sábado, 12 de julho de 2008

Classificados de empregos: atenção, últimas vagas


Caras Amigas,
Caros Amigos,
Empresa nacionalmente conceituada, com sede em Brasília, admite profissionais qualificados, com a máxima urgência, para as seguintes especialidades:

Corrupto - os candidatos devem apresentar currículo com descrição de suas atividades nos últimos cinco anos e cartas de recomendação. Exige-se discrição, competência para subornar, fraudar, mentir, perjurar, caluniar, difamar, desviar fundos públicos e formar empresas em paraísos fiscais.

Patife - para o cargo é preciso que não se tenha qualquer caráter, meios termos ou noções de ética ou moral.

Prevaricador - especialidade da qual se exige muita perícia, o pretendente deve necessariamente conhecer os meandros da administração pública e dispor-se a ter comportamento compatível com o cargo ou seja: não temer a lei e ter certeza de impunidade.

Pilantra - cargo operacional, o candidato deverá demonstrar gênio assombroso para agir sob pressão e transportar valores sob risco de captura. Garantimos assistência jurídica compatível.

Safado - os admitidos serão treinados como tropa de choque para possíveis enfrentamentos com a polícia. Assegura-se aos contratados planos de fuga em caso de cometimento de crimes de morte no cumprimento do dever.

Maus caráteres - essenciais em toda organização como a nossa, o mau caráter deve, imperativamente, esquecer quaisquer aspectos atinentes a coisas como respeito por verbas destinadas a obras sociais urgentes e estar dispostos a municiar de informações os demais setores aqui mencionados.

Laranjas - tais especialistas devem ser suficientemente ingênuos (às vezes nem tanto), para liberar suas contas bancárias ou endereços a fim de que possamos, por esses meios, implantar uma poderosa organização de desvio de fundos.

Trambiqueiros - tipos dotados de notável amoralidade, serão utilizados em pequenos serviços, como subornar funcionários dos escalões mais baixos, a fim de obter informações que, circunstancialmente, venham a ser necessárias ao empreendimento de grandes golpes no erário.

Lobistas - importantíssima função, o lobista precisa ter grande rede de contatos e estar disposto a fazer funcionar seu arsenal de relações. Em caso de necessidade, pode usar de artifícios que vão da simples mentira até a coação, a fim de conseguir a obtenção de ganhos imorais.

Vigaristas - última especialidade com vagas, o vigarista deve ser criativo, ter dotes teatrais e sugerir aplicações de golpes nos mais diversos setores da administração, fazendo-se passar por figurões ou ricaços.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 11 de julho de 2008

O povo estropiado e os ricos descontentes

Caras Amigas,
Caros Amigos,
O recente episódio da prisão de três ilustres apropriadores das coisas do povo trouxe a público algo até então, para mim, apenas latente: o poderoso sistema de proteção que a elite estabelece para si, cobrando da polícia tratamento especial para os criminosos, digamos.., de classe...

Vocês entendem o que quero dizer...

No senado, enquanto o senador Pedro Simon erguia sua ira santa contra os criminosos e defendia que eles deviam, sim, ser algemados no momento da prisão, o senador Arthur Virgílio dizia que não, que as algemas eram desnecessárias e que houvera espetacularismo da Polícia Federal ao permitir que fossem gravadas as cenas da captura dos procurados.

Virgílio, não tenho dúvida, era movido pelo sentimento de solidariedade de classe. Nada pior para alguém da elite que ver um seu igual atirado ao laço da polícia e aparecer não na coluna social, mas no jornalismo que denuncia a ocorrência de crimes e os seus fautores.

Jamais vi o senador lamentar que algum pobre tenha sido preso sob as lentes das câmeras; e isso ocorre todo dia. As elites até aceitam ter alguns dos seus capturados: mas com elegância, tremiliques, discrição e charme. A Polícia Federal, portanto, precisa é de savoir faire, luvas de pelica, gestos delicados. Xá pra a escola de boas maneiras, seus policiais malvados!!!

Imagine, um ricaço ser preso sob o alarde da populaça. É algo inaceitável. Afinal, ele não matou, não estuprou, não torturou, não esganou; não tem as mãos, como se dizia antigamente, tintas de sangue. Seu crime é branco, alvo como os papéis onde redige seus mandados secretos e viscosos.

E quando o rico patife é trazido à luz, quer agir como os vampiros: ocultar-se depressa, para não morrer. De vergonha não é, pois não a tem; mas para escapar do brilho que lhe ilumina a cara, que queria ter sempre em meio às sombras tão amigas.
Emanoel Barreto
Ia esquecendo: a foto é para mostrar o resultado da corrupção: os pés estropiados do povo, que somente vê na cadeia um outro pobre; e não encontra, entre os presos, aqueles que bebem os crimes em goles de champanhe.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

A carne empacotada

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A Peta é uma organização cuja sigla em português quer dizar algo como "pessoas a favor dos direitos dos animais". Caracterizada por intervenções pouco convencionais, sempre apelando para a nudez de seus adeptos em atos públicos, a Peta nos aponta algo que é terrível e acompanha a humanidade desde o seu nascedouro: a crueldade.

No caso, eles apontam a crueldade contra os animais, mas, de fundo, referem às ações brutais do ser humano em situação plena, ou seja: atingindo outras pessoas, animais e o meio ambiente. A metáfora apresentada pela ilustração faz-nos pensar. Trata-se de uma licença poética dramática. E, ao vermos seres humanos empacotados como se faz com carne de animais em supermercados, vem-nos ao olhar aquela tristeza pesada: como somos violentos.
Emanoel Barreto

terça-feira, 8 de julho de 2008

Logo, logo, ele vai estar solto...

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A foto mostra o momento em que Celso Pitta, ex-prefeito de São Paulo era capturado pela Polícia Federal. Ele, Naji Nahas e Celso Dantas são nacionalmente conhecidos como corruptos. Todos foram presos. Detalhe: se todos os corruptos que a PF captura fossem mantidos na cadeia, em breve surgiria uma empresa especializada para criminosos de fino trato, a lhes atender pedidos de caviar e outros, permitam-me, acepipes, adequados às suas requintadas práticas culinárias.

Mas a verdade é a seguinte: em mais alguns poucos dias todos estarão soltos. Não vou enumerar a lista de acusações de cada um; deixo para as coisas de jornal. Aqui, somente lamentar esse estato de coisas.E mais: tenho convicção de que crimes de colarinho branco, quando não são punidos, de alguma forma repercutem no que chamamos de democracia.

Com a impunidade historicamente instalada, cria-se uma cultura em que as pessoas passam a desacreditar na eficácia das leis; esquivos e bem remunerados advogados promovem salamaleques jurídicos e terminam por libertar seus polpudos constituintes.

E onde existe uma situação tal é indício de que a democracia, que inclui o estatuto de não roubar e não deixar roubar, termina arranhada. Além, é claro, de questões como a fome, a miséria e a pobreza, que também autorizam a dizer que no Brasil não há democracia.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Vamos chamar Branca de Neve?

Caras Amigas,
Caros amigos,
Sob pressão da CBF, Dunga convocará Ronaldinho Gaúcho para compor a Seleção que disputará o jogos de Pequim. As coisas de jornal andam dizendo que será sua última chance. Se fizer papel feio, a Bruxa estará solta e ele terá que fugir para a mina dos Sete Anões.

Desde o princípio, tive a impressão de que Dunga não daria certo. Lembram da Lei de Murphy, aquela que diz que se uma coisa pode dar errado ela dará errado? Creio que foi isso o que aconteceu. A não ser por efeito de alucinação, alguém poderá dizer que a Seleção vem jogando bem, ou muito bem, como seria de se esperar.

O grupo vem se arrastando, passo a passo, pesadamente, na tentativa de classificação para a Copa do Mundo. E caso Dunga continue com esse jogo da altura de um rodapé, talvez seja melhor chamar Branca de Neve.
Emanoel Barreto

domingo, 6 de julho de 2008

A mão que quer calar a nossa voz

Caras Amigas,
Caros Amigos,

Recebi colegas de professores universitários um manifesto em defesa da liberdade de expressão na internet. O texto é longo, mas vale a pena ser lido.
Bom domingo,
Emanoel Barreto

A Internet ampliou de forma inédita a comunicação humana, permitindo um avanço planetário na maneira de produzir, distribuir e consumir conhecimento, seja ele escrito, imagético ou sonoro. Construída colaborativamente, a rede é uma das maiores expressões da diversidade cultural e da criatividade social do século XX.

Descentralizada, a Internet baseia-se na interatividade e na possibilidade de todos tornarem-se produtores e não apenas consumidores de informação, como impera ainda na era das mídias de massa. Na Internet, a liberdade de criação de conteúdos alimenta, e é alimentada, pela liberdade de criação de novos formatos midiáticos, de novos programas, de novas tecnologias, de novas redes sociais.

A liberdade é a base da criação do conhecimento. E ela está na base do desenvolvimento e da sobrevivência da Internet.A Internet é uma rede de redes, sempre em construção e coletiva. Ela é o palco de uma nova cultura humanista que coloca, pela primeira vez, a humanidade perante ela mesma ao oferecer oportunidades reais de comunicação entre os povos. E não falamos do futuro. Estamos falando do presente. Uma realidade com desigualdades regionais, mas planetária em seu crescimento.

O uso dos computadores e das redes são hoje incontornáveis, oferecendo oportunidades de trabalho, de educação e de lazer a milhares de brasileiros. Vejam o impacto das redes sociais, dos software livres, do e-mail, da Web, dos fóruns de discussão, dos telefones celulares cada vez mais integrados à Internet. O que vemos na rede é, efetivamente, troca, colaboração, sociabilidade, produção de informação, ebulição cultural.

A Internet requalificou as práticas colaborativas, reunificou as artes e as ciências, superando uma divisão erguida no mundo mecânico da era industrial. A Internet representa, ainda que sempre em potência, a mais nova expressão da liberdade humana. E nós brasileiros sabemos muito bem disso.
A Internet oferece uma oportunidade ímpar a países periféricos e emergentes na nova sociedade da informação. Mesmo com todas as desigualdades sociais, nós, brasileiros, somo usuários criativos e expressivos na rede. Basta ver os números (IBOPE/NetRatikng): somos mais de 22 milhões de usuários, em crescimento a cada mês; somos os usuários que mais ficam on-line no mundo: mais de 22h em média por mês.

E notem que as categorias que mais crescem são, justamente, "Educação e Carreira", ou seja, acesso à sites educacionais e profissionais. Devemos assim, estimular o uso e a democratização da Internet no Brasil. Necessitamos fazer crescer a rede, e não travá-la. Precisamos dar acesso a todos os brasileiros e estimulá-los a produzir conhecimento, cultura, e com isso poder melhorar suas condições de existência. Um projeto de Lei do Senado brasileiro quer bloquear as práticas criativas e atacar a Internet, enrijecendo todas as convenções do direito autoral.

O Substitutivo do Senador Eduardo Azeredo quer bloquear o uso de redes P2P, quer liquidar com o avanço das redes de conexão abertas (Wi-Fi) e quer exigir que todos os provedores de acesso à Internet se tornem delatores de seus usuários, colocando cada um como provável criminoso. É o reino da suspeita, do medo e da quebra da neutralidade da rede. Caso o projeto Substitutivo do Senador Azeredo seja aprovado, milhares de internautas serão transformados, de um dia para outro, em criminosos.

Dezenas de atividades criativas serão consideradas criminosas pelo artigo 285-B do projeto em questão. Esse projeto é uma séria ameaça à diversidade da rede, às possibilidades recombinantes, além de instaurar o medo e a vigilância. Se, como diz o projeto de lei, é crime "obter ou transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular, quando exigida", não podemos mais fazer nada na rede.

O simples ato de acessar um site já seria um crime por "cópia sem pedir autorização" na memória "viva" (RAM) temporária do computador. Deveríamos considerar todos os browsers ilegais por criarem caches de páginas sem pedir autorização, e sem mesmo avisar aos mais comum dos usuários que eles estão copiando.

Citar um trecho de uma matéria de um jornal ou outra publicação on-line em um blog, também seria crime. O projeto, se aprovado, colocaria a prática do "blogging" na ilegalidade, bem como as máquinas de busca, já que elas copiam trechos de sites e blogs sem pedir autorização de ninguém!

Se formos aplicar uma lei como essa as universidades, teríamos que considerar a ciência como uma atividade criminosa já que ela progride ao "transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado", "sem pedir a autorização dos autores" (citamos, mas não pedimos autorização aos autores para citá-los). Se levarmos o projeto de lei a sério, devemos nos perguntar como poderíamos pensar, criar e difundir conhecimento sem sermos criminosos.

O conhecimento só se dá de forma coletiva e compartilhada. Todo conhecimento se produz coletivamente: estimulado pelos livros que lemos, pelas palestras que assistimos, pelas idéias que nos foram dadas por nossos professores e amigos... Como podemos criar algo que não tenha, de uma forma ou de outra, surgido ou sido transferido por algum "dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular"? Defendemos a liberdade, a inteligência e a troca livre e responsável. Não defendemos o plágio, a cópia indevida ou o roubo de obras.

Há necessidade de garantir a liberdade de troca, o crescimento da criatividade e a expansão do conhecimento no Brasil. Experiências com Software Livres e Creative Commons já demonstraram que isso é possível. Devemos estimular a colaboração e enriquecimento cultural, não o plágio, o roubo e a cópia improdutiva e estagnante.

E a Internet é um importante instrumento nesse sentido. Mas esse projeto coloca tudo no mesmo saco. Uso criativo, com respeito ao outro, passa, na Internet, a ser considerado crime. Projetos como esses prestam um desserviço à sociedade e à cultura brasileiras, travam o desenvolvimento humano e colocam o país definitivamente para debaixo do tapete da história da sociedade da informação no século XXI.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Um sonho de abismo

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Talvez um largo tempo a ser perdido,
Quem sabe, instante a ser desperdiçado,
Talvez a queda valha o sonho da Beleza,
Mesmo que o abismo se anuncie: "Cheguei"

Vale a pena mergulhar no abismo,
mesmo que seja o mais belo abismo em todo o mundo?
Vele a pena não correr os riscos,
e morrer em casa protegido - e mesmo assim com medo?

Vale a pena descobrir seus próprios abismos,
conversar com eles e depois partir.
Vale a pena cultivar abismos, plantar-lhes
seus sonhos, conversar com eles e depois ficar.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 3 de julho de 2008

O moral da tropa


Caras Amigas,
Caros Amigos,
Para se destruir um exército não é preciso a sua eliminação física. Um exércico começa a cair quando perde o moral, o incentivo, a motivação para lutar. Então, grassa em seu meio a desarticulação, a sizânia, o acabrunhamento. Creio que é isso o que poderá acontecer com o grupo armado que seqüestra, explora suas vítimas e ganha dinheiro com cocaína na Colômbia.
Com a morte de diversos líderes e agora com a libertação de Ingrid Betancourt, seu mais precioso trunfo, suponho que esse estado de ânimo poderá apoderar-se de seus homens. Tropas não combatem se não estão defendendo uma idéia, uma essência, uma utopia. Quando um grupo armado e supostamente movido por uma ideologia vê esgarçar-se seu tecido social, perde o rumo e o sentido de pertença.
Talvez esteja mais próximo do que se espera o fim das Farc. Não defendo o governo da Colômbia, aliado íntimo dos Estados Unidos; mas também não posso concordar com a vitimização de pessoas, usadas como moeda de chantagem. Espero que a história venha a registrar o fim dos narcoguerrilheiros e, após, a Colômbia possa se encaminhar em direção a uma sociedade democrática, sem exclusão e a brutalidade dos grupos de extrema direita.
Uma situação histórica marcada pela exploração de um povo por elites inescrupulosas, não justifica ação de bando armado que se apresenta como defensor de uma nova realidade social, mas age como quadrilha. O tempo dirá. Esperemos.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Recuerdos de la muerte

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A libertação de Ingrid Betancourt representa um duro golpe assestado sobre os traficantes colombianos que se apresentam como guerrilheiros. As informações superficiais que a net divulgou indicam que a ação resultou de um meticuloso trabalho de inteligência e infiltração junto aos traficantes, o que garantiu a liberdade de Igrid e 14 outros prisioneiros.

Setores da esquerda insistem em atribuir a esse grupo a situação de insurentes e um status político que o coloca bem acima do que realmente são: traficantes e seqüestadores. Em 1964, quando começaram a atuar, as Farc até poderiam ser chamadas de grupo de ação armada revolucionária. Após isso, ao unirem-se a traficantes, não resta dúvida de que são apenas criminosos.

É muito fácil alegar-se uma causa justa, como a defesa de um povo perante uma situação histórica avassaladoramete cruel e opressora, como a que vive a Colômbia. Mas esse discurso se esvai quando o núcleo intelectual regente do grupo cede o espaço da ideologia à busca de dinheiro, adotando táticas de terrorismo e desrespeito aos direitos humanos.

Nada que venha da droga presta. Não há motivo justificador do seu uso como moeda de troca para a obtenção de armas que serviriam a uma suposta revolução. As bandeiras históricas da esquerda, seu humanismo e utopias desejáveis, se esboroam quando mescladas como atitudes típicas de bandidos comuns.

A Colômbia vive uma tragédia nacional. De um lado, as Farc; do outro, os traficantes, digamos, tradicionais a estas aliados, e afinal, no terceiro ponto, um governo que não tem qualquer intenção de mudar o sistema de exclusão social histórico e dantesco.

Com relação a Ingrid, que tenha o direito a uma vida digna e em libedade. Suportou um inferno quando prisioneira dos traficantes. Terá agora que conviver para o resto da vida com os seus recuerdos de la muerte.

Emanoel Barreto

Foto: Agência Efe

terça-feira, 1 de julho de 2008

Meu amigo sapo chinês

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Sou amigo de um sapo na China. É, é, um sapo. Por que não? Sou amigo de um sapo na China, como mantenho excelentes relações de amizade com um tigre de Bengala, um urso polar e um macaco estranhíssimo. Sabe aquele Zubumafu da TV? Pois é: trata-se de um daqueles. São bichos legais, cheios de uma boa conversa e coisa e tal. Pois, bem: ontem, recebi um email do meu amigo sapo, reclamando da situação política de lá, da poluição bárbara que o governo proporciona em nome do progresso. E, claro, dos terremotos. Leiam na íntegra o bilhete do meu amigo sapo. Ele se chama Zong Tiau Zhing. Eis o que disse:
年7月1日

カジメがかわいい
2001年から毎月計測して、生長の様子を見守ってきたカジメたちがある。カジメというのはコンブの仲間の大型海藻で、かたちは海の中の椰子の木みたいな感じだ。岩の上に根を張って固い茎を立てて、その先端に茶褐色の葉を茂らせる。でも、陸の椰子の木とはちがって、大きくても高さはせいぜい2メートル程度なのだ。カジメがつくる海の森は生物の寄り合う場所なので、海辺からカジメがごっそり無くなったりすると、生き物たちもごっそりいなくなる。そんなわけで、カジメを大事にする必要があって、ずっと調べている。いつどんな時によく育つか、どれくらい生きるか、どんなふうに子供を分散させるか、競争はあるか、動物とはどんな関係にあるか・・・などなど知りたいことは尽きない。そんなわけで、毎月水深10メートルまで潜っていって、決まったカジメたち60本ばかりの生長データをとってくる。カジメにもずいぶんと個性があって、ノッポや太ったの、スベスベできれいなのやできものや付着物で被われたもの、真っ直ぐ伸びたものやなんだかグニャグニャ曲がったもの、などいろいろある。違いが分かるので、毎月眺めていると、なんだかかわいく思えてくる。8年目になって、最初の頃の個体はもうみな死んでしまった。寿命は長くても6年程度なのだ。でも、その後植え足したものたちもあり、自然に生えてきたものもあって、まだまだ付き合いは続いている。カジメ君たち今月も会いにいくよ!
投稿者 onenote 場所
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Entenderam? Ficaram preocupados? Não entenderam? Então, explico:
ele está dizendo que, de repente, os sapos passaram a ser perseguidos como inimigos do Estado. A acusação leva em conta o fato de que sapos andam aos saltos e como isso estariam estimulando a concorrência ao estilo capitalista. E isso, mesmo levando-se em conta que o sistema de lá admite uma forma concorrencial entre empresas. Mas o problema é que os sapos, aos pulos, não pagam impostos e agora estão sendo duramente caçados. Pular, na China, significa driblar, enganar, esquivar-se, entendem? Por isso, ele está na mira dos tiras.

Estou providenciando um esquema clandestino par libertar meu amigo sapo e sua mulher. Mas, já estou com dor na consciência. Quando ele chegar, logo vão notar que não fala uma palava de português e talvez queiram deportá-lo. Talvez mesmo a Polícia Federal monte a Operação Brejo Seco para capturar o meu amigo.

Por precaução vou levá-lo para a Amazônia. Mas o prloblema, lá, é ele escapar da devastação. Mesmo assim, dos males, o menor: aqui, como clandestino, ele não terá que pagar impostos. Pode pular à vontade. Os políticos não fazem o mesmo?
Emenoel Barreto

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Quem nunca quis ser um jogador de futebol?

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A relembrança do primeiro campeonato mundial do Brasil, além de evocar-me o início da subida da Seleção como referente internacional no jogo que fascina o planeta, permite também outro enfoque: não sei se hoje ainda somos o gigante, o time que só pelo nome exigia dos adversários reverência, cuidados táticos enormes e uma pontinha de temor. A Seleção era, como dizia Nelson Rodrigues, a Pátria de Chuteiras.

Com a explosão do futebol como negócio na Europa, somos muito mais um celeiro de craques que uma Seleção, no sentido como o brasileiro passou a entendê-la: um patrimônio imaterial do povo brasileiro; uma espécie de ego coletivo que supria ou pelo menos compensava nossa tragédia histórica, amenizando a dor mesma de sermos brasileiros.

A Seleção resgatava nos cantos mais escondidos da nossa alma coletiva um sentimento de pertença, uma alegria louca e linda, um grito dramático de gol que na verdade era um brado de desespero social. As lágrimas da vitória eram as lágrimas escondidas do dia-a-dia.

A Seleção de Dunga, parece-me, é mais um emaranhado de jogadores, uma corda de caranguejos que andam de lado, que uma equipe que mereça ser chamada de Seleção. Hoje, pegamo-nos assistindo jogos de times ou seleções de Europa: e vibrando. A Eurocopa prendeu a atenção dos brasileiros quase como se fosse um jogo da Seleção ou uma final no Rio ou São Paulo.

Alguém dirá: mas é a globalização. Pode até ser, mas representa também uma perda da nossa identidade no esporte que mais representa o brasileiro. O jogo-samba, que enchia nosso olhar de devaneios vibrantes e admiração severa. Sim, severa, porque a Seleção, além de jogar contra alguma outra, jogava contra a sua própria história. Os jogadores tinham como adversários as lendas de Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Jairzinho..., com quem inevitavelmente seriam e são comparados. Toda a mitologia ensina que a Seleção tem de vencer. Ou vence, ou não é "a" Seleção.

Não sei, parece que é inexorável essa mudança, essa perda. Grandes jogadores quase nada rendem quando vestindo as cores do Brasi; mas dão show quanto jogam na Europa. Assim, o nosso povo, desvalido e perplexo, perdeu até mesmo o direito de se chorar em seus gritos de gol.
Emanoel Barreto

Ilustração: http://paulojales.files.wordpress.com/2006/12/futebol.jpg

sábado, 28 de junho de 2008

O-bama! Pá-pá-pá! O-bama! Pá-pá-pá!

Caras Amigas,
Caros Amigos,
De repente, eu me vi torcento por Obama. Aí, alguém pode me perguntar: mas, porquê? Ele não é brasileiro, sua eleição não terá qualquer importância para o Brasil, etc... etc...

Seguinte: primeiro, a eleição de um novo presidente dos Estados Unidos terá, sim, reflexos para a nossa sociedade. Qualquer presidente americano tem importância relativa, maior ou menor, para qualquer país do mundo.

Segundo: torço por ele pelo fato de ser negro. Sua eleição significará uma quebra do paradigma americano - uma sociedade racista, onde até os anos 1960 negros não podiam votar, tinham de ceder lugar a brancos em ônibus e não usavam instalações sanitárias publicas destinadas a brancos; escolas, idem. Isso, para não me aprofundar demais no assunto.

Essa quebra de paradigma tem um alto valor simbólico e literalmente fere e realça uma contradição profunda para aquele povo: Obama vem de família africana e seus ascendentes eram... islâmicos. Fica assim um dilema: votar num homem de origem afro e ainda mais provindo de praticanes de uma religião que, para os americanos, é sinônimo perfeito de barbárie e forjadora de terroristas. Sim, e ainda há um detalhe: Obama é um nome muito parecido com o inimigo público número um dos amricanos: Osama.

Tenho consciência perfeita de que ele não será "bonzinho" com o Brasil, assim como não o será com relação a nenhuma nação; a não ser que, conjunturalmente, isso venha a atender aos interesses do seu país.

Meu interesse em sua eleição, em suma, é em função do dado humano, a lancinante questão para a extrema direita americana: ser governada por um negro. Interessa-me a perplexidade, o olhar de pânico dessas pessoas, ao ver um neguinho presidindo a América. É uma questão que coloca a esse segmento social um impasse, um drama, um conflito. Eles terão que curvar-se à evidência de que um negro é igual ou humanamente melhor que todos os que o discriminam.

Creio que, quebrado o paradigma da etnia (não gosto da palavra raça aplicada a seres humanos), vai se abrir, lá, uma nova janela, inaugurar-se um novo olhar, talvez um pouco melhor do que os americanos têm dos seus próprios compatriotas negros. Algo, mesmo que pequenamente, mudará.

É claro que Obama, para ser eleito, o será em função de que não introduzirá qualquer estatuto que venha a se contrapor ao establishment, à ordem. Ele é um negro perfeitamente assimilado, ou que assimilou, os valores brancos e pode como estes proceder. É um negro confiável aos interesses do poder americano; que não está somente na presidência, mas encravado também nas poderosas empresas do capital monopolista e imperialista dos Estados Unidos.

Ao que escrevi até agora, vocês podem perceber que há toda uma série de contradições: ele é e não é negro; ele é e não é uma reposição da ordem estabelecida. Creio que, somente por isso, pelo repertório de incoerências, vale a pena aguardar sua vitória. Depois, caso eleito, é esperar que a história seja escrita.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Um sinistro concurso

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Há vinte anos um grupo de tontos reúne-se nos Estados Unidos para promover um concurso que escolhe o cão mais feio do mundo. Esse ano o ganhador foi esse aí; só tem três pernas, sofre de câncer na pele e perdeu um olho em briga com um gato. A dona recebeu cerca de dois mil reais e disse que vai usar no tratamento da doença do animal.

Seguinte: como os humanos somos estranhos. Tanto nos envolvemos com o belo, o magnífico, o tranqüilo, a paisem de paraíso, quanto com o que há de pior no horror, no deplorável, no insondável, tenebroso e maléfico que existe no homem e no mundo.

É esse aspecto sombrio da nossa essência que me intriga: o deliciar-se com o sofrimento, a derrota, a humilhação, a queda pública e publicada. Como nossas mentes podem sentir prazer com espetáculos, abertos ou privados, de contatos doentios e relacionamentos escabrosos.

É próprio da condição humana esse pendular movimento entre o amor e o ódio, a serenidade e a ira; mas é acabrunhante a situação social enfermiça, essa forma de buscar prazer e satisfação na curiosidade mórbida; a deprimente descida os círculos mais abissais do inferno que habita o ser humano.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Agora, é tarde...

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Nesses meus mais de 30 anos de jornalismo, uma coisa sempre me impressionou na imprensa: muitas vezes, quando alguém morre, alguém que os noticiários entendem como sendo pesssoa importante, a cobertura do falecimento é muito maior do que se dera a tal pessoa quando em vida. A morte da antropóloga Ruth Cardoso é um caso típico.

Primeiro, porque ela não era tratada pela imprensa como antropóloga, alguém com alto nível intelectual e acadêmico, mas como "primeira dama" e agora "ex-primeira dama". Segundo, porque, mesmo quando ainda não fora primeira dama, desconheço qualquer ênfase em sua presença na vida pública nacional. Nenhuma matéria em que falasse a respeito de assunto ou tema relevante ou fosse chamada a comentar fatos de destaque.

Agora, quando morre, as coberturas chegam a ser lamuriosas e mostram o ex-presidente Fernando Henrique lacrimoso, olhar abatido, semblante de dor. Sei que o jornalismo se baliza por enfoques que dizem respeito a atores sociais relevantes, autoridades pelo cargo que ocupam ou por domínio científico, artístico ou empresarial, para ficarmos somente por aqui.

O problema do jornalismo, em referendar acontecimentos de peso gera essa distorção: como ela era, além de intelectual reconhedica internacionalmente e casada com político de renome ganha essa cobertura. Mas, em vida, insisto, pouco espaço ocupou. A noticiabilidade (potencial que alguém tem de ser notícia) a seu respeito em tipo low profile, ou seja: baixo perfil. Não se inseria à tensão jornalística e assim ela era um ator secundário na vida nacional, perante o jornalismo. Mais claramente, ela não gerava assuntos, acontecimentos que atraíssem para si câmeras e texto. Como não havia expectativa, inexistia noticiário.

Agora, morta, ganha destaque: é o velho enfoque do dado humano; o marido choroso, que ao fim de um longo casamento, encara o desenlace do seu tempo de casado por efeito da morte da companheira. E isso dá notícia. Para o chamado grande público, ela era, antes disso, literalmente desconhecida. Agora, morta, torna-se famosa pelos quinze minutos da dor espetacularizada.
Emanoel Barreto

Não podemos atravessar os Alpes

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Não, não podemos atravessar os Alpes, como o fez o grande Aníbal. Não temos elefantes, exércitos, provisões ou máquinas de guerra para atacar Roma.

Não
podemos
atravessar
os
Alpes.


Como também não temos generais, estrategos, infantaria ou coortes para tais embates.

Não
podemos
atravessar
os
Alpes,


Não vivemos aquele sonho de enfrentar o Poder, vergar seus limites e encontrar, ao fim e ao cabo do tempo azado, os louros e o vinho da vitória.

Não
podemos
atravessar
os
Alpes.


Somos apenas caminhantes noturnos, pasmos com a força da Força, e seguimos.

E, ao final das contas,
não
podemos
atravessar
os
Alpes.

Emanoel Barreto

terça-feira, 24 de junho de 2008

A lua elétrica

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Estamos no ano de 2700. O mundo devastado, transformado em sórdido planeta, tem um mar feito de lodo escuro e malcheiroso, árvores serão mostradas em museus, a barbárie impera e uns poucos, pouquíssimos, terão vida digna de assim ser chamada. E um detalhe a mais: a poluição chegou a tal ponto que grudou na lua. A lua não mais é branca: está coberta de fuligem. Como solução, foi eletrificada e somente assim pode ser vista no céu. Uma gloriosa cor artificial foi-lhe jogada por enormes refletores, lá mesmo instalados, e dão a ilusão de beleza.

Todavia, um grupo de subversivos luta contra o poder central do mundo, na busca de convocar a população da Terra a se libertar, para a tentativa de um desesperado recomeço. Eles são poucos, são caçados noite e dia. Espalham panfletos, invadem emissoras de TV e rádio, imprimem jornais insurretos e resistem o quanto podem.

Então, num ato extremo, formularam um plano para mostrar aos senhores do mundo que eles podem, sim, ser enfrentados. Trabalharam meses nos detalhes, muniram-se de todo o aparato necessário e levaram adiante a sua investida. Certa noite, pavor, os olhos dos dominadores quedaram estarrecidos quando miraram o céu e nadaviram: os subversivos haviam apagado a lua elétrica. Talvez começasse ali o início de um tempo novo.

E quanto a hoje, tenho certeza: em nossos dias, será preciso também apagar a lua elétrica.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Um poema de Lord Byron

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Deixo vocês com um poema de Lord Byron.
O texto é muito complexo, mesmo que escrito em português. O autor usa muitas palavras de forma poética, o que dificulta a tradução literal. Mas aí vai uma tradução.
Emanoel Barreto

Ela anda na beleza, igual à noite
De tempos sem nuvens e céus estrelados
E tudo isto é o melhor da escuridão e da claridade
Encontre-a seus aspecto e olhos
Assim admirado por aquela luz quente
No qual o céu???? Recusa
Uma sombra a mais, um raio a menos
Tido meio deficiente o sem nome graciosidade
Que ondas em todos corvo madeixa
Ou suavemente clareia o seu rosto
Onde idéias serenamente doce expressa
Quão puro , quão caro o seu habitando

E nessa bochecha , e acima de essa sobrancelha
Tão macio , tão calmo , ainda eloqüente
Os sorrisos que ganhamos , as matizes desse brilho
Mas falar de dias de bondade usufruídos
Uma mente em paz com todos abaixo
Um coração cujo amar é inocente!

sábado, 21 de junho de 2008

Todo enriquecimento de Urânio é ilícito*

Caras Amigas,
Caros amigos,
Israel acusa o Irã de estar enriquecendo Urânio. Está nas coisas de jornal hoje e de quase todos os dias. Acho que Israel está certo. Urânio é um tipo do sujeito que deve permanecer pobre; se possível, abaixo da liha de pobreza. Senão, quando fica rico, dedica-se a contribuir com a indústria bélico-nuclear. E fica valente; valente que só ele. Não vêem os Estados Unidos? Estão valentes assim porque firmaram um pacto com Urânio, o homem ficou rico e agora os americanos ameaçam o mundo todo.

É um perigo. No Brasil, uma vez me encontrei com Urânio. Aqui, parece, ele é pobre. Sinceramente, não tenho certeza. Mas esse Urânio que encontrei era pobre e veio me pedir um dinheiro para "tomar conta do meu carro". Eu expliquei que estava sem trocado. Mentira: eu sabia que ele era Urânio e, de qualquer moedinha que ele tivesse, iria fazer algum tipo de investimento, enriquecer e aí, ou seja, aqui, as coisas poderiam ficar piores do que já estão.

Resulado: quando voltei, meu carro estava todo arranhado e ele ainda escreveu, a ponta de canivete: "Minha vingança será maligna."

Vendo aqui, pensei: será que estão enriquecendo Urânio aqui? Será por isso que todo dia a Polícia Federal prende magotes e mais magotes de corruptos? Será que os corruptos estão enriquecendo Urânio, num plano sinistro para dominar tudo? Agora, sinceramente, fiquei com medo. Vou tentar importar uma máquina de surras para aplicar nesses corruptos.
Emanoel Barreto

*Agora, falando sério: já pensaram, num país como o nosso, se houver algum problema - grave - com aquelas usinas de Angra, no Rio? Não pensem. Não pensem.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

A máquina de surras

Caras Amigas,
Caros amigos,
O período pré-eleitoral lembrou-me viagem que fiz há anos a um país onde a corrupção foi banida, literalmente, do seu mapa. Lá se fala um idioma absolutamente incompreensível à maioria dos mortais, mas que eu, não me perguntem como, aprendi a falar. Assim, convidado por um amigo desse país, passei lá uns quinze dias.

Logo que cheguei li no jornal a seguinte manchete: "oo8989nfjuu2nn!".

A tradução é o seguinte: "Estamos há 50 anos, 32 dias, 7 minutos e 14 segundos sem corrupção!

Encantado e ao mesmo tempo perplexo, perguntei ao meu amigo: "kkmjinin.leirunim?"

Ele me respondeu: "njkçç51313,,mjuueu..aksoiuienonn[==9931zx....8585fhfhwt43==-,k88jmamsmkmemdjujmadikdkdmmmm."

E eu: .ç´ç.çlikmiuekmiu9aolemroelsmi,mlkoiomlia?"

Resposta: "utjm kkkk juuyqtbdnkdçdpdã[a.ça]]]açaa,l".".."

Tradução de tudo: o amigo explicou-me que, quando a corrupção chegou a níveis insuportáveis, um grupo de parlamentares honestos conseguiu aprovar uma lei instituindo a máquina de surras. Um complexo e ciclópico instrumento onde eram metidas as pessoas que votavam em corruptos - a foto vocês viram, na abertrura desta matéria. Incrível, não?

E isso, a partir de um raciocínio simples: os corruptos são eleitos pelo povo. Sempre os mesmos, sempre para os mesmos cargos; às vezes até para cargos mais elevados. Resultado: de quem é a culpa da corrupção? Do povo, claro. Todos são sabedores dos atos de corrupção, no entanto, ajudam a manter os corruptos no poder.

Então, com a máquina de surras, sempre que se noticiava um caso de corrupção, um sofisticado sistema de informática indicava os eleitores do corrupto e todos eram levados à máquina de surras. Lá dentro, com todos bem trancados, braços robotizados baixavam a lenha nos eleitores, de forma que todos eram punidos, e bem punidos, por colaborar para com a corrupção. Quanto aos corruptos, eram deportados para regiões polares e lá ficavam para o resto dos seus dias.

Ao longo do tempo, e com o funcionamento ininterrupto da máquina de surras, acabou-se a corrupção. Parlamento e governo funcionam que é uma beleza. Entretanto, um dia antes de eu voltar, fui informado: "io,murunnbgre4232=-08k,dkkkk"."

Perplexo, quis saber o porquê daquilo. "Aquilo", aquelas garatujas que vocês viram acima, dizia o seguinte: um sujeito iria logo mais ser levado à máquina de surras. Motivo? Fora descoberto que ele havia forjado documentos que permitiriam a imigração de grandes contingentes de corruptos, dotados de gênio assombroso em práticas de malversação de recursos públicos, chantagens, suborno, peculato e formação de quadrilhas de colarinho-branco. O objetivo era beneficiar uma multinacional, notória poluidora do meio ambiente.

Fui assistir ao ato. O sujeito chegou e foi jogado lá dentro. Depois de mais de meia hora perdido nos corredores da máquina de surras, saiu só o bagaço. E quando ele, cambaleando, perguntou: "Aonde fica o Brasil? Preciso ir para lá", parei, perplexo. Dei um jeito de escapulir de mansinho, peguei o primeiro avião e fugi. Não queria me meter em confusão.

Aqui chegando, surprise! O tipo havia chegado antes de mim e já estava fazendo comício. Era candidato a senador. E com grandes chances de ser eleito.

Em silencioso pânico pedi: "Deus, mandai-nos uma máquina de surras..."

Emanoel Barreto

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Não há liberdade

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A imagem da Liberdade guiando o povo, tela de Delacroix.
O mundo, velho mundo, sempre esperou e espera por esse momento.

O mundo, diga-se, é o turbilhão de gente que se curva ao peso da opressão em suas mais diversas e perversas formas.

Não há liberdade quando jovens são levados por militares para ser assassinados num morro carioca.

Não há liberdade quando alguém precisa e não tem recursos para o remédio, o atendimento, a escola, a vida, a sobrevivência.

Não há liberdade quando o tempo passa, o trabalhador verga ao peso da idade e das desilusões e tem somente de seu a pobre condição humana.

Não há liberdade quando grupos monopolistas dominam a economia e espalham a democracia da fome.

Não liberdade quando as lágrimas habitam os olhos e impedem o olhar de descobrir horizontes, pois também não há horizontes.

Não há liberdade, não há liberdade, não há liberdade. Isso os jornais dizem todos os dias. Mas ninguém entende, nem mesmo os jornais; que estão emaranhados à ordem estabelecida e que diz: "Não há liberdade."
Emanoel Barreto

terça-feira, 17 de junho de 2008

Passarão e passarinhos

Caras Amigas,
Caros amigos,
Hoje, um bilhetíssimo na poesia de Mário Quintana, com Poeminha do Contra. Vejo vocês amanhã.
Emanoel Barreto

POEMINHA DO CONTRA
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!
Foto:
http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=20204364

domingo, 15 de junho de 2008

Se lembra de Pobre, o zumbi? Hoje, é funcionário-fantasma...

Caras Amigas,
Caros amigos,
Há uns dias publiquei a história de Pobre, que morreu, e sem atestado de óbito não foi aceito Do Outro Lado. Assim, voltou, e na qualidade de zumbi, foi preso. Segundo acordo internacional de que o Brasil é signatário, zumbis somente são aceitos no Haiti, que detém a propriedade intelectual no assunto.

Preso, Pobre ficou sozinho na cela. Os companheiros tinham medo dele e preferiram ficar amontoados em outro cubículo. Da cela onde estava, Pobre podia acompahar o som dos noticiários de TV e em poucos meses formulou uma espécie de vocabulário de crimes como: corrupção ativa e passiva, peculato, concussão, prevaricação, suborno e outros típicos dos chamados crimes de colarinho-branco.

Prestando muita atenção, percebeu que as penas anunciadas para tais criminosos eram altas, fora devolução de dinheiro, multa... Conversou com um advogado de porta de cadeia, que atendia a um preso que ficava na cela ao lado, e soube: esse negócio de ser zumbi era apenas um acordo entre Brasil e Haiti. Não havia penalidade específica. Unicamente, o Brasil se comprometia a não produzir zumbis, do mesmo modo que os haitianos não fabricariam bebida alcoólica com o nome de cachaça. Só isso.

Então, quando foi um dia, Pobre aproveitou-se da manifestação de uma dessas ONGs de direitos humanos e falou a um dos seus integrantes a respeito do seu problema. Ele era um sem-vida, o único no Brasil e estava preso por isso. Enquanto isso, os peculatários e quejandos estava aí, soltos e zombando de todos. Pronto: foi o suficiente para que os ongueiros se mobilizassem. Partiram para a passeata: um sem-vida era um achado. Valia uma passeata.

Outros grupos juntaram-se a eles e logo Pobre estava solto. Houve um gigantesco comício em comemoração. E foi lançada uma campanha: a promoção de suicídio coletivo entre os pobres dos mais pobres; nenhum teria atestado de óbito, todos voltariam à Terra e formariam o grande movimento dos sem-vida.

O Governo enlouqueceu: não ia dar para dar um Bolsa Vida aos mortos, já que os vivos iriam reclamar. Iriam dizer que o dinheiro do Bolsa Vida bem poderia ser usado com os... vivos, é claro. Bolsa Vida é para os vivos, não para os mortos, diziam os vivos.

Estabelecido o contencioso jurídico, reuniram-se os luminares do Direito e formou-se uma comissão de alto nível, cujo resultado foi o seguinte: convidar Pobre para uma reunião sigilosa. Ele foi; chegando lá, foi-lhe proposto um alto cargo, o cargo de Funcionário-Fantasma. Ele esquecia esse negócio de Bolsa Vida e viveria, ou melhor, morreria eternamente, ganhando um bom dinheiro.

Pobre aceitou na hora e até hoje seus descendentes - ele casou-se com uma múmia elegantíssima da Terceira Dinastia - estão aí, infestando as repartições desta patria amada, salve salve; brasileira, brasileira; do Brasil nacional.
Emanoel Barreto

sábado, 14 de junho de 2008

Porque ficou em você

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Abaixo, uma definição de saudade.

Saudade é a gota do teu perfume,
O primeiro raio de sol,
A noite feita de brisa
e um calmo escurecer.


É o cheiro do teu cabelo,
Teus passos de maciez,
O silêncio de nossas coisas,
o nosso mundo, marfim.


Saudade é a alegria,
que antecipa a volta
de alguém que nunca partiu,
porque ficou em você.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 13 de junho de 2008

A Melancia e a opereta bufa

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A dançarina Andressa Soares, que tornou-se mais conhecida como Mulher Melancia, está batendo recorde de vendas da "Playboy". A indústria cultural sempre se utilizou do corpo feminino para alavancar vendas; desde cerveja a automóveis, de roupas a produtos de beleza. As chamadas revistas masculinas, que tratam a mulher como produto, matéria-prima de seu conteúdo, quando é preciso apelam para a vulgaridade e a nudez chula.

O exemplo mais forte é o de Melancia, uma jovem de beleza, digamos, burlesca; algo grosseira e muito bufa. Vulgar e gravemente espalhafatosa, Melancia já anunciou que compôs uma certamente bela canção, intitulada "Baba, cachorrão". Em seus shows, o hit será grande sucesso, convenhamos.

Vivemos, nos meios de comunicação voltados para consumo de massa, especialmente aqueles que se voltam para entretenimento, uma fase de muita grosseria, baixeza; uma realidade de mídia caricata e que atende a um público tipo senso comum. As TVs de todo o mundo exploram esse tipo de atração e têm em troca grande audiência, que é vendida aos anunciantes. Faustão que o diga.

O ser humano, como na Playboy, como em todo o sistema da indústria cultural, é usado como elemento de venda, mirando o mercado que absorve esse tipo de material. Ao que parece, é uma tendência em toda a TV aberta, com repercussões na mídia impressa e, também na net. Essa repercussão se dá mediante comentários críticos ou em aplausos e incentivo a tais produções.

Fala-se que tudo é um esquema, um sistema: as TVs abertas aderem abertamente ao mau gosto, obrigando o público de maior poder aquisitivo a comprar programação a cabo. Isso em nível mundial. Faz sentido, faz sentido.

No mais, ao Brasil, minhas comiserações. A divulgação de Melancia servirá para consolidar ainda mais nossa imagem de país de orgias, uma terra de bacantes, de mulheres fáceis e semi-nuas - ou nuas mesmo - a dançar e a cantar por aí. Talvez sejamos mesmo uma opereta bufa.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Todo mundo de quatro pé... Já!

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A colunista Mônica Bérgamo, da Folha, dá a seguinte informação: "Claudia Matarazzo, responsável pelo cerimonial do Palácio dos Bandeirantes, reforçou as aulas de alongamento para preparar os assessores do governador José Serra para a visita do príncipe Naruhito, do Japão, no dia 21. É que o protocolo japonês exige que se curve até mais de 90 graus - "quase encostando a testa no joelho" - para cumprimentar o herdeiro do trono. Sem nunca olhá-lo nos olhos ou estender-lhe as mãos. A regra só não vale para o governador."

Sabem o que acho? Acho muito errado. Fazer uma reverência ao Príncipe, de apenas 90 graus? Que absurdo! Acho que é até uma ofensa, um insulto, mais que isso: um ultraje!
Temos que estar cientes de que somos um povo inferior, mestiço, muitas etnias juntas ao longo da história para no fim dar esse povinho brasileiro, ralé e chulapa... Não... para o Príncipe, deveríamos, todos, nos estirar no chão ou, como se dizia antigamente no sertão, ficar todo mundo de quatro pé, para o Príncipe passar sobre nossos espinhaços.
Deixo aqui o meu protesto e digo: se já nos curvamos tanto, bem podemos descer mais...
Emanoel Barreto

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Demos graças a Deus...

Caras Amigas,
Caros amigos,
Graças a Deus o Governo conseguiu que os deputados aprovassem a recriação da CPMF, agora sob o codinome de Contribuição Social para a Saúde. Graças a Deus.

Vocês se lembram de que, quando havia a CPMF, tudo funcionava bem, os médicos iam aos postos de saúde e hospitais públicos, havia medicamentos para todos, respeito e atendimento a qualquer hora? E de que, quando a CPMF acabou, tudo ficou ruim, com filas como essa da foto se alastrando quarteirão afora? Não quero nem pensar.

Graças a Deus, tudo vai voltar. Tudo vai ficar bem, tudo ficará como sempre devera. A contribuição que todos pagaremos vai garantir que os pobres, os desvalidos, terão atendimento digno de um ser humano.

As coisas de jornal andam dizendo que o Governo, para garantir a aprovação, irrigou com verbas os alqueires parlamentares. Não acredito. O Governo, fazer isso? Jamais. A retidão ética não o permitiria. Assim, confiemos que agora a Saúde terá atendimento de qualidade e o povo, sofrido que só ele, ficará muito mais feliz.
Emanoel Barreto

terça-feira, 10 de junho de 2008

"Heil, Hitler!"

Caras Amigas,
Caros Amigos,
As coisas de jornal informam que nos últimos dez anos os gastos militares cresceram 45 por cento no mundo. Não tenho idéia do quanto cresceu a fome; acredito que mais, muito mais que este percentual.

Então, vem-me a pergunta: por que gastar tanto dinheiro com o aperfeiçoamento de material letal; por que as fábricas de armamentos se esmeram tanto em produzir máquinas que matam com precisão magnificada? Por que não mandar ajuda a refugiados, comida a favelados, civilização e uma cultura de paz ao mundo?

Os humanos somos os únicos animais na Terra que trucidam, matam por esporte, assassinam para manter o poder, torturam, esganam, oprimem, especializam-se em competições de violência.

A insanidade instala e instila o medo, provoca o pavor nas crianças, usa tecnologia mortal. Então, vem-me a certeza: Hitler vive. Aliás, sempre viveu. Hitler não era um homem: representava um modo de pensar e de viver. Hitler continua, in memoriam, matando vidas e solapando a paz. Hitler está em cada bala, bomba, mina ou arma que atira e destrói. E cada vez que um comandante determina: "Fogo!", está na verdade gritando: "Heil, Hitler!"
Emanoel Barreto

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Chuck Berry quer comer

Caras Amigas,
Caros Amigos,
O velho (81 anos) e sempre bom Chucvk Berry, está em São Paulo para um show. As coisas de jornal estão registrando, o que é muito bom. O artista é parte da história da música do século 20 e tem um estilo inconfundível. Traz a seu lado um filho, o Jr., guitarrista, e a filha Ingrid Berry Clay, na gaita.

Tudo isso a Ilustrada, da Folha, anotou, mas, precisava dizer que o astro quer comer costeletas de porco após o show, e que duas pizzas devem chegar ao camarim 40 minutos antes de o espetáculo terminar?

São essas coisas que nao entendo, nas coisas de jornal. Essa necessidade que os jornalistas temos de trazer às páginas essas tolices, esses faits divers, que em nada contribuem para a compreensão da matéria ou realce de sua importância.

Jornalismo deveria se voltar mesmo era para os casos importantes, respeitando-se os respectivos nichos das informações. Mas dizer que alguém, só por ser célebre quer comer costeletas já é um certo exagero, não? Ou, admitamos, tietagem do repórter.
Emanoel Barreto

domingo, 8 de junho de 2008

A chuva e a carpideira

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Chove lá fora.
Natal estranha o sol que não chegou.
E a chuva cai como pesado pranto,
não sabe bem porquê.

Talvez pela própria vida.
Talvez pelo não-viver.

Quem sabe pela existência
que se finda em todos nós

E a chuva é o choro antes
da carpideira, agourenta,
dizendo que vai chegar.
Chove.
Emanoel Barreto