terça-feira, 19 de abril de 2011

Estava com um broto no portão

Roberto Carlos faz hoje 70 anos. Figura icônica de minha geração, era o arquétipo do jovem irreverente mas inconsciente das questões políticas nos anos 60. Era a época da Jovem Guarda. Durante um bom tempo suas canções, sejam aquela que dá título a este artigo, seja em Quero que vá tudo pro inferno, serviram de modelo a comportamentos divergentes, que em essência eram atitudes de superfície, contestavam as gerações anteriores em corte de cabelo - ou ausência disso - modo de vestir e de falar, mas só isso.

Estava com um broto no portão poderia ser o resumo de como se dava o namoro naqueles tempos: o rapaz ia à casa da moça e ficava no portão até no máximo às nove da noite, sendo literalmente atirado para fora depois desse horário.

Por sua vez, Quero... marcou uma pontuação diferente: houve o registro de uma forma de amar, um comportamento de amar que tinha uma pontinha inconsciente de confronto, colocava o amor dos jovens amantes em impacto com a sacralidade momentânea do estar com um broto no portão. Seria o jovem diante de um mundo a quem estranhava e refutava como mentor de padrões e normas, um mundo contestável, portanto. Daí afirmar a canção: "Só quero que você/ Me aqueça neste inverno/ E que tudo mais vá pro inferno."

À época, esse refrão, que hoje soa simples e tolo, provocou protestos. Afinal, na canção, o personagem enlouquecido de amor mandava ao diabo todo um sistema de crenças, não só quanto ao tipo de relacionamento homem/mulher entre os jovens, mas, acima de tudo - e está aí o problema - mandava aos quintos toda uma sociedade, os pais, os "velhos", à companhia do demo. 

Roberto ingressava no escorregadio caminho da contestação via confronto entre o sagrado (os comportamentos-padrão) e o profano (a assunção de que o amor carnal deveria ser admitido sem mesuras. Afinal, era a época em que homens casados tinham "duas famílias", hipócrita e formalmente admitidas nas figuras de mulheres teúdas e manteúdas. Ou seja: os caras já estavam no inferno - da mentira social - mas não admitiam).

Roberto, todavia, nunca foi um contestador. Quero... foi apenas uma composição irreverente, mesmo ferindo brios longevos. Quanto a mim, passada essa fase, ingressei no gosto pela música de Geraldo Vandré, Mutantes e Caetano Veloso, Gil e cia. Beatles, claro, jamais esqueci. 

Mas, falava eu dos 70 anos do Rei. Acho que valeu. Hoje, ele é um ersatz, uma imitação de si mesmo, sua própria reprodução, reprisando standards como quanto canta "Quando eu estou aqui/Vivendo este momento lindo". Mas, insisto, valeu. É o Rei e sua música há de ficar. E agora, ao terminar é como se estivesse ouvindo, lá longe: "Estava com um broto no portão/ Quando um grito ouvi/Pega ladrão..."

2 comentários:

Leandro Cunha disse...

O RC romantico é o cara.Mas antes de se descobrir como tal nos fez vergonha com essa tal de jovem guarda copiando os jovens dos EUA em época de contestação por aqui. Dia 19 se comemora também o dia do índio e os 125 anos do nascimento de Manuel Bandeira.Esses sim,brasileiríssimos.

Andressa Vieira disse...

Apoiado, Leandro.