terça-feira, 7 de abril de 2009


Nasceu Murilo, meu segundo Neto
Emanoel Barreto

Nasceu há pouco menos de uma hora* Murilo, meu segundo neto.
Que seja forte para viver o mundo que o nosso tempo nos legou.
Que seja belo para poder brilhar em meio à beleza imensa dos dias e das noites.

Que tenha coragem para desafiar as batalhas que vierem.
Que seja bom, para dar aos pais, Mirna e Edgar, a alegria terna que brota de todos os azuis.

Que seja travesso, peralta, corredor e inventivo, para brincar com Eduarda, a irmã que desenha estrelas todos os dias para esse avô.

E que nos dê a todos o seu olhar de inocência, e nos traga luz e paz.
Um grande abraço, meu pequeno menino. Vovô já o espera para grandes cavalgadas.
(Refiro às dez horas da noite do dia 7 de abril).

segunda-feira, 6 de abril de 2009

O Bicho
Deixo você com Manuel Bandeira. Um grito pasmo.
Emanoel Barreto


Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

sábado, 4 de abril de 2009


Os terrores noturnos e a flecha que voa de dia

Emanoel Barreto

A morte do jornalista e ex-deputado federal Márcio Moreira Alves, uma das figuras icônicas da minha geração, a geração de 1968, transforma aos poucos a história ainda viva em seus personagens em lembrança. Quer dizer: história será sempre história; para mim é que é lembrança, vira saudade.

Pessoas e seus gestos largos de coragem começam a desaparecer. Logo para nós, uma geração que não acreditava em ninguém que tivesse mais de trinta anos. Estávamos todos liberados para viver a eterna juventude. Tolos e sublimes, como éramos.

Ainda me lembro das passeatas de 68, maio de 68. Um movimento que começou em Paris sob a liderança de um jovem, Daniel Cohen Bendit, Danny o Vermelho, espalhou-se pela Europa, ganhou os campi norte-americanos e explodiu como uma bomba de girassóis insurretos na América do Sul, Brasil. Natal, por consequência.

O lema: "Seja realista; peça o impossível." De alguma forma continuo pensando assim. O impossível será sempre a minha meta. Mesmo caminhando entre os terrores noturnos e sob as flechas que voam de dia.

(Na foto, Márcio faz seu tremendo discurso, em que conclama as mães a não deixar que seus filhos fossem assistir ao desfile de 7 de Setembro, lembrando que os militares que então desfilariam eram os mesmos que prendiam aqueles meninos e meninas e davam sustentação à ditadura).

sexta-feira, 3 de abril de 2009


Desejo de matar
Emanoel Barreto

Escorado por um desespero sem fim, um homem invadiu um prédio nos Estados Unidos e matou 13 pessoas. Está na net, nas coisas de jornal de todo o mundo. Não conheço qualquer estudo a respeito do motivo ou motivos para tais atos. Mas, qualquer pessoa medianamente informada, sabe que nos EUA tais comportamentos são uma espécie de recidiva social: algo doentio que, num ciclo de sazonalidade instável, acontece naquele país. E aparentemente só naquele país.

O que faz alguém, municiado por um incontrolável desejo de matar, atirar-se a essa aventura insana que termina com o agressor também morto, muitas vezes por suicídio? Estranho mundo esse nosso, estranho país aquele. Suponho que haja estudos sociológicos buscando esclarecer tais acontecimentos. Enquanto isso, fico supondo: é parte da condição humana chamar a atenção para si quando em estado de angústia. No caso, esse desespero é como se fora um grito, a denúncia desequilibrada de uma solidão intensa, tão intensa que precisa da morte, do vazio, do nada, para se completar. E, aí sim, ser solidão em estado puro.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Foto: Miguel Claro
Silêncios, sombras
Emanoel Barreto

Sombras solúveis irrompem lentamente
e se misturam plenas em si mesmas.

Em silêncio nós somos liquefeitos
e seguimos os passos do não-vir.

terça-feira, 31 de março de 2009

Ouvirus do Ipiranga às margens plácidas...
Emanoel Barreto
Não vamos falar do 31 de março. Não vale a pena. O espírito do mal que foi feito está vagando na treva amarga do ostracismo da História. Hoje, mais a vale a pena falar da ameaça que, dizem as coisas de net, está por desabar amanhã, Dia da Mentira. Um vírus que deverá ter sua força maliciosa exponencialmente aumentada, podendo atacar milhões de computadores em todo o mundo.

O mal de 1964 e o mal dos vírus de computadores têm algo em comum: a malignidade humana em suas manifestações mais nefastas. O primeiro no negror do medo do comunismo, o outro na resplendente tela do computador. No fundo, ambos vindos do mesmo vértice: a necessidade de poder imtimidar e de alguma forma dominar.

Então, cuidado com amanhã, para que a ditadura do vírus não pegue seu computador, como fizeram com nosso povo em primeiro de abril de 64.
PS: Terminei falando em 64. Mil perdões.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Dona da Daslu: poderosa, heim?
Emanoel Barreto

A Folha conta: A condenação de quase cem anos de prisão imposta a Eliana Tranchesi, dona da Daslu, e a seu irmão Antônio Carlos Piva de Albuquerque é um fato isolado ou pode ser o início de uma tendência da Justiça para punir quem é acusado de fugir do pagamento de tributos? Para advogados criminalistas, tributaristas e ex-dirigentes da Receita Federal, a pena determinada para Tranchesi e seu irmão - os dois conseguiram liminares da Justiça e já estão em liberdade - representa decisão isolada de uma juíza (Maria Isabel do Prado, da 2ª Vara Federal em Guarulhos) e não deve ser exemplo para outras sentenças que envolvam crimes de sonegação fiscal.

Detalhe: Para o ex-secretário da Receita Federal e consultor tributário Everardo Maciel, a sentença dada à dona da Daslu é "completamente desproporcional". "Não conheço o caso específico, mas sinto que existe uma espécie de má vontade e indisposição contra pessoas que têm boa situação financeira. A condição financeira não deve ser critério para proteger, muito menos para perseguir."

... A sra. Eliana Tranchesi e seu irmão são criminosos. Se foram condenados, são criminosos. E criminosos de alta periculosidade. São detentores de periculosidade social. O que quero dizer com isto? Simples: fazem um mal coletivo. Sonegam impostos, quer dizer, roubam dinheiro que deveria ser encaminhado aos cofres públicos, por conseguinte, dinheiro público, para uso a favor do público.

Com isso, configuram-se como indivíduos de periculosidade. Cavilosos, juristas entrevistados pela Folha minimizam a ação dos dois, alegando que não houve crime de sangue. Manipulam o repúdio histórico e ancestral ao provavelmente mais antigo delito do mundo: o homicídio. Com como não mataram, mas "apenas" se apoderaram de dinheiro público praticando, digamos assim, crimes delicados acham que não devem ser punidos. Maria Antonieta também, pensava assim, não? Perdeu a cabeça.

Detalhe Final: os dois irmãos já estão livres. Ganharam liminar e podem voltar às suas atividades.

quarta-feira, 25 de março de 2009

A "compaixão" de Pedro Bial
Emanoel Barreto

O jornalista e apresentador do BBB, Pedro Bial, disse "sentir compaixão" pelos participantes do programa, que explora a necessidade humana de busca do sucesso e dinheiro fácil, expondo suas vítimas a situações vexatórias.

Bial fala com a autoridade de quem participa da trama e manipula os BBBs. Certamente ninguém melhor que ele para sentir "compaixão", uma vez que integra o núcleo dos que levam aquelas pessoas a se expor em toda a sua fragilidade, indignidade, cupidez e degradação de valores.

O BBB é uma produção de mídia que pode ser vista sob diversos enquadramentos: sociológico, psicanalítico, político, filosófico, moral, etc... etc...etc...
É uma espécie de supra-sumo, cúmulo do quanto o ser humano pode ter despertados seus instintos mais baixos a troco de alguma forma de poder, de alguma forma de escapar do sofrimento. Ter dinheiro é uma delas.

A partir disso o programa foi formulado e ganhou adesão de mídia mundial, sendo apresentado em vários países. Quem o criou está milionário. Trata-se de um espetáculo lamentável, que imbeciliza a audiência e transforma idiotices em assunto cotidiano.
É uma forma de estupidificar as pessoas, que por momentos esquecem os problemas do mundo real e se ligam a um mundo fictício, onde os seus dilemas, vividos nesse mundo real, encontram-se representados de forma reducionista na performance dos BBBs.

A brutalidade da exploração das pessoas por um sistema social e econômico cruel ganha contornos embaçados na luta dos BBBs para alcançar o milhão a ser entregue ao vencedor. Não é assim também na vida? Não é assim, mês a mês, que o trabalhador se esforça, para afinal receber o salário? Não é um truque baixo a má divisão de renda? Pois se assim é, o que acontece no maior repete-se no menor.

No mundo da vida há a exploração da mão-de-obra. No BBB, há a exploração da condição humana. No fim, é tudo a mesma coisa.

terça-feira, 24 de março de 2009


A História do Brasil revista e ampliada (3)
Emanoel Barreto

A construção de Brasília não foi feita por Juscelino Kubitschek. Na verdade, foi um ator da Globo, na minissérie JK, quem levou a empreitada adiante. O objetivo era manter a audiência da emissora bem alta e enfrentar o crescimento da Record. Com a construção de Brasília deu-se andamento ao processo político, chegando à presidência Jânio Quadros. Mas, como a minissérie acabou, Jânio, que não havia conseguido emprego na Globo, entrou em pânico. Como iria continuar administrando se o programa havia acabado? Esse o motivo de sua renúncia.

Depois, veio o golpe de 64. Quando os militares assumiram o poder começou a construção da Transamazônica, uma estrada que, diziam os entendidos, levaria todo o povo ao Paraíso. Quando ficasse pronta todos poderiam chegar ao Céu facilmente, mas a pé. De carro não valia. O problema era que era muito difícil fazer uma estrada até o Céu, que fica muito alto. A Transamazônica ia virar uma ladeira extremamente inclinada.

Então, como estava já muito caro continuar com as obras, o projeto foi esquecido. Depois, os militares viram que esse negócio de administrar o Brasil é coisa de muita ciência e deixaram os civis voltar ao comando. Com isso voltou a democracia. Que, como se sabe, é o governo dos demos. E como os demos não gostam muito de trabalho, chamaram o Congresso. O Congresso também não gosta lá muito de trabalho. Assim, Brasília tornou-se infestada de mandriões que, entre um bocejo e outro, vão dormir. Isso quando não estão em tenebrosas transações.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Alma minha, gentil...
Emanoel Barreto

Alma minha, gentil, não vês que já há choro e ranger de dentes
e ainda nem chegou o Apocalipse?

Alma minha, gentil, não sabes dos dramas e pesares
que pesam sobre o mundo?
Alma minha, gentil, por que te calas?

Alma minha, gentil, será que és gentio?

sábado, 21 de março de 2009


A História do Brasil revista e ampliada (2)
Emanoel Barreto

Ao contrário do que dizem os livros escolares, quem proclamou a independência do Brasil não foi Dom Pedro I. A independência foi proclamada por Tarcísio Meira, em aclamado filme produzido durante a ditadura. O filme tinha por objetivo contar a vida e a obra de Dom Pedro, mas Tarcísio Meira, que pretendia uma vaga de senador biônico, aproveitou a oportunidade e praticou um ato heróico: deu-nos a independência e tomou o lugar de Dom Pedro. Esperto, não? Assim nos tornamos independentes.

Meira foi desafortunado. Não conseguiu sua pretendida vaga de senador biônico. Pegou um táxi e foi À Rede Globo pedir emprego. Conseguiu. Afinal, era de boa política para a Globo ter a seu serviço o campeão da Independência. E Tarcísio ficou. Ganhou muito dinheiro. Tempos depois ele participou da minissérie "A muralha".

Ali, ao longe, via-se uma massa escura. Todos pensavam que fosse uma muralha. Daí o nome da minissérie. Tarcísio liderou uma expedição para desvendar o mistério e, de olhos arregalados, descobriu: era São Paulo, já naquele tempo poluída. Assim São Paulo passou a ser do Brasil. Antes, era do Paraguai, motivo da Guerra do Paraguai.

........No próximo capítulo trataremos da fundação de Brasília.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Índio não quer apito
Emanoel Barreto

Com a demarcação contínua da reserva Raposa Serra do Sol, os índios, os verdadeiros donos do que hoje chamamos de Brasil, obtêm vitória histórica. Povos indígenas oprimidos, chacinados, contaminados pelos nossos piores vícios e indignidades foram, ao longo do tempo, perdendo identidade, cultura e terras. Especialmente terras, que são o que interessa aos poderosos.

Agora, de alguma forma isso se repõe e os indígenas, organicamente encaixados na sociedade branca, conseguem funcionar como sociedade civil e readquirem um patrimônio que sempre fora seu, embora conspurcado.

Há vozes discordantes, vozes que defendem o "progresso", o "desenvolvimento", ou seja: o uso da selva como região de plantio ou o que seja, qualquer coisa, desde que dê lucro. Diz-se que é terra demais para os índios. Mas esquecem o que foi feito com esses povos e o que a nossa sociedade fez com a chão da terra chamada Brasil.

quinta-feira, 19 de março de 2009

E no Senado, os senadores senam...
Emanoel Barreto

As coisas de jornal da Folha informam: 1) Senado "descobre" ter mais de 2 diretores para cada senador.

2) Nos últimos oito anos, número de cargos de direção na Casa saltou de 32 para 181.

3) Congressistas se disseram surpresos, mas criação de diretorias, algumas com só uma pessoa, foi aprovada por votação em plenário.

.......... Perplexidades filosóficas: a criação desses cargos significa que os senadores estão senando? Mas como senam, se não acenam com o lenço branco da verdade, mas se assentam sem assear-se de mãos que não se lavam? Não sei, não sei, não sei. Só sei que dessas mãos respingam gotas de um orvalho de imoralidade. E isso não se lava. Se leva e se esconde. Os senadores senam e essa cena querem manter no limbo. Escuro. Muito escuro.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Se não tem pão, coma brioche
Emanoel Barreto

Com as mudanças no mercado de capitais, a insegurança, como dizem "eles", os bancos agora estão querendo tirar muito de quem já tem pouco: agora "eles" estão querendo que o governo autorize a redução na renda das cadernetas de poupança, a fim de beneficiar quem?, quem?, quem? "Eles", naturalmente.

Os mecanismos de poder, as diversas formas de homens ou grupos de homens determinarem o que os demais devem ou podem fazer, são muitos. Um destes mecanismos é a posse, a propriedade e o controle do dinheiro.

E os bancos, agora, intentam mais uma manobra, a incidir diretamente sobre o pequeno poupador, aquele que não tem informações nem disponibilidade financeira para investir em fundos ou ações.

A redução no rendimento da poupança, que já baixo, corre o risco de cair ainda mais. "Eles" não querem e sequer cogitam de abrir mão de seus polpudos lucros, lucros advindos da usura social que desaba sobre os mais fracos. É histórico: sempre que as elites perdem, se é que perdem, mesmo que seja só um pouquinho, tratam de aumentar o fardo dos que trabalham para sustentar a sua inércia.

Não é justo. Mas é o que está posto. E se o povo não tem pão, como dizia a rainha Antonieta, que coma brioche.

terça-feira, 17 de março de 2009

Ele é um bom companheiro
Emanoel Barreto
Deu na Folha: O presidente dos EUA, Barack Obama, disse que o pagamento pela seguradora AIG de bônus de US$ 165 milhões aos seus funcionários é um "ultraje ao contribuinte americano" e afirmou que o governo fará de tudo para reverter a decisão. "Essa não é apenas uma questão de dinheiro, é sobre valores fundamentais.""Por todo o país, existem pessoas que trabalham duro e cumprem suas responsabilidades todos os dias, sem o benefício de resgates governamentais ou bônus multimilionários. E tudo o que eles pedem é que todo mundo, desde "Main Street" (rua principal, uma referência à economia real) até Wall Street e Washington, jogue com as mesmas regras. Essa é uma ética que nós temos que exigir."

.......Os gerentes, criadores e usufrutuários da crise, agora querem um home care para sair do choque. Procupadíssimos com sua aflitiva situação, não se cansam de encontrar novos meios para locupletar suas vontades de dinheiro, mais dinheiro.

As elites que geraram a atual situação encontram-se em plano privilegiado: após arrombar o cofre social, querem que desse mesmo cofre saia sua própria solução. Trata-se de um processo perverso em que a vítima, o mundo todo, é obrigada a ressarcir de uma de forma os seus algozes.

As economias cambaleiam, gente perde emprego em todo o mundo, mas os responsáveis exigem dinheiro, bônus cruel para atender a seus instintos. Oremos.

segunda-feira, 16 de março de 2009

A voz que então falava
Emanoel Barreto

É terror, é medo, é desespero?
É, é tudo isso e ainda desamparo.
Na boca presa o coração estala.
Na alma tensa o sol já se apagou.
Depois, vem mais um dia.
E quando o dia acaba a voz que falava é silêncio, cicio, noite mortiça, neblinas, negror.

sábado, 14 de março de 2009

O homem que semeava escuridão
Emanoel Barreto

Um dia conheci um homem que plantava escuridão.
Por onde andava, tudo virava noite.
Mas não se dormia, porque ele havia semeado insônia.


Anos depois reencontrei o homem e gritei na treva densa: "Onde estás?"
Ele respondeu: "Não sei. Eu mesmo me perdi."

Depois, encontrei A Mulher que desenhava luas.
Ela deu-me um pequeno grão de luz e me tirou de lá.


quinta-feira, 12 de março de 2009

terça-feira, 10 de março de 2009

O teu futuro espelha essa grandeza
Emanoel Barreto

Deu na Folha: O Senado pagou pelo menos R$ 6,2 milhões em horas extras para 3.883 funcionários em janeiro, mês em que a Casa estava em recesso e quando não houve sessões, reuniões e nenhuma atividade parlamentar.

Trata-se, como se vê, de uma farra, uma festança com o dinheiro público. Em outras palavras, corrupção, desvio do que seria a atividade congressual, que passa a ser provedora de fundos para um magote de funcionários que, no período em questão, não estavam "funcionando".

Isso me lembra uma seita medieval, cujos pressupostos diziam que o ser humano nasce com uma determinada quantidade de pecados; para perder essa carga a solução era muito simples: pecar, pecar bastante, até que o último, o mais mínimo, o mais minúsculo e maneiro pecadilho tivesse sido, digamos assim, retirado do da alma, do corpo espiritual. Aí sim, o pecador estaria enxuto de culpas e poderia dedicar-se a uma vida beatífica e pia. Faz sentido...

Acho que é isso o que se passa na vida pública desse país: os pecadores estão expurgando os pecados pelo ato mesmo de pecar. Então, sem críticas a eles: são todos pessoas bem intencionadas. No fundo, tudo gente que quer, pelo pecado, chegar à condição de santo e fazer tudo pelo bem estar do próximo. Só que, antes, querem bater a carteira do próximo. E a santidade, bom, a santidade fica para a próxima vez.

segunda-feira, 9 de março de 2009


Armagedon
Emanoel Barreto

Ele tornou-se mestre no xadrez do silêncio.
E aprendeu a descobrir entranhas.
Ela tornou-se sábia no olhar de nuvens.
E virou profetiza de nevoeiros e sombras.

E no tempo do mundo uma era fabulosa de gritos de terror
aclamou as mais terríveis máquinas da morte.
Depois, explosões e peste, tremores e fim.
Mas os dois seguiram longe.
O mundo ficara para depois.

domingo, 8 de março de 2009

A Mulher
Emanoel Barreto

A Mulher traz nas mãos a luz para após o entardecer.Ela preparou o pão, olha o horizonte e sabe que dali brotará tempestade. Tudo está vermelho, aceso de perigo. E o perigo virá.

Mas A Mulher anteviu tudo, sabe dos ventos de tempestade e deixa a nossa tenda pronta. E então, quando nascem os dramas do mundo, estamos sós e plenos. E a tenda flutua acima de aquilo tudo.

Pela manhã, A Mulher reluz com o sol e diz que, sim, ela é um raio de estrela. E acende nos meus olhos a doce imagem de navegar nossos sonhos.


.........


Walter Medeiros manda sua homenagem à mulher.

Uma homenagem a Lois
--- Walter Medeiros* - walterm.nat@terra.com.br


O Dia Internacional da Mulher – 8 de Março - tem sido uma data marcante, pelas manifestações, pela luta, pelas homenagens, pelas reflexões e pelo registro que é feito nos mais diversos meios, pelo mundo inteiro. Além da lembrança da origem da data – o massacre das operárias em 1857 – sempre são referidas mulheres de todos os lugares e todos os tempos que fizeram ou fazem da sua vida um exemplo a ser seguido por toda a humanidade.


Nesse 8 de Março de 2009 quero trazer para os leitores alguns dados da vida de uma mulher que teve um papel importante e de alcance inestimável, cuja atuação mudou o rumo de muitas vidas, contribuindo para a harmonia de milhões de lares. Uma mulher cujo trabalho resultou da experiência adquirida com o seu próprio sofrimento e que apesar de todos os problemas que enfrentou nunca desistiu e conseguiu implantar uma instituição que certamente vem mudando o mundo.


Ela teve origem numa família estruturada, equilibrada, onde tinha um irmão, foi educada com amor, recebeu lições de união, perdão, paz; a mãe, do lar, o pai médico ginecologista e cirurgião. Mas seu casamento foi algo de convivência difícil, ao que somaram-se três gravidezes tubárias, insanidades, discussões, intolerâncias, resultado do alcoolismo do seu marido, a quem chegou até a dizer, certa vez: “Você não tem sequer a decência de morrer...”. Foram 17 anos de convivência e sofrimentos para ambos, pois no seu alcoolismo seu marido era um doente e a doença causou a destruição das carreiras de ambos.


Depois de todas as Turbulências do Alcoolismo, nasceu a sublime e abençoada associação de Alcoólicos Anônimos, em 1935, pelas mãos de Bill W. e Robert (Bob) Schmidt, com a colaboração, apoio e compreensão daquela mulher. Refiro-me a Lois Wilson, nascida em 04 de março de 1891 e falecida em 06 de outubro de 1988, que fundou, em 1951, os Grupos Familiares Al-Anon, cujo objetivo é ajudar aos familiares de alcoólatras a compreender a doença alcoolismo e conviver com os problemas que a doença acarreta para as famílias dos alcoólatras.


Em recente evento destinado a profissionais, uma representante daquela irmandade explicou que Al-Anon surgiu da mesma ‘necessidade’ de Alcoólicos Anônimos - a necessidade de ‘dialogar’, de uma pessoa entender a outra, delas falarem a mesma linguagem, trocarem as experiências vividas com seus entes queridos doentes, que tanto lutavam para largar a bebida e não conseguiam. As esposas dos alcoólatras descobriram que o estado em que se encontravam era resultado do convívio sob o domínio do álcool, quando familiares e amigos dos alcoólatras se tornavam pessoas também doentes, de uma doença emocional.


A troca de experiências mostrou o caminho a seguir, e dali surgiu o lema da entidade: “Evite o primeiro atrito”. Segundo Al-Anon, ao evitar o primeiro atrito os familiares fazem com que muitos problemas sejam evitados também, pois sempre que existe um confronto com um alcoólatra - embriagado ou não - as conseqüências podem ser drásticas.


Lois é considerada uma heroína, pelo trabalho realizado com a sua amiga Anne, mulher do Dr. Bob. Elas continuam servindo de exemplo para mulheres de mais de 130 países onde funcionam grupos daquela irmandade. O Estado de Nova Iorque e mais de dez organizações dos Estados Unidos saúdam Lois como uma das Mulheres mais importantes do Século XX. Ela foi homenageada com o Prêmio Humanitário do Conselho Nacional sobre Alcoolismo dos Estados Unidos.


Com este pequeno relato espero que as mulheres e os homens do mundo inteiro mantenham viva a lembrança daquela valente mulher, que conseguiu empreender uma luta pacificadora, não contra a bebida alcoólica, mas a favor das famílias de pessoas que não podem beber controladamente, por serem portadores da doença alcoolismo.
*Jornalista – Natal/RN

sábado, 7 de março de 2009

O crime do arcebispo
Emanoel Barreto

A Igreja revelou sua face mais reacionária e trevosa no caso da menina de nove anos estuprada pelo padastro. Grávida, a criança precisou passar pelo abortamento. O arcebispo de Olinda e Recife, d. José Cardoso Sobrinho, como nos tempos da Santa Inquisição excomungou a mãe da menina que autorizou e os médicos que fizeram o aborto. Naqueles tempos, ele os teria condenado à fogueira.

Tacanho, mesquinho, moralmente velhado, o minúsculo cérebro do sacerdote não se comoveu com o drama da criança: uma menina que deveria estar brincando de boneca, pela visão demencial do arcebispo, deveria ser obrigada a cumprir com todo o trajeto da gravidez, para a qual seu corpo infantil não estava preparado.

Alegou que o abortamento é pecado pior que o do estupramento.

Nada entendo da graduação dos pecados. Qual a lógica que determina que a brutalização do corpo de uma criança menina seja pecado menor que a salvação desse mesmo corpo, por atitude piedosa, condoída e protetora.

Pobre, miserável arcebispo. Em nome de Deus faz o elogio do estupro; em nome da Vida, quer que uma vida seja mais violada do que já o fora. Lato sensu, sou contra o aborto. Mas, cada caso é um caso. E, com relação à criança menina de Recife, gostaria que a Igreja fosse mais piedosa. Cristo perdoava. E muito. Mas, tenho para mim, não perdoaria o crime do arcebispo.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Peraí, chuva. Se você vier, agora eu chamo
mesmo o Cacique Cobra Coral
Emanoel Barreto

uns dias fiquei ilhado em casa. Postei a foto no blog e falei que pediria ajuda ao Cacique Cobra Coral, se as coisas não se resolvessem. As poderosas chuvas que se abateram sobre Natal transformaram os muros de minha casa em barragem. Detalhe: para conter a enxurrada tenho também duas muretas, já dentro do jardim. Caso contrário...

Agora temos, eu e os vizinhos de Capim Macio, reunião marcada com o secretário da Semov, Demétrio Torres, para que se chegue a uma solução. Da minha parte, venho pedindo apenas o paliativo de retirar-se a areia do leito da rua. Isso seria suficiente para que o grande lago em que se transforma a Industrial João Motta diminuisse.



Em contato telefônico o secretário, como sempre cordial, garantiu-me que sábado, dia da reunião, todo será resolvido. Já tem até umas máquinas trabalhando lá na frente, mas distante da minha casa. E isso seria, segundo ele, indício de que as coisas vão melhorar.

Recomendou-me paciência. Paciência que só precisa durar até sábado, garantiu. Respondi: "Secretário, nós temos, digamos assim, nosso cronograma de obras e reunião. Mas a chuva, secretário, não trabalha segundo o nosso cronograma, o senhor entende?"

Ele respondeu: "Tem razão. A chuva não trabalha segundo o nosso cronograma." E pronto. Agora, é o seguinte: espero que a chuva acate a decisão e não chova. Se não, e se nada for feito, agora sim: vou chamar mesmo o Cacique Cobra Coral.

quarta-feira, 4 de março de 2009

E aí, vai encarar?
Emanoel Barreto

Moleque travesso, tinhoso, peralta.
Saiu da favela disposto a brigar.
Exibe sua força, que é magra e rasteira.
Ele é um brasilzinho de muque raquítico.

Moleque travesso, pertinaz, assanhado.
Tem jogo de perna é bamba na vida.
De becos escuros, briga com a fome.
Ele é um brasilzinho. Que dó que ele .

terça-feira, 3 de março de 2009


Agaciel, o dono da mansão própria
Emanoel Barreto

O sonho do brasileiro se divide em dois: ter seu próprio negócio e ter a casa própria. O diretor-geral do Senado, Agaciel Maia, foi mais além: não tem negócio próprio, mas tem mansão própria, só que escondidinha em nome do irmão, o deputado João Maia. Agaciel perdeu o cargo, mas continua funcionário do Senado.

É assim na Terra Brasilis: o poder assegura o próprio poder: o poder de permanecer, o poder de dispor de fortunas, o escárnio com aquele pobre que sofre nas filas dos postos de saúde e amarga o dinheiro curto, pouco demais para um mês tão grande.

As elites são um sistema altamente sofisticado, que se re-produz e cria suas próprias instâncias de sobrevivência, assegurando a seus integrantes que, mesmo punidos, essa punição não doa muito. É como injeção: dói, mas passa logo.

domingo, 1 de março de 2009

É a corrupa meu irmão, é a corrupa...
Emanoel Barreto

As coisas de jornal da Folha informam neste domingo: Agaciel Maia, o vice-rei do Senado, o homem que autoriza despesas de até 80 mil sem necessidade de aprovação da Mesa, teve descoberto um segredo que mantinha a sete chaves em seu cofre de Ali-Babá: é dono de uma mansão que vale cinco milhões.

Como quando comprou a casa estava com os bens indisponíveis, usou o cérebro e, claro, fez de conta que ela não era sua. Assim, o imóvel foi estrategicamente colocado no nome do deputado João Maia, seu irmão e candidato ao governo do Rio Grande do Norte.

Diz a Folha: "A indisponibilidade dos bens de Agaciel foi decretada pela Justiça na esteira do escândalo da gráfica, em 1994.

Naquele ano, o então senador Humberto Lucena (PMDB-PB) teve sua candidatura à reeleição cassada pela Justiça Eleitoral por uso ilegal da gráfica para impressão de material de campanha. Também enfrentaram representação na Justiça Eleitoral, acusados da mesma prática, os políticos pelo então PFL maranhense Roseana Sarney (deputada e candidata vencedora a governadora) e os postulantes ao Senado Alexandre Costa e o hoje ministro de Minas e Energia, Edison Lobão.

Eles tiveram cadernos escolares com propaganda eleitoral impressos na gráfica encomendados por Costa, candidato à reeleição. Suas candidaturas, contudo, não foram cassadas."

É isso: é a corrupa meu irmão; é a corrupa. É a corrupa como marca forte e tempero picante da vida política. Como pode um homem que tem bens bloqueados pela Justiça assumir posto vital no Senado? Permanecerá no cargo após esse flagrante? E o deputado João Maia: a imprensa daqui vai questioná-lo eticamente? Deveria ter atendido aos apetites ecônomicos do irmão, assumindo a mansão como se fosse sua? Tinha ou não tinha consciência de que estava praticando algo moralmente pegajoso, sujo, repulsivo?

E de onde saiu tanto dinheiro para a compra dessa casa?

As respostas virão com o tempo. E creio que serão ambos perdoados. É a corrupa, meu irmão; é a corrupa...

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Tsvangirayi Mukwazhi/AP
A cara feia do poder sem limites
Emanoel Barreto

Robert Mugabe, ditador-presidente do Zimbábue, comemora seus 85 anos. A expressão da face é o retrato do íntimo. Não concordo com a afirmação de que uma imagem diz mais que mil palavras, mas, neste caso, sim. A manifestação corporal como um todo traz, da sua mais íntima e deplorável essência, a figura moral que lá habita e a apresenta em toda a sua perversidade.

Explorador histórico do seu povo, gestor de prebendas e corrupção, sinecurista do poder, ávido de muita fome por dinheiro e espoliação, de há muito ele é a encarnação, sem dúvida, do que há de mais baixo no político.

A África sofre com o abandono, a miséria e o desrespeito aos direitos humanos. O Ocidente a esqueceu depois de dela tirar muito. E homens como aquele somente asseguram que tal estado de coisas vai perdurar.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Eu vou chamar Jerônino, o herói do sertão
Emanoel Barreto

Não adianta Brasil, não adianta.
Esforços e luta de nada valem.
A única maneira é chamar Jerônimo, o herói do sertão.

Os perigos são muitos, altos, largos, abismos extensos,
buracões profundos.
Estou decidido: vamos chamar Jerônimo, o herói do sertão.

Não adianta Brasil, não adianta.
Enormes teias, perigosas tramas nos envolvem a todos,
a todo instante.

Somente Jerônimo, o herói, poderá
prender o Caveira que reina em
cada mente de político criminoso.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Ressaca
Emanoel Barreto

Pronto, terminou a festa.
Acabou a alegria, o carnaval passou.
Aos poucos o último acorde vai perdendo força, dobra a esquina do tempo e se perde no território da lembrança. Longe, longe, longe...

A Alegria, deusa solar de cores e repiques, musa vulcânica, moça de todos os agogôs, segue para o seu olimpo a descansar.

O carnaval passou.
E todos os bacantes agora estarão às voltas com o mundo real. Que é todo feito só de quartas-feiras; quartas-feiras de cinzas e das saudades curtas de quem se encontrou e se perdeu no meio da multidão.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Ô abre águas, que eu quero passar...
Emanoel Barreto

Em meio ao carnaval estou ilhado em casa. Como a Prefeitura não tomou qualquer providência para prevenir o descalabro, mesmo depois de eu falar com deus-e-o-mundo, mandei email a colegas jornalistas para que divulgem. Quem sabe, com isso alguém toma alguma providência. Segue a íntegra:


Peço socorro a Micarla.
Se não der, chamo
o Cacique Cobra Coral


Caros Amigos jornalistas,

Escrevo na segunda-feira de carnaval ilhado em minha casa,
cujos muros transformei em represa. Estou literalmente como
na marchinha: "Daqui não saio, daqui ninguém me tira." Assim,
improviso também outra marchinha: "Ô abre águas, que eu quero passar."

Mas, enquanto as águas não se abrem, a situação é essa: garagens alagadas,
casas prestes a ser invadidas pela água e gente preocupada.
É isso: a Rua Industrial João Motta, Capim Macio, onde moro, com as últimas
chuvas assumiu aspecto de dilúvio. Por instantes tive a impressão
de ver a arca de Noé. Não era: era um carro quase tragado
pelo dilúvio urbano.

Na Prefeitura, já falei com deus-e-o-mundo, mas ninguém atendeu
ao meu alerta. Dias antes do aguaceiro entrei em contato com
a administração municipal, pedindo que uma máquina fizesse
retirada da areia do leito da rua. Adverti que, sem isso, haveria
perigo de casas serem alagadas. A Prefeitura não deu atenção.
O IPTU, aqui, é de mais de mil reais. A Prefeitura não me deu atenção.
Alagamento é assunto para a Semov, a Semov é da Prefeitura.
Só que há um problema: a Semov não se move...

Carros que tentam superar o açude enguiçam, gente entra em
desespero, pessoas ficam no prejuízo. O meu carro está
há três dias ao relento. Tive que tirá-lo da garagem
para dar espaço à água.

Agora, só me resta pedir apoio aos amigos da imprensa. Espero
com isso sensibilizar alguém da Prefeitura. Espero sensibilizar Micarla.
Mas, se nem ela me der atenção, voltarei meus pedidos para o
Cacique Cobra Coral, entidade espiritual que cuida dos ventos e
das tempestades. Tem até uma Fundação, a Fundação
Cacique Cobra Coral, que trata desses assuntos: mandar chuva a quem precisa
e tirá-la de quem esteja em meio às ondas.
Quem sabe, dele tenha alguma ajuda.

Um grande abraço,
Emanoel Barreto
PS: Aos ambientalistas fundamentalistas: como
fica o bicho-homem? Gente também é parte da natureza.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Tem portuguesa no samba
Emanoel Barreto

Descobri ontem por acaso, na RTP Internacional, que Portugal também tem carnaval. Rima pobre à parte, é isso: tem escolas de samba e desfile na Ilha da Madeira, ou Madaira, como eles dizem por lá.

Uma das escolas chama-se "Os Cariocas" e apresentava um desfile esforçado que só ele, mas faltava a força dos orixás, o sangue negro chamando as raízes mais ancestrais da noite mais profunda da África, tambores, braseiro e fogueira.

O mais interessante é que as escolas tinham sambistas e samba-enredo de verdade. Pareceu-me que eles contratam bambas do Rio para preparar a escola. Uma agremiação tinha música de Iveten Sangalo fazendo as vezes de semba-enredo.

As portuguesinhas, tão bonitinhas, eram menininhas disciplinadas e tentavam, mas tentavam mesmo, fazer de conta que sambavam. Umas até buscavam aqueles passos em que a cabrocha se transforma em jóia-mulher de irrelutável beleza. Tadinhas...

Mas, gostei. Gostei de ver nossa cultura chegando aos nossos avós, que por instantes trocam as chorosas guitarras do fado pela força trigueira do tambor.

Sabe o que faltava aos patrícios? Faltava efusão, festa, brilho, intensidade, grandeza. Que vão passar, eu sei. Mas que de alguma forma ressalta, nesse tipo de ópera popular, o grande mistério de ser Brasil. Axé babá, meu pai!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Esquentai vossos pandeiros
Emanoel Barreto

Chegou a festa, a cuíca zurra sua sua cantiga bárbara, lúbrica, luxuriosa - e geme; o cavaco solta acordes finíssimos, agudos como ponta de florete; surdos marcam, profundos, o ritmo que alucina; tamborins são sopranos em ária sensual; caixas atiram-se para a frente cantando a liturgia do prazer e mulatas flertam com o desejo agarrado às suas ancas. É o Brasil em festa. É o carnaval como fascinante sagração do desvario. E os pandeiros entoam seu ritmo feiticeiro.

Chegou a festa. Somos a civilização de Baco, somos o povo feliz. Feliz por quatro dias, feliz pela ilusão criada de sermos felizes por exatamente quatro dias.

Samba, suor e cerveja são nossos deuses lascivos; com eles iremos até o fim. Até que o último arquejo licensioso se cale, até que a última gota esgote o jato libertino. Vamos ser felizes, vamos ser felizes por quatro dias.

Viva o Brasil. Viva essa alegria louca que confunde mas aplaca, que excita mas acalma, palpitando o coração por mais loucura. Viva o Brasil. Viva o carnaval. Viva a mulata que esconde nos quadris a imoderação e todas as suas delícias.

........
E Walter Medeiros chega, da cavaco e tamborim.

Zé Pereira
Walter Medeiros
Português danado,
Cabra sem enfado,
Pela vida inteira.

Viva o Carnaval,
Que tanto admiro,
Mas já me retiro,
Não me levem a mal.

Viva aquele samba,
Feito por Martinho,
Que canto baixinho,
Querendo ser bamba.

Viva a lembrança,
Do pó, do confetti,
Caetano, Zé Kéti,

Serpentina e lança.
Viva Paulo Maux,
Nosso eterno Rei,
Nunca esquecerei,
Mas sei que passou.

Viva nossos clubes,
De lindo passado,
Que está gravado,
Não há quem derrube.

Viva uma saudade,
Cá neste meu peito,
De amores sem jeito,
E de felicidade.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O capital quer dinheiro
Emanoel Barreto

Trabalhadores e pobres do mundo inteiro estão apreensivos: o capital tem fome. Depois da farra financeira dos bancos americanos, gente que não tem nada a haver com isso está pagando a conta. Paga com desemprego, medo de perda do emprego e paga com dinheiro que o Estado encaminha às empresas para sustentar exatamente o culpado pela crise instalada: o capital.

Do mesmo modo que o chamado socialismo real apresentou a face cruel daquela formulação socialista, os fundamentalistas do mercado agora são chamados pela história a dar seu depoimento: está desfeita a máscara e o mercado mostra que não é nada daquilo que se dizia: elemento resolutivo para qualquer imprevisto econômico, agente coletivo dinâmico cujas forças internas tinham condições quase divinas para demarcar rumos.

O que se vê é uma situação mundial perversa, com o Estado sendo chamado às pressas pelas empresas a fim de lhes garantir sobrevivência. É uma espécie de chantagem: se isso não for feito, a falência do sistema levará de roldão milhões de pessoas ao desespero e estará instalado o caos total. Ou seja: é preciso salvar os muito ricos, a fim de que os pobres consigam pelo menos uma tábua de salvação - já que o transatlântico do capital não comporta ocupantes de segunda classe.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Os podres Poderes
Emanoel Barreto

A genial charge de Angeli, na Folha, representa literalmente a perversa e monstruosa política brasileira. Câmara e Senado formam uma entidade acima, além e adversa ao ser coletivo a que chamamos povo. Muitos homens e mulheres bem remunerados, mimados por privilégios que envergonhariam a qualquer pessoa decente, trabalham ininterruptamente em proveito próprio.

Alguém dirá: "Ah! Mas não são todos." Claro que não são todos. Mas a estrutura, o cerne congressual é embolorado por outro ser também muito nosso conhecido, a corrupção e esta, de alguma forma, inclui em seu abraço largo até os bem intencionados. Corrupção aqui em sentido amplo, abrangendo decisões que beneficiam grupos, toldam direitos dos trabalhadores e enegrecem o sentido ético da política.

Quer ver? Basta lembrar as decisões partidárias que obrigam até mesmo os bons a se curvar ante interesses tenebrosos, estarrecedores. As elites e seus interesses dominam o Congresso e dele se valem como coisa própria. Daí porque a validade da charge, com alto poder de fogo editorial.

Com a intenção típica das charges, ela se utiliza do humor sátiro e corrosivo para demonstrar os podres dos Poderes. Faz-nos rir, mas faz-nos também lamentar.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009


O lindo perigo de viver
Emanoel Barreto

Ele ali,
ante tão grande
e belo abismo.

A perplexa
manifestação
do que é viver.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009


Mistério
Emanoel Barreto

No silêncio da noite em abandono,
na pegadas dos pés que ali passaram,
eles se encontram na grande solidão,
no abraço calado do carinho.

E as sombras guardam todos os segredos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Os maus e a maldade
Emanoel Barreto

O ataque de skinheads à advogada brasileira Paula Oliveira, na Suíça, demonstra o quanto a intolerância, a crueldade e a visão embrutecedora de grupos extremistas podem dar ao mundo o que há de pior no ser humano.

A agressão, perversamente requintada, assumiu aspectos do quanto há de degradante na violência: Paula estava grávida de gêmeas, perdeu as duas filhas e está com o corpo retalhado.

Vivemos um mundo em que as maravilhas da tecnologia, da medicina e da ciência chegaram a um ponto de refinamento que somente tende a crescer. A par disso, viceja a mais abjeta e furiosa expressão da maldade.

Os fundamentalismos, sejam religiosos, econômicos ou ideológicos, somente desaguam num agudo estado de espírito social onde impera o prazer em causar dor e dano. Ao que tudo indica, o processo histórico se encaminha para o recrudescimento da violência como argumento de persuasão e domínio, enquanto o Homem perde a própria noção de humanidade.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009


Burocracia
Emanoel Barreto

Você quer soluções? Nós temos problemas.
Quer a felicidade? Temos angústia.
Busca trabalho? Oferecemos desemprego.
Deseja ser com? Transformamos você em inimigo.
É honesto? Levamos você para a corrupção.
Tem fé na humanidade? Ensinamos como destruí-la.
Acredita na perseverança? Lhe daremos preguiça.
Defende a Justiça? Nós ministramos o crime.
Paz? Fará a guerra.
Amor? Apreenderá a odiar.
Depois, estará pronto para entrar para o sistema.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009


O direito de morrer
Emanoel Barreto

A italiana Eluana Englaro, em estado vegetativo havia 17 anos e pivô de uma disputa que opôs o governo conservador do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, apoiado pelo Vaticano, ao Judiciário e ao presidente da República da Itália, morreu ontem, aos 38 anos (Folha de S. Paulo).
.......
Dita assim, na fria linguagem das coisas de jornal, o drama da jovem é apenas um registro taquigráfico da vida. O caso, todavia, envolve questões éticas, emocionais e, de fundo, um aspecto a que não se pode recusar respeito: o de que alguém em estado vegetativo está passando por um profundo sofrimento, do qual talvez sequer tenha consciência.

O drama da jovem assume conotações que vão bem ao âmago da condição humana: a angústia da família, a dor de ver alguém que já foi bela, alegre e certamente cheia de sonhos, murchar, definhar lenta e dolorosamente.

Após 17 anos em tal situação, qual ser humano deveria ser obrigado a permanecer vivo? O direito de morrer, a eutanásia, deveria ser considerado, estudado e compreendido em sua amplitude. A morte pode ser a solução para uma vida que, em si, já não existia socialmente.

Viver não é apenas estar vivo: é agir, lutar, ganhar, perder, arrojar-se a empreitadas e sentir a pulsação da vida enquanto ânimo projetar-se na vida enquanto participação. Uma vida em silêncio é já uma vida morta, ausente da própria vida. A moça tinha o direito de morrer e, morrendo, resgatou a sua dignidade humana.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Senão, como vamos viver?
Emanoel Barreto

Vamos, vamos, vamos.
Vamos continuar matando,
destruindo casas,
arruinando esperanças,
saqueando plantas,
trucidando gente.

Vamos e vamos bem depressa,
que ainda há muito o que matar.

Vamos tragar para a escuridão
qualquer réstia,
qualquer resto,
qualquer rastro de luz.

Afinal, é preciso fazer dinheiro.
Senão, como vamos viver?