sábado, 26 de agosto de 2006

Cuba está à venda? Os americanos pensam que sim

"Política tem esta desvantagem:
de vez em quando o sujeito
vai preso em nome da liberdade."
Stalislaw Ponte Preta

Pois é: em nome da liberdade, os Estados Unidos estão propondo a Cuba que seu povo seja, na prática, negociado pelo governo, tão logo Fidel morra. É o seguinte: os americanos propõem suspender o embargo de 44 anos, o torniquete ao povo cubano, caso, após a morte de Fidel, haja "uma transição democrática".

Transição democrática significa na prática a adoção do american way of life, devolução das propriedades expropriadas pelo governo fidelista aos antigos capitalistas, enfim, a destruição de todo um sistema de vida e de aspirações do povo cubano, pelo menos ao que eu sei.

A grave situação de saúde do líder cubano, para os americanos, sinalizaria o fim do sistema social e de poder hoje vigente na ilha. Não considero Cuba um paraíso dos trabalhadores, sei que ali a classe operária não chegou ao paraíso, Fidel é um ditador; entendo, entretanto, que o povo cubano, enquanto sociedade organizada, demonstrou historicamente sua capacidade de resistir e enfrentar o poder dos americanos. E, de alguma forma, há algo de grande que forma, na alma cubana, uma força poética, um sentido heróico de enfrentar o abismo.

De alguma forma, tal situação deve ser respeitada.Os povos têm o direito de escolher sua destinação histórica. Foi o que o povo cubano fez. Por sua vez os Estados Unidos não respeitam a autodeterminação dos povos, impõem seu sistema ideológico, seja pela força seja pela persuasão midiática e hoje ocupam hegemonia, ao que me parece, incontestável.

O grande objetivo do americano é dominar, impor sua vontade, espoliar os países de periferia, a fim de atender aos interesses do seu capital, especialmente o capital financeiro, parasitário e mundializado.

As condições históricas fazem supor que estamos vivenciando o fim de uma era. O que esperar da sucessão de Fidel? É um enigma. A História não se repete. Raúl Castro certamente não terá o carisma e a força do irmão, até mesmo pelo fato de que a situação histórica e o contexto internacional são bem diversos da época da revolução cubana, vitoriosa em 1959.

Agora, o mundo globalizado espera, com olhos de predador, pela queda de Fidel, para agarrar seu quinhão de Cuba.

Mais, muito mais, que o estreito território de Guantânamo...

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

Liberação da maconha

Posse de droga para consumo pessoal deixa de ser crime

"O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 11.343/06 — a nova Lei de Tóxicos. A lei cria o Sisnad — Sistema Nacional de Políticas sobre Drogas. O objetivo é “prescrever medidas para prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas; estabelecer normas para a repressão à produção não autorizada e ao tráfico ilícito de drogas.

"O texto revoga as leis 6.368/76 e 10.409/02, ambas sobre o mesmo assunto. A principal característica é a descriminalização da posse de droga para consumo pessoal. Outra mudança é o aumento da pena para o tráfico de drogas de 3 a 15 anos para 5 a 15 anos, além de 500 a 1.500 dias-multa."

Parágrafo único. Para fins desta Lei, consideram-se como drogas as substâncias ou os produtos capazes de causar dependência, assim especificados em lei ou relacionados em listas atualizadas periodicamente pelo Poder Executivo da União."

DOS CRIMES E DAS PENAS
"Art. 27. As penas previstas neste Capítulo poderão ser aplicadas isolada ou cumulativamente, bem como substituídas a qualquer tempo, ouvidos o Ministério Público e o defensor.
Art. 28. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas:
I - advertência sobre os efeitos das drogas;
II - prestação de serviços à comunidade;
III - medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo."


Os textos em grifo retirei da seção Consultor Jurídico, do Estadão. A legislação expressa uma evolução no trato do problema do porte e consumo de drogas, pois endurece a ação repressivo-punitiva sobre o traficante e assume uma visão humanista para com o usuário.

É precico entender que, quanto ao traficante, trata-se de um criminoso sobre o qual devem recair as ações policiais-jurídicas, de forma implacável. Quanto ao consumidor, mesmo que assim não se considere, é uma vítima, alguém que, por motivos os mais diversos, entrou em contato com substâncias, drogas ilícitas, assumindo para com estas um comportamento de dependência em maior ou menor grau.

Alguém dirá que a medida terá como conseqüência paralela alguma forma velada de incentivo ao consumo de drogas, uma vez que o usuário não será mais criminalizado. Estaria como que protegido por uma espécie de imunidade. Não creio. Na verdade, o que se impedirá é que milhares de jovens que se utilizam ocasional e fortuitamente de drogas deixem de ser presos, livrem-se de ser jogados em uma cela imunda, onde entrarão em contato com criminosos que, aí sim, os iniciarão no crime e numa espécie de vingança contra a sociedade.

E mais: para os que são efetivamente dependentes, haverá uma chance de recuperação, a possibilidade de tratamento em casas especializadas.

Espero estar certo. A intenção humanitária, confio, deverá superar as eventuais dificuldades que tal medida liberatória venha a acarretar.




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Coisas de Plutão

O jornalista e poeta Walter Medeiros envia o poema Plutão. Abaixo:

O sentimento do mundo
Numa única emoção
Hoje está em Plutão
Em seu desgosto profundo.

Não, não sou lunático,
Hoje sou plutônico,
E estou atônito,
Com choque fático.

Roubaram a paz da Lua,
Festejaram o Corrouteck,
Puseram o Harley em xeque,
No ar cada um flutua.

Já tem Pinterfinder em Marte
Com um samba de Aragão
Universo de ilusão
Por quê não te revoltaste?

Ato tão autoritário
De homens sem coração
Agora cassam Plutão
No fim do nosso cenário.

Setenta e seis anos olhando
Agora que descobriram
Astro que tantos já viram
Seu corpo não é redondo.

Pois agora tem só um
No meu sistema solar
Só Plutão vai povoar
A minha lente sem zoom.

A terra vai esperar
Que um dia de Plutão
Se olhe seu cinturão
Contornado pelo mar.

Quero ir para Plutão,
Defender o seu status
Não me renderei aos fatos
De tamanha aberração.

Como vão me convencer
Que só tem oito planetas
Se vejo em qualquer luneta
Que Plutão ‘stá a crescer?

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

E então, foi proibido mostrar foto de mulher nua no metrô de Tóquio

"As celebridades não têm profissão,
trabalho, esforço, não têm biografia.
O pior é que os jovens acreditam nestas
pessoas e deixam de fazer coisas sérias por isso"
Nélida Piñon - Escritora

A Folha On Line está noticiando o seguinte: "O metrô de Tóquio recusou que uma imagem da estrela pop Britney Spears grávida e nua seja exibida em seus espaços para propaganda. Segundo a administração do metrô, a fotografia é 'muito estimulante' para os jovens japoneses. A imagem da cantora já havia aparecido em agosto na capa da revista norte-americana Harper's Bazaar e vai figurar na capa da edição japonesa de outubro."

No aeroporto de Confins, em Minas Gerais, há um grande painel que diz algo mais ou menos assim: "Os grandes monumentos de Belo Horizonte não estão nas ruas e praças." Em seguida, anuncia o nome de uma casa de prostituição de luxo, onde os "monumentos", mulheres belíssimas, cujas fotos ilustram o painel, são mostradas.

A foto de Britney na Harper's, a rigor, para o Ocidente, não tem maior apelo. Em verdade, ela, para os nossos padrões, até que está muito recatada, até porque a revista é voltada para o público feminino, cujas intenções ao folhear uma revista como aquela são bem diversas de um leitor da Playboy, por exemplo.

Mas a direção da revista e a direção do metrô de Tóquio encontraram uma solução: será colocada uma tarja sobre os braços da artista, cruzados sobre os seios, o que por si só - puro exagero - já impede a sua visão. Na tarja, um pedido de desculpas por esconder uma parte do corpo da futura mamãe.

No caso, temos os dois extremos: uma visão tacanha, tola, atrasada da direção do metrô - uma vez que Britney é um produto de consumo de massa, mas não uma prostituta - e a publicidade escancarada de mulheres de programa no aeroporto.

No primeiro caso temos no mínimo um equívoco; no segundo, um crime. E as autoridades locais sequer mexem um dedo. Na verdade, o ponto a que quero chegar é o seguinte: uma sociedade chegando à obtusidade em termos de organização e burocratização de comportamentos coletivos e, do outro lado do mundo, outra sociedade que permite publicidade de prostituição à solta.

O turismo sexual no Brasil tomou contornos preocupantes, não só pelo fato de que sinaliza interligações com o tráfico de drogas e aporte de criminosos, mas acima de tudo porque traz em seu vácuo centenas e centenas de jovens e mulheres de origem humilde, que vêem nisso uma solução de vida.

Britney é uma celebridade, um produto para consumo de massa, será usada pelo sistema, usará também o sistema do qual é parte integrante e um belo dia será substituída por outra. Ao final da carreira estará certamente rica.

A prostituta, ao contrário, terá chegando a um estágio de decadência tamanho, que, ao ver um antigo retrato seu, sentirá que não valeu a pena.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

É preciso segregar esses nordestinos, senão...

"Apesar de que nasci no Norte,
sou caboco forte, quero trabaiá."
De uma antiga composição nordestina, cujo autor não recordo

Gilberto Dimenstein, na Folha de S. Paulo, deplora que o presidente Lula esteja "manipulando os nordestinos", com o objetivo de ganhar votos, distorcendo uma declaração equivocada de José Serra, candidato ao governo de São Paulo. Segundo o jornalista, Serra, ao comentar o problema da má educação no Estado, disse que isso decorre das migrações. Para Dimenstein, apenas uma frase equivocada, de um "intelectual brilhante".

Eu vejo de outra maneira, ou seja: Serra quis dizer que, pessoas que jamais deveriam ter saído de sua terra natal, tiveram a ousadia de entrar em São Paulo - já pensou?- e hoje poluem a cidade. Poluem socialmente, quero dizer. Todavia, entendo que não foi tão-somente uma frase infeliz. Acho que houve não um equívoco, mas um ato falho.

Sabe-se que o ato falho representa o real pensamento de quem o comete. É um escorrego mental, que trai o pensamento que está bem oculto ou disfarçado. Dimenstein sai em socorro de Serra e argumenta que má qualidade de ensino é fruto de uma situação complexa, não podendo ser debitada a imigrantes. É verdade.

Mas o equívoco do jornalista é o seguinte: Serra tem mesmo preconceito contra os nordestinos e isso pode ser constatado muito facilmente: não é de hoje que se diz que "São Paulo é a maior cidade nordestina", tamanha é a presença de migrantes oriundos desta região. E se a maioria dos migrantes é de nordestinos...

A questão do preconceito contra o Nordeste e seu povo é tão, posso dizer, violenta, que nos versos que transcrevi à abertura deste artigo o compositor diz que "apesar de que nasci no Norte, sou caboco forte, quero trabaiá." Ou seja: o sujeito da discriminação a expõe e até mesmo se expõe como chaga social, pecha, estigma, literalmente pede perdão pela sua origem e se coloca à disposição do patronato, implorando por um emprego, como se a sua disposição de trabalhar fosse não um direito, mas uma interferência na ordem da cidade grande.

A composição é antiga, tanto que o Nordeste é ainda chamado de "Norte". Como também é antigo, muito antigo, o preconceito nefasto que estabeleceu o Nordeste como um território de miséria, habitado por "paraíbas."

Quanto ao presidente Lula, ele mesmo um migrante, pode estar até mesmo tentanto se valer da situação. É muito comum em campanhas políticas, o uso de atos falhos dos adversários. Mas, de qualquer maneira, toca num tema de conteúdo pungente: nordestino é brasileiro; e ninguém é estrangeiro em seu próprio país.

Nota do Redator: durante o Governo Lula, o então ministro do Fome Zero, José Graziano, disse que é preciso impedir os nordestinos de migrar para São Paulo, para que os paulistas não precisem mais andar em carros blindados. Se serve de consolo, já que no Brasil está assegurado o direito de ir e bir, ficam elas por elas.

E aí, o véi começou a aboiar...

"Cabra bom,
não bebe água..."
Ditado sertanejo

Edgar Manso, zootecnista, preserva e gosta das coisas do sertão, sua gente, seu modo de vida, valores e crenças. Vez por outra me envia uns causos, narrando fatos bem sertanejos. Já acertamos para, em mais algum tempo, ele lançar um livro, pois as narrações na verdade são registros de uma cultura, um jeito de ser. Aí vai mais um causo do Edgar.

O velho Lima
A cidade de Passa e Fica localiza-se na região agreste do Estado do Rio Grande do Norte, já na divisa com o estado da Paraíba, sob a proteção da Pedra da Boca, uma formação rochosa belíssima que já se tornou uma atração turística na região. Faz menos de cinqüenta anos que Passa e Fica deixou de ser parte do município de Nova Cruz e se tornou emancipada; os moradores mais idosos contam muitas estórias desse tempo em que a “Princesa do Agreste” ainda nem existia.


Um desses moradores mais “rodados” é Seu Lima, pai dos meus amigos Carlúcio e Lau, e avô do presepeiro conhecido como Barba Azul e das belas irmãs Mônica, Vevé e Lelinha. Sua companheira de longa jornada é a dona Maria, mulher das mãos abençoadas na hora de cozinhar; a perna de boi com pirão que essa mulher faz é de“cego vê o mundo”. E a galinha torrada?... ôôôômi....

O velho Lima já está com oitenta e tantos anos mas continuava durão, forte, cabeça boa, e enxirido que só a pôrra, não podia ver uma menina passando na calçada que já ia logo dizendo:- Ô cepa, ô cepão. Há uns 30 dias , seu Lima teve algum problema que o deixou abobalhado, como se estivesse ficando esclerosado.

A notícia pegou todo mundo de surpresa, pois o velho Lima é uma pessoa muito querida na cidade. Muitos amigos foram visitá-lo mas ele nem os conhecia. Apesar de toda a tristeza é de toda gravidade da situação, o marmotento do Barba Azul, o neto do velho que mora na mesma casa do avô, nos contou uma presepada de seu Lima numa noite dessas que ninguém se agüentou de tanto rir.

O velho Lima, na sua juventude, foi um dos melhores vaqueiros da região, vaqueiro de pegar touro no mato, não é vaqueiro de pista de corrida não, era de “torar amorosa de peito nu”, como dizia ele mesmo. Pois bem, parece que a doença o fez relembrar esses tempos de labuta nas entranhas da caatinga.

Barba Azul contou que estava dormindo quando começou a escutar o seu avô aboiando por dentro de casa, isso era umas duas horas da madrugada:- Oxente? Vô tá endoidando, é? Eu num vou nem lá pra num dar corda ao véio.

E Barba Azul voltou para tentar dormir. Em vão, a zuada só fazia aumentar. Lá pras tantas, quando o “tóra rei” de grito já estava insuportável, Barba Azul escutou também a voz de dona Maria, sua vó. E pensou: - Eu vou lá ver que putaria é essa...

Quando Barba Azul entra na sala (pra seu Lima era um curral de carnaúba) ele tem uma crise de riso; dona Maria tentava pegar seu Lima pelo braço para lhe dar um calmante e ele “plantava-lhe” uma almofada na cabeça (ou seria um chicote de cipó de boi?) e dizia com raiva:- Rai prá lá raca réia, ôôôô, raca réia nojeeeeeeenta, rai, rai, rai, ôôô...

E pegue almofada no quengo de dona Maria. Mais tarde, o silêncio reinou no ambiente, Barba Azul e dona Maria foram dormir achando que seu Lima tinha adormecido no sofá (ou era um côcho de sal?). Na manhã seguinte, veio o grande final da estória, Barba Azul foi para o banheiro que fica no quintal da casa por amor de escovar os dentes quando escutou os gritos do avô:
- Naldinho, Naldinho, chega aqui meu fii. Chega aqui que eu peguei o boi!

Tava seu Lima deitado dentro de uma vala de água servida que passa no quintal da casa, agarrado com um pedaço de pau, se batendo todo e arrudiado de palhas de coqueiro pelo chão.- Naldinho meu filho, passei a noite lutando com esse frexado desse boi aqui dentro desse capim (as palhas do coqueiro), mas quando ele pulou aqui dentro de barreiro (a vala) eu lasquei ele. Tá pensando que faz o véi Lima de besta é bicho nojento?

Graças a Deus, hoje seu Lima está bem, está fazendo uso de medicamentos e se mantém calmo. Ainda bem.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

"Morreu, minha filha; foi Deus quem quis..."

Há momentos em
que silenciar é mentir"
Miguel de Unamuno

Li há pouco matéria no Estadão, abordando a questão do martírio sob o ponto de vista dos muçulmanos. O entendimento é de que o mártir, em sua luta contra os inimigos do islã, além de honrar a família, ainda garante aos seus um lugar no paraíso.

Isso lembrou-me uma visão de mundo entre os pobres do Nordeste, que, consolando os pais pela perda de um filho recém-nascido ou em tenra idade, chamava os pequenos defuntos de anjos, seguindo-se sempre o comentário de alguma comadre: "Tem nada não, minha filha, foi Deus quem quis."

Com isso explicava-se, no ingênuo senso comum, o final de um processo trágico de exclusão social: o menino ou menina filhos de trabalhadores despossuídos, vitimados em decorrência das péssimas condições de vida levadas por sua família.

Suponho que esse entendimento hoje não mais esteja tão arraigado aos pobres do Nordeste. Os anjos são os artistas e outras personalidades famosas e já não têm qualquer candura, muito pelo contrário, apregoam pela TV uma forma de vida hedonista, consumista e de modismos efêmeros.

Os costumes mudaram. Em vez do conformismo amparado pela religião, surgiu o desalento estimulado pelo cotidiano de privações, agora não mais no ambiente rural, mas em pleno e pulsante ambiente urbano.

Entretanto, persiste, na essência, o mal maior: as péssimas condições de vida de uma expressiva parcela da população - e isso não é coisa nordestina apenas. A pobreza e a miséria são bastante bem divididas no País. Minha abordagem quanto aos anjos foi apenas um recurso de entrada no assunto pobreza e ilusão do povo; miséria e manipulação do povo; fome e promessas ao povo, especialmente agora, no período eleitoral.

Com efeito, vivemos num país onde literalmente a condição angelical é dificilmente encontrável. O inefável, o cândido, o deslumbrar celestial, por aqui, talvez somente nas orações de alguma alma piedosa, voltada para obras sacras e pensamentos pios: no mais, trovejam e retumbam as manchetes sobre a corrupção, mas - a gente sabe, né? - nenhum dos denunciados irá para o inferno...

domingo, 20 de agosto de 2006

Matou um filho, matou o outro, matou o outro; depois suicidou-se

"O Senhor me deu,
o Senhor me tirou:
bendito seja o Senhor."
Do Livro de Jó

Desesperado, falido, um empresário matou a tiros, em Alphaville, um condomínio de alto luxo em São Paulo, os três filhos, suicidando-se em seguida. Sem contato com o ex-marido há dias, a costureira Maria de Fátima Diogo foi até o apartamento em companhia de um chaveiro e da polícia. Ao abrir a porta deparou-se, cara a cara, com a dor em forma de morte, num grito em corpo de angústia. Desmaiou. Foi aparada por uma amiga e pelos policiais, que a levaram a um hospital. Nada restou da antiga felicidade.

A notícia está no O Estado de S. Paulo. Contada assim, na frieza da técnica jornalística, a tragédia passa por você como uma paisagem qualquer, das muitas paisagens que habitam o território dos jornais.

Mas, dê-se ao trabalho de imaginar um pouco, percorrer sem pressa o caminho do horror. Uma família rica, um empresário de sucesso, tudo certo, tudo acima do normal, uma vida familiar como poucos têm neste País. Indo um pouco além dos aspectos econômicos e chegando ao plano mais existencial, temos pessoas que tinham à sua disposição, literalmente, o prazer, o prazer de estarem vivas.

Mas vêm os tempos da tarde, quando a noite da derrota se aproxima e de repente tudo se desfaz, a família se racha, o pai perde tudo, dopa os filhos com Lorax e depois, na furiosa calma dos que estão perdidos, mata, um a um, os filhos. Depois, vira a arma contra si e dispara. Pronto. Terminou ali todo um processo de vida, uma multidão de sonhos desabou, pessoas morreram, lágrimas estão regando o drama.

E, em algum canto, guardado em alguma gaveta da polícia técnica, o revólver dos crimes está parado, como a cobra descansa, até que um dia alguém a faça disparar o seu veneno de morte.



sexta-feira, 18 de agosto de 2006

Será Marcola um monge budista?

"A liberdade é defendida com
discursos e atacada
com metralhadoras."
Carlos Drummond de Andrade

A Folha de S. Paulo on line está promovendo uma enquete em que pergunta: "Você acha que, após o seqüestro do repórter Guilherme Portanova, da Rede Globo, o governo de São Paulo deve ceder às pressões da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) e extinguir o RDD (Regime Disciplinar Diferenciado), que impõe regras mais rígidas aos presos?"

As respostas, até quando era redigido este artigo eram: cinco por cento favoráveis aos criminosos; seis por cento se dizem "mais ou menos" a favor, enquanto oitenta e nove por cento dos votos são contrários à capitulação do governo.

A frase de Drummond se encaixa à perfeição com o momento vivido. O poderio do PCC, que agora já articula um canhestro discurso político, deplorando as condições carcerárias do País, dá bem um demonstrativo do quanto o crime organizado no Brasil está ganhando terreno e busca, por meios enviesados, adquirir simpatizantes, a partir de dois pontos: no primeiro ângulo, o discurso do convencimento pela argumentação ideológica, que encontra eco em setores da sociedade; na segunda face, a manutenção do discurso municiado, o discurso da metralhadora como forma e meio de manter sua identidade, potencial ofensivo e modus operandi ou, em outras palavras essência, liame e consistência grupal.

O que chamei de primeiro ângulo está fundado na denúncia das péssimas condições carcerárias do País, e disso ninguém pode discordar. É preciso uma reforma urgente do sistema prisional, a fim de que o apenado tenha condições de viver, de existir, enquanto dura o cumprimento de sua sentença. Não é uma questão de atender às reivindicações dos bandidos; reivindicações, aliás, feitas a partir da barbárie das rebeliões. É preciso, sim, dentro de um processo civilizatório, dar às prisões outras condições, que não as hoje vividas.

Quanto à segunda face, encontamos aí o desmascaramento dos propósitos dos bandidos que, a partir de um tratamento humanitário, querem mesmo é ampliar e consolidar ainda mais seu sistema grupal, o que, em redundância, amplia seu poder de fogo. Ou seja: a sociedade dá amparo ao criminoso, que disso se aproveita para fortalecer-se ainda mais.

O equilíbrio encontra-se no fato de que, a par de melhorar as condições de encarceramento, deve a legislação penal manter-se firme, não ceder a pressões nem intimidamentos, a fim de que, fora dos muros, as quadrilhas sejam desmanteladas e os criminosos, presos, cumpram efetivamente suas penas.

A questão do seqüestro do jornalista da Globo sinaliza muito claramente que outros atentatos do tipo deverão acontecer, não saindo de cogitação atos de terrorismo como bombas, incêndios e ataques a postos policiais e à sociedade civil em geral.

O regime disciplinar diferenciado deve e precisa ser mantido, a fim de que criminosos de alta periculosidade, como Marcola, sejam mantidos sob estrita vigilância, uma vez que sua disposição irrrevogável é manter unida e atuante a estrutura criminosa que, literalmente, administra.

Afinal, as liberdades democráticas e os direitos humanos não devem servir de cunha para aqueles que, como os criminosos, ao agir contra tais liberdades e tais direitos, não venham a se beneficiar da ingenuidade, má fé ou complacência, de quem, a pretexto de defender encarcerados, termina se voltando, aí sim, contra as liberdades democráticas e os direitos humanos daqueles que, em silêncio, sofrem os ataques, o medo, o pavor: as vítimas.

Ou alguém pensa que Marcola foi preso porque é um monge budista, e estava a um passo da iluminação?

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

O crime organizado segue a "Lei de Gérson": leva vantagem em tudo

"O jornalista não tem
amigos ou inimigos."
James Reston

O seqüestro do jornalista Guilherme Portanova, da Rede Globo, libertado após ficar 30 horas em poder do Primeiro Comando da Capital é o demonstrativo maior de que a cada dia cresce o poder, a ousadia e a capacidade intimidatória do grupo criminoso.

Utilizando-se de táticas de terrorismo, os bandidos exigiram a veiculação de um vídeo em que reclamam do sistema penitenciário brasileiro e deixam bem claro que estão dispostos a tudo, para manter-se em situação de impor terror e pânico.

O crescimento do crime organizado no País indica claramente que a situação está assumindo proporções protopolíticas e o PCC, na verdade, já atua como um partido político marginal, uma aberração que estende seu potencial destrutivo e invade o cotidiano, distribuindo angústia e medo.

A mensagem veiculada pelo PCC através da Globo dá claramente o indício de que o PCC tem rudimentos de um discurso político e se prepara, de alguma forma, para ações no plano ideológico, aliando armas e palavras. Com certeza atrairá a seu favor setores da sociedade que se identificam com a defesa dos direitos humanos, que justificarão, senão o uso das armas, pelo menos a intenção do discurso.

Ante a omissão das autoridades, que aparentemente não têm qualquer plano nacional para o combate do crime organizado, é bem possível que esse fenômeno venha somente a crescer, afinal se cristalizando e firmando raízes neste País.

James Reston, na citação feita, não era nenhum ingênuo. Sua frase aduz tão-somente à objetividade do jornalista, quando está cumprindo com seu dever profissional: buscar uma atitude de equilíbrio e colocar a público aquilo que seja contra o público; mesmo que isso lhe custe denunciar um amigo.

O jornalista, sim, tem amigos e inimigos. O bom jornalismo tem como inimigos a corrupção, o crime sob todas as suas formas, a brutalidade, a exploração, o homem enquanto lobo do homem. E muitas vezes tem pago caro por isso: a morte de Tim Lopes ainda ressoa na memória, o caso do repórter da Globo está aí para provar.

É lamentável mas, no Brasil, seguindo a 'Lei de Gérson", o crime está levando vantagem.

domingo, 13 de agosto de 2006

Vontade


Do jornalista e poeta Walter Medeiros recebo o poema "Vontade", publicado em homenagem ao Dia dos Pais.

(A meu pai, José Firmino)

Tenho vontade de ler Drummond,
Aquele Drummond que falava de José:
“Você é duro, José...”

Vontade de ouvir Moacir Franco,
Falando de um louco que vinha
“Das calçadas que o tempo não guardou”.

Vontade de sentir o perfume
Daquelas plantas silvestres,
Nos sítios de Mata Grande.

Vontade de rever aquelas mangueiras,
Que davam tantas sombras e frutos;
E deram lugar a edifícios, no Tirol.

Vontade de reler aquelas revistas
Que o tempo fez sumirem;
E que talvez nem existam mais.

Tenho vontade de ler Drummond,
Aquele Drummond que falava de José:
“Você é duro, José...”.


Walter Medeiros

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Os penitentes vão sair para matar

"Está se deteriorando a bondade brasileira.
De quinze em quinze minutos,
aumenta o desgaste da nossa delicadeza."
Nelson Rodrigues

Estão sendo liberados para o feriado do Dia dos Pais, em todo o País, grande número de criminosos, muitos deles gente de alta periculosidade. Mas talvez alguém diga: mas também não apresentam periculosidade uma expressiva parcela do Congresso Nacional, muitos membros do Judiciário, funcionários públicos de alto escalão, ministros, secretários, empresários...?

Sim, só que esses criminosos, como não mataram ninguém, são, hummmm, bandidos fora de série, bandidos de boas maneiras, não intimidam pelo porte de arma ou assaltos, não. Eles roubam no silêncio das canetas assinando papéis secretos, desviam na calada das conversas noturnas em restaurantes luxuosos, locupletam-se em meio a mesuras e confabulações.

Ou seja: não trazem na figura a estampa do medo que o criminoso encarcerado de há muito tatuou em sua vida em seu modo de ser e aparecer.

Esses criminosos devem ser combatidos de um jeito, o bandido comum, de outro.

Mas vem o Dia dos Pais e os bandidos que possam ser considerados como bons - ao lado de Jesus não havia Dimas, o bom ladrão? pois é... - podem sair às ruas. E lá se vão eles, amplos e folgados, prontos para fazer o que lhes der na cabeça; até mesmo visitar os filhos e ficar, pacatamente, em casa.

Eles estão deixando as penitenciárias, quer dizer, são, objetivamente, penitentes. E o peninente, pelo sentido dicionarizado do termo, é aquele que cumpre penitência, arrepende-se dos seus pecados e/ou acompanha procissões.

Espero que não, mas é bem provável que o PCC faça sua procissão de crimes e de sangue; mais uma procissão, em que louvarão o deus da violência e da matança. E, nessa religião de crimes e de morticínio, os mártires não são seus seguidores, os penitentes libertos, mas os inocentes que fiquem ao alcance de suas balas.

Realmente, como dizia Nelson Rodrigues, estamos perdendo a nossa delicadeza. O brasileiro parece não ser mais um povo cordial.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

O candidato pobre, um homem com fé de carvoeiro

A história é uma galeria
de quadros em que há poucos
originais e muitas cópias."
Tocqueville

Hoje pela manhã uma cena, entre patética e comovente, chamou-me a atenção. Numa oficina de carros, um motorista chegou com seu sacolejante automóvel e pediu para que um mecânico fizesse uma revisão rápida. O homem, coitado, vestido modestamente, era um candidato. Candidato a deputado federal. Pelo menos era isso o que alguns adesivos diziam. Adesivos não, na verdade eram fotos dele, com o nome embaixo, material impresso em computador, com a tinta já quase se acabando.

Estava ali, penso eu, um desses ingênuos que pensam que política se faz com sinceridade, boa vontade e o chamado espírito público.

O homem e o carro formavam uma dupla perfeita: ele sem qualquer carisma, meio calvo, a camisa muito velha. E os cabelos que lhe restaram estavam desgrenhados e enrugados; o carro, por sua vez, cheio de amassados, movia-se sobre quatro pneus carecas. No seu interior, o estofamento parecia ter sido atacado por um gato-do-mato em estado de possessão. O capô, ao ser aberto, expôs um motor que mais parecia uma daquelas máquinas do Professor Pardal.

Aquilo não era um carro: era uma geringonça. Para completar, apafusados a duas armações de ferro, dessas usadas por surfistas para transportar suas pranchas, estavam dois enormes e velhíssimos alto-falantes, para ele a mídia que, certamente supõe, o elevará à condição de colega de classe de mensaleiros, sanguessugas e outros quejandos. Mesmo que ele não tenha vocação para o furto.

Detalhe: os dois alto-falantes estavam presos, literalmente presos, às armações por uma boa e confiável corrente. Afinal, devem fazer parte do pobre patrimônio daquele candidato. Já pensou, não ganhar a campanha e ainda ter seus alto-falantes roubados?

Mas a triste figura desceu do carro e pediu que fosse feito um servicinho qualquer. Ele falava com o recepcionista, quando ouvi esse fiapo de conversa:(recepcionista) "... é, quem manda é a ideologia..."; (o candidato): "É, mas já pensou se eu peço dinheiro a um empresário? É claro que ele vai me dar... Mas, e depois? Depois eu vou ter que pagar o preço dessa ajuda."

Em seguida, feito o servicinho, coisa rápida, negócio para dez minutos, ele agradeceu ao mecânico e tentou fechar o capô. Bateu uma, duas, três vezes. Na quarta tentativa afinal pôde fechar a tampa do motor. Agradeceu e saiu, perdendo-se pelas ruas com sua humilde e ingênua propaganda colada aos vidros do carro, os alto-falantes ainda mudos, o pensamento quem sabe já elucubrando o discurso de estréia na Câmara dos Deputados.

Algum dia um professor meu disse que Santo Tomás de Aquino pedia a Deus para ter uma "fé de carvoeiro", a fé dos simples, e jamais baquear em sua confiança nos desígnios divinos ou cambalear sobre a crença na existência do Pai.

Acho que hoje encontrei um homem com fé de carvoeiro. Montado em sua geringonça estava, como o Quixote, pronto para investir contra os moinhos de vento das candidaturas milionárias que estão surgindo no Rio Grande do Norte, muitas destas, de homens completamente desconhecidos e que fizeram pelo Rio Grande do Norte tanto quanto uma formiga de roça.

Acho que hoje encontrei um homem com fé de carvoeiro. Acho que, como Diógenes, o cínico, encontrei um homem de bem.

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

Uma guerra de cuspe

"O brasileiro não está preparado para ser
"o maior do mundo" em coisa nenhuma.
Ser "o maior do mundo" em qualquer coisa,
mesmo em cuspe à distância,
implica uma grave,
pesada e sufocante responsabilidade."
Nelson Rodrigues

A frase de Nelson Rodrigues nos desnuda a preocupante condição de uma sociedade de conveniência. Coisas tipo jeitinho brasileiro, vâmo vê como é que dá, né? Isso, pelo menos, no que diz respeito às nossas autoridades. Ah, sim. Você tem acompanhado o noticiário a respeito dos atentados em São Paulo? Tem visto na TV postos policiais, bancos e ônibus incendiados? Tem? Creio que sim.

Mas, tem anotado alguma reação mais, digamos, firme, para não dizer viril, do governador tucano Cláudio Lembo, o Cláudio Lento, como diz o pessoal do Casseta e Planeta? Tem? Tem não. Tem não, porque o governador paulista está mais preocupado com as repercussões que uma ajuda federal teria sobre os números de Ibope de Geraldo Alckmin, favorecendo a candidatura Lula, do que com a vida e a integridade do povo da capital paulista.

E, o que é pior, o governo central, ao que parece, não aplica qualquer pressão sobre o Lento, temendo também que isso seja visto como intolerável intromissão ou intervenção, no sentido jurídico do termo, na vida e na cidadania dos paulistanos.

Simplificando, como disse Nelson Rodrigues, seria uma "grave, pesada e sufocante responsabilidade". E isso o pessoal do Poder não está disposto a encarar.

Sabe? Acho que, no fim, o PCC vai deixar tudo no "tá dominado! Tá tudo dominado!", e as autoridades vão disputar algum campeonado de cuspe à distância.

Nota do editor: Só para completar, uma espécie de metáfora ou o que seja, sobre o Brasil. Eu estava, há poucos dias, na irrrequieta companhia de minha neta, Eduarda, num shopping center em Natal. Chovia. Os carros que chegavam ao estacionamento, que fica no subsolo, deixavam cair pingos, que lembravam marcas de cuspe no chão. Ela virou-se para mim e advertiu: "Olha, Vô, cuspe. " Eu respondi que sim. E ela:"Vô, mais cuspe." E vendo mais e mais pingos no chão, avisou:"Cuspe, cuspe, cuspe." Afinal, sentenciou: "Vô, é muito cuspe. Tá havendo uma guerra de cuspe." Pronto. As autoridades brasileiras também estão pensando que, em São Paulo, está havendo, também, uma guerra de cuspe.

domingo, 6 de agosto de 2006

O político ganha votos, o produtor bovino perde dinheiro

Tanscrevo abaixo artigo de autoria do zootecnista Edgar Manso, publicada no Jornal de Hoje, Natal. Trata-se de assunto de gande importância, especialmente para quem conhece as dificuldades do criador nordestino.

Prezado Marcos Aurélio de Sá, parabéns pela sua matéria da sexta-feira.. Como sempre, você abordou com muita propriedade os problemas dos produtores locais de leite bovino . Como você escreveu, nesse ano de política todos falam sobre o "Programa do Leite", esquecendo os produtores que não participam do mesmo, estes representam cerca de 75% da produção potiguar.

Concordo quando você diz que o pagamento direto aos produtores não resolverá totalmente o problema, será bom, mas não o bastante.Eu, como zootecnista que sou, acho que o maior problema está na falta de assistência técnica ao produtor rural, esse é um problema do Brasil, não é só nosso não.

Em recente pesquisa que fiz, constatei que 40% dos produtores do Litoral Oriental, 75% dos produtores do Litoral Norte, 20% dos produtores do Seridó e 40% dos produtores da região de Mossoró não têm assistência técnica nenhuma, pública ou particular.A adoção de tecnologia no campo é inevitável; para isso é preciso investir em treinamento de pessoas. Investir na educação é prioridade.

O produtor está ansioso por novas técnicas, solicita ajuda de técnicos, quer trabalhar e produzir com qualidade. Brigar por melhores preços é importante, sem tirar o foco do problema principal que é o controle dos índices zootécnicos da propriedade.

Criaram o programa, melhoraram os preços, garantiram a compra, mas não ensinaram como produzir.A importância econômica e social do Programa do Leite é inegável. Em todo o Brasil o nosso modelo de programa social é copiado, mas ele tem falhas, é normal. Para resolver esse problema da falta de assistência técnica aos produtores, poderia ser criado um fundo de reserva visando custear uma equipe de profissionais das ciências agrárias para assistir à esses produtores.

De onde sairia esse dinheiro? Quem levaria vantagem com isso? Um produtor de leite que recebe a visita de um zootecnista regularmente tem a chance de monitorar com precisão todos os seus custos de produção, sendo assim pode focar as suas atenções nos setores mais deficitários do seu sistema de produção.

Adotando as técnicas de manejo nutricional, cuidados com a higiene e controle de custos, o produtor vai poder, aí sim, brigar por um preço mais justo, pois o seu produto estará com uma qualidade nutricional muito superior.

O dono do laticínio que adquirir um leite produzido dentro das recomendações preconizadas por um zootecnista, sentirá no bolso uma grande diferença positiva. Seu rendimento no processo de fabricação de derivados como o iogurte e os queijos será muito maior, sem contar que o número de bactérias nocivas ao ser humano será muito menor, assim ele não correrá o risco de ser "surpreendido" por alguma fiscalização sanitária. E o político?

Ele ganha alguma coisa? Ah! meu amigo, esse é que ganha... Tirar apenas um centavo de cada laticínio já rende por mês uns 40 mil reais, esse valor é menor do que os juros que os laticínios ganham quando seguram o dinheiro dos produtores por dois ou três meses, e eles também serão beneficiados. E ter um zootecnista trabalhando na sua equipe é sinônimo de eficiência e responsabilidade.A assistência técnica é o xis da questão.
Vai um leitinho aí?

Edgar Manso
Zootecnista

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

Madonna vai ser crucificada

"Tudo o que fazemos é ligado ao dinheiro.
Eu sou uma mercadoria e tenho
plena consciência disso."
Marlon Brando

A cantora Madonna, expert em provocações e sensacionalismo em torno de sua figura, está realizando uma turnê intitulada "Confessions". Os jornais estão registrando que, domingo próximo ela repetirá no Estádio Olímpico de Roma, a cerca de três quilômetros do Vaticano uma performance em que se apresenta com uma coroa de espinhos - falsos é claro - e se crucifica numa cruz cenográfica.

O Estado de S. Paulo diz o seguinte: "O espetáculo que o "Corriere della Sera" define como "estilo Las Vegas" começa com Madona cantando "Future Lovers", com quatro dançarinos em volta dela. Mais tarde ela coloca em si mesma uma coroa de espinhos e se dependura em uma gigantesca cruz de feltro para cantar "Live to Tell". Ao fundo, imagens de vídeo mostram cenas de pobreza no mundo. Em outra montagem de vídeo são justapostas imagens de Bush, o presidente norte-americano, do primeiro-ministro inglês Tony Blair com Adolf Hitler, Osama bin Laden, e o presidente do Zimbabwe Robert Mugabe."

Uma leitura que se pode fazer indica que a cantora profere uma crítica encenada, realiza uma metáfora musical em que deplora a crueldade dos tempos que vivemos e representa o ser humano revivendo no cotidiano a Paixão de Cristo.

Outra compreensão do fato nos diz que na verdade ela, com seu extraordinário feeling mercadológico, produz um espetáculo aberrante, gritante, onde, pelo escândalo, consegue manter sobre si as luzes da grande ribalta em que se transformou o mundo. Ela estetiza a brutalidade, refunde em sons e imagens a dor e violência que permeiam o cotidiano.

Talvez se pudesse dizer, sintetizando os dois pontos de vista, que ela se permite uma licença poética e, pelo seu talento para protagonizar polêmicas, traz de fundo, no vácuo de sua passagem, uma alusão dramática da vida crua e cruel. Efetivamente, aproveita-se dos dramas do mundo para manter sua fama. Tanto que, ao receber o repúdio do Vaticano e de grupos religiosos, convidou o papa Bento XVI a assistir a seu show.

Detalhe: Madonna nunca foi uma militante de causas nobres. Sempre atuou no segmento do show business voltado para o aspecto "comportamento", valorizando um estilo de vida que vai de encontro ao estabelecido, o normalizado, o pré-determinado. É defensora de um hedonismo burguês e lucrativo. Só isso.

Sequer pode ser comparada com os cantores e compositores da década de 1960, que ao contestar o estabelecido e o comportamento conservador, o faziam em nome de uma sociedade melhor, mais justa, com liberdade de opinião e respeito à individualidade.

Seu repertório jamais incluiu composições cujas letras estivesem criticando o status quo, o imperialismo, a exploração dos países de periferia, que justificassem o conteúdo do seu show ou intenções sinceras de ajudar.

Agora, com seu novo espetáculo, utiliza as imagens do mundo em dor. Agindo desta forma, garante mais alguns milhões de dólares à sua fortuna e nada mais. Também foi publicado pelo Estado que ela pretende ajudar a mais de um milhão de crianças pobres de Malauí, um país localizado no leste da África, onde grassam a aids e a malária.

Gesto humanitário? Talvez. Mas o certo é que, com isto, se vier a acontecer, já que o jornal informa que ela pretende visitar o Malauí em outubro, manterá em torno de si a aura de figura pop, fulgurante e explosiva. Se ela o fizer, vai acontecer; e sabe que, acontecendo, vira manchete.

A manchete atrai manchete e assim por diante. O certo é que vivemos num mundo de espetáculos diários, de simulacros e dissimulações, o homem como lobo do homem, na encenação da tragédia de todos os dias. O mundo já se acostumou com as bombas.

O espetáculo chama-se, irônicamente, Confessions. E é, mesmo, a confissão da miséria humana: espetacularizada e vista como só mais um dado nesse cotidiano de vazio e de medo.

Honestidade castigada

"O homem razoável se adapta ao mundo;

o irascível tenta adaptar o mundo a si próprio.

Assim, o progresso depende do homem irascível."
George Bernard Shaw

O texto abaixo foi publicado no jornal O Estado de São Paulo. Veja só como são tratados aqueles que se insurgem contra os, como diria Caetano Veloso, Podres Poderes.



Fabiana Marchezi


SÃO PAULO - O caseiro Francenildo Santos Costa disse nesta quinta-feira que se arrepende por ter falado a verdade sobre o ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci, por que agora não consegue mais emprego. "Não estou conseguindo emprego, aí. Todo mundo fala: Ah, esse rapaz deve falar demais, não vamos dar serviço pra ele, não!", disse ao Jornal da Record. "Aí, é nessa hora que eu estou falando que não vale a pena falar a verdade".

Nildo, como é conhecido, denunciou, em entrevista exclusiva ao Estado, as visitas do ex-ministro à mansão alugada em Brasília pelos lobistas conhecidos como república de Ribeirão Preto e afirmou ter visto dinheiro chegar em malas e ser dividido na casa. Palocci foi demitido do governo Lula após a descoberta da quebra ilegal do sigilo bancário do caseiro.

Ele lembrou que Palocci é candidato a deputado federal e que ele não consegue nenhum trabalho. De acordo com a TV Record, Costa vive hoje de favor na casa de parentes, na periferia de Brasília. O ex-caseiro entrou na Justiça com pedidos de indenização por danos morais. O advogado dele, Wlicio Nascimento, afirma que "o ofensor, quem cometeu o dano, deve ser punido".

Nota do redator: chegamos, plenamente, aos tempos em que o homem se arrepende de ser bom e tem vergonha de ser honesto, como afirmava Rui Barbosa.

quinta-feira, 3 de agosto de 2006

Vai começar a temporada dos gritos. Todos querem capturar o eleitolo. Se você for um eleitolo, vai ser ser fisgado

"Nunca se mente tanto como antes das eleições,
durante uma guerra e depois de uma caçada"
Otto von Bismarck

Aos poucos, os carros de som vão tomando conta das ruas e logo estarão alardeando as excelências e boas vontades dos candidatos. De todos os candidatos. E, como sempre ocorre em períodos eleitorais, nunca se verão tantos homens bons e mulheres politicamente virtuosas, todos unidos em favor do povo, coitadinho, que tanto precisa de alguma ajuda.

A valer o entendimento de Bismarck, está aberta a temporada das mentiras, uma vez que estamos antes de uma eleição, eleição que vai assumir contornos de guerra e depois virar uma caçada ao voto do eleitor. Melhor seria dizer, do eleitolo.

O eleitolo é o eleitor que se deixa convencer por inteiro das intenções de um candidato ou candidata. Não se pode confiar num político cem por cento. É do meio, é da circunstância política a concessão, o abrir de mão, o jogo-de-cintura frente ao mais terrível adversário, para se conseguir algo, mesmo que esse algo seja efetivamente o bem-comum.

É paradoxal que, para fazer algo certo, para aprovar uma lei que favoreça essa entidade que os cientistas políticos chamam de povo, tenha-se de fazer concessões a grupos que querem tirar do povo o pouco que este já tem. Só se faz algo pelo povo dando-se menos do que o povo precisa.

Mas é assim que o jogo funciona e que a máquina se movimenta. É o toma-lá, dá-cá. E o eleitolo fica ali, só observando, esperando que algo de bom aconteça à sua sofrida e previsível vida. O eleitolo sempre acredita no marketing, no grito, no gesto, no slogan. E no fim, vota. Acredita no amanhã, mas o amanhã, já notou?, é um tempo que nunca chega...

Mas a eleição está chegando, os eleitolos estão pululando por aí e no final das contas os políticos, no seu grande esforço, darão ao eleitolo pão e circo.

Para finalizar, um registro de cinismo: o presidente da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte, deputado Robinson Faria, disse o seguinte: para conciliar as atividades em plenário com as movimentações políticas pelo interior, à cata de votos, será feito pelos deputados "um sacrifício muito grande, mas vamos tentar."


Os eleitolos, deputado, saberão compreender e recompensar o seu terrível tormento e inominável sacrifício. Ó tempos! Ó costumes!

terça-feira, 1 de agosto de 2006

O espetáculo eleitoral

"Os políticos morrem de inveja
da gente. Eles se estapeiam para
aparecer no vídeo. enquanto nós
aparecemos todos os dias."
Da atriz Suzana Vieira

A coluna de Roberto Pompeu de Toledo, na Veja desta semana, está dizendo que a Globo negociou com os candidatos Luciano Bivar e José Maria Eymael a cobertura diária de suas andanças pelo país, comendo sanduíches de mortadela e bebendo café em botecos de segunda. Em troca, eles não serão excluídos de programas de debate ou entrevistas.

Assim, eles aparecem todos os dias no Jornal Nacional da mesma forma que personalidades como o presidente Lula, a senadora Heloísa Helena e o senador Cristovam Buarque, aparentemente como se estivessem em pé de igualdade. Insistindo no detalhe: o acordo com a Globo, segundo Pomeu, prevê que serão descartados nos grandes momentos da campanha, debates e entrevistas de peso. Relação custo/benefício para os dois: como certamente eles sequer se imaginam com competência para chegar a um segundo turno, é um grande negócio.

No caso, temos o que os estudiosos de comunicação chamam de enquadramento plural fechado. Explicando, mesmo que de modo simplificado, nesse enquadramento, ou seja nessa exibição dos atores políticos, todos os candidatos aparecem no noticiário, mas alguns estão em posição de assimetria sobre os demais, recebendo o realce que presuntivamente merecem, em função de posições ocupadas, histórico pessoal, passado político, essas coisas que dão fama reiterada às pessoas.

Quem não tem tais qualidades, fica em situação desprivilegiada. Lula e Cia. aparecem no notidiário de toda noite e vão participar dos debates: os outros dois, não. Eis aí o enquadramento plural fechado.

Na verdade, o foco deste comentário não é tratar de assuntos técnico-acadêmicos, como a questão dos enquadramentos. Mas trazer como tema o problema do espetáculo na política.

O que a globo não quer é a presença de atores de segundo time, cujas posições e pensamentos entende que não sejam do interesse popular. Ambos são ilustres desconhecidos para o povo, conseqüentemente, supõe-se que suas palavras não tenham interesse para o grande coletivo nacional.

O que se quer é provocar uma sensação, uma expectativa para as arenas a serem montadas pela Globo, presentes, aí sim, os nomes tidos como mais representativos. O que se quer mostrar é o embate, o conflito de forças máximas da política brasileira, as fagulhas comunicacionais que possivelmente sairão desse confonto. É o frisson, a mise-en-scene retórico-gestual.

E, dia seguinte, pesquisas vão pulular anunciando quem venceu o debate, quem convenceu mais, quem dobrou o adversário. Agora, quer ver Eymael ou Bivar aparecerem com destaque? Basta que surja fato novo, que jornalisticamente justifique sua presença com luzes e toques.

Caso eles consigam levar para as ruas, para onde quer quer estejam, o espetáculo, pronto, estarão aptos a se apresentar nos palcos da globo. E isso é o mais preocupante: a ação jornalística, caso sejam verídicas a informação do colunista de Veja, de que uma emissora de TV selecionou seus atores políticos segundo sua fama e suas divergências, ao invés de seus conteúdos. É uma seleção fulanizada.

Não estou dizendo que Eymael ou Bivar tenham nada de novo a propor. Apenas que deveria haver oportunidades iguais para aqueles igualmente candidatos. Só isso.

Na verdade, a prática da discriminação é comum. Somente surge em destaque no noticiário aquele que já detém capital simbólico acumulado durante muitos anos e portanto pode valorizar-se e ser valorizado pelo jornalismo.

Caso típico a quebrar essa regra foi o de Miguel Mossoró, aqui em Natal, quando, na última campanha para eleição de prefeito, se propôs a construir uma ponte ligando o Estado à ilha de Fernando de Noronha. Pronto: foi o suficiente para que seu perfil se enquadrasse nos critérios de noticiabilidade e o homem percorreu o mundo inteiro nos noticiários, blogs, comentários, tudo o que pudesse servir de veículo de comunicação de massa.

Quem sabe, se Eymael ou Bivar começarem a comer sanduíches gigantescos, pesando quilos e quilos, não consigam ganhar as manchetes e venham a ser convidados para debates?

Debates deveriam servir para esclarecer. Mesmo sabendo-se que no fundo são todos acontecimentos espetaculares em essência, uma vez que são acontecimentos de massa, deveriam ter um Norte ético, o que começaria com o convite a todos os candidatos.

Enquanto isso, o noticiário enche linguiça com o relato de visitinhas de candidatos, todos, a ruas e quitandas e o eleitor fica sem a informação principal: a visão de cada um, sua interpretação da realidade nacional e seus (supostos) compromissos.

A lei eleitoral contribui muito para amordaçar o noticiário televisivo. Mas a TV negociar o silêncio de alguém, aí já é outra coisa.

domingo, 30 de julho de 2006

A liberdade é secreta

“Domar o tempo não é matá-lo, mas vivê-lo.”
Afonso Arinos de Melo Franco

A liberdade pode ser obtida como sucesso e resultado de uma grande passeata, um protesto, uma revolução. Mas essa é a liberdade política, aquela que substitui uma forma de convivência coletiva legislada, por outra, de interesse da maioria que agiu em conjunto, na busca de uma nova realidade.
A liberdade a que me refiro, entretanto, é uma forma pessoal e íntima de ser. A descoberta de um caminho bem próprio, geralmente incompreensível para quem está adaptado à liberdade comum e convencional.
O burocrata que respeita seu expediente é livre porque obedece; o magnata que controla milhões de dólares e milhões de pessoas pelo mundo afora é livre porque tem poder. Ambos são, entretanto, escravos: um, do seu expediente; outro, da implacável rotina, da obrigação de, diariamente, ganhar mais e mais. São somente dois exemplos, mas creio que a regra se aplica a qualquer atividade.
Somos todos escravos no instante mesmo em que, imersos e presos a convicções de realidade, não entendemos que nossa realidade é apenas parte do nosso ser, existir e estar no mundo. É claro que o burocrata pode ser livre, mesmo obedecendo. Basta tomar consciência de que aquilo que faz é apenas um dado de vida. No instante em que se voltar para o seu interior, poderá começar a descobrir os caminhos da liberdade secreta.
Não sei se o mesmo vale para o magnata. Lembremos que o dinheiro é um senhor poderoso. E quem o tem, quem o tem em grande quantidade, passa a ser apenas seu guarda, um vigilante eterno de sua fortuna. Dificilmente terá condições de caminhar pela liberdade secreta.
Construímos uma civilização baseada no ter, não no ser; erguemos um mundo onde os esquemas de pensamento, a organização, o resultado, se sobrepõem à serenidade, ao respeito, à reflexão.
Vivemos um processo em que o indivíduo é sempre chamado, seduzido, convidado a se unir à massa, seguir sem pensar aquilo que lhe é determinado. E quanto mais se confunde com o todo, mas se lhe diz que é livre: livre para escolher uma marca, livre para se vestir com as roupas que estão na moda, livre para ficar preso a um canal de TV, livre para isso, livre para aquilo, livre para aquilo outro, livre para... basta.
A liberdade é secreta. Ela é silenciosa e existe para quem pára, quando tudo diz que se deve andar.
A liberdade é secreta. Ela é calma, e existe para quem sabe olhar ao lado e ver que pode tomar um caminho estreito, mesmo que à beira de um penhasco.
A liberdade é secreta. Ela não precisa de gritos, pois é um chamamento à paz.
A liberdade é secreta. É secreta mas nada esconde, pois se abre aos olhos de quem não precisa de olhos para ver.
A liberdade é secreta. Mais pode ser encontrada na dor, que na explosão da alegria comprada; na perda, que no ganho desvairado; no silêncio, que nos brados; nas pequenas realizações do dia a dia, que nas torres falsas das grandes cerimônias.
A liberdade é secreta.
A porta está à sua vista.
Pode entrar.

sexta-feira, 28 de julho de 2006

E aí, o Professor Pardal pendurou um relógio na varanda (da minha viagem a Minas - final)

"Ó Minas Gerais, ó Minas Gerais
Quem de conhece, não esquece jamais."
Da tradicional composição mineira

Se nas Gerais encontrei na grandeza da montanhas aquela paisagem que nos envia para uma espécie de silêncio interior, numa perplexidade encantada, descobri também uma figura humana que somente pode ser descrita como incrível. Falo de Joaquim Magalhães, o Tchan.

Luthier de talento, recupera quase magicamente violões, violas e contrabaixos que recebe em estado lastimável e os coloca na condição de instrumentos para uso perfeito. Pois bem: além disso, Joaquim é um engenhoso inventor e um ser humano de entusiasmante imprevisibilidade.

Municiado por grandes conhecimentos de hidráulica e outras artes, montou um engenhoso sistema de purificação de água que recolhe a um poço e assim abastece a sua casa. A água sai escura e, após passar por uma série de filtros, sai limpinha, para uso doméstico.

O largo portão da casa, em vez de ser aberto pelo sistema convencional, com aqueles motores que se compra em empresas especializadas, é movimentado por um interessante sistema hidráulico, todo feito a partir de peças de automóveis. Aquelas que servem para abrir portas de ônibus e porta-malas de carros.

O sistema, que obedece a controle remoto, conta com correntes de bicicleta para puxar o portão, que se abre de par em par. Só vendo para crer.

Mas o dado da imprevisibilidade encontrei num relógio que ele pôs na varanda da casa, bem à vista dos passantes. É o seguinte: ele mora nas imediações de um ponto de ônibus. E como as pessoas costumavam, com insistente persistência, perguntar-lhe as horas, ele se via obrigado a sempre entrar em casa, consultar o relógio e voltar, para dar a informação. Com isso, os passantes sabiam se seu ônibus estava no horário.

Cansado desse exercício, adotou uma solução radical: comprou um relógio grande e expôs, pendurado, na varanda. Pronto, agora ele estava livre de tantas perguntas. O relógio ficava como vigilante do tempo e ele ia cuidar de sua vida. Ledo engano: certo dia, quando dormia tranqüilamente a sua sesta, eis que a campainha toca. Ele ainda resistiu um pouco, esperando que o incoveniente visitante fosse embora.

Nada. A campanhia era insistente e afinal ele levantou-se. E qual não foi sua surpresa quando uma senhora, sua conhecida, perguntou, veja só: "Seu Joaquim, esse relógio está mesmo com a hora certa?" Coisas da vida, coisas da vida.

Quanto a mim, meu relógio da memória estará sempre acertado com as Gerais. Volto lá. Um dia, eu volto.

PS: Abaixo, um comentário a respeito do veto governamental ao projeto de regulamentação da profissão de jornalista.


Liberdade de imprensa, não; liberdade de empresa

"Se a empresa me manda fazer uma mentira e eu
concordo, sou tão responsável quanto ela.
O jornalista tem de estar preparado para
colocar o seu emprego à disposição toda
vez que tiver um conflito de consciência".
Heródoto Barbeiro - jornalista

O presidente Lula vetou integralmente o projeto de lei complementar que instituía a regulamentação da profissão de jornalista. Aliou-se ao patronato e capitulou ao lobby das grandes empresas de jornalismo. Eu já esperava por isso. Com tal decisão, prevalecem os interesses empresariais, em detrimento da boa qualidade na informação e do fortalecimento da categoria. A Federação Nacional dos Jornalistas-FENAJ, divulgou nota em que se posiciona criticamente à atitude do governo. Abaixo, a transcrição do documento.

Nota de protesto e esclarecimento
Governo cede ao lobby dos donos da mídia

Os patrões venceram. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva capitulou mais uma vez aos interesses das grandes empresas de comunicação do País ao vetar integralmente o projeto de lei que atualiza as funções da profissão de jornalista.

Orientado por sua equipe, o presidente cedeu aos argumentos falaciosos dos donos da mídia que, utilizando indevidamente do poder de difusão que têm, usaram seus veículos apenas para defender seus interesses. A atualização da regulamentação profissional dos jornalistas é uma reivindicação legítima da categoria, organizada em seus Sindicatos e na FENAJ.

O projeto de lei nº 079/2004 foi discutido e democraticamente aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal. Ao vetá-lo integralmente, o presidente nega, mais uma vez, sua origem sindical, sua luta pela organização dos trabalhadores e, principalmente, o respeito aos princípios democráticos que vigoram no Brasil.

O governo simplesmente não resistiu à pressão desigual dos donos da mídia. Capitulou aos interesses empresariais, como fez em relação à criação do Conselho Federal de Jornalistas e ao processo de implantação da TV e do rádio digital no País.A FENAJ não pode aceitar que, nessa capitulação, o governo lance mão do argumento da liberdade de imprensa e de expressão indevidamente utilizado pelos donos da mídia.

Na campanha que desencadearam pelo veto ao PL 079, grandes jornais e emissoras de TV passaram por cima da liberdade de expressão e de imprensa que falsamente dizem defender.A verdadeira ameaça à liberdade de expressão e de imprensa não é a regulamentação da profissão dos jornalistas. É, isto sim, o alto grau de concentração da propriedade privada na mídia, o conluio com elites políticas nos Estados e no Congresso Nacional e a hegemonia, no mercado de comunicação, de um único grupo, a Rede Globo.

Mais uma vez o movimento sindical dos jornalistas foi vítima de sórdida e orquestrada campanha sustentada pelas empresas, que difundiram, em escala de massa, desinformação e histeria. Transformou-se uma justa reivindicação profissional em um problema de Estado. Contaram, como sempre, com os serviçais de plantão e com novos e inesperados aliados, inclusive no campo dos trabalhadores. É condenável a postura da Federação dos Radialistas (Fittert) que defendeu o veto total, ao lado das empresas de rádio e TV, e, no momento final de negociação, propôs a retirada da função de repórter cinematográfico, previsto como atividade de jornalista desde 1969.

Como "saída honrosa", o Governo propôs a formação de um grupo de trabalho para discutir mudanças na regulamentação profissional. A proposta nasce comprometida pela postura autoritária das empresas de comunicação e de suas entidades representativas: ANJ, Abert e Aner que, sabidamente, não querem qualquer regulamentação.

A FENAJ não se furtará ao debate democrático e participará do grupo de trabalho proposto pelo Ministério do Trabalho, mas não abrirá mão dos direitos conquistados com a luta de gerações de jornalistas brasileiros. É preciso esclarecer à sociedade que aos jornalistas interessa manter e aperfeiçoar a regulamentação da profissão, e aos patrões interessa o fim do diploma, a ausência de um conselho profissional, a desmoralização das entidades sindicais e a não-observância dos princípios éticos que regem a profissão.

Por seu compromisso com esse passado de lutas e por acreditar em um país mais justo com o seu povo, a FENAJ, os Sindicatos de Jornalistas e toda a categoria vão continuar defendendo a regulamentação profissional, a exigência da formação de nível superior em Jornalismo para o exercício da profissão e a auto-regulamentação, com a criação de um Conselho Profissional. Porque tudo isso é condição para a prática de um jornalismo verdadeiro, ético e socialmente responsável.Brasília, 27 de julho de 2006


quinta-feira, 27 de julho de 2006

Ainda das Gerais: o batizado e o padre rabugento

"O homem vem à terra para uma permanência
muito curta, para um fim que ele mesmo ignora,
embora, às vezes, julgue sabê-lo".
Albert Einstein

A igreja lembrava a basílica de São Pedro. O padre mesmo disse, antes de iniciar a cerimônia de batismo. Estou em Minas, na cidade de Timóteo, para ser, em companhia da Minha Mulher, padrinho e madrinha de Lívia, filha de Jonas e Cristina.

Realmente, o templo tinha as linhas básicas da magnífica basílica, mas, além disso, tinha também um problema: o apressadíssimo padre, que com gestos bruscos advertia os fíéis que, logo após a cerimônia, todos deveriam retirar-se, o mais rápido possível.

E ficamos todos nós como aquele motorista que fica só acelerando o carro, para largar o mais rápido possível tão logo o sinal verde abra. Na verdade, não achei o padre grosseiro. Mas um trapalhão mal-humorado, Um tipo rabugento, a zelar por algo que considera como muito importante.

O homem era tão, digamos, aferventado, que a pequena Lívia, até então caladíssima, abriu o eco a chorar quando ele tentou lhe fazer um carinho. Mas não houve problema: e afinal realizou-se o batizado, que esperou quase um ano pela minha presença a fim de que fosse realizado. A data inicial fora remarcada em função de impossibilidade minha de ir até lá.

Terminada a cerimônia, ainda dava para ouvir o padre e sua algaravia de exigências, conclamando as pessoas a sair. Parecia querer o grande silêncio do templo só para seus ouvidos. Na verdade, deve ser ele um carrancudo habitante da solidão.

Mas valeu a pena. Jonas, uma grande figura e um grande caráter, e Cristina, uma mãe coruja, festejaram o batismo. Na comemoração, a voz forte de Bruno, seu violão e a presença do pai, Tone, foram notas marcantes. Também valeu, pela alegria e espontaneidade a alegria de Jeane, Edmirson e a filhinha Rafaela, além de Pedro, um pequeno furacão.

São coisas que vivi nas Gerais. Coisas boas que entram na vida da gente. Coisas que dá vontade de repetir. E as Gerais estarão sempre em nosso caminho. Ô trem bão, sô... Cê pode acreditar...


quarta-feira, 26 de julho de 2006

Caminhos, pessoas, paisagens e coisas das Gerais

"Para dizer o que vai acontecer,
é preciso entender o que já aconteceu."
Nicolau Maquiavel

Na crônica de ontem falei sobre Minas Gerais, uma visão geral da paisagem humana, o imenso cenário de montanhas, grandeza brotada da terra que se levanta intensa para o céu. Foi bom reencontrar pessoas, as mãos mágicas de Nice em sua delicada missão de fazer os melhores quitutes de uma culinária riquíssima. As atenções de seu marido, Cristiano, conhecedor emérito das melhores cachaças, daquelas sem marca, fabricadas em alambiques secretos.

No Espírito Santo, Cristianinho, que puxou ao pai, uma figura dessas que somente encontramos em situações muito especiais. Ao lado de Rosi, sua mulher, e de Sarah, a filhinha linda, tem uma família feita de paz.

Mas as montanhas das Gerais escondem, aninhado bem nos longes das distâncias, o povoado de Major Ezequiel. É um lugar onde se reverenciam memórias antigas, numa vida calma. Ali se avultaram para mim as figuras simples e boas de Geraldo e Maria. Ele, agricultor e homem de criação de gado. Ela, a expressão mais forte da mulher e mãe de muitos filhos.

Na charrete, tirada pelo cavalo Foguete, um passeio por velhas fazendas, onde chegamos por estradas difíceis, cruzando com carros-de-boi carregados. A visão do cemitério dos escravos onde, dizem, as almas fortes que ali habitam impediram que uma ferrovia por lá passasse, destruindo aquele canto cercado de misticismo e fé do povo.

No alto, uma igreja. Seu sino triste sempre toca quando alguém morre. À noite, o frio é companheiro que invade as casas. O Major, como é conhecido o povoado, é terra que venceu as mudanças e diz ao tempo que prefere ficar como está, distante das neuroses da cidade e dos seus habitantes apressados.

Não há como esquecer de Dimas e Eliana, em Belo Horizonte. Ao lado dos filhos Ígor e Erick sintetizam à perfeição o que seja tratar bem, receber, abraçar. Enfim, nessas férias, eu e Minha Mulher percorremos caminhos afetivos que há muito esperávamos rever, como Tia Nice e Tio Nilzinho.

Foi uma viagem boa, cheia de delicadas emoções. E o tempo não apagará do espelho das lembranças as imagens de tantos e de todos que nos receberam, a mim e à Minha Mulher, com seus gestos mais queridos. Dá vontade de voltar. E voltaremos, quando essa vontade se derramar pelas bordas do cálice da saudade.

terça-feira, 25 de julho de 2006

A grandeza das Gerais


"O que mais preocupa não é nem
o grito dos violentos, dos corruptos,
dos desonestos, dos sem-caráter, dos sem-ética.
O que mais preocupa é o silêncio dos bons"
Martin Luther King
Ao voltar de Minas Gerais, a lembrança deixa de ser apenas aquele pensamento fugidio, anotações emotivas que vão e vêm, como numa revista que se folheia meio ao acaso: as fotos como sensações impressas, o texto como registros que vão parar, afinal, no esquecimento.

Ao voltar das Gerais, o que ficou não é lembrança, é recordação encravada no território do bem querer. A paisagem das montanhas, vastas em sua altitude de beleza imensa; o silêncio largo, a imagem das pessoas, seus gestos, o abraço. As Gerais são um estado de espírito. O mineiro é antes de tudo alguém que sabe acolher.

Na companhia da Minha Mulher, mineira que traz no sentimento o saber do que seja aquele instante longo que é Minas Gerais, percorri caminhos do interior antigo, tradições tão belas que são esculpidas na alma das pessoas.

As Gerais são um grande encanto. Como encantadora também é Vitória, Espírito Santo, onde a fé do povo, se não remove montanhas, sobe uma delas para rezar rezas antigas, num mosteiro pleno desse grande mistério que é chegar aos umbrais do tempo e postar-se diante do sagrado.

Falarei disso tudo ao longo dos próximos dias: pessoas, amigos, familiares, reencontros, os rios, o trem, a sensação do chegar e estar bem. Afinal, a vida é feita de momentos que vão se juntando, até formar o mosaico de nossas existências.

E no mosaico que vou construindo ao longo da minha caminhada, estarão para sempre presentes os momentos que vivi. Uma hora tem minutos, que é o tempo preso dentro do mecanismo dos relógios. Mas os momentos, os instantes, não cabem dentro das horas. E são esses momentos e instantes que, longe da frieza dos minutos e das horas, se revestem da alegria e se enchem disso que chamamos de Vida. Vivi as Gerais. E disso falaremos como recordação.