quinta-feira, 31 de julho de 2008

O Trovador que partiu

Caras Amigas,
Caros Amigos,
O jornal espanhol "El Mundo" disse hoje em suas versões digital e impressa que, com a saída de Gilberto Gil do Ministério da Cultura o presidente Lula "perde o seu trovador". É verdade. E perde, como perdeu com a saída da ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, uma das poucas figuras emblemáticas e efetivamente coerentes do Governo, que desde o seu primeiro mandato já estava tão longe das bandeiras históricas do PT.

Gil parece ser um personagem destinado a fazer história: nos anos 1960, firmou-se ao lado de Caetano Veloso como um dos líderes do movimento tropicalista, que rompeu com os cânones de uma música popular brasileira centrada no vozeirão e nas lamúrias. Sua poética nova trazia novos rumos ao nosso cantar.

Hoje, historicamente, pode-se evocar os clássicos de nossa música, revalorizados pelos mesmos ex-tropicalistas que, cumprida a missão de revolucionar, souberam retirar as brumas que eles mesmos criaram.

Mas estou me afastando do assunto, que é a saída de Gil. Sua presença foi meio metafórica, não dispunha de muitos recursos para trabalhar, mas cumpriu dentro do possível o seu papel. Acho que é um grande músico e um grande ser humano. Valeu.
Emanoel Barreto

terça-feira, 29 de julho de 2008

Sobre o blog

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Estarei fora alguns dias. Sempre que puder, atualizarei o Coisas de Jornal.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Dacadência sem elegância

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Pode parecer incrível, mas é Madonna, a estrepitosa cantora que há anos varria o mundo com sua música e com um way of life que a colocavam como uma espécie de menina má, irreverente e quebradora de regras. Somente esqueceu uma coisa: as imperdoáveis regras do tempo, que tudo apagam e tudo avariam, inclusive e especialmente o corpo humano.

Num mundo onde se valoriza ao extremo a beleza, a juventude, o dinheiro, o sucesso e todos os seus sucedâneos, ou seja: tudo o que há de material e por isso mesmo transitório, a descida, a queda, choca; e coloca aos olhos, especialmente ao olhar, que esses valores, tão incensados pela publicidade e pelo sistema que desta se utiliza, são falsos, cultivam necessidades fabricadas.

Veja-se uma coisa: as regras de beleza programam que a mulher deve ser magra, esguia. E isso deflagra uma multidão de moças que se esmeram em castigar o corpo para estar "na moda". Isso lubrifica um sistema perverso de investimentos e lucros sobre o corpo da mulher, que se vê como objeto e assim se assume, em nome de uma elegância volátil.

Madonna faz 50 anos em agosto. Mas, agora, aparentemente, não há gosto na vida. O tempo está passando e a cantora de "Like a Virgin" é apenas mais um exemplo da frivolidade que o sistema criou e logo, logo, vai refugar. Madona mia...
Emanoel Barreto
Foto: Crosby Group

domingo, 27 de julho de 2008

Cavalgadas, tendas e estrelas

Caras Amigas,
CarosAmigos,
Parece ter chegado o tempo
em que não podemos mais
olhar a nossa própria face.
Quebrem-se todos os espelhos.

Cavalgadas insolentes nos atiraram
aos abismos mais terrificantes,
e perderam-se todos os azuis.

Passos tardos nos levam a destinos,
que são tantos e em em tantas direções,
que dá medo escolher qual o caminho.

Todavia, talvez ainda se possa,
em raras pessoas,
em tão raros momentos,
esperar que surja algo longe,
tão longe,
escondido na neblina,
a nos dizer: ainda há tempo e vida.

E talvez ainda se possa, como Antero,
cantar em silêncio estas palavras:
"A galope, a galope, ó fantasia,
Plantemos uma tenda em cada estrela."
Emanoel Barreto

sábado, 26 de julho de 2008

Obama, o novo César

Caras Amigas,
Caros Amigos,
As coisas de jornal informam que Obama emedalha manchetes e emplastra à sua candidatura uma aparente maré montante prestes a vitoriar. São as coisas da política; desde os tempos de Cícero na Roma antiga e sua voz de orador emblemático, tem sido assim, com os Césares e seus capitães.

Multidões acorrem ao circo romano montado pela mídia e auguram que Obama atravessará seu Rubicão com louros à cabeça e ramos de oliveira agitando abraços, palmas, gritos, efusões.

O jovem candidato a presidente do mundo surge como um escravo núbio, que saindo do cativeiro histórico do seu povo, acende em muitos a esperança de que fará algo de novo no grande império do Norte.

São só esperanças; ele é parte, e muito parte, do establishment. Sua figura é apenas metáfora meteórica no instante da história- não poderá alterar a estrutura, talvez, somente um pouco, a conjuntura.

Enquanto isso, legiões aderem à sua candidatura e se postam como centuriões, alargando as coortes de votantes, empilhando ao seu redor a marcha que aparenta ser triunfal. Vamos esperar, vamos ver.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 24 de julho de 2008

De lobisomens sem lua

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Encontrei na net uma crônica de Vicente Serejo, onde ele falava de coisas antigas, do passado tansformdo em página da memória; de livros, da Ribeira, dos tempos, enfim. Magnífico exemplar de texto em crônica. Mandei-lhe um bilhete de e-mail e ele publicou em sua Cena Urbana. Vejam:

SAUDADES
Sim, somos homens de tempos passados. Lobisomens velhíssimos. Daí essas lembranças imprestáveis para os tempos modernos. Tão velhos que as lembranças correm sem pressa, como no seu bilhete-relâmpago, de um Emanoel Barreto de alma lírica. Ó tempos! Ó saudades!

Velhíssimo Serejo,
Mexendo no teclado do computador encontrei no tear da internet, essa aracne de teia virtual, sua crônica "Das coisas velhas". E vendo você falar do tempo e das lembranças, da Ribeira adormecida em seu sono de cais; de fantasmas e dos livros empoleirados, sou também levado pelo tempo a descobrir que a lembrança é um caminho por onde se corre sem pressa; é preciso ver se o passado está em dia.

E a relembrar a você uma coisa, que lhe disse há muitos anos, redação velha do Diário de Natal: "Na saudade, Serejo, somos todos lobisomens sem lua."
Abraços antigos, deste também velhíssimo,
Emanoel Barreto

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O Tempo, sempre o Tempo...

Caras Amigas,
Caros Amigos,

Quando alguém se encontra com o Tempo, ele não pede as horas nem anuncia nada.
O Tempo segue um rumo que ele mesmo desconhece; estranha nossos relógios, repudia nossas expectativas, desdenha nossos temores. Afinal, expectativas e temores, ansiedade, não são formas de marcar o tempo?

O Tempo é um prestimoso amigo de outra forma temporal: o Destino.
Tempo e Destino andam juntos.
E enquanto Tempo é medido, marcado, esperado, des-esperado, Destino não se apressa. Irmão de Fatalidade, descansa, aguarda. Um dia, Fatalidade o despertará. E Destino chamará Tempo, que é implacável instante que nos leva pelas mãos de Saudade.
Emanoel Barreto

terça-feira, 22 de julho de 2008

Os novos super-heróis

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A Folha Online está divulgando o seguinte:

Saem em outubro, pela IDW, as biografias em quadrinhos de Barack Obama e John McCain. Terão 23 páginas cada uma (a de Ronald Reagan tinha 110) e serão escritas por, respectivamente, Jeff Mariotte e Andy Helfer e desenhos de Tom Morgan e Stephen Thompson. As ilustrações das capas são de J. Scott Campbell (Gen13, Danger Girl).

--- O americano soube, como nenhum outro povo, criar auto-representações que louvam e eternizam na efemeridade do presente seus heróis e seus mitos. Não sabia da prática de quadrinizar seus candidatos a presidente da república, mas agora vejo que até nisso eles sabem como fazê-los "super".

Numa clara alusão ao Super-Homem, os candidatos são apresentados numa atitude desafiadora e olímpica, forte e altaneira. Por implicação, reúnem todos os atributos do herói e reenfatizam o sonho americano. Observem que as imagens colocam quem as vê em situação de inferioridade, sugerindo que as figuras impávidas estão acima e além daqueles que, reverentes, as vêem como símbolos perfeitos da figura presidencial, que lá é uma espécie de entidade que tem vida própria, somente mudando de corpo de tempos em tempos.

Eles olham para a frente, para o futuro, um futuro que lhes cabe construir, deixando atrás um passado de vitórias, escombros e escolhos, resultado da sua atuação como líderes do mundo. A figura de Obama está mais séria, olhar duro; a de McCain traz um sorriso triunfante e cheio de si.

Em ambas, a unicidade da utopia americana: dominar, vencer, realizar-se; realizar os outros segundo suas intenções e propósitos; enfim, colocar os Estados Unidos na situação de condutores do mundo. Os que estão abaixo são a periferia; os que estão abaixo, ficam como os gladiadores que diziam ao entrar na arena: "Ave, César; os que vão morrer te saúdam."
Emanoel Barreto

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Os proprietários do Mal

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Estados Unidos estão impondo ao Irã o prazo de duas semanas para que cesse com seu programa de enriquecimento de urânio. Caso contrário, o Conselho de Segurança da ONU tomará represálias contra os iranianos, que já se encontram sob forte pressão internacional a fim de que não produzir bombas atômicas.

Idiotice à parte dos dois lados - do Irã em querer artefatos nucleares quando seus dirigentes deveriam estar se preocupando com a fome do seu povo; e dos Estados Unidos em querer ser a polícia do mundo -, os EUA parecem com isso querer dizer que são os proprietários do Mal. Os senhores da sina de dominar, explorar e, se preciso, varrer do mapa qualquer nação que a juízo de seus mandatários seja vista como inimiga.

Interessante foi a declaração da secretária Condoleeza Rice sábado passado, quando afirmou que seu país "não tem inimigos permanentes". A assertiva põe à mostra o dado ético da questão, ou seja: paradoxalmente, a total falta de ética. A impermanência ou permanência de inimizades depende dos interesses americanos, satisfeitos ou não. Atendendo-se aos seus apetites, esquecidas estão as divergências, etc... etc... etc...

Como proprietários do Mal, os Estados Unidos querem estar sozinhos. O acesso à morte, a morte como instrumento administrativo de sua política externa, deve ser seu, somente seu, de mais ninguém.
Emanoel Barreto

domingo, 20 de julho de 2008

Os pássaros e as suas mãos

Caras Amigas,

Caros Amigos,

Estou tendo problemas para enviar posts. Creio que é algo com o blogger. Com muita luta consegui enviar este pequeno texto e um poema de Mário Quintana.

Abraços,

Emanoel Barreto


OS POEMAS
Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde

e pousam no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam

como de um alçapão.

Eles não têm pouso nem porto

alimentam-se um instante em cada par de mãos

e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,

no maravilhado espanto de saberes

que o alimento deles já estava em ti...

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Fugitivo da injustiça

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Leiam este texto da Folha de S. Paulo:
"O ex-banqueiro Salvatore Cacciola afirmou nesta quinta-feira, no Rio de Janeiro, que nunca foi um foragido da Justiça. "A primeira coisa é que eu nunca fui um foragido. Fui para a Itália com passaporte carimbado", disse. O ex-dono do Banco Marka está foragido do Brasil há oito anos. Ele foi condenado à revelia no Brasil a 13 anos de prisão pela prática de vários crimes."
As declarações foram prestadas logo após o desembarque. Numa demonstração de que tem em si um misto de cinismo, tara social, depravação prazerosa e apetites financeiros viscosos, Cacciola zomba do povo brasileiro, zomba da nossa pobreza, escarnece dos dramas de milhões de pessoas que vivem na linha ou abaixo da linha de pobreza.
Ele contribuiu vigorosamente para a manutenção desse quadro. Com as manobras financeiras que perpetrou, amuletado pelo governo Fernando Henrique Cardoso, que lhe facilitou dólares que visavam impedir a quebra do banco Marka, de sua propriedade, Cacciola é mais um grande retalho a compor o mosaico da tragédia nacional: poucos com muitíssimo; muitíssimos sem nada - ou quase.
E o pior ainda está por vir. Temo que em breve esteja solto. E rico. Muito rico.
Sim, com relação ao título da coluna, é o seguinte: refiro-me ao povo brasileiro. Se Cacciola se diz um não-foragido da justiça, podemos afirmar, em linha inversa, que nosso povo é eternamente um fugitivo da injustiça. Mas, lamentavelmente, sempre na próxima esquina a injustiça está à sua espera. Eterno labirinto.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Macabros e perversos

Caras Amigas,
Caros Amigos,
O comportamento dos que se declaram líderes de algum povo ou facção política está manifestando sintomas insânia; isso sem levarmos em conta as manifestações de mesquinhez, estupidez, brutalidade. Vejam esse texto que transcrevo do Estadão Online:

JERUSALÉM - O grupo xiita Hezbollah entregou para a Cruz Vermelha Internacional dois caixões com os corpos dos soldados israelenses Ehud Goldwasser e Eldad Reguev, seqüestrados em 12 de julho de 2006. O episódio que deu início à guerra entre Israel e Líbano naquele ano.

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha levou os caixões para Israel. Oficiais do Ministério da Defesa confirmaram que os corpos entregues pelo Hezbollah eram do militares israelenses. Os corpos dos soldados deverão ser ser trocados por cinco presos libaneses - entre eles Samir Kuntar, militante condenado à prisão perpétua por um duplo homicídio em 1979. Os prisioneiros já foram levados pela polícia israelense para a fronteira com o Líbano. Além deles, Israel deverá entregar também os corpos de 199 libaneses mortos durante a guerra.


--- É isso: chegamos ao ponto em que "negociações" e "manifestações de bom senso" estão sendo encaminhadas para a troca de... cadáveres. E cadáveres cuidadosamente guardados pelos beligerantes. Macabros mesmo. Excetuando-se o fato de que em si, do ponto de vista de familiares, sua afetividade e dor típicas da condição humana, seria aceitável esse tipo de atitude, esse acontecimento dá bem conta da insensatez louca e perversa da mentalidade bélica.

A guerra em si perde sua instância de conflito histórico, para se tornar a guerra pela guerra. Começou-se a lutar por algum motivo e depois de assimilada a guerra como jogo, esta passa a ser o motivo em si: querem se matar e pronto. A demonstração é a troca de corpos, como se fosse isso uma vitória de ambos os lados.

Há algo de loucura nisso tudo; seja na guerra, seja nessa macabra transação. Não há um passo firme em direção à paz. Mas, tão-somente, mais um episódio da trágica vivência humana. Um disparate, um acabrunhante sintoma de que a humanidade vai firme e forte no caminho de perder por completo a lucidez.

Emanoel Barreto

segunda-feira, 14 de julho de 2008

O tempo, o tempo, o tempo...

Caras Amigas,
Caros Amios,
Transcrevo soneto de William Shakespeare. Belo.
Emanoel Barreto

Quando penso que tudo o quanto cresce
Só prende a perfeição por um momento,
Que neste palco é sombra o que aparece
Velado pelo olhar do firmamento;

Que os homens, como as plantas que germinam,
Do céu têm o que os freie e o que os ajude;
Crescem pujantes e, depois, declinam,
Lembrando apenas sua plenitude.

Então a idéia dessa instável sina
Mais rica ainda te faz ao meu olhar;
Vendo o tempo, em debate com a ruína,

Teu jovem dia em noite transmutar.
Por teu amor com o tempo, então, guerreio,
E o que ele toma, a ti eu presenteio

sábado, 12 de julho de 2008

Classificados de empregos: atenção, últimas vagas


Caras Amigas,
Caros Amigos,
Empresa nacionalmente conceituada, com sede em Brasília, admite profissionais qualificados, com a máxima urgência, para as seguintes especialidades:

Corrupto - os candidatos devem apresentar currículo com descrição de suas atividades nos últimos cinco anos e cartas de recomendação. Exige-se discrição, competência para subornar, fraudar, mentir, perjurar, caluniar, difamar, desviar fundos públicos e formar empresas em paraísos fiscais.

Patife - para o cargo é preciso que não se tenha qualquer caráter, meios termos ou noções de ética ou moral.

Prevaricador - especialidade da qual se exige muita perícia, o pretendente deve necessariamente conhecer os meandros da administração pública e dispor-se a ter comportamento compatível com o cargo ou seja: não temer a lei e ter certeza de impunidade.

Pilantra - cargo operacional, o candidato deverá demonstrar gênio assombroso para agir sob pressão e transportar valores sob risco de captura. Garantimos assistência jurídica compatível.

Safado - os admitidos serão treinados como tropa de choque para possíveis enfrentamentos com a polícia. Assegura-se aos contratados planos de fuga em caso de cometimento de crimes de morte no cumprimento do dever.

Maus caráteres - essenciais em toda organização como a nossa, o mau caráter deve, imperativamente, esquecer quaisquer aspectos atinentes a coisas como respeito por verbas destinadas a obras sociais urgentes e estar dispostos a municiar de informações os demais setores aqui mencionados.

Laranjas - tais especialistas devem ser suficientemente ingênuos (às vezes nem tanto), para liberar suas contas bancárias ou endereços a fim de que possamos, por esses meios, implantar uma poderosa organização de desvio de fundos.

Trambiqueiros - tipos dotados de notável amoralidade, serão utilizados em pequenos serviços, como subornar funcionários dos escalões mais baixos, a fim de obter informações que, circunstancialmente, venham a ser necessárias ao empreendimento de grandes golpes no erário.

Lobistas - importantíssima função, o lobista precisa ter grande rede de contatos e estar disposto a fazer funcionar seu arsenal de relações. Em caso de necessidade, pode usar de artifícios que vão da simples mentira até a coação, a fim de conseguir a obtenção de ganhos imorais.

Vigaristas - última especialidade com vagas, o vigarista deve ser criativo, ter dotes teatrais e sugerir aplicações de golpes nos mais diversos setores da administração, fazendo-se passar por figurões ou ricaços.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 11 de julho de 2008

O povo estropiado e os ricos descontentes

Caras Amigas,
Caros Amigos,
O recente episódio da prisão de três ilustres apropriadores das coisas do povo trouxe a público algo até então, para mim, apenas latente: o poderoso sistema de proteção que a elite estabelece para si, cobrando da polícia tratamento especial para os criminosos, digamos.., de classe...

Vocês entendem o que quero dizer...

No senado, enquanto o senador Pedro Simon erguia sua ira santa contra os criminosos e defendia que eles deviam, sim, ser algemados no momento da prisão, o senador Arthur Virgílio dizia que não, que as algemas eram desnecessárias e que houvera espetacularismo da Polícia Federal ao permitir que fossem gravadas as cenas da captura dos procurados.

Virgílio, não tenho dúvida, era movido pelo sentimento de solidariedade de classe. Nada pior para alguém da elite que ver um seu igual atirado ao laço da polícia e aparecer não na coluna social, mas no jornalismo que denuncia a ocorrência de crimes e os seus fautores.

Jamais vi o senador lamentar que algum pobre tenha sido preso sob as lentes das câmeras; e isso ocorre todo dia. As elites até aceitam ter alguns dos seus capturados: mas com elegância, tremiliques, discrição e charme. A Polícia Federal, portanto, precisa é de savoir faire, luvas de pelica, gestos delicados. Xá pra a escola de boas maneiras, seus policiais malvados!!!

Imagine, um ricaço ser preso sob o alarde da populaça. É algo inaceitável. Afinal, ele não matou, não estuprou, não torturou, não esganou; não tem as mãos, como se dizia antigamente, tintas de sangue. Seu crime é branco, alvo como os papéis onde redige seus mandados secretos e viscosos.

E quando o rico patife é trazido à luz, quer agir como os vampiros: ocultar-se depressa, para não morrer. De vergonha não é, pois não a tem; mas para escapar do brilho que lhe ilumina a cara, que queria ter sempre em meio às sombras tão amigas.
Emanoel Barreto
Ia esquecendo: a foto é para mostrar o resultado da corrupção: os pés estropiados do povo, que somente vê na cadeia um outro pobre; e não encontra, entre os presos, aqueles que bebem os crimes em goles de champanhe.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

A carne empacotada

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A Peta é uma organização cuja sigla em português quer dizar algo como "pessoas a favor dos direitos dos animais". Caracterizada por intervenções pouco convencionais, sempre apelando para a nudez de seus adeptos em atos públicos, a Peta nos aponta algo que é terrível e acompanha a humanidade desde o seu nascedouro: a crueldade.

No caso, eles apontam a crueldade contra os animais, mas, de fundo, referem às ações brutais do ser humano em situação plena, ou seja: atingindo outras pessoas, animais e o meio ambiente. A metáfora apresentada pela ilustração faz-nos pensar. Trata-se de uma licença poética dramática. E, ao vermos seres humanos empacotados como se faz com carne de animais em supermercados, vem-nos ao olhar aquela tristeza pesada: como somos violentos.
Emanoel Barreto

terça-feira, 8 de julho de 2008

Logo, logo, ele vai estar solto...

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A foto mostra o momento em que Celso Pitta, ex-prefeito de São Paulo era capturado pela Polícia Federal. Ele, Naji Nahas e Celso Dantas são nacionalmente conhecidos como corruptos. Todos foram presos. Detalhe: se todos os corruptos que a PF captura fossem mantidos na cadeia, em breve surgiria uma empresa especializada para criminosos de fino trato, a lhes atender pedidos de caviar e outros, permitam-me, acepipes, adequados às suas requintadas práticas culinárias.

Mas a verdade é a seguinte: em mais alguns poucos dias todos estarão soltos. Não vou enumerar a lista de acusações de cada um; deixo para as coisas de jornal. Aqui, somente lamentar esse estato de coisas.E mais: tenho convicção de que crimes de colarinho branco, quando não são punidos, de alguma forma repercutem no que chamamos de democracia.

Com a impunidade historicamente instalada, cria-se uma cultura em que as pessoas passam a desacreditar na eficácia das leis; esquivos e bem remunerados advogados promovem salamaleques jurídicos e terminam por libertar seus polpudos constituintes.

E onde existe uma situação tal é indício de que a democracia, que inclui o estatuto de não roubar e não deixar roubar, termina arranhada. Além, é claro, de questões como a fome, a miséria e a pobreza, que também autorizam a dizer que no Brasil não há democracia.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Vamos chamar Branca de Neve?

Caras Amigas,
Caros amigos,
Sob pressão da CBF, Dunga convocará Ronaldinho Gaúcho para compor a Seleção que disputará o jogos de Pequim. As coisas de jornal andam dizendo que será sua última chance. Se fizer papel feio, a Bruxa estará solta e ele terá que fugir para a mina dos Sete Anões.

Desde o princípio, tive a impressão de que Dunga não daria certo. Lembram da Lei de Murphy, aquela que diz que se uma coisa pode dar errado ela dará errado? Creio que foi isso o que aconteceu. A não ser por efeito de alucinação, alguém poderá dizer que a Seleção vem jogando bem, ou muito bem, como seria de se esperar.

O grupo vem se arrastando, passo a passo, pesadamente, na tentativa de classificação para a Copa do Mundo. E caso Dunga continue com esse jogo da altura de um rodapé, talvez seja melhor chamar Branca de Neve.
Emanoel Barreto

domingo, 6 de julho de 2008

A mão que quer calar a nossa voz

Caras Amigas,
Caros Amigos,

Recebi colegas de professores universitários um manifesto em defesa da liberdade de expressão na internet. O texto é longo, mas vale a pena ser lido.
Bom domingo,
Emanoel Barreto

A Internet ampliou de forma inédita a comunicação humana, permitindo um avanço planetário na maneira de produzir, distribuir e consumir conhecimento, seja ele escrito, imagético ou sonoro. Construída colaborativamente, a rede é uma das maiores expressões da diversidade cultural e da criatividade social do século XX.

Descentralizada, a Internet baseia-se na interatividade e na possibilidade de todos tornarem-se produtores e não apenas consumidores de informação, como impera ainda na era das mídias de massa. Na Internet, a liberdade de criação de conteúdos alimenta, e é alimentada, pela liberdade de criação de novos formatos midiáticos, de novos programas, de novas tecnologias, de novas redes sociais.

A liberdade é a base da criação do conhecimento. E ela está na base do desenvolvimento e da sobrevivência da Internet.A Internet é uma rede de redes, sempre em construção e coletiva. Ela é o palco de uma nova cultura humanista que coloca, pela primeira vez, a humanidade perante ela mesma ao oferecer oportunidades reais de comunicação entre os povos. E não falamos do futuro. Estamos falando do presente. Uma realidade com desigualdades regionais, mas planetária em seu crescimento.

O uso dos computadores e das redes são hoje incontornáveis, oferecendo oportunidades de trabalho, de educação e de lazer a milhares de brasileiros. Vejam o impacto das redes sociais, dos software livres, do e-mail, da Web, dos fóruns de discussão, dos telefones celulares cada vez mais integrados à Internet. O que vemos na rede é, efetivamente, troca, colaboração, sociabilidade, produção de informação, ebulição cultural.

A Internet requalificou as práticas colaborativas, reunificou as artes e as ciências, superando uma divisão erguida no mundo mecânico da era industrial. A Internet representa, ainda que sempre em potência, a mais nova expressão da liberdade humana. E nós brasileiros sabemos muito bem disso.
A Internet oferece uma oportunidade ímpar a países periféricos e emergentes na nova sociedade da informação. Mesmo com todas as desigualdades sociais, nós, brasileiros, somo usuários criativos e expressivos na rede. Basta ver os números (IBOPE/NetRatikng): somos mais de 22 milhões de usuários, em crescimento a cada mês; somos os usuários que mais ficam on-line no mundo: mais de 22h em média por mês.

E notem que as categorias que mais crescem são, justamente, "Educação e Carreira", ou seja, acesso à sites educacionais e profissionais. Devemos assim, estimular o uso e a democratização da Internet no Brasil. Necessitamos fazer crescer a rede, e não travá-la. Precisamos dar acesso a todos os brasileiros e estimulá-los a produzir conhecimento, cultura, e com isso poder melhorar suas condições de existência. Um projeto de Lei do Senado brasileiro quer bloquear as práticas criativas e atacar a Internet, enrijecendo todas as convenções do direito autoral.

O Substitutivo do Senador Eduardo Azeredo quer bloquear o uso de redes P2P, quer liquidar com o avanço das redes de conexão abertas (Wi-Fi) e quer exigir que todos os provedores de acesso à Internet se tornem delatores de seus usuários, colocando cada um como provável criminoso. É o reino da suspeita, do medo e da quebra da neutralidade da rede. Caso o projeto Substitutivo do Senador Azeredo seja aprovado, milhares de internautas serão transformados, de um dia para outro, em criminosos.

Dezenas de atividades criativas serão consideradas criminosas pelo artigo 285-B do projeto em questão. Esse projeto é uma séria ameaça à diversidade da rede, às possibilidades recombinantes, além de instaurar o medo e a vigilância. Se, como diz o projeto de lei, é crime "obter ou transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular, quando exigida", não podemos mais fazer nada na rede.

O simples ato de acessar um site já seria um crime por "cópia sem pedir autorização" na memória "viva" (RAM) temporária do computador. Deveríamos considerar todos os browsers ilegais por criarem caches de páginas sem pedir autorização, e sem mesmo avisar aos mais comum dos usuários que eles estão copiando.

Citar um trecho de uma matéria de um jornal ou outra publicação on-line em um blog, também seria crime. O projeto, se aprovado, colocaria a prática do "blogging" na ilegalidade, bem como as máquinas de busca, já que elas copiam trechos de sites e blogs sem pedir autorização de ninguém!

Se formos aplicar uma lei como essa as universidades, teríamos que considerar a ciência como uma atividade criminosa já que ela progride ao "transferir dado ou informação disponível em rede de computadores, dispositivo de comunicação ou sistema informatizado", "sem pedir a autorização dos autores" (citamos, mas não pedimos autorização aos autores para citá-los). Se levarmos o projeto de lei a sério, devemos nos perguntar como poderíamos pensar, criar e difundir conhecimento sem sermos criminosos.

O conhecimento só se dá de forma coletiva e compartilhada. Todo conhecimento se produz coletivamente: estimulado pelos livros que lemos, pelas palestras que assistimos, pelas idéias que nos foram dadas por nossos professores e amigos... Como podemos criar algo que não tenha, de uma forma ou de outra, surgido ou sido transferido por algum "dispositivo de comunicação ou sistema informatizado, sem autorização ou em desconformidade à autorização, do legítimo titular"? Defendemos a liberdade, a inteligência e a troca livre e responsável. Não defendemos o plágio, a cópia indevida ou o roubo de obras.

Há necessidade de garantir a liberdade de troca, o crescimento da criatividade e a expansão do conhecimento no Brasil. Experiências com Software Livres e Creative Commons já demonstraram que isso é possível. Devemos estimular a colaboração e enriquecimento cultural, não o plágio, o roubo e a cópia improdutiva e estagnante.

E a Internet é um importante instrumento nesse sentido. Mas esse projeto coloca tudo no mesmo saco. Uso criativo, com respeito ao outro, passa, na Internet, a ser considerado crime. Projetos como esses prestam um desserviço à sociedade e à cultura brasileiras, travam o desenvolvimento humano e colocam o país definitivamente para debaixo do tapete da história da sociedade da informação no século XXI.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Um sonho de abismo

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Talvez um largo tempo a ser perdido,
Quem sabe, instante a ser desperdiçado,
Talvez a queda valha o sonho da Beleza,
Mesmo que o abismo se anuncie: "Cheguei"

Vale a pena mergulhar no abismo,
mesmo que seja o mais belo abismo em todo o mundo?
Vele a pena não correr os riscos,
e morrer em casa protegido - e mesmo assim com medo?

Vale a pena descobrir seus próprios abismos,
conversar com eles e depois partir.
Vale a pena cultivar abismos, plantar-lhes
seus sonhos, conversar com eles e depois ficar.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 3 de julho de 2008

O moral da tropa


Caras Amigas,
Caros Amigos,
Para se destruir um exército não é preciso a sua eliminação física. Um exércico começa a cair quando perde o moral, o incentivo, a motivação para lutar. Então, grassa em seu meio a desarticulação, a sizânia, o acabrunhamento. Creio que é isso o que poderá acontecer com o grupo armado que seqüestra, explora suas vítimas e ganha dinheiro com cocaína na Colômbia.
Com a morte de diversos líderes e agora com a libertação de Ingrid Betancourt, seu mais precioso trunfo, suponho que esse estado de ânimo poderá apoderar-se de seus homens. Tropas não combatem se não estão defendendo uma idéia, uma essência, uma utopia. Quando um grupo armado e supostamente movido por uma ideologia vê esgarçar-se seu tecido social, perde o rumo e o sentido de pertença.
Talvez esteja mais próximo do que se espera o fim das Farc. Não defendo o governo da Colômbia, aliado íntimo dos Estados Unidos; mas também não posso concordar com a vitimização de pessoas, usadas como moeda de chantagem. Espero que a história venha a registrar o fim dos narcoguerrilheiros e, após, a Colômbia possa se encaminhar em direção a uma sociedade democrática, sem exclusão e a brutalidade dos grupos de extrema direita.
Uma situação histórica marcada pela exploração de um povo por elites inescrupulosas, não justifica ação de bando armado que se apresenta como defensor de uma nova realidade social, mas age como quadrilha. O tempo dirá. Esperemos.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Recuerdos de la muerte

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A libertação de Ingrid Betancourt representa um duro golpe assestado sobre os traficantes colombianos que se apresentam como guerrilheiros. As informações superficiais que a net divulgou indicam que a ação resultou de um meticuloso trabalho de inteligência e infiltração junto aos traficantes, o que garantiu a liberdade de Igrid e 14 outros prisioneiros.

Setores da esquerda insistem em atribuir a esse grupo a situação de insurentes e um status político que o coloca bem acima do que realmente são: traficantes e seqüestadores. Em 1964, quando começaram a atuar, as Farc até poderiam ser chamadas de grupo de ação armada revolucionária. Após isso, ao unirem-se a traficantes, não resta dúvida de que são apenas criminosos.

É muito fácil alegar-se uma causa justa, como a defesa de um povo perante uma situação histórica avassaladoramete cruel e opressora, como a que vive a Colômbia. Mas esse discurso se esvai quando o núcleo intelectual regente do grupo cede o espaço da ideologia à busca de dinheiro, adotando táticas de terrorismo e desrespeito aos direitos humanos.

Nada que venha da droga presta. Não há motivo justificador do seu uso como moeda de troca para a obtenção de armas que serviriam a uma suposta revolução. As bandeiras históricas da esquerda, seu humanismo e utopias desejáveis, se esboroam quando mescladas como atitudes típicas de bandidos comuns.

A Colômbia vive uma tragédia nacional. De um lado, as Farc; do outro, os traficantes, digamos, tradicionais a estas aliados, e afinal, no terceiro ponto, um governo que não tem qualquer intenção de mudar o sistema de exclusão social histórico e dantesco.

Com relação a Ingrid, que tenha o direito a uma vida digna e em libedade. Suportou um inferno quando prisioneira dos traficantes. Terá agora que conviver para o resto da vida com os seus recuerdos de la muerte.

Emanoel Barreto

Foto: Agência Efe

terça-feira, 1 de julho de 2008

Meu amigo sapo chinês

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Sou amigo de um sapo na China. É, é, um sapo. Por que não? Sou amigo de um sapo na China, como mantenho excelentes relações de amizade com um tigre de Bengala, um urso polar e um macaco estranhíssimo. Sabe aquele Zubumafu da TV? Pois é: trata-se de um daqueles. São bichos legais, cheios de uma boa conversa e coisa e tal. Pois, bem: ontem, recebi um email do meu amigo sapo, reclamando da situação política de lá, da poluição bárbara que o governo proporciona em nome do progresso. E, claro, dos terremotos. Leiam na íntegra o bilhete do meu amigo sapo. Ele se chama Zong Tiau Zhing. Eis o que disse:
年7月1日

カジメがかわいい
2001年から毎月計測して、生長の様子を見守ってきたカジメたちがある。カジメというのはコンブの仲間の大型海藻で、かたちは海の中の椰子の木みたいな感じだ。岩の上に根を張って固い茎を立てて、その先端に茶褐色の葉を茂らせる。でも、陸の椰子の木とはちがって、大きくても高さはせいぜい2メートル程度なのだ。カジメがつくる海の森は生物の寄り合う場所なので、海辺からカジメがごっそり無くなったりすると、生き物たちもごっそりいなくなる。そんなわけで、カジメを大事にする必要があって、ずっと調べている。いつどんな時によく育つか、どれくらい生きるか、どんなふうに子供を分散させるか、競争はあるか、動物とはどんな関係にあるか・・・などなど知りたいことは尽きない。そんなわけで、毎月水深10メートルまで潜っていって、決まったカジメたち60本ばかりの生長データをとってくる。カジメにもずいぶんと個性があって、ノッポや太ったの、スベスベできれいなのやできものや付着物で被われたもの、真っ直ぐ伸びたものやなんだかグニャグニャ曲がったもの、などいろいろある。違いが分かるので、毎月眺めていると、なんだかかわいく思えてくる。8年目になって、最初の頃の個体はもうみな死んでしまった。寿命は長くても6年程度なのだ。でも、その後植え足したものたちもあり、自然に生えてきたものもあって、まだまだ付き合いは続いている。カジメ君たち今月も会いにいくよ!
投稿者 onenote 場所
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Entenderam? Ficaram preocupados? Não entenderam? Então, explico:
ele está dizendo que, de repente, os sapos passaram a ser perseguidos como inimigos do Estado. A acusação leva em conta o fato de que sapos andam aos saltos e como isso estariam estimulando a concorrência ao estilo capitalista. E isso, mesmo levando-se em conta que o sistema de lá admite uma forma concorrencial entre empresas. Mas o problema é que os sapos, aos pulos, não pagam impostos e agora estão sendo duramente caçados. Pular, na China, significa driblar, enganar, esquivar-se, entendem? Por isso, ele está na mira dos tiras.

Estou providenciando um esquema clandestino par libertar meu amigo sapo e sua mulher. Mas, já estou com dor na consciência. Quando ele chegar, logo vão notar que não fala uma palava de português e talvez queiram deportá-lo. Talvez mesmo a Polícia Federal monte a Operação Brejo Seco para capturar o meu amigo.

Por precaução vou levá-lo para a Amazônia. Mas o prloblema, lá, é ele escapar da devastação. Mesmo assim, dos males, o menor: aqui, como clandestino, ele não terá que pagar impostos. Pode pular à vontade. Os políticos não fazem o mesmo?
Emenoel Barreto

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Quem nunca quis ser um jogador de futebol?

Caras Amigas,
Caros Amigos,
A relembrança do primeiro campeonato mundial do Brasil, além de evocar-me o início da subida da Seleção como referente internacional no jogo que fascina o planeta, permite também outro enfoque: não sei se hoje ainda somos o gigante, o time que só pelo nome exigia dos adversários reverência, cuidados táticos enormes e uma pontinha de temor. A Seleção era, como dizia Nelson Rodrigues, a Pátria de Chuteiras.

Com a explosão do futebol como negócio na Europa, somos muito mais um celeiro de craques que uma Seleção, no sentido como o brasileiro passou a entendê-la: um patrimônio imaterial do povo brasileiro; uma espécie de ego coletivo que supria ou pelo menos compensava nossa tragédia histórica, amenizando a dor mesma de sermos brasileiros.

A Seleção resgatava nos cantos mais escondidos da nossa alma coletiva um sentimento de pertença, uma alegria louca e linda, um grito dramático de gol que na verdade era um brado de desespero social. As lágrimas da vitória eram as lágrimas escondidas do dia-a-dia.

A Seleção de Dunga, parece-me, é mais um emaranhado de jogadores, uma corda de caranguejos que andam de lado, que uma equipe que mereça ser chamada de Seleção. Hoje, pegamo-nos assistindo jogos de times ou seleções de Europa: e vibrando. A Eurocopa prendeu a atenção dos brasileiros quase como se fosse um jogo da Seleção ou uma final no Rio ou São Paulo.

Alguém dirá: mas é a globalização. Pode até ser, mas representa também uma perda da nossa identidade no esporte que mais representa o brasileiro. O jogo-samba, que enchia nosso olhar de devaneios vibrantes e admiração severa. Sim, severa, porque a Seleção, além de jogar contra alguma outra, jogava contra a sua própria história. Os jogadores tinham como adversários as lendas de Pelé, Garrincha, Didi, Nilton Santos, Jairzinho..., com quem inevitavelmente seriam e são comparados. Toda a mitologia ensina que a Seleção tem de vencer. Ou vence, ou não é "a" Seleção.

Não sei, parece que é inexorável essa mudança, essa perda. Grandes jogadores quase nada rendem quando vestindo as cores do Brasi; mas dão show quanto jogam na Europa. Assim, o nosso povo, desvalido e perplexo, perdeu até mesmo o direito de se chorar em seus gritos de gol.
Emanoel Barreto

Ilustração: http://paulojales.files.wordpress.com/2006/12/futebol.jpg

sábado, 28 de junho de 2008

O-bama! Pá-pá-pá! O-bama! Pá-pá-pá!

Caras Amigas,
Caros Amigos,
De repente, eu me vi torcento por Obama. Aí, alguém pode me perguntar: mas, porquê? Ele não é brasileiro, sua eleição não terá qualquer importância para o Brasil, etc... etc...

Seguinte: primeiro, a eleição de um novo presidente dos Estados Unidos terá, sim, reflexos para a nossa sociedade. Qualquer presidente americano tem importância relativa, maior ou menor, para qualquer país do mundo.

Segundo: torço por ele pelo fato de ser negro. Sua eleição significará uma quebra do paradigma americano - uma sociedade racista, onde até os anos 1960 negros não podiam votar, tinham de ceder lugar a brancos em ônibus e não usavam instalações sanitárias publicas destinadas a brancos; escolas, idem. Isso, para não me aprofundar demais no assunto.

Essa quebra de paradigma tem um alto valor simbólico e literalmente fere e realça uma contradição profunda para aquele povo: Obama vem de família africana e seus ascendentes eram... islâmicos. Fica assim um dilema: votar num homem de origem afro e ainda mais provindo de praticanes de uma religião que, para os americanos, é sinônimo perfeito de barbárie e forjadora de terroristas. Sim, e ainda há um detalhe: Obama é um nome muito parecido com o inimigo público número um dos amricanos: Osama.

Tenho consciência perfeita de que ele não será "bonzinho" com o Brasil, assim como não o será com relação a nenhuma nação; a não ser que, conjunturalmente, isso venha a atender aos interesses do seu país.

Meu interesse em sua eleição, em suma, é em função do dado humano, a lancinante questão para a extrema direita americana: ser governada por um negro. Interessa-me a perplexidade, o olhar de pânico dessas pessoas, ao ver um neguinho presidindo a América. É uma questão que coloca a esse segmento social um impasse, um drama, um conflito. Eles terão que curvar-se à evidência de que um negro é igual ou humanamente melhor que todos os que o discriminam.

Creio que, quebrado o paradigma da etnia (não gosto da palavra raça aplicada a seres humanos), vai se abrir, lá, uma nova janela, inaugurar-se um novo olhar, talvez um pouco melhor do que os americanos têm dos seus próprios compatriotas negros. Algo, mesmo que pequenamente, mudará.

É claro que Obama, para ser eleito, o será em função de que não introduzirá qualquer estatuto que venha a se contrapor ao establishment, à ordem. Ele é um negro perfeitamente assimilado, ou que assimilou, os valores brancos e pode como estes proceder. É um negro confiável aos interesses do poder americano; que não está somente na presidência, mas encravado também nas poderosas empresas do capital monopolista e imperialista dos Estados Unidos.

Ao que escrevi até agora, vocês podem perceber que há toda uma série de contradições: ele é e não é negro; ele é e não é uma reposição da ordem estabelecida. Creio que, somente por isso, pelo repertório de incoerências, vale a pena aguardar sua vitória. Depois, caso eleito, é esperar que a história seja escrita.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Um sinistro concurso

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Há vinte anos um grupo de tontos reúne-se nos Estados Unidos para promover um concurso que escolhe o cão mais feio do mundo. Esse ano o ganhador foi esse aí; só tem três pernas, sofre de câncer na pele e perdeu um olho em briga com um gato. A dona recebeu cerca de dois mil reais e disse que vai usar no tratamento da doença do animal.

Seguinte: como os humanos somos estranhos. Tanto nos envolvemos com o belo, o magnífico, o tranqüilo, a paisem de paraíso, quanto com o que há de pior no horror, no deplorável, no insondável, tenebroso e maléfico que existe no homem e no mundo.

É esse aspecto sombrio da nossa essência que me intriga: o deliciar-se com o sofrimento, a derrota, a humilhação, a queda pública e publicada. Como nossas mentes podem sentir prazer com espetáculos, abertos ou privados, de contatos doentios e relacionamentos escabrosos.

É próprio da condição humana esse pendular movimento entre o amor e o ódio, a serenidade e a ira; mas é acabrunhante a situação social enfermiça, essa forma de buscar prazer e satisfação na curiosidade mórbida; a deprimente descida os círculos mais abissais do inferno que habita o ser humano.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Agora, é tarde...

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Nesses meus mais de 30 anos de jornalismo, uma coisa sempre me impressionou na imprensa: muitas vezes, quando alguém morre, alguém que os noticiários entendem como sendo pesssoa importante, a cobertura do falecimento é muito maior do que se dera a tal pessoa quando em vida. A morte da antropóloga Ruth Cardoso é um caso típico.

Primeiro, porque ela não era tratada pela imprensa como antropóloga, alguém com alto nível intelectual e acadêmico, mas como "primeira dama" e agora "ex-primeira dama". Segundo, porque, mesmo quando ainda não fora primeira dama, desconheço qualquer ênfase em sua presença na vida pública nacional. Nenhuma matéria em que falasse a respeito de assunto ou tema relevante ou fosse chamada a comentar fatos de destaque.

Agora, quando morre, as coberturas chegam a ser lamuriosas e mostram o ex-presidente Fernando Henrique lacrimoso, olhar abatido, semblante de dor. Sei que o jornalismo se baliza por enfoques que dizem respeito a atores sociais relevantes, autoridades pelo cargo que ocupam ou por domínio científico, artístico ou empresarial, para ficarmos somente por aqui.

O problema do jornalismo, em referendar acontecimentos de peso gera essa distorção: como ela era, além de intelectual reconhedica internacionalmente e casada com político de renome ganha essa cobertura. Mas, em vida, insisto, pouco espaço ocupou. A noticiabilidade (potencial que alguém tem de ser notícia) a seu respeito em tipo low profile, ou seja: baixo perfil. Não se inseria à tensão jornalística e assim ela era um ator secundário na vida nacional, perante o jornalismo. Mais claramente, ela não gerava assuntos, acontecimentos que atraíssem para si câmeras e texto. Como não havia expectativa, inexistia noticiário.

Agora, morta, ganha destaque: é o velho enfoque do dado humano; o marido choroso, que ao fim de um longo casamento, encara o desenlace do seu tempo de casado por efeito da morte da companheira. E isso dá notícia. Para o chamado grande público, ela era, antes disso, literalmente desconhecida. Agora, morta, torna-se famosa pelos quinze minutos da dor espetacularizada.
Emanoel Barreto

Não podemos atravessar os Alpes

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Não, não podemos atravessar os Alpes, como o fez o grande Aníbal. Não temos elefantes, exércitos, provisões ou máquinas de guerra para atacar Roma.

Não
podemos
atravessar
os
Alpes.


Como também não temos generais, estrategos, infantaria ou coortes para tais embates.

Não
podemos
atravessar
os
Alpes,


Não vivemos aquele sonho de enfrentar o Poder, vergar seus limites e encontrar, ao fim e ao cabo do tempo azado, os louros e o vinho da vitória.

Não
podemos
atravessar
os
Alpes.


Somos apenas caminhantes noturnos, pasmos com a força da Força, e seguimos.

E, ao final das contas,
não
podemos
atravessar
os
Alpes.

Emanoel Barreto

terça-feira, 24 de junho de 2008

A lua elétrica

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Estamos no ano de 2700. O mundo devastado, transformado em sórdido planeta, tem um mar feito de lodo escuro e malcheiroso, árvores serão mostradas em museus, a barbárie impera e uns poucos, pouquíssimos, terão vida digna de assim ser chamada. E um detalhe a mais: a poluição chegou a tal ponto que grudou na lua. A lua não mais é branca: está coberta de fuligem. Como solução, foi eletrificada e somente assim pode ser vista no céu. Uma gloriosa cor artificial foi-lhe jogada por enormes refletores, lá mesmo instalados, e dão a ilusão de beleza.

Todavia, um grupo de subversivos luta contra o poder central do mundo, na busca de convocar a população da Terra a se libertar, para a tentativa de um desesperado recomeço. Eles são poucos, são caçados noite e dia. Espalham panfletos, invadem emissoras de TV e rádio, imprimem jornais insurretos e resistem o quanto podem.

Então, num ato extremo, formularam um plano para mostrar aos senhores do mundo que eles podem, sim, ser enfrentados. Trabalharam meses nos detalhes, muniram-se de todo o aparato necessário e levaram adiante a sua investida. Certa noite, pavor, os olhos dos dominadores quedaram estarrecidos quando miraram o céu e nadaviram: os subversivos haviam apagado a lua elétrica. Talvez começasse ali o início de um tempo novo.

E quanto a hoje, tenho certeza: em nossos dias, será preciso também apagar a lua elétrica.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Um poema de Lord Byron

Caras Amigas,
Caros Amigos,
Deixo vocês com um poema de Lord Byron.
O texto é muito complexo, mesmo que escrito em português. O autor usa muitas palavras de forma poética, o que dificulta a tradução literal. Mas aí vai uma tradução.
Emanoel Barreto

Ela anda na beleza, igual à noite
De tempos sem nuvens e céus estrelados
E tudo isto é o melhor da escuridão e da claridade
Encontre-a seus aspecto e olhos
Assim admirado por aquela luz quente
No qual o céu???? Recusa
Uma sombra a mais, um raio a menos
Tido meio deficiente o sem nome graciosidade
Que ondas em todos corvo madeixa
Ou suavemente clareia o seu rosto
Onde idéias serenamente doce expressa
Quão puro , quão caro o seu habitando

E nessa bochecha , e acima de essa sobrancelha
Tão macio , tão calmo , ainda eloqüente
Os sorrisos que ganhamos , as matizes desse brilho
Mas falar de dias de bondade usufruídos
Uma mente em paz com todos abaixo
Um coração cujo amar é inocente!