetentes.
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007
Brasil SA. Nesses dias, eles registram essa marca
Uma empresa japonesa havia registrado a palavra "açaí" como marca, de maneira a que, se a brasileiríssima frutinha amazônica fosse importada para o Japão o importador não teria que pagar royalties e o produtor brasileiro, sim.Já que, legalmente, se tratava de produto de terra dos xoguns. Em tempo, a justiça de lá cancelou o registro, mas a empresa que o fez ainda tem 30 dias para recorrer.
É assim que nossos produtos vão sendo dominados pelo grande capital internacional.
E como os países de centro estão sempre de olho em nossas riquezas naturais e produtos típicos, completa-se o quadro: nós os imitamos, eles nos tomam; nós perdemos e ainda ficamos agradecidos só porque a moça viu na vitrine algum salamaleque da moda e, imediatamente, comprou. E ficou pensando que é norte-americana.
Nesses dias, eles resitram a marca "Brasil" e, aí, sim, seremos obrigados a pagar royalties para morar nesta pátria e ficaremos impedidos de dizer: "Dos filhos deste solo és mãe gentil/ Pátria amada, Brasil."
É assim que nossos produtos vão sendo dominados pelo grande capital internacional.
E como os países de centro estão sempre de olho em nossas riquezas naturais e produtos típicos, completa-se o quadro: nós os imitamos, eles nos tomam; nós perdemos e ainda ficamos agradecidos só porque a moça viu na vitrine algum salamaleque da moda e, imediatamente, comprou. E ficou pensando que é norte-americana.
Nesses dias, eles resitram a marca "Brasil" e, aí, sim, seremos obrigados a pagar royalties para morar nesta pátria e ficaremos impedidos de dizer: "Dos filhos deste solo és mãe gentil/ Pátria amada, Brasil."
terça-feira, 20 de fevereiro de 2007
É carnaval. E daí?
É carnaval.
E daí?
Ainda tem pobre morrendo de fome.
É carnaval.
E daí?
Tem político que tem fome de ganância.
É carnaval.
E daí?
A violência rosna na pistola do bandido.
É carnaval.
E daí?
Daqui a pouco será quarta-feira
e o País estará todo coberto de cinzas.
E daí?
Ainda tem pobre morrendo de fome.
É carnaval.
E daí?
Tem político que tem fome de ganância.
É carnaval.
E daí?
A violência rosna na pistola do bandido.
É carnaval.
E daí?
Daqui a pouco será quarta-feira
e o País estará todo coberto de cinzas.
sábado, 17 de fevereiro de 2007
Os bandidos acuados
Leio no Jornal do Brasil que a polícia, no Rio, começa a sufocar o tráfico. Descapitalizados, diz o jornal, os criminosos podem tentar ações no asfalto, em busca de compensar as perdas com a redução na venda de drogas.
Suponho que a ação em desenvolvimento, com o apoio da Força Nacional de Segurança, é pontual e tática, devendo portanto evoluir para um tratamento estratégico e intenso, mantendo os criminosos permanentemente sob a mira da polícia.
É claro que a questão do tráfico no País é algo complexo e historicamente enraizado. Não há como negar que a simples ação atualmente em andamento no Rio não vai desarticular esse tipo de atividade, até porque suas ramificações se estendem para muito além dos morros e chega aos gabinetes e ambientes VIP.
A atuação policial deve ser o indicativo de que a sociedade começa a se posicionar, através do seu aparelho de repressão, e a dizer aos criminosos que eles agora terão um limite.
Mesmo assim, pontual e tática, a atitude já representa alguma coisa. Agora, é esperar que a presença da polícia nas ruas e um trabalho competente de inteligência venham a resultar num arrocho tal que os bandidos sejam contidos.
Por outro lado, é preciso promover a denúncia da cultura das drogas, convencer o jovem de que a droga não deve significar um estilo de vida e que, em si, não leva a nada.
Suponho que a ação em desenvolvimento, com o apoio da Força Nacional de Segurança, é pontual e tática, devendo portanto evoluir para um tratamento estratégico e intenso, mantendo os criminosos permanentemente sob a mira da polícia.
É claro que a questão do tráfico no País é algo complexo e historicamente enraizado. Não há como negar que a simples ação atualmente em andamento no Rio não vai desarticular esse tipo de atividade, até porque suas ramificações se estendem para muito além dos morros e chega aos gabinetes e ambientes VIP.
A atuação policial deve ser o indicativo de que a sociedade começa a se posicionar, através do seu aparelho de repressão, e a dizer aos criminosos que eles agora terão um limite.
Mesmo assim, pontual e tática, a atitude já representa alguma coisa. Agora, é esperar que a presença da polícia nas ruas e um trabalho competente de inteligência venham a resultar num arrocho tal que os bandidos sejam contidos.
Por outro lado, é preciso promover a denúncia da cultura das drogas, convencer o jovem de que a droga não deve significar um estilo de vida e que, em si, não leva a nada.
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007
Gastando à toa o meu inglês
Quando o verão se abre em cores e belezas sobre Natal, os turistas estrangeiros chegam como enxame de gente curiosa, quase aflita para aproveitar o sol, o calor, a areia da praia quase brilhando de tanta luz. Natal é uma cidade de lluminosidade muito especial,e esse brilho de alguma maneira se reflete na alma das pessoas. Natal vira um estado de espírito.
A cidade vira um democrático estardalhaço de alegrias. Gente que veio da Escandinávia troca o branco da pele pelo queimado do sol nordestino, gente que veio de outros Estados brasileiros adora essa paisagem de paraíso, gente que veio não-sei-de-onde fica alegre, vira jovem, vira menino.
E os daqui, os que de alguma maneira vivem do turismo, aproveitam para trabalhar e ganhar o seu dinheiro. Então, surge um comércio simples, o comércio dos que sobrevivem de vender água de coco, uma dose de caipirinha, casquinho de caranguejo e uma cervejinha gelada.
Esses, sabe-se lá como, aprendem palavras ou expressões básicas em inglês e saem por aí, pelas praias, vendendo. Sorridentes, oferecem: "Beer?"
E os estrangeiros: "Oh, yes".
E os vendedores: "Tá bem, tá aqui a sua beer."
Às vezes, os vendedores confundem as pessoas. Basta que você seja confundido com um nórdico, para ser abordado. E foi isso o que aconteceu, com a minha mulher e com uma conhada, em férias conosco.
Elas estavam nas imediações da Fortaleza dos Reis Magos, monumental construção portuguesa e um dos símbolos da cidade, quando, de repente, um menino disse: "Beer?"
E mais uma vez "Beer?" Elas não comprenderam a abordagem, até perceber que estavam em meio a um grupo de famílias da Escandinávia.
Como eles acenaram que não, que não queriam a cerveja, o menino passou a pedir: "Money, money."
Afinal, elas, em português, disseram que não queriam nada nem tinham trocado. Sabe qual foi a resposta dele?
"Ah, aqui perdi meu tempo. Estou gastando à toa o meu inglês."
A cidade vira um democrático estardalhaço de alegrias. Gente que veio da Escandinávia troca o branco da pele pelo queimado do sol nordestino, gente que veio de outros Estados brasileiros adora essa paisagem de paraíso, gente que veio não-sei-de-onde fica alegre, vira jovem, vira menino.
E os daqui, os que de alguma maneira vivem do turismo, aproveitam para trabalhar e ganhar o seu dinheiro. Então, surge um comércio simples, o comércio dos que sobrevivem de vender água de coco, uma dose de caipirinha, casquinho de caranguejo e uma cervejinha gelada.
Esses, sabe-se lá como, aprendem palavras ou expressões básicas em inglês e saem por aí, pelas praias, vendendo. Sorridentes, oferecem: "Beer?"
E os estrangeiros: "Oh, yes".
E os vendedores: "Tá bem, tá aqui a sua beer."
Às vezes, os vendedores confundem as pessoas. Basta que você seja confundido com um nórdico, para ser abordado. E foi isso o que aconteceu, com a minha mulher e com uma conhada, em férias conosco.
Elas estavam nas imediações da Fortaleza dos Reis Magos, monumental construção portuguesa e um dos símbolos da cidade, quando, de repente, um menino disse: "Beer?"
E mais uma vez "Beer?" Elas não comprenderam a abordagem, até perceber que estavam em meio a um grupo de famílias da Escandinávia.
Como eles acenaram que não, que não queriam a cerveja, o menino passou a pedir: "Money, money."
Afinal, elas, em português, disseram que não queriam nada nem tinham trocado. Sabe qual foi a resposta dele?
"Ah, aqui perdi meu tempo. Estou gastando à toa o meu inglês."
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007
Salve-se quem puder
O Estadão online publicou:
JOHANESBURGO - Algumas estrelas de Hollywood resolveram recorrer aos serviços dos sangomas, bruxos sul-africanos, para controlar a ansiedade nos dias que precedem a entrega do Oscar, de acordo com o jornal The Mercury. Elliot Ndlovu, um curandeiro da região de Kwazulu-Natal, usará de sua tradição para acalmar as estrelas.
Ele viajou para os EUA, a convite de uma empresa da Califórnia, e por quatro dias deverá aplicar os conhecimentos da medicina tradicional zulu, bem como medicamentos à base de plantas, sementes e ossos, e também usará a observação das estrelas para adivinhação do futuro de apresentadores e indicados.
Talvez seja também a hora de trazermos o homem até o Brasil, para abrandar o coração dos criminosos, comuns e de colarinho branco, que assolam ruas e plenários desta mui amada pátria nossa, salve, salve.
Salve, salve?
É mesmo. Salve-se quem puder.
JOHANESBURGO - Algumas estrelas de Hollywood resolveram recorrer aos serviços dos sangomas, bruxos sul-africanos, para controlar a ansiedade nos dias que precedem a entrega do Oscar, de acordo com o jornal The Mercury. Elliot Ndlovu, um curandeiro da região de Kwazulu-Natal, usará de sua tradição para acalmar as estrelas.
Ele viajou para os EUA, a convite de uma empresa da Califórnia, e por quatro dias deverá aplicar os conhecimentos da medicina tradicional zulu, bem como medicamentos à base de plantas, sementes e ossos, e também usará a observação das estrelas para adivinhação do futuro de apresentadores e indicados.
Talvez seja também a hora de trazermos o homem até o Brasil, para abrandar o coração dos criminosos, comuns e de colarinho branco, que assolam ruas e plenários desta mui amada pátria nossa, salve, salve.
Salve, salve?
É mesmo. Salve-se quem puder.
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007
Crônicas para Natal
O horizonte e a pérola
A praia se abre ao horizonte
como uma ostra
que oculta a pérola dos mares.
Pirangi, a praia,
é uma área privativa do lazer,
local exclusivo para as férias,
alegre clausura do prazer.
Sua areia é trilha
para todos os pés
que correm para o mar.
E as ondas, mansas,
são mulheres massageadas de ternura.
Pirangi, Veneza do mar,
seus barcos desfilam
sem pressa
nas avenidas de todas as ondas.
A praia se abre ao horizonte
como uma ostra
que oculta a pérola dos mares.
Pirangi, a praia,
é uma área privativa do lazer,
local exclusivo para as férias,
alegre clausura do prazer.
Sua areia é trilha
para todos os pés
que correm para o mar.
E as ondas, mansas,
são mulheres massageadas de ternura.
Pirangi, Veneza do mar,
seus barcos desfilam
sem pressa
nas avenidas de todas as ondas.
terça-feira, 13 de fevereiro de 2007
Roberto Carlos: a brasa ainda não apagou.
Numa de suas raríssimas entrevistas, Roberto Carlos falou a vários jornalistas e alguns privilegiados turistas do transatlântico Costa Fortuna, onde apresenta shows para uma platéia classe A.
Conversou sobre sua carreira, admitiu a possibilidade de em futuro próximo vir a fazer plástica, revelou-se adepto da malhação para se manter em forma aos 65 anos e até admitiu ter simpatias pelo funk.
Roberto Carlos, que somente não gostou de falar sobre sua biografia não-autorizada, anunciou que publicará uma autobiografia e garantiu: não usa Viagra.
Claro, a brasa ainda não apagou.
Agora, um detalhe: a rigor, qual a importância de tudo isso? Quantos homens de 65 anos também fazem cruzeiros, são riquíssimos, podem até pensar em publicar uma autobiografia, malham diariamente não usam Viágra e ninguém sai à sua procura, para saber detalhes de suas vidas, etc.. etc... etc...?
Respondendo: não há, em essência, qualquer importância. O único - e vigoroso detalhe - é que Roberto Carlos é uma figura midiática, administra muito bem sua imagem, trabalha sua visibilidade e tem todo um passado, também midiatizado, a respaldar sua pessoa.
E as figuras midiáticas são assim: cobrem-se como véu transparente da fama e tornam-se distantes, porém visíveis pela TV, jornal ou revista, internet ou o que mais seja. São visíveis, mas intangíveis, ausentes ao contato visual direto, ao toque de mão, ao carinho, ao abraço.
E disso sobrevivem, e isso industrializam pela mídia. São produtos de massa e assim tornam-se reis.
Conversou sobre sua carreira, admitiu a possibilidade de em futuro próximo vir a fazer plástica, revelou-se adepto da malhação para se manter em forma aos 65 anos e até admitiu ter simpatias pelo funk.
Roberto Carlos, que somente não gostou de falar sobre sua biografia não-autorizada, anunciou que publicará uma autobiografia e garantiu: não usa Viagra.
Claro, a brasa ainda não apagou.
Agora, um detalhe: a rigor, qual a importância de tudo isso? Quantos homens de 65 anos também fazem cruzeiros, são riquíssimos, podem até pensar em publicar uma autobiografia, malham diariamente não usam Viágra e ninguém sai à sua procura, para saber detalhes de suas vidas, etc.. etc... etc...?
Respondendo: não há, em essência, qualquer importância. O único - e vigoroso detalhe - é que Roberto Carlos é uma figura midiática, administra muito bem sua imagem, trabalha sua visibilidade e tem todo um passado, também midiatizado, a respaldar sua pessoa.
E as figuras midiáticas são assim: cobrem-se como véu transparente da fama e tornam-se distantes, porém visíveis pela TV, jornal ou revista, internet ou o que mais seja. São visíveis, mas intangíveis, ausentes ao contato visual direto, ao toque de mão, ao carinho, ao abraço.
E disso sobrevivem, e isso industrializam pela mídia. São produtos de massa e assim tornam-se reis.
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007
Crônicas para Natal
Os grãos do passado
Pedras antigas, grãos
do passado de Natal,
respingam essa rua
esquecida e solitária,
ao lado do Solar Bela Vista.
Rua de calçamento irregular,
suas pedras rudes fervilham
sob os pés de quem a caminha.
As pedras são devoradoras
de passos, como, na própria vida,
muitos dos nossos passos se perdem.
Rua antiga, esquecida
numa das dobras da cidade,
esperemos que fiques assim,
como um velho livro.
Guardando, para sempre,
lembranças de passos
que não voltam mais.
Pedras antigas, grãos
do passado de Natal,
respingam essa rua
esquecida e solitária,
ao lado do Solar Bela Vista.
Rua de calçamento irregular,
suas pedras rudes fervilham
sob os pés de quem a caminha.
As pedras são devoradoras
de passos, como, na própria vida,
muitos dos nossos passos se perdem.
Rua antiga, esquecida
numa das dobras da cidade,
esperemos que fiques assim,
como um velho livro.
Guardando, para sempre,
lembranças de passos
que não voltam mais.
sábado, 10 de fevereiro de 2007
Brasil, um arrabalde de nação, o país do futebol
Leio, entre estarrecido e indignado, que a Confederação Brasileira de Futebol prossegue com a intentona de o Brasil sediar a Copa do Mundo de 2014, uma insanidade que custaria ao povo brasileiro a bagatela de dois bilhões de dólares para a restauração e construção de estádios, sem incluir obras de infra-estrutura.
Não é um projeto, é um crime contra quem vive de salário mínimo, vê deputados e senadores espoliar o erário, esmola um atendimento em hospital do SUS e teme que bandidos impunes o matem na próxima esquima.
É um crime contra um povo que viu seu país ser transformado num arrabalde de nação, num beco da História, no sacrário da miséria.
O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, está tentanto convencer Pelé a ser o embaixador do Brasil junto à Fifa, na busca de convencer a cúpúla do futebol mundial a nos aceitar como sede.
Pelé, por sua vez, teme que sua imagem saia desgastada, caso surjam - como seria naturalíssimo no Brasil - acusações ou constatações de desvio de verbas. Fala-se que a empreitada, ponto de fulgor da insensatez, está sendo comparada à construção de uma nova Brasília.
Orater frater, e peçamos a Deus que tal insânia não venha a se abater sobre o nosso povo. Até quando políticos e outros que tais pensam que é possível tripudiar sobre a nossa pobreza e o nosso sofrimento, pensando que o povo, de barriga vazia, irá se contentar com o circo?
Quando a cuíca da fome ronca na barriga, pode ser sinal que a dívida do prato vazio venha a ser cobrada de forma perversa com dor e balas. Aliás - perdão pelo aliás - já está sendo cobrada. Só que parece que ninguém vê.
Não é um projeto, é um crime contra quem vive de salário mínimo, vê deputados e senadores espoliar o erário, esmola um atendimento em hospital do SUS e teme que bandidos impunes o matem na próxima esquima.
É um crime contra um povo que viu seu país ser transformado num arrabalde de nação, num beco da História, no sacrário da miséria.
O presidente da CBF, Ricardo Teixeira, está tentanto convencer Pelé a ser o embaixador do Brasil junto à Fifa, na busca de convencer a cúpúla do futebol mundial a nos aceitar como sede.
Pelé, por sua vez, teme que sua imagem saia desgastada, caso surjam - como seria naturalíssimo no Brasil - acusações ou constatações de desvio de verbas. Fala-se que a empreitada, ponto de fulgor da insensatez, está sendo comparada à construção de uma nova Brasília.
Orater frater, e peçamos a Deus que tal insânia não venha a se abater sobre o nosso povo. Até quando políticos e outros que tais pensam que é possível tripudiar sobre a nossa pobreza e o nosso sofrimento, pensando que o povo, de barriga vazia, irá se contentar com o circo?
Quando a cuíca da fome ronca na barriga, pode ser sinal que a dívida do prato vazio venha a ser cobrada de forma perversa com dor e balas. Aliás - perdão pelo aliás - já está sendo cobrada. Só que parece que ninguém vê.
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007
O fim do jornalismo impresso
O The New York Times, o jornal mais prestigioso do mundo, começa a admitir, e a divulgar, que em mais cindo anos a publicação poderá deixar de ser impressa e passar unicamente a ser feita via internet. A empresa que edita o jornal e outros diários está amargando prejuízos. Por outro lado, já percebeu que os acessos à versão online superam a casa de 1 milhão e 500 mil por dia, enquanto a edição impressa tem 1 milhão e cem mil assinantes.
Acho que a diferença entre os números não seja assim tão expressiva, que justifique o fim do jornal impresso. Afinal, a internet certamente deveria permitir um acesso bem mais elevado. Aspectos como gratuidade e maior facilidade de se ler o conteúdo deveriam incentivar uma quantidade bem maior de leitores.
Mas deve-se levar em conta, também, a questão financeira. Os donos são quem sabe onde o sapato lhes aperta. Mas, estaria o mundo já socialmente condicionado, a ponto de prescindir dos jornais impressos?
Agora, a questão de fundo é efetivamente essa: até quando o jornal impresso poderá resistir, como meio eficaz de envio de informações de massa? Quando passará a ser visto como um anacronismo, uma vez que sua feitura, mesmo sob pressão, é lenta, se comparada à elaboração de material para a internet? Depois disso, vem a distribuição, trabalhosa, que envolve uma grande equipe de motoristas e descarregadores.
E isso sem levar em conta os custos com a informatização das redações, parques gráficos caríssimos, tinta, papel, fotolitos, chapas matriciais e toda a equipe que orbita em volta da redação: setor comercial, administrativo e funcionários de serviços gerais. É muita coisa.
Mas, a internet está apenas começando. Com passos largos, ganha espaço e socializa como veículo preferencial, especialmente entre os jovens. Por sua vez, o jornal impresso é veículo legitimado, portador de informações e opiniões credibilizadas historicamente e não vejo assim, num horizonte tão próximo, o fim das velhas folhas que tão costumeiramente manuseamos.
Creio que tudo virá a seu tempo. E esse tempo ainda não chegou.
Acho que a diferença entre os números não seja assim tão expressiva, que justifique o fim do jornal impresso. Afinal, a internet certamente deveria permitir um acesso bem mais elevado. Aspectos como gratuidade e maior facilidade de se ler o conteúdo deveriam incentivar uma quantidade bem maior de leitores.
Mas deve-se levar em conta, também, a questão financeira. Os donos são quem sabe onde o sapato lhes aperta. Mas, estaria o mundo já socialmente condicionado, a ponto de prescindir dos jornais impressos?
Agora, a questão de fundo é efetivamente essa: até quando o jornal impresso poderá resistir, como meio eficaz de envio de informações de massa? Quando passará a ser visto como um anacronismo, uma vez que sua feitura, mesmo sob pressão, é lenta, se comparada à elaboração de material para a internet? Depois disso, vem a distribuição, trabalhosa, que envolve uma grande equipe de motoristas e descarregadores.
E isso sem levar em conta os custos com a informatização das redações, parques gráficos caríssimos, tinta, papel, fotolitos, chapas matriciais e toda a equipe que orbita em volta da redação: setor comercial, administrativo e funcionários de serviços gerais. É muita coisa.
Mas, a internet está apenas começando. Com passos largos, ganha espaço e socializa como veículo preferencial, especialmente entre os jovens. Por sua vez, o jornal impresso é veículo legitimado, portador de informações e opiniões credibilizadas historicamente e não vejo assim, num horizonte tão próximo, o fim das velhas folhas que tão costumeiramente manuseamos.
Creio que tudo virá a seu tempo. E esse tempo ainda não chegou.
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007
Indignos até da morte
Deu no Estadão online.
RIO - A morte de João Hélio Fernandes, de seis anos, chocou até a polícia do Rio de Janeiro. O delegado Hércules Pires do Nascimento, que investiga a morte do menino arrastado por sete quilômetros do lado de fora do carro de sua mãe, que havia sido roubado, classificou os criminosos de "monstros". "As pessoas nas ruas gritavam para que eles parassem. Acredito que estivessem drogados", afirmou. O Disque-Denúncia do Rio está oferecendo uma recompensa de R$ 2 mil para informações que levem à identificação e prisão dos assassinos. O telefone é 21-2253-1177.
Segundo o delegado, os dois assaltantes perceberam que João Hélio Fernandes estava preso no cinto de segurança mas não pararam o Corsa. Eles estacionaram o carro, na tentativa de esconder o veículo, e fugiram a pé.
A mãe da criança, Rosa Cristina Fernandes, de 41 anos, estava com a filha Aline, de 13 anos, ao seu lado, no banco da frente, e João Hélio no banco de trás. A família foi abordada quando o Corsa parou num sinal na esquina das ruas João Vicente com Henrique de Melo, no bairro de Oswaldo Cruz, na zona norte do Rio.
A mãe abriu a porta traseira para tirar o garoto, mas João Hélio ficou preso pelo cinto, do lado de fora do carro. Os criminosos arrancaram, a porta do veículo fechou e o menino foi levado pendurado pelo abdome. Eles percorreram quatro bairros - Oswaldo Cruz, Campinho, Cascadura e Madureira.
E agora?
Dizer o quê, diante desse fato: Pai, perdoai-os, pois não sabem o que fazem?
Dizer o quê, diante desse fato: os bandidos são vítimas da sociedade e estão somente reproduzindo o modelo de exclusão e opressor ao qual estão vinculados?
Dizer o quê, não sei. Mas, fazer o quê, acho que sei: está na hora de a sociedade responder à altura, com força e armas, em ação permanente e diária, no enfrentamento de tais criminosos.
Não há justificativa a uma ação de tamanha brutalidade ante uma criança indefesa, mais que isso, inofensiva e incapaz de fugir ao ataque de homens que são indignos até da morte.
RIO - A morte de João Hélio Fernandes, de seis anos, chocou até a polícia do Rio de Janeiro. O delegado Hércules Pires do Nascimento, que investiga a morte do menino arrastado por sete quilômetros do lado de fora do carro de sua mãe, que havia sido roubado, classificou os criminosos de "monstros". "As pessoas nas ruas gritavam para que eles parassem. Acredito que estivessem drogados", afirmou. O Disque-Denúncia do Rio está oferecendo uma recompensa de R$ 2 mil para informações que levem à identificação e prisão dos assassinos. O telefone é 21-2253-1177.
Segundo o delegado, os dois assaltantes perceberam que João Hélio Fernandes estava preso no cinto de segurança mas não pararam o Corsa. Eles estacionaram o carro, na tentativa de esconder o veículo, e fugiram a pé.
A mãe da criança, Rosa Cristina Fernandes, de 41 anos, estava com a filha Aline, de 13 anos, ao seu lado, no banco da frente, e João Hélio no banco de trás. A família foi abordada quando o Corsa parou num sinal na esquina das ruas João Vicente com Henrique de Melo, no bairro de Oswaldo Cruz, na zona norte do Rio.
A mãe abriu a porta traseira para tirar o garoto, mas João Hélio ficou preso pelo cinto, do lado de fora do carro. Os criminosos arrancaram, a porta do veículo fechou e o menino foi levado pendurado pelo abdome. Eles percorreram quatro bairros - Oswaldo Cruz, Campinho, Cascadura e Madureira.
E agora?
Dizer o quê, diante desse fato: Pai, perdoai-os, pois não sabem o que fazem?
Dizer o quê, diante desse fato: os bandidos são vítimas da sociedade e estão somente reproduzindo o modelo de exclusão e opressor ao qual estão vinculados?
Dizer o quê, não sei. Mas, fazer o quê, acho que sei: está na hora de a sociedade responder à altura, com força e armas, em ação permanente e diária, no enfrentamento de tais criminosos.
Não há justificativa a uma ação de tamanha brutalidade ante uma criança indefesa, mais que isso, inofensiva e incapaz de fugir ao ataque de homens que são indignos até da morte.
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007
Não incomode os tolos, eles estão com preguiça
Começo citando Drummond, no poema "Inocentes do Leblon*".
Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
trouxe imigrantes?
trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.
A inocência, em verdade alienação ou estupidez preguiçosa, como que
espalhou-se do Leblon visto pelo poeta e hoje habita cada tela de TV, cada Ipod, cada orkut, CDs, tênis, roupas, modo de ser.
Há, na juventude, como que uma espécie de ópio lamentável, sonolência social, preguiça que brota de um embrutecimento que virou padrão. Sinalizados por um sistema de mídia que valoriza uma vida vazia, tola, consumista, a juventude assume a banalidade como bandeira de seus ideais fátuos e faz da fatuidade um fato consumado.
Temos uma juventude que dorme, mas não tem sonhos, ideais vontade. Temos ainda hoje inocentes do Leblon, mas uma inocência perversa, inocência devassa de consumismo e bobagens que são compradas por muito dinheiro. Que preguiça.
*Carlos Drummond de Andrade In "Sentimento do Mundo' - Irmãos Pongetti, 1940© Graña Drummond.
Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
trouxe imigrantes?
trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem.
A inocência, em verdade alienação ou estupidez preguiçosa, como que
espalhou-se do Leblon visto pelo poeta e hoje habita cada tela de TV, cada Ipod, cada orkut, CDs, tênis, roupas, modo de ser.
Há, na juventude, como que uma espécie de ópio lamentável, sonolência social, preguiça que brota de um embrutecimento que virou padrão. Sinalizados por um sistema de mídia que valoriza uma vida vazia, tola, consumista, a juventude assume a banalidade como bandeira de seus ideais fátuos e faz da fatuidade um fato consumado.
Temos uma juventude que dorme, mas não tem sonhos, ideais vontade. Temos ainda hoje inocentes do Leblon, mas uma inocência perversa, inocência devassa de consumismo e bobagens que são compradas por muito dinheiro. Que preguiça.
*Carlos Drummond de Andrade In "Sentimento do Mundo' - Irmãos Pongetti, 1940© Graña Drummond.
terça-feira, 6 de fevereiro de 2007
Crônicas para Natal
O edifício da fé
Templo antigo, pesada beleza,
a Igreja Matriz,
catedral da Natal província,
repousa no lado velho da cidade.
Largo edifício da fé,
a igreja ergue suas torres
como mãos em prece todo dia.
Dentro, os fiéis são seguidores do divino.
E a igreja é como um grande mapa da religião.
No grande altar,
nas imagens,
nos recantos de silêncio e paz.
Igreja matriz,
relicário da fé
mais sincera do povo.
Templo antigo, pesada beleza,
a Igreja Matriz,
catedral da Natal província,
repousa no lado velho da cidade.
Largo edifício da fé,
a igreja ergue suas torres
como mãos em prece todo dia.
Dentro, os fiéis são seguidores do divino.
E a igreja é como um grande mapa da religião.
No grande altar,
nas imagens,
nos recantos de silêncio e paz.
Igreja matriz,
relicário da fé
mais sincera do povo.
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007
A morte pede milhões
O desejo de matar do presidente Bush não tem limites. Ainda hoje deverá enviar ao congresso do seu país pedido de 235 bilhões de dólares, para gastar nas guerras do Iraque e Afeganistão.
Se o pedido for aprovado, o dinheiro será somado a 70 bilhões recentemente aprovados. Reunindo todo o poderio bélico-financeiro americano aos financiamentos já liberados, a nação do Norte terá gasto até agora 745 bilhões de dólares desde os atentados de 11 de setembro de 2001,em Nova Iorque e Washington.
Tais atitudes se processam em detrimento de políticas públicas voltadas para o social. O caso mais gritante é a deplorável situação em que se encontra Nova Orleans, que desde a passagem do furacão Katrina deixou de ser uma linda e delirantemente alegre cidade, para se transformar num lugar triste, quase lúgubre, onde pessoas de amontoam em traillers, já que não têm casas para morar. Boa parte delas foi destruída. E o Governo Bush omitiu-se por completo. Detalhe: a população é eminentemente negra.
A obsessão de Bush com o terrorismo é tanta, que ele esquece algo bastante óbvio: primeiro, não conseguirá vencer a resistência dos também demenciais radicais islâmicos do Iraque; segundo, isso, além do mais, prolongará o confronto até o limite do insuportável pela sociedade americana - até que ponto pais e mães irão aceitar a morte de seus filhos num conflito tão insano?; terceiro, Osama bin Landen não está morto - pelo menos é o que parece - e nada faz desacreditar da possibilidade de que volte a trazer a território americano sua dose de loucura em resposta à loucura de Bush.
Se o pedido for aprovado, o dinheiro será somado a 70 bilhões recentemente aprovados. Reunindo todo o poderio bélico-financeiro americano aos financiamentos já liberados, a nação do Norte terá gasto até agora 745 bilhões de dólares desde os atentados de 11 de setembro de 2001,em Nova Iorque e Washington.
Tais atitudes se processam em detrimento de políticas públicas voltadas para o social. O caso mais gritante é a deplorável situação em que se encontra Nova Orleans, que desde a passagem do furacão Katrina deixou de ser uma linda e delirantemente alegre cidade, para se transformar num lugar triste, quase lúgubre, onde pessoas de amontoam em traillers, já que não têm casas para morar. Boa parte delas foi destruída. E o Governo Bush omitiu-se por completo. Detalhe: a população é eminentemente negra.
A obsessão de Bush com o terrorismo é tanta, que ele esquece algo bastante óbvio: primeiro, não conseguirá vencer a resistência dos também demenciais radicais islâmicos do Iraque; segundo, isso, além do mais, prolongará o confronto até o limite do insuportável pela sociedade americana - até que ponto pais e mães irão aceitar a morte de seus filhos num conflito tão insano?; terceiro, Osama bin Landen não está morto - pelo menos é o que parece - e nada faz desacreditar da possibilidade de que volte a trazer a território americano sua dose de loucura em resposta à loucura de Bush.
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