quinta-feira, 5 de maio de 2011

A morte sim; as fotos, não

Obama diz não às fotos de Osama morto. Isso significa que o fantasma do terrorista persegue de perto as decisões do presidente americano, temeroso do que essa divulgação poderia significar em termos de repercussão midiática junto aos seguidores ou simpatizantes dos métodos brutais do falecido líder da Al Qaeda. Suponho que sejam imagens terríveis, um corpo desfigurado pelos projéteis das armas que o mataram. Seria o estopim mais poderoso para uma onda de violência.

Caso as imagens fossem liberadas, claro, é plausível supor que provocariam literalmente furor. Quando a decisão da morte de Osama foi tomada, é óbvio que o desaparecimento do seu corpo foi cuidadosamente planejado. Levar o cadáver a um local, qualquer que fosse, significaria criar um ponto de peregrinação e reverência, um ambiente com aura de santidade para aqueles que o admiravam. Tudo o que os americanos jamais iriam  querer.

Sim, porque se é possível eliminar um vivo, isso não se aplica às assombrações, especialmente o tipo de assombração que Osama de qualquer maneira representa - pelo menos no momento. Mas se se está falando muito nesse assunto, não tenho visto nas coisas de jornal dos noticiários de TV repercussões da morte de Osama junto ao que se convencionou chamar de Mundo Árabe.

Será que não está havendo nada, ou o grande pool da mídia internacional simplesmente está escamoteando o assunto? Uma forma de fazer jornalismo é não fazer jornalismo, ocultar o que se passa, fingir que não existe a fim de fazer de conta que algo não acontece. Mas, suponho, explica-se: seria contraproducente, do ponto de vista das potências ocidentais, refletir o que se passa naquela parte do mundo, uma vez que entraria em conflito com o noticiário exultante com a ação do pessoal da Seal, que matou Osama.

Seria importante o Ocidente saber o que se passa. Seria importante as pessoas saberem o que se passa. A democracia e o bom jornalismo são uma prática e um processo. Seria importante saber o que se passa.

Não querem divulgar fotos e outras imagens? Acho compreensível. Já temos violência demais. Todavia, o jornalismo tem a obrigação de contar o que acontece. Não contar não significa dizer quer não acontece.


Relembrando a História: plano americano Para Invadir o Brasil

Na reportagem do Fantástico os planos para a invasão de Natal pelas forças americanas na Segunda Guerra.
Reportagem exibida no Fantástico da Rede Globo em agosto de 1999. Documentos revelam que os Estados Unidos invadiriam o Brasil na Segunda Guerra Mundial.

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Grace Kelly

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Osama vive

A morte de Osama trouxe em sua essência o signo de sua imortalização como "guerreiro santo" e "mártir". Morreu o homem, ficou sua ideia, mais forte, mais encorpada. Os americanos sabem disso. Sabem o que representa uma figura martirizada. Remember, em polo bem oposto ao terrorista, Martin Luther King. Sabem que a morte de Osama não representou a morte da Al Caeda. Ao contrário, seus seguidores encontrarão motivos para continuar com a sua luta e com seus métodos cuja marca maior é a isídia violenta.

Imprensa americana repercute morte de Osama bin Laden
 O terrorismo é maneira infame de se fazer política, e Osama era bem a figura icônica desse fazer. Todavia, os criminosos não se acercaram dos Estados Unidos; antes, os EUA se atiraram às cercanias do chamado mundo árabe com propósitos muito pouco dignos. 

Vide o apoio a Israel e as investidas para dominar ou pelo menos controlar a produção de petróleo, a fim de atender à voracidade do mercado estadunidense. A resposta veio da mesma forma: tão suja quando as ações americanas no Oriente Médio e adjacências: agressão e morticínio.

A política externa americana, marcada pelo belicismo e hegemonismo, é a mesma política que permitiu e até incentivou o surgimento de tipos como Osama e todas as suas insanidades. Os talibãs, por exemplo,  foram grandemente ajudados pelos EUA quando o Afeganistão era domínio soviético. Foram armados e militarmente instruídos. Tem até um filme de Rambo em homanagem aos citados elementos. Historicamente, isso foi ontem. E veja o que são hoje os talibãs: no desejo de desalojar os invasores soviéticos abriu-se porta a um sistema de crueldade como poucos.

EUA e Al Caeda são duas forças terríveis em suas essências de brutalidade e estupidez. Esse confronto deve continuar. Vai continuar. Mas, para os terroristas da Al Caeda, há uma soturna alegria e um paradoxal conforto: Osama vive.

domingo, 1 de maio de 2011

O Espião da Pérsia

Nesta noite 1º maio de 1735 fui procurado por um Grão-Predecessor. Grãos-Predecessores são, como se entende pelo seu nomear, facundos e íngremes, o que pouca cousa não o é. Falou-me de atos e fatos e outros sucessos. Todos graves. Disse-me que vinha a cumprir missão de alta voluta e apurar denúncia: seria eu espião a serviço da Pérsia. Defendi-me dizendo que sou apenas um tipógrafo, nada entendendo de tão perigosa arte e seus intentos normalmente sinistros. 

Mas o Grão-Predecessor insistiu que sou espião a serviço da Pérsia, apresentando como prova uma série de corantos por mim impressos. Na verdade, refutei, aqueles papéis nada mais eram que relatos de acontecimentos fabulosos: aparecimento de dragões em eras já tardias, premonições de sibilas, nascimentos de grifos, ataques de súcubos e de íncubos, possessões e mistérios de arte ignota. Com isso queria eu dizer: apenas tratava de coisas do imaginário, coisas que as gentes comentam e temem. Só isso.

Foi pior: para o Grão-Predecessor, isso apenas confirmava ser eu atento e devoto a sucessos tremendos que podem levar os incautos homens simples à sedição e outros gestos de ataque, obstruindo o viver diário calmo e são. E assim sendo, comprovava-se: era eu espião a serviço da Pérsia. 

Deu-me, todavia, o benefício da dúvida, desde que provasse, pelo que estivesse a imprimir naquela hora, cousa boa e de sóbria eficácia. Levei-o à minha oficina e ali mesmo fiz rodar a prensa e eis o que leu o Grão-Predecessor: "Anuncia-se que haverá o mundo de ver cousas mais e mais terríveis do que até hoje tem sido visto e acatado como normal e necessário. As novas dizem que haverá mais fogo que nunca e uma futura pólvora chamada de explosão nuclear, que poderá destruir o mundo mil vezes, mil vezes seja ele refeito. Grandes pássaros de ferro voarão os ares e como nas previsões avoengas haverá choro e ranger de dentes."

O Grão-Predecessor, ao ver tais e tamanhas previsões, assumiu postura hierática e disse-me estar ali a prova do meu crime. Insisti em defender-me e disse que esses futuros e presumidos sucessos eram apenas o resultado de sonhos de um velho adivinho, supondo eu que se tratava, tão-somente, de cousas loucas, típicas de velhos adivinhos, prestas a encantar o fabulário popular e curto de pensar. Eu o ouvira em suas fabulações e resolvera por publicar, a título de curiosidade. Somente isso.


E tanto insisti e tanto neguei as provas contra mim, que o Grão-Predecessor afinal manifestou boa disposição, afiançando que as acusações seriam retiradas. E foi-se. Quando saiu, respirei aliviado. Especialmente porque, digo ao leitor, sou realmente um espião da Pérsia.




sábado, 30 de abril de 2011

Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces

Derci Gonçalves
A felicidade dos felizes

Eles são felizes. Caminham seu território feito de fotos coloridas, enquadramento perfeito, acelerando a um futuro azul-turquesa. Ah, como são felizes os viventes desse mundo pleno de coisas amáveis. São os amigos da Fortuna, filhos de ninhos abastados, senhores de festas e de vivas. Mas é ilusão pensar que eles não são à sua maneira sua própria ilusão. E mesmo assim posam de felizes, sabendo que a ilusão é uma felicidade que anda em marcha à ré.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Só faltam as fadas

O casamento do príncipe William e Kate Middleton é magnificado pela mídia, ávida por histórias de tragédias ou sonhos. A base para isso está no imaginário popular, nos contos de fadas, onde pessoas especiais, príncipes e princesas, reis e rainhas, viviam os sonhos devaneados por milhões.

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É como uma volta ao passado, às histórias em que tudo dava certo, os lindos casais enlaçavam núpcias e se tornavam reis bondosos para a felicidade do povo. 

Os velhos costumes ingleses cabem à luva. Carruagens belíssimas tiradas por cavalos oníricos carregam o casal real para a união, gente riquíssima pinga ouro por onde passa e uma espécie de alegria, eufórica, delirante, ganha as telas da TVs e todos pensam estar vivendo um sonho, quando na verdade imergem no escapismo. 

Longa vida, longa vida aos príncipes, que principiam no real a realidade de uma realeza que na verdade é imaginária. 

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Deu na Folha:

Autor de 'Calvin e Haroldo' cria arte inédita após 16 anos

DE SÃO PAULO
Bill Watterson, o criador de "Calvin e Haroldo", não publica uma tirinha nova desde 1995. O cartunista, porém, resolveu botar um ponto final nesse hiato de 16 anos e arregaçar as mangas por uma boa causa. 

Watterson pintou uma tela para doar ao Team Cul de Sac, projeto de outro cartunista, Richard Thompson, que tem como objetivo arrecadar grana para pesquisas sobre o mal de Parkinson. Thompson, inclusive, é portador da doença. 

A pintura feita a óleo é um retrato de Petey Otterloop, personagem das clássicas tirinhas intituladas "Cul de Sac", assinadas por Thompson. 

De acordo com o blog de quadrinhos do "Washington Post", que divulgou a imagem de tela assinada por Watterson, a campanha conta com a parceria da Michael J. Fox Foundation, mantida pelo ator Michael J. Fox, também portador do mal de Parkinson. 

Todos os trabalhos doados pelos participantes dessa campanha devem ser compilados em um livro, segundo o site especializado "Universo HQ". A renda obtida com as vendas dessa publicação será revertida para a fundação de J. Fox. 


Reprodução/Washingtonpost.com
http://www.washingtonpost.com/blogs/comic-riffs/post/this-just-in-first-new-art-from-calvin-and-hobbes-creator-in-16-years-syndicate-says/2011/04/22/AF7l7NQE_blog.html / pintura de bill watterson
Após 16 anos sem publicar quadrinhos, Bill Watterson cria pintura inédita para causa beneficente

terça-feira, 26 de abril de 2011

Um juiz atravancando o tráfego

Caminhando pelas alamedas do Campus em meio à chuva fina de fim de tarde, encontro, estacionado em frente à Biblioteca Central Zila Mademe, estacionado de maneira irregular,  um carro. O carro de um juiz, que ostentava orgulhosamente no vidro frontal o elegante e arrogante decalque "Poder Judiciário - Juiz". O automóvel estava de tal forma colocado que obrigava os demais a entrar em contramão.
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Fico pensando: que sentenças sairão da cabeça desse homem? Qual a noção de Justiça que rege seus pensamentos na hora de decidir? Um homem, um juiz, que se compraz em ocupar lugar indevido, mesmo sabendo que ofende o direito de ir e vir de outras pessoas certamente não é um bom juiz. Não é sequer um juiz, suponho. 

É o jeitinho brasileiro. Sem dúvida, se fosse abordado a respeito de seu comportamento se sairia com o velho refrão: "Sabe com quem está falando?" Fico comigo a pensar que esse é o nosso grande problema: sabemos com quem estamos falando. Sabemos que são autoridades, sabemos que são, muitas vezes, as primeiras e infringir as leis que elas mesmas muitas vezes criaram; e as primeiras mesmo a agredir, ferir, abusar, sonegar.

sábado, 23 de abril de 2011

Dos bons procedimentos

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Fui hoje procurado por um orangotango, um homem que, pelo modo de vestir seu fraque e de empunhar sua bengala de castão de prata, demonstrou-se-me ser cavalheiro de augusta fidalguia. O honorável macaco vinha, asseverou, tratar comigo de faustosos fatos e filigranas conversas. Apresentou-se como filósofo e metafísico, maçon e positivista. Ante tais predicados curvei-me em profunda reverência e o convidei ao salão de fumantes de minha casa ao notar que seu criado, um vetusto hipopótamo, trazia consigo uma caixa de havanas legítimos.

Explicou-me que tivera disposição de procurar-me após entreter palestra com o embaixador da Birmânia, um sapientíssimo sapo, também este homem de grandes pensares. O sapo o informara de que eu estava desenvolvendo estudos a respeito dos bons procedimentos e, como seria de bom alvitre, e atinando-se ele a idênticos estudos, se abalara à minha residência. 

Sendo eu um discípulo de tais e grandes estudos, agradeci longamente ao orangotango seus préstimos, pois, efetivamente, os bons procedimentos são algo que me enevoam a mente, tão e tão altos são esses estudos que minha mente não os considera empalmar, necessitando assim de um mestre e preceptor. Perguntei o que me poderia ensinar e eis o que se me afiançou:
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"Caro alumno, os bons procedimentos já os estudava antigo rei da Mesopotâmia e dele encontrei os alfarrábios de esses registros, escritos em língua morta, mas que a domino bem, são atos perfeitos que devem reger os demais atos, os chamados atos imperfeitos."

Diante de tais esclarecimentos, que jamais minha mente mentecapta os poderia alcançar, trouxe depressa brinde de rum da Jamaica, puríssimo, ao meu interlocutor, e nos abalançamos a falar mais e mais, para gáudio e alegria minha. Acrescentou:

"Os atos imperfeitos são cometidos por seres reles e comuns; e tais seres, sejam homens ou animais, animais ou homens, o que vem a ser a mesma coisa, tanto que orangotango sou  e homem ao mesmo tempo, precisam da luz dos maiorais a fim de que possam evoluir a páramos mais altos. E assim, devo dizer, os seres incomuns, dentre os quais me coloco e mim e a ti, meu alumno, buscam os atos perfeitos a fim de corrigir os atos imperfeitos."

Indaguei então como poderíamos fazer tais correções e ele mo respondeu: "Os bons procedimentos somente podem ser ensinados aos reles e aos comuns suprimindo-se-lhes os atos imperfeitos. Desta arte, devo afirmar que tal processo e exata evolução somente dar-se-á mediante um único e só caminho."

Quis eu saber qual era esse caminho e obtive a seguinte resposta: "É preciso, a todos, fazê-los guinchar. Guincando, todos se tornarão seres maiores intelectualmente e mais densos de saber, serão argutos e pensados e proferirão prodígios e explicarão muitas sabenças e outros maiores desígnios. "

Como fazê-los guinchar?, foi a pergunta a seguir. A resposta veio na forma de um vasto e poderoso látego que o magnífico orangotango despachou no lombo de um meu meu criado, solícito e bondoso mordono que nos atendia. A pobre criatura, ao sentir a força do açoite em seu espinhaço, rasgando o golpe o tecido da libré, atirou-se ao chão resfolegando e saltava como um quadrúpede e apresentando na cara ricto de dor. O segundo lepo o fez saltar mais alto ainda e em seguida veio o guincho: terrível, altissonante, pavoroso, quebrando os vidros de todas as janelas do aposento.  E guichou a bom guinchar e assim por muito tempo.

Ao cabo de tal fazer, o lacaio ergueu-se e pôs-se a dizer sábias coisas e profundas enunciações, demonstrando que agora estava ilustrado. Retirou-se indignado de minha casa, disse que não mais era mordomo e dirigiu-se a excelso colegiado de sábios enclausurado nos cumes de distante montanha, donde se destacou com pertinência ao fazer proclamas da mais grata filosofia. Tinha aprendido os bons procedimentos, disse-me o vasto orangotango.

De imediato entendi que os reles e comuns deveriam ser açoitados a fim de que, guinchando, pudessem aprender os bons procecimentos. "Sim", asseverou o solene macaco, "é pelo lepo e pelo guincho, é pela sua combinação, que teremos homens mais preparados; e apanhando todos, logo o mundo será habitado por gente que vive de e para os bons procedimentos."

Enalteci as reluzentes palavras e então ele me disse: "Mas vim aqui porque não sabias os bons procecimentos, apesar de estudá-los há anos" e eu o confirmei. Tão logo fiz a confirmação ele voltou para mim o chicote e aí percebi: ia ser chibatado a fim de guinchar e tomar posse daquele saber tão necessário. Rápido como um raio saltei de lado e o látego bateu no chão, rasgando o tapete. Vi que a coisa era séria. Nisso, o hipopótamo, que até então permenecera seentado, atirou-se sobre mim, mas a ele também o evitei. 

Então, macaco e hipopótamo tinham virado duas feras a acuar-me. Já não eram mais homens, bichos é que eram. E queriam me ensinar a ser igual a eles, a guinchar igual a eles, a título de aprender os bons procedimentos. Não me dei por vencido e chamei os ajudantes do lar, que acorreram já trazendo cordas e correntes. Ao fim de breve e intensa luta conseguimos dominá-los, entregando-os a feitor de um zoológico, que os levou.

Dias depois - disse-lhe eu, caro leitor, que tais fatos se passaram hoje, mas não leve em conta: o tempo é coisa de pouca valia para mim -, vi nas folhas dos jornais que no zoológico todos os diretores, servidores e visitantes estavam guinchando feito loucos e tal fenômeno não tinha explicação. Para mim tinha: os dois velhacos haviam se libertado e estavam ensinando os bons procedimentos. Rápido como o cão chamei os meus serviçais e todos nos armamos com mosquetes e alabardas, pistolas e pistoletes e agora estamos aqui, trancados em minha casa, esperando pelo ataque que sei logo virá.



sexta-feira, 22 de abril de 2011

 É de Cora Coralina o poema abaixo.

http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.cidadedegoiasvelho.net
Humildade

Senhor, fazei com que eu aceite

minha pobreza tal como sempre foi.

Que não sinta o que não tenho.

Não lamente o que podia ter
e se perdeu por caminhos errados
e nunca mais voltou.

Dai, Senhor, que minha humildade

seja como a chuva desejada
caindo mansa,
longa noite escura
numa terra sedenta
e num telhado velho.

Que eu possa agradecer a Vós,

minha cama estreita,
minhas coisinhas pobres,
minha casa de chão,
pedras e tábuas remontadas.
E ter sempre um feixe de lenha
debaixo do meu fogão de taipa,
e acender, eu mesma,
o fogo alegre da minha casa
na manhã de um novo dia que começa.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Meus primeiros 60 anos

Chego hoje aos meus primeiros 60 anos. É uma idade em que já foram percorridos, palmilhados e descobertos possibilidades e limites, perplexidades e certezas - certezas convictas ou quase isso. É chegada a hora de um homem aperceber-se barco, galeão e nau trirreme e saber que nestes remos muitos o ajudaram ao longo do navego, longo nevego. Mas é também momento de entender que o barco, alucinado de serenidade, é pequeno ante mar tão grande, oceano que lhe cabe cumprir. Navegar é preciso.

Sou um homem carregado de gratidão e que aprendeu a construir com paciência de cinzel as estátuas que o têm orientado, os mapas e portulanos que o ajudaram com as marcas do desafio a singrar o mar que ele mesmo descobriu como mar. Pois é preciso descobrir o mar a fim de que ele seja mais que isso: seja cortina a descerrar, e, paradoxo, terra firme a ser encontrada. E aí o homem passa de aventureiro e corsário a peregrino com albornoz e cajado.

Este aniversário traz, assim, a marca e a passagem de um só meu Cabo da Boa Esperança. Creio que encontro a maturidade, a velhice, para ser sincero, com o abraço que o tempo construiu em mim. Bem-vinda a minha velhice, velhice menina e brejeira como uma manhã que nasce. Renasço.

Fica aqui meu registro da comemoração prévia que foi feita pela Minha Mulher, Minhas Filhas, Meus Filhos, Meus Genros e Meus Netos, Minha Irmã e Meus Amigos e Amigas. Questão de agenda, sabe? E foi preciso antecipar a festa. Como disse, sou um homem carregado de gratidão. E a eles, mais que ninguém. Sem esquecer os alunos-amigos, os alunos-colegas do Curso de Jornalismo da UFRN, nautas em sua iluminada juventude. O mesmo aos professores colegas do Decom. E a Bruno Emanoel Barreto, sobrinho, filho, herdeiro do meu jornalismo.

Jornaleiro e tipógrafo que sou, foi-me uma festa, e nessa festa um jornal, o Jornal do Velho Barreto, com mensagens que ainda bem antes do aniversário foram postadas na internet, registros de pessoas queridas que a mim referiam. E assim foi feito o jornal. E como o jornal, um bolo em forma também de jornal, uma surpresa preparada com carinho e eficiência: sequer supus que a festa me seria oferecida. Um brinde.

Nordestino e apegado às coisas deste chão, criou-se a Garrafada do Velho Barreto, miniaturas, garrafinhas com a receita de como escrever. Uma poção sertaneja, como se fosse eu um raizeiro a tratar de ensinar, pela bebida do povo, como se constroi um texto. Bondade. Sou um praticante, apenas um praticante da tipografia pequena que expressa um pouco do pouco que tento saber. 

Enfim, comemoro hoje meus primeiros 60 anos. A nau é aprestada e parte para a segunda fase da aventura. A vela é panda e sei que esse mar é imenso e não tem fim; quase. Mas a aventura não me lança à distância dos que amo, antes os aproxima, pois a nave de um velho é o grande convés de todas as querências. Agradecido. De vante à ré, todo o velame está erguido e segue o galeão seu rumo. Cheio de fé, que é força básica e sem explicação; pleno de serenidade, que é o tesouro e legado dos que sabem chamar a velhice de Amiga, pois é cordial e conselheira. Um grande abraço. Naveguemos. 
Jornal impresso em papel de arroz, cobertura do bolo. Minha esposa perdeu as aulas de diagramação...


Bolo em formato de jornal enrolado.


Na hora do parabéns
  
Etiqueta da garrafada, distribuída pela minha esposa e filhos



Garrafada Velho Barreto


terça-feira, 19 de abril de 2011

Estava com um broto no portão

Roberto Carlos faz hoje 70 anos. Figura icônica de minha geração, era o arquétipo do jovem irreverente mas inconsciente das questões políticas nos anos 60. Era a época da Jovem Guarda. Durante um bom tempo suas canções, sejam aquela que dá título a este artigo, seja em Quero que vá tudo pro inferno, serviram de modelo a comportamentos divergentes, que em essência eram atitudes de superfície, contestavam as gerações anteriores em corte de cabelo - ou ausência disso - modo de vestir e de falar, mas só isso.

Estava com um broto no portão poderia ser o resumo de como se dava o namoro naqueles tempos: o rapaz ia à casa da moça e ficava no portão até no máximo às nove da noite, sendo literalmente atirado para fora depois desse horário.

Por sua vez, Quero... marcou uma pontuação diferente: houve o registro de uma forma de amar, um comportamento de amar que tinha uma pontinha inconsciente de confronto, colocava o amor dos jovens amantes em impacto com a sacralidade momentânea do estar com um broto no portão. Seria o jovem diante de um mundo a quem estranhava e refutava como mentor de padrões e normas, um mundo contestável, portanto. Daí afirmar a canção: "Só quero que você/ Me aqueça neste inverno/ E que tudo mais vá pro inferno."

À época, esse refrão, que hoje soa simples e tolo, provocou protestos. Afinal, na canção, o personagem enlouquecido de amor mandava ao diabo todo um sistema de crenças, não só quanto ao tipo de relacionamento homem/mulher entre os jovens, mas, acima de tudo - e está aí o problema - mandava aos quintos toda uma sociedade, os pais, os "velhos", à companhia do demo. 

Roberto ingressava no escorregadio caminho da contestação via confronto entre o sagrado (os comportamentos-padrão) e o profano (a assunção de que o amor carnal deveria ser admitido sem mesuras. Afinal, era a época em que homens casados tinham "duas famílias", hipócrita e formalmente admitidas nas figuras de mulheres teúdas e manteúdas. Ou seja: os caras já estavam no inferno - da mentira social - mas não admitiam).

Roberto, todavia, nunca foi um contestador. Quero... foi apenas uma composição irreverente, mesmo ferindo brios longevos. Quanto a mim, passada essa fase, ingressei no gosto pela música de Geraldo Vandré, Mutantes e Caetano Veloso, Gil e cia. Beatles, claro, jamais esqueci. 

Mas, falava eu dos 70 anos do Rei. Acho que valeu. Hoje, ele é um ersatz, uma imitação de si mesmo, sua própria reprodução, reprisando standards como quanto canta "Quando eu estou aqui/Vivendo este momento lindo". Mas, insisto, valeu. É o Rei e sua música há de ficar. E agora, ao terminar é como se estivesse ouvindo, lá longe: "Estava com um broto no portão/ Quando um grito ouvi/Pega ladrão..."
 ZOORÓSCOPO

Bichano- São geralmente agradáveis, afáveis, movem-se com lentidão e gostam muito de sobra e água fresca. Trata-se de um signo facilmente encontrável  em repartições públicas. No fundo, são boa gente, só não gostam do pesado.

Cascavel - As nascidas em cascavel são o pior tipo de mulher para se casar. Dos homens, diga-se a mesma coisa. Mas, vale um conselho caríssimos cascavelianos: é bom não se meterem com os nascidos em Tijuaçu. Esses são do bem, enfrentam qualquaer cobra, não gostam de brincadeiras e vocês podem se dar mau.

Marimbondo - Aí é preciso ter cuidado. Quem se rege por esse signo não tem qualquer atenção pelos outros, somente pensa em si. Como são geralmente pessoas feias, vingam-se de sua dor ferroando aqueles que, por qualquer equívoco, a eles estão apegados. Todo marimbodiano tem inveja dos que nascem em Abelha. 

Formiga - Nascidos para o trabalho, o formiguiano terá sempre uma condição de vida estável, muito embora dificilmente venha a enriquecer. São valorosos, confiáveis, mas não deve procurar contrair núpcias com quem é de Pavão. Podem acabar no maior buraco. E falidos.

Cavalo - Conhecidos pelo temperamento digamos, forte, para não dizer outra coisa, o cavaliano atrita-se facilmente. Mesmo que o parceiro não o tenha provocado. Cavalo, no entanto, não deve brincar com Hiena. A  mulher em Hiena não leva desaforo para casa e ainda sai rindo depois de armar a confusão.
                    

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces

Monteiro Lobato
Homenagem no Dia Nacional do Livro Infantil
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"Mé dê uma irmolinha pá minha mãe jejuá"


Quando criança, há muit'anos, a Semana Santa tinha algo de especial. Meu olhar de menino via como Meus Pais em sua contrita, simples e magnífica fé se curvavam de forma humilde ao Grandioso, ao Mistério, ao Insondável. A rezação dos fiéis era intensa e havia distribuição de pão aos pobres.

Lembro que ao lado de minhas irmãs santava-me à soleira da porta com um saco de brotes para atender a uma enfieira de pedintes; eram, em sua maioria, crianças como nós que se apresentavam dizendo: "Me dê uma irmolinha pá minha mãe jejuá."  E nós, numa alegria infante, sem perceber que à nossa frente havia todo o drama da fome, atendíamos a cada um com sorriso enorme, como se aquele encontro anual fosse estranha festa. Se havia pobres, devia-se alimentá-los. Radiante e intensa candura do repartir.

 A Semana Santa era um período em que uma espécie de louvor doloroso se espalhava aos quatro cantos. Era como se um uivo humano de culpa se impregnasse nas pessoas. Nas igrejas os santos eram recobertos por sudários roxos. Eu não entendia o porquê daquilo, mas sentia que uma angústia se aninhava naquelas estátuas e que todos deveriam sentir algum medo, um medo básico, obrigatório, e era esse medo básico e incompreensível que eu criança sentia. 

Desde então essa cor, esse roxo sofrido, passou ao meu repretório de temores.  Como o anúncio de que algo grave, temível, uma sentença matizada em tecido, se anunciava a todos, homens ou meninos. Sentença ontem e hoje, só que agora no mundo secular e profano da brutalidade e da espoliação. 

A Semana Santa era penitencial e profunda em sua incompreensibilidade minha. Uma alegria, porém, sempre vinha, quando os padres anunciavam a Ressurreição. Aí, eu sentia um sol dentro de mim, um brilho, uma alegria: tinha passado aquele breve período de clamor e eu tinha a impressão de que Jesus pegava na minha mão. Era isso o que Minha Mãe dizia, com seus grandes olhos verdes. Mesmo assim, eu continuava sem entender porque Ele tinha que morrer todo ano. 

Hoje, a Semana Santa é um evento turístico, um feriadão malandro e cheio de ginga. As pessoas perderam vínculo com as tradições populares que cercavam aqueles dias. E as crianças já não distribuem mais brote à porta de casa. Mas os pobres e famintos continuam buscando pão; só que normalmente lhes é dado circo. 

A Semana Santa virou um grande brinde com vinhos caros e hoje é apenas pacote turístico. Mas o menino que ainda a mim habita me diz que entre o então do clamor rumoroso e ingênuo daquela fé, e o agora dos festivais turísticos, cristalizou-se no coração dos homens a rocha da perda daquela solidariedade tão chã e tão simples, simbolizada na distribuição do pão.

De qualquer forma o Mistério ainda habita a minha alma. Ainda acredito que é preciso ter uma irmola para dar às mães que precisam jejuar.



sábado, 16 de abril de 2011

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A Folha está promovendo um escarcéu em torno de texto que sequer foi publicado, de autoria de FHC. É o que se chama, em jornalês, de "balão de ensaio", uma coisa de jornal que visa "testar" até que ponto alguém pode medir a importância ou impacto de suas palavras ou atitudes midiáticas. O balão de ensaio surge de algo que em si não tem valor algum ou o tem de forma relativa;  visa atender unicamente o interesse de alguém em torno da promoção de seu nome ou instituição a que seja ligado. No caso, o jornal pretende criar e promover um pesudoacontecimento - o "debate" interno do PSDB - a fim de promover esse partido. Leia a matéria.

Oposição discorda de FHC e defende foco no 'povão'

DE SÃO PAULO
Hoje na Folha Líderes da oposição, entre eles Aécio Neves (PSDB-MG), discordaram ontem do teor do artigo em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso propõe que desistam do "povão" para investir na nova classe média, informa reportagem de Catia Seabra, Vera Magalhães e Daniela Lima, publicada na Folha desta quarta-feira (íntegra somente para assinantes do jornal ou do UOL).
Já o ex-governador José Serra fez vários elogios ao texto e disse que este não é o "ponto essencial" do texto. 

Em artigo que será publicado nesta semana e revelado pela Folha, FHC defende uma revisão profunda da estratégia do PSDB e da oposição para voltar ao poder.
O tucano diz que a oposição deveria desistir de conquistar as camadas mais pobres do eleitorado e se conectar com a nova classe média.

Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces Faces

Osni Mubarak
Foto: Amr Nabil
Deu no jornal que o ditador decaído teve um enfarte durante interrogatório. É duro olhar a própria face.

Jornal Nacional - Wellington Menezes - Video -

terça-feira, 12 de abril de 2011

Ladrões agem livremente no setor II do Campus da UFRN e roubam 7 datashows

Recebo da chefia do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes-CCHLA a seguinte mensagem: Verifiquem na página do CCHLA (http://www.cchla.ufrn.br/) os vídeos e imagens da ação de suspeitos relacionada ao furto de sete datashows no Bloco I do Setor II, no sábado, 19 de março de 2011.

Se alguém reconhecer os três suspeitos, por gentileza, informe ao Setor de Segurança da UFRN pelo telefone 08000842050.

A Direção
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A ocorrência revela, a uma primeira visão, a fragilidade do sistema de vigilância da UFRN. Se não, por que os ladrões agiram com tanta desenvoltura, como mostram o vídeo e as fotos? A implantação de um sistema de câmeras supõe que existam agentes de defesa atentos e aptos a reagir à altura a tais situações. O que se vê é, ao contrário, os presumidos autores do roubo circulando livremente e aparentando despreocupação, à luz do dia.  
 
Pergunta-se: não havia nenhum agente atento às câmeras e assim pronto para reunir pessoal suficiente para enfrentar os criminosos? Por que ninguém viu quando a ação se desenrolava? Por que tamanha falha? E afinal: para que servem mesmo as câmeras? Quais as atitudes tomadas internamente para apurar o fato e descobrir o motivo de tamanha displicência? Como conseguiram entrar e sair sem problema algum? A segurança da UFRN, ao que parece, precisa, no mínimo, de treinamento para executar sua função.

Veja as fotos.
 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Em defesa da greve civil ou o direito de não votar

Estranho país esse nosso, onde somos obrigados a votar como se fosse um direito. Aqui, voto é obrigação. Quer dizer, os políticos não são eleitos, eles se fazem eleger, o que é bem diferente. Somos obrigados a referendar, a cada dois anos, homens e mulheres que comporão a elite mascarada desse baile burlesco. 

Voto deveria ser direito e, sendo direito, caberia a possibilidade de não ser exercido. E esse não-exercer seria uma forma de exercício democrático, um repúdio, um cometimento saudável e urgente. 

Seria o que se chama em Direito um ato comissivo por omissão. No caso, omissão como ausência às urnas mas comparecimento à esfera da sociedade civil indignada com o mar de lama. 

Não prego o absenteísmo ou o indiferentismo; defendo a mobilização cidadã pelo não. Isso serviria de choque cultural às práticas políticas, à impunidade, ao jeitinho, à maracutaia, à perpetuação de candidatos - sempre eleitos ou reeleitos - para continuar com sua sanha de ganância e ganhos sujos.

É preciso ter o direito de não votar. É preciso ter o direito a essa greve civil.

domingo, 10 de abril de 2011

Poemas de Florbela Espanca
 
Fumo

Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas;
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!




O nosso mundo

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?...Que importa o mundo seus orgulhos vãos?...
O mundo, Amor?... As nossas bocas juntas!...




Não ser

Ah! arrancar às carnes laceradas
Seu mísero segredo de consciência!
Ah! poder ser apenas florescência
De astros em puras noites deslumbradas!

Ser nostálgico choupo ao entardecer,
De ramos graves, plácidos, absortos
Na mágica tarefa de viver!
Deu no Estadão:



100 dias de Dilma: a mulher é o estilo

No pós-Lula, a primeira presidente a comandar o Brasil consolida sua marca ao imprimir pulso forte, porém discreto, à gestão; ajuste das contas e ameaça de inflação ainda são desafios



 Dilma Rousseff completa neste domingo, 10, 100 dias no cargo de presidente da República com o feito de ter dirimido a dúvida mais mordaz lançada contra ela por seus opositores durante a campanha eleitoral do ano passado: seria Dilma, criada à imagem e semelhança de Lula, capaz de comandar o País sozinha? Para silenciar os críticos nesse quesito, a primeira mulher a ocupar a Presidência fez questão de imprimir a marca de uma governante austera e discreta.
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Tais características provocaram comparações inevitáveis com seu antecessor e padrinho, um político afeito aos discursos e ao embate direto com a oposição, a mesma oposição que, para fustigá-lo e tentar enfraquecer seu mito, passou a elogiar o jeito de Dilma comandar o País. A presidente, no entanto, nunca incentivou de público esse paralelismo, ainda que na política externa e na questão dos direitos humanos tenha adotado medidas frontalmente contrárias à atuação de Lula na área.

Os afagos da oposição se restringiram à forma. No PSDB e no DEM, ganham corpo as críticas ao conteúdo: "gastança" do governo, desaceleração do PAC e ameaça de inflação. O corte de R$ 50 bilhões no Orçamento não convenceu o mercado e os opositores de que as contas públicas estão sob controle. Dúvidas de gestão à parte, resta ao fim dos 100 dias a certeza de que Dilma se impôs. Parafraseando o francês conde de Buffon (1707-1788), para quem "o estilo é o homem", hoje "a mulher é o estilo".

 

Chuva boa que chega e se espalha em luz


Uma chuva mansa enxameia as copas das árvores, alisa as flores, recobre os gramados com suas luzes d'água.
Brisa molhada se espalha de lento em lento e, sem pressa, diz que é ventania amiga e que dela não se espere nem se tema a força de um simum, a potência de um mistral, o rigor de um minuano ou o perigo de um siroco. 

É uma chuva nordestina, daquelas de quem o sertanejo gosta e chama de sua. Boa chuva que cai sobre Natal e escorre pelas calçadas. Boa chuva... boa chuva...