sexta-feira, 24 de março de 2006

Não, não: não está havendo nada

"Não deixe para amanhã
o que pode gozar hoje."
(Lenina, personagem de "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley)

Não, não, creio que não. Creio que está tudo bem no Brasil: não há corrupção, ninguém apoderou-se de dinheiros públicos, ninguém financiou campanhas com dinheiro de caixa dois, nenhum publicitário guardou milhões em paraísos fiscais, o presidente Lula de nada sabe; até porque é um homem que não convive com a improbidade.

Não, não. Não está havendo nada. O que se diz por aí é alucinação. Sim, é isso, é somente alucinação. Uma grandiosa, estupefaciente e penetrante alucinação, que nos faz pensar que estão acontecento coisas terríveis, como a morte do prefeito Celso Daniel e ameaça aos seus familiares, que, também paranóicos, fugiram para o exterior, tomando porém destino ignorado. Que absurdo.

Mas é tudo só impressão. É só uma sensação. Estamos todos sob um processo de auto-sugestão, que nos leva ao pessimismo e daí a suspeitarmos que estaria havendo, como diria Chico Buarque, tenebrosas transações.

Assim, fique tranqüilo. E ainda pegando uma carona nas composições de Chico Buarque, faça o seguinte: quando a polícia chegar, chame o ladrão. É que... nesse país, os ladrões resolvem tudo. Tudo. Tudo. Tudo.

PS: O caso do caseiro, com trocadilho e tudo o mais, também é fruto de alguma ação do Grande Houdini. Ninguém mandou quebrar seu sigilo bancário, não aconteceu nada. Pensando bem, será que você existe?




quinta-feira, 23 de março de 2006

O remédio da morte

“Fiado somente para maiores de 130 anos, acompanhados dos seus avores e trazendo os documento.” (Letreiro de barraca, na Redinha) Claudenício, 26 anos, pegador de caranguejo, chegou naquela noite à casa e teve de Mariana, a mulher, a notícia mais terrível que poderia receber: Valdetário, o único filho do casal, estava em febre: “Ele está pegando fogo.” Angustiado, lançou um olhar medroso para a figurinha que se debatia na rede esgarçada. O medo não era da doença em si, pois confiava que fosse só uma inflamação de garganta, e ele poderia salvar o menino comprando algum remédio - o medo era de não ter o dinheiro para o tal remédio. Sua mão tímida percorreu o pobre labirinto do bolso vazio e somente encontrou terra molhada do mangue. “E agora?” - ele virou-se para a mulher. “Sei não” - ela balbuciou. Claudenício olhou para um lado, para o outro. Via pouco, a luzinha da lamparina mal dava para mostrar a carinha esquálida do filho tremendo de febre. Um vento frio e ruim rosnava em volta do casebre ao lado das águas malcheirosas, de onde vinham nuvens de mosquitos se refestelar nos corpos magros da família. “Tem dinheiro não”, disse como se Mariana já não soubesse. Ela estendeu a mão e tocou o corpo do filho. “Vala-me minha Mãe de Deus, que o menino quase que me queima de febre.” E a mulher afundou num pranto lancinante, penetrante, cortando de sofrimento os ouvidos de Claudenício. “Mariana”, ele disse, enquanto pegava uma faca e colocava na cintura, “vou atrás do remédio.Vou lá na farmácia. E só volto com ele. Enrole o menino num pano, dê água, molhe ele e espere: eu volto.” A mulher curvou a vista e ele desapareceu no meio da lama e da noite. Correu o mais que pôde, até chegar a uma pequena farmácia. Bateu na porta, bateu de novo e outra vez, até que Seu Pereira, o dono, apareceu. Claudenício contou tudo depressa, garantiu que pagava logo que pudesse: “O senhor sabe que eu pago, porque já paguei outras vezes, não sabe?”, mas o homem não se compadeceu:"Tem remédio não. Sem dinheiro, tem remédio não." Claudenício sentiu raiva, mas sentiu principalmente humilhaçãol. Ele, um homem pobre e honrado, jamais havia deixado de pagar uma dívida. O dono da famácia era um que sabia disso. Depois, a raiva superou a humilhação e a humilhação virou coragem, uma coragem doida, vinda não se sabe de onde. Uma coragem pintada de desespero. Então, ele não contou conversa: puxou a faca e encostou no pescoço do homem: “Não tou robando. Tou pedindo emprestado e pago com dinheiro, quando puder.” Tremendo, Pereira entrou na farmácia, enrolou um pacotinho num papel e entregou a Claudenício: "Taí o remédio, pode levar. Claudenício voltou para casa. Correndo em meio à lama, o mais que podia . Chegou, entrou em casa e mandou a mulher dar uma colherada ao menino: “Uma não: dá logo duas.” Ela obedeceu, sem sequer verificar o que estava dando ao filho. O menino engoliu tudo, em meio a uma careta terrível. E logo vieram um choro mais forte, convulsões e, depois, a morte do menino, em meio ao silêncio noturno da lama. O dono da farmácia havia entregue a Claudenício um poderoso raticida. Era o que dizia o rótulo, cúmplice da escuridão e daquele desespero.

segunda-feira, 20 de março de 2006

Birimba e a égua

"Matamo três soldado,
quatro cabo e um sargento.
Cumpadre Mané Bento,
só faltava tu."
(Jackson do Pandeiro, em forró)

Trago mais um dos Causos do Edgar. São sempre histórias com personagens do povo, gente do sertão, com a marca da autenticidade nordestina, em seus dizeres e falares.

Hoje me lembrei de um rapaz chamado Roberto Moura do Nascimento, nome bonito, tão bonito que nunca poderia ser pronunciado sem constrangimento pelos seus companheiros de trabalho na Fazenda Umbuzeiro, por esse motivo muitos só o conheceram pelo não tão belo apelido de Birimba. O porquê dessa alcunha é ignorado até mesmo pelo proprietário do nome.

A Fazenda Umbuzeiro fica no município de Passa e Fica, próspera cidade do agreste potiguar vigiada pela imponente Pedra da Boca, que apesar de pertencer ao município de Araruna - PB, foi adotada e é venerada pelos passifiquenses. Além das belezas naturais, a cidade de Passa e Fica é exímia produtora de cabras presepeiros.

Marmotas e fuleragens são infindáveis por lá. Não precisa nem ser natural da cidade, basta morar lá um tempo e ter na genética uma predisposição para fuleragem que o camarada já se torna protagonista de presepadas de todo tamanho. Birimba chegou na Umbuzeiro em março de 2005, trazido por mim que na época gerenciava todas as atividades da propriedade para cuidar dos eqüinos e iniciar alguns animais na sadia atividade da vaquejada.

Eu já conhecia o trabalho do elemento pois ele morou um tempo na granja de Madílson, vulgo Neninha, motorista e amigo da nossa família. Meu único medo na época era pelo fato do rapaz ter uma relação um pouco tumultuada com cachaça, o bicho tinha um "óido" tão grande das "marvada" que não podia ver uma que já queria acabar com ela... bebendo é claro.

Fiz as devidas recomendações sobre o comportamento exigido pela empresa e sobre as punições aos atos que viessem a prejudicar o bom andamento dos trabalhos e lhe dei um voto de confiança. Pois bem: alguns meses se passaram e num sábado qualquer desses aí, haveria um bolão de vaquejada no vizinho município de Serra de São Bento, do amigo prefeito Chico de Erasmo.

Logo na quarta-feira Birimba me pediu autorização para participar do evento e levar um animal da fazenda, como a folga dele era no domingo e eu também estaria por lá pois também gosto da brincadeira, liberei o intrépido rapaz para que ele se preparasse hepática e psicológicamente.

O bolão foi um sucesso, Birimba até se classificou para disputar o prêmio em dinheiro mas não obtesse sucesso. Já era um pouco tarde e procurei o indivíduo para irmos embora, minha preocupação era que Birimba "infiasse a cara na cana", enlouquecesse em cima da Serra e resolvesse descer voando lá de cima.

Quando eu o encontrei ele ainda estava sóbrio, pelo menos estava falando, respirando e se mexendo, já eram ótimos sinais numa situação como aquela. Quando o chamei para irmos ele me alertou que precisava ficar mais um pouco para embarcar os cavalos no caminhão e "gerenciar" todo o processo. Ele estava certo, é necessário cuidado nessa hora: inocentemente, deleguei essa responsabilidade ao prestativo funcionário e desci para Umbuzeiro.

Ao acordar no domingo, tomei café, e saí para dar uma fiscalizada na fazenda, estava tudo tranquilo... esse era o grande problema... perguntas não saíam da minha cabeça: onde estará Birimba? Será que deu tudo certo na volta? Será que ele bebeu muito? Todas as respostas eu tive quando resolvi descer até os estábulos . O infiliz do Birimba tinha acabado de chegar, estava "bebo cego", e como todo bebo tem uns raciocínios inexplicáveis, ele resolver dar banho numa égua que nem tinha ido ao bolão.

Quando eu chego no local da peleja vi uma cena tão engraçada que nem tive condições de repreender o ato de irresponsabilidade de Birimba. Estavam lá, de baixo para cima, nessa ordem: o pé de Birimba (descalço), o casco da égua (em cima do pé descalço), a égua, a orelha da égua e preso nessa orelha estava Birimba, mordendo com toda força e pendurado como se fosse um brinco.

O mais engraçado de tudo é que em vez de tentar empurrar o animal (o de quatro patas) para sair de cima de seu pé, o máximo que ele conseguia fazer era dizer com a voz um pouco obstruída pela orelha da égua:
- Sua frexaaaaaaada, você me pegou aí em baixo mas eu le lasco aqui em cima!!! Tá ouvindo?

Como não estaria? O cabra com a boca socada nas "oiça" da coitada. Até hoje não sei se aquilo era um problema de manejo ou, se os dois fossem gente, uma briguinha de namorados.

sábado, 18 de março de 2006

O baobá: árvore com lâminas no azul

"Fi-lo, porque qui-lo."
(Ex-presidente Jânio Quadros, sobre sua renúncia)

A Crônica a seguir é parte do meu livro "Crônicas para Natal, as crônicas do Jornal do Dia", publicado no ano de 2000.

Nodoso tronco da vida. Árvore.
Baobá imenso, enorme elefante vegetal.

Semente gerada no seio fecundo e primitivo da África,
desabrochou aqui, nas terras de um sol festeiro e nordestino.

Grande baobá, gigante de fibras vivas, fizeste,
como fez o Potengi, a alegria dos olhos de Saint Exupery,
o escritor que pintava nuvens com palavras.

E hoje, imóvel como a eternidade, contemplas o ocaso do século 20.
Mas teus galhos continuarão como lâminas no azul.

quinta-feira, 16 de março de 2006

Quando a terra é boa

“E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...”
(Mário Sá Carneiro - 1890/1916 - Portugal)

Quem olha o sertão sofrido, seco, cansado, faminto, se não conhecer o Nordeste, chega até a pensar que aqui é o país da tristeza. Mas quem conhece o sertão chovido, terra molhada e boa, sabe bem das belezas que lá existem.

Sertão é tradição, é luta, é poesia que brota do chão que traz em si um celeiro de fartura.Em junho, nas festas de São João, comemora-se com alegria inteira a dádiva do milho, a memória popular revivendo antigos rituais de vida amiga da terra.

Quando a terra é boa, o chão é semente ritual. E terra boa é terra molhada da chuva de Deus.Mas hoje a realidade é um drama, fenômeno natural atiçado pela displicência política, pela falta de decisão, pela modorra dos eternos gabinetes que olham e calam, sem olhar para o povo que clama trabalho e pão.

O sertão é uma grande espera, dizia Guimarães Rosa. Mas esperar é atitude de sábio, de quem encontra em si as forças necessárias e urgentes para enfrentar incertezas e medos. E vencer; mesmo que a vitória demore, como as chuvas que tardam, mas um dia chegam. Vão chegar.

quarta-feira, 15 de março de 2006

Ze de Nuca: não foi cachaça, mas ficou tonto...

"Seu doutor uma esmola
a um homem que é são,
ou lhe mata de vergonha,
ou vicia o cidadão."
(Luís Gonzaga)

De Edgar Manso recebo este causo. Edgar gosta da vida no sertão e está preparando um livro relatando coisas e casos do povo nordestino. O autor preserva o modo e o jeito de falar, bem típico do nordestino do campo. Leia abaixo:

Toda cidade pequena tem suas peculiaridades, e as do nosso interior nordestino não poderiam ser diferentes. Jacaraú, no nosso vizinho estado da Paraíba é uma dessas pequenas cidades. Pequena mas muito agradável, faz divisa com o Rio Grande do Norte, ali pelas entranhas do nosso agreste, quase colado com Pedro Velho, cidade do balneário mais animado dos domingos.

Zé de Nuca é um amigo que tenho por aquelas bandas, amigo de verdade. Cabra bom, trabalhador, honesto e muito inteligente, não teve estudo mas é formado na universidade da vida com menção honrosa.

Zé é um homem de seus 56 anos mas tem uma energia de menino, poucas pessoas tem a disposição dele para trabalhar, e se depois do trabalho aparecerem umas garrafinhas de cachaça paraibana escoltadas por galinhas caipiras abatidas na hora, aí é que o serviço do homem rende.

Um pouco afastado de Jacaraú existe um lugarejo denominado de Jerimum. São seis ou dez casinhas fincadas no meio dos canaviais, um verdadeiro oásis para quem vem trafegando naquelas tortuosas estradas carroçais e seco para bebericar e jogar conversa fora.

Nesse verdadeiro paraíso funciona o bar de dona Francisca, o estabelecimento serve a melhor galinha caipira que já comi até hoje, sempre regada a uma boa cachacinha. O local é totalmente familiar, dona Francisca cozinha, suas duas filhas servem e seu marido, o internacionalmente conhecido "Quincão Buceteiro", providencia o abate das galinhas, a retirada dos cocos e a segurança do ambiente, afinal de contas o elemento usa na cinta uma peixeira meio graúda que se não matar da furada mata do "tétuno", como ele gosta de dizer.

Como não poderia deixar de ser, onde tem ingredientes como matutos e cachaça, tem marmota também. Zé de Nuca até o ano de 2004 nunca tinha ido a médico, tinha uma saúde de Leão, quando era indagado sobre quando faria o famigerado "exame de prósta" ele se alvoroçava e dizia: "No meu furico ninguém chafurda!"

Em março de 2004 houve um bolão de vaquejada no vizinho município de Rio Tinto, Zé não corre mais, mas ainda gosta muito de participar da fuzarca. Foi nessa noite que aconteceu uma das estórias mais engraçadas que já ouvi.

O bolão começou ao meio-dia do sábado e nessa hora lá estavam Zé e seus dois filhos mais velhos que praticam esse esporte nordestino, logo acharam a cabroada e começaram o tirinete de cana, conversa vai conversa vem e chega a noite, hora dos vaqueiros bons entrarem na pista, todos se arrumam perto da cerca para ver melhor, a poeira cobre no centro, é queda de boi, queda de vaqueiro cambão, boi na faixa e a ritumba entra pela madrugada.

Lá pelas três da madrugada Zé de Nuca se afasta para dar uma mijada do outro lado da cerca, quando termina e pensa em voltar para junto de seus amigos ele se sente mal, ele não faz a menor idéia do que seja pois havia parado de beber logo cedo portanto não era efeito da cana.

Então, se sentindo muito mal ele resolveu dar o recado aos filhos que já ia para casa, quando foi passar por entre os arames da cerca não conseguiu se manter equilibrado e passou na maior dificuldade. Zé estava sendo acometido por um AVC, nunca passaria isto pela sua cabeça, e ele continuou na sua intenção de se despedir.

Quando ele chegou próximo da turma seu filho se virou e achou ele com a cara estranha: - O que é pai? Zé tentou responder e não conseguiu, só fez balbuciar e não disse nada, aí ele resolver fazer um gesto indicando que já ia embora e partiu.

Graças a Deus Zé de Nuca conseguiu dirigir até em casa e sua mulher solicitou rapidamente uma ambulância para levá-lo à João Pessoa e deu tudo bem. Mas o melhor da estória ainda está por vir: quando o filho de Zé voltou pro meio da turma logo perguntaram onde estava Zé de Nuca, aí seu filho respondeu: - Hômi, pai é foda. Tava tão embriagado que num conseguia nem falar, gemia, gemia e num dizia nada. Só sei que se virou e saiu as queda pra pegar o carro. Ô hõmi trabaioso!!!.

terça-feira, 14 de março de 2006

Dia da Poesia: em parte, vira luz...

“É que eu sonho esvair-me em vícios de marfim...”
(Sá Carneiro, em Certa vez na noite ruivamente)

Hoje é o Dia da Poesia. Não quer dizer que é o dia do verso, aquele conjunto de palavras que, ao fim da leitura de uma quadra, por exemplo, resulta numa rima. Não, poesia é muito mais. Porque poesia é sentimento, é interioridade vivida internamente e exposta pela palavra.

É panorama humano íntimo que deságua no gesto escrito, o poema. Creio que seja até mesmo mais que isso: poesia é ato de viver, poesia é ato de coragem. Coragem de ser dissidente, coragem de se expor ante aqueles que pensam que tudo sabem, que tudo podem e por isso tudo pedem.

Poesia é atitude voltada para a reflexão. Portanto, está parada dentro de você, muito embora seja, dentro dela mesma, um redemoinho. Poesia é feita a passos de ferro.

Poesia é caminho que não vai a lugar algum,
uma vez que o poeta
busca sempre a incerteza jamais o porto.

Sem o porto, ele parte;
em parte fica;
em partes se desfaz;
em partes se constrói;
em parte vira luz.
Depois, tudo escurece.
Só isso.
E, como nos interrogatórios,
nada mais digo,
nem nada mais me seja perguntado.

Antes porém, de retirar-me, resolvi, para marcar a data, transcrever Mar Português, de Fernando Pessoa. Sá Carneiro, citado acima, é também poeta português.

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena?
Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o Céu.

Do jornalista e poeta Walter Medeiros recebo "Espetacular", poema que segue abaixo:

No rumo Oeste
Nuvens douradas
Viam prata
Pelo Céu azul.

E o fim da tarde
Mostra uma dimensão
Espetacular
No horizonte.

Desenho único
Do infinito
De um momento
Angelical.

Pela estrada
O automóvel
Quer alcançar
O que se esvai.

E o desenho
Troca de estrela
Contente com
O contorno lunar.

Noite que cobre
Com manto puro
Relvas e rios
Pelo sertão.

Campos de amor,
Muita labuta,
Sossego, luta,
Um esplendor.





segunda-feira, 13 de março de 2006

Prenderam o ladrão e a polícia sumiu

"Bandido é bandido;
polícia é polícia."
(Do assaltante Lúcio Flávio)

Houve, em Natal um homicídio cometido, como se diz no jargão jurídico, com “requintes de perversidade.” Um velho vigia da Galeria Olímpio, no Alecrim, fora atacado, dominado e, indefeso, morto por um rapaz louro, que logo ficou conhecido como Galego da Galeria.

Ao que me lembro, o velho, amarrado com arame, foi golpeado com um bastão ou algo assim, até a morte. A falta de detalhes deve-se ao fato de que, quando ocorreu o crime, eu ainda não estava em jornal e portanto valho-me das informações que via na imprensa e, claro, não dá para recordar com exatidão.

Pois bem, o Galego acabou fugindo e a polícia começou a perseguição. Nesse meio tempo eu comecei a trabalhar no Diário de Natal. Nessa época o Diário saía às segundas, à tarde. Assim, aos domingos nós trabalhávamos, preparando a edição do dia seguinte.
Eu chegava à redação às sete da noite e pegava o material coletado pelo repórter Pepe dos Santos. Eu reescrevia as anotações dele. “Traduzia Pepe”, como se dizia na redação, uma vez que ele trazia, em texto literalmente bruto, um emaranhado de informações que precisavam receber ordenamento.

Ele apurava muita coisa, era extremamente detalhista, mas, na hora de redigir... Pois bem, eu estava, em finais de 74, na hoje extinta editoria de polícia. Tinha coisa de uns dois meses de jornal.

Num domingo, pela manhã, fui fazer a cobertura nas delegacias. Por algum motivo Pepe estava sem condições de trabalhar. Saí na Kombi do jornal dando uma geral nas delegacias. Fatos de importância viravam notícia, coisas menores (queda-de-bebo como se dizia) iam para a coluna Ronda, transformados em notinhas de cinco ou seis linhas.

Pois bem, logo que chegamos a uma delegacia, na Ribeira, estava um sujeito à porta, um alcagüete, contando detalhes de uma perseguição: ninguém menos que o Galego da Galeria tinha sido preso. E o tipo se gabava de, mesmo sem ser policial, ter participado da caçada. Somente não alardeou ter atirado também.

“A puliça cercou o cara e mandou bala”, contava.” Era cada rajada que até fazia medo”, continuou, e disse: “ Quando a rajada cobria, ele dava cada pulo que era isso”, e levantava o braço coisa de meio metro, para mostrar como o bandido saltava, encolhendo as pernas para não ser atingido.

Ele retardava a informação mais importante, a prisão do bandido, para valorizar o seu relato e prender a atenção de alguns homens que estavam à sua volta. Eu não conhecia nenhum deles e, entre irritado e ansioso pelo desfecho da conversa comprida, perguntei: “E afinal, ele foi preso?”

Fora, fora preso, confirmou o homem. “E está aí, nessa delegacia. Pode entrar”, disse, como se fosse a maior autoridade policial do Estado. Eu não pensei duas vezes, meti o pé e fui entrando. Era o máximo. O Galego da Gelaria, o bandido mais perigoso do Estado, preso, e eu ali. Inexperiente, sem fontes na polícia, sem sequer uma identidade profissional que me garantisse, fui entrando.

Nessa época o grande repórter policial de Natal era mesmo o velho Pepe dos Santos, hoje um dinossauro e aposentado (outro dia falo mais dessa grande figura). Ele sim, tinha fontes e conhecia todo o submundo do crime.

Fui entrando, fui entrando e não é que não havia um só guarda, delegado soldado, nada, ninguém, para tomar conta do bandido? A delegacia estava completamente desguarnecida. Entrei e lá estava, numa cela, sozinho, sentado no chão, ninguém menos que o Galego.

Olhei e vi, numa parede, sustentado por dois pedaços de ferro cravados lado a lado, um grosso pedaço de pau, certamente para espancar os presos. Lembrai-vos de que nessa época ainda vivíamos a ditadura militar e direitos humanos eram o mesmo que nada.

O criminoso contou como havia fugido, como havia resistido à prisão, como fizera de tudo para não ser preso.

Aí, quando eu falava com o Galego... Bom, nesse momento, imagine só, entra o investigador relapso, aquele que havia deixado a cadeia sem guarda. Ele entrou e foi logo dizendo “Ei! Que negócio é esse?”

Parei. Pensei: “E agora?”

Agora? Agora era enfrentar o homem.
Ato contínuo, respondi: “Nada, não é nada, estou só falando com o Galego.”
E ele: “Pode não.”
E arremeteu: “E daqui não sai ninguém. Não sai nem o senhor e nem esse seu papel na mão”, referia-se às minhas anotações. As coisas tinham se complicado como eu jamais havia suposto.

O policial caminhou decidido em direção a mim. Eu estava sentado no chão, cara a cara com o bandido. Levantei-me dei espaço ao policial, que seguiu como quem fosse direto para a cela. Recuei, de forma a que ele ficasse de costas para as grades do xadrez.

Foi aí onde ele errou. Ele aceitou meu jogo e ficou de costas para o Galego, cruzei as mãos às costas protegendo o papel e fui saindo, pé ante pé, passo a passo, caminhando de costas, os olhos fixos no investigador. O homem, nunca compreendi porquê, parou e ficou olhando minha escapada, até que cheguei à porta da delegacia e ao sol do domingo. Respirei fundo e corri para a Kombi. Eu tinha uma grande notícia e o policial burro amargava uma derrota íntima frente a um foca sem fontes.


sábado, 11 de março de 2006

Eduarda

Esta crônica é uma homenagem à vida, expressa na figura inocente da minha primeira neta, a doce Eduarda, menina linda, feita de azul.

"A vida brota do amor e se refaz em si mesma, a cada instante de luz.
"A suave beleza da vida que nasceu se enlaça na ternura das mãos que a sustentam.
"E o lindo olhar da inocência reflete a existência de Deus.

"O pequeno raio de sol, matinal e ameno, é amigo de todas as manhãs.
"A natureza inteira é como um bosque de paz,

que prepara um ninho para a pequena vida.

"Vida, és amiga da verdade simples, das plantas e do azul.
"E te lanças em caminhos que reconhecem as mãos que te protegem.

"A pequena Eduarda é esse ser lindo da vida.
"Pequena menina de gestos de nuvens.
"Que os sons e todas as cores do mundo acompanhem os teus passos."

Ciumenta

"O homem nasce nu, molhado
e faminto; o pior vem depois."
(De um velho filme de caubói que, um dia, assisti)


De Zilda Neves recebi a crônica que segue abaixo, "Ciumenta".

Ela tinha um gênio difícil; brigava por qualquer coisa e com todo mundo!
No condomínio onde morávamos, não tinha amigas nem vizinhos; todo mundo passava por ela, preferindo abaixar a cabeça, com medo de apenas, num cumprimento, ter seu dia estragado, por um simples "bom dia".


Fosse risonho e receptivo, imaginava o incauto pretendendo uma aproximação que ela repudiava, e aí estava formado o banzé: -Nunca me viu não? Questionava de chofre, não dando tempo ao atingido por um petardo oral inimaginável.

Depois de dar três passos e olhando para trás, se o infeliz ainda, aturdido, estivesse parado, descarregava a bateria:- Vai querer o quê? Tempo bastante para desistência do amável cidadão, disposto a não ser mais educado.

Ninguém entendia como o marido, se casados fossem, aturava aquela mulher! Só ele sabia.

Na cama, era uma candura de mulher; bastava tirar a camisola, vestia-se de fêmea, cobrindo seu corpo, com a sensibilidade do amor que pode mais que a razão, sendo impossível não ser do jeito que os outros, acreditem ela seja. Apenas eu!

O que todo mundo vê, não corresponde ao sentido interior, justificativa de um ciúme consumidor e quase sempre sabe mais que a verdade, fato bastante para fazer-me imaginar que a idéia de morrer sozinho é uma desgraça, e não posso correr o risco.

O ciúme é próprio de quem ama; ela jamais derramou uma lágrima fácil, quando, razões de seu coração era atingido. Preferia um esgar, disposta a uma refrega de conseqüência imprevisível, a secar uma gota, que as costas da mão pudessem enxugar.

Não partilhava seus segredos, nem contava aventuras contidas em sua vida: nem do corpo, nem da alma; parecia compreender já ter se dado conta, num passado remoto, serem impunes a um futuro que se avizinha, deixando entender ao companheiro, não esquecer - se a vida lhe for breve - onde enterrou seu segredo.

Porém, nem sempre foi assim; dotada de personalidade forte, guardava nas profundezas do seu ser, uma possessividade controlada, exacerbada com o passar dos anos e das imposições que a vida lhe ofereceu. Seus dotes físicos mostravam-lhe essa verdade, fato bastante para criar um quê de reserva, e uma visão ciumenta de si própria. Percebia olhares furtivos, ao cruzar com pensamentos menos nobres, onde seu atual companheiro, fora um deles.

A vida a dois, fortalece um permanente descobrir, no jogo do amor, permitindo reconhecer que as tentativas, embora frustradas, avolumavam-se no amiudar de se dar e que o tempo encarrega-se de contemplar desejos recônditos.
As primeiras insinuações pareciam ser vencidas com um argumento imaginado inquestionável: “Quer entrar, onde só deve sair”?


A contramão dos fatos, jogou por terra, outras virtudes mais fortes para o primeiro embate, ficando os anos como um aliado, no novo se entregar.
A soma, julgada perfeita, alicerçou um questionamento, onde o ciúme extrapolou de uma forma acintosa ao parceiro, mais ainda assim, dizia-se a mulher mais feliz do mundo!

quinta-feira, 9 de março de 2006

Canalhas!

"A desonra é como a cicatriz na casca de uma árvore:
o tempo, longe de apagá-la, só faz aumentá-la cada vez mais."
(Autor desconhecido)

A Câmara dos Deputados perpetrou ontem um dos mais lamentáveis espetáculos que a podrura do seu plenário sórdido já pôde vomitar: absolveu dois usuários do mensalão, o deputado Professor Luizinho e o deputado Roberto Brant. O primeiro do PT, o segundo do PFL. A bile política, dizem os jornais da grande imprensa, foi secretada por um acordão reunindo PT, PSDB e PFL.

O grande mictório em que se transformou a Câmara dos Deputados salvou Roberto Brant com 283 votos, contra 156. Quando foi evacuar, o deputado Professor Luizinho
foi acolitado por 253 parlamentares (eu disse parlamentares?) contra 183. Outro envolvido no mensalão, Romeu Queiroz, do PTB, bem antes, já havia sido salvo por seus pares, melhor diria, pedreiros de latrinas.

Agora virão outros. Vejamos como as coisas vão acontecer. A manter-se a atual tendência, todos os calígulas irão triunfar. E, como você sabe, Calígula foi aquele imperador romano que prostituiu as mulheres dos senadores para arrecadar dinheiro para o Estado romano e fez de seu cavalo, Incitatus, também um grande tribuno. O cavalo foi sagrado senador, que, naquele tempo, era algo vitalício.


No Brasil, Incitatus sem dúvida alguma teria muito a ensinar. E os deputados muito a aprender. Afinal, Incitatus viria dos tempos das grandes bacanais que, em último caso, eram apenas festas religiosas, em honra ao grande deus Baco. E como os deputados gostam mesmo é de um balaco-baco, veja só, tudo estaria às mil maravilhas.
Mas Incitatus não poderia vir. E agora, fazer o quê? Esperar? Sofrer? Gritar? Lamentarmo-nos todos, cobrir nossas cabeças com cinzas e dirigirmo-nos a algum áugure ou oráculo, para saber o que acontecerá? Em verdade, em verdade vos digo: não acontecerá nada! Todos sairão com suas coroas de louros, como atletas do mundo olímpico clássico.
De uma coisa, entretanto, tenho certeza: o plenário da Câmara dos Deputados é um extrato perfeito da sociedade brasileira. Estamos ali, literalmente, representados. Somos um povo lasso, ideologicamente apascentado, leniente para com o crime, frouxo em enfrentamentos que defendam a ética e a moral. As próximas eleições vão comprovar o que digo.
Cada vez que alguém corrompe o guarda de trânsito com uma nota de dez reais, sempre que um funcionário público chega tarde ao trabalho, quando o médico deixa de ir ao posto de saúde para trabalhar, quando na academia alguém compra uma dissertação de mestrado pela internet, tudo isso, de alguma maneira, se reflete nas escolhas dos representantes políticos. É uma questão cultural, um processo de osmose, que se multiplica e se amplia, salta dos atos microscópicos do cotidiano e alcança toda a largueza das esferas políticas mais altas. Há as exceções, é claro. Mas...
Então, vamos dizer como Macunaíma:"Que preguiça..."

quarta-feira, 8 de março de 2006

A Mulher

"Tenho duas mãos,
e o sentimento do mundo."
(Carlos Drummond de Andrade)

Este texto é dedicado a Minha Mulher, em seu Dia.

Ela caminha, calma, em seu silêncio de manhã mais nascente. Suave, tece nossa vida como uma penélope que não precisa olhar para o horizonte, à espera de um navio que jamais chega. Seus passos abrem caminhos, suas mãos escolhem e colhem gestos de abraço. A ela, sempre, ofereço matizes sutis de nossas tardes. Minha Mulher.


Companheira, amiga, corajosa, tem enfrentado comigo todas as termópilas. É uma doce guerreira, valquíria de todas as horas. Minha Mulher.

É Mulher em festa, em cores, em sons magníficos; transforma-se em brilho quando é preciso, e em tons de luz e sombra quando chegam os momentos de nós dois. Minha Mulher.

Caminhamos em praias distantes e nos encontramos nas terras mais altas. Minha Mulher.

E quando os golpes ferozes da vida se abatem de rijo sobre o casal, somos recobertos pelo escudo de nossas cumplicidades sinuosas, pondo abaixo todos os dardos. Minha Mulher.

Conhecemos atalhos, descobrimos encontros, passamos ao largo da felicidade sonante, aquela que se compra com o dinheiro. Nossa moeda é intangível. Nossa felicidade é secreta. Minha Mulher.

A cicuta do Tempo jamais chegou à nossa taça. Brindamos à sagração de uma primavera que supera todos os dias as fronteiras do amanhã e do depois. Minha Mulher.

A ela, sempre, ofereço um cálice de pétalas para iluminar, com réstia de estrelas, o seu olhar candente de ternuras. Minha Mulher.

Ela não nasceu, floresce. Brota em cercanias secretas e mergulha numa paz que soubemos descobrir. Minha Mulher.


terça-feira, 7 de março de 2006

Brasil: o que vai acontecer?

"Ladrão que rouba ladrão,
tem cem anos de perdão"
(Sabedoria popular)

Atenção, atenção, muita atenção para as previsões quanto ao futuro próximo deste imenso País.

Delúbio Soares: não vai acontecer nada.
Marcos Valério: não vai acontecer nada.
Juiz Lalau: nesses dias estará solto.
José Genoíno: não vai acontecer nada.

Paulo Maluf: não vai acontecer nada.
Senador Eduardo Azeredo: não vai acontecer nada.
Duda Mendonça: não vai acontecer nada.
Waldomiro Diniz: não vai acontecer nada.

Assassinos do prefeito Celso Daniel: não vai acontecer nada.
Autores de crimes hediondos: podem cumprir pena em regime semi-aberto.
Paulo Okamoto, presidente do Sebrae: não vai acontecer nada.
Presidente Lula: vai continuar fazendo tudo e não vai acontecer nada.



domingo, 5 de março de 2006

O encontro dos sorrisos

“ Televisão é goma de
mascar para os olhos.”

(Frank Lloyd Wright, arquiteto americano)


Com o tempo, os adultos passamos a valorizar mais o tempo. Gosto de reencontrar pessoas, gosto de reencontrar amigos. Não apenas pelo reencontro em si, que muitas vezes é muito agradável, mas pelo voyeurismo de observar o que mudou naquela pessoa, como está, quais foram as transformações que assumiu, se o sorriso é o mesmo, se tornou-se amargo, enfim se...

Nos últimos dias, tive a oportunidade de rever amigos, amigos antigos, gente que comigo já cruzou caminhos, atravessou momentos, codividiu perplexidades. Foi estranho, pois, num deles, predominava o sentimento ocre da dor, zelosamente guardada no cofre dos ressentimentos com a vida; em outro, sobressaía ainda o sorriso jovial e franco do existir.

No primeiro, no que fez a opção pela dor, o cumprimento do reencontro mal passou de um grunhido. Sem um aperto de mão, sem um abraço, um tapinha nas costas. Fiquei parado, olhando o meu amigo, enquanto caminhava por entre a multidão de problemas - pois ele vê em cada pessoa um problema - com os quais tem que conviver.

Conheço a figura, sei que não é má pessoa. Sei de suas lutas, sei de quantas ondas já se esbateram contra a quilha do seu barco e quantas vezes quase soçobrou, saindo da tempestade com as velas em frangalhos e o estandarte de luta totalmente roto. E ele assumiu tudo isso, bebeu esse cálice até o fim e embriagou-se nele, como que guardando dentro de si todo o ódio de que já foi vítima. Uma vacina, entende? Assim, quando mais mal vier, ele já estará tão cheio, que nada o atingirá.

O outro amigo, ao contrário, mesmo tendo passado por problemas complicados, suportado a flecha lhe varando a armadura e ferindo o corpo, resistiu. E trazia, senão o sorriso das manhãs, uma vez que já se faz inverno a sua vida, trazia aquela alegria calma de quem não precisa da gargalhada para mostrar que está feliz, ou do grito para explicar que está em chamas. Algum dia espero ser assim também.

sábado, 4 de março de 2006

Natal vista do alto

"Deus não pode
jogar dados."
(Albert Einstein)

A crônica abaixo é do meu livro Crônicas para Natal - as crônicas do Jornal do Dia.

A cidade se espalha e cresce, como paisagem de prédios e céu.
Inteira enquanto parte de si mesma, Natal é música de casas e paredes, torres e paisagem humana e bela.


Ruas ainda calmas, como se a cidade ainda não tivesse a malícia urbana, Natal é porto de sua própria chegada.

E se a amplidão do mundo a torna pequenina, Natal se deixa colher nas manhãs de todo dia. E cresce em silêncio e calma. Ainda.

quarta-feira, 1 de março de 2006

O maior pintor do mundo

O jornalista não tem amigos ou inimigos.”
(James Reston, jornalista americano)

O repórter-fotográfico Paulo Saulo costumava chegar à redação do Diário de Natal, inícios dos anos 70, sempre com novidades, falando alto, gesticulando muito. Uma vez, e isso já contei, veio com a história de um sujeito que fazia esculturas em vidro, a partir de velhas lâmpadas fluorescentes. Resultado: fui com ele fazer a matéria, o quarto onde o cara trabalhava quase explode com um bujão de gás (as esculturas eram feitas com vidro incandescente) e, no fim, ele confessou que sequer havia colocado filme na máquina.

Pois agora, veja só essa: uma tarde, coisa de duas e meia, ele entrou novamente feito um louco, redação adentro. Nesse tempo, a redação do Diário era onde hoje fica o parque gráfico. Mas, então , trabalhava-se assim mesmo: birôs metidos entre grandes cilindros de papéis, as rotativas ao fundo. Às segundas-feiras, meio da tarde, elas começavam a funcionar endiabradas, imprimindo a edição especial, que saía coisa de cinco e meia.

A rotativa imprimindo uma edição vespertina e nós preparando a edição do dia seguinte. Era um barulho enlouquecedor. Mas era bom, era muito bom.

Sim, mas, o que eu ia dizendo? Sim: ele entrou feito um louco pela redação e berrou que trazia em sua companhia ninguém menos que “o maior pintor do mundo”. Com isso, parou todo mundo, claro. Quem seria o maior pintor do mundo? Miguel Ângelo certamente ficaria no rastro; Boticelli a mesma coisa; Picasso nem se fala; Da Vince, hummm...; Salvador Dali, pra quê?

E então apresentou-se o maior pintor do mundo: ninguém menos que... um desconhecido... Isso mesmo: um ilustre desconhecido, mas catalogado por Paulo Saulo como o maior. E sabe por que o homem era o maior...? Pelo fato simples de que o sujeito era um incrível miniaturista. Ou seja: era o maior porque pintava o menor.

Veja só que loucura: ele pintava em cabeças de alfinetes. Utilizando-se de uma técnica preciosíssima, cuidadosíssimo, pacientíssimo, ele pegava um fio de pincel, também finíssimo e, toque a toque, reproduzia, por exemplo, a Última Ceia, numa cabeça de alfinete. Para pintar, tanto como para ver o resultado do trabalho, servia-se de uma poderosa lupa. Olhando por ela, dava para você ver as figurinhas: Jesus ao centro, os apóstolos, a grande mesa, tudo em cores, forte, incrível.

Havia outras obras, mas já não me lembro quais. Mas, como havia uma dificuldade intransponível (ninguém conseguiria fotografar as miniaturas) a matéria, acabou não sendo feita e assim o maior-pintor-do-mundo acabou passando pela redação do DN e de lá voltando para o seu mais completo e ínfimo anonimato.

Hoje, olhando bem, creio que Saulo tinha uma certa razão: a pequenez daquelas imagens, fruto de um grande trabalho, talvez valesse àquele homem o título de ser o maior... Havia ali um estranho desvelamento, um dedicação insana, personalíssima, humana, incompreendida e incompreensível: por que ele não se dedicava a pintar em tamanho convencional?

Por acaso não sabia que aquilo jamais lhe renderia dinheiro? Havia arte naquilo? Havia, admitamos que havia. Afinal, aquele pobre artista dedicava-se à imensa tarefa de ser ele mesmo. Mesmo que isso não valesse um centavo e, do mundo, ganhasse apenas o elogio de um fotógrafo que o proclamou como o maior pintor do mundo.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

Donos de nada

"Os presidentes passam, a imprensa fica."
(Sylvino de Godoy Neto, presidente da Associação Nacional de Jornais.)

A partir de hoje, estarei publicando trechos do meu livro "Crônicas para Natal - as crônicas do Jornal do Dia".

São visões, entendimentos, momentos, captados de Natal, seus momentos, seu povo, suas belezas e misérias, grandezas e limitações. A crônica abaixo volta-se para as favelas de Natal. Favela enquanto instante social grafado na geografia dos dramas da minha cidade. Seus moradores são, como diz o título, "Donos de nada".

É uma crônica curta, como curtos e pobres são os dias dos que têm o nada como propriedade e estilo de vida. Vejamos:

Diagrama da pobreza, descaminho dos donos de nada, a favela é o rumo perdido, o norte desorientado.

Alagada de problemas, passada de dores, a favela é o universo dos que vivem em vão. O povo tem a fome tatuada na boca.

E se apresenta como alguém que perdeu a própria sorte.

Favela. Ali, são todos passageiros. Dormem nas nuvens da incerteza e se alimentam de todas as dores do mundo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Mais de mil palhaços no salão

''Coloquei minha casa sobre o nada
e por isso o mundo me pertence.''
(Johann Wolfgang Goethe)

E então, chegou o Carnaval-Brasil. Há festa e a seca se serve do sofrimento do homem no sertão. Mais de mil palhaços no salão.

Chegou o carnaval e os bandidos, no Rio, alvejam os passantes em vigança à morte de um traficante. Mais de mil palhaços no salão.

É carnaval e as crianças esmolam nos sinais. Há fome e ranger de dentes. Mais de mil palhaços no salão.

É carnaval: os hopitais públicos são locais de sofrimento e dor. Os planos de saúde comerciam a medicina e fazem da saúde uma mercadoria. Mais de mil palhaços no salão.

O carnaval chegou, os tamborins estão tocando as cuícas roncando e os gringos chegam para o seu período de orgia. O turismo sexual dá lucros e quadrilhas se enriquecem. Mais de mil palhaços no salão.

O carnaval está aí. Meninos e meninas são usados como objeto sexual, servem ao dinheiro e a seus adoradores. Famílias se dobram ao peso da miséria. Mais de mil palhaços no salão.

Evoé, Momo! Os produtores de álcool exploram o povo e vão ganhar muito dinheiro. A gasolina, com menor teor de álcool em sua mistura, deverá subir de preço, dizem os noticiários. Mais de mil palhaços no salão.

O carnaval está em todas as alegrias. Mas alguém vai morrer depois de comprar alguma droga a um traficante; uma menor será ofendida e humilhada por um turista rico; o grande capital financeiro quer dominar os destinos do País; as universidades continuarão precisando de dinheiro e um idoso estará sofrendo em alguma fila, implorando alguma miséria assistencial oficial. Mais de mil palhaços no salão.

Depois, quarta-feira-de-cinzas: Mais de mil palhaços, mais de mil palhaços...



O jornalista e poeta Walter Medeiros manda o poema "Zé Pereira", lembrando os velhos carnavais. Abaixo:

Viva Zé Pereira,
Português danado,
Cabra sem enfado,
Pela vida inteira.

Viva o Carnaval,
Que tanto admiro,
Mas já me retiro,
Não me leve a mal.

Viva aquele samba,
Feito por Martinho,
Que canto baixinho,
Querendo ser bamba.

Viva a lembrança,
Do pó, do confetti,
Caetano, Zé Kéti,
Serpentina e lança.

Viva Paulo Maux,
Nosso eterno Rei,
Nunca esquecerei,
Mas sei que passou.

Viva nossos clubes,
De lindo passado,
Que está gravado,
Bailes que iludem.

Viva uma saudade,
Cá neste meu peito,
De amores sem jeito,

E de felicidade.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

A mordaça dos loucos, o silêncio da imprensa

Antigamente as coisas eram piores.
Só que, depois, foram piorando mais um pouco.”
(Paulo Mendes Campos)

Início dos anos 80, eu chefiava a reportagem da Tribuna do Norte e tive a oportunidade de conviver com uma jovem e talentosa repórter, Josimey Costa, e com um instável, mas também genial fotógrafo, Paulo Barossi, um rapaz que um dia fazia fotos espetaculares, mas, dia seguinte, furava a pauta e, na falta de um bom material, me dizia, estendendo a mão cheia de fotografias velhas: “Veja aí, Barreto, lá no arquivo tinha isso.”

Pois bem: certa vez, pautei a dupla para uma matéria no Hospital João Machado, o Hospital Colônia, para constatar suas condições de funcionamento. Eles foram, mas chegando lá, foram barrados na portaria. Eu pensei: “O que o pessoal do hospital tem a esconder? Aí tem coisa...”

E dei a seguinte ordem a Josimey e Barossi: “Vistam-se de branco, como se fossem acadêmicos de medicina e revirem aquele hospital. Vamos ver o que de tão ruim há, para ser oculto.”

Eles foram. Foram e viram tudo o que se passava no hospital. À entrada, sequer foram perturbados e, lá dentro, deram um show de jornalismo investigativo, jornalismo de flagrante. Juventude e decisão de fazer jornal de denúncia, jornal a favor do ser humano, jornal contra a humilhação dos pobres, loucos e desvalidos.


Eles foram e viram seres humanos reduzidos a condições miseráveis, doentes nus jogados em camas imundas, doentes perambulando como almas penadas, pessoas presas em celas gradeadas. Doentes estendendo-se as mãos, como que tentando, através do contato físico, compensar o tratamento humano e necessário a que tinham direito, mas ao qual não tinham acesso.

Se a loucura é uma forma de dor, e se a dor é condição mais presente da condição humana, de alguma forma somos todos loucos. Mas os deserdados da loucura, em sua autenticidade solitária, ali não tinham direito ao gesto afetivo, ao abraço longo, ao carinho amigo.

O Colônia era um inferno. Uma espécie de campo de concentração de pessoas mentalmente insanas levadas à indigência. Era um espetáculo dantesco. Estava aí o motivo pelo qual o Colônia era um tabu, um local secreto, fechado, impossível de dar acesso aos olhos de imprensa. Mas, a decisão dos repórteres em fazer a matéria era tamanha, que eles literalmente se fizeram invisíveis aos olhos dos funcionários e médicos e vasculharam tudo.

Andaram por salas, corredores, perpassando todo o horror do hospital. As fotos, em preto e branco, capturavam toda a dramaticidade daqueles instantes de sofrimento e abandono. Até que... foram descobertos. Estavam avançando sobre a cozinha, quando alguém afinal desconfiou e os flagrou. Ali, finalmente descobertos, após a magnífica matéria, foram identificados como jornalistas e retirados.

Ainda bem que não houve qualquer retaliação violenta dos funcionários do hospital contra os repórteres. A dupla voltou, vibrando, com uma produção digna de qualquer grande publicação: pela indignação do conteúdo do texto que Josimey produziu e pelas fotos de Paulo Barossi trouxe - creio que essas fotos ainda hoje existem no arquivo da Tribuna.

Denúncia pura, brutalidade flagrada, desumanidade exposta aos olhos da cidadania.

Só que (também decepção para mim), a direção do hospital intercedeu junto ao comando supremo da Tribuna e a matéria simplesmente foi parar na cesta seção (o cesto de papel, onde na época, eram jogados os textos imprestáveis).

Na época eu também era jovem e vi esfumaçar-se num acordo de diretores todo o esforço de uma talentosa tarde jornalística.
Nota do redator: creio que, hoje, o hospital esteja em melhores condições.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

O Brasil virou um show. Fiquemos todos felizes

“Eu não creio em Deus, é verdade.
Mas nem por isso sou ateu.”
(Albert Camus)
Vivemos hoje a sociedade do espetáculo e do simulacro. Não vou entrar em discussões acadêmicas sobre esta visão de mundo. Este é um artigo jornalístico, não um ensaio. A comprovação, no Brasil, foi o recentíssimo show dos Stones, e as apresentações, hoje e amanhã, do U2, cujo líder , Bono Vox, visitou o presidente Lula.
Vamos por partes: quanto aos Stones, ocorreu o que qualquer pessoa de bom senso poderia antever: foi um espetáculo pleno de vigor encenado, referências musicais programadas, atitudes de uma rebeldia desengavetada e sempre renovada a cada apresentação. Ou alguém pensa que Jagger está criticanto padrões estéticos, comportamentos convencionais e outras coisas do tipo?
Jagger é um capitalista e está administrando, muito bem, seu capital: financeiro e midiático. E está se dando muito bem. O show vai virar DVD, foi visto ao vivo nos Estados Unidos e outros países e muita gente ficou pensando que participou de um "acontecimento histórico". Mas, histórico como? Onde estavam a essência, a irreverência, a força de uma mensagem de contestação?
Houve sem dúvida um espetáculo bem feito, profissional, impecável, como compete a grandes artistas. A emoção é que foi plastificada, embalada e vendida: a grandes empresas e à prefeitura do Rio.
Por outro lado, outros grandes do rock estão no Brasil. O pessoal do U2 fará suas duas apresentações. Enquanto isso, o líder teve audiência com o presidente Lula. Puro marketing, de parte a parte. O cantor tem fama de participar de espetáculos beneficentes e ergue sua voz contra injustiças sociais. Muito bem.
Mas, daí a ser recebido por um presidente de república, vai uma grande distância. Não creio que nenhum conselho de Bono tenha tido o condão de dar a Lula algum tipo de iluminação, aberto o caminho para o nirvana político, social e, por que não, ético.
O roqueiro aproveitou a oportunidade para cultivar sua imagem de campeão de causas da pobreza universal e o presidente também teve o seu ganho: politicamente correto, recebeu um artista globalizado. Esperemos que este tenha dado conselhos sobre como acabar com a viôlência dos criminosos que infestam o Rio de Janeiro.
Enquanto isso, fomos redescobertos. Agora não mais os portugueses para trocar bugigangas com os índios. Pelo menos como porto para celebridades. Depois, eles vão embora. A fome fica, a corrupção persiste, o morticínio se mantém. Mas, pelo menos, damos ao povo pão e circo.

sábado, 18 de fevereiro de 2006

Uma lembrança de Djalma Marinho

“O futebol está tão lento que,
quando a bola sai de uma área
e chega à do adversário, já é noite.”
(Do legendário jogador espanhol Di Stéfano )

O poeta Diógenes da Cunha Lima certa vez escreveu a respeito do deputado Djalma Marinho, a quem descreveu como “o homem que pintava cavalos azuis”. A imagem, plena de força de expressão, resumia de forma magistral a figura de Djalma, ou seja: ele tinha o vigor dos corcéis em seu galope desabrido e, ao mesmo tempo, trazia em si a grandiosidade do infinito, o sonho do horizonte. A descoberta do passo seguinte.

Pois bem: ainda recordo a minha última entrevista dom Djalma, num começo de tarde chuvoso, na casa de Márcio, seu filho, onde hoje é o edifício que leva o nome do deputado. Djalma estava com a mão direita enfaixada. Sua frágil e firme mão, tantas vezes brandida de tribuna da Câmara, em defesa de seus ideais.

Djalma, o mesmo que, citando Calderón de la Barca, enfrentou o poder devastador da ditadura, quando queriam cassar o deputado Márcio Moreira Alves. Disse ele: “Ao Rei tudo, menos a honra.” Seria o achincalhe total, o encurvamento da Casa, o abismo da Desmoralização. Ele disse não e veio o fechamento do Congresso, que quebrou-se mas não sucumbiu.

Sim, mas, voltemos à entrevista. Ele falava de democracia, resistência sem violência, coisas assim e lá para as tantas, sentenciou: “Devemos ser como Atenas e nunca servir a Cartago.” E foi, foi, foi, falando sempre de democracia, convivência de contrários. Atenas, onde nasceu a democracia, seria bem diferente de Cartago, um reino na África, de onde Aníbal partiu com seus elefantes, para combater seus eternos inimigos, os romanos.

Creio que Djalma queria dizer que, em vez de buscar a guerra, o homem deve buscar o auto-conhecimento, a ponderação, o equilíbrio, a serenidade. Creio que era isso.Terminei a entrevista e, tempos depois, morria Djalma. Fui incumbido de cobrir seu sepultamento.

Lembro bem da emoção das palavras do senador Dinarte Mariz, chorando o desaparecimento do suave guerreiro. Uma tarde de chumbo, a noite se estampando como um véu de luto, recobrindo o cemitério. Quem sabe, uma carpideira, como na Grécia.

O tempo passou e uma vez, na TV, vi uma matéria na Câmara dos Deputados. E lá ao fundo o retrato de Djalma, como que dizendo em seu silêncio fotográfico: “Lembrem-se: ao Rei tudo, menos a honra.”

O problema é que, para muitos deputados, honra é uma palavra que não consta do
vocabulário.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

O detetive Perpétuo*

"Deixei de fumar por absoluta
incompetência pulmonar."
(Ex-ministro Mário Henrique Simonsen, antes de morrer de câncer)

Meu velho amigo, o detetive Perpétuo, contou-me um caso ocorrido em Natal no início dos anos 60 quando ele, em silêncio, poderia ter sido promotor, juiz e executor de uma sentença, levando um homem pobre a morrer na cadeia. Um homem que, na verdade, estava agindo em legítima defesa de uma criança.


Foi assim: em 1961, ele estava num velho bar da Ribeira, coisa de sete da noite. O expediente dele na delegacia havia terminado, e Perpétuo tomava um uísque antes de voltar para casa, onde já o esperaria o jantar preparado por Dona Altiva, sua mulher.

Então, uma mulher entra correndo e diz: "Seu Pepeto me ajude." A pobre criatura estava descabelada, tremia, suava e vira nele sua última salvação, porta final do seu desespero. Perpétuo perguntou o que havia e ela relatou depressa, enquanto o puxava pelo braço: "Venha comigo, que meu vizinho, um homem já velho, roubou a minha filha e está com a menina trancada na casa dele."

Entraram na sacolejante viatura e foram até o morro de Mãe Luíza, então uma favela. No escuro havia pouquíssimas lâmpadas nas casas e ruelas da então favela de Mãe Luíza), ele divisou as duas casinhas, afastadas das demais, já no meio do matagal.
"É ali?", quis saber. "É ali", confirmou a voz trêmula da mulher. Perpétuo aproximou-se da casa do raptor. Silêncio completo. Andou a seu redor, em busca de encontrar algum ponto por onde pudesse penetrar na casa. As janelas todas estavam fechadas. Ele rondou uma, duas, três vezes.

Parou e ficou ouvindo: dava para perceber um ruído, um ronco, um regougo, lúgubre som vindo de uma garganta arfante. Supôs que a menina estivesse sendo vítima de alguma violência pelo velho e não pensou mais: atirou-se de cabeça contra a janela do casebre, que cedeu como se fosse feita de papel.

Perpétuo caiu bem no meio da pequena sala de chão batido e deparou-se com uma cena, que ele assim me descreveu: "Acocorada a um canto, a menina chorava. E à sua frente, o velho, ou melhor, o velho enfrentando um homem moço e forte. O velho era um aleijado e, com o apoio da muleta, usando aquela parte onde se apóia a axila, empurrava o homem, pelo pescoço, contra a parede. Mal se sustinha de pé, em confronto desigual, enquanto o outro empunhava uma faca para matá-lo a qualquer momento, se fraquejasse."

E concluiu Perpétuo: "Puxei o revólver, mas fiquei parado, até que o invasor bambeou. Fora sufocado, morreu, caiu e tombou no chão, como um fardo. Na verdade, o que tinha corrido fora o seguinte: o homem havia pegado a menina e, supondo que na casa do velho não tinha ninguém, foi esconder-se lá com ela. Mas Seu Felício, esse o nome do velho, estava na casa e enfrentou o agressor, com grande coragem. Eu me virei para o velho Felício e disse que fosse embora, construísse um barraco em outra favela qualquer e estava tudo bem. O assunto estava esquecido."

O velho sumiu na noite, Perpétuo voltou para casa e jantou em silêncio enquanto Dona Altiva comentava a respeito do grande sucesso do rádio, "O direito de nascer." Ele a olhou e sorriu na noite. Sabia que na favela uma menina dormia em paz.

*As aventuras do detetive Perpétuo são ficcionais.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Silêncio, vou matá-lo agora...

"Rio Grande do Norte,
rio grande da morte,
rio grande sem sorte."
(De um poema de Bosco Lopes in memoriam )

Simplício sempre, sempre fora assim: assíduo, trabalhador, correto, desempenho sem qualquer genialidade, mas eficaz. Tudo na medida. E o reconhecimento pelo seu trabalho era, no máximo, um sorriso de satisfação do chefe, melhor dizendo, do dono da loja. Até que um dia Simplício descobriu: estava com câncer.

“Seu Simplício, vou ser muito sincero”, disse o médico, “o senhor só tem, no máximo, seis meses de vida.” Ele encarou o doutor com seus olhos castanhos, deu uma tragada forte no cigarro sem filtro e somente disse: “Está bem.”

Saiu do consultório e um pensamento aliviado o acudiu: Seu Ascânio, o patrão, não iria lhe falhar naquele momento difícil. Afinal, nunca havia pedido nada e agora era chegado momento. Não disse nada à mulher, esperou passar uma semana, tomou coragem e falou com Ascânio. O homem, de vista baixa estava, de vista baixa ficou, traçando uns rabiscos numa folha de papel.

Simplício, de pé, petrificado, esperava a resposta, como quem espera uma sentença: seria possível que, após sua morte, o patrão providenciasse a Dona Santa, a viúva (o casal não tinha filhos), o pagamento de uma espécie de pensão, já que a Previdência iria pagar a ela uma miséria?

Ascânio esperou um minuto, pensou e disse, enquanto amassava o papel e o jogava no cesto: “Não, Simplício, não. As coisas não vão bem e..”, foi interrompido por Simplício: “Mas seu Ascânio, e esses anos todos, eu aqui, minha fidelidade ao negócio, minha vontade de ajudar... isso não vale nada? Não merece reconhecimento?”

O homem respondeu: “E já foi reconhecido. Você não tinha um salário mensal? Esse foi seu reconhecimento.” Simplício não retrucou e retirou-se, voltando a seus afazeres. Ressentido, trancou-se em sua dor e esperou pela morte. Enquanto isso, tramava uma vingança: sabia que Seu Ascânio era diabético e muito descuidado com a saúde; sabia que ele tinha o costume de guardar cheques em branco e assinados.

Só precisava combinar as duas coisas no momento apropriado, para garantir a sobrevivência de Santa.Sentia que a doença o corroía por dentro e precisava agir rápido. Então, aconteceu: num sábado, foi para casa e pouco depois Ascânio relefonou, pedindo que ele voltasse à loja e ficasse em sua companhia, para revisar umas tabelas de preços. Sentiu que estava ali sua chance e voltou correndo.

Ascânio tomava muito café, fumava muito e estava com as taxas elevadíssimas. Foi suficiente substituir o adoçante por açúcar às quatro da tarde e pouco depois ouvir o baque do corpo caindo. Como ninguém sabia que ele havia voltado, foi ao talonário de cheques, preencheu um com a quantia de 60 milhões de reais. Pôs o cheque no bolso, fechou a loja e saiu quando a noite caía. Na segunda-feira o corpo foi encontrado e todos lamentavam a morte de Ascânio.

Simplício também lamentou o desaparecimento, foi a um cartório onde depositou o cheque, dizendo que o envelope onde este se encontrava deveria ser entregue a Dona Santa, após a sua morte, o que ocorreu quatro meses depois. E foi emocionada que a pobre velhinha recebeu o cheque, que lhe garantiria o resto da vida: “Meu Deus, como meu marido tinha um bom patrão.”

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Um frio de tarde sem fim

"Deus poupou-me do
sentimento do medo."
(Juscelino Kubitscheck)

A mulher subiu à redação trazendo um estranho pedido nos lábios: denunciar uma chacina, um morticínio intenso havido numa remota granja, onde seres vivos haviam se entredevorado até o fim, sem ter outra opção de alimento. Era uma senhora de cerca de 50 anos, mas 50 anos sofridos, cansados, cheios de perplexidade.

Caminhava meio encurvada, um vestido simples sobre o corpo meio balofo, os cabelos grisalhos arrumados de qualquer jeito sobre a cabeça de testa engelhada. Nunca entendi porque ela compareceu ao jornal para me contar aquilo, uma vez que não tinha qualquer relação com os envolvidos no morticínio e o fato já fazia algum tempo de ocorrido.

Mas ela ali estava e precisava ser ouvida. Mas o movimento no jornal era tamanho que eu mal tinha tempo de parar, a fim de dar-lhe atenção. Ela contava uma história aos pedaços, paradas, freios verbais, tudo ditado pelo meu corre-corre, em pique de fechamento, comecinho de noite.

De repente eu me virava e dizia: “Bom, mas continuando...” E ela tentava retomar sua história, até ser interrompida novamente: algum repórter me pedia uma melhor angulação para a matéria que estava por redigir.

E assim o tempo se passava. Até que reuni forças e me retirei para um canto com a mulher. Em resumo, contou-me o seguinte: numa granja, em tal município ( não me lembro o nome do município), alguns irmãos abandonaram tudo e foram embora, sem qualquer explicação. Abandonaram a propriedade, os animais, tudo, ao léu, sem deixar ao menos um caseiro para cuidar.

A ventania passou a ser companheira de portas e janelas, o silêncio apoderou-se de todos os cômodos, o negrume da noite endoidecia até mesmo o mais corajoso dos homens. E aí, aí veio a tragédia que ela queria me contar: na pocilga, esfomeados, os porcos, sem ter o que comer, sem poder fugir, partiram para um cruel, cruento e total ciclo de canibalismo, devorando-se uns aos outros.

Os guinchos dos animais, contou, eram tão terríveis, que as mães das cercanias achavam que algum monstro desalmado estava vindo para pegar seus filhinhos. Ela contou-me essa surrealista história e ficou assim: parada, fixa em meus olhos, como quem espera remissão ou sentença. Jornalisticamente, nada havia a fazer, uma vez que o fato se passara há meses e certamente não restaria mais nada do que se dera.

Mas até hoje me recordo da incrível história e do que pensei, enquanto ela descia as sombrias e estreitas escadarias da Tribuna do Norte, verdadeiros labirintos cretenses, e se perdia para sempre de minha visão: “Senhora, compartilho de seus estranhos sentimentos. O drama solitário da vida se ferindo, me cala no corpo um frio de tarde sem fim.”

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Uma crônica da seca

"Bobagem! É andando
que cachorro acha osso."
(João Guimarães Rosa, em Sagarana)

Eles seguem, calados e tristes, o caminho da solidão. Os campos do silêncio são o mapa de todas as dores do sertanejo. A imensidão sofrida da caatinga seca demarca esse país de pobres do campo, cujas fronteiras têm por limite suas almas feitas de incertezas.

Caminhantes da vida, rumando para o nada, eles têm na fome a companheira constante de dias e noites. O sertanejo, sua mulher, seus filhos, trazem no olhar triste o lamento calado de todos aqueles que já não têm mais palavras. Palavras perdidas, lavoura perdida, pasto morto.

Mãos calejadas contam histórias de saudade da chuva. Chão seco se estirando como um tapete de espinhos.Plantadores, eles hoje colhem lamentos. O inverno é só uma lembrança e ninguém, ninguém, poderá dizer quando a água vai voltar.

Eles bebem o gosto sujo do barro na água cavada do chão embrutecido.Terra, tanta terra e nada para esse povo comer.O sertão é como um abismo plano, onde seu povo plantou os grãos amargos da fome, servidos em mesas pobres e vazias.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Reze ou ore, meu filho... mas mande pra cá o dinheiro

"A César, o que é de César;
a Deus, o que é de Deus."
(Jesus Cristo)

A sociedade do espetáculo, que se expandiu e se firmou, especialmente pela consolidação da TV como veículo primordial de visão e divulgação do mundo, trouxe a reboque uma circunstância inesperada: a midiatização religiosa, transformando Jesus Cristo em super star, Nossa Senhora em mito pop e os anjos em ídolos imateriais.

Isso, em se falando de marketing católico, cujo panteão abrange muitas manifestações de fé, respeito e amor por entidades sobrenaturais. Quando se fala de protestantismo, cujos fiéis hoje preferem ser conhecidos pela marca evangélicos, a coisa fica diferente. Admitem o Espírito Santo como integrante do seu elenco de salvadores. Mas as palmas vão, mesmo, para Jesus. É da mercadoria Jesus, da marca Jesus, que advêm seus maiores aportes financeiros.

A Igreja Católica, da mesma forma, também cultua a figura exemplar do Rabi da Galiléia. Mas, alguns de seus segmentos, midiatizados e extremamente profissionalizados, obtêm êxitos financeiros com programas de exaltação, onde Jesus também é mercadoria fina e rentável.
Este texto, que tem, sei disso, uma apresentação efetivamente satírico-crítica, não objetiva criticar a fé, a crença em um ser supremo. Meu objetivo é lamentar a utilização da fé como mercadoria, dentro de um contexto de economia globalizada.

Vão longe os tempos em que, nos púlpitos, católicos ou protestantes, se pregava a palavra da crença com o uso da retórica, com gestos grandiosos e oradores de grande poder de convencimento. Havia, é claro, a atitude teatral, o vigor da palavra, o acendimento da fé mediante o impressionismo. Mas, suponho, existia também sinceridade, o próprio orador imerso em seu discurso.

Hoje, o discurso mesclou-se ao discurso televisivo, com os recursos de edição, cortes, enquadramentos, vinhetas e cenários. A isso deve ser ajuntado o desencantamento das multidões, que se encantam novamente via imagem telemidiática. Há portentosos eventos que são vistos pelos participantes de co-presença, mas que também são vistos em tempo real por pessoas em suas casas. O espetáculo só é espetáculo porque há um público ali presente e esse mesmo público, espetacularizado, é visto por um público não-presente, mas atento, no recôndito do lar, ao que está acontecendo.

Há uma cadeia, uma teia de acontecimentos: o grande espetáculo da vida religiosa, visto por quem também tem um sentimento de pertença àquele grupo, todos numa ação global de louvor. Em verdade, em verdade vos digo: o que vale é a aliança que se forma entre a participação co-presencial e a participação tele-assistencial.

Ao fundo, o pastor e o padre conferem com seus contadores quem pagou ou não.
Suponho que hoje, de alguma forma, ressurge midiaticamente a figura dos vendilhões do templo. Talvez seja chegada a hora de todos, todos eles, serem expulsos do vestíbulo, pois suas oferendas são venais e lucrativas.

César não quer as coisas de Deus. E, Deus, também não quer o que é de César. Os sofrimentos do mundo são muitos. E vender a salvação virou objeto de lucro. Compre um carro novo, compre a TV de tela de plasma, compre também um jeitinho de escapar do purgatório, ou até mesmo do inferno.

Mas se você quer mesmo ser um justo, fique em paz e deixe Deus de fora dessa coisa de dinheiro. Não precisa nem mesmo rezar, ou orar como dizem outros. Seja honesto, digno e honrado. Creio que isso agrada a Deus. Ser bom é ser feliz, como dizia a minha Mãe. Seja bom e afasta-se dos trinta dinheiros.

Causos do Edgar - O homem bom

Transcrevo aqui uma colaboração de Edgar Manso, que gosta e conhece as coisas e os tipos do sertão. Eis aqui mais um causo do Edgar.

Em todo canto que a gente anda, nos deparamos com pessoas que despertam a nossa atenção, por um motivo qualquer. Eu, particularmente, gosto muito de observar as figuras típicas do nosso interior nordestino. Dizem que o matuto nordestino é ingênuo. De certa forma isso é verdade, se considerarmos a forma como eles se deixam enganar por políticos adoradores da seca, que manejam esse fenômeno milenar da natureza aumentando sempre seus currais com fins eleitoreiros.

Ao mesmo tempo, o matuto nordestino é dono de uma vivacidade e velocidade de raciocínio as vezes espantosa, sem falar no bom humor quase que permanente. E quando o bicho é valente? Aí, lasca. Hoje, me lembrei de uma figura interessante nas minhas andanças pelos interiores desse nosso Nordeste, Carlos, mais conhecido como "Bigodão", aliás essa parte de seu corpo era um verdadeiro adorno, e ai de quem mangasse do dito cujo.

Carlos é crioulo do brejo paraibano, mais precisamente da cidade de Areia, importante berço cultural, produtora de cachaças da mais alta qualidade, inclusive abriga o museu da cachaça: lá também encontramos Areia do Bruxaxá, as ruínas da Usina Santa Maria, a cahaça Volúpia, o Bregareia, d Foliarte e muito mais... Mas nesse caso aqui, Areia de Bigodão.

Conheci Bigodão na cidade de Passa e Fica, eu como estágiário em uma fazenda de produção leiteira e ele como uma espécie de vigia ou chefe de segurança. O cabra impunha respeito logo à primeira vista, era "forte", no interior quem tem um bucho um pouco proeminente é logo "forte", possuía um bigode digno de um general, e além de tudo isso ele andava com um 38 meio graúdo na cintura, esse penduricalho parecia que fazia parte do seu corpo, não se desgrudavam nem um só minuto. Apesar apesar dessa força ele era uma pessoa ágil pois montava bem e até chegava a dar umas quedas nuns garrotes em dias de pega de boi no mato.

Pois bem, Bigodão passou pouco tempo nessa fazenda, mas mesmo assim praticou feitos que merecem ser contados por aí. Bigodão era muito misterioso, parecia que tinha saído de um filme de faroeste americano. Foi contratado para fazer a segurança da fazenda, não trouxe mulher nem filhos, aliás é logo aí onde começa o mistério. Bigodão sempre mostrou a todos da fazenda um revólver novinho que ele guardava numa caixa, enrolado numa flanela vermelha e uma bala e todo dia ele limpava esse trabuco.

O que todos sabiam e ele confirmava, é que esse aparato estava guardado para ser usado contra um homem que havia matado o seu único filho com pauladas num bar, apenas por causa de um esbarrão da criança. Quando essa conversa se espalhou na região, Bigodão ficou logo respeitado, e fora isso, o cabra tinha uma mira espantosa com todo tipo de arma. Cachorro e gato nessa fazenda era mais difícil de ver do que orelha de freira, Bigodão acabava com tudo.

Apesar dessa fama os funcionários da fazenda gostavam muito dele e eu também, porque além de estarmos protegidos da violência que vem aumentando assustadoramente no meio rural potiguar, ele era uma pessoa muito tranquila, divertida e muito trabalhador. Até hoje eu acho que Bigodão não dormia, passava o dia todo montado num cavalo vigiando os cercados e a noite toda vigiando a casa e as instalações, o homem andava pelas sombras, quase invisível.

Foi aí que veio a primeira presepada de Bigodão, e logo comigo. Houve uma época em que uns fugitivos de uma cadeia da Paraíba estavam praticando roubos e até assassinatos na região próxima a fazenda onde eu e Bigodão trabalhávamos. Numa noite de sábado teve um jantar na casa do prefeito e eu fui convidado. Muita comida, muita bebida, um ótimo papo, e o tempo se passando, lá pras três e meia da madrugada eu resolvo voltar para a fazenda que fica a seis quilômetros da cidade.

Seis quilômetros para quem está de carro não é nada, mas para está num fusca 77, com farol queimado e carburador entupido, rende que só a bixiga. Ao chegar à fazenda, morrendo de medo, parei o fusca na garagem e olhei bem para todos os lados: como não vi ninguém, desci um pouco aliviado mas ainda com medo. De repente, do meio da escuridão uma mão bate no meu ombro... não caguei porque não tinha nada pronto, se tivesse era ali mesmo. Quando me viro estava Bigodão rindo, com um revólver na cintura, uma espingarda na mão e uma faca na cinta, a faca nem faz diferença porque quase todo trabalhador rural gosta muito de uma amiguinha dessas na cinta.

Ainda trêmulo do susto eu abri a porta da cozinha e chamei Bigodão para tomar um cafezinho, era um homem muito respeitador, não quis entrar de jeito nenhum mas aceitou beber o café do lado de fora, perguntei de onde ele vinha para estar ali na garagem numa hora daquelas, foi aí minha grande surpresa. Bigodão, homem temido, melhor mira da região, movido por uma vingança... fez cara de choro!
- Que foi Carlos? -perguntei.
-Seu Adigá, eu vou mimbora, num tô mais agüentando isso.

Eu pensei que ele tinha matado alguém ou estava sendo perseguido e insisti na pergunta. Ele me contou que pouco antes da minha chegada tinha atirado e matado uma gata, pegado o corpo do animal e jogado num fogo onde ele queimava o lixo todas as noites, ao voltar para casa escutara miados e ruídos atrás de umas telhas num canto de parede, ao afastá-las viu cinco gatinhos recém-nascidos, e agora, órfãos.

Isso tinha dilacerado seu coração. Fiquei sem reação quando vi aquela figura de homem sem coração se martirizando por causa de gatinhos, tentei disfarçar e já bastante curioso perguntei qual fora a sua atitude quando viu aquilo. Sabem o que ele me disse?

- Seu Adigá... eu num pudia dexá aqueles bixim sem mãe. Peguei tudim num saco e joguei no fogo pra eles morrer tudo junto. Pelu menos num fica ninguém sofrendo.Fiquei estupefato. O que dizer? A única coisa que veio na minha cabeça foi:
- É Carlos. Você é um homem bom. Depois dessa noite, passei a ver Bigodão de uma forma diferente. Bem diferente.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Menores não, crianças isso sim

“É difícil continuar sendo o mesmo
depois de ler Garcia Lorca.”
(Ian Gibson, historiador irlandês)
O jargão assistencial das entidades governamentais consagrou a expressão “menor infrator” para designar as crianças, meninos e meninas que vivem pelas ruas, autores de pequenos furtos ou outras atitudes que a lei penal tipifica como crimes.


As duas palavras, “menor infrator”, na verdade, escondem uma atitude de discriminação e funcionam como a máscara que a sociedade impõe e afivela nos rostos dessas crianças que vivem nas marquises e se alimentam de restos, festejando com crack sua existência vazia.

Ninguém diz que é pai de “um menor”. Não. Todos dizem que são pais de crianças ou até mesmo aborrecentes, quando se referem às travessuras, petulâncias ou à inconformidade, tão natural aos jovens. “Aborrecentes” é, digamos, no máximo, uma adorável e terna reclamação. Nada mais que isso.

Mas, quando se vêem meninos e meninas participando de alguma revolta nessas casas de recolhimento, a palavra oficial os chama de menores infratores ou, como se dizia mais antigamente, meninos de Febem.A sociedade tem uma grande dívida para com esses jovens.

Ela os gera nas favelas e nos guetos de onde saem para as ruas, armados com sua raiva, sua perplexidade, seu medo, sua vontade de dar o troco.

E o troco que eles dão ao salário da miséria chega como nos diz aquela lei da física: a toda uma ação corresponde uma reação, em sentido igual e contrária. É o Talião da miséria, que cobra fome com crime e desamparo com violência.