segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O olhar, o velho e o seu tempo
Emanoel Barreto

No olhar, o tempo paralítico.
Na vida, o homem se perdeu
Desbotado num canto do passado.

Para ele, uma vida cancelada.
Numa vida, a visão despedaçada.
Seu caminho desceu lento, inexorável.

E depois, seu depois foi todo ontem.
E em torno dessa reta re-tornou.
E tornou-se tanto, tanto pesaroso,
Que sequer se quer se relembrar.

sábado, 15 de novembro de 2008




Ele queria liberdade; a família, dinheiro
Emanoel Barreto

Tornou-se bastante comum a utilização, pelo establishment, da memória de pessoas que lhes foram contestatárias, em proveito ideológico ou econômico do próprio sistema. O caso mais evidente é Guevara, na foto imortal de Alberto Korda, em 5 de março de 1960, Cuba. A reprodução que você vê acima é da foto original, da qual foi realçada unicamente a imagem de Guevara, excluindo-se a figura do homem a seu lado.
O guerrilheiro teve a imagem ampliada, ganhou discursividade visual, tornou-se penetrante, enigmática, desafiadora às interpretações. Expressa uma grandeza humana e trágica, um destino brotado na alma e palmilhado à força da coragem e doação. Guevara, o olhar perdido, encarnando o mito rebelde. O comandante traz um semblante crístico, revestido de aura heroicizada; o homem cara a cara com os desafios de sua existência e da sina de existir e combater - paixão.
Hoje, essa foto pode ser vista em milhares de camisetas e posters em todo o mundo. Como já se distancia no tempo sua epopéia guerrilheira, muitos não sabem exatamente quem foi, o que fez, como se desenrolou o seu calvário. Mas, mesmo assim, jovens o vestem como uma figura enigmática; vestígio de algo que não compreendem, mas, maquinalmente, cultuam; é moda, é fashion. Rende lucro a tudo o que ele combateu.
Quanto à outra foto, a de Martin Luther King, diga-se: ele, que foi um lutador pelos direitos civis dos negros americanos, certamente estaria cabisbaixo e meditando a respeito do que os seus familiares estão fazendo: como muitas fotos suas estão sendo estampadas em buttons e camisetas pelos Estados Unidos, ao lado de fotos de Obama, seus filhos, ao invés de verem nisso uma reverência à figura histórica do pai, reclamam: querem direitos de herança sobre a sua imagem, literalmente direitos autorais, querem... dinheiro.
É sempre assim: pessoas exponenciais, revolucionárias, são transformadas em ícones de causas que historicamente já não mais se postam e não mais ameaçam o sistema. Isso se dá porque os objetivos de tais causas ou foram alcançadas, como é o caso dos direitos civis dos negros, ou não mais se justificam, como é a questão de Guevara, uma vez que a questão da luta pelos direitos dos oprimidos se faz por outras vias que não a da luta armada.
Assim, esses vultos são anexados, indexados aos valores da sociedade de mercado e de consumo, e passam a ser vendidas fotos ou outras representações suas, estimulando os apetites até mesmo de quem lhes deve respeito, como é o caso dos familiares de King.
Mas é assim mesmo: o que é transgressão hoje, passa amanhã a ser algo institucionalizado, rende lucros, dividendos e ganância remunerada de quem sabe com isso lidar.
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República e Liberdade Walter Medeiros
O auditório do Centro de Convenções de Natal repleto de advogados e convidados, todos de pé aplaudindo emocionadamente. No ar uma mensagem ecoava alvissareiramente; o Estado Brasileiro acabara de pedir desculpas pelo que foi feito ao cidadão perseguido número um na ditadura militar. E nos telões espalhados naquele imenso salão uma voz latina cantava em tom de bravura, enquanto eram exibidas imagens através das quais a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça homenageava o ex-presidente Jango.
Bela forma de comemorar o aniversário da Proclamação da República. Era o evento que precedia o encerramento da XX Conferência Nacional dos Advogados do Brasil, uma reunião da Comissão de Anistia com a presença do Ministro da Justiça, o Presidente do Congresso Nacional, o Presidente da Câmara dos Deputados, a Governadora do Rio Grande do Norte e o Prefeito de Natal, cidade tão presente nas lutas libertárias. A Caravana da Anistia fazia-se presente agora entre advogados, depois de passar por momentos importantes na ABI, UNE e CNBB, entre outras entidades.
Momento histórico, uma aula prática de História do Brasil. João Belchior Marques Goulart e Maria Tereza Fontella Goulart seriam anistiados na forma do conceito de Justiça da Transição, que subentende a idéia da verdade, a reparação do Estado pelas perseguições e injustiças, aplicação do princípio da justiça e reforma das instituições, tudo através da incorporação dos valores dos Direitos Humanos e da Democracia.
O processo de anistia de Jango registra as marcas do seu governo, destacadamente as reformas de base e o fortalecimento das empresas nacionais. Mostra que ele foi deposto e banido, tendo de deixar o país de forma precária e arriscada, com a mulher e dois filhos menores. E propõe a reparação pelo que ele passou no exílio, vivendo no Uruguai e na Argentina. O requerimento foi acatado pelo relator, conselheiro Egmar José de Oliveira e a anistia concedida por unanimidade.
Ao proclamar o resultado do julgamento, o presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão asseverou que “valor nenhum paga a dor e o sofrimento do cidadão banido”. Recebeu aplausos demorados de uma platéia que viu em seguida o Ministro Tarso Genro formalizar o pedido de desculpas no qual o Estado Brasileiro reconhece os erros do passado perante a família de Jango, diante do seu neto Christopher Goulart, de 32 anos, também advogado. “Um dia dos mais importantes para a nossa história”, considerou o presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Cezar Britto.
Naquele auditório encontravam-se pessoas emocionadas, olhos marcados pelo fato vivo, que as remetia ao passado de arbítrio, deportações, banimentos, perseguições, prisões, tortura, demissões. Um passado de incertezas para quem lutava pelas liberdades democráticas e pelo Estado de Direito. Um passado que mudou pela violência o rumo da vida de tantos brasileiros. Um passado, segundo o documentário da Comissão de Anistia, para não esquecer, um passado para nunca se repetir. Um passado no qual era proibido cantar o Hino da República, porque nele é feito o apelo maior: “Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre nós”.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Xuxa, estranha Xuxa
Emanoel Barreto
Xuxa está movendo ação em que cobra à Band indenização de cinco milhões, alegando danos morais pelo fato de que a emissora veiculou imagens dela nua no programa "Atualíssima". As imagens fazem parte de ensaio fotográfico da época em que ela posava para revistas masculinas.
A Band recorreu e a Justiça acatou pedido da TV para que ela se submeta a exame psicológico, a fim de constatar se, realmente, ficou tão abalada como afirma na ação. Ela pode negar-se a fazer os exames.
A foto acima é de cena do filme "Amor, estranho amor", produção de 1982 do cineasta Walter Hugo Khoury, onde Xuxa contracena com um menino. Xuxa, há tempos, conseguiu na Justiça que a fita não mais seja exibida. No mercado pirata de DVDs, entretanto, é possível encontrar cópias da produção, bem como no You Tube.
É estranho esse comportamento: ela efetivamente participou de produções eróticas (cinema e revista), até encontrar o filão do mercado infantil, projetando-se como a "Rainha dos Baixinhos". Não há como renegar o seu passado, fugir do que fez, até mesmo pelo fato de que isso não prejudicou sua ascensão em seu atual segmento de mercado.
Agora, quando isso é mencionado, ela se apresenta como vítima. Xuxa encarna com perfeição a hipocrisia: busca encarnar a figura de alguém que as crianças idealizam como sendo angelical, quando na verdade é apenas um ente de mercado, um produto que vende outros produtos, com a marca Xuxa.
Há tempos deu entrevista a Amaury Jr., quando disse que, no filme, seu personagem ganhou preeminência sobre os de Vera Fischer e Tarcício Meira, atores principais. Reclama disso, sem razão. Os dois atores não fogem de sua atuação no filme, jamais reclamaram de sua exibição.
Ora, se ela não era a personagem principal, por que reclamar? O problema é unicamente de mercado: ela não quer mesclar seu passado com seu presente. Mas, se ela não mais participa de produções eróticas, por que a preocupação? O que foi feito, foi feito; passou, acabou.
Estranha, essa Xuxa: renega seu passado de ninfa, sua cena libidinosa com um menino, enquanto manipula milhões de crianças para quem comprem seus produtos. Xuxa, estranha Xuxa.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Mãos ao alto, cidadão!
Emanoel Barreto
A polícia civil de São Paulo encerrou greve que já durava 59 dias. Uma cidade como aquela, complexa, violenta como um tornado, perigosa como um escorpião, deixada de lado por uma categoria que trabalha com serviço essencial.
São compreensíveis os motivos, mas inaceitáveis os procedimentos para a obtenção de reajuste salarial. O Estado precisa e deve acionar mecanismos de reajuste aos policiais; sem trocadilhos, uma espécie de gatilho salarial justo sério, disparado sempre e quando a categoria reivindicar.
Seria algo como uma mesa de negociação permanente, dialogando com a categoria e sensibilizando-se com seus reclamos. Não seria uma sucumbência prévia do Estado perante a sua Força. Não, mas uma atitude de bom senso, frente às características salariais das polícias civil e militar.
O que não se pode admitir é que uma categoria funcional armada entre em estado de greve, permitindo que criminosos de todos os tipos venham a agir com impunidade e desenvoltura.
Mas este país é assim: juiz faz greve, promotor faz greve e, no fim, obtêm, com a criação de um estado de coisas descontrolado, aquilo que pretendem. Quando os policiais fazem greve, quem fica de mãos ao alto é a sociedade.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008


Acaba a guerra do Iraque
Emanoel Barreto

Ativistas de um grupo auto-intitulado Yes Man, distribuíram hoje, em Nova Iorque e Los Angeles, uma edição falsa do New York Times. Nada menos que 1,5 milhão de exemplares, mesma tiragem do jornal.

O título é impactante, diz: "Acaba a guerra do Iraque". O jornal vem com a data de 4 de julho de 2009 e traz notícias indicando que o Tesouro anuncia um plano justo de impostos, a revogação do Ato Patriota e, pasme, George W. Bush sendo julgado como autor de crimes de guerra.

Quatro de julho é o dia da independência dos Estados Unidos. O Ato Patriota "é uma lei dos Estados Unidos que foi aprovada após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Seus objetivos são reforçar a segurança interna e aumentar os poderes das agências de cumprimento da lei para identificar e parar os terroristas. A aprovação e a renovação do Ato Patriota foram extremamente controversas", é o que explica o site "Como tudo funciona".

Quanto aos impostos e a Bush, é óbvio: não há mais quem agüente a ação de um Estado que taxa seus cidadãos com voracidade, nem um presidente como aquele.

O ato é uma manifestação de que parcela da sociedade civil está atenta e tem condições, sim, de manifestar seu descontentamento ante o cinismo e a hipocrisia de um sistema de poder voltado para a impiedade e a barbárie.

A história não se repete, mas irrupções de rebeldia e insatisfação brotam sempre e quanto as circunstâncias de poder chegam a limites do inaceitável. Vivemos este dilema hoje: interesses das grandes corporações mesclam-se com decisões de Estado, promovendo guerras e devastação ambiental, insegurança e horror.

As sociedades convivem com o fenômeno do banditismo, comércio ilegal de armas como nunca se viu e com o crime organizado, especialmente em torno das drogas. O protesto do Yes Man deve ser levado em conta. É um grito que deverá tornar-se suficientemente forte para atrair para seu lado outras vozes e outros clamores.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Cansados e feridos
Emanoel Barreto

Nesta terça, o presidente-eleito Barack Obama fez uma parada em seu trabalho com a equipe de transição para prestar homenagens aos soldados americanos mortos, feridos ou mutilados nas muitas guerras que o país protagonizou ou leva adiante.

É que hoje, nos EUA, é o Dia do Veterano. Ou seja: um ser humano que, sob o lema de amor à pátria-mãe, é levado literalmente a carregar armas e bagagens e atirar-se a lutas onde a crueldade é norma básica e a desumanidade linha mestra. Depois, voltando para casa, é um homem ou mulher destroçado física e emocionalmente.

Como compensação é chamado de herói, defensor da pátria, guerreiro que retorna ao lar...

É esse o legado, a herança maldita das guerras, de todas as guerras: envolver pessoas em conflitos que somente atendem aos interesses das elites, sob o véu de que estarão defendendo relevante valor moral. Quando as guerras são, em essência, imorais, uma degenesrescência histórica, uma contra-mão no processo civilizatório.

Quanto aos americanos, a ideologia que os norteia vale-se de um patriotismo tornado socialmente genético e a partir daí alastram, cobertos pela artilharia do terror, o sangue, a brutalidade, o morticínio.

Ao final, o ser humano, solitário em sua condição de mutilado ou emocionalmente desfeito, volta ao silêncio de sua vida, às indagações sobre o seu sofrimento em campo de batalha, e se queda em meio aos demônios que foi levado a cultivar.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Coisas de Jornal voltará a ser atualizado amanhã.
Emanoel Barreto

sábado, 8 de novembro de 2008


Vamos parar, um pouco...
Emanoel Barreto

Vamos parar um pouco, por um instante, o tédio.
Vamos olhar com vista de marfim.

Quem sabe, um pouco, a claridade
nos chame a viver em tendas nas estrelas.

Vamos sentir, sem medo, a lua mansa.
Vamos chamar, sem grito, o sol nascente.

Quem sabe, em pouco, a noite nacarada
nos chame a viver em meio a um jardim.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Obama, o benigno, é o senhor dos jornais
Emanoel Barreto

A assunção de Obama à presidência do grande império do Norte colocou-o não apenas como o homem mais poderoso do mundo. Ele galga o cargo envolvido por uma tal torrente de mídia, que passa a ocupar o papel de algo como um messias, um enviado que vai mudar tudo na face da Terra.

Isso é reflexo bastante explícito da situação que hoje se vive: o mundo chegou a um patamar de inseguranças e incertezas tamanhas, que ao surgir alguém cujo perfil destoa completamente do padrão étnico dos presidentes americanos, essa condição étnica passou a ser vista como status ético; um novo modelo estruturante, uma nova mentalidade e, especialmente, um novo modo de encarar o mundo por parte do sistema americano de poder.

Obama seria o sinal de que os Estados Unidos abandonariam sua política de polícia do mundo - e polícia voltada para a preservação dos interesses americanos -, passando a exercer uma liderança voltada para a paz e a conciliação entre os povos.

É que a angústia dos nossos tempos clama por um avatar e visualizou nele um taumaturgo, um ser superior capaz de, pela serenidade, humanidade e propósitos inatacáveis, nos encaminhar a uma era fabulosa de paz e bem.

Obama, carismático, culto, refinado, tornou-se um fenômeno de mídia. O jornal Washington Post, frente à avalanche de leitores em busca de exemplares, imprimiu nesta sexta-feira 350 mil exemplares adicionais à edição comemorativa, veiculada dia anterior. Mais: o site de leilão eBay está vendendo exemplares a 100 dólares, enquanto o site Craigslist vende cópias do jornal a 50, ainda no saco plástico.

Trtata-se, evidentemente, de um fenômeno de comunicação. Uma grande catarse coletiva, uma exultação, um fùlmine como dizem os italianos, para designar algo extraordinário e alumbrante, paralisante pela sensação magnífica que domina, encanta e sensibiliza.

Mas Obama pouco a pouco adentra o mundo dos mortais. Já despacha com a CIA e mantém seus primeiros contatos com relatórios do serviço secreto estadunidense. E estes, dizem as coisas de jornais que li, apontam para um mundo que tende sempre e mais à tensão e à guerra - sempre com a participãção dos EUA.

É que o mundo real não parou. O que é preciso é as pessoas começarem a sair do sonho para voltar a trilhar o dia-a-dia. Logo, logo ele tomará posse. E as pessoas serão levadas e admitir, como John Lennon, quando disse à dissolução dos Beatles: "O sonho acabou."

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Ku Klux Klan: terrorista e genocida
Emanoel Barreto

A Folha informa:O pastor protestante e diretor da Ku Klux Klan, Thomas Robb, declarou após a vitória democrata na corrida à Casa Branca que o presidente eleito dos EUA é "só metade negro". A KKK é a associação racista mais famosa do planeta, identificada historicamente por seus capuzes brancos, cruzes incandescentes e crimes raciais.

Em um texto publicado no
site do grupo supremacista branco, Robb afirma que "Barack Obama se tornou o primeiro presidente mulato dos Estados Unidos", e não negro, já que "ele não foi criado em um ambiente negro". "Ele foi criado por sua mãe [branca]", argumenta, na nota intitulada "América, nossa nação está sob julgamento de Deus!".

Robb interpreta que, com a eleição de Obama, o "povo branco" dos EUA vai perceber que é hora de se unir contra aqueles que odeiam seu modo de vida --estrangeiros e negros, de acordo com a KKK. "Essa eleição de Obama nos chocou? Nem um pouco! Nós vinhamos avisando ao nosso povo que, ao menos que os brancos se juntassem, seria exatamente isso que aconteceria", incitou."
....
A KKK é um dado político-racial a não ser desprezado. Talvez não sobrelevado, mas nunca desprezado. Os extremistas são o resíduo mais lamentável e desprezível da cultura norte-americana - aquele grupo reacionário, perigoso, agressivo que pode, sim, circunatancialmente acionar algo como um ataque ou atentado ao presidente eleito.

Alicerçada num fundamentalismo racista irracional e insano, a KKK representa a intolerância e o lado violento de uma sociedade branca, que não admite a humanidade como formada por seres iguais, cidadãos que podem e devem participar da sociedade, dos seus problemas e do compartilhamento de direitos.

Obama assumirá o poder em meio a uma situação difícil, não apenas pela guerra no Iraque e Afeganistão, mas especialmente pela crise econômica que desestabiliza a vida e o bem-estar de milhões de americanos. Esse condimento social pode muito bem ser acionado pelos extremistas, a fim de fazer valer os seus propósitos.

Preservar o equilíbrio é algo essencial para assegurar a democracia. E democracia não é algo que se esgota no simples e puro direito de votar e ser votado. A democracia é patrimônio ideológico e, portanto, imaterial, que assegura a mulheres e homens uma vida pautada pelo respeito a valores básicos da sida em sociedade; uma vida digna, honrada e assegurada em todos os planos pelo Estado. A democracia deve ter sempre como meta o ser humano, e sua valorização sob todos os aspectos.

A intransigência de racistas precisa receber todo o peso da mão do Estado. A KKK, desta forma, é um grupo terrorista, anti-democrático e, se deixarem, genocida. Tudo o que nenhum povo precisa.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O futuro americano é negro

Impedido de publicar postagens devido a problemas no meu computador volto agora, quando Obama é o presidente eleito. A eleição tem algo de essencialmente simbólico: a Casa Branca dirigida por um negro.
Não é um mero trocadilho, um drible que a história dá no segregacionismo, na exclusão, na pobreza que lá existe, e muita. Não se trata de, enfim, de uma cambalhota ideológica, uma surpresa do processo político: o que se vê é a ponta de um iceberg, a possibilidade lenta de uma mudança social e étnica. Um primeiro passo.
A ascensão de Obama é simbólica em função de outro aspecto: ele surge como uma espécie de antídoto para tudo o que a nação americana vive em seu momento histórico. Representa o recuo de uma corrente de pensamento reacionária, belicista e bronca, o declínio, pelo menos atualmente, do que há de pior na política dos Estados Unidos.
Estiolada por um governo que meteu o país em mais uma guerra, permitiu que o sistema financeiro agisse às cegas e gananciosamente, e incapaz de garantir a segurança interna com os ataques do 11 de setembro de 2001, a nação pede arreglo pelos erros e injustiças raciais e elege um negro.
Obama foi eleito sob a proteção das asas de um sonho: reerguer o país e sua auto-estima, seu orgulho imperial e seu patriotismo quase seminal; estilhaçar a crise econômica e o dilema do Iraque e fazer despertar um olhar novo sobre a presença e importância dos negros na construção do país. Isso foi o que o marketing vendeu. Isso foi o que prevaleceu. É bom que tenha sido assim, muito melhor que MacCain.
Obama, todavia, assumirá sob o peso da realidade. Do homem ideal, do líder, do condottiero, restará a figura humana que é, em si, falha e limitada. E virão, agora sim, os problemas, o mundo real, o presidente em ação.
O mundo inteiro vibrou a favor do jovem, do negro, do intelectual carismático. Agora, virá o americano, que não poderá - ninguém pode -, cumprir todos os compromissos de campanha. De qualquer forma, espera-se que se inaugure algo de novo, mais humano - aí no sentido de solidariedade ou compaixão -, para que se amenize o imperialismo e o torniquete que os americanos aplicam àqueles sobre quem se impõem.
Falando assim, parece que quem está sonhando sou eu. Vamos ver até que ponto. De qualquer forma, nessa quadra da história o futuro americano é negro. E, pelo menos isso, é bom, muito bom.
Emanoel Barreto

sábado, 1 de novembro de 2008

A Mulher inteira e bela

A Mulher inteira, o corpo belo.
O instante, o abraço, o olhar querendo...

Ela.

Terna, bela, completamente plena.

O momento que é só de nós dois,
numa manhã que se fez luz. E plenilúnio.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

E a turma toda pede Obama

A quatro dias da eleição presidencial dos Estados Unidos, o mundo conspira Obama, espera e pede pela sua eleição. Um sentimento de que algo de podre no reino da Coca-Cola precisa e pode ser levado ao charco da história. É como se alguma coisa nova, essencialmente nova, estivesse por acontecer. Especificando: retirada das tropas do Iraque, redução do imperialismo americano, bondade distribuída à mancheia.

Melhor seguir em marcha lenta: a rigor, as pessoas não sabem exatamente o que ele pensa. Seu discurso foi programado para abranger o máximo possível de público, tornando-o simpático à eleição daquele que poderá vir a ser o primeiro presidente negro dos EUA.

"Obama é o candidato favorito de 42% da população de várias cidades do mundo, enquanto apenas 12% votariam em seu adversário republicano, John McCain, segundo pesquisa da rede de TV britânica BBC." Essa informação está nas coisas de jornal da Folha.

De alguma forma, Obama é visto como a antítese de Bush, que por sua vez é, socialmente, a encarnação do mal. Nesse jogo de dualidade bem/mal, a balança pende para o lado do "bem". E quem "é" o "bem"? Obama, claro. O raciocínio maniqueísta e simplificador do senso comum funciona sempre assim: de maneira a reduzir tudo a oito ou oitenta.

Esquecem as pessoas que ele é, antes de tudo americano, antes mesmo de ser negro. Tanto que está aí, candidato com chances reais de vitória. É irrecusável que sua presença será sempre melhor que a de Bush. Mas não se pode esquecer que sua alma é a de um norte-americano. E todo americano pensa assim: "God bless America...". Do mesmo modo que nós dizemos: "Deus é brasileiro..."

O trabalho de marketing é exatamente esse: produzir um personagem. Personagem que, depois de eleito, dará lugar ao pragmatismo do homem, o que nos remete a representante do establishment, da velha ordem americana.

Também espero que seja eleito. Mas tenhamos paciência para o que trará em termos de política externa. Será positiva a presença de um negro na presidência; como símbolo, como indício de um princípio de mudança. Mas, daí à sua idealização, heroicização, caímos no terreno da fantasia. E isso não é bom. Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.
Emanoel Barreto

A rua de um lado só

Meu amigo, poeta e jornalista Walter Medeiros, envia este desabafo. O registro do descaso da prefeitura de Natal.
Emanoel Barreto

Os moradores da rua Neuza Farache receberam com alegria a visita de emissoras de TV, para mostrarem como andam obras da Prefeitura em Capim Macio. As equipes chegaram sem alguns problemas, porque estamos num período sem chuvas, pois no inverno a rua fica inacessível, ilhada por lagoas de todos os lados. No momento, entretanto, o problema é outro.

A rua Neuza Farache nunca tinha enfrentado problema além da poeira do período seco, embora pela ausência de pavimentação tenha sido há décadas uma rua de um lado só, pois os veículos só trafegam pelo lado direito no rumo oeste-leste.

Há cerca de seis meses, a Prefeitura escavacou tudo, fazendo uma vala de 2,5 m de profundidade por 1,2 m de largura, para instalar canos que se supõe para esgoto e drenagem. Escavacou e deixou tudo fofo, areia solta, casas inacessíveis. Cada morador teve de se virar para improvisar acessos dos mais diversos formatos.

Há dez dias uma equipe de obras chegou para fazer o mesmo serviço novamente. Emitiram a ordem de serviço e já estavam escavacando novamente, até que os moradores alertaram e suspenderam a repetição da “obra”. Mesmo assim, já era tarde, pois passaram uma máquina para aplainar, que piorou a situação.

Como se não bastasse, agora os caminhões carregados de areia trafegam sem parar, afundando o caminho dos carros, rompendo encanações da CAERN, fazendo atolar carros, ônibus, micro-ônibus, caminhões. De nada adianta contato, mensagem, telefonema para a SEMOV. Damião Pita atende, promete, mas não manda fazer nada.

Hoje amanheceu com um trecho compactado. Nada mais, nada menos que dois canos que romperam ontem e passaram a tarde jorrando água no leito da rua, o que amenizou a situação em um pequeno percurso. Mas os caminhões já voltaram a trafegar, o sol começa a secar a areia e mais tarde tudo volta àquela normalidade horrorosa.

O pior de tudo é o desrespeito aos moradores, pois a Prefeitura não informa nada sobre o que está sendo feito. Enterrou os canos, mas nada diz sobre o possível próximo passo. Ao invés de resolver os problemas da comunidade, sua presença com os serviços em ruas adjacentes causa novos problemas aos moradores da rua Neuza Farache.
Walter Medeiros

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O Neto que virá

A Vida surge, doce e calma,
no corpo da mulher-menina, eternamente filha.

O Neto começa a ser antes mesmo de existir, e faz
brotar no rosto do Avô uma alegria terna.

É, já, uma beleza imensa.
Há música no ar, e a cor suave da noite em Natal
prenuncia uma nova alegria que virá.
Emanoel Barreto

Conversar com Cascudo

Conversar com Cascudo era descobrir o tempo velho passando à sua frente. Era mergulhar na história arcaica escrita pelo povo. Era virar páginas e páginas inteiras de cores, fandangos, jangadas, bichos e gentes; vozes de acá, nascidas ibéricas ou africanas. Conversar com Cascudo era perscrutar a vida no seu mais íntimo significado de coisa humana.

Conversar com Cascudo era descobrir um homem feito de sabedoria. Conversar com Cascudo era viajar o chão do sertão, a noite, a brenha secreta; cruviana esfriando o passo do cavalo do vaqueiro em noite de plenilúnio: arrepio com medo de lobisomem.

Conversar com Caascudo era alumbrar-se com as visagens, os cantos todos, os aboios, a comida da terra; caçuás, canga e cantiga de botar menino para dormir. Conversar com Cascudo era ouvir o tempo severo do Nordeste em sua eterna e serena espera pela chuva criadeira.

Conversar com Cascudo era ouvir o sábio da aldeia, tão dele e tão canguleira. Conversar com Cascudo agora é uma saudade, quando a vida já não anda em cavalo baixeiro e estamos todos à mercê e ao léu do não-sei-mais.
Emanoel Barreto

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Morreu o filho

Luquinha passava em frente a uma mansão, onde havia uma grande multidão. Luquinha, desempregado, morador de palafita; somente ele e a mulher. O único filho morrera por falta de um remédio, que ele não pudera comprar. Ficou meio louco deste então. Andava a esmo, passava dias sem ir em casa.

E Luquinha parou: queria saber o que acontecia. A polícia cercava a casa. Era um seqüestro. Dentro da mansão, um bandido que fugira dos policiais mantinha sob mira arma um menino, filho do dono da casa. Como se chamava o homem, o dono da casa? Seu Macieira, alguém disse.

Luquinha calou. Rodeou a casa. O cerco fora mal feito e ele encontrou um jeito de entrar na casa. Saltou o muro alto, correu ao lado da deliciosa piscina, entrou pela porta dos fundos. Caminhou em silêncio e viu que o bandido e o menino estavam na sala, ele falando ao celular com a polícia.

Luquinha foi ao primeiro andar, mexeu numas gavetas no quarto do casal e encontrou uma arma.
Atirou-se escada abaixo. Parou, mirou no bandido e mandou:

- Se vira pra mim! Se vira, vagabundo! Se vira, que é pra morrer!

O homem tremeu. Empurrou o menino de lado e voltou-se para Luquinha. Queria se defender. Inútil. A bala do 38 pegou-0 na testa e ele desabou. A polícia então invadiu a casa. Quando os agentes entraram, encontraram a seguinte cena: Luquinha deitado de bruços, demonstrando rendição, o bandido morto e morto também o menino.
Seu Macieira entrou e seu rosto assumiu a feição de uma máscara da morte. Dirigiu-se a Luquinha e quis saber:

- Quem é você? Como entrou aqui? Matou o bandido depois que ele matou meu filho?- Não - respondeu Luquinha. - Matei o bandido e matei seu filho.
Seu Macieira estava perplexo: - Por quê?

Luquinha respondeu: - Se lembra aquele remédio que você me negou, naquele dia em que fui lá na sua farmácia? Eu ia receber dinheiro no outro dia e ia lhe pagar. Mas não, você não podia esperar. Morreu meu filho. Agora morreu o seu.

Emanoel Barreto

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Lado negro, não: lado branco

O preconceito e a brutalidade estão fundamente atracados no mar da extrema direita americana. Os skinheads, neonazistas, sociopatas, planejavam uma onda de morticínio a negros, culminando com um atendado a Barack Obama, informam as coisas de jornal.

A sociedade norte-americana, em suas neuroses, loucuras e obsessões, cultiva comportamentos sombrios: o de alguém que se arma e sai atirando a esmo, matando sem distinção; o de matar o presidente da república; o de não aceitar a igualdade entre negros e brancos.

A aparentemente próxima vitória de Obama está fazendo estremecer os cânones dos ultra-conservadores, tocando as cordas mais sensíveis do preconceito: não há como admitir um negro dirigindo o maior império da Terra.

Desde o início da campanha jornais já estimavam atentados a Obama, especialmente quando e se eleito. Agora, o FBI desarma essa trama. Na foto, Daniuel Cowart, um dos presoso.

As investigações, caso sejam aprofundadas e, se aprofundadas, trazidas a público, poderão desvelar se haveria alguém, alguém em posição mais alta, a guiar as mãos sangrentas que agiriam.

Uma possível eleição de Obama será um marco, um dado essencial a superar a condição de conjuntura e assimilar-se à estrutura sócio-política norte-americana. Será somente um golpe assestado a essa estrutura, não significando seu desmanche. Mas será simbólico o suficiente para ampliar espaços mais democráticos e ares políticos menos esfumaçados.

A ação dos neonazistas, todavia, não deixa dúvida: ainda é forte o lado negro no gigante do norte. Lado negro, não, desculpe: lado branco.

Emanoel Barreto

Idioma português: navegar sem rumo, ao léu, não sei, talvez...

A Folha traz a seguinte informação:

"Faltando apenas dois meses para que as novas regras ortográficas entrem em vigor no Brasil, nem mesmo os especialistas em língua portuguesa conseguem chegar a um consenso sobre como determinadas palavras serão escritas a partir de 1º de janeiro de 2009.
As divergências aparecem nos dicionários "Houaiss" (ed. Objetiva) e "Aurélio" (ed. Positivo), nas recém-lançadas versões de bolso, que já contemplam as mudanças ortográficas. O "pára-raios" de hoje, por exemplo, virou "para-raios" no primeiro e "pararraios" no segundo.
A lista de diferenças continua. A versão mini do "Houaiss" grafa "sub-reptício" e "para-lama". Em outra direção, o novo "Aurélio" traz "subreptício" e "paralama".
Prevendo o impasse, antes mesmo do lançamento dos dicionários, a ABL (Academia Brasileira de Letras) tomou para si a difícil missão de dirimir essas e outras dúvidas. A palavra final da entidade deverá sair apenas em fevereiro, quando as novas regras ortográficas já estiverem valendo."
.....
Não vejo qualquer praticidade nessa mudança. Em nada vai facilitar a escrita ou compreensão dos textos. A não ser alguma mudança na escritura dos patrícios, que deixarão, por exemplo, de escrever direcção para grafar direção. Dará, podemos dizer, um ar mais moderno ao textos dos portugueses. Do jeito que eles escrevem, parecem estar sempre em 1500.




No mais, não vejo qualquer vantagem. Trocamos seis por meia dúzia e ainda temos três mais três de troco.


Emanoel Barreto

sábado, 25 de outubro de 2008

"Comportamento Geral"



Só para meditar: o governo brasileiro já está pensando em premiar banqueiro desonesto, caso seja atingido pela crise. Ou seja: eles raspam o tacho do nosso dinheiro e ainda terão um prêmio. Só para pensar, neste fim de semana, deixo você com Gonzaguinha e a letra de "Comportamento Geral".

Emanoel Barreto

.......

Você deve notar que não tem mais tutu
e dizer que não está preocupado
Você deve lutar pela xepa da feira
e dizer que está recompensado

Você deve estampar sempre um ar de alegria
e dizer: tudo tem melhorado
Você deve rezar pelo bem do patrão
e esquecer que está desempregado


Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabar em teu Carnaval


Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal
Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabar em teu Carnaval


Você deve aprender a baixar a cabeça
E dizer sempre: "Muito obrigado"
São palavras que ainda te deixam dizer
Por ser homem bem disciplinado
Deve pois só fazer pelo bem da Nação
Tudo aquilo que for ordenado

Pra ganhar um Fuscão no juízo final
E diploma de bem comportado
Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal

Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabar em teu Carnaval
Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal

Cerveja, samba, e amanhã, seu Zé
Se acabarem com teu Carnaval?
Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal

E um Fuscão no juízo final
Você merece, você merece
E diploma de bem comportado
Você merece, você merece

Esqueça que está desempregado
Você merece, você merece
Tudo vai bem, tudo legal

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Here comes the sun

OI,
O mundo é normalmente cruel, feio, cinzento, mau.

Mas, que tal virar a página, e perceber algo belo, intenso, nosso, confidencialmente nosso?

Hoje, vamos ver o lado bom da vida. O começo, a força, a fé, a confiança. Decisão sem medo do que virá.
A noiva luzente, que acredita num casamento que vai ser seu amanhã, eterno e radioso.

Para trás a bala, o grito, a dor, o imperfeito.

Vamos ser o teclado do piano, o texto maravilhoso, o acorde maior, o instante pleno de vida e juventude: ímpeto.

Sejamos o sol; límpido, grandioso, alucinante e terno; calmo e aconchegante, manhã que desejamos, praia e mar aberto.

Um abraço, e ouça uma canção.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Quando a TV puxa o gatilho

Caras e Caros,
As TVs estão espremendo, até à última gota, o terrificante espetáculo por elas mesmas criados, com a morte da menina Eloá. Nenhum jornalista chegou ao pódio dos monitores para analisar seu papel, sua participação, sua presença para a deflagração das balas que tiraram a vida inocente.

Foi a TV, sim, quem disparou o revólver do criminoso. A polícia, permitam-me, falhou miseravelmente. Falhou ao permitir o retorno da segunda menina ao apartamento, falhou em suas técnicas de negociação. Mas foi a TV quem patrocinou a realização daquele reality show, hediondo e imoral.

Se o carrasco não tivesse se sentido como prima donna daquele circo de crueldade, se não tivesse dado entrevistas ao vivo, se não houvesse sido chamado de apenas um jovem apaixonado, trabalhador e calmo, certamente não teria prolongado até o limite do insustentável aquele funesto acontecimento.

Precisa a polícia brasileira aprimorar seus métodos táticos para enfrentar situações como aquela; precisa a TV admitir-se como terceiro ator, deplorável, indecoroso e sujo, de tudo o que aconteceu.
Emanoel Barreto

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Marcacos me mordam!

Veja,
O tipo aí na foto é Marcos Valério, famoso desde que foi denunciado como envolvido no mensalão. "Macacos me mordam!", como diziam os personagens de antigas histórias em quadrinhos, o homem, até em fotografia, sabe se esconder muito bem. Mesmo que hoje esteja preso. Mas sai já, sai já...

E, saindo da cadeia, poderemos dizer "Marcacos andaram mordendo o dinheiro dos brasileiros." E morderam muito, e mordem, todos os dias. A corrupção é coisa nossa, tão antiga e farta como as capitanias hereditárias, que El Rey de Portugal distribuía aos ricaços daquele tempo.

A corrupção é doença. Um estranho e invisível vírus. Na verdade, um vírus mais intangível que o ar. O ar, pelo menos, podemos senti-lo. O vírus da corrupção, não. Ele existe, digamos assim, numa certa esfera espiritual. Pronto, é isso: o vírus da corrupção tem sua existência nas matrizes mais profundas, reptilianas, da mente dos corruptos. Já se nasce com essa propensão, disseram-me alguns cientistas que estudam o caso em laboratório.

Quem sou eu para discordar? Esses cientistas, uma vez, conseguiram isolá-lo. Mas, isolado, conseguiu fugir. Como? Muito simples: contaminando um dos próprios cientistas.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Compre Batom... Compre Batom...

A Folha informa: "O publicitário Duda Mendonça trabalha desde o início do segundo turno na campanha de Marcio Lacerda (PSB), em Belo Horizonte, conforme revelou hoje o próprio candidato socialista. Duda Mendonça faz, disse Lacerda, uma espécie de "consultoria informal"."

Os marqueteiros são vistos pelos políticos como uma espécie de magos, bruxos poderosos da comunicação, cujo saber esotérico, carisma quase místico, teria o poder de manipular corações e mentes. E afinal, garantir a eleição. Se fosse verdade, todas as eleições majoritárias terminariam empatadas.

E é isso mesmo o que acontece: nos tempos antigos, à época clássica, reis e demais poderosos entregavam, ou pensabem entegar, os destinos de batalhas e o futuro do reino à sapiência de áugures e pitonisas, cujos insondáveis saberes perscrutavam o futuro.

Eles estudavam os vôos dos pássaros, vísceras de animais e a partir daí faziam seus presságios, permitindo ao monarca tomar a decisão supostamente mais acertada. De alguma forma, isso transmutou-se e hoje o áugure é o marqueteiro. É ele que se apresenta como a pedra mais preciosa da coroa, tem a postura autoritária e os ademanes do sacerdote que preside o oráculo da comunicação.

Sua palavra tatem o condão das cerimônias secretas, o poder de chamar a favor do candidato as idéias que salvarão a campanha quase perdida, entufar as multidões e fazê-las crer: "Esse é o homem."

A marqueteria é isso: a superstição dos áugures colocada como fórmula alquímica que fará da pedra comum e mistificadora do político, transformar-se na pedra filosofal, aquela que, ao tocar em qualquer substância inferior, a transformaria em ouro.
Como dizia aquele antigo comercial: "Compre Batom... Compre Batom..."
Emanoel Barreto

domingo, 19 de outubro de 2008

O sinistro talento

Cara Amiga,
Caro Amigo,

O sinistro talento
é morador de todos os gatilhos.

O sinistro talento
desperta sem pensar.

E depois de ser
tão totalmente,
mente.

E, na mente do matador,
se fez justiça.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Um amor escuro e torto

Cara Amiga,
Caro Amigo,

O desfecho do seqüestro deu-se dentro de um panorama bastante previsível. Um desequilibrado, tonto de amor doentio, acabou trazendo ao reality show a face horrenda da dor televisada. Até que ponto a TV pode ser responsabilizada, é um fato a ser analisado depois, à luz de dados que a própria imprensa deve e tem de trazer a público.

Por enquanto, a imprensa questiona a ação da polícia. Mas, qual a influência do noticiário ao vivo que a TV teve sobre o criminoso? Uma mente perturbada, um ego ferido em seu amor próprio, em sua vaidade, em sua ânsia de ter como objeto seu uma segunda pessoa tem, sim, território emocional fértil para ali semear suas insanidades, mesmo que momentâneas.

O matador sentiu-se inequivocamente o ator principal dessa tragédia. No pequeno apartamento, ali estabelecido o seu mesquinho império, ele ditava sua lei. Era algoz, mas se supunha vítima e isso era o suficiente para exercer o seu domínio sombrio. Com a TV veiculando milhares de vezes seu nome, alardeando sua lamentável notoriedade, o criminoso via-se como que amparado.

Os apelos, as tentativas de negociação, validavam, para ele, a centralidade de sua figura, a suposta pungência do seu drama. Ele superdimensionava sua dor. Ele e o seu escuro amor eram o centro do mundo. E o largo palco da mídia dava-lhe a sensação de ter razão. Deu no que deu. O jornalismo precisa pesar muito sua disposição para dar cobertura a acontecimentos assim.
A polícia precisa estar melhor preparada para agir.
Emanoel Barreto

Desligue o televisor

Cara Amiga,
Caro Amigo,

Continua o espetáculo do cárcere privado da jovem Eloá. O seqüestrador está tendo seus quinze minutos de fama. E seu drama - algo em si, simplório -, transformou-se em motivo de atenção nacional, pala intervenção televisiva que mudou em espetáculo um ato que mais precisaria da presença de um bom psicólogo.

A situação tem obviamente aspectos jornalisticamente relevantes, mas a presença da TV ao vivo, como elemento alimentador amplia, isso sim, sua dramaticidade, ao invés de contribuir para o desfecho. O seqüestrador, ao sentir-se como ator principal, alguém nacionalmente valorizado, é estimulado a agir, sustentando a situação. A interveniência televisiva, como tal, contribui para prejudicar, não para ajudar a dar fim ao seqüestro.

Caso persista a situação, sem que surja solução em seu horizonte humano, perderá paulatinamente seu interesse. Isso porque a continuidade, a rotinização de algum fato, o transforma em coisa cotidiana, comum, banal. Perdendo-se o interesse, cairá pouco a pouco de relevância e não terá mais o interesse das emissoras. Seria então a hora de a polícia, de forma competente e segura, convencer o rapaz a se entregar.

Quanto mais rápido as Tvs deixarem de dar atenção ao fato, mais rapidamente o problema será resolvido.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Um reality show de verdade: e muito perigoso

Cara Amiga,
Caro Amigo,

No momento em que escrevo, Lindemberg Fernandes Alves, o seqüestrador da jovem Eloá estava pedindo a presença de alguém que seja torcedor do São Paulo Futebol Clube, para ajudar nas negociações. Antes, ele havia estendido na janela uma camisa com o emblema do time. Revelando-se um negociador talentoso tentou criar, com a atitude, um liame afetivo com a numerosa torcida do time. A TV informava que um diretor do São Paulo iria se apresentar para interferir, a fim de que a situação tenha logo um desfecho e que este seja o menos traumático possível.

A sensação de que sua atitude se tansformava em espetáculo televisivo, um realitiy show de alto impacto, sem regras e capaz de mobilizar largamente o público, fez com que ele agora tenha atitudes de estrela. São os efeitos perversos do jornalismo intensivo da TV. Um acontecimento que poderia muito bem terminar após uma negociação bem dirigida, agora ameaça tomar rumos imprevisíveis.

O rapaz, que demonstrou ser ou pelo menos estar em situação psicológica de desequilíbrio, pode assumir-se como estrela de mídia e querer criar seu espetáculo; espetáculo a que deu margem a cobertura intensiva e ao vivo a Record News. Claro, rádios e jornais também cobrem o fato e isso retroalimenta seu efeito dramático.

O jovem considera-se vítima. Agrediu a moça para se apresentar como tal. E nada melhor para uma vítima, que na verdade se vitimizou, que parecer assim aos olhos da multidão de telespectadores. E assumindo-se como vítima, terá o palco grande da TV para encenar loucuras que, sem a TV, certamente não teria encenado
.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O pão que o Diabo amassou

Cara Amiga,
Caro amigo,

As coisas de jornal em todo o mundo começam a sinalizar a iminência de uma recessão. Ao que parece, o mundo vai comer o pão que o Diabo amassou. Esse pão vem sendo amassado há muito tempo e agora, quando os bancos não vêem mais perspectivas de livrar-se de tão incômodo banquete, vão reparti-lo com a chamada economia real, ou seja: com a mesa de quem não participou da preparação dessa torpe iguaria.

Mais claramente: vai ser socializado o prejuízo, uma vez que os lucros já foram embolsados. E o deus mercado, que é fielmente adorado pelo Diabo, revela-se impotente para desfazer seu próprio feitiço. Quando isso ocorre, historicamente tudo o que há de pior é repartido. As elites estarão a salvo, a massa humana que vá para o inferno.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

All that jazz


Cara Amiga,
Caro amigo,

A foto, feita em 1954, mostra o então jovem trumpetista Chet Baker. É o que se poderia chamar de flagrante posado, mesmo que isso seja um paradoxo. Mas paradoxal era Chet, em sua música e talentos privilegiados; e o autor da foto, William Claxon, que morreu aos 80 anos sábado passado.

Chet era paradoxal em sua estatura musical, diretamente proporcional em seu envolvimento com as drogas. Claxon era paradoxal em sua competência para selecionar momentos essenciais, instantes de luz e sombras, passos e gestos de gente no mundo.

Trabalhava com privilégio na fotografia dos grandes músicos. E nada melhor do que conviver com grandes músicos, para se compreender a magia dramática de seu trabalho, perceptível e intocável, sensibilizador e intenso.
Deixa literalmente uma imagem do que seja o grande fotógrafo: a atenção, o ato e a captura do momento preciso.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Oração da Bolsa - ou Vade Retro Mr. Dollar

Cara amiga,
Caro Amigo,

Dólar nosso que estais no Inferno,
maldito seja o teu nome.
Não venha a nós o vosso terror
nem seja feita a vossa vontade,
nem aqui, ou em parte alguma.

O pão nosso de cada dia,
não tomai.
Perdoai as dívidas que nunca fizemos,
assim como nós perdoamos tudo o que
nos tomastes.

Não nos deixeis cair na recessão,
mas livrai-nos do vosso Mal.
Amém.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Os otários querem futebol

Cara Amiga,
Caro Amigo,

As notícias, as coisas de jornal, informam que "o Rio Grande do Norte segue firme como candidato para ser uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. Na próxima semana, Natal receberá os técnicos que farão um levantamento das cidades que buscam sediar os jogos. Eles virão com objetivo de fazer um estudo que será finalizado no dia 14 de dezembro e que servirá de base para a escolha das cidades-sede."
O Estado brasileiro fará descomunal esforço para desperdiçar dinheiro público com a Copa do Mundo, em 2014. E isso, como se não tivéssemos problemas como o combate às drogas, uma rede de saúde lastimável, péssimos salários pagos a professores dos três níveis, defesa do meio ambiente, proteção à Amazônia, malha rodoviária em péssimo estado... Fiquemos por aqui.
No Rio Grande do Norte, estado riquíssimo, como se sabe, a farra com o dinheiro do contribuinte terá resultado inversamente proporcional às suntuosas instalações que a Fifa exigirá. Ou seja: quanto mais se gastar com futebol, menos haverá para fazer funcionar de verdade postos de saúde, escolas, aparelho policial, etc... etc... etc...
A desculpa será o surrado refrão de que a Copa incentivará o turismo e, por gravidade, outros segmentos da economia serão dinamizados. Balela. Uns poucos lucrarão com esses jogos e a população ficará segundo a lei do pão e circo.
Tolos das mais variadas espécies gritarão como loucos a cada gol, e se sentirão honrados em ser enganados. Na volta à casa, serão assaltados e reclamarão. Não terão esse direito: o dinheiro para o trabalho da polícia foi todo gasto com futebol, sob o aplauso daqueles mesmos bobos. Então: calaboca!
Espero que o Rio Grande do Norte não seja escolhido pela Fifa. Se mal temos dinheiro para dar aumento ao funcionalismo, de onde tiraremos recursos para gastar com bola?
Emanoel Barreto

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

A guerra do fogo

Cara Amiga,
Caro amigo,
O filme "A guerra do fogo", talvez você se lembre, é uma grande metáfora da condição humana, um magnífico trabalho poético. Em sua trama, a descoberta da solidariedade e a sobreposição do que hoje chamamos de amor, ao instinto básico de reprodução.
No final, uma cena belíssima, intrigante, instigante, desafiadora: ao fundo, bem distante, a noite que se derrama sobre o mundo é riscada por um pontinho de luz, na caverna onde o homem passou da hominização à humanização. Aquele pontinho de luz era o graphos, a escrita poética a nos mostrar o início da nossa aventura sobre a Terra: um ser frágil, dependente de um fogo tão imponderável e perigoso, quanto amigo e essencial.
Creio que você poderá encontrar essa produção numa videolocadora.
Da época tratada pelo filme até agora, passou-se um tempo incontável para os nossos pobres relógios. Relógios que só marcam horas, mas não registram os momentos humanos das horas, a ação trágica do homem; o tinir da espada, a explosão da bomba.
Talvez somente nos reste buscar uma caverna e sentirmo-nos como aquele pequeno grupo de homens e mulheres, perdidos naquele tempo: acender uma pequena chama e esperar.
Emanoel Barreto

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A fera, o ferro e o ferido


Cara Amiga,
Caro Amigo,
Quem com fera fere, com ela será ferido.
Quem com sangue pinta, com ele será tingido.
Quem com erro anda, desterro é o seu destino.
Quem com ferro marca, de fera será chamado.
Quem as feras chama, no fogo será queimado.
Quem se envolve em lama, revolve seu próprio eu.
Quem do revólver saca, engole sua mesma bala.
Quem embala o ódio, tem como presente o gatilho.
Quem tem no presente a fera, o sangue e o desterro;
o fogo, a lama e o revólver, se envolve tanto em ódio,
que então um dia descobre: para sempre estivera morto.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A perfeição da desgraça

Cara Amiga,
Caro Amigo,


A eleição para prefeito de Natal resultou no que se esperava. A Câmara de Vereadores foi re-novada em 50 por cento. E la nave va...

No cenário profundo, uma crise se posta com a força de um tsuname. As elites financeiras, donas de tudo, brincaram demais com dinheiro. Venderam e compraram demais papéis podres e agora, se falharem as medidas que os governos tentam acionar, algum miserável no Brasil ou na Somália, ficará mais miserável. As elites financeiras, não tenha dúvida, sobreviverão; e continuarão maquinando planos para mais lucros, mais fome, mais desolação.

A irracionalidade que domina o mundo desde os tempos das mais antigas civilizações, arremete para mais insensatez, apoiada agora na sofisticação, aprimoramento e agudização da tecnologia, o que permite ao homem chegar à perfeição da desgraça.

Multidões sucumbem ao peso da ideologia e do fundamentalismo, religioso ou financeiro. Nunca a religião deu tanto lucro, jamais as armas renderam tanto. O desvario neoliberal apodera-se de tudo e de todos. Corpos e mentes obedecem docilmente.

E no silêncio grande das favelas e dos becos, surgem novos e novos famintos e bandidos; do mesmo modo que, no silêncio dos grandes escritórios de Wall Street, algum sorriso sarcástico comemora. A crise é só um susto para a síndrome de Tio Patinhas.
Emanoel Barreto