segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Algo preocupante

Caras Amigas,

Caros Amigos,

A Folha traz a seguinte notícia: "Enganaram-se os que pensavam que o Supremo Tribunal Federal iria ter um negro submisso, subserviente", diz o ministro Joaquim Barbosa, ao comentar os desentendimentos com alguns de seus pares -como Marco Aurélio, Gilmar Mendes e Eros Grau. Ele atribui os atritos à defesa que faz de "princípios caros à sociedade", como o combate à corrupção. Barbosa entrou em choque com ministros tidos como "liberais" em julgamentos da Operação Anaconda. Ficou conhecido popularmente como relator do inquérito do mensalão e recentemente discutiu com Eros Grau sobre a liberação de um preso da Operação Satiagraha.

--- A atitude do Ministro demonstra, é o que ele me fez supor, algo preocupante: existiria racismo no STF. Ao fazer a afirmativa, deixa claro que a elite jurídica togada precisaria passar por uma reforma em seus valores quanto à questão das etnias.

Uma sociedade que se quer civilizada e justa não pode admitir que em suas elites intelectuais se plante a erva daninha do racismo. E o Ministro, que tem-se notabilizado por suas atitudes críticas, pode se tornar um símbolo, um indício, do quanto este país ainda tem que evoluir.


A ser constatada a convicção que expressou, a coisa é muito grave. Data venia.


Emanoel Barreto

domingo, 24 de agosto de 2008

Ave Zeus, dai-me a vitória...

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A disputa em um esporte, coletivo ou não, pode ter muitas leituras. A primeira, e exatamente a mais simplista, é aquela que encara o esporte pelo esporte e vem dos torcedores, dos jornalistas especializados nas diversas modalidades, das pessoas em geral. Um jogo é um jogo e pronto; uma maratona é somente isso: heróica e tensa, mas tão-somente um conjunto de jogos.

Todavia, num esporte, especialmente quando elevado à condição de representar grandes contingentes humanos, como torcidas de grandes clubes ou até mesmo países, assume conotações dramáticas monumentais e trazem em sua essência a grande tragédia humana.

Vejamos uma olimpíada. Quantas esperanças, anseios, desejos de auto-superação, vontades de nações em aparecer brilhando. Quantas compensações, íntimas ou nacionais, não estarão aí contidas.

É o atleta queniano superando a miséria de onde foi gerado, para se lançar ao mundo como o novo Fidípides, o herói das tropas da Alexandre. Ele correu 42 quilômetros e uns tantos metros, para comunicar aos compatriotas gregos a vitória sobre os persas na planície de Maratona, que hoje mais mais existe. Informou sobre o triunfo glorioso e depois morreu...

É a Seleção brasileira feminina de futebol chegando ao esforço último de todas as fibras vivas de suas atletas, para ser injustamente derrotada pelas americanas.

Especialmente nos esportes coletivos os jogos ganham uma dimensão simbólica de guerra. Usa-se da tática e da estratégia. Os corações dos atletas vibram num diapasão diferente: eles não lutam por um gol apenas, mas lhes está inculcado que lutam pela pátria; lutam pela glória, a passageira imortalidade de algumas manchetes.

O dado dramático do esporte, sua face tragédia sintetiza e encena a batalha humana no mundo da vida; a incerteza, o medo, o próximo passo, os desvãos e ravinas do existir nesse planeta. É o combate pela sobrevivência, a busca pela superação dos limites humanos, uma forma estética e enérgica de enfrentar obstáculos e desafios.

O esporte é tudo isso e é também política e ideologia. O Poder dele se utiliza para crescer e se tornar ainda mais poder. Geralmente, não há morte nesses combates cifrados e plenos da mais íntima perplexidade; mas o homem, pequenino e trêmulo, morre a cada momento de derrota. Logo ele, que antes dos jogos, orava em seu silêncio escuro: "Ave Zeus, dai-me a vitória..."
Emanoel Barreto

sábado, 23 de agosto de 2008

Jovens

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Não tão loucos que não sejam sábios;
nem tão sábios,
que não saibam proferir vertigens.

Não tão adultos para ser poema;
ou tão insensatos,
que não sejam calma.

Não tão expostos em sua presença mesma,
que não sejam ocultos
no corpo deles dois.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Perderam, mas são vitória

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Não foi um jogo, foi uma tormenta.
Não foi um jogo, transformou-se num tormento.

A força, coragem, raça, essas não foram derrotadas.
Ninguém cambaleou, caiu, desmoronou.

Apenas, coisas do futebol.
Elas foram campeãs.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Justiça, mais Justiça

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Transcrevo matéria do Estadão Online onde se trata da questão do nepotismo no judiciário.

BRASÍLIA - O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, por unanimidade, vetar a prática de nepotismo no Judiciário. Os ministros acolheram o pedido da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) e declararam a constitucionalidade da Resolução 07/2005, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que já veda a prática.

Os ministros analisam ainda esta tarde, após o intervalo da sessão, um recurso que discute a possibilidade de estender a proibição do CNJ para os poderes Executivo e Legislativo.

"O princípio da moralidade impõe o dever de vetar o tratamento privilegiado na administração pública. O Poder Judiciário pode dar o exemplo", afirmou o advogado Luís Roberto Barroso, responsável pela sustentação oral reservada à AMB. Em sua argumentação, Barroso também citou uma decisão já proferida pelo ministro Carlos Ayres Britto sobre o tema: "Os agentes públicos tomam posse nos cargos, e não dos cargos."

--- A atitude do STJ pode e deve significar o início de um processo de desmantelamento do aparelho de Estado em favor de apetites individuais. É algo civilizado e que atende à ética. Não podemos continuar como o país do "jeitinho", das facilitaçõezinhas que abrigam sob o manto do judiciário a garantia de gordas quantias para familiares, apadrinhados, agregados.

A moralidade pública exige decisões como essa, desde que venham a ter eficácia e sejam punidos os seus infratores. O judiciário, em qualquer nação, é instituição guardiã da cidadania, o que inclui o exercício da ética como valor fundamental nas relações entre os sujeitos de direito.

Inexistindo ética interna, não há garantias de pleno funcionamento de um Poder que tem por finalidade fazer cumprir as leis e punir aqueles que as afrontam. A atitude é um gesto largo e espero que suficientemente forte trazer novos ares aos ambientes que venham a se mostrar viciosos. Agora, ao Legislativo e ao Executivo. Data venia, é o que se espera.
Emanoel Barreto

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Seleção falha miseravelmente

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A Seleção de Dunga é uma farsa. Seja a Seleção olímpica, seja a outra, que em priscas eras já foi chamada de "Canarinha". O que se viu foi uma série de trapalhadas, gente confusa, jogadores meio zumbis, amalucados, buscando uma bola virtual; bola que somente se materializava em pés portenhos. Maradona viu tudo e vibrou...

O Brasil vai continuar sua disputa; agora, na tentativa de participar da próxima Copa. Ao que parece, mantidas as atuais temperatura e pressão, será tempo perdido. Literalmente.
Garrincha, minhas saudades...
Emanoel Barreto

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Lula vem ajudar Fátima; de quebra quer afundar Agripino

Caras amigas,
Caros Amigos,
O presidente Lula virá a Natal dar força à campanha da deputada Fátima Bezerra. Não que tenha interesse, digamos, essencial, exato e que valorize a importância de Natal no contexto da política nacional. Não: vem por causa de um detalhe circunstancial: eleita, Fátima poderá ter grande peso para atrapalhar a campanha do senador José Agripino à reeleição.

Agripino é uma das vozes que mais se elevam em críticas ao governo petista e esta seria uma oportunidade para preparar uma sua possível queda com antecedência e zelo. São as coisas da política, o jogo do poder numa arena onde ninguém é absolutamente bom ou inteiramente mal; onde a condição humana mais se projeta em suas manifestações de grandeza, coerência/incoerência, miséria, golpes e contra-golpes.

Lula e Agripino são adversários e cada um fará de tudo para suplantar o outro.

A campanha está apenas começando. Mas o espetáculo político, que se repete a cada dois anos, seguirá seu compasso histórico: candidatos se apresentando como a manifestação mais nobre de compromissos com a cidadania, os interesses da coletividade, a razão, a honradez, os bons propósitos.

Depois, a vida traz os escândalos e os eleitos se manifestam perplexos e se dizem vítimas de tramas sórdidas. É a vida... São os políticos...
Emanoel Barreto
*A foto de Fátima Bezerra foi feita quando da estréia do programa Xeque-Mate, na TV Universitária, criado por mim para servir de laboratório aos alunos dos cursos de Jornalismo e Radialismo da UFRN.

sábado, 16 de agosto de 2008

Caymmi foi pra Maracangalha...

Caras Amigas,
Caros Amigos,
E aí, calou-se a voz boa, o violão macio, as cordas amigas, acordes com cheiro de quadris e dengo; Gabriela, cravo e canela.

E aí, o coqueiro roçou a palha no anjo baiano e o vento das praias da Bahia chorou no velame das jangadas.

E tocaram todos os atabaques. Repicaram todos os agogôs e os terreiros da Bahia cantaram cantos de tempos negreiros.

Oxum, mulata e vênus, soltou seus cabelos e se enfeitou de conchas e perfumes, esperando ele. Os Orixás, todos, chamando por ele.

A Baía de Todos os Santos fez uma procissão de amor sagrado.

Iansã guardou seus raios. E Mãe Menininha do Gantois disse "meu filho, venha."

E Caymmi partiu.
Caymmi foi pra Maracangalha...
Emanoel Barreto

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Abaixo as algemas

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A polícia está proibida de algemar bandidos, sejam eles bandidos digamos, convencionais, ou similares de colarinho branco. A exceção é se algum deles oferecer resistência ou perigo.

Talvez num país de bandidos educados, bandidos de alto nível de escolaridade criminal, isso tivesse razão de ser. Mas, convenhamos, o mundo ainda nao evoluiu para o crime charmoso, tipo
"Sr. Policial, eu vou ser preso? "
"Sim, vai, mas, por favor, sente-se no banco de trás. Aceita um drinque?"
"Só de for chmpanhe de boa safra..."
"Não seja por isso... pode beber."

Na verdade, todo crime, mesmo o de colarinho branco, tem algo, sim, de brutal, agressivo, ofensor. Não vejo motivo para a proibição do uso de algemas. Especialmente para aqueles infratores especiais, voces sabem, gente da elite. Eles são tão ou mais perigosos que o assaltante que trucida sua vítima ou o traficante que vicia um menino de quinze anos.

São mais perigosos porque seus crimes têm resultados morais e sociais largos, históricos e profundos. Ocultos sob os papéis que forjam e os paraísos fiscais que freqüentam, vergam ao peso do sofrimento milhares de vidas que tiveram retiradas de si serviços e assistência do Estado, já que o dinheiro vazou para os cofres desses criminosos.

O usos de algemas em criminosos ricos tem um poder de discurso fulminante, advertindo que, pelo menos com a Polícia Federal (a mais visada pela legislação que impede o uso de algemas), não há distinção de classe.
Emanoel Barreto

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Dinheiro não leva desaforo; você, sim. E calado

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Um anúncio no Estadão Online chamou-me a atenção. Diz assim: "Dinheiro não leva desaforo", e aí entra uma mensagem de vendas, que não acessei. O que me interessou foi mesmo o fato da assertiva, sua atitude imperativa, atribuindo ao dinheiro personalidade, presença e força, como se fosse algo vivo, um alguém, um ser superior ao homem, de quem "não levaria desaforo".

E o pior é que humanidade, que criou o dinheiro como elemento comum de troca de mercadorias e serviços, acabou por atribuir a essa sua invenção uma espécie de essência, uma vida estranha e desumana, mas forte o suficiente para interferir na humanidade enquanto ser coletivo.

Então, saibam: dinheiro não leva desaforo; o dinheiro é um aliado das elites, sua carteira de identidade, seu passaporte para o prazer e para a exploração; seu espelho e seu destino.

Quanto aos demais, os demais são os demais... Eles sim, levam desaforo, pagam o pato, pagam a conta, pagam a dívida, pagam a prestação, pagam água, luz, supermercado e fazem uma força danada para dar aos filhos um ensino de melhor qualidade.

Os demais, esses sim, recebem o desaforo da vida e vêem, calados, o estalar do tapa e ainda têm de apresentar a outra face.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Feliz, o humorista triste


Caras Amigas,
Caros Amigos,
Acabrunhado, com um câncer no intestino, desempregado e, é lamentável, infeliz, morreu o homorista Feliz, que durante anos foi o homem do tempo no programa Aqui Agora, SBT. As coisas de jornal dizem que ele chegou a pedir emprego a Sílvio Santos, mas não foi atendido.
Celebrizou-se pelo bordão "Piriri, pororó", sempre que terminava o anúncio da previsão do tempo. Mesmo com o câncer, seu fim foi determinado pela depressão. Desempregado, sem perspectivas no mercado de trabalho, Feliz, de 70 anos, viu-se perdido no cipoal da angústia e murchou como uma plantinha que não mais tinha o seu sol.
O mundo da TV, da comunicação de um modo geral é assim: fez hoje, fez muito, fez tudo; mas tudo isso é nada para a implacável gestão desse negócio, centrado num emaranhado de concepções subjetivas das gerências que, ironicamente para ele, visam apenas o aqui e o agora.
E quando ele parte, continua aqui a velha vida, cheia de faíscas e tempestades, raios, trovões e pouco céu-de-brigadeiro. Infelizmente.
Emanoel Barreto

sábado, 9 de agosto de 2008

A Beleza, esse instante

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A Beleza, instante forte e intenso,
é a prova de que somos
algo mais.

Ser humano é ser, a cada dia,
o tenso esforço de tentar.

Energia, músculos, cérebro,
tudo isso nos vai encaminhar
à poesia da força disciplinada
e atenta a algo bem maior.

A estética do ato vigoroso
é a ética de sermos sempre humanos.
E quanto mais assim o somos,
somos mais e assim o somos.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A Liberdade, a Olimpíada e o Medo

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A imponente abertura da Olimpíada de Pequim foi um espetáculo de dramaturgia cujos fascínio, beleza, força poética, dramaticidade e esplendor coletivo representavam o que, entendo, seja a essência do ser humano em sua aventura histórica e existencial.

Sob esse aspecto, não há como não aplaudir e até mesmo reverenciar a genialidade de sua concepção, organização e realização. Foi efetivamente a sagração da criatividade, uma espécie de ópera universal; qualquer ser humano poderia sentir-se ali representado, tal o impressionante vigor retórico dos gestos e feitos coletivos ali realizados.

Todavia, é preciso levar em conta outro lado: oculto, estava ali presente todo o poder do Estado chinês, que se utilizou do grandioso espetáculo para dar uma demonstração política de sua capacidade de reunir, mobilizar, adestrar e levar a efeito tudo o que se viu. Os mandarins do poder estatal diziam, em meio à multidão de artistas e demais participantes do espetáculo que, se fez aquilo, poderá fazer muito mais; entenda-se, na produção de bens, na capacidade de controlar multidões, discipliná-las e, quando necessário, loançá-las à guerra.

Sutilmente, ficou entredito que a China pode ser uma ameaça, tão grande quanto os Estados Unidos e seus aliados, a toda a humanidade. No fundo, os mandarins de todo o mundo sabem, desde os romanos, como se utilizar de grandes mobilizações para, através da beleza, exibir seu potencial maléfico.

Hoje, uma equipe do SBT, informam as coisas de jornal, foi "visitada" pela polícia chinesa, por baixar na internet as fotos que estão aqui, ou seja: eles espionam tudo, sabem o que você está fazendo e podem intervir quando bem aprouver.

As fotos são divulgadas pela Anistia Internacional, e com a mesma força retórica da abertura dos Jogos, denunciam o aviltamento, na China, dos direitos do homem. São metáforas desse desrespeito e deploram o totalitarismo. Vamos, de alguma forma, acompanhar as competições, mas sem esquecer que por trás de tudo a mão pesada do Estado está pronta para esmigalhar quem venha a se manifestar ou falar naquela grande amiga do Homem, a Liberdade.
Emanoel Barreto




quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Beba muito, faça e aconteça

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Entendida em sentido amplo, a corrupção é um ato pelo qual alguém burla o direito de outro ou outros, engana, surrupia, dribla a lei ou a ética em seu favor. Em outras palavras, é o famoso "jeitinho" brasileiro para tirar vantagem, numa atitude que já foi conhecida como "lei de Gérson".

Agora, com a chamada lei seca, circulam na net maneiras de enganar a fiscalização, mesmo que o motorista tenha bebido. Trata-se de um lamentável dado da cultura brasileira, expresso em atitude que, além de conter um aspecto de flagrante ilegalidade, busca colocar o infrator na condição de esperto, sabido, ágil no enfrentamento de uma situação que entende como punitiva do seu "direito" de se embriagar e sair ameaçando a vida de terceiros.

Todavia, quando se fala em corrupção, vozes sociais se levantam contra os corruptos e lamentam que, sempre, tais indivíduos permaneçam na impunidade. Acontece que, o que se passa no macro-social, também se reflete no micro, seja nos plenários ou nas casas de governo.

É que muitos dos auto-proclamados representantes da sociedade também estão, e muito, impregnados da cultura do jeitinho e buscam com gênio assombroso ganhar o seu, mesmo em detrimento dos interesses sociais que anunciam ser também os seus.

O resultado é a formação de um caldo histórico de cultura da corrupção que se espalha e penetra e se derrama por todas as camadas. No fim, quem engana a lei é o vencedor; quem tira mais para si se torna exemplo. A honradez torna-se sinônimo de tolice e honestidade é apenas uma palavra que será esquecida no dicionário.
Emanoel Barreto

terça-feira, 5 de agosto de 2008

De volta

Caras Amigas,
Caros Amigos,

Voltarei a atualizar Coisas de Jornal a partir da próxima quinta-feira.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 31 de julho de 2008

O Trovador que partiu

Caras Amigas,
Caros Amigos,
O jornal espanhol "El Mundo" disse hoje em suas versões digital e impressa que, com a saída de Gilberto Gil do Ministério da Cultura o presidente Lula "perde o seu trovador". É verdade. E perde, como perdeu com a saída da ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, uma das poucas figuras emblemáticas e efetivamente coerentes do Governo, que desde o seu primeiro mandato já estava tão longe das bandeiras históricas do PT.

Gil parece ser um personagem destinado a fazer história: nos anos 1960, firmou-se ao lado de Caetano Veloso como um dos líderes do movimento tropicalista, que rompeu com os cânones de uma música popular brasileira centrada no vozeirão e nas lamúrias. Sua poética nova trazia novos rumos ao nosso cantar.

Hoje, historicamente, pode-se evocar os clássicos de nossa música, revalorizados pelos mesmos ex-tropicalistas que, cumprida a missão de revolucionar, souberam retirar as brumas que eles mesmos criaram.

Mas estou me afastando do assunto, que é a saída de Gil. Sua presença foi meio metafórica, não dispunha de muitos recursos para trabalhar, mas cumpriu dentro do possível o seu papel. Acho que é um grande músico e um grande ser humano. Valeu.
Emanoel Barreto

terça-feira, 29 de julho de 2008

Sobre o blog

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Estarei fora alguns dias. Sempre que puder, atualizarei o Coisas de Jornal.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Dacadência sem elegância

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Pode parecer incrível, mas é Madonna, a estrepitosa cantora que há anos varria o mundo com sua música e com um way of life que a colocavam como uma espécie de menina má, irreverente e quebradora de regras. Somente esqueceu uma coisa: as imperdoáveis regras do tempo, que tudo apagam e tudo avariam, inclusive e especialmente o corpo humano.

Num mundo onde se valoriza ao extremo a beleza, a juventude, o dinheiro, o sucesso e todos os seus sucedâneos, ou seja: tudo o que há de material e por isso mesmo transitório, a descida, a queda, choca; e coloca aos olhos, especialmente ao olhar, que esses valores, tão incensados pela publicidade e pelo sistema que desta se utiliza, são falsos, cultivam necessidades fabricadas.

Veja-se uma coisa: as regras de beleza programam que a mulher deve ser magra, esguia. E isso deflagra uma multidão de moças que se esmeram em castigar o corpo para estar "na moda". Isso lubrifica um sistema perverso de investimentos e lucros sobre o corpo da mulher, que se vê como objeto e assim se assume, em nome de uma elegância volátil.

Madonna faz 50 anos em agosto. Mas, agora, aparentemente, não há gosto na vida. O tempo está passando e a cantora de "Like a Virgin" é apenas mais um exemplo da frivolidade que o sistema criou e logo, logo, vai refugar. Madona mia...
Emanoel Barreto
Foto: Crosby Group

domingo, 27 de julho de 2008

Cavalgadas, tendas e estrelas

Caras Amigas,
CarosAmigos,
Parece ter chegado o tempo
em que não podemos mais
olhar a nossa própria face.
Quebrem-se todos os espelhos.

Cavalgadas insolentes nos atiraram
aos abismos mais terrificantes,
e perderam-se todos os azuis.

Passos tardos nos levam a destinos,
que são tantos e em em tantas direções,
que dá medo escolher qual o caminho.

Todavia, talvez ainda se possa,
em raras pessoas,
em tão raros momentos,
esperar que surja algo longe,
tão longe,
escondido na neblina,
a nos dizer: ainda há tempo e vida.

E talvez ainda se possa, como Antero,
cantar em silêncio estas palavras:
"A galope, a galope, ó fantasia,
Plantemos uma tenda em cada estrela."
Emanoel Barreto

sábado, 26 de julho de 2008

Obama, o novo César

Caras Amigas,
Caros Amigos,
As coisas de jornal informam que Obama emedalha manchetes e emplastra à sua candidatura uma aparente maré montante prestes a vitoriar. São as coisas da política; desde os tempos de Cícero na Roma antiga e sua voz de orador emblemático, tem sido assim, com os Césares e seus capitães.

Multidões acorrem ao circo romano montado pela mídia e auguram que Obama atravessará seu Rubicão com louros à cabeça e ramos de oliveira agitando abraços, palmas, gritos, efusões.

O jovem candidato a presidente do mundo surge como um escravo núbio, que saindo do cativeiro histórico do seu povo, acende em muitos a esperança de que fará algo de novo no grande império do Norte.

São só esperanças; ele é parte, e muito parte, do establishment. Sua figura é apenas metáfora meteórica no instante da história- não poderá alterar a estrutura, talvez, somente um pouco, a conjuntura.

Enquanto isso, legiões aderem à sua candidatura e se postam como centuriões, alargando as coortes de votantes, empilhando ao seu redor a marcha que aparenta ser triunfal. Vamos esperar, vamos ver.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 24 de julho de 2008

De lobisomens sem lua

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Encontrei na net uma crônica de Vicente Serejo, onde ele falava de coisas antigas, do passado tansformdo em página da memória; de livros, da Ribeira, dos tempos, enfim. Magnífico exemplar de texto em crônica. Mandei-lhe um bilhete de e-mail e ele publicou em sua Cena Urbana. Vejam:

SAUDADES
Sim, somos homens de tempos passados. Lobisomens velhíssimos. Daí essas lembranças imprestáveis para os tempos modernos. Tão velhos que as lembranças correm sem pressa, como no seu bilhete-relâmpago, de um Emanoel Barreto de alma lírica. Ó tempos! Ó saudades!

Velhíssimo Serejo,
Mexendo no teclado do computador encontrei no tear da internet, essa aracne de teia virtual, sua crônica "Das coisas velhas". E vendo você falar do tempo e das lembranças, da Ribeira adormecida em seu sono de cais; de fantasmas e dos livros empoleirados, sou também levado pelo tempo a descobrir que a lembrança é um caminho por onde se corre sem pressa; é preciso ver se o passado está em dia.

E a relembrar a você uma coisa, que lhe disse há muitos anos, redação velha do Diário de Natal: "Na saudade, Serejo, somos todos lobisomens sem lua."
Abraços antigos, deste também velhíssimo,
Emanoel Barreto

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O Tempo, sempre o Tempo...

Caras Amigas,
Caros Amigos,

Quando alguém se encontra com o Tempo, ele não pede as horas nem anuncia nada.
O Tempo segue um rumo que ele mesmo desconhece; estranha nossos relógios, repudia nossas expectativas, desdenha nossos temores. Afinal, expectativas e temores, ansiedade, não são formas de marcar o tempo?

O Tempo é um prestimoso amigo de outra forma temporal: o Destino.
Tempo e Destino andam juntos.
E enquanto Tempo é medido, marcado, esperado, des-esperado, Destino não se apressa. Irmão de Fatalidade, descansa, aguarda. Um dia, Fatalidade o despertará. E Destino chamará Tempo, que é implacável instante que nos leva pelas mãos de Saudade.
Emanoel Barreto

terça-feira, 22 de julho de 2008

Os novos super-heróis

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A Folha Online está divulgando o seguinte:

Saem em outubro, pela IDW, as biografias em quadrinhos de Barack Obama e John McCain. Terão 23 páginas cada uma (a de Ronald Reagan tinha 110) e serão escritas por, respectivamente, Jeff Mariotte e Andy Helfer e desenhos de Tom Morgan e Stephen Thompson. As ilustrações das capas são de J. Scott Campbell (Gen13, Danger Girl).

--- O americano soube, como nenhum outro povo, criar auto-representações que louvam e eternizam na efemeridade do presente seus heróis e seus mitos. Não sabia da prática de quadrinizar seus candidatos a presidente da república, mas agora vejo que até nisso eles sabem como fazê-los "super".

Numa clara alusão ao Super-Homem, os candidatos são apresentados numa atitude desafiadora e olímpica, forte e altaneira. Por implicação, reúnem todos os atributos do herói e reenfatizam o sonho americano. Observem que as imagens colocam quem as vê em situação de inferioridade, sugerindo que as figuras impávidas estão acima e além daqueles que, reverentes, as vêem como símbolos perfeitos da figura presidencial, que lá é uma espécie de entidade que tem vida própria, somente mudando de corpo de tempos em tempos.

Eles olham para a frente, para o futuro, um futuro que lhes cabe construir, deixando atrás um passado de vitórias, escombros e escolhos, resultado da sua atuação como líderes do mundo. A figura de Obama está mais séria, olhar duro; a de McCain traz um sorriso triunfante e cheio de si.

Em ambas, a unicidade da utopia americana: dominar, vencer, realizar-se; realizar os outros segundo suas intenções e propósitos; enfim, colocar os Estados Unidos na situação de condutores do mundo. Os que estão abaixo são a periferia; os que estão abaixo, ficam como os gladiadores que diziam ao entrar na arena: "Ave, César; os que vão morrer te saúdam."
Emanoel Barreto

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Os proprietários do Mal

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Estados Unidos estão impondo ao Irã o prazo de duas semanas para que cesse com seu programa de enriquecimento de urânio. Caso contrário, o Conselho de Segurança da ONU tomará represálias contra os iranianos, que já se encontram sob forte pressão internacional a fim de que não produzir bombas atômicas.

Idiotice à parte dos dois lados - do Irã em querer artefatos nucleares quando seus dirigentes deveriam estar se preocupando com a fome do seu povo; e dos Estados Unidos em querer ser a polícia do mundo -, os EUA parecem com isso querer dizer que são os proprietários do Mal. Os senhores da sina de dominar, explorar e, se preciso, varrer do mapa qualquer nação que a juízo de seus mandatários seja vista como inimiga.

Interessante foi a declaração da secretária Condoleeza Rice sábado passado, quando afirmou que seu país "não tem inimigos permanentes". A assertiva põe à mostra o dado ético da questão, ou seja: paradoxalmente, a total falta de ética. A impermanência ou permanência de inimizades depende dos interesses americanos, satisfeitos ou não. Atendendo-se aos seus apetites, esquecidas estão as divergências, etc... etc... etc...

Como proprietários do Mal, os Estados Unidos querem estar sozinhos. O acesso à morte, a morte como instrumento administrativo de sua política externa, deve ser seu, somente seu, de mais ninguém.
Emanoel Barreto

domingo, 20 de julho de 2008

Os pássaros e as suas mãos

Caras Amigas,

Caros Amigos,

Estou tendo problemas para enviar posts. Creio que é algo com o blogger. Com muita luta consegui enviar este pequeno texto e um poema de Mário Quintana.

Abraços,

Emanoel Barreto


OS POEMAS
Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde

e pousam no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam

como de um alçapão.

Eles não têm pouso nem porto

alimentam-se um instante em cada par de mãos

e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,

no maravilhado espanto de saberes

que o alimento deles já estava em ti...

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Fugitivo da injustiça

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Leiam este texto da Folha de S. Paulo:
"O ex-banqueiro Salvatore Cacciola afirmou nesta quinta-feira, no Rio de Janeiro, que nunca foi um foragido da Justiça. "A primeira coisa é que eu nunca fui um foragido. Fui para a Itália com passaporte carimbado", disse. O ex-dono do Banco Marka está foragido do Brasil há oito anos. Ele foi condenado à revelia no Brasil a 13 anos de prisão pela prática de vários crimes."
As declarações foram prestadas logo após o desembarque. Numa demonstração de que tem em si um misto de cinismo, tara social, depravação prazerosa e apetites financeiros viscosos, Cacciola zomba do povo brasileiro, zomba da nossa pobreza, escarnece dos dramas de milhões de pessoas que vivem na linha ou abaixo da linha de pobreza.
Ele contribuiu vigorosamente para a manutenção desse quadro. Com as manobras financeiras que perpetrou, amuletado pelo governo Fernando Henrique Cardoso, que lhe facilitou dólares que visavam impedir a quebra do banco Marka, de sua propriedade, Cacciola é mais um grande retalho a compor o mosaico da tragédia nacional: poucos com muitíssimo; muitíssimos sem nada - ou quase.
E o pior ainda está por vir. Temo que em breve esteja solto. E rico. Muito rico.
Sim, com relação ao título da coluna, é o seguinte: refiro-me ao povo brasileiro. Se Cacciola se diz um não-foragido da justiça, podemos afirmar, em linha inversa, que nosso povo é eternamente um fugitivo da injustiça. Mas, lamentavelmente, sempre na próxima esquina a injustiça está à sua espera. Eterno labirinto.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Macabros e perversos

Caras Amigas,
Caros Amigos,
O comportamento dos que se declaram líderes de algum povo ou facção política está manifestando sintomas insânia; isso sem levarmos em conta as manifestações de mesquinhez, estupidez, brutalidade. Vejam esse texto que transcrevo do Estadão Online:

JERUSALÉM - O grupo xiita Hezbollah entregou para a Cruz Vermelha Internacional dois caixões com os corpos dos soldados israelenses Ehud Goldwasser e Eldad Reguev, seqüestrados em 12 de julho de 2006. O episódio que deu início à guerra entre Israel e Líbano naquele ano.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha levou os caixões para Israel. Oficiais do Ministério da Defesa confirmaram que os corpos entregues pelo Hezbollah eram do militares israelenses. Os corpos dos soldados deverão ser ser trocados por cinco presos libaneses - entre eles Samir Kuntar, militante condenado à prisão perpétua por um duplo homicídio em 1979. Os prisioneiros já foram levados pela polícia israelense para a fronteira com o Líbano. Além deles, Israel deverá entregar também os corpos de 199 libaneses mortos durante a guerra.


--- É isso: chegamos ao ponto em que "negociações" e "manifestações de bom senso" estão sendo encaminhadas para a troca de... cadáveres. E cadáveres cuidadosamente guardados pelos beligerantes. Macabros mesmo. Excetuando-se o fato de que em si, do ponto de vista de familiares, sua afetividade e dor típicas da condição humana, seria aceitável esse tipo de atitude, esse acontecimento dá bem conta da insensatez louca e perversa da mentalidade bélica.

A guerra em si perde sua instância de conflito histórico, para se tornar a guerra pela guerra. Começou-se a lutar por algum motivo e depois de assimilada a guerra como jogo, esta passa a ser o motivo em si: querem se matar e pronto. A demonstração é a troca de corpos, como se fosse isso uma vitória de ambos os lados.

Há algo de loucura nisso tudo; seja na guerra, seja nessa macabra transação. Não há um passo firme em direção à paz. Mas, tão-somente, mais um episódio da trágica vivência humana. Um disparate, um acabrunhante sintoma de que a humanidade vai firme e forte no caminho de perder por completo a lucidez.

Emanoel Barreto

segunda-feira, 14 de julho de 2008

O tempo, o tempo, o tempo...

Caras Amigas,
Caros Amios,
Transcrevo soneto de William Shakespeare. Belo.
Emanoel Barreto

Quando penso que tudo o quanto cresce
Só prende a perfeição por um momento,
Que neste palco é sombra o que aparece
Velado pelo olhar do firmamento;

Que os homens, como as plantas que germinam,
Do céu têm o que os freie e o que os ajude;
Crescem pujantes e, depois, declinam,
Lembrando apenas sua plenitude.

Então a idéia dessa instável sina
Mais rica ainda te faz ao meu olhar;
Vendo o tempo, em debate com a ruína,

Teu jovem dia em noite transmutar.
Por teu amor com o tempo, então, guerreio,
E o que ele toma, a ti eu presenteio

sábado, 12 de julho de 2008

Classificados de empregos: atenção, últimas vagas


Caras Amigas,
Caros Amigos,
Empresa nacionalmente conceituada, com sede em Brasília, admite profissionais qualificados, com a máxima urgência, para as seguintes especialidades:

Corrupto - os candidatos devem apresentar currículo com descrição de suas atividades nos últimos cinco anos e cartas de recomendação. Exige-se discrição, competência para subornar, fraudar, mentir, perjurar, caluniar, difamar, desviar fundos públicos e formar empresas em paraísos fiscais.

Patife - para o cargo é preciso que não se tenha qualquer caráter, meios termos ou noções de ética ou moral.

Prevaricador - especialidade da qual se exige muita perícia, o pretendente deve necessariamente conhecer os meandros da administração pública e dispor-se a ter comportamento compatível com o cargo ou seja: não temer a lei e ter certeza de impunidade.

Pilantra - cargo operacional, o candidato deverá demonstrar gênio assombroso para agir sob pressão e transportar valores sob risco de captura. Garantimos assistência jurídica compatível.

Safado - os admitidos serão treinados como tropa de choque para possíveis enfrentamentos com a polícia. Assegura-se aos contratados planos de fuga em caso de cometimento de crimes de morte no cumprimento do dever.

Maus caráteres - essenciais em toda organização como a nossa, o mau caráter deve, imperativamente, esquecer quaisquer aspectos atinentes a coisas como respeito por verbas destinadas a obras sociais urgentes e estar dispostos a municiar de informações os demais setores aqui mencionados.

Laranjas - tais especialistas devem ser suficientemente ingênuos (às vezes nem tanto), para liberar suas contas bancárias ou endereços a fim de que possamos, por esses meios, implantar uma poderosa organização de desvio de fundos.

Trambiqueiros - tipos dotados de notável amoralidade, serão utilizados em pequenos serviços, como subornar funcionários dos escalões mais baixos, a fim de obter informações que, circunstancialmente, venham a ser necessárias ao empreendimento de grandes golpes no erário.

Lobistas - importantíssima função, o lobista precisa ter grande rede de contatos e estar disposto a fazer funcionar seu arsenal de relações. Em caso de necessidade, pode usar de artifícios que vão da simples mentira até a coação, a fim de conseguir a obtenção de ganhos imorais.

Vigaristas - última especialidade com vagas, o vigarista deve ser criativo, ter dotes teatrais e sugerir aplicações de golpes nos mais diversos setores da administração, fazendo-se passar por figurões ou ricaços.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 11 de julho de 2008

O povo estropiado e os ricos descontentes

Caras Amigas,
Caros Amigos,
O recente episódio da prisão de três ilustres apropriadores das coisas do povo trouxe a público algo até então, para mim, apenas latente: o poderoso sistema de proteção que a elite estabelece para si, cobrando da polícia tratamento especial para os criminosos, digamos.., de classe...

Vocês entendem o que quero dizer...

No senado, enquanto o senador Pedro Simon erguia sua ira santa contra os criminosos e defendia que eles deviam, sim, ser algemados no momento da prisão, o senador Arthur Virgílio dizia que não, que as algemas eram desnecessárias e que houvera espetacularismo da Polícia Federal ao permitir que fossem gravadas as cenas da captura dos procurados.

Virgílio, não tenho dúvida, era movido pelo sentimento de solidariedade de classe. Nada pior para alguém da elite que ver um seu igual atirado ao laço da polícia e aparecer não na coluna social, mas no jornalismo que denuncia a ocorrência de crimes e os seus fautores.

Jamais vi o senador lamentar que algum pobre tenha sido preso sob as lentes das câmeras; e isso ocorre todo dia. As elites até aceitam ter alguns dos seus capturados: mas com elegância, tremiliques, discrição e charme. A Polícia Federal, portanto, precisa é de savoir faire, luvas de pelica, gestos delicados. Xá pra a escola de boas maneiras, seus policiais malvados!!!

Imagine, um ricaço ser preso sob o alarde da populaça. É algo inaceitável. Afinal, ele não matou, não estuprou, não torturou, não esganou; não tem as mãos, como se dizia antigamente, tintas de sangue. Seu crime é branco, alvo como os papéis onde redige seus mandados secretos e viscosos.

E quando o rico patife é trazido à luz, quer agir como os vampiros: ocultar-se depressa, para não morrer. De vergonha não é, pois não a tem; mas para escapar do brilho que lhe ilumina a cara, que queria ter sempre em meio às sombras tão amigas.
Emanoel Barreto
Ia esquecendo: a foto é para mostrar o resultado da corrupção: os pés estropiados do povo, que somente vê na cadeia um outro pobre; e não encontra, entre os presos, aqueles que bebem os crimes em goles de champanhe.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

A carne empacotada

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A Peta é uma organização cuja sigla em português quer dizar algo como "pessoas a favor dos direitos dos animais". Caracterizada por intervenções pouco convencionais, sempre apelando para a nudez de seus adeptos em atos públicos, a Peta nos aponta algo que é terrível e acompanha a humanidade desde o seu nascedouro: a crueldade.

No caso, eles apontam a crueldade contra os animais, mas, de fundo, referem às ações brutais do ser humano em situação plena, ou seja: atingindo outras pessoas, animais e o meio ambiente. A metáfora apresentada pela ilustração faz-nos pensar. Trata-se de uma licença poética dramática. E, ao vermos seres humanos empacotados como se faz com carne de animais em supermercados, vem-nos ao olhar aquela tristeza pesada: como somos violentos.
Emanoel Barreto

terça-feira, 8 de julho de 2008

Logo, logo, ele vai estar solto...

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A foto mostra o momento em que Celso Pitta, ex-prefeito de São Paulo era capturado pela Polícia Federal. Ele, Naji Nahas e Celso Dantas são nacionalmente conhecidos como corruptos. Todos foram presos. Detalhe: se todos os corruptos que a PF captura fossem mantidos na cadeia, em breve surgiria uma empresa especializada para criminosos de fino trato, a lhes atender pedidos de caviar e outros, permitam-me, acepipes, adequados às suas requintadas práticas culinárias.

Mas a verdade é a seguinte: em mais alguns poucos dias todos estarão soltos. Não vou enumerar a lista de acusações de cada um; deixo para as coisas de jornal. Aqui, somente lamentar esse estato de coisas.E mais: tenho convicção de que crimes de colarinho branco, quando não são punidos, de alguma forma repercutem no que chamamos de democracia.

Com a impunidade historicamente instalada, cria-se uma cultura em que as pessoas passam a desacreditar na eficácia das leis; esquivos e bem remunerados advogados promovem salamaleques jurídicos e terminam por libertar seus polpudos constituintes.

E onde existe uma situação tal é indício de que a democracia, que inclui o estatuto de não roubar e não deixar roubar, termina arranhada. Além, é claro, de questões como a fome, a miséria e a pobreza, que também autorizam a dizer que no Brasil não há democracia.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Vamos chamar Branca de Neve?

Caras Amigas,
Caros amigos,
Sob pressão da CBF, Dunga convocará Ronaldinho Gaúcho para compor a Seleção que disputará o jogos de Pequim. As coisas de jornal andam dizendo que será sua última chance. Se fizer papel feio, a Bruxa estará solta e ele terá que fugir para a mina dos Sete Anões.

Desde o princípio, tive a impressão de que Dunga não daria certo. Lembram da Lei de Murphy, aquela que diz que se uma coisa pode dar errado ela dará errado? Creio que foi isso o que aconteceu. A não ser por efeito de alucinação, alguém poderá dizer que a Seleção vem jogando bem, ou muito bem, como seria de se esperar.

O grupo vem se arrastando, passo a passo, pesadamente, na tentativa de classificação para a Copa do Mundo. E caso Dunga continue com esse jogo da altura de um rodapé, talvez seja melhor chamar Branca de Neve.
Emanoel Barreto

domingo, 6 de julho de 2008

A mão que quer calar a nossa voz

Caras Amigas,
Caros Amigos,

Recebi colegas de professores universitários um manifesto em defesa da liberdade de expressão na internet. O texto é longo, mas vale a pena ser lido.
Bom domingo,
Emanoel Barreto

A Internet ampliou de forma inédita a comunicação humana, permitindo um avanço planetário na maneira de produzir, distribuir e consumir conhecimento, seja ele escrito, imagético ou sonoro. Construída colaborativamente, a rede é uma das maiores expressões da diversidade cultural e da criatividade social do século XX.

Descentralizada, a Internet baseia-se na interatividade e na possibilidade de todos tornarem-se produtores e não apenas consumidores de informação, como impera ainda na era das mídias de massa. Na Internet, a liberdade de criação de conteúdos alimenta, e é alimentada, pela liberdade de criação de novos formatos midiáticos, de novos programas, de novas tecnologias, de novas redes sociais.

A liberdade é a base da criação do conhecimento. E ela está na base do desenvolvimento e da sobrevivência da Internet.A Internet é uma rede de redes, sempre em construção e coletiva. Ela é o palco de uma nova cultura humanista que coloca, pela primeira vez, a humanidade perante ela mesma ao oferecer oportunidades reais de comunicação entre os povos. E não falamos do futuro. Estamos falando do presente. Uma realidade com desigualdades regionais, mas planetária em seu crescimento.

O uso dos computadores e das redes são hoje incontornáveis, oferecendo oportunidades de trabalho, de educação e de lazer a milhares de brasileiros. Vejam o impacto das redes sociais, dos software livres, do e-mail, da Web, dos fóruns de discussão, dos telefones celulares cada vez mais integrados à Internet. O que vemos na rede é, efetivamente, troca, colaboração, sociabilidade, produção de informação, ebulição cultural.

A Internet requalificou as práticas colaborativas, reunificou as artes e as ciências, superando uma divisão erguida no mundo mecânico da era industrial. A Internet representa, ainda que sempre em potência, a mais nova expressão da liberdade humana. E nós brasileiros sabemos muito bem disso.
A Internet oferece uma oportunidade ímpar a países periféricos e emergentes na nova sociedade da informação. Mesmo com todas as desigualdades sociais, nós, brasileiros, somo usuários criativos e expressivos na rede. Basta ver os números (IBOPE/NetRatikng): somos mais de 22 milhões de usuários, em crescimento a cada mês; somos os usuários que mais ficam on-line no mundo: mais de 22h em média por mês.

E notem que as categorias que mais crescem são, justamente, "Educação e Carreira", ou seja, acesso à sites educacionais e profissionais. Devemos assim, estimular o uso e a democratização da Internet no Brasil. Necessitamos fazer crescer a rede, e não travá-la. Precisamos dar acesso a todos os brasileiros e estimulá-los a produzir conhecimento, cultura, e com isso poder melhorar suas condições de existência. Um projeto de Lei do Senado brasileiro quer bloquear as práticas criativas e atacar a Internet, enrijecendo todas as convenções do direito autoral.

O Substitutivo do Senador Eduardo Azeredo quer bloquear o uso de redes P2P, quer liquidar com o avanço das redes de conexão abertas (Wi-Fi) e quer exigir que todos os provedores de acesso à Internet se tornem delatores de seus usuários, colocando cada um como provável criminoso. É o reino da suspeita, do medo e da quebra da neutralidade da rede. Caso o projeto Substitutivo do Senador Azeredo seja aprovado, milhares de internautas serão transformados, de um dia para outro, em criminosos.

Dezenas de atividades criativas serão consideradas criminosas pelo artigo 285-B do projeto em questão. Esse projeto é uma séria ameaça à diversidade da rede, às possibilidades recombinantes, além de instaurar o medo e a vigilância. Se, como diz o projeto de lei, é crime "obter ou transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular, quando exigida", não podemos mais fazer nada na rede.

O simples ato de acessar um site já seria um crime por "cópia sem pedir autorização" na memória "viva" (RAM) temporária do computador. Deveríamos considerar todos os browsers ilegais por criarem caches de páginas sem pedir autorização, e sem mesmo avisar aos mais comum dos usuários que eles estão copiando.

Citar um trecho de uma matéria de um jornal ou outra publicação on-line em um blog, também seria crime. O projeto, se aprovado, colocaria a prática do "blogging" na ilegalidade, bem como as máquinas de busca, já que elas copiam trechos de sites e blogs sem pedir autorização de ninguém!

Se formos aplicar uma lei como essa as universidades, teríamos que considerar a ciência como uma atividade criminosa já que ela progride ao "transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado", "sem pedir a autorização dos autores" (citamos, mas não pedimos autorização aos autores para citá-los). Se levarmos o projeto de lei a sério, devemos nos perguntar como poderíamos pensar, criar e difundir conhecimento sem sermos criminosos.

O conhecimento só se dá de forma coletiva e compartilhada. Todo conhecimento se produz coletivamente: estimulado pelos livros que lemos, pelas palestras que assistimos, pelas idéias que nos foram dadas por nossos professores e amigos... Como podemos criar algo que não tenha, de uma forma ou de outra, surgido ou sido transferido por algum "dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular"? Defendemos a liberdade, a inteligência e a troca livre e responsável. Não defendemos o plágio, a cópia indevida ou o roubo de obras.

Há necessidade de garantir a liberdade de troca, o crescimento da criatividade e a expansão do conhecimento no Brasil. Experiências com Software Livres e Creative Commons já demonstraram que isso é possível. Devemos estimular a colaboração e enriquecimento cultural, não o plágio, o roubo e a cópia improdutiva e estagnante.

E a Internet é um importante instrumento nesse sentido. Mas esse projeto coloca tudo no mesmo saco. Uso criativo, com respeito ao outro, passa, na Internet, a ser considerado crime. Projetos como esses prestam um desserviço à sociedade e à cultura brasileiras, travam o desenvolvimento humano e colocam o país definitivamente para debaixo do tapete da história da sociedade da informação no século XXI.