sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Reze ou ore, meu filho... mas mande pra cá o dinheiro

"A César, o que é de César;
a Deus, o que é de Deus."
(Jesus Cristo)

A sociedade do espetáculo, que se expandiu e se firmou, especialmente pela consolidação da TV como veículo primordial de visão e divulgação do mundo, trouxe a reboque uma circunstância inesperada: a midiatização religiosa, transformando Jesus Cristo em super star, Nossa Senhora em mito pop e os anjos em ídolos imateriais.

Isso, em se falando de marketing católico, cujo panteão abrange muitas manifestações de fé, respeito e amor por entidades sobrenaturais. Quando se fala de protestantismo, cujos fiéis hoje preferem ser conhecidos pela marca evangélicos, a coisa fica diferente. Admitem o Espírito Santo como integrante do seu elenco de salvadores. Mas as palmas vão, mesmo, para Jesus. É da mercadoria Jesus, da marca Jesus, que advêm seus maiores aportes financeiros.

A Igreja Católica, da mesma forma, também cultua a figura exemplar do Rabi da Galiléia. Mas, alguns de seus segmentos, midiatizados e extremamente profissionalizados, obtêm êxitos financeiros com programas de exaltação, onde Jesus também é mercadoria fina e rentável.
Este texto, que tem, sei disso, uma apresentação efetivamente satírico-crítica, não objetiva criticar a fé, a crença em um ser supremo. Meu objetivo é lamentar a utilização da fé como mercadoria, dentro de um contexto de economia globalizada.

Vão longe os tempos em que, nos púlpitos, católicos ou protestantes, se pregava a palavra da crença com o uso da retórica, com gestos grandiosos e oradores de grande poder de convencimento. Havia, é claro, a atitude teatral, o vigor da palavra, o acendimento da fé mediante o impressionismo. Mas, suponho, existia também sinceridade, o próprio orador imerso em seu discurso.

Hoje, o discurso mesclou-se ao discurso televisivo, com os recursos de edição, cortes, enquadramentos, vinhetas e cenários. A isso deve ser ajuntado o desencantamento das multidões, que se encantam novamente via imagem telemidiática. Há portentosos eventos que são vistos pelos participantes de co-presença, mas que também são vistos em tempo real por pessoas em suas casas. O espetáculo só é espetáculo porque há um público ali presente e esse mesmo público, espetacularizado, é visto por um público não-presente, mas atento, no recôndito do lar, ao que está acontecendo.

Há uma cadeia, uma teia de acontecimentos: o grande espetáculo da vida religiosa, visto por quem também tem um sentimento de pertença àquele grupo, todos numa ação global de louvor. Em verdade, em verdade vos digo: o que vale é a aliança que se forma entre a participação co-presencial e a participação tele-assistencial.

Ao fundo, o pastor e o padre conferem com seus contadores quem pagou ou não.
Suponho que hoje, de alguma forma, ressurge midiaticamente a figura dos vendilhões do templo. Talvez seja chegada a hora de todos, todos eles, serem expulsos do vestíbulo, pois suas oferendas são venais e lucrativas.

César não quer as coisas de Deus. E, Deus, também não quer o que é de César. Os sofrimentos do mundo são muitos. E vender a salvação virou objeto de lucro. Compre um carro novo, compre a TV de tela de plasma, compre também um jeitinho de escapar do purgatório, ou até mesmo do inferno.

Mas se você quer mesmo ser um justo, fique em paz e deixe Deus de fora dessa coisa de dinheiro. Não precisa nem mesmo rezar, ou orar como dizem outros. Seja honesto, digno e honrado. Creio que isso agrada a Deus. Ser bom é ser feliz, como dizia a minha Mãe. Seja bom e afasta-se dos trinta dinheiros.

Causos do Edgar - O homem bom

Transcrevo aqui uma colaboração de Edgar Manso, que gosta e conhece as coisas e os tipos do sertão. Eis aqui mais um causo do Edgar.

Em todo canto que a gente anda, nos deparamos com pessoas que despertam a nossa atenção, por um motivo qualquer. Eu, particularmente, gosto muito de observar as figuras típicas do nosso interior nordestino. Dizem que o matuto nordestino é ingênuo. De certa forma isso é verdade, se considerarmos a forma como eles se deixam enganar por políticos adoradores da seca, que manejam esse fenômeno milenar da natureza aumentando sempre seus currais com fins eleitoreiros.

Ao mesmo tempo, o matuto nordestino é dono de uma vivacidade e velocidade de raciocínio as vezes espantosa, sem falar no bom humor quase que permanente. E quando o bicho é valente? Aí, lasca. Hoje, me lembrei de uma figura interessante nas minhas andanças pelos interiores desse nosso Nordeste, Carlos, mais conhecido como "Bigodão", aliás essa parte de seu corpo era um verdadeiro adorno, e ai de quem mangasse do dito cujo.

Carlos é crioulo do brejo paraibano, mais precisamente da cidade de Areia, importante berço cultural, produtora de cachaças da mais alta qualidade, inclusive abriga o museu da cachaça: lá também encontramos Areia do Bruxaxá, as ruínas da Usina Santa Maria, a cahaça Volúpia, o Bregareia, d Foliarte e muito mais... Mas nesse caso aqui, Areia de Bigodão.

Conheci Bigodão na cidade de Passa e Fica, eu como estágiário em uma fazenda de produção leiteira e ele como uma espécie de vigia ou chefe de segurança. O cabra impunha respeito logo à primeira vista, era "forte", no interior quem tem um bucho um pouco proeminente é logo "forte", possuía um bigode digno de um general, e além de tudo isso ele andava com um 38 meio graúdo na cintura, esse penduricalho parecia que fazia parte do seu corpo, não se desgrudavam nem um só minuto. Apesar apesar dessa força ele era uma pessoa ágil pois montava bem e até chegava a dar umas quedas nuns garrotes em dias de pega de boi no mato.

Pois bem, Bigodão passou pouco tempo nessa fazenda, mas mesmo assim praticou feitos que merecem ser contados por aí. Bigodão era muito misterioso, parecia que tinha saído de um filme de faroeste americano. Foi contratado para fazer a segurança da fazenda, não trouxe mulher nem filhos, aliás é logo aí onde começa o mistério. Bigodão sempre mostrou a todos da fazenda um revólver novinho que ele guardava numa caixa, enrolado numa flanela vermelha e uma bala e todo dia ele limpava esse trabuco.

O que todos sabiam e ele confirmava, é que esse aparato estava guardado para ser usado contra um homem que havia matado o seu único filho com pauladas num bar, apenas por causa de um esbarrão da criança. Quando essa conversa se espalhou na região, Bigodão ficou logo respeitado, e fora isso, o cabra tinha uma mira espantosa com todo tipo de arma. Cachorro e gato nessa fazenda era mais difícil de ver do que orelha de freira, Bigodão acabava com tudo.

Apesar dessa fama os funcionários da fazenda gostavam muito dele e eu também, porque além de estarmos protegidos da violência que vem aumentando assustadoramente no meio rural potiguar, ele era uma pessoa muito tranquila, divertida e muito trabalhador. Até hoje eu acho que Bigodão não dormia, passava o dia todo montado num cavalo vigiando os cercados e a noite toda vigiando a casa e as instalações, o homem andava pelas sombras, quase invisível.

Foi aí que veio a primeira presepada de Bigodão, e logo comigo. Houve uma época em que uns fugitivos de uma cadeia da Paraíba estavam praticando roubos e até assassinatos na região próxima a fazenda onde eu e Bigodão trabalhávamos. Numa noite de sábado teve um jantar na casa do prefeito e eu fui convidado. Muita comida, muita bebida, um ótimo papo, e o tempo se passando, lá pras três e meia da madrugada eu resolvo voltar para a fazenda que fica a seis quilômetros da cidade.

Seis quilômetros para quem está de carro não é nada, mas para está num fusca 77, com farol queimado e carburador entupido, rende que só a bixiga. Ao chegar à fazenda, morrendo de medo, parei o fusca na garagem e olhei bem para todos os lados: como não vi ninguém, desci um pouco aliviado mas ainda com medo. De repente, do meio da escuridão uma mão bate no meu ombro... não caguei porque não tinha nada pronto, se tivesse era ali mesmo. Quando me viro estava Bigodão rindo, com um revólver na cintura, uma espingarda na mão e uma faca na cinta, a faca nem faz diferença porque quase todo trabalhador rural gosta muito de uma amiguinha dessas na cinta.

Ainda trêmulo do susto eu abri a porta da cozinha e chamei Bigodão para tomar um cafezinho, era um homem muito respeitador, não quis entrar de jeito nenhum mas aceitou beber o café do lado de fora, perguntei de onde ele vinha para estar ali na garagem numa hora daquelas, foi aí minha grande surpresa. Bigodão, homem temido, melhor mira da região, movido por uma vingança... fez cara de choro!
- Que foi Carlos? -perguntei.
-Seu Adigá, eu vou mimbora, num tô mais agüentando isso.

Eu pensei que ele tinha matado alguém ou estava sendo perseguido e insisti na pergunta. Ele me contou que pouco antes da minha chegada tinha atirado e matado uma gata, pegado o corpo do animal e jogado num fogo onde ele queimava o lixo todas as noites, ao voltar para casa escutara miados e ruídos atrás de umas telhas num canto de parede, ao afastá-las viu cinco gatinhos recém-nascidos, e agora, órfãos.

Isso tinha dilacerado seu coração. Fiquei sem reação quando vi aquela figura de homem sem coração se martirizando por causa de gatinhos, tentei disfarçar e já bastante curioso perguntei qual fora a sua atitude quando viu aquilo. Sabem o que ele me disse?

- Seu Adigá... eu num pudia dexá aqueles bixim sem mãe. Peguei tudim num saco e joguei no fogo pra eles morrer tudo junto. Pelu menos num fica ninguém sofrendo.Fiquei estupefato. O que dizer? A única coisa que veio na minha cabeça foi:
- É Carlos. Você é um homem bom. Depois dessa noite, passei a ver Bigodão de uma forma diferente. Bem diferente.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Menores não, crianças isso sim

“É difícil continuar sendo o mesmo
depois de ler Garcia Lorca.”
(Ian Gibson, historiador irlandês)
O jargão assistencial das entidades governamentais consagrou a expressão “menor infrator” para designar as crianças, meninos e meninas que vivem pelas ruas, autores de pequenos furtos ou outras atitudes que a lei penal tipifica como crimes.


As duas palavras, “menor infrator”, na verdade, escondem uma atitude de discriminação e funcionam como a máscara que a sociedade impõe e afivela nos rostos dessas crianças que vivem nas marquises e se alimentam de restos, festejando com crack sua existência vazia.

Ninguém diz que é pai de “um menor”. Não. Todos dizem que são pais de crianças ou até mesmo aborrecentes, quando se referem às travessuras, petulâncias ou à inconformidade, tão natural aos jovens. “Aborrecentes” é, digamos, no máximo, uma adorável e terna reclamação. Nada mais que isso.

Mas, quando se vêem meninos e meninas participando de alguma revolta nessas casas de recolhimento, a palavra oficial os chama de menores infratores ou, como se dizia mais antigamente, meninos de Febem.A sociedade tem uma grande dívida para com esses jovens.

Ela os gera nas favelas e nos guetos de onde saem para as ruas, armados com sua raiva, sua perplexidade, seu medo, sua vontade de dar o troco.

E o troco que eles dão ao salário da miséria chega como nos diz aquela lei da física: a toda uma ação corresponde uma reação, em sentido igual e contrária. É o Talião da miséria, que cobra fome com crime e desamparo com violência.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

"Corre, que o homem tá doido..."

“A chave do sucesso é ter paixão.”
(Monserrat Caballé, soprano espanhola)

Redação da Tribuna do Norte, 20h de uma noite qualquer, de um mês qualquer do segundo semestre de 1980. Os trabalhos prosseguiam normais, ou seja: fervenedo, a um grau da loucura, para fechar o jornal. “Fechar”, em jornalês, não tem o significado comum e rotineiro, por exemplo, de fechar uma loja, ou algo assim.

Fechar, em jornalês, indica até mesmo puerpério, aquele estado em que a mulher pode ser levada a fazer tudo, até mesmo matar o filho recém-nascido. É o parto da notícia. Tudo é pressa, exatidão, presença. Tudo tem que ser preciso, improviso perfeito, tiro de atirador de elite, certeiro e fulminante.

Pois bem, foi num ambiente assim, que, repentinamente, alguém gritou: “Corre, que o homem tá doido!” Nessa época, as redações eram movidas à máquina da escrever e não a computadores. A neurótica sinfonia das máquinas matraqueando inundava a grande sala com um som de que hoje tenho saudades.

Era um parapapá que chegava a ensurdecer. Bem diverso dos computadores de hoje, com suas teclas macias e educadas.

Mas, voltando à cena: o homem, sem camisa, desesperado, suado, louco, gritava alucinadamente. E assim ele invadiu a redação. Eu me virei para Moacir, o diagramador chefe que comigo fechava a primeira página e perguntei arregalado: “O que diabo é isso?”, e o velho Moa, impassível, simplesmente respondeu, dando de ombros: “E eu sei lá?” - e continuou a fechar uma página.

Nesse momento, uma pequena multidão se preparava para invadir o jornal. Coisa de louco, coisa de louco. E atrás do homem, também endiabrado, vinha o vigilante do jornal. Desarmado (a direção não aceitava vigilantes trabalhando armados), o pobre homem muniu-se de um pau que servia para guardar jornais e desceu imediatamente, para enfrentar os invasores e expulsá-los.

“O que diabo é isso?”, gritei, já então no meio da redação. Ninguém sabia responder. Enquanto isso, o fugitivo se escondia na sala dos fotógrafos, melhor dizendo, no laboratório. Não sei exatamente como, o vigilante conseguiu conter os atacantes e eles recuaram, desceram as escadas e se dispersaram na noite da Ribeira.

Todos mais calmos, descobri o motivo do misterioso - e estrepitoso - acontecimento: o fugitivo havia espancado seu pai, nas Rocas. Uma dessas brigas de família, as famosas brigas-de-ponta-de-rua, que havia degenerado num quebra-quebra espetacular dentro de casa. Os vizinhos ouviram o barulho da quebradeira, descobriram que o velho tinha sido espancado e, revoltados, partiram para o linchamento do malsinado filho. Paus e pedras contra ele.

O sujeito correu das Rocas até a Ribeira, rápido como um maldito, buscou esconderijo nas portas da Tribuna e explodiu bem no meio da redação como uma bomba humana enlouquecida.

Depois, controlado o acontecimento, não sei como, pelo vigilante, e sabidas as causas do acontecimento, acompanhei do sujeito até a saída e perguntei: “E agora?”. Ele respondeu, olhando para um lado e para o outro, para ver se ainda restava alguém: “Sei não, mas, outra, pra mais nunca.”

Apertei-lhe a mão e desejei boa sorte. E comigo, mesmo, concordava: “E eu também. Outra, pra mais nunca...”

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Felicidade, estranha felicidade...

"Um Governo só funciona quando
entende aqueles que governa.”
(Autor desconhecido)

(Crônica baseada em fato que presenciei)

A cena poderia ser tomada por bizarra, se, no fundo, não fosse bela. Humanamente bela: em sua pobreza, em sua espontaneidade, em sua exuberância, em sua despreocupação com o amanhã - essa data sem número e sem dia certo e que parece nunca chegar.Mas eles estavam ali, o casal estava ali, vivendo seus momentos intensos em meio ao trânsito do Centro, como se tudo, todos, o mundo, aqueles carros, tivessem sido feitos para testemunhar o seu amor.

Ele, um lavador de carros, maltrapilho, analfabeto, estava feliz, na companhia da mulher, que, claro, para ele, era a mais linda do mundo. Cabelos maltratados, duros como arame, vestido roto de pano ruim, um sorriso perdido na boca sem batom, aquela cinderela sem sapatos sentia-se plena.

E tudo porque ela se sentia amada, desejada, possuída, dona de casa. Uma casa grande, sem paredes, sem teto, sem móveis, sem nada, mas toda dela. A casa dos dois era nada mais nada menos que o Grande Ponto, o Centro da Cidade.Mas, sua propriedade se estendia muito mais e muito acima do que ter aquela casa de nada, que era deles.

Eles eram donos do movimento da Cidade, das buzinadas, das sarjetas, do lixo, dos cães vadios que velavam seus sonhos de sombras e barrigas vazias, sob a proteção ridícula das marquises. Mais que isso, eles eram donos das pessoas. Sim, todos, todos no mundo, existiam para, podendo, passar no Grande Ponto e assim serem vistos pelo casal. Todos eram passageiros, somente eles ficavam.

Eu vi esse casal várias vezes, sua alegria vazia, seus abraços, seus passeios pelas calçadas do Centro, mãos dadas, rindo, felizes com sua própria idéia de felicidade. Sim, porque aquele casal vivia num mundo paralelo e era feliz em relação a si mesmo.Eles não precisavam da nossa felicidade, convencional, distante, arrogante, jamais vista e sempre oculta.

Uma felicidade de segundas intenções. Não sei durante quantos dias vi esse casal ( e isso já faz muitos anos), mas sei que sua alegria era tão forte, tão marcadamente vigorosa, que não precisava de dinheiro para ser sentida.

Depois, eles sumiram, há anos. E às vezes, andando pelas ruas do Centro, tenho a impressão de que, de repente, vai aparecer aquele sujeito mal vestido, acompanhado por uma mulher sem batom. E eu vou olhar para eles e dizer: “Quando fizeram bodas de ouro, eu quero ser o padrinho.”

sábado, 4 de fevereiro de 2006

Deadline, a linha da morte no jornalismo

"Era isso mesmo o que eu esperava:
comprar um cemitério."
(Assis Chateaubriand, ao comprar e recuperar o jornal Estado de Minas)

Muito antes que as prensas comecem a rodar, o jornal começa a ser feito. É um trabalho de equipe, intenso e coordenado. Como num jogo de passes, é preciso que cada jogador entregue ao companheiro o bastão da notícia. Notícia, esse objeto abstrato, que só aparentemente está expresso nas palavras. Na verdade, da notícia, enquanto mensagem, vale a compreensão, a representatividade do relato, o valor que previamente se dá a um determinado tipo de acontedimento, que deve ser importante ou interessante. Sem isso, nada de notícia. Importância ou interesse são essenciais.
Letras, palavras, fotos, ilustrações, tudo isso somente vale pelo que representa. E pelas consequências junto ao leitor. Vale pelo rumor social que pode causar. Em si, não têm essência nem consistência. O código é a expressão tosca do entendimento humano. E o jornal é a desesperada tentativa de captar o mundo, transformando em tinta impressa a pressa das pressões que o homem sofre todos os dias.
A notícia sobrepaira à página impressa, se espalha da mancha gráfica e se espraia no mundo. O jornal trabalha com um repertório de fatos que nada mais são que os padrões do mundo, as coisas que escolhemos como cotidianas. Mesmo que essa estranha cotidianidade jornalística sejam o inusitado, o grotesco, o excessivamente bom ou a maldade em sua mais requintada forma. De alguma forma, ao longo da História, a história da maldade se sobrepôs. O homem tem o dom do ruim.
A cotidianidade, rotineira e plana, é plena de um vazio e presivível viver. Assim, o jornalismo dedicou-se dar relevo àquilo que foge do comum. E, lamentavelmente, os atos de maldade superam em muito os comportamentos de caridade, solidariedade, humanidade e bem.
E, ao trabalhar com tantos fatos, todos recheados de tensão, o jornalismo o faz sob pressão. É o que chamamos nas redações de deadline, literalmente "linha da morte", em português prazo fatal, hora-limite. Agora, se você tem uma profissão, digamos, convencional, cumpre expediente litúrgico, atende a uma pontualidade budista, sequer imagina o que é trabalhar numa redação, o que é ser jornalista. E se você gosta de ser assim, jamais seria jornalista. O jornalismo é a tranqüilidade em disparada. Ou, como já se disse, jornalismo é a História escrita à queima-roupa.
A matéria-prima do jornal é o mundo e seu almanaque de acontecimentos, o tal repertório a que me referi há pouco. Cria-se assim, entre o jornal e o leitor, uma relação analógica: o leitor sabe que, numa determinada página, encontrará, sempre, um determinado tema - política, esporte, polícia, economia, por exemplo - mas jamais pode, ou pelo menos não deveria, prever qual assunto será tratado.
Explicando: sabe-se que em política a corrupção é quase norma executiva. Político é quase sinônimo de ladrão, pelo menos no Brasil. Assim, a novidade jornalística é: qual será a nova corrupção a ser exposta? Ou, separando cada coisa: o tema é política&corrupção, esses dois irmãos siameses. Já o assunto é a novidade sobre o mais recente corrupto flagrado.
Mas o que quero falar mesmo é a respeito da questão tempo, em função do deadline e seu equivalente literal em português, "linha da morte". Em jornal, adquirimos uma vivência muito especial a respeito da questão tempo. Tempo não apenas enquanto aquele imperceptível passar de horas para o trabalhador de expediente litúrgico, mas para o jornalista, o trabalhador do tempo fragmentado, angustiado.
Para nós, a convivência com o tempo é como conviver com o silêncio, ou com um lago calmo e profundo. Aparentemente, nada está acontecendo, mas, por trás do biombo da calma, o mundo está em ebulição. O grande problema é que os grandes acontecimentos têm algo de secreto, algo de sagrado. Os criminosos da política, por exemplo, disfarçam seu fervor pelo dinheiro e pelo poder em conciliábulos - perdão pela palavra - e confrarias que ocorrem às ocultas. Há um certo recato no roubar político.
Compete ao jornalista descobrir esses segredos, tão bem guardados como os grandes venenos, aqueles que se ocultam nos menores frascos. E, o mais triste, é que um grande veneno é uma grande arte. Administrá-lo é uma forma de ciência; há um certo saber, no trabalho dos corruptos. Tanto, que neles demoram a ser descobertos. Suas doses são homeopáticas.
O ladrão dos dinheiros públicos tem a perícia de um cirurgião ou a técnica de um pintor do renascimento, ao retocar com suavidade uma nesga de tinta. E, o que é pior, dessa cicuta, o veneno de buscar sempre o novo, algo que também nos contamina, os jornalistas bebem todos os dias. De algum modo nós, os jornalistas, morremos todos os dias com o grande veneno do deadline. Mas renascemos, dia seguinte, com uma nova manchete.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

O crime do Vectra prateado

 Não se vende uma menina



A elegante mulher desceu do carro prateado, deixou o motor ligado, foi até a favela do Maruim e parou aquele mundo de dor e lama: ali ninguém entendia o que uma senhora tão distinta, tão bonita, tão fina, fazia em meio a tanta pobreza, sujeira, lodo. Simples: ela procurava Dona Maria Oduvalda, até que ouviu: “Está falando com ela.” Sem esperar mais um segundo a mulher sacou uma pequena pistola da bolsa, mirou a mulher e acertou-a no meio da testa. 

A assassina correu, enquanto todos ficavam paralisados. Entrou no carro e fugiu. O crime do Vectra prateado, como o caso ficou conhecido, abalou Natal não apenas pelo fato em si, mas pelo envolvimento dos personagens, o confronto social, a elegância criminosa e a miséria ofendida, indefesa e morta.


Alguém anotou a placa? Não, ninguém anotara a placa, tal o pandemônio estabelecido na favela do Maruim. Mas na cidadde somente se falava na bela e seu Vectra fulminante. Passaram-se 15 dias, os jornais quase não tinham mais títulos para continuar segurando o assunto, até que ela pegou o telefone e ligou para o Delegado Eudóxio: “Doutor, amanhã vou me apresentar ao senhor. Matei aquele mulher. Não, não, não pergunte o meu nome. Apenas me espere às três da tarde que irei, sem escolta e sem medo, a seu gabinete.”


Dia seguinte, no horário aprazado, a elegante mulher chegou à Delegacia e foi direto à sala do delegado Eudóxio. Ele: “E então, por que a senhora matou aquela pobre mulher?” Ela disparou resposta aguda como lâmina de florete: “Matei porque ela era minha mãe.”


“Como?”, disse o delegado, que quase saltou da cadeira. Como seria possível que aquela mulher, finíssima, fosse filha de uma velha miserável, moradora da favela do Maruim? Ela explicou: a velha Oduvalda, viciada em álcool e faminta, a havia vendido ainda bebê a uma respeitável família natalense, família rica, porém impossibilitada de ter filhos. 


Oduvalda, bonita à época, disputada por todos os cafajestes da área, havia conseguido um bom dinheiro com a venda da criança e gastou todo ele em cachaça.

“Mas ela não lhe fez um bem? Não é hoje a senhora uma mulher rica, educada, bem de vida, tranqüila até o último dos seus dias?”, quis saber o delegado.


“Sim”, ela respondeu e arremessou uma rajada de palavras: "Mas não se vende uma filha; não se vende uma menina." E apontando sua pequena pistola para o Delegado, já que ninguém tivera a idéia de revistá-la quando entrava, disse: “Quanto ao senhor, pode querer me prender, mas não tem o direito de prender a menina que ainda existe em mim.” E atirou.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Dai ao povo pão e circo

“Criança não tem título de eleitor;
tem certidão de nascimento e fome.”
(De uma mãe pobre)

Certa vez, como repórter, eu cobria a inauguração da sede de uma entidade assistencialista. Era um sábado de sol forte. Um sol que, dependendo da situação, poderia ser tido por uns como caliente e estimulante, charmoso, um sol com gosto de Jamaica. Outros, quem sabe, o chamariam de tórrido, ou como já se usou dizer, capaz de provocar um calor senegalês.

E o povo chegando, chegando, chegando, se aglomerando numa grande mancha morena e suarenta. E vieram as tais autoridades civis, militares e eclesiásticas. Os políticos falaram, os grandes empresários jactaram-se do grande serviço prestado à comunidade. Enfim, todos, cada um dos falantes cumpriu o seu papel, enaltecendo o feito, ali mostrado em cal, pedra, cimento armado e sol, mas muito sol.

Onze e meia da manhã e começou a circular cerveja servida em copo de plástico, tira-gostos grosseiros vasculhavam até o céu-da-boca das bocas famintas. Alegria, a malta suava e vibrava. Nisso, uma banda, que naquele tempo era chamada de conjunto musical, ataca seu som vibrante e seco, jogando no ar acordes vulgares.

Um sorriso enorme, um sorriso daqueles do gato risonho de Alice-no-País-das-Maravilhas achegou-se a todas as bocas: as alegres, as desdentadas, as bocas das moças bonitas e pobres. Um sorriso de ocasião, plenamente compatível com tão vulgar acontecimento.

Eu e um colega jornalista estávamos numa espécie de mezanino, dali observando a cena, quando ele comentou: “Veja, Barreto, como é fácil ter o povo na mão. Como é fácil espremer alegria dessas pessoas.”

Era já então meio dia. O sol fez rebrilhar seus melhores e mais fortes raios, inundando aqueles corpos de suor e expandindo, em cada músculo, em cada parte daqueles corpos que dançavam aquela festa na verdade tão rude, um sentimento de satisfação braçal, embora maquiada de bons pensamentos de promoção social.

E aquele povo dançou, ah!, como dançou. Dançou até enxugar de si todo aquele convescote feito sob medida para os necessitados de pão e circo.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

Mil léguas de dor

Há pessoas com grande talento para não fazer nada.
E o fazem com grande assiduidade.”
(No programa Pequenas Empresas, Grande Negócios)

O drama da seca tem sido retratado historicamente com pleno vigor nos jornalísticos televisivos, bem como em jornais impressos. A cada repetição das longas estiagens são apresentadas matérias dramáticas sob todos os aspectos, mostrando por dentro o sofrimento do sertanejo, bebendo uma água de qualidade indigna até mesmo para animais. Agora, comovente é a coragem do povo, confiando em Deus, certo de que um dia os poderes celestiais resgatarão os pobres da seca. E o noticiário já fala que 2006 não terá boas chuvas. Temo que as velhas imagens se repetirão.

Famílias humildes, famintas, cansadas, caminhando léguas, para obter um pouco de água barrenta, a fim de cozinhar o pouco que lhes resta de comida, beber e tomar banho. São as léguas de dor do nordestino, cansado, sofrido, mas resistindo a tudo, com a coragem do mandacaru e a decisão de ferro dos pés de jurema: jamais cair.

Admirável fé, férrea confiança, só que, nesse caso, objetivamente, os poderes divinos, que ante o olhar do povo são capazes de tantos milagres, em nada podem interferir, uma vez que a seca é fenômeno meramente natural e, para seu enfrentamento, exige-se a participação de alguém que nada tem de divino ou essencialmente bondoso: a presença da chamada classe política e a decisão de fazer cessar a seca pela ação do homem.


Aqui no Rio Grande do Norte, o Governo Garibaldi Filho desenvolveu uma ação louvável, com essa questão da água, através de um programa de adutoras. Mas isso não solucionou os desdobramentos sociais da seca. Geopoliticamente, a situação é dramática e insustentável; tanto quando há centenas de anos, é idêntica certamente à sede sofrida pelas populações que se embrenhavam na caatinga, povoando o Nordeste.


Há bem pouco tempo falou-se muito na transposição de águas do rio São Francisco, mas é solução questionável, uma vez que o Velho Chico está sofrendo um sério processo de assoreamento e pode haver consequências desastrosas, caso o trabalho não seja feito com extrema cautela. Havendo falhas, acaba-se com o rio e não se tem água para as áreas que precisam dessa transposição.

O que falta é visão histórica, o que falta é compromisso, é decisão de fazer pelo Nordeste como um todo. Por que o Governo federal não traz à região propostas amplas de enfrentamento da seca, acionando políticas eficazes para a convivência do homem com a longa estiagem? Reforma agrária, uma política de águas e assistência agrícolas a assentamentos poderiam fazer parte desse leque de ações.Por que, por que não há uma ação programada para se desenvolver segundo o compasso histórico?

Serão essas perguntas de alta indagação filosófica? Questionamentos tão terrivelmente intricados que não se possa pelo menos balbuciar uma resposta qualquer? Não sei. Mas creio que não.

O problema é que não há realmente um grande interesse em dar ao sertanejo a oportunidade de enfrentar a falta da água que cai do céu.
Ou então, se quer dar aos homens e mulheres do campo unicamente a chance de mostrar que têm fé.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2006

A árvore que morreu

"Ave César, os que vão morrer te saúdam."
(Os gladiadores, quando adentravam à arena)

Havia ali, em frente à AABB, no canteiro central da avenida Hermes da Fonseca, uma árvore. Não muito alta, tronco fino, meio caída de lado, ela tivera cortados todos os galhos e retirada do seu corpo vegetal toda a beleza das folhas. Mas aquela árvore, velha e reduzida à condição de feia, insistia em viver. E, aos poucos, dia a dia, fazia renascer os brotos dos galhos, como quem avisava aos humanos que não queria morrer.


De alguma maneira isso chamou minha atenção e passei , todo dia, a observar aquela árvore. Via que os galhinhos recomeçavam o trabalho da natureza, de nascer e crescer. Mas, logo vinha alguém, algum assassino impune, e desbastava novamente a árvore. Que insistia em sua luta pela vida e reverdecia outra vez. E assim seguia aquele combate. Silencioso, estranho, semanal.

Minha expectativa aumentava, toda vez que notava uma nova agressão. Certa vez, até que ela conseguiu: exibia, vistosa, galhos já mais ou menos crescidos, de um verde brilhante e vivo, forte e sincero. Era quase uma emoção, um grito contido de vitória: ela pensava, certamente, em suas entranhas vegetais, que iria renascer.

Animei-me: pronto; agora ela ia mesmo crescer, espalhar seu verde, fazer sombra, alegrar a vista, que é esse o destino das árvores. Até que, um dia, tudo foi cortado, podado, decepado, riscado do mapa sentimental do canteiro da avenida: o assassino havia voltado, certamente à noite, disfarçado de passante, e simplesmente havia derrubado a árvore. Nem mesmo seu tronco indefeso era mais visto. Um vazio ocupava, na minha vista, no meu território da emoção, o seu lugar.

Não sei, mas creio que essa árvore não morreu. Eu acho que essa árvore foi para o céu...

domingo, 29 de janeiro de 2006

"Helenita...Helenita..."

Existem falhas que
precisam ser aperfeiçoadas.”
(Pelé)

Havia, na rodoviária velha, Ribeira, velha Ribeira, uma pobre louca que falava sozinha. Falava com seres invisíveis, pessoas que habitavam seu mundo, seu único, inacessível e paralelo mundo. Nunca consegui saber seu nome, enquanto, à noite, às vezes altas horas da noite, depois do expediente no jornal, esperava o ônibus para ir para casa.

Sozinha, sentada a um banco, cercada de pacotes mal arrumados, falava, falava muito, gesticulava, discutia, irritava-se, reclamava, pedia, e, creio, era até atendida pelos seus amigos invisíveis. Sim, pois, de vez em quando, se abria em sorrisos da mais esmerada simplicidade.


E eu ali, lendo algum jornal, mas com um olho naquela cena. A estranha, inesperada personagem, em pleno devaneio de vida, esquecida ao mundo, entretida em si mesma, pobre imagem de uma vida aparentemente em vão. Eu disse aparentemente em vão.
E vinha o frio da noite, aquela brisa da Ribeira, brisa fugitiva do Potengi, trazendo em seu corpo de nada o cheiro do mar, mar e vida, maresia, mar-Ribeira. Passavam vultos escusos, caminheiros da noite, uma ou outra radiopatrulha, vagabundos sonolentos, bêbados equilibristas. E eu, um pouco de tudo isso.

E ela falando, sozinha. Falando, falando, coitada: feliz. Calada para o mundo, alerta para si. E uma de suas amigas mais amigas, íntima, conciliatória e cúmplice era...Helenita. Sim, Helenita. Helenita, a invisível, impalpável, mas, viva. Viva para a louca, presente em sua presença.

E ela dizia: “Se acalma, Helenita. Deixa de coisa, mulher. Deixa de dizer besteira... Helenitaaaaaa....” E, gesto brusco de mão morena, dava um tapão no ombro intangível da mulher. E ria, ria, gargalhava quando a outra parecia revidar, ali, na penumbra encardida da rodoviária velha. Ali, naquele ponto de encontro das gentes noturnas.

Ah, que mundo maluco e bom, o daquela louca. E lá vinha o ônibus: pesadão, cansado, velho, luzes fracas, salão de luz mortiça, passageiros tombando de sono, cabeças balouçantes, corpos vivos pendentes de cansaço. Eu entrava no sacolejo do veículo lerdo e lá me ia, deixando para trás Helenita e a louca.

Às vezes meu instinto de repórter me chama a voltar à Ribeira para ver se ainda as encontro. Helenita eu já conheço. Sei que é estabanada, brincalhona, faceira, gosta de falar besteira, não é mesmo? Helenita eu já conheço: mas se fosse possível voltar, gostaria de saber o que a louca tem a dizer sobre o mundo de hoje. Acho que ela ia preferir ficar no mundo de Helenita.

sábado, 28 de janeiro de 2006

Um sax para a lua

Durante o Governo Tarcísio Maia o poeta Sanderson Negreiros foi nomeado para a Secretaria de Assuntos Extraordinários. Sanderson, também jornalista de grande sensibilidade, iria cumprir uma missão: colocar o Governador em contato com o povo e com as gentes simples, uma vez que Tarcísio, cultor de um comportamento discreto ressentia-se desse tipo de convivência.

Sanderson, logo que assumiu o cargo, criou o que haveria de ser chamado de "Encontros com o povo", uma maneira simples e eficaz de cumprir com o seu projeto: TM, como o Governadors era chamado nas manchetes, às comunidades humildes. Ali, Tarcísio inspecionaria obras, falaria com os homens, com as donas de casa, com as crianças.

Um desses primeiros encontros ocorreu em Mãe Luíza. Foi tudo às mil maravilhas. Tarcísio, feliz, apertava a mão de um e de outro, ouvia reclamos, tomava providências na hora. Depois, os encontros foram estendidos ao interior. Então, numa bela manhã de sábado, Tarcísio seguiu a Carnaúba dos Dantas, onde faria a inauguração de uma estradinha que ligava o pequeno município a uma grande rodovia.

Eu viajava num carro da assessoria de imprensa, colocado à disposição dos jornalistas. Eu era da Tribuna do Norte e Dermi Azevedo representava o Diário de Natal. O carro do governador seguia a exatíssimos 80 quilômetros por hora, velocidade máxima então permitida . Antônio Melo, assessor de imprensa, comentou conosco: “Vejam bem, o Governador não permite que se corra a mais.”

Chegamos afinal à cidade, que à época, sequer dispunha de hotel. O prefeito cedeu sua casa ao Governador e comitiva. À noite, assistimos a um literalmente grandioso espetáculo na igreja do lugar: um coro de vozes femininas entoava músicas sacras, compostas e regidas por ninguém menos que o maestro Felinto Lúcio, enquanto a missa prosseguia.

Eu não havia notado o coral, até ser envolvido por aquele som, ao mesmo tempo arrebatador e singelo, supremo e sublime. Felinto regia como que tomado pelas mãos de Deus. A música fluía de si, e refulgiava na igrejinha iluminada. Uma vigorosa alegria da fé se espalhava pela noite do sertão.Terminada a missa, uma quermesse aguardava o Governador, centro de todas as atenções. Tarcísio, frugal, retirou-se cedo da festa.

Acompanhamos o Governador. E ficamos, eu e Dermi, na sala principal da casa, conversando. De repente, em meio a um luar desse tamanho, ouvimos música: era um sax, acompanhado pelo suave rufar de um tambor. Eram dois músicos, de uma banda vinda de uma cidade paraibana para uma retreta em Carnaúba dos Dantas. Paramos a conversa para ouvir em silêncio.

Fardados, o saxofonista e o homem da caixa caminhavam à luz fria da lua. Um vento tímido palmilhava a rua, em respeitoso movimento aéreo. À frente, o instrumento tocava uma música calma, tão calma e tão tenra como o orvalho que começava a chegar às flores do campo. Fiquei parado, melhor paralisado à janela, olhos cravados na cena.

Tocavam Royal Cinema, composta por Tonheca Dantas, irmão do maestro que, fala-se, teria composiões suas tocadas até na Capela Sistina, Vaticano. Na verdade, tocavam o sentimento da humanidade, compassados à presença profunda do luar tão branco. E foram passando, passando, passando, deixando atrás de si a música e logo após ela o silêncio da cidade que dormia ninada pelos dons dos que estão em paz.


Carnaúba dos Dantas. Quando um dia eu voltar, quero encontrar de novo aquela música. Sei que ela está me esperando, oculta em alguma esquina, quem sabe escondida em alguma longa dobra do tempo, tocando em surdina para o sertão ouvir.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

O terror como espetáculo

"A beleza é uma
forma de genialidade."
(Oscar Wilde)

Tanto quanto produzir efeitos danosos, material e humanamente falando, os atos de terrorismo têm por objetivo funcionar como discurso, amplificado e reproduzido pela mídia. Daí porque o 11 de setembro de 2001, o atentato ao metrô de Madri, as explosões de homens-bomba em Israel. A lista seria enorme. Para o terrorista, é preciso que o fato literalmente exploda na TV, na manchete jornalística, no visor da Internet, a fim de que o atentado esteja plenamente consumado. Sem a publicidade, o efeito rumoroso da bomba inexistiria. O terror, para si e para os outros, é a mais terrível forma de espetáculo midiático.

É preciso que o ato obtenha o efeito social maior que é exatamente esse: aterrorizar. É preciso levar pânico, incerteza, temor, insegurança, expectativa angustiante a respeito de quando haverá uma nova e insidiosa agressão. E mais: agressão que atingirá inocentes, pessoas que seguem seu cotidiano, alguém que apenas vai passando e morre pela explosão de uma bomba. O terror precisa dizer: eu não tenho medidas, não tenho limites éticos, compaixão ou racionalidade.

E o jornalismo diz: eu preciso informar, as pessoas têm o direito de saber o que está se passando. Assim, firma-se um conjunto comunicacional de, literalmente, alta potência: o atentado e a sua apresentação via meios de comunicação de massa. Quando chegamos a esse aspecto, vale uma reflexão, uma vez que os efeitos perversos do terrorismo se expandem exatamente pelo jornalismo quando este, na missão de informar, termina servindo de haste complementar ao atentado.


E o pior é que não há como calar. É preciso anunciar o atentado. O grito da imprensa, mesmo funcionando, segundo a ótica terrorista, como sinete de que novos gestos brutais virão, é também a denúncia da violência como instrumento político traiçoeiro e cruel.
A mídia, hoje, assumiu um papel de relativa centralidade nos processos sociais, a ponto de incentivar o surgimento ou cancelamento de atos de repercussão nos mais diversos campos. Os constantes atos terroristas são uma prova disso. Por outro lado, quando o presidente George W. Bush saiu de seu imobilismo ante a tragédia dos moradores de Nova Orleans, negros em sua maioria, terminou por cancelar sua omissão, ante as reprecussões negativas.
Sabedores de que o jornalismo funciona, transversalmente, como mais uma peça no encaixe de seus planos, os terroristas se articulam a fim de tirar proveito.
O que foi o 11 de setembro de 2001, senão um grande discurso? O discurso da força e um discurso de mídia. Ficou dito naquela data que os Estados Unidos não são invioláveis, ficou claro que é possível atacar a maior potência do planeta em seu próprio território.
As torres representam o capitalismo, o Pentágono o poderio militar e a Casa Branca o sentimento de pátria, a ofensa à home land. Nada disso foi por acaso. E nada será por acaso, quando de novos atentados, como vemos diariamente no Iraque.
No Oriente Médio, a eleição de radicais islâmicos tem trazido expectativas negativas
quanto ao relacionamento da Autoridade Nacional Palestina com Israel, que se recusa e conviver com um governo que classifica como acolhedor de terroristas.
De outra parte, não há como o jornalismo silenciar, pois o silêncio terminaria colaborando com o terror.

Na verdade, estamos falando de uma realidade complexa, de muitas faces e outras tantas interligações. O jornalismo não é um dado de mundo isolado do mundo, como uma casinha lá nos mais distantes sertões. O jornalismo é parte de um intricado processo social e, como tem por missão relatar o mundo, acaba sendo absorvido pelos fatos que re-trata, como num doloroso e contínuo moto perpétuo.







quinta-feira, 26 de janeiro de 2006

Cascudo e o lobisomem

"Isso é bom."
(Palavras do filosófo Immanuel Kant, pouco antes de morrer)

Uma das coisas que mais gostava de fazer, quando repórter da editoria de Geral, era entrevistar Luís da Câmara Cascudo, o Mestre Luís da Câmara Cascudo. Dali, de sua casa na grande subida da Junqueira Ayres, o Professor via o Potengi amado e descortinava todo um mundo de lendas, mistérios, cantigas e danças, credos e medos que o Homem tem guardado dentro de si.

Certa vez, pautado para entrevistar o Professor, terminamos falando exatamente sobre lendas e crendices populares. As coisas do povo, a fé do povo, o medo irracional que nos acompanha a todos e se aflora nos momentos de tensão ou insegurança.

Ele me falou do saci-pererê, disse que o molequinho, em tempos outros, fizera muito medo a muitos e comparou essas épocas passadas com o tempo em que a entrevista transcorria (anos 70) e lembrou: o medo do saci, se transformara no medo da perda do emprego, no terror da inflação que, à época, roía o país.

Explicou o Mestre que o medo persiste, somente se apresenta sob formas variadas, dependendo do estágio em que se encontre uma certa sociedade. E vieram outras lendas, a caipora, o bicho-papão, a mãe d’água, a boitatá, o lobisomem, ah, o lobisomem.

Sobre a boitatá - me lembro como se fosse hoje - ele comentou: “ Bicho grande, cobrona que brilha de noite, iluminada toda pela luz dos olhos dos bichos que já comeu. Os olhos ficam brilhando dentro da cobra, meu filho...E disso o povo tinha medo, nisso o povo acreditava.” E completou: “Hoje, a boitatá é a inflação”, e deu uma de suas gargalhadas, todo ele envolto na fumaça do charuto.

Sentado em sua cadeira de espaldar alto, largos apoios para os braços, o Professor foi servido de água por Dona Dhália, sua mulher, virou-se para mim e disse: “Já estou quase mandando você baixar em outro terreiro” (era com essa expressão que ele gaiatamente expulsava seus entrevistadores). E disparou de letra: “O que mais você quer saber?”

Respondi em cima: “Professor, o senhor tem medo de lobisomem?” Sorrindo, após mais um fumarento aspirar do charuto, respondeu e sua voz tinha um tom sombrio, pesado sortilégio de quem sabe de tudo:

“Não, meu filho, não. Aqui dentro desta casa, sentado em minha cadeira, nesta cidade do Natal, sob a proteção das luzes que nos cercam, digo a você que não. Mas no sertão, numa noite de lua, numa sexta-feira aziaga, a cruviana me rondando, sim. Numa hora dessas meu filho, eu tenho medo de lobisomem. E agora, vá baixar noutro terreiro.”

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

A casa da noite eterna

“A mão que afaga é a
mesma que apedreja.”
(Augusto dos Anjos)

Em crônica anterior contei como um maníaco, José Vilarim Neto, quase extermina toda uma família. Durante um acesso de desequilíbrio matou duas irmãs, a avó destas e uma empregadinha grávida. Praticou necrofilia com um dos corpos, cavou um grande buraco no quintal da Granja Capim Macio, onde ocorreram os crimes, e depois esperou para matar a mãe da família, a alemã Ruth Looman e a sua filha mais nova. Ela e a menina conseguiram sobreviver, após brutal luta da mulher com o Monstro de Capim Macio, como ele então ficou conhecido.

Se você rolar a página, logo abaixo encontrará a primeira crônica.

Hoje, contarei como, cerca de 20 anos após os crimes, voltei ao local para uma nova matéria, numa nova tragédia, ocorrida ali, na Granja Capim Macio, um local habitado pela dor.
Fazendo uma viagem no tempo, vamos retroceder: eram seis horas da manhã de um dia entre janeiro a março de 1975, quando a Kombi do Diário esbarrou à minha porta, com a buzina aos berros. De dentro do carro saltou o magérrimo, capetíssimo, elétrico fotógrafo Paulo Saulo, cuja máquina há muito parou de bater.


“Barreto, vamos lá em Capim Macio, que mataram gente como o diabo” , foi logo avisando. Detalhe: eu tinha, no máximo, cinco meses de jornalismo e a matéria era muito difícil. Requeria: frieza para ver cenas de sangue, calma para anotar os dados, fontes na polícia, habilidade para entrevistar – sem chocar – os familiares sofridos e revoltados, faro para captar coisas que os outros jornalistass não estivessem vendo e, afinal, rapidez para fazer tudo isso, voltar à redação e produzir o melhor texto possível. E essa prática eu não tinha.

Em cinco meses de jornal você não desenvolveu ainda todas essas qualidades, que somente se aperfeiçoam com o passar do tempo. O jornalista Cassiano Arruda me deu umas instruções, dizendo que a matéria deveria ser romanceada, ou seja: evitar o jargão típico do noticiário, a notícia seca, concisa, optando-se por um tratamento tipo história, com começo, meio e fim. Esse artifício permite captar toda a emoção dos fatos e dar ao leitor a sensação de visualizar a cena. É técnica eminentemente literária, exige prática. E essa prática eu também não tinha.
Eu outras palavras: eu estava perdido.


Depois de falar com Cassiano, na redação, meti-me na Kombi e fui até a cena dos crimes. Vi o buraco onde Vilarim havia jogado os corpos sofridos de suas vítimas, vi o rifle de cano partido por Ruth, na luta grotesca. Senti o sofrimento da família e, ao dar-me conta de mim, estava completamente desorientado: como eu ficava mais na redação e o repórter Pepe dos Santos fazia campo, eu não tinha fontes policiais e isso era suficiente para prejudicar a coleta de dados.

Piorando a situação: ninguém da família para falar. Aí, dei sorte: ao encostar-me ao lado da porta, duas senhoras, certamente muito amigas da família, conversavam a respeito dos crimes. E não é que elas sabiam de toda a história, até mesmo com detalhes? Foi só acalmar os nervos e anotar, silenciosamente, todo o drama, relatado na crônica anterior e sintetizado na abertura deste texto. Pouco depois um delegado deu uma entrevista coletiva e confirmou o que eu havia anotado.

Vinte anos depois
O tempo passou, eu deixei o Diário, cumpri outras missões. Mas, nos caminhos e descaminhos da vida, eis-me de volta ao Diário, cerca de 20 anos depois. E não mais como homem de polícia, mas editor do noticiário de Cidade. E um dia, não é que ouço o mesmo Pepe dos Santos dizer que, na casa onde fora a Granja Capim Macio tinham havido mais dois crimes?

Os crimes, conhecidos no noticiário como “O crime do pé-de-lã”, tinham acontecido há tempos, bem antes do meu retorno ao Diário, mas a descoberta de que foram na mesma granja eram o detalhe de valor, o lance de qualidade da matéria, o rastro de sangue se espalhando pelo tempo.
Pepe estava indo para o local. E aí me meti na conversa: “Espere, Pepe. O repórter dessa matéria sou eu. Vamos voltar à granja, para ver como ficou, qual o clima que existe por lá.”


Fomos.

Chegamos.
Mas, aí, as coisas já estavam bem diferentes: Capim Macio já não mais era o bairro silvestre de há 20 anos. Ao redor da casa outras casas, e ruas, e becos, e pessoas passando. Nada mais da bela granja, uma casa aprazível, preguiçosa, que convidava a uma convenção de redes, brisas e luar. Não havia mais a sensação de se estar entrando num pequeno bosque, para se chegar a uma casinha, lá longe, escondida. Assim era a Granja Capim Macio.

A casa fora destruída e em seu lugar existia uma construção de arquitetura medíocre, tijolo por tijolo, a mísera estética da gravidade. Só. De modo algum reconheci a granja, mas, Pepe, sim: “É aqui mesmo”, garantiu. Pensamos em entrar, mas tememos que houvesse cães. Criamos coragem, entramos. Passo a passo, esperando o suposto e temido ataque. Mas não havia cães. Encontramos na casa apenas uma solidão que falava através de dobradiças que rangiam. Um vento frio cortava salas e o corredor. O chão parecia sofrer, ao ser pisado. Era como que um processo de sufocação, um clima de abandono, o abandono dos acorrentados.

Ali, naquela casa, havia morado um casal. Isso, anos depois da tragédia de Ruth e Vilarim. Resumindo o caso, o segundo caso, foi assim: o marido era trabalhador do petróleo e descobriu que em suas ausências era traído pela mulher. Um dia fez que ia sair mas não foi, voltou de surpresa à casa, flagrou e trucidou a mulher e o amante em meio a grande luta. Sangue, muito sangue. Era o destino daquela casa: dor, sofrimento, gritos, gritos na noite eterna de tudo o que não compreendemos.

Fiz minha anotações, agora já tão senhor dos fatos, preparado, bem diferente do repórter de há 20 anos atrás, tonto, sem uma só fonte policial. Eu disse: “Vamos embora? Já acabei.” Pepe concordou, com um sinal de cabeça. Os registros que eu fizera descreviam a atmosfera, o ambiente, a alma da casa, sua essência acabrunhada. Não havia personagens, somente a solidão e o silêncio ajudariam a compor o texto... O gancho da matéria era a coincidência de tantos crimes num mesmo lugar. Dei por encerrado o trabalho e fomos embora.

Quando saímos, bati o portão da rua com força, como quem quer deixar para trás um passado que não vale a pena. Caminhava para a Kombi, quando tive a impressão de ter ouvido, longe, baixinho, uma gargalhada. Mas, sabe?, acho que foi só impressão... Espero...

sábado, 21 de janeiro de 2006

O Monstro de Capim Macio

Natal, 1975. A cidade ainda tinha um ar de província. Sossegada, uma cidade floral, uma Natal ainda silvestre. Capim Macio, hoje valorizada, área nobre, era quase um distrito rural e, nesse distrito rural, um homenzinho baixo, moreno, caladão, prestativo e bom ajudante de serviços pesados, pau-para-toda-obra, praticou uma chacina como se viram poucas aqui.

José Vilarim Neto, esse o seu nome, morava em Capim Macio, numa granja (veja só: uma granja em Capim Macio, como Natal era silvestre), que tinha exatamente esse nome: Granja Capim Macio. A granja, local aprazível, retirado, belo, pertencia a uma alemã, Ruth Looman, que morava em companhia de sua mãe, três filhas, uma empregadinha que estava grávida e, pêsames, Vilarim.

Certa noite, por motivos nunca explicados, esse homem teve um acesso de loucura, atacou e matou duas das três meninas, além da avó e da empregadinha. Praticou necrofilia com uma das meninas, cavou um enorme buraco nos fundos da casa e ali jogou seus corpos.

Depois, como uma besta com sede de sangue, armou-se com um rifle que a família mantinha em casa e ficou à espreita de Ruth Looman e sua filha mais nova. Colocou a arma ao ombro, firmou a pontaria para o lado da porteira da granja e ficou dormindo na mira. Quando Ruth chegou, foi recebida a bala: mas um, apenas um tiro a acertou e, mesmo assim, no ombro. O ferimento, de pouca gravidade, permitiu que ela resistisse, enfrentando Vilarim.

Atingida, Ruth, uma mulherona, física e moralmente grande, atirou-se em desabalada carreira para a frente, em meio à quase escuridão, e, naquele instante, com uma idéia fixa: atracar-se com Vilarim: ela sabia que somente lutando conseguiria sobreviver, ela e a menininha. E então, quando Vilarim corria bala na agulha para mais um disparo, pronto!, Ruth chegou até ele, agarrou-o e entraram em luta. Sangrando, a mulher enfrentava a fera, que tentava usar o rifle como tacape.

Ela empurrou a filha para dentro de casa e tentou fechar a porta. Nisso, Vilarim mete o cano do rifle entre a porta e o portal, para impedir a fuga. Ruth não vacilou: dominada nesse instante por uma força descomunal, firmou-se no pé esquerdo, empurrou a porta com o pé direito e, puxando o cano do rifle com as duas mãos, simplesmente partiu o cano da arma em dois (digo isso porque vi a arma partida). Vilarim caiu para trás e a porta trancou-se, deixando protegidos, dentro da casa, dois seres humanos aterrorizados, aterrorizados, mas vivos.

Isso ocorreu, como já disse, em 1975 e o fato ficou conhecido como a chacina de Capim Macio. Vilarim, por sua vez, tornou-se famoso da noite para o dia como o Monstro de Capim Macio. Conseguiu fugir após os crimes, somente sendo capturado cerca de 15 dias após. Quando foi preso, mal conseguia balbuciar palavras sem nexo, não se explicava, não dizia o motivo para a matança, não falava coisa com coisa. Os jornais esgotaram as edições, a cidade parou para ler sobre o Monstro.

As pessoas com medo
Por muito pouco não participei da sua prisão. Eu fora, na companhia de um fotógrafo e motorista do Diário de Natal até um certo Morro da Cabocla, Cidade da Esperança, onde se dizia que ele estaria escondido. Chegando lá, era o maior deserto, um silêncio cúmplice do medo, uma tarde de expectativa de prisão. Caminhamos atentos ao matagal, esperando ver algo. Procuramos, procuramos: nada.


Passamos a um descampado, nada também. Até que chegamos a um grupo de pessoas que estava escolhendo terrenos para construir casas. Eu já supunha que Vilarim não estaria ali e, só por brincadeira, perguntei: “Vocês não viram por aqui um rapaz: assim, assim, assim?”, e dei a descrição do homem.

As pessoas se entreolharam, perguntaram quem eu estava procurando: expliquei que era repórter do Diário e estava à procura de Vilarim. Você precisava ver a cara geral de espanto. As pessoas se entreolharam e, não deu um minuto, todos haviam desaparecido, literalmente fugido. A verdade era essa: Natal estava em pânico com o Monstro.

Desistimos do Morro da Cabocla e, por pura intuição jornalística, rumamos a Macaíba. A idéia surgiu logo que entrei no carro com o fotógrafo e o motorista. Alguém comemtou que a polícia estava fazendo rondas naquela cidade e decidimos ir à delegacia, para acompanhar as investigações. O problema era o tempo, o adiantado da hora. Jornais têm horário certo para fechar as edições. Assim, resolvemos voltar à redação, deixando de ir até a delegacia.

Até hoje lamento essa decisão. Foi o maior azar: se tivéssemos ido à delegacia, teríamos acompanhado os policiais que, horas depois, conseguiam localizar e prender, numa granja nas imediações de Macaíba, o Monstro de Campim Macio. Ele estava ali escondido há cerca de três dias. Pedira emprego e o dono da granja o aceitou. Vilarim era bom de enxada e agradou em cheio ao patrão.

Qual não foi a surpresa do homem quando a equipe de investigadores civis de Macaíba chegou à granja, disse a que vinha e, com o máximo de cuidado, um dos policiais se aproximou de Vilarim, elogiando seu desempenho com a enxada. Ele sorriu e agradeceu. Aí, o policial disse que também sabia trabalhar com a enxada e pediu o instrumendo.

Vilarim sequer desconfiou: quando passou a enxada ao homem, seus companheiros voaram sobre o fugitido e o dominaram. O acontecimento, a chacina, reuniu não só crimes terríveis, mas uma personalidade transtornada, um ser humano desequilibrado que, de um só golpe, trouxe infelicidade e dor a toda uma família, numa das maiores tragédias do noticiário policial do Estado.


  • Eu era repórter principiante e participei da cobertura do começo ao fim. Os detalhes a respeito do acontecimento me foram passados, à época, pelas fontes que vivenciaram o sinistro episódio.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

A verdade, no jornal e na novela

"Ninguém chega às margens
do Rubicão para pescar."
(Albert Camus)
O Jornal Nacional e a novela Prova de Amor, da Record, estão disputando audiência. Numa outra leitura, a realidade e a ficção se enfrentam num mesmo terreno: o argiloso terreno da comunicação de massa. O que há de comum entre os relatos da vida e a ilação da vida? O simples fato de que ambos estão ocupando espaço num meio de comunicação de massa e, especialmente, o fato de que o Jornal Nacional e a telenovela são, tecnicamente, programas. Ou seja: cumprem toda uma liturgia dramatúrgica de som, imagem, cores, movimentos e representações que, de alguma forma, se encontram de maneira paritária no monitor da TV.
Além disso, nota-se outra convergência: a telenovela brasileira abandonou há muito aquele padrão voltado unicamente para um tema central, quando um par de apaixonados, perseguido por alguém infame, jamais conseguia realizar seu terno amor, o que somente acontecia ao final do drama.
Hoje, a realidade das ruas, as mais baixas manifestações do ser humano e manifestações de comportamento discrepantes, como pares de lésbicas ou de gays, integram o quadro das tramas e subtramas novelescas. Claro que há sempre o par romântico, é essencial ao gênero, mas sua circunstância não é mais apenas o infame repressor, ciumento e cruel, mas um infame que tem alta dose de verossimilhança com o mundo de fora, o mundo que está vendo a novela.
Aí está o nó górdio da questão: a verossimilhança. Para a novela, funciona como elemento potencializador das atenções; no jornalismo televisivo, pode remetê-lo não ao real, mas ao mundo mesmo da TV. E isso, na medida que o jornalismo se socorre de atitudes típicas da dramaturgia televisiva, com enquadramentos de câmera que realçam determinados aspectos da realidade, uso de depoimentos e música, especialmente a vinheta sonora, que marca a abertura e fechamento do jornal, do mesmo modo que uma novela.
Assim, à medida que há uma sobreposição de realidades, a realidade da vida versus realidade ficcionada, e, interligando essas duas circunstâncias, registra-se o elo da verossimlhança, estão as duas irrevogavelmente levadas a um mesmo plano: o plano de serem realidades midiatizadas e portanto, de alguma forma, equivalentes.
Desta forma, imagem por imagem, o telespectador ficará com aquela que mais lhe esteja aparentando representar a vida. Claro que não estou me referindo a nenhuma forma de alucinação; as pessoas têm filtros cognitivos que inibem as mensagens que não as atraiam. A questão é que enquanto o telejornalismo, qualquer telejornalismo, exibe um bandido sendo preso, ou um tiroteio, a novela trata com realismo do tema do seqüestro de crianças. De fundo, realidade e realidade ficcionada estão no mesmo plano: estão fechadas na tela colorida da TV.
E, se o telespectador não percebe no jornalismo maior força de captação da vida, não apenas expondo acontecimentos, mas sobre estes exercendo uma ação crítica e cidadã, certamente vai ficar, mesmo que por alguns minutos, com a realidade ficcionada. Até porque todos os telejornais dirão mais ou menos as mesmas coisas. Todas as equipes tratam dos mesmos recortes de mundo.
Já a novela, não. Todo dia, tem um capítulo diferente. E o que está numa, não é encontrado em outra.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2006

Ele veio ver se o passado estava em dia

Em política, o que vale é o negócio,
o acerto e o passo ligeiro.”
(Majó Theodorico Bezerra)

Aos sábados, às vezes, eu saía da Tribuna do Norte, redação velha, Tavares de Lira, idos dos anos 70, e ia ao Grande Hotel, conversar com o Majó Theodorico Bezerra. Ainda me lembro: os cabelos brancos, curtos, a pele curtida de sol. E as conversas. Ah! As conversas do Majó. Contava coisas da sua vida, as viagens pelo mundo, a noite de Paris e dizia:“Moulin Rouge, Pigalle e as moças bonitas cheirando a França...”.

Ele costumava receber amigos e formava uma grande roda. E dizia: “Bebe com os fortes e serás um deles.” E provava: tomava uma cerveja, pedia uma caipirinha, se houvesse vinho também não recusava, descia um uísque, aprontava um Campari, virava uma vodka e o que mais viesse. E não dava qualquer sinal de embriaguez.

Boas horas, boas horas aquelas, comecinho das tardes de sábado. E o Majó nos encantava a todos, com suas histórias. Na Assembléia, o Majó também tinha sua marca registrada: quando lia as atas, o fazia de modo, digamos, bem pessoal: pronunciava uma algaravia de palavras rápidas, quase um murmúrio, saltava parágrafos e, ufa!, logo chegava ao fim.

Dizia ter amor pelo seu povo, o povo simples de Tangará, e disciplinava os moradores de sua fazenda, Irapuru, com uma espécie de decálogo, encerrado mais ou menos assim: “Todos devem trabalhar. E quando for morrer, morra estrebuchando, que é para dar trabalho à morte.”

Certa vez, em discurso, arrepiou o plenário, quando disse: “Nós, deputados, não fazemos nada." A Assembléia toda parou. Os deputados se entreolharam e ele continuou no mesmo tom: "Aqui ninguém faz nada. Fazemos esses discursos, lemos essas atas e, no fim do mês, a gente recebe um agrado... É isso o que a gente faz: vem aqui para receber um agrado.”

Os deputados sofreram uma espécie de rubor cívico, na verdade envergonhados ante as inesperadas palavras que deploraram as modorrentas sessões, muitas vezes inúteis e, sejamos francos, fúteis, em muitos casos. Mas o Majó era assim, sincero, sem meias palavras.

Depois, ele envelheceu severamente e já não mais recebia os amigos no Grande Hotel. O passo tornou-se pesado, caminhava sob o amparo de um rapaz e apoiado numa bengala rústica. Já não me reconhecia mais, cumprimentava-me de maneira vaga e seguia adiante. Muitas vezes eu o via entrando na Assembléia e depois se dirigindo ao Palácio Potengi, hoje Palácio da Cultura, onde visitava as salas e revia os salões enormes e vazios, em meio à calada do Poder.

Subia as escadarias do Palácio lentamente, chegava ao Salão de Despachos e olhava os quadros de artistas-norte-rio-grandeses, o grande lustre de cristal, a prataria. Depois, seguia para um salão ao lado, onde havia um belo piano e ali permanecia embevecido. O Majó olhava, olhava, olhava. E se fazia acompanhar por um grande cortejo de silêncios. Eu também participava e, calado, percebia aquela velha vida se esmaecendo.

Sabe?, eu acho que era como se o Majó estivesse, na companhia do rapaz que o ajudava a guiar seus passos, revendo seus dias antigos, ocultos naquelas paragens de paredes altas. O Majó não queria nada, ele só estava vendo se o passado estava em dia.E quando descia à Ribeira, em busca do Grande Hotel, talvez fosse se reencontrar com as noites de Paris, lembranças das moças bonitas cheirando a França. Grande figura Majó, grande figura...

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

"Quem vai me pagar a cobra?"

Eu vim para confundir,
não para explicar.”
(Abelardo Barbosa Chacrinha)


A morte de Seu João Vilaça chocou a todos quantos o conheciam. Homem bom, sertanejo de têmpera de aço, tinha, por trás da cara amarrada, um grande coração, jamais negando uma ajuda a quem quer que fosse. Assim, familiares e amigos estranharam muito quando fora atacado e morto por um bandido.O agressor chegou e, sem palavra, disparou a arma uma, duas, três vezes. Seu Vilaça caiu pronto.

Homem querido, o velório recebeu muitas presenças. Todos lamentavam a morte:“Era um velho duro”, disse um amigo. “Se não fosse isso, ainda iria viver muitos anos”, completou uma senhora.As pessoas lamentavam o ocorrido e enfatizavam: mas como isso poderia ter ocorrido? Não houvera discussão, briga, desentendimento algum. Nem mesmo uma tentativa de assalto.

A família lamentava a frieza como o crime fora cometido, o que aumentava a revolta e a dor. Ninguém encontrava explicação e havia mesmo quem pensasse em reunir um grupo de amigos para encontrar e justiçar o matador.“Não se pode aceitar uma coisa dessas. A violência chegou a limites do insuportável para os cidadãos de bem”, reprovava um velho amigo de Seu Vilaça.

Como, porquê o bandido tomara tal atitude frente a um homem velho, indefeso, incapaz de agredir alguém? Nisso, entra na casa um estranho. Esgueirando-se por entre as pessoas, o homem pediu licença a Genebaldo, um amigo do morto, e disse que precisava urgente falar com alguém da família, alguém muito próximo, de preferência filho ou até mesmo a viúva.

Insistia: era assunto importante e somente com uma pessoa assim poderia conversar.O velho tinha prole numerosa. Genebaldo ficou assim..., olhou para um lado, para o outro e afinal seus olhos encontraram a figura de Arminda, a filha mais velha de Vilaça, e que estava em melhores condições emocionais frente à tragédia.

Ela conduziu o estranho à cozinha e dele ouviu a seguinte história: Seu Vilaça sempre havia devotado grande ódio a bandidos. Desde os bandidos convencionais, digamos assim, até aqueles de colarinho branco.“Sei disso”, admitiu Arminda. “E daí?” Daí, prosseguiu o homem, que Seu Vilaça havia encontrado um modo engenhoso de matar bandidos, sem que ninguém desconfiasse.

“Como assim?” Ora, muito simples: toda semana, o estranho, que morava numa cidadezinha do interior, capturava uma cobra, que era levada a Seu Vilaça. Ele recebia, pagava e colocava o bicho numa valise bem trancada. Ele tinha preferência por cascavéis (“Adorava o barulhinho assassino do maracá”), o homem fez questão de detalhar, assumindo ares de grande conhecedor.

“E para que ele queria essas cobras?”, quis saber Arminda. Claríssimo estava, salientou o sujeito: para matar bandidos. Seu Vilaça ia ao Centro da cidade com a valise na mão, encaminhando-se a locais onde notoriamente agiam ladrões especializados em furtar bolsas, pastas, carteiras. Ele se enfiava no meio da multidão, procurando atrair a atenção dos bandidos.

Logo, logo, um deles se atirava sobre o velho e roubava a mala. É claro que, na confusão, na correria, o bicho ficava assanhado e, pouco depois, quando o ladrão abria a valise, a cobra pá!, tacava-lhe a mordida fatal. "E olhe que ele havia matado muitos, muitos desse jeito, viu? Pelo menos uns vinte."

“Então...”, balbuciou Arminda....então, esclareceu o homem, Vilaça fora morto por vingança.“Vingança?, balbuciou a mulher. Sim. Claro. Os marginais terminaram percebendo que estavam sendo vítimas de uma armadilha e abriram fogo.

E afinal, frente a uma Arminda paralisada de susto e dor, o homem arremeteu seu bote:“Sim, minha senhora, foi uma vingança. E eu não posso ficar no prejuízo. E agora por favor decida: quem vai me pagar a cobra?”

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

O que é de César

“Quem luta contra monstros, deve
cuidar-se para não se tornar um deles.”
(Nietzsche)

Um colega jornalista registrou há algum tempo um fato que, dadas as circunstâncias socioeconômicas do País, pode se repetir a qualquer momento. Algo que supera em muito a ficção. Veja só: o jornalista relatou a entrada de um menino de rua em uma igreja , onde, sem qualquer cerimônia, dirigiu-se à bolsa de ofertas apoderando-se de todo o dinheiro. Entrou e saiu rapidamente.

Surpresa geral, perplexidade pura. Todos fizeram: "Óóóóóóóóóó..." Ante a surpresa geral – ficaram todos paralisados – ele não se deteve, e respondeu de cara dura, ao ser indagado do seu ato: estava com fome e tinha direito àquele dinheiro. Saiu e foi comprar um cigarro de maconha. Redijo segundo o relato feito, como já disse, há algum tempo.Tempo que, contudo, continua em sua ênfase à discriminação e seus deserdados. Tristes tempos, pobre época a nossa, quando a oferta de fiéis tem destino tão sórdido. Mas, é assim hoje em dia.

Fatos que nos dão o que pensar: a fome do menino, seu descaminho para o vício, sua triste revolta por ser um sem-nada. No fundo, mesmo repudiando-se objetivamente o gesto, entende-se sua origem, a funda, ferina, dolorosa essência de tal comportamento.

Ele sentia-se no direito de ter algo. Sentia-se participante daquela reunião e, movido pela convicção, apoderou-se de algo que entendeu como sendo do seu direito: o dinheiro pouco ali depositado, e ali depositado pelo fato mesmo de que era pouco e não faria falta aos que o haviam deixado.


Então, por que não seria de sua propriedade, uma vez que é isso mesmo o que ele recebe nos cruzamentos, nas ruas, quando lava o pára-brisa, quando estende a mão? Lamentável, não? Mas aquele menino, anônimo, estranho, inesperado e rude, apoderou-se apenas do que era de César.

Sua atitude, infratora, é claro, é também indício de que os tempos estão mudando e os desvalidos podem deixar sua passividade e partir para o ataque.


É preciso que os que se dizem caridosos, fraternos, bondosos e cristãos, entendam que, como diz a doutrina, é preciso repartir o pão. Havendo justiça, aquele menino não mais disputará o que é de César.

Não havendo justiça, ela vai querer até mesmo o que é de Deus.

domingo, 15 de janeiro de 2006

Tempo congelado

"Espalhe aí umas borboletas entre os parágrafos."
(Do presidente JK a um redator dos seus discursos)

Ah, sim, a frase aí de cima pincei do livro "Feliz 1958 - o ano que não devia terminar", do jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, que andei relendo esses dias. A obra é uma deliciosa, bem redigidíssima e admirável crônica sobre aquele ano, apontado pelo jornalista como um período em que tudo deu certo para o País e, assim, jamais deveria ter terminado.

O texto não se avança em aprofundamentos históricos e nem a isso se propõe. Desde o início, pelo estilo rápido, com observações de superfície, observa-se que trata-se de uma crônica, um sonho redacional, um passeio naquele tempo que ele congelou no tempo. E, nesse congelador sinta-se em instigante companhia: ali estão champagnes de muito boa safra, lambretas velozes, moças de anáguas, cafajestes escancarados, vedetes belíssimas, políticos e noitadas, escritores de talento, jornalistas criativos, numa fauna animada, intensa, muito alegre.

Um tempo que tinha estilo e elegância. É incrível como esse livro de 187 páginas consegue nos reconduzir, a quem tem mais idade, ou conduzir, a quem tem sensibilidade, àquele mundo de 1958, quando o Brasil foi campeão pela primeira vez e o presidente JK queria 50 anos de progresso em cinco, seus cinco anos de mandato.
Um belo, bom e gostoso livro, que certamente deve interessar a quem gosta de jornalismo, de fazer ou estudar, uma vez que Feliz 1958 é eminentemente uma aula. De como se faz crônica, crônica com jeitão de reportagem pesquisada, com fatos já perdidos no tempo, mas redivivos num texto de primeira categoria.

Gosto de viver essas aventuras no tempo. Redescobrir fatos, aprofundar descobertas, juntar cacos de um passado que não vivi, mas do qual tenho saudade. Um bom livro, ao qual pretendo voltar a falar com você.

sábado, 14 de janeiro de 2006

O jornalismo infame e a notícia bela

"Saio deste mundo com a convicçãode que não é
nem a razão nem a verdade que nos guiam: só a paixão e a
quimera nos levam a resoluções definitivas.”
( Epitáfio do jornalista David Nasser)

Na TV, os programas de conteúdo policial, tentando justificar a exposição explícita da violência urbana, escudam-se sob o manto do que é chamado vulgarmente de “jornalismo-verdade”. A expressão, na verdade (com trocadilhos e tudo), encobre o desejo mórbido e sensacionalista de fazer chegar ao leitor, ouvinte ou telespectador, fatos chocantes em sua forma mais crua, uma vez que esse jornalismo se espalha nos três segmentos de mídia.


É básico, na ética jornalística, que não se deve levar ao leitor (em sentido amplo), fatos chocantes em detalhes, respeitando-se a intimidade de quem toma contato com a informação. É comum que pais e mães expressem revolta quando descobrem que seu veículo de informação preferido está trazendo a seus lares imagens ou textos de conteúdo grotesco.O jornal pode falar a respeito do fato terrível, do acontecimento lutuoso, do drama infinito dos assassinados, mas não precisa, nem deve, mostrar tudo isso em todo o seu terror.

Explicando melhor: passando por uma estrada, você se depara com um acidente. Sabe que morreu alguém de maneira trágica. Se puder ajudar, tudo bem, mas duvido, duvido muito, que tenha interesse de ver como ficou o cadáver desfigurado. Mas, se por mórbida curiosidade, achegar-se ao corpo, certamente recuará, sentindo que não se deveria ter exposto a tão chocante cena.

É a mesma coisa com o jornal: deve ter em seus arquivos os mais terríveis imagens, por enésinos motivos: ajudar a investigações policiais, contribuir em algum processo judicial. Mas tomando todas as precauções quanto a uma suposta e futura publicação.Mas hoje, especialmente na TV, frente à vulgaridade da programação, o sofrimento passou a fazer parte do noticiário espetacularizado.

Não sou contra a notícia televisiva bem editada, ou seja: mostrada de forma criativa, com todos os requintes que a informatização do noticiário permite, incluindo-se aí a música incidental. Explico-me: se você mostra um jogo de futebol, com câmeras em tudo quanto é lado, por que manter a coisa como se fazia há 30 anos, com takes laterais e, no máximo, de fundo de campo? Não: vamos mostrar tudo e da melhor maneira possível. É uma forma de jornalismo dramatúrgico, mas que, bem aplicado, tem um efeito positivo.

Numa matéria sobre natureza, por que não explorar as possibilidades estéticas de enquadramentos bem feitos, com uma música de fundo apropriada e uma locução compatível? Quem não gosta de uma crônica de Sandra Moreyra, no Bom Dia Brasil, mostrando como se prepara um finíssimo prato, aquela iguaria dos deuses? A própria crônica de Sandra já é uma obra de arte, tanto quanto a culinária que ela apresenta. É impressionista, informa e alegra a alma. É a notícia bela.

Mas é triste ver a exposição do homem morto, o peito perfurado a bala, o sangue espalhado no chão sujo da rua. Esse tipo de expressão jornalística somente desmerece a informação, cria no expectador uma espécie de destinatário cruel. Na verdade, tenta-se criar um destinatário cruel, como se as pessoas gostassem de ver o mal. Não, não gostam. As pessoas devem saber que algo aconteceu. Mas se esse algo contém algo de sórdido, de ruim, de cruel e torpe, não precisam de detalhes. É uma informação infame. São coisas do Brasil, mas o Brasil não precisa disso.