quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Foto: http://sol.sapo.pt/photos/crisruas/images/332027/425x425.aspx
Aziago
Emanoel Barreto

Um som cavo, regougo, rompeu um fim de tarde triste.
Um barco parou no mar em água funda e suas velas estavam mortas para o vento.

Um velho deitou de lado, dormiu e morreu.
Alguém calou ao ver o crime mais terrível.

E assim mais um dia se passou.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Foto: Lula Marques/Folha Imagem

A falsa rebeldia ou rebeldes sem causa

Emanoel Barreto

A Folha Online traz a foto acima, com o seguinte texto: "Alunos ficam pelados na sala da reitoria da Unb (Universidade de Brasília) em repudio ao ato contra Geyse Arruda na Uniban." Pergunto: o que tem a UnB com a questão da jovem que foi apupada pelos colegas, por vestir-se com vestido curto demais? Por que tentar politizar (existe uma política do corpo, lembra?) numa universidade o que aconteceu em outra, a Uniban?

A jovem foi agredida pelos colegas na Uniban. Errado. Muito errado. Erraram todos os que o fizram. Todavia, levando o caso para outra visão, distanciada e crítica, o que temos? Temos, objetivamente, uma moça que, manipulada pelos padrões da indústria da moda, que diz que a mulher para ser vista como bela deve mostrar-se semidesnuna, revela-se frívola e desconhecedora de que a mulher não precisa assumir-se como objeto sexual para se impor ou anunciar-se como bela.

E os rapazes e moças da UnB, por que não comparecem seminus no cotidiano de suas aulas? Se esse seria o normal de cada um, a convicção de cada um, esse comportamento idiossincrático deveria tornar-se corriqueiro. Ai, sim, seria o exercício de uma política do corpo consequente. Cada um vestindo-se, ou desvestindo-se a seu talante, e exigindo respeito a essa individualidade.

O que ocorreu em Brasília foi apenas uma manifestação tardia, um ersatz, um sucedâneo tolo dos já distantes protestos e happenings dos anos 1960. Naquela época existia todo um sentimento de contracultura, uma postura forte de ruptura com os padrões. Hoje, apenas tentativa pálida de protesto de um grupo de jovens que, certamente, preferiu um comportamento discrepante e fugaz, em vez de fazer seus deveres de casa.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjMZLhjN2j1HwIezqPr_EYbe0gxjVYBWWMUSeQJpZMr6cenTDHr4L4uOn2d8k4Iu6TUHge2WDbzHlCikoQOmVBKIwFmM4TLwM1RqidJbxmM3EwGuOTfJwYWXQjaebM-9SHXNHc3/s400/Liberdade.jpg
Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós
Emanoel Barreto

Um ambulante sentou-se à praça do mercado e ao lado colocou um saco aparentemente vazio. Para espanto dos que passavam, anunciava a altos brados que no saco havia mercadorias que todos desejariam comprar. Vendia de tudo, garantia, para uma vida mais feliz.

Aproximou-se uma mulher triste perguntou se vendia alegria. Claro, ele disse. E, metendo a mão no saco, tirou-a inteiramente vazia. A mulher contestou. Ali não havia nada. Mas ele garantiu: havia sim. Ela poderia tocar. A mulher estendeu a mão e tocou em algo macio, gostoso de pegar. Era a alegria. A alegria é invisível, sorriu o vendedor. Você só pode sentir. A mulher pegou a alegria e seus lábios se transformaram em sorriso.

Alguém pediu felicidade. Ele advertiu: felicidade é mais difícil. É mais cara. Quer assim mesmo? Queria, a pessoa queria. Pagou, recebeu a invisível mercadoria, mas não sentiu-se feliz. O senhor me enganou. Ele rebateu: não enganei. É que a felicidade precisa de complementos. Se quiser mesmo ser feliz, precisa também comprar ousadia, luta e ter já em si - e isso ele não podia vender - capacidade de saber usar a felicidade, mesmo que os outros sejam contra. A pessoa desistiu e continuou infeliz.

Em seguida veio um homem, que queria liberdade. Liberdade?, ele perguntou e em seguida disse: tenho de diversos tipos. De primeira, de segunda e de terceira. Como assim?, quis saber o homem. É o seguinte, disse o vendedor: liberdade de primeira exige que o comprador, para usá-la, tenha coragem. Sem coragem, ninguém é livre; liberdade de segunda é aquela que lhe dizem que é liberdade, ou seja: você é livre segundo o que já está determinado.

O homem entendia. E liberdade de terceira?, quis saber. Bom, essa, afirmou o vendedor, é a liberdade de quem não tem coragem porque nunca a descobriu; força, porque nunca se testou e passos, porque nunca caminhou. Qual vai querer?

E você, que me lê, qual vai querer?


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Foto: Pawel Kopczynski/Reuters

Menos, companheiro, menos...
Emanoel Barreto

A foto da Reuters registra o momento em que mulher deposita flores onde já foi o muro de Berlim, cuja queda é hoje comemorada como marco de "liberdade". Sem qualquer louvação ao tipo de socialismo praticado pelos alemães do leste, é preciso levar-se em consideração o que é "liberdade". Todos os sistemas do mundo se apresentam como regimes de liberdade.

Liberdade para quem? Para o geral, para o todo, ou para os que criam esse conceito? O totalitarismo no estilo soviético é algo deplorável, uma espécie de depravação civil. Mas, imaginar-se que, sob o capitalismo, que é também uma forma de totalitarismo, estamos em liberdade, é algo que a ideologia, como falseamento da realidade, trabalha e muito bem.

Foi bom cair o muro? Foi. Mas, entendo que não há liberdade onde persistem pobreza, discriminação, sofrimento e manipulação de seres humanos para o lucro de uns poucos. De qualquer maneira a democracia formal, em sua formalidade mesma , é algo que permite vislumbre da possibilidade de um passo adiante, para uma sociedade mais justa.

Mas, insisto: dizer que se comemora a "liberdade" é um pouco de exagero, no mínimo isso. Pode-se comemorar? Até creio que sim. Mas, menos, companheiro, menos...

sábado, 7 de novembro de 2009

Foto: http://media.photobucket.com/image/biquine/rslonik/nM/brasil_bikini_01.jpg
O enlace de todos os quadris
Emanoel Barreto

O sábado está lindo,
numa manhã
que já se encaminha para a tarde.

O sol é o melhor amigo da cerveja e, nas mulheres, o enlace de todos os quadris.

O dia está iluminado
e até o ar parece estar brilhando.

Hoje é sábado e todas as bocas
se transformam em sorriso.


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A verdade e a mentira
Emanoel Barreto

Quando os homens acreditam na mentira como verdade deixam de crer que é verdade que é mentira. E assim, crédulos dos mentirosos, acreditam que é mentira que é verdade.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj3OiG8uUz36DetF6Xlu2ZE4cvXl2ctsiEW82OtKZ1fJFk1t7O-U9ktGPHWVFZNoyNhwnCTJkpQbOaYFjN1goxDS_mGdUYre2tsMkIw0dMGordXiLpG7wjvygWgNi-heVIbXr8w/s400/goiaba+4.jpg
A triste história de Josélio
Emanoel Barreto

Josélio achava a vida um doce e foi dormir. Quando acordou, estava preso dentro de uma lata de goiabada. Foi devorado por um grupo familiar faminto e acabou na maior fossa. Tá vendo como é perigoso radicalizar?

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiidNvJ7VH8BwKRQc8imHdZDZZjV-10elv7Io7b443y3REpuOul-1x4GnvRkSzaQtA2uUPEXdQT0mALVfGBtbN7LwIcWoROTjOakl5fEN0DSCdFcTdStKl0oE79FODJOtLG_ozs/s400/raios.jpg
De loucos, raios, dores e lucidez
Emanoel Barreto

As dores podem acontecer com frequência. É que as dores, ao contrário dos raios, costumam cair duas vezes no mesmo lugar.

Os medos apropriam-se da mente de quem é temeroso. É que o medo, ao contrário da coragem, não é aprendido.

As raivas transtornam a lucidez. É que a raiva, diversamente da serenidade, é mais fácil de sentir.

Mas, a loucura, a loucura pode ser boa. É que os loucos muitas vezes podem ser sublimes. É isso.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhYNpghgAyO94g7QafQa2NujcQrvtkB6odNLjF6PzgFSWx1qmt9pCjqY5Fe-y_EElesz7cRerCWxtrFVmMJL_Rm-UrbxekNvi3-s-P3il9wHMZ40wNG2qOkOCBg3x75-DxzOIt-/s400/800px-Vasnetsov_samolet.jpg
Urgente: os 40 ladrões de Ali Babá estão vindo para Natal
Emanoel Barreto

Ali Babá informou-me que os 40 ladrões estão vindo para Natal. Embarcaram há pouco no tapete mágico de Aladim e chegam a qualquer momento. Como a situação é preocupante, entrei em contato com Noé, aquele da arca, e busquei aconselhamento: "Há alguma coisa a fazer?". Velho e sábio, respondeu-me: "Barreto, mandarei agora mesmo a versão mais moderna da arca a Natal. Turbinada e veloz, para quem quiser escapar dos 40 ladrões. Pelo que fui informado eles vão provocar um tsumami de tal monta que cobrirá até mesmo o Morro do Careca. "

Acionei Vidocq, famoso ladrão e depois detetive francês, que detalhou: "Não pense que Aladim está mancomunado com os 40 ladrões. Ele foi roubado, quer dizer, o tapete foi roubado e Aladim está desesperado. O tapete é moderníssimo e super-sônico. Caríssimo, tem até canhões e metralhadoras."

Quando eu disse que a arca estaria chegando para nos salvar, quero dizer, salvar o povo de Natal, ele foi enfático: "Besteira, os 40 ladrões acabam de bombardear a arca e vocês estão perdidos. A cidade inteira será saqueada."

Todavia, não nos desesperemos. Aladim, com o celular quase acabando a bateria, informou: "Barreto, fique tranquilo. Nada de mal acontecerá. O tapete está com pouca gasolina. Vai cair antes de chegar a Natal. O problema é que, pelos meus cálculos, ele cairá em Brasília, onde toda a turma já está sendo esperada com pompa e circunstância..."


sábado, 31 de outubro de 2009

Foto: http:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj5_Vr9lGYIEKY2evaY1zRg3WnhhY3m-uzE26ATCpoBWOczlfzajCxb-FzpvcgjAFhquU1YOigDL5u9Q_KtIQ46Xo345OgzvFX9bh0Lcgh6tqlpBKQYezsEuHDHSQBffYjzhzYL/s400/M%C3%A1quina+do+Tempo+Steampunk_4.jpg
A máquina do tempo: pequeno anúncio de um jornal maluco
Emanoel Barreto

Alugo máquina do tempo, empresto arado para revolver o passado, tenho portas que trancam corruptos e ajudo a fechar pactos com anjos. Também ajudo a construir túneis para fugir da solidão e refaço vidas passadas, para que você se torne rei ou rainha. Desfaço quebrantos de tristeza, alargo os caminhos da coragem e fecho seu corpo contra melancolia e situações sorumbáticas. Faço doação de rastros de estrelas e tenho o melhor absinto. Resultado garantido ou seu dinheiro de volta.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A mulher-objeto
Emanoel Barreto

O recente episódio de uma jovem estudante de turismo da Uniban, uma universidade de São Paulo, que causou literalmente furor entre colegas que a agrediram por usar um microvestido, representa à exaustão a figura da mulher-objeto, papel que ela assumiu, creio, após sentir-se com o direito de viver de pleno suas fantasias. Esqueceu, porém, que vive no mundo social e foi brutalmente punida com vaias e agressões físicas.

Não há na minha visão qualquer laivo de moralismo. Não. Entendo que o que a jovem fez foi cumprir exatamente com os parâmetros da indústria da moda, que encaminha corações e mentes juvenis ao uso de determinado tipo de roupa como imperativo de beleza e elegância, um estilo de vida.

Deu no que deu. Mas, observemos: a multidão de rapazes e moças que a apedrejava socialmente era composta, certamente, pelos mesmos jovens que se curvam aos modismos, gostos e ademanes do que seja a moda atual.

A indústria da moda convenceu a uma certa parcela da população que ser jovem é comprar determinado tipo de vestimenta que, por sua vez, corresponde a um certo tipo de comportamento - arrojado, não reverencial a padrões tidos como "ultrapassados".

Todavia, quando a coisa se desloca das revistas de moda e das passarelas para cair no mundo do cotidiano, o olhar muda. As pessoas, as mesmas pessoas que aplaudem a mundanidade do vestir, desde que esse vestir esteja apenas nas revistas ou passarelas, armam-se de seus conceitos "arcaicos" e agridem aquela que performatizou à plenitude o suposto arrojo e autoridade sobre como vestir - ou desvestir - o próprio corpo.

A frivolidade da moda, capitaneada por todo um sistema de manipulação mental, resulta assim em situações como as vividas pela jovem, criando-se a seguinte situação paradoxal: a ela faltou bom senso; aos agressores, respeito.


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Foto: http://images.google.com/imgres?
O idioma das mãos
Emanoel Barreto

As mãos? Sim, as mãos gritam em seu silêncio de gestos.
E dizem abraços que nunca receberam.
As mãos? Sim, as mão falam todos os idiomas da angústia,
quando são mãos desvalidas.
E depois, cansadas de não ser nunca entendidas,
recolhem-se às furnas e aos becos.
E, à noite, calam na boca dos famintos
o gemido torto dos que têm fome e sede de justiça.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Foto:http://www.andaluciaimagen.com/Frutos-ainda-vida--alegria_106976.jpg
Uma cara de alegria
Emanoel Barreto

O mundo estava feio, mais ainda havia coragem para lutar. As cores estavam escuras, mas persistia no íntimo da força a disposição de não se curvar. As nuvens, carregadas, pareciam anunciar tempestades. Mas, nas mãos que se davam, se escondia um sorriso de alegria. A alegria de ter coragem para lutar. E essa chama iluminava o caminho.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

domingo, 25 de outubro de 2009

A sodoma da brutalidade
Emanoel Barreto
Faz muito tempo que não vou ao Rio. Hoje, prefiro não ir. O volume de informações que provêm de lá ou a respeito de lá, criaram em meu imaginário a visão de uma cidade que se debate entre o terror e a imperiosa necessidade de conviver com o terror.

É o resultado histórico de uma perversa concentração da riqueza nacional, que facilitou a proliferação das favelas e de seres brutais que convivem com os cidadãos de bem que dali não podem sair. "Dali", quero dizer, das favelas.

O Rio de Janeiro transformou-se numa terrífica sodoma da brutalidade. E seus gritos são o hino do mais bárbaro banquete de balas regadas a muito sangue.


sábado, 24 de outubro de 2009


Lembrando Cora Coralina
Encontrei este poema de Cora Coralina. Compartilho com você.
Emanoel Barreto

Eu Voltarei

"Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho, servidor do próximo, honesto e simples, de pensamentos limpos. Seremos padeiros e teremos padarias. Muitos filhos à nossa volta. Cada nascer de um filho será marcado com o plantio de uma árvore simbólica. A árvore de Paulo, a árvore de Manoel, a árvore de Ruth, a árvore de Roseta...

Seremos alegres e estaremos sempre a cantar. Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas. Teremos uma fazenda e um horto florestal. Plantaremos o mogno, o jacarandá, o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro. Plantarei árvores para as gerações futuras.

Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros. Terão moinhos e serrarias e panificadoras. Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens e mulheres, ligados profundamente ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.

E morrerei tranquilamente dentro de um campo de trigo ou milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.

Eu voltarei...

A pedra do meu túmulo será enfeitada de espigas de trigo e cereais quebrados, minha oferta póstuma às formigas que têm suas casinhas subterra e aos pássaros cantores que têm seus ninhos nas altas e floridas frondes.

Eu voltarei..."


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A política e as trinta moedas
Emanoel Barreto

Está na Folha online: O presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini (SP), saiu em defesa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A oposição e a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) criticaram a declaração de Lula sobre uma coalizão política entre Jesus e Judas nos dias atuais.
Para Berzoini, as críticas revelam "superficialismo político do momento". "A frase de Lula sobre Jesus provocou uma onda de farisaísmo, reveladora do superficialismo político do momento", escreveu ele no Twitter (microblog). "Afinal, o moralismo seletivo é uma das piores formas de farisaísmo. E a demagogia dos fariseus no tempo de Jesus repete-se nos atuais."
Lula disse que era preciso fazer alianças para ter apoio no Congresso. "Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão", disse Lula em entrevista à Folha.
...

Em verdade, em verdade vos digo: a incontinência verbal de Lula é bastante representativa do tipo de política que vivemos. A metáfora presidencial refere o seguinte, creio: a "pragmática" do Planalto admite como situação peremptória a troca de "entendimentos" entre Lula e a base aliada. Ou seja: o PMDB, principal partido da coalizão entre PT e essa base aliada, é o Judas com quem se precisa conviver, mesmo que a troco das trinta moedas.

O caldo de cultura política que se vive aqui, historicamente permite esse tipo de situação, acordos e conchavos. É sabido que o PT afastou-se muito de suas bandeiras históricas e trabalha com quaisquer judas. Como também é sabido que o velho PMDB do Doutor Ulysses tornou-se uma teia de interesses e apetites politicamente obesos.

É o que o professor Werneck Vianna chama de Estado de compromisso, quando forças as mais díspares encontram-se sob o guarda-chuva do governo e ali perpetram seu tênue e frágil equilíbrio. É a democracia brasileira, que assim se tece no longo e tortuoso caminho da história.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

E aí, vamos tirar a roupa?
Emanoel Barreto

A Folha diz: Depois de vestir uma sunga vermelha nos corredores do Congresso, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) decidiu nesta quarta-feira devolver o "presente" à apresentadora do programa "Pânico na TV", Sabrina Sato. Em um encontro com a apresentadora em seu gabinete, Suplicy devolveu a sunga a Sabrina --que na semana passada convenceu o senador a vesti-la por cima do terno e hoje ofereceu o acessório ao ministro Paulo Bernardo (Planejamento).
....
Como é sabido, o Senado Federal é uma casa de tolerância, nos piores sentidos que a expressão possa ser interpretada. Mas, a atidude de Suplicy, afunda-se nos mais chafurdosos recôncavos do ridículo. Há pouco tempo, uns dois meses, creio, deu um "cartão vermelho" ao presidente da Casa, José Sarney, tentando criar um factóide com a crise de credibilidade do Senado. Não conseguiu e apenas ganhou apupos da imprensa.
Agora, só falta vestir um maiô daquele tipo asa delta, lembra? Assim, sem dúvida ganharia bastante reprecussão. O Senado é o cenáculo dos escândalos, claro. Mas, chegar-se ao ponto de andar de cueca é, literalmente, um golpe baixo.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Os mortos são inimputáveis
Emanoel Barreto

Ora, naquele tempo havia um homem que muito se comprazia com os prazeres da carne e da bebida. Eis que um dia, em plena esbórnia, entregou a alma ao Criador, gerando grande alarde nos meios pândegos. Os amigos, acostumados com suas irreverências, manhas e atitudes, ficaram crentes que ele brincava a bom brincar.

Nisso, ele levantou-se e disse "não acreditam, estou morto?". Veio um físico e constatou que ele realmente não respirava, não tinha pulso e estava estranhamente frio. Mas, sábio, concluiu, "se fala e se se move, vivo está. Deixam-no. Por outro, lado, se não respira nem o sangue se lhe corre nas veias, morto está. Deixem-no também. Deixem-no viver e morrer ao mesmo tempo."

O homem, que nada tinha de tolo, logo aproveitou-se da situação. Entrou para um grupo de notáveis finórios e pôs-se a praticar, a favor de si e da sua grei, todo tipo de ato inescrupuloso e lucrativo. Mas, somente ele aparecia. Pois, dizia antigo princípio legal que "todo morto é inimputável. A rigor - aduz a sábia ciência jurídica, "apenas a putas são imputáveis." Mais claramente, se está morto não pode ser punido e somente as putas podem ser legalmente molestadas. Pronto.

Resumo da história: analistas e cronistas velhos e sábios indicam que o homem hoje ocupa a presidência do Senado. E, como é velha e esperta múmia, morto estando não pode ser punido.





segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O pequeno mistério
Emanoel Barreto

Havia, um dia, um pequeno mistério.
Pequeno sim, mas, ainda assim, mistério.
Ninguém o notava porque era um mistério
pequeno. E porque o mistério morava numa floresta distante
e não queria falar sobre as parvas coisas deste mundo.

Somente duas pessoas conheciam a existência do mistério que,
na floresta, estava oculto sob as asas de uma ave-do-paraíso.

sábado, 17 de outubro de 2009

Ricardo Moraes/Reuters
Os terríveis desgraçados
Emanoel Barreto

Diz a Folha:
Um confronto entre traficantes resultou em pânico para moradores da zona norte do Rio neste sábado. O tiroteio começou durante a madrugada, quando criminosos do morro São João tentaram invadir o morro dos Macacos, em Vila Isabel, em disputa pelos pontos de venda de drogas, de acordo com a PM. Na manhã de hoje, um helicóptero da PM que sobrevoava a região foi derrubado pelos traficantes, e dois PMs morreram. Em retaliação à ação da polícia, ao menos seis veículos --cinco ônibus e um carro-- foram queimados.
............

À falta de uma maior organização do aparato policial, as facções criminosas atuam de forma bastante desenvolta no Rio. Ao que parece, falta maior efetivo e um competente trabalho de inteligência que poderia, dentre outros aspectos, descobrir como as armas chegam aos criminosos de maneira tão livre, tão fácil.

Essa realidade criminal há muito deixou de ser conjuntural para se tornar estrutural e o Estado parece não ter forças para um enfrentamento eficaz. Além disso, as dramáticas condições de pobreza e miséria fornecem, nos bolsões sociais onde estão instaladas, todo o contingente humano que virá a formar os soldados do tráfico.

O combate à pobreza e miséria precisam de um olhar mais atento e com sentido histórico sério. A reversão de quadro é urgente urgentíssima. Ou, no final das contas, toda a sociedade brasileira estará à mercê dos desgraçados que, à míngua de dignidade, tornam-se criminosos terríveis, bárbaros e dispostos a tudo.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Os afetos
Emanoel Barreto

O tempo não afeta os afetos
quando os afetos são feitos
de verdade.

A flecha não fere o corpo poético
quando o coração é o escudo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009


Uma fábula
Emanoel Barreto

Contaram-me certa vez que havia um nauta que não tinha mar. Ele tinha a nau pronta para navegar, mas o mar, o mar não havia. Então, decidido, ele abriu as velas e pôs-se a navegar no grande mar de areia que era o mundo. E o mundo, vendo que fora vencido pela coragem do nauta, desistiu de não ter mar. E aquele que tivera coragem de desafiar o mundo acabou por dominá-lo.

Moral da história: a poesia sempre prevalecerá, para aqueles que não têm medo.

terça-feira, 13 de outubro de 2009


Não, não. É impossível
Emanoel Barreto

Não, não. É impossível. Nenhum tempo é suficiente longo para medir a imensa eternidade que se esconde na saudade.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009


As lições do "Salve geral"
Emanoel Barreto

O filme "Salve geral", da mesma forma que a produção "9mm SP" trata da questão de como os criminosos estão de tal forma organizados que podem ameaçar a sociedade por inteiro. E as autoridades, acuadas, "negociam" com os criminosos.

Ambas as produções, longe de serem filmes de aventura no gênero policial, tratam de um tema de importância: a fragilidade do Estado brasileiro levada ao extremo. O Estado é frágil e incompetente seja na saúde, na educação, na saúde e, claro, na segurança.

A situação-limite descrita no Salve geral é somente ficcional na parte em que trata da mãe de classe média e seu desespero por salvar o filho, envolvido em assassinato. Ponto. Depois, tudo o que se passa é referido por episódio de barbárie que teve São Paulo, capital, como epicentro do terremoto social.

O que ocorreu, em termos de ataques a delegacias e postos policiais, incêndio a ônibus e morticínio foi bem real, muito real. Foi, plenamente, terrorismo, mas não se acionou um aparato de contenção - quero dizer bélico - à altura, para conter os bandos de criminosos.

A sociedade ficou à mercê das hordas, mas em nenhum instante se cogitou o uso das Forças Armadas para seu enfrentamento. Isso é um dado histórico. Pode repetir-se? Pode. E temo que, novamente, venhamos a ter um banho de sangue. Pode?


sábado, 10 de outubro de 2009

Encabulada em dó maior
Emanoel Barreto

Ela chegou. Veio em passos de pantera e de veludo azul.
Atravessou o grande salão e, fazendo isso, a música parou. Atravessou o salão e, fazendo isso, deu-se a descobrir.

Estava ali uma mulher completa, intensa, inteira, farta, doidivanas;
Petulante, sólida, perfeita;
Camarada, amiga, doce solidão a dois;
Feminina, forte, descobridora;
Caminhante, sã, insana primavera;
Distante, pertíssimo, misteriosa, bela;
Felina, feliz, atraente, difícil;
Viajante, indagadora; senhora de respostas, autora de dúvidas.
Um romance inscrito em corpo de mulher.

A festa como que parou, só para vê-la. Dirigiu-se a uma mesa, sentou-se: - Dança? A pergunta havia partido de uma voz masculina em dó maior, grave. - Sim, foi a resposta que ela deu, pondo-se de pé. Com a orquestra o cantor discorria um bolero. Os passos dos casais coleavam em meio ao claro-escuro do salão. Maracas e bongôs pontuavam a música com seu remexido côncavo-convexo.

A voz de dó maior perguntou: - Qual o seu nome? Ela respondeu em surdina: - Encabulada.- Como? - foi a dúvida seguinte, ante a resposta inesperada. - Encabulada - ela disse com um sorriso de meia lua, as costas da mão encostadas na nuca do dó maior.

- Você, encabulada? - o dó maior quis saber, pois, naquela mulher, não havia espaços de silêncio.- Eu não disse que estou encabulada. Eu disse que sou Encabulada. É diferente. Sou diferente de todos e igual a mim mesma. E como não sou resposta, mas proposta, espero sempre as perguntas. As perguntas certas. Daí, porque sou Encabulada. Não vou às pessoas, elas têm que vir até a mim. Dou a impressão de estar retraída, distante do mundo, para que me descubram o caminho. Poucos descobrem... Daí, dou a impressão de estar encabulada. Mas quando alguém me descobre, está com Encabulada. Dá para entender?

O dó maior fez que sim e continuaram a dançar boleros firmes, ajustados, justos, encaixados, mínimas, semínimas, colcheias e acordes. Os violões agudos perfuravam a noite: flores e floretes, enigma de passos.Aí, foi ela quem perguntou: - Seu nome? O dó maior pensou um pouco e respondeu: - Pode me chamar de Colecionador. Sou um colecionador. Um colecionador de situações, as mais inesperadas, estranhas, belas, difíceis, lamentáveis, boas. Situações que às vezes procuro, outras não; um tempo lamento, outro tanto gosto. Como agora, que descobri você, essa mensagem cifrada, num código que ainda desconheço, mas que vou aprender. Ficou encabulada, Encabulada?

Ela voltou com seu sorriso de meia-lua e respondeu: Não. Ela não havia ficado encabulada. Afinal, disse, uma situação se constrói a dois, passo a passo, gesto a gesto, ato a ato, palavra-por-palavra. Até que, como a brisa marinha, se transforme numa lembrança. Mas, isso, já é outra situação...

E, Encabulada e Dó Maior ficaram assim, colecionados de si, pasmos e presos ao bolero que dizia as coisas que todos os boleros dizem. E no depois do tempo, fizeram-se um só, fazendo-se brotar no meio do salão.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O medo do corpo
Emanoel Barreto

Vi, há poucos dias, no Areoporto Augusto Severo, três figuras que chamavam atenção. Três freiras, embuçadas em seus enormes e sufocantes vestuários, mais pareciam três harpias. Do corpo, somente suas faces podiam ser vistas, tão encobertas que estavam por seus mantos.

A religiosidade tem isso: a busca pela anulação do corpo, corpo como forma vergonhosa de o ser humano existir, com suas premências, necessidades e anseios. O corpo é uma culpa. Repudiar o próprio corpo, entendem os que assim pensam, é uma forma de chegar ao divino. Mas o corpo continua lá, vive, pulsa, transmite.
E nenhum véu ou tecido grosso pode impedir que, no íntimo do ser, o corpo continue a ser o maior interesse de quem o teme e o rejeita.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Coisas de Jornal será atualizado nesta sexta.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Cavalo de Tróia
Emanoel Barreto

De Tróia virá grande cavalo
que passará por sobre nós
com suas patas de aço.

E o louvaremos com cânticos e guirlandas.
Depois, do cavalo saltarão Eles.
E nos levarão até o último florim.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Foto: vita-passione-amore-emotu.blogspot.com
A estranha procissão de lêmures
Emanoel Barreto

A velha construção era a casa dele. Antiga, e vasta como o passado, o solar era um largo ambiente de muitos quartos, três salas e um primeiro andar com outras tantas acomodações. Ao redor, protegida por alto e austero muro, um gramado malcuidado ainda respirava os ares de quando era uma elegante floração de flores e verde arrodeando toda a ainda imponente construção.

Ali morava, sozinho. Uma vez por mês, realizava, à luz de velas, uma solitária cerimônia. Cercado pelo mobiliário centenário, tendo bem perto da mão um brandy e charutos, recebia uma procissão de lêmures e com eles conversava.

O que eram? Lembranças, reminiscências sofridas, pequenas histórias de si. Chegavam um a um e postavam-se, embuçados em vestes brancas, tristes como o frio, em semicírculo. E o velho barão, o último de sua linhagem, conversava com tudo o que vivera e o que deixara de viver. Todos aqueles espectros representavam, cada um, alegrias, derrotas, desfeitas sofridas, vitórias que impusera.

E assim, ele viveu até seus últimos dias, com aquela família de recordações fugidias. E um dia, quando foi encontrado morto por um empregado que vinha ali mensalmente, tinha na direita um copo de brandy e, no rosto, um sorriso amargo.

Conheci o personagem, há anos. Foi ele que me contou de sua ronda de fantasmas. Depois, foi esquecido e o solar demolido. Somente está sendo lembrado hoje, nesta crônica que fiz, enigmática. Louco? Talvez. Mas, humano, densa e desesperadamente humano.



segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Recebo de Walter Medeiros o texto que abaixo segue:

SE SE CALA O CANTOR

--- Walter Medeiros – walterm.nat@terra.com.br *
Uma música em espanhol chegava pelas ondas do rádio para quem sintonizava a Rádio Havana às 6:00 horas da manhã, naquele tempo em que a censura imposta pelo regime militar proibia tudo, e a cada proibição causava um prejuízo inestimável e irrecuperável ao povo brasileiro. A voz de Mercedes Sosa se juntava às de Juan Baez, Pablo Milanez, Milton Nascimento e Elis Regina, em gritos revolucionários desenhados pelas letras de Violeta Parra, entre elas Gracias a la vida.

Pela manhã, os estudantes repetiam baixinho aquelas músicas, junto com o “Vai levando” de Chico Buarque, “Apenas um rapaz latino-americano” de Belchior e um “Argumento” (Ta legal, eu aceito o argumento / mas não me altere o samba tanto assim) de Paulinho da Viola. E seguiam para a noite aonde, nos bares da vida podiam conversar, mesmo que sob olhares dos agentes da ditadura, gritando pelo garçom que apelidaram de “I me free”, para sentir, pelo menos na imaginação, alguma sensação de liberdade.

Faltava liberdade naqueles bares, naqueles campi e nas ruas, pelas quais circulavam revolucionários em atos clandestinos, na luta por dias melhores na Argentina, no Brasil, na Nicarágua, no Chile, na Espanha, em Portugal, Angola, Moçambique e tantos outros países dominados pelos regimes de exceção. Luta que terminou vitoriosa em todos esses lugares, com a retomada dos processos democráticos a partir de bandeiras que reafirmavam: “O povo unido jamais será vencido”.
Eram momentos de vida ou morte, mas que comportavam versos inesquecíveis na voz de Mercedes Sosa propagando os poemas de Pablo Neruda: “Me gusta cuando calas” e era somente aí que se sentia bem com o silêncio. Não o silêncio imposto pela censura, mas o silêncio do amor. Eram versos daquelas belas páginas de “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada”, na qual Neruda mostrava um dos maiores gritos da história do homem: “Posso escrever os versos mais tristes esta noite”.

A tristeza veio da truculência, quando Juan Baez foi probida de cantar no Brasil, sob alegação de que sua música era subversiva. Ela que planejava trazer gande prestígio à música brasileira, gravando um disco completo com músicas de Chico Buarque de Holanda. Da mesma forma que nos carnavais brasileiros a censura proibia até ouvirmos a marcha “Bandeira Branca” com Dalva de Oliveira, confundindo-a com a música “Bandeira Branca” de Geraldo Vandré.

Nesta manhã de outubro chega a notícia da morte de Mercedes Sosa. Aquela lutadora que percorreu continentes em nome das mães argentinas e dos povos oprimidos, transformando-se numa cidadã do mundo. Que escreveu belíssimas páginas da música popular, cantando sempre com seu imenso coração e enfeitando o mundo com sua voz forte e poderosa. Com a morte de Mercedes Sosa – como diz a música “Se se cala el cantor” - cala-se um pouco a vida.
*Walter Medeiros é jornalista

domingo, 4 de outubro de 2009


Adiós, Negra
Emanoel Barreto

Mercedes Sosa. Solitária luna,
alma grande de imensidões.
Adios, Negra.
Luz e Sol da América do Sul



Copa do Mundo e Olimpíada: alucinação em dose dupla. Depois, a decepção para um povo que já vive um pesadelo.

Emanoel Barreto

sábado, 3 de outubro de 2009

Foto: Estadão
A Olimpíada, o pão e o circo
Emanoel Barreto

Confesso, gostaria de compartir da alegria que pulsa em milhões de corações. Confesso, estou mesmo um pouquinho feliz, pela Olimpíada de 2016. Afinal, como Deus, só que eu pecador, também sou brasileiro. Mas essa pequena réstia de felicidade, esse pontinho de luz que se acendeu em mim, não é suficiente para fazer-me ingressar sem pensar na grande multidão em festa em que o Brasil se tornou.

Pense comigo: seria preciso virem para o país os jogos olímpicos, para que, no Rio, venham a ser feitas as obras prometidas em função da Olimpíada? Será que o povo carioca não seria merecedor de tudo o que está previsto em termos de infra-estrutura e melhoria de qualidade de vida naquela ilustre cidade?

O povo brasileiro vai pagar 28 bilhões para ter direito à festa, ao circo. E o pão social, aquele pão histórico de justiça social, promoção humana, distribuição justa de renda, escola, segurança e respeito ao homem, a democracia social, onde ficam?

Alguém será bastante tolo para não perceber que, por trás dos jogos, há todo um esquema voltado ao lucro; que o Estado será o grande financiador de tudo? O país passa por um momento auspicioso, é verdade.

A economia está equilibrada, a crise não nos triturou, veio o pré-sal e o clima social, de forma epidérmica, dá a entender que estamos no melhor dos mundos. Mas, não é verdade. Temos gandes e graves problemas estruturais. No Rio aflora um deles, a barbaridade do crime nas ruas indica que, dos bolsões de probreza em suas favelas, nascerão mais e mais crianças e jovens que terão no crime sua forma de participar do mundo. Fiquemos por aqui. É só a ponta do iceberg.

Depois, que venham os jogos. Teremos circo. Mas o pão, pão social, este será destinado a poucos.


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Kevork Djansezian/AP

Inocência ultrajada
Emanoel Barreto

A Folha diz: A galeria de arte Tate Modern, de Londres, retirou de uma exposição sobre arte pop uma foto da atriz Brooke Shields nua aos dez anos de idade que estava provocando polêmica.
A obra do artista Richard Prince foi feita em 1983 a partir de uma imagem capturada pelo fotógrafo Gary Gross, e mostra a atriz de "Lagoa Azul" nua, enquadrada do joelho para cima, usando maquiagem carregada e olhando diretamente para a câmera.
A polícia metropolitana de Londres aconselhou a galeria na decisão de não incluir a foto na mostra "Pop Life: Art in a Material World" (Vida Pop: Arte em um Mundo Material), que será inaugurada hoje.
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A arte pop, que nada tem a haver com o que no Brasil vulrarizou-se como pop, nas vozes de cantores de talento pelo menos duvidoso. O movimeto pop, que teve na figura icônica de Andy Warhol seu principal expoente utilizava-se de motivos advindos da publicidade, para tratar de temáticas urbanas. É dele a frase "no futuro, todos serão famosos por quinze minutos."

Pois bem: a obra de Prince é um demonstrativo de como a radicalidade de um ato artístico pode correr sobre o perigoso monotrilho do sensacionalismo. A foto, feita com permissão da família da criança, nos leva a uma reflexão: até que ponto, em nome da liberdade de expressão, é possível ou aceitável que a inocência seja usada - ou ultrajada - sob o questionável nome de arte.

Se o intuito era alguma forma de contestação ao establishment, o autor caiu numa forma cruel de exploração infantil, sem dúvida atendendo aos intentos nada recomendáveis de seus familiares.

ZOORÓSCOPO

RATO - Espertos que só eles, o ratianos são aqueles tipos rápidos e imprevisíveis. São encontráveis em todos os ambientes, de trabalho, estudo, literário etc..., etc..., etc... Seus atos vão desde se aprveitar da criatividade ou trabalho dos outros, até a destruição de pessoas ou suas reputações. São facilmente reconhecíveis, aproveitadores e não têm limites. Cuidado, especialmente se você for de Beija-flor: eles lhes tomam os beijos e matam a flor.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Ilustração: Seu Estranho Blogspot
Olimpíada, tudo bem?
Emanoel Barreto

Nesta sexta o Comitê Olímpico Internacional decide qual a sede da Olimpíada de 2016. O Brasil está se dispondo a gastar milhões e milhões com os jogos, quando deveria encaminhar esse dinheiro a coisas mais urgentes. Ou será que não temos, lá mesmo, no Rio, onde se pretende que seja a Olimpíada, algo mais premente, como violência, a ser combatida? Violência que vem da pobreza, da miséria, do tráfico de armas e de drogas. Saúde, está tudo bem? Educação, tudo bem?

Essa combinação de esporte e desvio de atenção do povo para seus reais problemas somente beneficiará a iniciativa privada, cujos lucros serão imensos. O povo, o povo mesmo, terá apenas pão e circo.

ZOORÓSCOPO
Previsões satíricas, perfis malandros

HIENA - Tenha muito cuidado com os deste zoosigno. Vivem a rir da desgraça alheia, especialmente se ajudaram a fazer de alguém o desgraçado. O hieniado é mau, decidido, quer e sempre chega aonde quer, mas tudo é válido para uma boa gargalhada. Neste momento muita gente nascida em Hiena está torcendo para o Rio ser escolhido sede da Olimpíada de 2016.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Coisas de Jornal será atualizado nesta terça.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Tudo, menos Serra...
Emanoel Barreto

Se o homem é o lobo do homem, o governo é o lobo de todos. Nenhum governo, nenhum homem pode se assumir, com honestidade e sentido histórico, como salvador e guia de um povo. Se numa ditadura, é impostura forjada e mantida à força das armas; se numa democracia, a convivência histórica de contrários obriga o governante e o governo a consessões, que, não raro, se voltam contra o povo.

O governo Lula tem pecado socialmente pelas suas alianças com setores arrivistas como o PMDB, que esqueceu suas bandeiras históricas para atirar-se com grande voracidade a cargos e partilhas, patranhas e... você sabe. Pôs em prática coisas que havia criticado no PSDB de Fernando Henrique, como o imposto do cheque e onerou aposentadorias.

Todavia, não seguiu o caminho da privatização desvairada. Lula goza de alta aprovação, medida em pesquisas, mas não consegue dar força à candidatura Dilma.

O importante, nesta quadra histórica, é impedir a volta de um tucano ao Poder, seja ele Serra ou Aécio. O temor, o meu temor, é que um dos dois, eleitos, venham a leiloar o petróleo ao capital internacional, especialmente o pré-sal, reserva que tem ativado o olho-gordo dos países ricos.

Votar em qualquer pessoa: Marina, Dilma ou Ciro. Jamais em alguém do PSDB. Os três citados inicialmente, pelo menos é o que espero, não se atirariam a um lesa-pátria, como sem dúvida o fará o tucano Serra.

ZOORÓSCOPO
Previsões satíricas e perfis malandros

Canário - Parabéns, se você é um canariniano. Tem inesgotáveis dotes musicais. Dominador do dom da música, prefere conviver com Pavão, pois a beleza, naturalmente se atrai. Um canariniano, casando com mulher de Beija-Flor, com certeza será feliz. O problema é que, de tanto serem belos e muito vaidosos, podem se esquecer de trabalhar.... Assim, muitos deles optam pela carreira política. Muita gente de Pavão vai assumir, logo logo, alguma das vagas de vereador, na festa de arromba promovida pelo Congresso.