sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Eu vou chamar Jerônino, o herói do sertão
Emanoel Barreto

Não adianta Brasil, não adianta.
Esforços e luta de nada valem.
A única maneira é chamar Jerônimo, o herói do sertão.

Os perigos são muitos, altos, largos, abismos extensos,
buracões profundos.
Estou decidido: vamos chamar Jerônimo, o herói do sertão.

Não adianta Brasil, não adianta.
Enormes teias, perigosas tramas nos envolvem a todos,
a todo instante.

Somente Jerônimo, o herói, poderá
prender o Caveira que reina em
cada mente de político criminoso.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Ressaca
Emanoel Barreto

Pronto, terminou a festa.
Acabou a alegria, o carnaval passou.
Aos poucos o último acorde vai perdendo força, dobra a esquina do tempo e se perde no território da lembrança. Longe, longe, longe...

A Alegria, deusa solar de cores e repiques, musa vulcânica, moça de todos os agogôs, segue para o seu olimpo a descansar.

O carnaval passou.
E todos os bacantes agora estarão às voltas com o mundo real. Que é todo feito só de quartas-feiras; quartas-feiras de cinzas e das saudades curtas de quem se encontrou e se perdeu no meio da multidão.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Ô abre águas, que eu quero passar...
Emanoel Barreto

Em meio ao carnaval estou ilhado em casa. Como a Prefeitura não tomou qualquer providência para prevenir o descalabro, mesmo depois de eu falar com deus-e-o-mundo, mandei email a colegas jornalistas para que divulgem. Quem sabe, com isso alguém toma alguma providência. Segue a íntegra:


Peço socorro a Micarla.
Se não der, chamo
o Cacique Cobra Coral


Caros Amigos jornalistas,

Escrevo na segunda-feira de carnaval ilhado em minha casa,
cujos muros transformei em represa. Estou literalmente como
na marchinha: "Daqui não saio, daqui ninguém me tira." Assim,
improviso também outra marchinha: "Ô abre águas, que eu quero passar."

Mas, enquanto as águas não se abrem, a situação é essa: garagens alagadas,
casas prestes a ser invadidas pela água e gente preocupada.
É isso: a Rua Industrial João Motta, Capim Macio, onde moro, com as últimas
chuvas assumiu aspecto de dilúvio. Por instantes tive a impressão
de ver a arca de Noé. Não era: era um carro quase tragado
pelo dilúvio urbano.

Na Prefeitura, já falei com deus-e-o-mundo, mas ninguém atendeu
ao meu alerta. Dias antes do aguaceiro entrei em contato com
a administração municipal, pedindo que uma máquina fizesse
retirada da areia do leito da rua. Adverti que, sem isso, haveria
perigo de casas serem alagadas. A Prefeitura não deu atenção.
O IPTU, aqui, é de mais de mil reais. A Prefeitura não me deu atenção.
Alagamento é assunto para a Semov, a Semov é da Prefeitura.
Só que há um problema: a Semov não se move...

Carros que tentam superar o açude enguiçam, gente entra em
desespero, pessoas ficam no prejuízo. O meu carro está
há três dias ao relento. Tive que tirá-lo da garagem
para dar espaço à água.

Agora, só me resta pedir apoio aos amigos da imprensa. Espero
com isso sensibilizar alguém da Prefeitura. Espero sensibilizar Micarla.
Mas, se nem ela me der atenção, voltarei meus pedidos para o
Cacique Cobra Coral, entidade espiritual que cuida dos ventos e
das tempestades. Tem até uma Fundação, a Fundação
Cacique Cobra Coral, que trata desses assuntos: mandar chuva a quem precisa
e tirá-la de quem esteja em meio às ondas.
Quem sabe, dele tenha alguma ajuda.

Um grande abraço,
Emanoel Barreto
PS: Aos ambientalistas fundamentalistas: como
fica o bicho-homem? Gente também é parte da natureza.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Tem portuguesa no samba
Emanoel Barreto

Descobri ontem por acaso, na RTP Internacional, que Portugal também tem carnaval. Rima pobre à parte, é isso: tem escolas de samba e desfile na Ilha da Madeira, ou Madaira, como eles dizem por lá.

Uma das escolas chama-se "Os Cariocas" e apresentava um desfile esforçado que só ele, mas faltava a força dos orixás, o sangue negro chamando as raízes mais ancestrais da noite mais profunda da África, tambores, braseiro e fogueira.

O mais interessante é que as escolas tinham sambistas e samba-enredo de verdade. Pareceu-me que eles contratam bambas do Rio para preparar a escola. Uma agremiação tinha música de Iveten Sangalo fazendo as vezes de semba-enredo.

As portuguesinhas, tão bonitinhas, eram menininhas disciplinadas e tentavam, mas tentavam mesmo, fazer de conta que sambavam. Umas até buscavam aqueles passos em que a cabrocha se transforma em jóia-mulher de irrelutável beleza. Tadinhas...

Mas, gostei. Gostei de ver nossa cultura chegando aos nossos avós, que por instantes trocam as chorosas guitarras do fado pela força trigueira do tambor.

Sabe o que faltava aos patrícios? Faltava efusão, festa, brilho, intensidade, grandeza. Que vão passar, eu sei. Mas que de alguma forma ressalta, nesse tipo de ópera popular, o grande mistério de ser Brasil. Axé babá, meu pai!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Esquentai vossos pandeiros
Emanoel Barreto

Chegou a festa, a cuíca zurra sua sua cantiga bárbara, lúbrica, luxuriosa - e geme; o cavaco solta acordes finíssimos, agudos como ponta de florete; surdos marcam, profundos, o ritmo que alucina; tamborins são sopranos em ária sensual; caixas atiram-se para a frente cantando a liturgia do prazer e mulatas flertam com o desejo agarrado às suas ancas. É o Brasil em festa. É o carnaval como fascinante sagração do desvario. E os pandeiros entoam seu ritmo feiticeiro.

Chegou a festa. Somos a civilização de Baco, somos o povo feliz. Feliz por quatro dias, feliz pela ilusão criada de sermos felizes por exatamente quatro dias.

Samba, suor e cerveja são nossos deuses lascivos; com eles iremos até o fim. Até que o último arquejo licensioso se cale, até que a última gota esgote o jato libertino. Vamos ser felizes, vamos ser felizes por quatro dias.

Viva o Brasil. Viva essa alegria louca que confunde mas aplaca, que excita mas acalma, palpitando o coração por mais loucura. Viva o Brasil. Viva o carnaval. Viva a mulata que esconde nos quadris a imoderação e todas as suas delícias.

........
E Walter Medeiros chega, da cavaco e tamborim.

Zé Pereira
Walter Medeiros
Português danado,
Cabra sem enfado,
Pela vida inteira.

Viva o Carnaval,
Que tanto admiro,
Mas já me retiro,
Não me levem a mal.

Viva aquele samba,
Feito por Martinho,
Que canto baixinho,
Querendo ser bamba.

Viva a lembrança,
Do pó, do confetti,
Caetano, Zé Kéti,

Serpentina e lança.
Viva Paulo Maux,
Nosso eterno Rei,
Nunca esquecerei,
Mas sei que passou.

Viva nossos clubes,
De lindo passado,
Que está gravado,
Não há quem derrube.

Viva uma saudade,
Cá neste meu peito,
De amores sem jeito,
E de felicidade.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O capital quer dinheiro
Emanoel Barreto

Trabalhadores e pobres do mundo inteiro estão apreensivos: o capital tem fome. Depois da farra financeira dos bancos americanos, gente que não tem nada a haver com isso está pagando a conta. Paga com desemprego, medo de perda do emprego e paga com dinheiro que o Estado encaminha às empresas para sustentar exatamente o culpado pela crise instalada: o capital.

Do mesmo modo que o chamado socialismo real apresentou a face cruel daquela formulação socialista, os fundamentalistas do mercado agora são chamados pela história a dar seu depoimento: está desfeita a máscara e o mercado mostra que não é nada daquilo que se dizia: elemento resolutivo para qualquer imprevisto econômico, agente coletivo dinâmico cujas forças internas tinham condições quase divinas para demarcar rumos.

O que se vê é uma situação mundial perversa, com o Estado sendo chamado às pressas pelas empresas a fim de lhes garantir sobrevivência. É uma espécie de chantagem: se isso não for feito, a falência do sistema levará de roldão milhões de pessoas ao desespero e estará instalado o caos total. Ou seja: é preciso salvar os muito ricos, a fim de que os pobres consigam pelo menos uma tábua de salvação - já que o transatlântico do capital não comporta ocupantes de segunda classe.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Os podres Poderes
Emanoel Barreto

A genial charge de Angeli, na Folha, representa literalmente a perversa e monstruosa política brasileira. Câmara e Senado formam uma entidade acima, além e adversa ao ser coletivo a que chamamos povo. Muitos homens e mulheres bem remunerados, mimados por privilégios que envergonhariam a qualquer pessoa decente, trabalham ininterruptamente em proveito próprio.

Alguém dirá: "Ah! Mas não são todos." Claro que não são todos. Mas a estrutura, o cerne congressual é embolorado por outro ser também muito nosso conhecido, a corrupção e esta, de alguma forma, inclui em seu abraço largo até os bem intencionados. Corrupção aqui em sentido amplo, abrangendo decisões que beneficiam grupos, toldam direitos dos trabalhadores e enegrecem o sentido ético da política.

Quer ver? Basta lembrar as decisões partidárias que obrigam até mesmo os bons a se curvar ante interesses tenebrosos, estarrecedores. As elites e seus interesses dominam o Congresso e dele se valem como coisa própria. Daí porque a validade da charge, com alto poder de fogo editorial.

Com a intenção típica das charges, ela se utiliza do humor sátiro e corrosivo para demonstrar os podres dos Poderes. Faz-nos rir, mas faz-nos também lamentar.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009


O lindo perigo de viver
Emanoel Barreto

Ele ali,
ante tão grande
e belo abismo.

A perplexa
manifestação
do que é viver.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009


Mistério
Emanoel Barreto

No silêncio da noite em abandono,
na pegadas dos pés que ali passaram,
eles se encontram na grande solidão,
no abraço calado do carinho.

E as sombras guardam todos os segredos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Os maus e a maldade
Emanoel Barreto

O ataque de skinheads à advogada brasileira Paula Oliveira, na Suíça, demonstra o quanto a intolerância, a crueldade e a visão embrutecedora de grupos extremistas podem dar ao mundo o que há de pior no ser humano.

A agressão, perversamente requintada, assumiu aspectos do quanto há de degradante na violência: Paula estava grávida de gêmeas, perdeu as duas filhas e está com o corpo retalhado.

Vivemos um mundo em que as maravilhas da tecnologia, da medicina e da ciência chegaram a um ponto de refinamento que somente tende a crescer. A par disso, viceja a mais abjeta e furiosa expressão da maldade.

Os fundamentalismos, sejam religiosos, econômicos ou ideológicos, somente desaguam num agudo estado de espírito social onde impera o prazer em causar dor e dano. Ao que tudo indica, o processo histórico se encaminha para o recrudescimento da violência como argumento de persuasão e domínio, enquanto o Homem perde a própria noção de humanidade.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009


Burocracia
Emanoel Barreto

Você quer soluções? Nós temos problemas.
Quer a felicidade? Temos angústia.
Busca trabalho? Oferecemos desemprego.
Deseja ser com? Transformamos você em inimigo.
É honesto? Levamos você para a corrupção.
Tem fé na humanidade? Ensinamos como destruí-la.
Acredita na perseverança? Lhe daremos preguiça.
Defende a Justiça? Nós ministramos o crime.
Paz? Fará a guerra.
Amor? Apreenderá a odiar.
Depois, estará pronto para entrar para o sistema.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009


O direito de morrer
Emanoel Barreto

A italiana Eluana Englaro, em estado vegetativo havia 17 anos e pivô de uma disputa que opôs o governo conservador do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, apoiado pelo Vaticano, ao Judiciário e ao presidente da República da Itália, morreu ontem, aos 38 anos (Folha de S. Paulo).
.......
Dita assim, na fria linguagem das coisas de jornal, o drama da jovem é apenas um registro taquigráfico da vida. O caso, todavia, envolve questões éticas, emocionais e, de fundo, um aspecto a que não se pode recusar respeito: o de que alguém em estado vegetativo está passando por um profundo sofrimento, do qual talvez sequer tenha consciência.

O drama da jovem assume conotações que vão bem ao âmago da condição humana: a angústia da família, a dor de ver alguém que já foi bela, alegre e certamente cheia de sonhos, murchar, definhar lenta e dolorosamente.

Após 17 anos em tal situação, qual ser humano deveria ser obrigado a permanecer vivo? O direito de morrer, a eutanásia, deveria ser considerado, estudado e compreendido em sua amplitude. A morte pode ser a solução para uma vida que, em si, já não existia socialmente.

Viver não é apenas estar vivo: é agir, lutar, ganhar, perder, arrojar-se a empreitadas e sentir a pulsação da vida enquanto ânimo projetar-se na vida enquanto participação. Uma vida em silêncio é já uma vida morta, ausente da própria vida. A moça tinha o direito de morrer e, morrendo, resgatou a sua dignidade humana.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Senão, como vamos viver?
Emanoel Barreto

Vamos, vamos, vamos.
Vamos continuar matando,
destruindo casas,
arruinando esperanças,
saqueando plantas,
trucidando gente.

Vamos e vamos bem depressa,
que ainda há muito o que matar.

Vamos tragar para a escuridão
qualquer réstia,
qualquer resto,
qualquer rastro de luz.

Afinal, é preciso fazer dinheiro.
Senão, como vamos viver?

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Foto: Luiz Cruvinel
As mãos sujas e a honradez canalha
Emanoel Barreto

Junto com o presidente da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB-SP), líderes partidários costuram uma saída honrosa para o novo corregedor da Casa, Edmar Moreira (DEM-MG), envolto em denúncias. O acordo, já fechado, o afasta da corregedoria, mas o mantém na Mesa Diretora, como segundo-vice-presidente.

O deputado é investigado pelo STF em inquérito aberto em 2007, por apropriação ilegal de contribuições ao INSS feitas por seus empregados. Ele também é acusado de omitir da sua declaração de bens um castelo em Minas, que está à venda por R$ 25 milhões. Além disso, Moreira é dono de uma empresa de segurança que é executada judicialmente na 21ª Vara Cível de São Paulo por não pagar empréstimo de R$ 1,9 milhão feito no Banco do Brasil.

.......

Os trechos acima pincei nas coisas de jornal da Folha.

Agora, uma coisa, estamos falando de um deputado ou de um bandido? Salvo engano de minha parte, creio que devemos marcar a segunda opção. Feito isto, uma segunda pergunta: o que nos leva e dar a um homem desses a condição de parlamentar, habilitá-lo a caminhar pelos meandros do Poder, tomar decisões e imiscuir-se nos negócios públicos?

Suponho que a resposta não caberia num artigo jornalístico, mas num alentado trabalho acadêmico, o que não é a proposta deste Coisas de Jornal. De qualquer forma, vejamos: não estamos tratando de caso isolado, mas situação endêmica na vida político-social do Brasil.

O que acontece no micro, no cimo da pirâmide, onde habitam as elites, reflete o que acontece no macro, no todo social e histórico.

Somos uma sociedade onde o jeitinho, o passar-a-mão-na-cabeça, o primeiro-os-meus, são padrão, norma não escrita, mas cumprida à risca, tratado não estabelecido, porém regra do cotidiano. O honrado, o cumpridor das leis, termina por ser visto como o toleirão, aquele a quem se pode, e até de deve, explorar.

Isso infiltrou-se de tal maneira no modo brasileiro de vida, que tornou-se "natural". Fazer aquela pequena contramão, coisa pouca, de cinco ou dez metros? Vamos fazer. Afinal, são apenas uns metrinhos que facilitarão a preguiça, a vida e a irresponsabilidade. O guarda não viu, ninguém reclama... Então, façamos a contramão.

De forma reducionista, mas clara, está explicado o caso do deputado castelão. E, por decorrência, toda a ganância incontrolável, esse impulso quase genético que leva o nosso povo a aceitar como normal a improbidade, que tornou-se comum. Mas, não é por ser comum que deve ser normal.

Finalizando: o pior é que ainda vão encontrar uma "saída honrosa" para um homem que desconhece o que seja a honradez. E depois dele virão muitos outros, como muitos outros vieram antes. A frouxidão moral e ética espojou-se no Brasil e dorme eternamente em berço esplêndido.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009


Povo besta quer jogar

Emanoel Barreto

Enquanto o Walfredo Gurgel é um depósito de doentes, almas que penam, atiradas ao chão ou sofrendo em macas, Natal quer um estádio de futebol para a Copa do Mundo. Enquanto a zona norte é rasgada por dores e tragédias, assaltos, mortes, gente que passa fome, Natal quer um estádio para a Copa do Mundo.

Ruas esburacadas, praias contaminadas, a lastimável rede de ensino, o lençol freático cheio de nitrato, nada disso comove ninguém. E aí, Natal quer Copa do Mundo.

A insensatez, a loucura, a ganância, a deplorável ingenuidade do povo, incham o fermento. Natal quer Copa do Mundo. Quer um estádio, que agora é chamado de "arena". Bom nome, muito bem escolhido.

O povo não sabe, mas, como no tempo dos gladiadores, se esse intentona tiver êxito, não serão os jogadores quem nessa arena estará entrando. Será a própria ignorância, a insensatez parva e desdentada que estará chegando ao campo. E como os gladiadores, dirão: "Ave, César, os que vão morrer te saúdam."

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O tempo, o relógio e o salto...
Emanoel Barreto

Saltar sobre o pequeno abismo de todos os dias.
Trazer no olhar a neblina.

Saber que o instante é forma homeopática da eternidade;
que habita, e sempre volta ao mesmo ponto, no permanente
mapa do relógio.

O tempo foi inventado pelo tédio,
que nos ensina a girar
com os ponteiros,
como se alguma coisa fosse se mudar.

Não muda. E o salto é, então,
a tentativa vã dos que vão, vão vão...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Talvez eu passe uns três dias sem atualizar o blog.
Um abraço,
Emanoel Barreto

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009


As cores e o cinza
Emanoel Barreto
Sharbat Gula
foi fotografada quando tinha 12 anos
pelo fotógrafo Steve McCurry,
de passagem pelo Afeganistão.
Na segunda foto,
feita 17 anos depois,
a imagem da vida,
que mesmo em cores, é nefasta e cinza.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

O Grande Irmão
Emanoel Barreto

A força do tirano - A foto da Reuters mostra o ditador da Coréia do Norte, Kim Jong-il em visita a uma central energética, sem que seja mencionada a data. O motivo são os rumores de que ele estaria com a saúde abalada. Em outras palavras, está doente com risco de morte.

O fato é emblemático. O poder absoluto, a ditadura sobre corpos e mentes, gera no poderoso a sensação de que é indestrutível, sensação que se transmite a seus súcubos. Essa indestrutibilidade seria tamanha, que nem mesmo a condição humana seria fator a ser levado em consideração.

O poderoso se apresenta e é visto como dotado de poderes supra-humanos. É ele que tem a clarividência política, sabe os rumos e toda a sociedade deve pensar como ele. Qualquer desvio é criminoso. Trata-se, claro, de uma farsa, que somente se sustém até o ponto em que nela se acredite. Desfazendo-se a crença e havendo condições de força - leia-se capacidade de enfrentamento armado - para encarar o tirano, ele cairá.

Mas, enquanto isso não acontece, continua a burla, cruel, grotesca, brutal. Mas o tirano é apenas um homem e um dia essa condição se apresenta. E quando chegam a doença, a velhice, o fraquejar do organismo, não há força político-policial que o garanta.

Entra então em jogo a falsificação da realidade via imprensa, imprensa controlada pelo sistema de poder do ditador, como se isso fosse garantir-lhe vida eterna. Mas, a vida do poderoso é como as demais vidas: é eterna enquanto dure. E parece que na Coréia do Norte as coisas não são diferentes.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Muitas línguas e um silêncio grande
Emanoel Barreto


Blá-blá-blá - A realização do Forum Social Mundial em Belém parece ser uma reunião babélica. Muita gente falando muitos idiomas, como na construção da torre bíblica. Não sei até que ponto mobilizações desse tipo contribuem para que tenhamos um mundo melhor.

Numa reunião assim, não tenho dúvida de que muitos interesses dissimulados estão postos, até mesmo contrários às propostas mais gerais e humanas que, certamente, pessoas bem-intencionadas pretendem ver realizadas.

É válida a construção de uma sociedade civil global como muro de contenção aos interesses dos que querem ver até mesmo o planeta destruído, desde que isso signifique lucro.

Mesmo assim, não creio que seja possível o estabelecimento de uma agenda, com passos e finalidades programáticas a ser cumpridos etapa por etapa, até se chegar à formulação de algo efetivamente forte para enfrentar os terríveis interesses dos grupos e corporações internacionais do grande capital.

As ONGs se dizem não-governamentais, mas adoram ganhar verbas do Estado. Muitas se afirmam defensoras da Amazônia, todavia, se verificarmos com atenção, nada mais são do que sucursais sui generis de empresas que têm por objetivo explorar sua rica biodiversidade, patentear descobertas, enfim, ganhar dinheiro.

Aqui do meu canto, espero, pelo menos, que disso tudo saia pelo menos alguma coisa que faça o mundo ser (um pouco) melhor. Já seria de bom tamanho.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Ele é o homem
Emanoel Barreto

Pode ser o nosso Obama - Pronto. Pai Arnapio é o homem. Tem todas as qualidades que não encontramos nos políticos e mais alguma coisa. Já imaginou um presidente de República como Pai Arnapio? Um presidente que cuida até de unha encravada? Em Brasília, à falta de um Salão Oval, ele fazia despachos em qualquer encruzilhada para o bem da nação.

Mais que tudo, um presidente assim era o próprio SUS ambulante: cuidava do povo, mandava o demoneo para a Sibéria e fazia o que mais fosse preciso. Resolvendo problemas com cartões de crédito e FGTS acabava com a burocracia. Ia me esquecendo: com esse negócio de tirar demoneo do corpo e de qualquer lugar, não tenho dúvida de que acabava com a seca no Nordeste. A seca, esse demoneo que acaba com a alegria do nosso povo e mata de fome nosso gado.

Pai Arnapio, se candidate. Dê às mulheres seus maridos de volta, descubra todos os cornos e mande eles para alguma tourada na Espanha. Além de melhorar a auto-estima deles ajudava a resolver, mesmo que em parte, o problema do desemprego.

Pai Arnapio, se candidate. Batize os filhos de mãe solteira e faça deles bons cristãos. Benza os cobreiros, Pai Arnapio. Tire as morróidas dos funcionários públicos. Eles não se sentam em suas cadeiras por causa da dor. Ficando curados começarão a trabalhar como loucos.



quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Olha o carnaval aí, gente!
Emanoel Barreto

A Globo já tascou na tela uma mulata seminua para anunciar que o Carnaval vem aí. As coisas de jornal já gritam em notinhas que a festança nesses dias vai começar. Escolas de samba ensaiam, haja samba e tamborim.

Sinceramente, tenho dificuldade para entender o nosso povo. Mas, intimamente o aplaudo. De onde vem tanta vontade, tanta ganância pelo pagode, o remelexo, o requebro, a cadência doida de sexo que enfeita o carnaval? Por que a bebedeira, a bagunça, a festa-de-arromba? O que se comemora? Do que se tanto ri?

Será que ninguém percebe como são dolorosas, bisonhas, cinzentas e cabisbaixas as quartas-feiras-de-cinzas? E depois o dia-a-dia, a prestação da geladeira, a conta de luz, o prato com medo de ficar vazio. Por que, então, a grande festa? A resposta não está no moralismo, se alguém por acaso está pensando que sou seu defensor.

A resposta também não virá flutuando no vento, como diz a canção de Bob Dylan. A resposta vem de longe, perde-se nas estradas vicinais da constituição do nosso povo, vira a esquina das nossas tragédias históricas, pega a reta da poderosa miscigenação étnica e cultural, até repicar no tamborim, escorrer no suor que banha o quadril da mulata e explodir no grito-mestre do puxador-de-samba: "Olha o carnaval aí, gente!"

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A sofisticação, essa decadência
Emanoel Barreto

Há algo de decadente na lânguida e perversa sofisticação.
Corações vaidosos, vazios até do nada,
arfam, deliciados com uma beleza em vão.

A quem se mostra a sofisticação? A quem?
Sutil beleza afetada, olha-se no espelho
e pergunta: "Alguém mais bela do que eu?"

E o espelho, que é é ela mesma refletida, responde:
"Não, não há ninguém, porque você mesma é ninguém."

Mas isso ela não percebe, porque é sofisticada,
e se volta sempre para seu belo espelho.
Que não contém nada e está cheio de ar.
COMÍCIO DA SÉ – 25 ANOS
Walter Medeiros* – walterm.nat@terra.com.br

No começo do século passado tudo em São Paulo era mais ou menos metade do Rio de Janeiro. Em 1907, o Rio tinha 522.000 habitantes, enquanto São Paulo tinha 240.000. O Rio detinha 30% das indústrias brasileiras, contra 16% de São Paulo. Eram as oficinas de manufatura de calçados, vestuário, móveis, tintas, fundição e outras, onde trabalhavam operários brasileiros, italianos, portugueses e espanhóis e surgiam as primeiras leis trabalhistas do Brasil. As comemorações dos 445 anos de São Paulo trazem-me fortes lembranças de minhas rápidas, porém marcantes viagens àquela metrópole, uma delas em 1984.

Um frio de doze graus cobria Campos do Jordão naquela manhã. Era 25 de janeiro. Aniversário da capital, São Paulo. Um dia histórico, pois nele os brasileiros depositavam as esperanças de um deslanchar na campanha pelas eleições diretas. Depois do café da manhã seguimos, eu e companheiros de um curso, todos a pé para uma praça onde estavam estacionados os ônibus que a Prefeitura pusera à disposição da população a fim de participarem do Comício da Praça da Sé. Um dos ônibus fora reservado completamente para nós.

Descemos lentamente a Serra da Mantiqueira, observando aqueles precipícios de 1.750 metros de altura. Somente no trajeto já gastamos uma cota de coragem. O ônibus parou na Estação Tiradentes, de onde todos teriam que seguir de metrô para o novo destino. O grupo ia todo junto. Ao desembarcar na Praça da Sé, começamos a esquentar as gargantas, o sangue e o entusiasmo, com as palavras de ordem do dia. Era um sentimento de que a multidão era superior. Como dizia uma música da época: “A multidão é Deus”.

Sentíamo-nos fortes e começávamos propagando a conclamação: “Um, dois, três, quatro, cinco, mil, viva o Partido Comunista do Brasil”. Era um forte grito em coro, que ecoava em toda a estação do metrô. Aproximando-nos do Marco Zero, mudamos, para acompanhar a multidão, que gritava outra palavra de ordem: “Agora, já, fora Figueiredo e o regime militar”. Eram momentos de muita emoção. Um dia inteiro de atividade. Discursos, panfletos, bottons, convencimento, amor à causa do povo.

A Folha de S. Paulo disse que ali estavam trezentas mil pessoas. Houve jornal que falou em meio milhão. Em todos estavam lá fotos aéreas das torres da Catedral da Sé e a multidão embaixo ocupando toda a praça e ruas adjacentes. Olhamos e lemos no dia seguinte, orgulhosos de termos contribuído com a nossa parte para aquele cenário inesquecível. Depois veio a frustração da rejeição da Emenda Dante de Oliveira, porém seguida da eleição de Tancredo Neves e da Constituinte, da democracia, dos erros e acertos e dos sonhos que continuam sendo sonhados. E viva São Paulo!
*Jornalista – Natal/RN

sábado, 24 de janeiro de 2009


Lembranças da luta
Emanoel Barreto

A Folha de S. Paulo vem publicando séria de reportagens a respeito do movimento Diretas-já, que comçou mais ou menos em janeiro de 1984. O que se pedia? Algo que hoje pode parecer estranho: unicamente o direito de o cidadão votar para presidente. O exercício da democracia representativa traz em sua essência a prática do voto e o não-continuísmo no Poder, então passado da mão de um para a mão de outro general.

O movimento das Diretas constituiu-se num grande momento de mobilização da sociedade civil. Coincidiu com o declínio da ditadura e trouxe às ruas o grito social da insatisfação.

Mesmo concedendo que a democracia no Brasil ainda é um processo que precisa ser aperfeiçoado, o marco das Diretas-já é historicamente um grande gesto da sociedade a demonstrar que a sociedade civil pode e deve manter-se ou erguer-se em mobilização para fazer valer os princípios da democracia.

Democracia como processo político e como acesso da sociedade em geral à qualidade de vida, educação, segurança e transparência do exercício do poder.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Coisas de Jornal será atualizado neste sábado.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009


Se um dia o Monstro lhe chegar...
Emanoel Barreto
Se um dia o Monstro lhe chegar,
os seus muros heverão de resistir.
Se um dia o Monstro lhe chegar,
a força de você será mais forte.
Se um dia o Monstro lhe chegar,
olhe firme, que ele cairá.
Se um dia o Monstro lhe chegar,
chegou; e assim como chegou, passará.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Ron Edmonds/AP
O dia em que a Terra parou
Emanoel Barreto
Começou o jogo - A impressionante, grandiosa e fulgurante cerimônia de sagração de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos, serviu para demonstrar o poder de coesão que os momentos críticos da história podem provocar, quando um líder carismático sabe convenientemente utilizar tais momentos a seu favor e traz apegada à sua figura a aura de libertador, guia e timoneiro do seu tempo.
Resguardado por uma imagem pública de encarnação da própria ética, Obama foi aclamado como um césar. Um grande jornal estrangeiro chegou a compará-lo a "um feitiço", uma mágica que chegou na hora exata. Desceu à Terra em momento crítico e terá como incumbência o trabalho-de-hércules de salvar a economia americana, instaurar um processo de paz no Oriente Médio e, aos demais povos, estender uma mão amiga.
Em todo o mundo, Obama é um fenômeno de comunicação. Forma um belo casal com a mulher, Michelle, e suas filhas são uma gracinha. Não foi empossado, tornou-se alvo de glorificações. Não é visto exatamente como um presidente, mas como um salvador. Essa é a visão que o imaginário popular planetário projeta sobre o presidente americano. Sua posse foi um te-déum político.
Sua presença na cena política mundial é vista como a pedra que fecha a abóbada e forma o domo, a cúpula de uma construção magistral. Como resultado de tudo isso, tem a visibilidade de um ser eticamente inatacável . Mas, à sua sombra traz um peso: qualquer falha maior, arranhará o cristal dessa imagem.
Obama, a partir da colossal cerimônia de posse, já conseguiu um efeito de mídia favorável aos Estados Unidos: ficou patente perante o mundo qual o país mais importante, hegemônico e modelo para todo os demais. Temível e adorado. Como se isso não bastasse, sempre que ele se deslocar em viagem, um discreto assessor militar o acompanhará com uma mala: a partir dela, Obama pode explodir uma bomba atômica em qualquer país do mundo. Pense nisso.
Obama dá samba, gente...
Emanoel Barreto

A grande festa - A posse de Obama será uma espécie de sagração planetária àquele que é visto como a encarnação do bem, numa catarse coletiva surgida da mídia.
Além da festa em si, que demonstra como o público pode ser estimulado ao extremo em situações-comunicacionais-limite como esta, em que serão purgadas todas as decepções com a era Bush, a comemoração pela posse do 44º presidente dos Estados Unidos encerra outro sentido: há em todo o planeta a sensação de que a antieticidade de George W. Bush será substituída pela ética absoluta, pela honradez de propósitos, pelo trabalho, pelo compromisso com os mais pobres - dos Estados Unidos e do mundo.

Um presidente americano como Obama, carismático, negro e com grande capacidade comunicacional, pode produzir esse efeito em pessoas pobres de outrros países: negro, é facilmente identificado pelos mais pobres consigo mesmo; carismático, leva essa identificação, que é subjetiva, é uma expectativa, à condição virtual de promessa, que na realidade somente existe na mente de quem dele espera alguma coisa. A dor faz acreditar na cura.

De qualquer forma, já é uma mudança. E queiramos ou não, ele traz embutida à sua figura um corolário de promessas, até mesmo porque despertou em seu povo a expectativa histórica de um novo tempo, quase messiânico. Hábil comunicador, passou o dia de ontem, um feriado dedicado à memória de Martin Lutuher King, prestando serviços comunitários em uma entidade assistencial.

Isso adere à sua imagem, ainda mais, a promessa que que os Estados Unidos serão dirigidos por um ser humano sensível, não por alguém perverso, como proclama muito justamente a imagem pública de Bush.
Com relação ao Brasil, a identificação do nosso povo com Obama é clara. Ele tem o biotipo de brasileiro, encarna todas as promessas que o brasileiro gostaria de ouvir e, se brincar, sabe até jogar futebol. E eu não tenho dúvidas de que, se se fizesse algum tipo de pesquisa de opinião, Obama seria apontado como o presidente da República ideal para o nosso país.
Vamos ver na TV como foi a posse. Depois a gente se fala. Obama dá samba, gente...

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Coisas de Jornal voltará a ser atualizado nesta terça.
Emanoel Barreto

sábado, 17 de janeiro de 2009

Jason Reed/Reuters
O trem da história: de Lincoln a Obama
Emanoel Barreto

Os tempos velhos - Um dos pilares para a construção da nacionalidade é o culto a tradições, a rituais cívicos e a evocação a um passado coletivo heróico e a figuras mitificadas. Isso dá dimensão ao conceito de pátria. É claro que a figura de uma "pátria" tem permitido a aproveitadores e mistificadores de todos os tipos o seu uso para projetos políticos pessoais, uma vez que o chamamento da Pátria tem o condão de provocar multidões às maiores loucuras, substituindo nas pessoas a razão pela paixão. Hitler é o exemplo mais perfeito.

Mas, em situações históricas diversas, alguma manifestação de respeito às tradições é importante. E o povo americano sabe como ninguém expressar seu respeito ao passado, à fundação heróica do país e da nação.

Exemplo bastante elucidativo é a tradicional viagem de trem que os presidentes eleitos fazem da Filadélfia até Washington, mesmo percurso cumprido por Abraham Lincoln em 1861, antes de tomar posse na Casa Branca. Barack Obama não fugiu à regra e, apesar das baixas temperaturas foi esperado por multidões. Parou em Wilmington, Delaware, para receber Biden, seu vice, e em Baltimore, onde discursou, conversou com os presentes por alguns minutos, mas não falou com os repórteres.

A cerimônia de posse, no National Mall, deverá reunir pelo menos dois milhões de americanos. A mobilização reafirma a fé no sonho americano, a visão que um povo tem de si mesmo como líder do mundo e sociedade exemplar, a ser seguida por todos, democrática, arrojada e predisposta quase geneticamente ao heroísmo e à inovação.

Nada disso é verdade, mas, lá, é uma "verdade" inquestionável, porque eles mesmo disseram que sim e nisso passaram a acreditar. Suas tradições são fiadoras dessa fé. Isso é bom e mal. Bom, porque mantém a utopia nacional, de estar em permanente aperfeiçoamento. E mal, porque esse "aperfeiçoamento" resulta numa nação hegemonista, que defende seus interesses literalmente a qualquer custo. Hiroxima e Nagasáqui não me deixam mentir.

Aqui, nossa pobre patriazinha, como dizia Vinícius, quando muito espera o dia seguinte e a próxima remarcação de preços. Já é uma forma de utopia. Vamos ver se evolui para algo, digamos, maior.
ZOORÓSCOPO
ORCA - Os poderosos, arrogantes, pertencem muitas vezes a tal zoosigno. problema é que disputam em águas onde Tubarão também tem interesses e com isso têm sempre conflitos em seu horizonte próximo. Não devem casar, portanto com pessoas nesta casa e muito menos com Beija-flor. Com os primeiros terão desavenças terríveis. Com os segundos serão tão brutais, que logo o casamento será desfeito.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Quando as mãos falam mais que a boca
Emanoel Barreto

O monólogo das mãos é forte grito.
Não ouve quem não quer ouvir.
Nossas mãos, de alguma forma,
têm uma estranha vida própria
e se estiram e falam e dizem.
As mãos escrevem no ar,
no gesto crispado como garras,
ou no discurso eriçado de espinhos,
toda a tragédia diária.
Que se esconde
na alma e não fala,
pois a alma é silêncio e não pode falar.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

O diabo deve ficar no inferno
Emanoel Barreto

Hitler de volta - A BBC-Brasil informa: Hitler voltou às primeiras páginas de jornais na Alemanha. A responsável por isso é uma editora britânica, que está lançando esta semana nas bancas do país uma série de edições originais de jornais alemães da era nazista. Entre elas, a reimpressão do diário nazista Der Angriff (O Ataque), fundado em 1927 por Joseph Goebbels, futuro ministro da Propaganda do Terceiro Reich.
....
A editora britânica que fez o lançamento diz que trata-se apenas de trazer a público fac similes de jornais que se transformaram em documentação de um período histórico. Liberdade de expressão à parte, trata-se de empreendimento arrojado, porém perigosíssimo.

Certamente haverá aqueles que verão os exemplares como documentação viva de todo o horror nazista e sobre ele lançarão reflexões, para que não se repita. O problema é a possibilidade de uso das publicações como reforço e propaganda nazista ativa, num país até hoje traumatizado pelo hitlerismo.

Ainda hoje, o porte de símbolos como a suástica e outros são proibidos e filmes de propaganda nazista somente podem ser vistos por pessoas com finalidades acadêmicas, historiadores, sociólogos. E a autobiografia de Hitler, intitulada Mein Kampf (Minha Luta), de Hitler, não pode ser reeditada. Por precaução, é melhor deixar o diabo no inferno.

ZOORÓSCOPO

ESCORPIÃO - Para longe deles. Por natureza intratáveis, são traiçoeiros e cruéis. E quando se decidem a atacar, o fazem silenciosamente. A perfídia é seu modus operandi, o carreirismo é sua meta. Lembra da história do escorpião e o sapa? Pois é. Longe deles, se vive muito melhor.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Marilyn Monroe em foto de Bert Setrn

Uma mulher gravemente bela
Emanoel Barreto

Era uma mulher gravemente bela.
Envolta em transparente nuvem.
Era uma mulher gravemente bela.

Em aventura louca de vida, viveu intensamente instantes de marfim, momentos translúcidos, janelas de cristal que se abriam para um céu que acabava nas asas do sem rumo.

Era uma mulher gravemente bela.
Tão bela, que Narciso lhe tocou com dedos róseos e a fez acreditar que o sonho era a vida mesma. Por isso, era uma mulher gravemente bela.

Trocou a luz cintilante do orvalho pelo espetáculo do crepúsculo que fulmina de repente as vidas jovens. E, por ser uma mulher gravemente bela, viu-se inesperadamente coberta pelo escuro denso que existe em todos os sudários. Era uma mulher gravemente bela.

ZOORÓSCOPO

BALEIA - Eis aqui uma casa zoosígnica intrigante. Comumente, os dessa casa são vistos como grandalhões, desajeitados, ridículos, até mesmo. Mas, na sua essência, são pessoas boas, suaves porém corajosas. Empreendem grandes viagens no oceano da vida e conseguem superar as grandes distâncias entre a vontade como passo inicial e a realização como objetivo distante. Deve-se valorizar a amizade dos de Baleia, deixando-se de lado a prepotência mesquinha dos nascidos em Mosquito.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Na ilha das sereias
Emanoel Barreto
Afinal, o Paraíso - As coisas de jornal da net informam pela BBC Brasil: O governo do Estado de Queensland, na Austrália, está oferecendo o que considera "o melhor emprego do mundo": o de zelador de uma ilha paradisíaca.
O local de trabalho é a ilha Hamilton, uma das 600 ilhas da Grande Barreira Coralina --o maior recife de coral do mundo, que abriga um complexo e diverso ecossistema.

Para governo de Queensland, na Austrália, a vaga oferece "o melhor emprego do mundo".
A vaga é para um contrato de seis meses e o salário é de US$ 150 mil (R$ 235 mil) pelo semestre --o que representa pouco menos de R$ 40 mil mensais.

Entre as responsabilidades está a coleta das correspondências, alimentar tartarugas marinhas e peixes, limpar as piscinas, observar baleias e mergulhar. O governo esclarece que o candidato não precisa de qualificações acadêmicas, mas saber mergulhar, nadar e ter espírito aventureiro.
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O olhar da imaginação vai longe e constrói a tranquilidade mansa de águas preguiçosas. O mar como abraço, o vento como amigo, praias como território da paz. Ondas que dançam como dengosas feiticeiras; quem sabe, ali existem sereias.
ZOORÓSCOPO
TANGARÁ - Dizem, é o pássaro que dança. Nos zoosignos, designa as pessoas alegres, elegantes, charmosas. Que têm na vida particular atração pelo modo afável de tratar, gestos finos e amizade profunda. Precisam, contudo, temer contatos com alguém de Tubarão. Afinal, na vida nem tudo são flores. E mesmo os especiais devem tomar cautela com os brutamontes.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Sérgio Lima/Jorge Araujo/Folha Imagem

Apareceu a margarida, olê-olê-olá...

Emanoel Barreto

Para fazer bonito - A ministra Dilma Roussef prepara seu new look eleitoral. Já refeita de uma cirurgia plástica, ela apareceu como a margarida, mas não está em seu castelo. Ou seja: não vai ficar parada nas altas torres, como fez Rapunzel. Vai é mesmo para a frente, para o front da política, a fim de que sua imagem, bastante melhorada, diga-se de passagem, comece a ser mostrada e, o mais importante, lembrada.

Política tem muito de espetáculo, isso desde os tempos clássicos. Ou alguém já esqueceu o discurso de Marco Antônio ao lado do corpo de César, enlouquecendo as multidões para justiçar seus assassinos? O espetáculo na política consiste num processo claro-escuro. Os atores políticos apregoam meias verdades, mentiras completas, desvãos e encantos, feitiçarias do marketing e afinal o eleitor é fisgado.

Especialmente em países como o nosso, onde a fome ainda campeia e, por mais que se diga o contrário, o salário é pouco para um mês tão grande, e o político acostumou-se a utilizar de todos os recursos da retórica marqueteira, a fim de chegar ao pódio do mandato - sempre garantindo do povo que a fome vai acabar. Do jeitinho que a ministra Dilma está fazendo.

ZOORÓSCOPO

Peixinho de aquário - Triste sina: é muito bonito. E, pela própria beleza, só vive preso. Pense nisso.

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ISRAEL BOMBARDEIA A HUMANIDADE – II
Walter Medeiroswalterm.nat@terra.com.br

A convivência entre os países está ficando meio sem regras. Os atos desumanos imperam pela força, voltando-se ao estado de barbárie. Terra sem lei. Americanos e israelenses transformam o mundo numa espécie de Velho Oeste do Século XXI. Ou num estado criminoso de guerra, onde a força bélica age para exterminar populações inteiras, sob pretexto de caçar inimigos. Decidem quem vão matar ou prender e bombardeiam, enforcam ou mandam para Guantanamo.


Depois de bombardear a Faixa de Gaza por mais de duas semanas, matando multidões de palestinos que vai encontrando pela frente, o primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert diz que está atingindo o objetivo. Que objetivo seria? Matar quantos palestinos? Cerca de 1.000 já foram assassinados, massacrados pelos tanques de guerra e bombas lançadas dos aviões israelitas.

Combate? Confronto? Que combate? Que confronto? Um exército que invade uma região e sai destruído prédios, exterminando famílias inteiras, populações inteiras, está combatendo a quem? Que forma estranha e desproporcional de reagir, já que dizem estar reagindo a ataques do Hamas. Que forma estranha de confronto, apontar, atirar e matar multidões desarmadas.

São inúmeros crimes de guerra já praticados por Israel neste período. Crime de guerra é para ser punido. Onde está o Tribunal? A acusação e os acusados já existem. São aqueles que promoveram o genocídio dos palestinos, sob pretexto de estarem se defendendo, a partir de bases falsas.

O palestino Hanna Safieh diz que “não podemos criar uma filosofia de ódio: temos de combater essa tendência, porque ideologia de ódio só traz mais ódio”, mas assegura que “Não existe força militar no mundo capaz de silenciar um povo”. É verdade. Para que se faça a paz é preciso que o mundo mostre a Israel que não aceita essa matança.

Da mesma forma que tem razão o PSTU ao afirmar que “Ao mesmo tempo em que é necessário reafirmar o repúdio aos crimes de guerra praticados pelo nazismo contra o povo judeu, é preciso também reconhecer que atualmente o que está sendo praticado pelo Estado de Israel contra o povo palestino se assemelha em muito ao método de eliminação física e limpeza étnica utilizado pelos nazistas”.

A resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas) aprovada nesta segunda-feira condena Israel pela ofensiva militar na faixa de Gaza, o que mostra quão acintosa é aquela ação. A resolução pede também o fim imediato das hostilidades, seguindo o clamor de bilhões de cidadãos que estão indo às ruas no mundo inteiro. Aprova, ainda, o envio de uma missão de investigação independente para avaliar se as Forças de Defesa israelenses estão cometendo crimes de guerra.

Esperamos que seja o início da chamada à ordem de tantas ações autoritárias, violentas e desumanas. E que sejam punidos os que estão praticando esses atos de genocídio, para que o mundo restabeleça melhores formas de convivência entre os povos.

domingo, 11 de janeiro de 2009

A Justiça de topless
Emanoel Barreto

E ela resolveu se mostrar - Fontes bem informadas comunicaram-me que há poucos dias, na França, uma mulher que posteriormente foi identificada como sendo Themis, a deusa da Justiça, apareceu sem a parte de cima do biquine numa praia de nudismo. Por mais estranho que possa parecer, foi presa. Levada a um juiz, ela ainda tentou defender-se, dizendo que na praia todos estavam nus, enquanto ela, pelo menos, usava a parte de baixo do maiô.

Perplexa, disseram ainda as fontes, Justiça disse que a ação da polícia era um absurdo. E quis saber o real motivo de sua prisão, lembrando que tivera a idéia de fazer topless porque no Olimpo as coisas estavam calmas demais, chegando quase ao tédio. Ao insistir com o magistrado quanto ao motivo de estar detida, manteve com ele o seguinte diálogo, revelaram as fontes:

- Sr. Juiz, por que estou aqui?
- O que a senhora estava fazendo naquela praia? - indagou o juiz.
- Eu estava, como as demais pessoas, experimentando a liberdade de expor meu corpo. Que mal há nisso, já que a praia era de nudistas? - rebateu Justiça.
- Mas, - reagiu o magistrado - a senhora não estava fazendo mais algo?
- Como assim? - respondeu, perplexa. - Fazendo o quê?

- A senhora estava falando, conversando com alguém? - detalhou ele.
- Estava, estava falando- admitiu ela.
- Então, estava fazendo mais do que exibir-se seminua - continuou o juiz.

- Mas, há algum problema em falar? - questionou a bela mulher.
O juiz sustentou seu olhar no olhar de Justiça e disse: - E o que dizia?
Ao que ela respondeu: - As pessoas estavam me perguntando quem eu era. Diziam que era bela como Themis e eu respondi que não era bela como Themis: eu era, ou melhor sou Themis, a deusa da Justiça. E agradeci os elogios.

Ao que o juiz respondeu: - Ahhhh... Está aí o motivo da sua prisão. A Justiça não existe. É uma balela. É apenas uma lenda, entende? Uma lenda belíssima, criada pelos gregos antigos. E como os deuses gregos, como se sabe, jamais existiram, a senhora também não existe, e ao dizer que existe estava enganando as pessoas, dizendo que a Justiça existe. Assim, cometeu um crime, foi presa. E insisto: como juiz, sei que a Justiça não existe, é apenas uma lenda grega. E, quem disser o contrário, será preso também.

Bateu o martelo, dando o caso por encerrado.