sábado, 11 de março de 2006

Eduarda

Esta crônica é uma homenagem à vida, expressa na figura inocente da minha primeira neta, a doce Eduarda, menina linda, feita de azul.

"A vida brota do amor e se refaz em si mesma, a cada instante de luz.
"A suave beleza da vida que nasceu se enlaça na ternura das mãos que a sustentam.
"E o lindo olhar da inocência reflete a existência de Deus.

"O pequeno raio de sol, matinal e ameno, é amigo de todas as manhãs.
"A natureza inteira é como um bosque de paz,

que prepara um ninho para a pequena vida.

"Vida, és amiga da verdade simples, das plantas e do azul.
"E te lanças em caminhos que reconhecem as mãos que te protegem.

"A pequena Eduarda é esse ser lindo da vida.
"Pequena menina de gestos de nuvens.
"Que os sons e todas as cores do mundo acompanhem os teus passos."

Ciumenta

"O homem nasce nu, molhado
e faminto; o pior vem depois."
(De um velho filme de caubói que, um dia, assisti)


De Zilda Neves recebi a crônica que segue abaixo, "Ciumenta".

Ela tinha um gênio difícil; brigava por qualquer coisa e com todo mundo!
No condomínio onde morávamos, não tinha amigas nem vizinhos; todo mundo passava por ela, preferindo abaixar a cabeça, com medo de apenas, num cumprimento, ter seu dia estragado, por um simples "bom dia".


Fosse risonho e receptivo, imaginava o incauto pretendendo uma aproximação que ela repudiava, e aí estava formado o banzé: -Nunca me viu não? Questionava de chofre, não dando tempo ao atingido por um petardo oral inimaginável.

Depois de dar três passos e olhando para trás, se o infeliz ainda, aturdido, estivesse parado, descarregava a bateria:- Vai querer o quê? Tempo bastante para desistência do amável cidadão, disposto a não ser mais educado.

Ninguém entendia como o marido, se casados fossem, aturava aquela mulher! Só ele sabia.

Na cama, era uma candura de mulher; bastava tirar a camisola, vestia-se de fêmea, cobrindo seu corpo, com a sensibilidade do amor que pode mais que a razão, sendo impossível não ser do jeito que os outros, acreditem ela seja. Apenas eu!

O que todo mundo vê, não corresponde ao sentido interior, justificativa de um ciúme consumidor e quase sempre sabe mais que a verdade, fato bastante para fazer-me imaginar que a idéia de morrer sozinho é uma desgraça, e não posso correr o risco.

O ciúme é próprio de quem ama; ela jamais derramou uma lágrima fácil, quando, razões de seu coração era atingido. Preferia um esgar, disposta a uma refrega de conseqüência imprevisível, a secar uma gota, que as costas da mão pudessem enxugar.

Não partilhava seus segredos, nem contava aventuras contidas em sua vida: nem do corpo, nem da alma; parecia compreender já ter se dado conta, num passado remoto, serem impunes a um futuro que se avizinha, deixando entender ao companheiro, não esquecer - se a vida lhe for breve - onde enterrou seu segredo.

Porém, nem sempre foi assim; dotada de personalidade forte, guardava nas profundezas do seu ser, uma possessividade controlada, exacerbada com o passar dos anos e das imposições que a vida lhe ofereceu. Seus dotes físicos mostravam-lhe essa verdade, fato bastante para criar um quê de reserva, e uma visão ciumenta de si própria. Percebia olhares furtivos, ao cruzar com pensamentos menos nobres, onde seu atual companheiro, fora um deles.

A vida a dois, fortalece um permanente descobrir, no jogo do amor, permitindo reconhecer que as tentativas, embora frustradas, avolumavam-se no amiudar de se dar e que o tempo encarrega-se de contemplar desejos recônditos.
As primeiras insinuações pareciam ser vencidas com um argumento imaginado inquestionável: “Quer entrar, onde só deve sair”?


A contramão dos fatos, jogou por terra, outras virtudes mais fortes para o primeiro embate, ficando os anos como um aliado, no novo se entregar.
A soma, julgada perfeita, alicerçou um questionamento, onde o ciúme extrapolou de uma forma acintosa ao parceiro, mais ainda assim, dizia-se a mulher mais feliz do mundo!

quinta-feira, 9 de março de 2006

Canalhas!

"A desonra é como a cicatriz na casca de uma árvore:
o tempo, longe de apagá-la, só faz aumentá-la cada vez mais."
(Autor desconhecido)

A Câmara dos Deputados perpetrou ontem um dos mais lamentáveis espetáculos que a podrura do seu plenário sórdido já pôde vomitar: absolveu dois usuários do mensalão, o deputado Professor Luizinho e o deputado Roberto Brant. O primeiro do PT, o segundo do PFL. A bile política, dizem os jornais da grande imprensa, foi secretada por um acordão reunindo PT, PSDB e PFL.

O grande mictório em que se transformou a Câmara dos Deputados salvou Roberto Brant com 283 votos, contra 156. Quando foi evacuar, o deputado Professor Luizinho
foi acolitado por 253 parlamentares (eu disse parlamentares?) contra 183. Outro envolvido no mensalão, Romeu Queiroz, do PTB, bem antes, já havia sido salvo por seus pares, melhor diria, pedreiros de latrinas.

Agora virão outros. Vejamos como as coisas vão acontecer. A manter-se a atual tendência, todos os calígulas irão triunfar. E, como você sabe, Calígula foi aquele imperador romano que prostituiu as mulheres dos senadores para arrecadar dinheiro para o Estado romano e fez de seu cavalo, Incitatus, também um grande tribuno. O cavalo foi sagrado senador, que, naquele tempo, era algo vitalício.


No Brasil, Incitatus sem dúvida alguma teria muito a ensinar. E os deputados muito a aprender. Afinal, Incitatus viria dos tempos das grandes bacanais que, em último caso, eram apenas festas religiosas, em honra ao grande deus Baco. E como os deputados gostam mesmo é de um balaco-baco, veja só, tudo estaria às mil maravilhas.
Mas Incitatus não poderia vir. E agora, fazer o quê? Esperar? Sofrer? Gritar? Lamentarmo-nos todos, cobrir nossas cabeças com cinzas e dirigirmo-nos a algum áugure ou oráculo, para saber o que acontecerá? Em verdade, em verdade vos digo: não acontecerá nada! Todos sairão com suas coroas de louros, como atletas do mundo olímpico clássico.
De uma coisa, entretanto, tenho certeza: o plenário da Câmara dos Deputados é um extrato perfeito da sociedade brasileira. Estamos ali, literalmente, representados. Somos um povo lasso, ideologicamente apascentado, leniente para com o crime, frouxo em enfrentamentos que defendam a ética e a moral. As próximas eleições vão comprovar o que digo.
Cada vez que alguém corrompe o guarda de trânsito com uma nota de dez reais, sempre que um funcionário público chega tarde ao trabalho, quando o médico deixa de ir ao posto de saúde para trabalhar, quando na academia alguém compra uma dissertação de mestrado pela internet, tudo isso, de alguma maneira, se reflete nas escolhas dos representantes políticos. É uma questão cultural, um processo de osmose, que se multiplica e se amplia, salta dos atos microscópicos do cotidiano e alcança toda a largueza das esferas políticas mais altas. Há as exceções, é claro. Mas...
Então, vamos dizer como Macunaíma:"Que preguiça..."

quarta-feira, 8 de março de 2006

A Mulher

"Tenho duas mãos,
e o sentimento do mundo."
(Carlos Drummond de Andrade)

Este texto é dedicado a Minha Mulher, em seu Dia.

Ela caminha, calma, em seu silêncio de manhã mais nascente. Suave, tece nossa vida como uma penélope que não precisa olhar para o horizonte, à espera de um navio que jamais chega. Seus passos abrem caminhos, suas mãos escolhem e colhem gestos de abraço. A ela, sempre, ofereço matizes sutis de nossas tardes. Minha Mulher.


Companheira, amiga, corajosa, tem enfrentado comigo todas as termópilas. É uma doce guerreira, valquíria de todas as horas. Minha Mulher.

É Mulher em festa, em cores, em sons magníficos; transforma-se em brilho quando é preciso, e em tons de luz e sombra quando chegam os momentos de nós dois. Minha Mulher.

Caminhamos em praias distantes e nos encontramos nas terras mais altas. Minha Mulher.

E quando os golpes ferozes da vida se abatem de rijo sobre o casal, somos recobertos pelo escudo de nossas cumplicidades sinuosas, pondo abaixo todos os dardos. Minha Mulher.

Conhecemos atalhos, descobrimos encontros, passamos ao largo da felicidade sonante, aquela que se compra com o dinheiro. Nossa moeda é intangível. Nossa felicidade é secreta. Minha Mulher.

A cicuta do Tempo jamais chegou à nossa taça. Brindamos à sagração de uma primavera que supera todos os dias as fronteiras do amanhã e do depois. Minha Mulher.

A ela, sempre, ofereço um cálice de pétalas para iluminar, com réstia de estrelas, o seu olhar candente de ternuras. Minha Mulher.

Ela não nasceu, floresce. Brota em cercanias secretas e mergulha numa paz que soubemos descobrir. Minha Mulher.


terça-feira, 7 de março de 2006

Brasil: o que vai acontecer?

"Ladrão que rouba ladrão,
tem cem anos de perdão"
(Sabedoria popular)

Atenção, atenção, muita atenção para as previsões quanto ao futuro próximo deste imenso País.

Delúbio Soares: não vai acontecer nada.
Marcos Valério: não vai acontecer nada.
Juiz Lalau: nesses dias estará solto.
José Genoíno: não vai acontecer nada.

Paulo Maluf: não vai acontecer nada.
Senador Eduardo Azeredo: não vai acontecer nada.
Duda Mendonça: não vai acontecer nada.
Waldomiro Diniz: não vai acontecer nada.

Assassinos do prefeito Celso Daniel: não vai acontecer nada.
Autores de crimes hediondos: podem cumprir pena em regime semi-aberto.
Paulo Okamoto, presidente do Sebrae: não vai acontecer nada.
Presidente Lula: vai continuar fazendo tudo e não vai acontecer nada.



domingo, 5 de março de 2006

O encontro dos sorrisos

“ Televisão é goma de
mascar para os olhos.”

(Frank Lloyd Wright, arquiteto americano)


Com o tempo, os adultos passamos a valorizar mais o tempo. Gosto de reencontrar pessoas, gosto de reencontrar amigos. Não apenas pelo reencontro em si, que muitas vezes é muito agradável, mas pelo voyeurismo de observar o que mudou naquela pessoa, como está, quais foram as transformações que assumiu, se o sorriso é o mesmo, se tornou-se amargo, enfim se...

Nos últimos dias, tive a oportunidade de rever amigos, amigos antigos, gente que comigo já cruzou caminhos, atravessou momentos, codividiu perplexidades. Foi estranho, pois, num deles, predominava o sentimento ocre da dor, zelosamente guardada no cofre dos ressentimentos com a vida; em outro, sobressaía ainda o sorriso jovial e franco do existir.

No primeiro, no que fez a opção pela dor, o cumprimento do reencontro mal passou de um grunhido. Sem um aperto de mão, sem um abraço, um tapinha nas costas. Fiquei parado, olhando o meu amigo, enquanto caminhava por entre a multidão de problemas - pois ele vê em cada pessoa um problema - com os quais tem que conviver.

Conheço a figura, sei que não é má pessoa. Sei de suas lutas, sei de quantas ondas já se esbateram contra a quilha do seu barco e quantas vezes quase soçobrou, saindo da tempestade com as velas em frangalhos e o estandarte de luta totalmente roto. E ele assumiu tudo isso, bebeu esse cálice até o fim e embriagou-se nele, como que guardando dentro de si todo o ódio de que já foi vítima. Uma vacina, entende? Assim, quando mais mal vier, ele já estará tão cheio, que nada o atingirá.

O outro amigo, ao contrário, mesmo tendo passado por problemas complicados, suportado a flecha lhe varando a armadura e ferindo o corpo, resistiu. E trazia, senão o sorriso das manhãs, uma vez que já se faz inverno a sua vida, trazia aquela alegria calma de quem não precisa da gargalhada para mostrar que está feliz, ou do grito para explicar que está em chamas. Algum dia espero ser assim também.

sábado, 4 de março de 2006

Natal vista do alto

"Deus não pode
jogar dados."
(Albert Einstein)

A crônica abaixo é do meu livro Crônicas para Natal - as crônicas do Jornal do Dia.

A cidade se espalha e cresce, como paisagem de prédios e céu.
Inteira enquanto parte de si mesma, Natal é música de casas e paredes, torres e paisagem humana e bela.


Ruas ainda calmas, como se a cidade ainda não tivesse a malícia urbana, Natal é porto de sua própria chegada.

E se a amplidão do mundo a torna pequenina, Natal se deixa colher nas manhãs de todo dia. E cresce em silêncio e calma. Ainda.

quarta-feira, 1 de março de 2006

O maior pintor do mundo

O jornalista não tem amigos ou inimigos.”
(James Reston, jornalista americano)

O repórter-fotográfico Paulo Saulo costumava chegar à redação do Diário de Natal, inícios dos anos 70, sempre com novidades, falando alto, gesticulando muito. Uma vez, e isso já contei, veio com a história de um sujeito que fazia esculturas em vidro, a partir de velhas lâmpadas fluorescentes. Resultado: fui com ele fazer a matéria, o quarto onde o cara trabalhava quase explode com um bujão de gás (as esculturas eram feitas com vidro incandescente) e, no fim, ele confessou que sequer havia colocado filme na máquina.

Pois agora, veja só essa: uma tarde, coisa de duas e meia, ele entrou novamente feito um louco, redação adentro. Nesse tempo, a redação do Diário era onde hoje fica o parque gráfico. Mas, então , trabalhava-se assim mesmo: birôs metidos entre grandes cilindros de papéis, as rotativas ao fundo. Às segundas-feiras, meio da tarde, elas começavam a funcionar endiabradas, imprimindo a edição especial, que saía coisa de cinco e meia.

A rotativa imprimindo uma edição vespertina e nós preparando a edição do dia seguinte. Era um barulho enlouquecedor. Mas era bom, era muito bom.

Sim, mas, o que eu ia dizendo? Sim: ele entrou feito um louco pela redação e berrou que trazia em sua companhia ninguém menos que “o maior pintor do mundo”. Com isso, parou todo mundo, claro. Quem seria o maior pintor do mundo? Miguel Ângelo certamente ficaria no rastro; Boticelli a mesma coisa; Picasso nem se fala; Da Vince, hummm...; Salvador Dali, pra quê?

E então apresentou-se o maior pintor do mundo: ninguém menos que... um desconhecido... Isso mesmo: um ilustre desconhecido, mas catalogado por Paulo Saulo como o maior. E sabe por que o homem era o maior...? Pelo fato simples de que o sujeito era um incrível miniaturista. Ou seja: era o maior porque pintava o menor.

Veja só que loucura: ele pintava em cabeças de alfinetes. Utilizando-se de uma técnica preciosíssima, cuidadosíssimo, pacientíssimo, ele pegava um fio de pincel, também finíssimo e, toque a toque, reproduzia, por exemplo, a Última Ceia, numa cabeça de alfinete. Para pintar, tanto como para ver o resultado do trabalho, servia-se de uma poderosa lupa. Olhando por ela, dava para você ver as figurinhas: Jesus ao centro, os apóstolos, a grande mesa, tudo em cores, forte, incrível.

Havia outras obras, mas já não me lembro quais. Mas, como havia uma dificuldade intransponível (ninguém conseguiria fotografar as miniaturas) a matéria, acabou não sendo feita e assim o maior-pintor-do-mundo acabou passando pela redação do DN e de lá voltando para o seu mais completo e ínfimo anonimato.

Hoje, olhando bem, creio que Saulo tinha uma certa razão: a pequenez daquelas imagens, fruto de um grande trabalho, talvez valesse àquele homem o título de ser o maior... Havia ali um estranho desvelamento, um dedicação insana, personalíssima, humana, incompreendida e incompreensível: por que ele não se dedicava a pintar em tamanho convencional?

Por acaso não sabia que aquilo jamais lhe renderia dinheiro? Havia arte naquilo? Havia, admitamos que havia. Afinal, aquele pobre artista dedicava-se à imensa tarefa de ser ele mesmo. Mesmo que isso não valesse um centavo e, do mundo, ganhasse apenas o elogio de um fotógrafo que o proclamou como o maior pintor do mundo.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

Donos de nada

"Os presidentes passam, a imprensa fica."
(Sylvino de Godoy Neto, presidente da Associação Nacional de Jornais.)

A partir de hoje, estarei publicando trechos do meu livro "Crônicas para Natal - as crônicas do Jornal do Dia".

São visões, entendimentos, momentos, captados de Natal, seus momentos, seu povo, suas belezas e misérias, grandezas e limitações. A crônica abaixo volta-se para as favelas de Natal. Favela enquanto instante social grafado na geografia dos dramas da minha cidade. Seus moradores são, como diz o título, "Donos de nada".

É uma crônica curta, como curtos e pobres são os dias dos que têm o nada como propriedade e estilo de vida. Vejamos:

Diagrama da pobreza, descaminho dos donos de nada, a favela é o rumo perdido, o norte desorientado.

Alagada de problemas, passada de dores, a favela é o universo dos que vivem em vão. O povo tem a fome tatuada na boca.

E se apresenta como alguém que perdeu a própria sorte.

Favela. Ali, são todos passageiros. Dormem nas nuvens da incerteza e se alimentam de todas as dores do mundo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Mais de mil palhaços no salão

''Coloquei minha casa sobre o nada
e por isso o mundo me pertence.''
(Johann Wolfgang Goethe)

E então, chegou o Carnaval-Brasil. Há festa e a seca se serve do sofrimento do homem no sertão. Mais de mil palhaços no salão.

Chegou o carnaval e os bandidos, no Rio, alvejam os passantes em vigança à morte de um traficante. Mais de mil palhaços no salão.

É carnaval e as crianças esmolam nos sinais. Há fome e ranger de dentes. Mais de mil palhaços no salão.

É carnaval: os hopitais públicos são locais de sofrimento e dor. Os planos de saúde comerciam a medicina e fazem da saúde uma mercadoria. Mais de mil palhaços no salão.

O carnaval chegou, os tamborins estão tocando as cuícas roncando e os gringos chegam para o seu período de orgia. O turismo sexual dá lucros e quadrilhas se enriquecem. Mais de mil palhaços no salão.

O carnaval está aí. Meninos e meninas são usados como objeto sexual, servem ao dinheiro e a seus adoradores. Famílias se dobram ao peso da miséria. Mais de mil palhaços no salão.

Evoé, Momo! Os produtores de álcool exploram o povo e vão ganhar muito dinheiro. A gasolina, com menor teor de álcool em sua mistura, deverá subir de preço, dizem os noticiários. Mais de mil palhaços no salão.

O carnaval está em todas as alegrias. Mas alguém vai morrer depois de comprar alguma droga a um traficante; uma menor será ofendida e humilhada por um turista rico; o grande capital financeiro quer dominar os destinos do País; as universidades continuarão precisando de dinheiro e um idoso estará sofrendo em alguma fila, implorando alguma miséria assistencial oficial. Mais de mil palhaços no salão.

Depois, quarta-feira-de-cinzas: Mais de mil palhaços, mais de mil palhaços...



O jornalista e poeta Walter Medeiros manda o poema "Zé Pereira", lembrando os velhos carnavais. Abaixo:

Viva Zé Pereira,
Português danado,
Cabra sem enfado,
Pela vida inteira.

Viva o Carnaval,
Que tanto admiro,
Mas já me retiro,
Não me leve a mal.

Viva aquele samba,
Feito por Martinho,
Que canto baixinho,
Querendo ser bamba.

Viva a lembrança,
Do pó, do confetti,
Caetano, Zé Kéti,
Serpentina e lança.

Viva Paulo Maux,
Nosso eterno Rei,
Nunca esquecerei,
Mas sei que passou.

Viva nossos clubes,
De lindo passado,
Que está gravado,
Bailes que iludem.

Viva uma saudade,
Cá neste meu peito,
De amores sem jeito,

E de felicidade.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

A mordaça dos loucos, o silêncio da imprensa

Antigamente as coisas eram piores.
Só que, depois, foram piorando mais um pouco.”
(Paulo Mendes Campos)

Início dos anos 80, eu chefiava a reportagem da Tribuna do Norte e tive a oportunidade de conviver com uma jovem e talentosa repórter, Josimey Costa, e com um instável, mas também genial fotógrafo, Paulo Barossi, um rapaz que um dia fazia fotos espetaculares, mas, dia seguinte, furava a pauta e, na falta de um bom material, me dizia, estendendo a mão cheia de fotografias velhas: “Veja aí, Barreto, lá no arquivo tinha isso.”

Pois bem: certa vez, pautei a dupla para uma matéria no Hospital João Machado, o Hospital Colônia, para constatar suas condições de funcionamento. Eles foram, mas chegando lá, foram barrados na portaria. Eu pensei: “O que o pessoal do hospital tem a esconder? Aí tem coisa...”

E dei a seguinte ordem a Josimey e Barossi: “Vistam-se de branco, como se fossem acadêmicos de medicina e revirem aquele hospital. Vamos ver o que de tão ruim há, para ser oculto.”

Eles foram. Foram e viram tudo o que se passava no hospital. À entrada, sequer foram perturbados e, lá dentro, deram um show de jornalismo investigativo, jornalismo de flagrante. Juventude e decisão de fazer jornal de denúncia, jornal a favor do ser humano, jornal contra a humilhação dos pobres, loucos e desvalidos.


Eles foram e viram seres humanos reduzidos a condições miseráveis, doentes nus jogados em camas imundas, doentes perambulando como almas penadas, pessoas presas em celas gradeadas. Doentes estendendo-se as mãos, como que tentando, através do contato físico, compensar o tratamento humano e necessário a que tinham direito, mas ao qual não tinham acesso.

Se a loucura é uma forma de dor, e se a dor é condição mais presente da condição humana, de alguma forma somos todos loucos. Mas os deserdados da loucura, em sua autenticidade solitária, ali não tinham direito ao gesto afetivo, ao abraço longo, ao carinho amigo.

O Colônia era um inferno. Uma espécie de campo de concentração de pessoas mentalmente insanas levadas à indigência. Era um espetáculo dantesco. Estava aí o motivo pelo qual o Colônia era um tabu, um local secreto, fechado, impossível de dar acesso aos olhos de imprensa. Mas, a decisão dos repórteres em fazer a matéria era tamanha, que eles literalmente se fizeram invisíveis aos olhos dos funcionários e médicos e vasculharam tudo.

Andaram por salas, corredores, perpassando todo o horror do hospital. As fotos, em preto e branco, capturavam toda a dramaticidade daqueles instantes de sofrimento e abandono. Até que... foram descobertos. Estavam avançando sobre a cozinha, quando alguém afinal desconfiou e os flagrou. Ali, finalmente descobertos, após a magnífica matéria, foram identificados como jornalistas e retirados.

Ainda bem que não houve qualquer retaliação violenta dos funcionários do hospital contra os repórteres. A dupla voltou, vibrando, com uma produção digna de qualquer grande publicação: pela indignação do conteúdo do texto que Josimey produziu e pelas fotos de Paulo Barossi trouxe - creio que essas fotos ainda hoje existem no arquivo da Tribuna.

Denúncia pura, brutalidade flagrada, desumanidade exposta aos olhos da cidadania.

Só que (também decepção para mim), a direção do hospital intercedeu junto ao comando supremo da Tribuna e a matéria simplesmente foi parar na cesta seção (o cesto de papel, onde na época, eram jogados os textos imprestáveis).

Na época eu também era jovem e vi esfumaçar-se num acordo de diretores todo o esforço de uma talentosa tarde jornalística.
Nota do redator: creio que, hoje, o hospital esteja em melhores condições.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

O Brasil virou um show. Fiquemos todos felizes

“Eu não creio em Deus, é verdade.
Mas nem por isso sou ateu.”
(Albert Camus)
Vivemos hoje a sociedade do espetáculo e do simulacro. Não vou entrar em discussões acadêmicas sobre esta visão de mundo. Este é um artigo jornalístico, não um ensaio. A comprovação, no Brasil, foi o recentíssimo show dos Stones, e as apresentações, hoje e amanhã, do U2, cujo líder , Bono Vox, visitou o presidente Lula.
Vamos por partes: quanto aos Stones, ocorreu o que qualquer pessoa de bom senso poderia antever: foi um espetáculo pleno de vigor encenado, referências musicais programadas, atitudes de uma rebeldia desengavetada e sempre renovada a cada apresentação. Ou alguém pensa que Jagger está criticanto padrões estéticos, comportamentos convencionais e outras coisas do tipo?
Jagger é um capitalista e está administrando, muito bem, seu capital: financeiro e midiático. E está se dando muito bem. O show vai virar DVD, foi visto ao vivo nos Estados Unidos e outros países e muita gente ficou pensando que participou de um "acontecimento histórico". Mas, histórico como? Onde estavam a essência, a irreverência, a força de uma mensagem de contestação?
Houve sem dúvida um espetáculo bem feito, profissional, impecável, como compete a grandes artistas. A emoção é que foi plastificada, embalada e vendida: a grandes empresas e à prefeitura do Rio.
Por outro lado, outros grandes do rock estão no Brasil. O pessoal do U2 fará suas duas apresentações. Enquanto isso, o líder teve audiência com o presidente Lula. Puro marketing, de parte a parte. O cantor tem fama de participar de espetáculos beneficentes e ergue sua voz contra injustiças sociais. Muito bem.
Mas, daí a ser recebido por um presidente de república, vai uma grande distância. Não creio que nenhum conselho de Bono tenha tido o condão de dar a Lula algum tipo de iluminação, aberto o caminho para o nirvana político, social e, por que não, ético.
O roqueiro aproveitou a oportunidade para cultivar sua imagem de campeão de causas da pobreza universal e o presidente também teve o seu ganho: politicamente correto, recebeu um artista globalizado. Esperemos que este tenha dado conselhos sobre como acabar com a viôlência dos criminosos que infestam o Rio de Janeiro.
Enquanto isso, fomos redescobertos. Agora não mais os portugueses para trocar bugigangas com os índios. Pelo menos como porto para celebridades. Depois, eles vão embora. A fome fica, a corrupção persiste, o morticínio se mantém. Mas, pelo menos, damos ao povo pão e circo.

sábado, 18 de fevereiro de 2006

Uma lembrança de Djalma Marinho

“O futebol está tão lento que,
quando a bola sai de uma área
e chega à do adversário, já é noite.”
(Do legendário jogador espanhol Di Stéfano )

O poeta Diógenes da Cunha Lima certa vez escreveu a respeito do deputado Djalma Marinho, a quem descreveu como “o homem que pintava cavalos azuis”. A imagem, plena de força de expressão, resumia de forma magistral a figura de Djalma, ou seja: ele tinha o vigor dos corcéis em seu galope desabrido e, ao mesmo tempo, trazia em si a grandiosidade do infinito, o sonho do horizonte. A descoberta do passo seguinte.

Pois bem: ainda recordo a minha última entrevista dom Djalma, num começo de tarde chuvoso, na casa de Márcio, seu filho, onde hoje é o edifício que leva o nome do deputado. Djalma estava com a mão direita enfaixada. Sua frágil e firme mão, tantas vezes brandida de tribuna da Câmara, em defesa de seus ideais.

Djalma, o mesmo que, citando Calderón de la Barca, enfrentou o poder devastador da ditadura, quando queriam cassar o deputado Márcio Moreira Alves. Disse ele: “Ao Rei tudo, menos a honra.” Seria o achincalhe total, o encurvamento da Casa, o abismo da Desmoralização. Ele disse não e veio o fechamento do Congresso, que quebrou-se mas não sucumbiu.

Sim, mas, voltemos à entrevista. Ele falava de democracia, resistência sem violência, coisas assim e lá para as tantas, sentenciou: “Devemos ser como Atenas e nunca servir a Cartago.” E foi, foi, foi, falando sempre de democracia, convivência de contrários. Atenas, onde nasceu a democracia, seria bem diferente de Cartago, um reino na África, de onde Aníbal partiu com seus elefantes, para combater seus eternos inimigos, os romanos.

Creio que Djalma queria dizer que, em vez de buscar a guerra, o homem deve buscar o auto-conhecimento, a ponderação, o equilíbrio, a serenidade. Creio que era isso.Terminei a entrevista e, tempos depois, morria Djalma. Fui incumbido de cobrir seu sepultamento.

Lembro bem da emoção das palavras do senador Dinarte Mariz, chorando o desaparecimento do suave guerreiro. Uma tarde de chumbo, a noite se estampando como um véu de luto, recobrindo o cemitério. Quem sabe, uma carpideira, como na Grécia.

O tempo passou e uma vez, na TV, vi uma matéria na Câmara dos Deputados. E lá ao fundo o retrato de Djalma, como que dizendo em seu silêncio fotográfico: “Lembrem-se: ao Rei tudo, menos a honra.”

O problema é que, para muitos deputados, honra é uma palavra que não consta do
vocabulário.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

O detetive Perpétuo*

"Deixei de fumar por absoluta
incompetência pulmonar."
(Ex-ministro Mário Henrique Simonsen, antes de morrer de câncer)

Meu velho amigo, o detetive Perpétuo, contou-me um caso ocorrido em Natal no início dos anos 60 quando ele, em silêncio, poderia ter sido promotor, juiz e executor de uma sentença, levando um homem pobre a morrer na cadeia. Um homem que, na verdade, estava agindo em legítima defesa de uma criança.


Foi assim: em 1961, ele estava num velho bar da Ribeira, coisa de sete da noite. O expediente dele na delegacia havia terminado, e Perpétuo tomava um uísque antes de voltar para casa, onde já o esperaria o jantar preparado por Dona Altiva, sua mulher.

Então, uma mulher entra correndo e diz: "Seu Pepeto me ajude." A pobre criatura estava descabelada, tremia, suava e vira nele sua última salvação, porta final do seu desespero. Perpétuo perguntou o que havia e ela relatou depressa, enquanto o puxava pelo braço: "Venha comigo, que meu vizinho, um homem já velho, roubou a minha filha e está com a menina trancada na casa dele."

Entraram na sacolejante viatura e foram até o morro de Mãe Luíza, então uma favela. No escuro havia pouquíssimas lâmpadas nas casas e ruelas da então favela de Mãe Luíza), ele divisou as duas casinhas, afastadas das demais, já no meio do matagal.
"É ali?", quis saber. "É ali", confirmou a voz trêmula da mulher. Perpétuo aproximou-se da casa do raptor. Silêncio completo. Andou a seu redor, em busca de encontrar algum ponto por onde pudesse penetrar na casa. As janelas todas estavam fechadas. Ele rondou uma, duas, três vezes.

Parou e ficou ouvindo: dava para perceber um ruído, um ronco, um regougo, lúgubre som vindo de uma garganta arfante. Supôs que a menina estivesse sendo vítima de alguma violência pelo velho e não pensou mais: atirou-se de cabeça contra a janela do casebre, que cedeu como se fosse feita de papel.

Perpétuo caiu bem no meio da pequena sala de chão batido e deparou-se com uma cena, que ele assim me descreveu: "Acocorada a um canto, a menina chorava. E à sua frente, o velho, ou melhor, o velho enfrentando um homem moço e forte. O velho era um aleijado e, com o apoio da muleta, usando aquela parte onde se apóia a axila, empurrava o homem, pelo pescoço, contra a parede. Mal se sustinha de pé, em confronto desigual, enquanto o outro empunhava uma faca para matá-lo a qualquer momento, se fraquejasse."

E concluiu Perpétuo: "Puxei o revólver, mas fiquei parado, até que o invasor bambeou. Fora sufocado, morreu, caiu e tombou no chão, como um fardo. Na verdade, o que tinha corrido fora o seguinte: o homem havia pegado a menina e, supondo que na casa do velho não tinha ninguém, foi esconder-se lá com ela. Mas Seu Felício, esse o nome do velho, estava na casa e enfrentou o agressor, com grande coragem. Eu me virei para o velho Felício e disse que fosse embora, construísse um barraco em outra favela qualquer e estava tudo bem. O assunto estava esquecido."

O velho sumiu na noite, Perpétuo voltou para casa e jantou em silêncio enquanto Dona Altiva comentava a respeito do grande sucesso do rádio, "O direito de nascer." Ele a olhou e sorriu na noite. Sabia que na favela uma menina dormia em paz.

*As aventuras do detetive Perpétuo são ficcionais.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Silêncio, vou matá-lo agora...

"Rio Grande do Norte,
rio grande da morte,
rio grande sem sorte."
(De um poema de Bosco Lopes in memoriam )

Simplício sempre, sempre fora assim: assíduo, trabalhador, correto, desempenho sem qualquer genialidade, mas eficaz. Tudo na medida. E o reconhecimento pelo seu trabalho era, no máximo, um sorriso de satisfação do chefe, melhor dizendo, do dono da loja. Até que um dia Simplício descobriu: estava com câncer.

“Seu Simplício, vou ser muito sincero”, disse o médico, “o senhor só tem, no máximo, seis meses de vida.” Ele encarou o doutor com seus olhos castanhos, deu uma tragada forte no cigarro sem filtro e somente disse: “Está bem.”

Saiu do consultório e um pensamento aliviado o acudiu: Seu Ascânio, o patrão, não iria lhe falhar naquele momento difícil. Afinal, nunca havia pedido nada e agora era chegado momento. Não disse nada à mulher, esperou passar uma semana, tomou coragem e falou com Ascânio. O homem, de vista baixa estava, de vista baixa ficou, traçando uns rabiscos numa folha de papel.

Simplício, de pé, petrificado, esperava a resposta, como quem espera uma sentença: seria possível que, após sua morte, o patrão providenciasse a Dona Santa, a viúva (o casal não tinha filhos), o pagamento de uma espécie de pensão, já que a Previdência iria pagar a ela uma miséria?

Ascânio esperou um minuto, pensou e disse, enquanto amassava o papel e o jogava no cesto: “Não, Simplício, não. As coisas não vão bem e..”, foi interrompido por Simplício: “Mas seu Ascânio, e esses anos todos, eu aqui, minha fidelidade ao negócio, minha vontade de ajudar... isso não vale nada? Não merece reconhecimento?”

O homem respondeu: “E já foi reconhecido. Você não tinha um salário mensal? Esse foi seu reconhecimento.” Simplício não retrucou e retirou-se, voltando a seus afazeres. Ressentido, trancou-se em sua dor e esperou pela morte. Enquanto isso, tramava uma vingança: sabia que Seu Ascânio era diabético e muito descuidado com a saúde; sabia que ele tinha o costume de guardar cheques em branco e assinados.

Só precisava combinar as duas coisas no momento apropriado, para garantir a sobrevivência de Santa.Sentia que a doença o corroía por dentro e precisava agir rápido. Então, aconteceu: num sábado, foi para casa e pouco depois Ascânio relefonou, pedindo que ele voltasse à loja e ficasse em sua companhia, para revisar umas tabelas de preços. Sentiu que estava ali sua chance e voltou correndo.

Ascânio tomava muito café, fumava muito e estava com as taxas elevadíssimas. Foi suficiente substituir o adoçante por açúcar às quatro da tarde e pouco depois ouvir o baque do corpo caindo. Como ninguém sabia que ele havia voltado, foi ao talonário de cheques, preencheu um com a quantia de 60 milhões de reais. Pôs o cheque no bolso, fechou a loja e saiu quando a noite caía. Na segunda-feira o corpo foi encontrado e todos lamentavam a morte de Ascânio.

Simplício também lamentou o desaparecimento, foi a um cartório onde depositou o cheque, dizendo que o envelope onde este se encontrava deveria ser entregue a Dona Santa, após a sua morte, o que ocorreu quatro meses depois. E foi emocionada que a pobre velhinha recebeu o cheque, que lhe garantiria o resto da vida: “Meu Deus, como meu marido tinha um bom patrão.”

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Um frio de tarde sem fim

"Deus poupou-me do
sentimento do medo."
(Juscelino Kubitscheck)

A mulher subiu à redação trazendo um estranho pedido nos lábios: denunciar uma chacina, um morticínio intenso havido numa remota granja, onde seres vivos haviam se entredevorado até o fim, sem ter outra opção de alimento. Era uma senhora de cerca de 50 anos, mas 50 anos sofridos, cansados, cheios de perplexidade.

Caminhava meio encurvada, um vestido simples sobre o corpo meio balofo, os cabelos grisalhos arrumados de qualquer jeito sobre a cabeça de testa engelhada. Nunca entendi porque ela compareceu ao jornal para me contar aquilo, uma vez que não tinha qualquer relação com os envolvidos no morticínio e o fato já fazia algum tempo de ocorrido.

Mas ela ali estava e precisava ser ouvida. Mas o movimento no jornal era tamanho que eu mal tinha tempo de parar, a fim de dar-lhe atenção. Ela contava uma história aos pedaços, paradas, freios verbais, tudo ditado pelo meu corre-corre, em pique de fechamento, comecinho de noite.

De repente eu me virava e dizia: “Bom, mas continuando...” E ela tentava retomar sua história, até ser interrompida novamente: algum repórter me pedia uma melhor angulação para a matéria que estava por redigir.

E assim o tempo se passava. Até que reuni forças e me retirei para um canto com a mulher. Em resumo, contou-me o seguinte: numa granja, em tal município ( não me lembro o nome do município), alguns irmãos abandonaram tudo e foram embora, sem qualquer explicação. Abandonaram a propriedade, os animais, tudo, ao léu, sem deixar ao menos um caseiro para cuidar.

A ventania passou a ser companheira de portas e janelas, o silêncio apoderou-se de todos os cômodos, o negrume da noite endoidecia até mesmo o mais corajoso dos homens. E aí, aí veio a tragédia que ela queria me contar: na pocilga, esfomeados, os porcos, sem ter o que comer, sem poder fugir, partiram para um cruel, cruento e total ciclo de canibalismo, devorando-se uns aos outros.

Os guinchos dos animais, contou, eram tão terríveis, que as mães das cercanias achavam que algum monstro desalmado estava vindo para pegar seus filhinhos. Ela contou-me essa surrealista história e ficou assim: parada, fixa em meus olhos, como quem espera remissão ou sentença. Jornalisticamente, nada havia a fazer, uma vez que o fato se passara há meses e certamente não restaria mais nada do que se dera.

Mas até hoje me recordo da incrível história e do que pensei, enquanto ela descia as sombrias e estreitas escadarias da Tribuna do Norte, verdadeiros labirintos cretenses, e se perdia para sempre de minha visão: “Senhora, compartilho de seus estranhos sentimentos. O drama solitário da vida se ferindo, me cala no corpo um frio de tarde sem fim.”

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Uma crônica da seca

"Bobagem! É andando
que cachorro acha osso."
(João Guimarães Rosa, em Sagarana)

Eles seguem, calados e tristes, o caminho da solidão. Os campos do silêncio são o mapa de todas as dores do sertanejo. A imensidão sofrida da caatinga seca demarca esse país de pobres do campo, cujas fronteiras têm por limite suas almas feitas de incertezas.

Caminhantes da vida, rumando para o nada, eles têm na fome a companheira constante de dias e noites. O sertanejo, sua mulher, seus filhos, trazem no olhar triste o lamento calado de todos aqueles que já não têm mais palavras. Palavras perdidas, lavoura perdida, pasto morto.

Mãos calejadas contam histórias de saudade da chuva. Chão seco se estirando como um tapete de espinhos.Plantadores, eles hoje colhem lamentos. O inverno é só uma lembrança e ninguém, ninguém, poderá dizer quando a água vai voltar.

Eles bebem o gosto sujo do barro na água cavada do chão embrutecido.Terra, tanta terra e nada para esse povo comer.O sertão é como um abismo plano, onde seu povo plantou os grãos amargos da fome, servidos em mesas pobres e vazias.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Reze ou ore, meu filho... mas mande pra cá o dinheiro

"A César, o que é de César;
a Deus, o que é de Deus."
(Jesus Cristo)

A sociedade do espetáculo, que se expandiu e se firmou, especialmente pela consolidação da TV como veículo primordial de visão e divulgação do mundo, trouxe a reboque uma circunstância inesperada: a midiatização religiosa, transformando Jesus Cristo em super star, Nossa Senhora em mito pop e os anjos em ídolos imateriais.

Isso, em se falando de marketing católico, cujo panteão abrange muitas manifestações de fé, respeito e amor por entidades sobrenaturais. Quando se fala de protestantismo, cujos fiéis hoje preferem ser conhecidos pela marca evangélicos, a coisa fica diferente. Admitem o Espírito Santo como integrante do seu elenco de salvadores. Mas as palmas vão, mesmo, para Jesus. É da mercadoria Jesus, da marca Jesus, que advêm seus maiores aportes financeiros.

A Igreja Católica, da mesma forma, também cultua a figura exemplar do Rabi da Galiléia. Mas, alguns de seus segmentos, midiatizados e extremamente profissionalizados, obtêm êxitos financeiros com programas de exaltação, onde Jesus também é mercadoria fina e rentável.
Este texto, que tem, sei disso, uma apresentação efetivamente satírico-crítica, não objetiva criticar a fé, a crença em um ser supremo. Meu objetivo é lamentar a utilização da fé como mercadoria, dentro de um contexto de economia globalizada.

Vão longe os tempos em que, nos púlpitos, católicos ou protestantes, se pregava a palavra da crença com o uso da retórica, com gestos grandiosos e oradores de grande poder de convencimento. Havia, é claro, a atitude teatral, o vigor da palavra, o acendimento da fé mediante o impressionismo. Mas, suponho, existia também sinceridade, o próprio orador imerso em seu discurso.

Hoje, o discurso mesclou-se ao discurso televisivo, com os recursos de edição, cortes, enquadramentos, vinhetas e cenários. A isso deve ser ajuntado o desencantamento das multidões, que se encantam novamente via imagem telemidiática. Há portentosos eventos que são vistos pelos participantes de co-presença, mas que também são vistos em tempo real por pessoas em suas casas. O espetáculo só é espetáculo porque há um público ali presente e esse mesmo público, espetacularizado, é visto por um público não-presente, mas atento, no recôndito do lar, ao que está acontecendo.

Há uma cadeia, uma teia de acontecimentos: o grande espetáculo da vida religiosa, visto por quem também tem um sentimento de pertença àquele grupo, todos numa ação global de louvor. Em verdade, em verdade vos digo: o que vale é a aliança que se forma entre a participação co-presencial e a participação tele-assistencial.

Ao fundo, o pastor e o padre conferem com seus contadores quem pagou ou não.
Suponho que hoje, de alguma forma, ressurge midiaticamente a figura dos vendilhões do templo. Talvez seja chegada a hora de todos, todos eles, serem expulsos do vestíbulo, pois suas oferendas são venais e lucrativas.

César não quer as coisas de Deus. E, Deus, também não quer o que é de César. Os sofrimentos do mundo são muitos. E vender a salvação virou objeto de lucro. Compre um carro novo, compre a TV de tela de plasma, compre também um jeitinho de escapar do purgatório, ou até mesmo do inferno.

Mas se você quer mesmo ser um justo, fique em paz e deixe Deus de fora dessa coisa de dinheiro. Não precisa nem mesmo rezar, ou orar como dizem outros. Seja honesto, digno e honrado. Creio que isso agrada a Deus. Ser bom é ser feliz, como dizia a minha Mãe. Seja bom e afasta-se dos trinta dinheiros.

Causos do Edgar - O homem bom

Transcrevo aqui uma colaboração de Edgar Manso, que gosta e conhece as coisas e os tipos do sertão. Eis aqui mais um causo do Edgar.

Em todo canto que a gente anda, nos deparamos com pessoas que despertam a nossa atenção, por um motivo qualquer. Eu, particularmente, gosto muito de observar as figuras típicas do nosso interior nordestino. Dizem que o matuto nordestino é ingênuo. De certa forma isso é verdade, se considerarmos a forma como eles se deixam enganar por políticos adoradores da seca, que manejam esse fenômeno milenar da natureza aumentando sempre seus currais com fins eleitoreiros.

Ao mesmo tempo, o matuto nordestino é dono de uma vivacidade e velocidade de raciocínio as vezes espantosa, sem falar no bom humor quase que permanente. E quando o bicho é valente? Aí, lasca. Hoje, me lembrei de uma figura interessante nas minhas andanças pelos interiores desse nosso Nordeste, Carlos, mais conhecido como "Bigodão", aliás essa parte de seu corpo era um verdadeiro adorno, e ai de quem mangasse do dito cujo.

Carlos é crioulo do brejo paraibano, mais precisamente da cidade de Areia, importante berço cultural, produtora de cachaças da mais alta qualidade, inclusive abriga o museu da cachaça: lá também encontramos Areia do Bruxaxá, as ruínas da Usina Santa Maria, a cahaça Volúpia, o Bregareia, d Foliarte e muito mais... Mas nesse caso aqui, Areia de Bigodão.

Conheci Bigodão na cidade de Passa e Fica, eu como estágiário em uma fazenda de produção leiteira e ele como uma espécie de vigia ou chefe de segurança. O cabra impunha respeito logo à primeira vista, era "forte", no interior quem tem um bucho um pouco proeminente é logo "forte", possuía um bigode digno de um general, e além de tudo isso ele andava com um 38 meio graúdo na cintura, esse penduricalho parecia que fazia parte do seu corpo, não se desgrudavam nem um só minuto. Apesar apesar dessa força ele era uma pessoa ágil pois montava bem e até chegava a dar umas quedas nuns garrotes em dias de pega de boi no mato.

Pois bem, Bigodão passou pouco tempo nessa fazenda, mas mesmo assim praticou feitos que merecem ser contados por aí. Bigodão era muito misterioso, parecia que tinha saído de um filme de faroeste americano. Foi contratado para fazer a segurança da fazenda, não trouxe mulher nem filhos, aliás é logo aí onde começa o mistério. Bigodão sempre mostrou a todos da fazenda um revólver novinho que ele guardava numa caixa, enrolado numa flanela vermelha e uma bala e todo dia ele limpava esse trabuco.

O que todos sabiam e ele confirmava, é que esse aparato estava guardado para ser usado contra um homem que havia matado o seu único filho com pauladas num bar, apenas por causa de um esbarrão da criança. Quando essa conversa se espalhou na região, Bigodão ficou logo respeitado, e fora isso, o cabra tinha uma mira espantosa com todo tipo de arma. Cachorro e gato nessa fazenda era mais difícil de ver do que orelha de freira, Bigodão acabava com tudo.

Apesar dessa fama os funcionários da fazenda gostavam muito dele e eu também, porque além de estarmos protegidos da violência que vem aumentando assustadoramente no meio rural potiguar, ele era uma pessoa muito tranquila, divertida e muito trabalhador. Até hoje eu acho que Bigodão não dormia, passava o dia todo montado num cavalo vigiando os cercados e a noite toda vigiando a casa e as instalações, o homem andava pelas sombras, quase invisível.

Foi aí que veio a primeira presepada de Bigodão, e logo comigo. Houve uma época em que uns fugitivos de uma cadeia da Paraíba estavam praticando roubos e até assassinatos na região próxima a fazenda onde eu e Bigodão trabalhávamos. Numa noite de sábado teve um jantar na casa do prefeito e eu fui convidado. Muita comida, muita bebida, um ótimo papo, e o tempo se passando, lá pras três e meia da madrugada eu resolvo voltar para a fazenda que fica a seis quilômetros da cidade.

Seis quilômetros para quem está de carro não é nada, mas para está num fusca 77, com farol queimado e carburador entupido, rende que só a bixiga. Ao chegar à fazenda, morrendo de medo, parei o fusca na garagem e olhei bem para todos os lados: como não vi ninguém, desci um pouco aliviado mas ainda com medo. De repente, do meio da escuridão uma mão bate no meu ombro... não caguei porque não tinha nada pronto, se tivesse era ali mesmo. Quando me viro estava Bigodão rindo, com um revólver na cintura, uma espingarda na mão e uma faca na cinta, a faca nem faz diferença porque quase todo trabalhador rural gosta muito de uma amiguinha dessas na cinta.

Ainda trêmulo do susto eu abri a porta da cozinha e chamei Bigodão para tomar um cafezinho, era um homem muito respeitador, não quis entrar de jeito nenhum mas aceitou beber o café do lado de fora, perguntei de onde ele vinha para estar ali na garagem numa hora daquelas, foi aí minha grande surpresa. Bigodão, homem temido, melhor mira da região, movido por uma vingança... fez cara de choro!
- Que foi Carlos? -perguntei.
-Seu Adigá, eu vou mimbora, num tô mais agüentando isso.

Eu pensei que ele tinha matado alguém ou estava sendo perseguido e insisti na pergunta. Ele me contou que pouco antes da minha chegada tinha atirado e matado uma gata, pegado o corpo do animal e jogado num fogo onde ele queimava o lixo todas as noites, ao voltar para casa escutara miados e ruídos atrás de umas telhas num canto de parede, ao afastá-las viu cinco gatinhos recém-nascidos, e agora, órfãos.

Isso tinha dilacerado seu coração. Fiquei sem reação quando vi aquela figura de homem sem coração se martirizando por causa de gatinhos, tentei disfarçar e já bastante curioso perguntei qual fora a sua atitude quando viu aquilo. Sabem o que ele me disse?

- Seu Adigá... eu num pudia dexá aqueles bixim sem mãe. Peguei tudim num saco e joguei no fogo pra eles morrer tudo junto. Pelu menos num fica ninguém sofrendo.Fiquei estupefato. O que dizer? A única coisa que veio na minha cabeça foi:
- É Carlos. Você é um homem bom. Depois dessa noite, passei a ver Bigodão de uma forma diferente. Bem diferente.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Menores não, crianças isso sim

“É difícil continuar sendo o mesmo
depois de ler Garcia Lorca.”
(Ian Gibson, historiador irlandês)
O jargão assistencial das entidades governamentais consagrou a expressão “menor infrator” para designar as crianças, meninos e meninas que vivem pelas ruas, autores de pequenos furtos ou outras atitudes que a lei penal tipifica como crimes.


As duas palavras, “menor infrator”, na verdade, escondem uma atitude de discriminação e funcionam como a máscara que a sociedade impõe e afivela nos rostos dessas crianças que vivem nas marquises e se alimentam de restos, festejando com crack sua existência vazia.

Ninguém diz que é pai de “um menor”. Não. Todos dizem que são pais de crianças ou até mesmo aborrecentes, quando se referem às travessuras, petulâncias ou à inconformidade, tão natural aos jovens. “Aborrecentes” é, digamos, no máximo, uma adorável e terna reclamação. Nada mais que isso.

Mas, quando se vêem meninos e meninas participando de alguma revolta nessas casas de recolhimento, a palavra oficial os chama de menores infratores ou, como se dizia mais antigamente, meninos de Febem.A sociedade tem uma grande dívida para com esses jovens.

Ela os gera nas favelas e nos guetos de onde saem para as ruas, armados com sua raiva, sua perplexidade, seu medo, sua vontade de dar o troco.

E o troco que eles dão ao salário da miséria chega como nos diz aquela lei da física: a toda uma ação corresponde uma reação, em sentido igual e contrária. É o Talião da miséria, que cobra fome com crime e desamparo com violência.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

"Corre, que o homem tá doido..."

“A chave do sucesso é ter paixão.”
(Monserrat Caballé, soprano espanhola)

Redação da Tribuna do Norte, 20h de uma noite qualquer, de um mês qualquer do segundo semestre de 1980. Os trabalhos prosseguiam normais, ou seja: fervenedo, a um grau da loucura, para fechar o jornal. “Fechar”, em jornalês, não tem o significado comum e rotineiro, por exemplo, de fechar uma loja, ou algo assim.

Fechar, em jornalês, indica até mesmo puerpério, aquele estado em que a mulher pode ser levada a fazer tudo, até mesmo matar o filho recém-nascido. É o parto da notícia. Tudo é pressa, exatidão, presença. Tudo tem que ser preciso, improviso perfeito, tiro de atirador de elite, certeiro e fulminante.

Pois bem, foi num ambiente assim, que, repentinamente, alguém gritou: “Corre, que o homem tá doido!” Nessa época, as redações eram movidas à máquina da escrever e não a computadores. A neurótica sinfonia das máquinas matraqueando inundava a grande sala com um som de que hoje tenho saudades.

Era um parapapá que chegava a ensurdecer. Bem diverso dos computadores de hoje, com suas teclas macias e educadas.

Mas, voltando à cena: o homem, sem camisa, desesperado, suado, louco, gritava alucinadamente. E assim ele invadiu a redação. Eu me virei para Moacir, o diagramador chefe que comigo fechava a primeira página e perguntei arregalado: “O que diabo é isso?”, e o velho Moa, impassível, simplesmente respondeu, dando de ombros: “E eu sei lá?” - e continuou a fechar uma página.

Nesse momento, uma pequena multidão se preparava para invadir o jornal. Coisa de louco, coisa de louco. E atrás do homem, também endiabrado, vinha o vigilante do jornal. Desarmado (a direção não aceitava vigilantes trabalhando armados), o pobre homem muniu-se de um pau que servia para guardar jornais e desceu imediatamente, para enfrentar os invasores e expulsá-los.

“O que diabo é isso?”, gritei, já então no meio da redação. Ninguém sabia responder. Enquanto isso, o fugitivo se escondia na sala dos fotógrafos, melhor dizendo, no laboratório. Não sei exatamente como, o vigilante conseguiu conter os atacantes e eles recuaram, desceram as escadas e se dispersaram na noite da Ribeira.

Todos mais calmos, descobri o motivo do misterioso - e estrepitoso - acontecimento: o fugitivo havia espancado seu pai, nas Rocas. Uma dessas brigas de família, as famosas brigas-de-ponta-de-rua, que havia degenerado num quebra-quebra espetacular dentro de casa. Os vizinhos ouviram o barulho da quebradeira, descobriram que o velho tinha sido espancado e, revoltados, partiram para o linchamento do malsinado filho. Paus e pedras contra ele.

O sujeito correu das Rocas até a Ribeira, rápido como um maldito, buscou esconderijo nas portas da Tribuna e explodiu bem no meio da redação como uma bomba humana enlouquecida.

Depois, controlado o acontecimento, não sei como, pelo vigilante, e sabidas as causas do acontecimento, acompanhei do sujeito até a saída e perguntei: “E agora?”. Ele respondeu, olhando para um lado e para o outro, para ver se ainda restava alguém: “Sei não, mas, outra, pra mais nunca.”

Apertei-lhe a mão e desejei boa sorte. E comigo, mesmo, concordava: “E eu também. Outra, pra mais nunca...”

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Felicidade, estranha felicidade...

"Um Governo só funciona quando
entende aqueles que governa.”
(Autor desconhecido)

(Crônica baseada em fato que presenciei)

A cena poderia ser tomada por bizarra, se, no fundo, não fosse bela. Humanamente bela: em sua pobreza, em sua espontaneidade, em sua exuberância, em sua despreocupação com o amanhã - essa data sem número e sem dia certo e que parece nunca chegar.Mas eles estavam ali, o casal estava ali, vivendo seus momentos intensos em meio ao trânsito do Centro, como se tudo, todos, o mundo, aqueles carros, tivessem sido feitos para testemunhar o seu amor.

Ele, um lavador de carros, maltrapilho, analfabeto, estava feliz, na companhia da mulher, que, claro, para ele, era a mais linda do mundo. Cabelos maltratados, duros como arame, vestido roto de pano ruim, um sorriso perdido na boca sem batom, aquela cinderela sem sapatos sentia-se plena.

E tudo porque ela se sentia amada, desejada, possuída, dona de casa. Uma casa grande, sem paredes, sem teto, sem móveis, sem nada, mas toda dela. A casa dos dois era nada mais nada menos que o Grande Ponto, o Centro da Cidade.Mas, sua propriedade se estendia muito mais e muito acima do que ter aquela casa de nada, que era deles.

Eles eram donos do movimento da Cidade, das buzinadas, das sarjetas, do lixo, dos cães vadios que velavam seus sonhos de sombras e barrigas vazias, sob a proteção ridícula das marquises. Mais que isso, eles eram donos das pessoas. Sim, todos, todos no mundo, existiam para, podendo, passar no Grande Ponto e assim serem vistos pelo casal. Todos eram passageiros, somente eles ficavam.

Eu vi esse casal várias vezes, sua alegria vazia, seus abraços, seus passeios pelas calçadas do Centro, mãos dadas, rindo, felizes com sua própria idéia de felicidade. Sim, porque aquele casal vivia num mundo paralelo e era feliz em relação a si mesmo.Eles não precisavam da nossa felicidade, convencional, distante, arrogante, jamais vista e sempre oculta.

Uma felicidade de segundas intenções. Não sei durante quantos dias vi esse casal ( e isso já faz muitos anos), mas sei que sua alegria era tão forte, tão marcadamente vigorosa, que não precisava de dinheiro para ser sentida.

Depois, eles sumiram, há anos. E às vezes, andando pelas ruas do Centro, tenho a impressão de que, de repente, vai aparecer aquele sujeito mal vestido, acompanhado por uma mulher sem batom. E eu vou olhar para eles e dizer: “Quando fizeram bodas de ouro, eu quero ser o padrinho.”

sábado, 4 de fevereiro de 2006

Deadline, a linha da morte no jornalismo

"Era isso mesmo o que eu esperava:
comprar um cemitério."
(Assis Chateaubriand, ao comprar e recuperar o jornal Estado de Minas)

Muito antes que as prensas comecem a rodar, o jornal começa a ser feito. É um trabalho de equipe, intenso e coordenado. Como num jogo de passes, é preciso que cada jogador entregue ao companheiro o bastão da notícia. Notícia, esse objeto abstrato, que só aparentemente está expresso nas palavras. Na verdade, da notícia, enquanto mensagem, vale a compreensão, a representatividade do relato, o valor que previamente se dá a um determinado tipo de acontedimento, que deve ser importante ou interessante. Sem isso, nada de notícia. Importância ou interesse são essenciais.
Letras, palavras, fotos, ilustrações, tudo isso somente vale pelo que representa. E pelas consequências junto ao leitor. Vale pelo rumor social que pode causar. Em si, não têm essência nem consistência. O código é a expressão tosca do entendimento humano. E o jornal é a desesperada tentativa de captar o mundo, transformando em tinta impressa a pressa das pressões que o homem sofre todos os dias.
A notícia sobrepaira à página impressa, se espalha da mancha gráfica e se espraia no mundo. O jornal trabalha com um repertório de fatos que nada mais são que os padrões do mundo, as coisas que escolhemos como cotidianas. Mesmo que essa estranha cotidianidade jornalística sejam o inusitado, o grotesco, o excessivamente bom ou a maldade em sua mais requintada forma. De alguma forma, ao longo da História, a história da maldade se sobrepôs. O homem tem o dom do ruim.
A cotidianidade, rotineira e plana, é plena de um vazio e presivível viver. Assim, o jornalismo dedicou-se dar relevo àquilo que foge do comum. E, lamentavelmente, os atos de maldade superam em muito os comportamentos de caridade, solidariedade, humanidade e bem.
E, ao trabalhar com tantos fatos, todos recheados de tensão, o jornalismo o faz sob pressão. É o que chamamos nas redações de deadline, literalmente "linha da morte", em português prazo fatal, hora-limite. Agora, se você tem uma profissão, digamos, convencional, cumpre expediente litúrgico, atende a uma pontualidade budista, sequer imagina o que é trabalhar numa redação, o que é ser jornalista. E se você gosta de ser assim, jamais seria jornalista. O jornalismo é a tranqüilidade em disparada. Ou, como já se disse, jornalismo é a História escrita à queima-roupa.
A matéria-prima do jornal é o mundo e seu almanaque de acontecimentos, o tal repertório a que me referi há pouco. Cria-se assim, entre o jornal e o leitor, uma relação analógica: o leitor sabe que, numa determinada página, encontrará, sempre, um determinado tema - política, esporte, polícia, economia, por exemplo - mas jamais pode, ou pelo menos não deveria, prever qual assunto será tratado.
Explicando: sabe-se que em política a corrupção é quase norma executiva. Político é quase sinônimo de ladrão, pelo menos no Brasil. Assim, a novidade jornalística é: qual será a nova corrupção a ser exposta? Ou, separando cada coisa: o tema é política&corrupção, esses dois irmãos siameses. Já o assunto é a novidade sobre o mais recente corrupto flagrado.
Mas o que quero falar mesmo é a respeito da questão tempo, em função do deadline e seu equivalente literal em português, "linha da morte". Em jornal, adquirimos uma vivência muito especial a respeito da questão tempo. Tempo não apenas enquanto aquele imperceptível passar de horas para o trabalhador de expediente litúrgico, mas para o jornalista, o trabalhador do tempo fragmentado, angustiado.
Para nós, a convivência com o tempo é como conviver com o silêncio, ou com um lago calmo e profundo. Aparentemente, nada está acontecendo, mas, por trás do biombo da calma, o mundo está em ebulição. O grande problema é que os grandes acontecimentos têm algo de secreto, algo de sagrado. Os criminosos da política, por exemplo, disfarçam seu fervor pelo dinheiro e pelo poder em conciliábulos - perdão pela palavra - e confrarias que ocorrem às ocultas. Há um certo recato no roubar político.
Compete ao jornalista descobrir esses segredos, tão bem guardados como os grandes venenos, aqueles que se ocultam nos menores frascos. E, o mais triste, é que um grande veneno é uma grande arte. Administrá-lo é uma forma de ciência; há um certo saber, no trabalho dos corruptos. Tanto, que neles demoram a ser descobertos. Suas doses são homeopáticas.
O ladrão dos dinheiros públicos tem a perícia de um cirurgião ou a técnica de um pintor do renascimento, ao retocar com suavidade uma nesga de tinta. E, o que é pior, dessa cicuta, o veneno de buscar sempre o novo, algo que também nos contamina, os jornalistas bebem todos os dias. De algum modo nós, os jornalistas, morremos todos os dias com o grande veneno do deadline. Mas renascemos, dia seguinte, com uma nova manchete.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

O crime do Vectra prateado

 Não se vende uma menina



A elegante mulher desceu do carro prateado, deixou o motor ligado, foi até a favela do Maruim e parou aquele mundo de dor e lama: ali ninguém entendia o que uma senhora tão distinta, tão bonita, tão fina, fazia em meio a tanta pobreza, sujeira, lodo. Simples: ela procurava Dona Maria Oduvalda, até que ouviu: “Está falando com ela.” Sem esperar mais um segundo a mulher sacou uma pequena pistola da bolsa, mirou a mulher e acertou-a no meio da testa. 

A assassina correu, enquanto todos ficavam paralisados. Entrou no carro e fugiu. O crime do Vectra prateado, como o caso ficou conhecido, abalou Natal não apenas pelo fato em si, mas pelo envolvimento dos personagens, o confronto social, a elegância criminosa e a miséria ofendida, indefesa e morta.


Alguém anotou a placa? Não, ninguém anotara a placa, tal o pandemônio estabelecido na favela do Maruim. Mas na cidadde somente se falava na bela e seu Vectra fulminante. Passaram-se 15 dias, os jornais quase não tinham mais títulos para continuar segurando o assunto, até que ela pegou o telefone e ligou para o Delegado Eudóxio: “Doutor, amanhã vou me apresentar ao senhor. Matei aquele mulher. Não, não, não pergunte o meu nome. Apenas me espere às três da tarde que irei, sem escolta e sem medo, a seu gabinete.”


Dia seguinte, no horário aprazado, a elegante mulher chegou à Delegacia e foi direto à sala do delegado Eudóxio. Ele: “E então, por que a senhora matou aquela pobre mulher?” Ela disparou resposta aguda como lâmina de florete: “Matei porque ela era minha mãe.”


“Como?”, disse o delegado, que quase saltou da cadeira. Como seria possível que aquela mulher, finíssima, fosse filha de uma velha miserável, moradora da favela do Maruim? Ela explicou: a velha Oduvalda, viciada em álcool e faminta, a havia vendido ainda bebê a uma respeitável família natalense, família rica, porém impossibilitada de ter filhos. 


Oduvalda, bonita à época, disputada por todos os cafajestes da área, havia conseguido um bom dinheiro com a venda da criança e gastou todo ele em cachaça.

“Mas ela não lhe fez um bem? Não é hoje a senhora uma mulher rica, educada, bem de vida, tranqüila até o último dos seus dias?”, quis saber o delegado.


“Sim”, ela respondeu e arremessou uma rajada de palavras: "Mas não se vende uma filha; não se vende uma menina." E apontando sua pequena pistola para o Delegado, já que ninguém tivera a idéia de revistá-la quando entrava, disse: “Quanto ao senhor, pode querer me prender, mas não tem o direito de prender a menina que ainda existe em mim.” E atirou.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Dai ao povo pão e circo

“Criança não tem título de eleitor;
tem certidão de nascimento e fome.”
(De uma mãe pobre)

Certa vez, como repórter, eu cobria a inauguração da sede de uma entidade assistencialista. Era um sábado de sol forte. Um sol que, dependendo da situação, poderia ser tido por uns como caliente e estimulante, charmoso, um sol com gosto de Jamaica. Outros, quem sabe, o chamariam de tórrido, ou como já se usou dizer, capaz de provocar um calor senegalês.

E o povo chegando, chegando, chegando, se aglomerando numa grande mancha morena e suarenta. E vieram as tais autoridades civis, militares e eclesiásticas. Os políticos falaram, os grandes empresários jactaram-se do grande serviço prestado à comunidade. Enfim, todos, cada um dos falantes cumpriu o seu papel, enaltecendo o feito, ali mostrado em cal, pedra, cimento armado e sol, mas muito sol.

Onze e meia da manhã e começou a circular cerveja servida em copo de plástico, tira-gostos grosseiros vasculhavam até o céu-da-boca das bocas famintas. Alegria, a malta suava e vibrava. Nisso, uma banda, que naquele tempo era chamada de conjunto musical, ataca seu som vibrante e seco, jogando no ar acordes vulgares.

Um sorriso enorme, um sorriso daqueles do gato risonho de Alice-no-País-das-Maravilhas achegou-se a todas as bocas: as alegres, as desdentadas, as bocas das moças bonitas e pobres. Um sorriso de ocasião, plenamente compatível com tão vulgar acontecimento.

Eu e um colega jornalista estávamos numa espécie de mezanino, dali observando a cena, quando ele comentou: “Veja, Barreto, como é fácil ter o povo na mão. Como é fácil espremer alegria dessas pessoas.”

Era já então meio dia. O sol fez rebrilhar seus melhores e mais fortes raios, inundando aqueles corpos de suor e expandindo, em cada músculo, em cada parte daqueles corpos que dançavam aquela festa na verdade tão rude, um sentimento de satisfação braçal, embora maquiada de bons pensamentos de promoção social.

E aquele povo dançou, ah!, como dançou. Dançou até enxugar de si todo aquele convescote feito sob medida para os necessitados de pão e circo.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

Mil léguas de dor

Há pessoas com grande talento para não fazer nada.
E o fazem com grande assiduidade.”
(No programa Pequenas Empresas, Grande Negócios)

O drama da seca tem sido retratado historicamente com pleno vigor nos jornalísticos televisivos, bem como em jornais impressos. A cada repetição das longas estiagens são apresentadas matérias dramáticas sob todos os aspectos, mostrando por dentro o sofrimento do sertanejo, bebendo uma água de qualidade indigna até mesmo para animais. Agora, comovente é a coragem do povo, confiando em Deus, certo de que um dia os poderes celestiais resgatarão os pobres da seca. E o noticiário já fala que 2006 não terá boas chuvas. Temo que as velhas imagens se repetirão.

Famílias humildes, famintas, cansadas, caminhando léguas, para obter um pouco de água barrenta, a fim de cozinhar o pouco que lhes resta de comida, beber e tomar banho. São as léguas de dor do nordestino, cansado, sofrido, mas resistindo a tudo, com a coragem do mandacaru e a decisão de ferro dos pés de jurema: jamais cair.

Admirável fé, férrea confiança, só que, nesse caso, objetivamente, os poderes divinos, que ante o olhar do povo são capazes de tantos milagres, em nada podem interferir, uma vez que a seca é fenômeno meramente natural e, para seu enfrentamento, exige-se a participação de alguém que nada tem de divino ou essencialmente bondoso: a presença da chamada classe política e a decisão de fazer cessar a seca pela ação do homem.


Aqui no Rio Grande do Norte, o Governo Garibaldi Filho desenvolveu uma ação louvável, com essa questão da água, através de um programa de adutoras. Mas isso não solucionou os desdobramentos sociais da seca. Geopoliticamente, a situação é dramática e insustentável; tanto quando há centenas de anos, é idêntica certamente à sede sofrida pelas populações que se embrenhavam na caatinga, povoando o Nordeste.


Há bem pouco tempo falou-se muito na transposição de águas do rio São Francisco, mas é solução questionável, uma vez que o Velho Chico está sofrendo um sério processo de assoreamento e pode haver consequências desastrosas, caso o trabalho não seja feito com extrema cautela. Havendo falhas, acaba-se com o rio e não se tem água para as áreas que precisam dessa transposição.

O que falta é visão histórica, o que falta é compromisso, é decisão de fazer pelo Nordeste como um todo. Por que o Governo federal não traz à região propostas amplas de enfrentamento da seca, acionando políticas eficazes para a convivência do homem com a longa estiagem? Reforma agrária, uma política de águas e assistência agrícolas a assentamentos poderiam fazer parte desse leque de ações.Por que, por que não há uma ação programada para se desenvolver segundo o compasso histórico?

Serão essas perguntas de alta indagação filosófica? Questionamentos tão terrivelmente intricados que não se possa pelo menos balbuciar uma resposta qualquer? Não sei. Mas creio que não.

O problema é que não há realmente um grande interesse em dar ao sertanejo a oportunidade de enfrentar a falta da água que cai do céu.
Ou então, se quer dar aos homens e mulheres do campo unicamente a chance de mostrar que têm fé.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

A árvore que morreu

"Ave César, os que vão morrer te saúdam."
(Os gladiadores, quando adentravam à arena)

Havia ali, em frente à AABB, no canteiro central da avenida Hermes da Fonseca, uma árvore. Não muito alta, tronco fino, meio caída de lado, ela tivera cortados todos os galhos e retirada do seu corpo vegetal toda a beleza das folhas. Mas aquela árvore, velha e reduzida à condição de feia, insistia em viver. E, aos poucos, dia a dia, fazia renascer os brotos dos galhos, como quem avisava aos humanos que não queria morrer.


De alguma maneira isso chamou minha atenção e passei , todo dia, a observar aquela árvore. Via que os galhinhos recomeçavam o trabalho da natureza, de nascer e crescer. Mas, logo vinha alguém, algum assassino impune, e desbastava novamente a árvore. Que insistia em sua luta pela vida e reverdecia outra vez. E assim seguia aquele combate. Silencioso, estranho, semanal.

Minha expectativa aumentava, toda vez que notava uma nova agressão. Certa vez, até que ela conseguiu: exibia, vistosa, galhos já mais ou menos crescidos, de um verde brilhante e vivo, forte e sincero. Era quase uma emoção, um grito contido de vitória: ela pensava, certamente, em suas entranhas vegetais, que iria renascer.

Animei-me: pronto; agora ela ia mesmo crescer, espalhar seu verde, fazer sombra, alegrar a vista, que é esse o destino das árvores. Até que, um dia, tudo foi cortado, podado, decepado, riscado do mapa sentimental do canteiro da avenida: o assassino havia voltado, certamente à noite, disfarçado de passante, e simplesmente havia derrubado a árvore. Nem mesmo seu tronco indefeso era mais visto. Um vazio ocupava, na minha vista, no meu território da emoção, o seu lugar.

Não sei, mas creio que essa árvore não morreu. Eu acho que essa árvore foi para o céu...

domingo, 29 de janeiro de 2006

"Helenita...Helenita..."

Existem falhas que
precisam ser aperfeiçoadas.”
(Pelé)

Havia, na rodoviária velha, Ribeira, velha Ribeira, uma pobre louca que falava sozinha. Falava com seres invisíveis, pessoas que habitavam seu mundo, seu único, inacessível e paralelo mundo. Nunca consegui saber seu nome, enquanto, à noite, às vezes altas horas da noite, depois do expediente no jornal, esperava o ônibus para ir para casa.

Sozinha, sentada a um banco, cercada de pacotes mal arrumados, falava, falava muito, gesticulava, discutia, irritava-se, reclamava, pedia, e, creio, era até atendida pelos seus amigos invisíveis. Sim, pois, de vez em quando, se abria em sorrisos da mais esmerada simplicidade.


E eu ali, lendo algum jornal, mas com um olho naquela cena. A estranha, inesperada personagem, em pleno devaneio de vida, esquecida ao mundo, entretida em si mesma, pobre imagem de uma vida aparentemente em vão. Eu disse aparentemente em vão.
E vinha o frio da noite, aquela brisa da Ribeira, brisa fugitiva do Potengi, trazendo em seu corpo de nada o cheiro do mar, mar e vida, maresia, mar-Ribeira. Passavam vultos escusos, caminheiros da noite, uma ou outra radiopatrulha, vagabundos sonolentos, bêbados equilibristas. E eu, um pouco de tudo isso.

E ela falando, sozinha. Falando, falando, coitada: feliz. Calada para o mundo, alerta para si. E uma de suas amigas mais amigas, íntima, conciliatória e cúmplice era...Helenita. Sim, Helenita. Helenita, a invisível, impalpável, mas, viva. Viva para a louca, presente em sua presença.

E ela dizia: “Se acalma, Helenita. Deixa de coisa, mulher. Deixa de dizer besteira... Helenitaaaaaa....” E, gesto brusco de mão morena, dava um tapão no ombro intangível da mulher. E ria, ria, gargalhava quando a outra parecia revidar, ali, na penumbra encardida da rodoviária velha. Ali, naquele ponto de encontro das gentes noturnas.

Ah, que mundo maluco e bom, o daquela louca. E lá vinha o ônibus: pesadão, cansado, velho, luzes fracas, salão de luz mortiça, passageiros tombando de sono, cabeças balouçantes, corpos vivos pendentes de cansaço. Eu entrava no sacolejo do veículo lerdo e lá me ia, deixando para trás Helenita e a louca.

Às vezes meu instinto de repórter me chama a voltar à Ribeira para ver se ainda as encontro. Helenita eu já conheço. Sei que é estabanada, brincalhona, faceira, gosta de falar besteira, não é mesmo? Helenita eu já conheço: mas se fosse possível voltar, gostaria de saber o que a louca tem a dizer sobre o mundo de hoje. Acho que ela ia preferir ficar no mundo de Helenita.