segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Foto: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEi7eozpP3ZoER4dPIFQ-quJzgqTHOxDtn4TWWTpGxtW9L0UUaX3GccMLA8kwNmk2Yww4zt7cbFTA-Ur5-qEn8bCCc4WMtudvynekwJ23VBA7d-EJX6iUS3NdI-s3jxXGqNvaX9k1w/s320/709866-1391-cp.jpg
Coisa pública, cosa nostra
Emanoel Barreto

O desmascaramento de um sistema corrupto liderado pelo governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, reconfirma e requenta o caldo de nossa cultura política. Não há santos nem demônios seja em governo ou oposição: todos são o resultado, em algum grau, do esquema mental vivido por este país: a coisa pública é cosa nostra.

É cosa nostra dos que se valem do Poder para beneficiar-se, tirando proveito do dinheiro que corre à tripa forra nos meios mais altos e mais decisórios. O povo..., o povo? O povo é o povo, ora. E não há oração, nem santo, que salve o povo. Assim sendo, salve a corrupção.

O resultado disso já sabemos todos: ninguém será punido. As imagens de um governador e altos assessores, veiculadas em TV e internet não são verdadeiras. Ah, não? Claro que não: são falsificações, são alucinações, são fatos forjados, mentirosos e a eles não se deve dar crédito.

A coisa pública é cosa nostra. Coisa nossa. Coisa nossa de quem? Deles, ora. Deles, meu santo, deles...

domingo, 29 de novembro de 2009

Foto: Horst P. Horst
Depois que esse tempo passar...
Emanoel Barreto

Uma beleza de letra de Paulinho da Viola.

A razão porque mando um sorriso
E não corro
É que andei levando a vida
Quase morto

Quero fechar a ferida
Quero estancar o sangue
E sepultar bem longe
O que restou da camisa
Colorida que cobria minha dor

Meu amor eu não esqueço
Não se esqueça por favor
Que eu voltarei depressa
Tão logo a noite acabe
Tão logo esse tempo passe
Para beijar você




Imagem: http://www.brasilescola.com/upload/e/Regencia%20de%20DOM%20PEDRO%20BR%20ESCOLA.jpg
Heróico brado retumbante
Emanoel Barreto

Diz a Folha Online: A operação deflagrada ontem pela Polícia Federal para investigar irregularidades no governo do Distrito Federal e o suposto envolvimento do governador José Roberto Arruda (DEM) no esquema de propina para a base aliada na Câmara Legislativa provocou um clima de apreensão em toda a cúpula nacional do DEM.

Único governador do partido, Arruda estava com a exposição em alta na mídia nos últimos meses. Dava entrevistas a grandes veículos de comunicação, com o intuito de valorizar a imagem da legenda em todo o país. Comandará os festejos dos 50 anos da capital
.
............

Digo eu, citando o Hino Nacional: você sabe qual foi o "brado retumbante" do povo heróico de que nos fala o hino? É o seguinte: "Dá pra acabar com tanta roubalheira?!!!!"

Resposta: "Dá não! Já estamos muito acostumados, ou melhor, viciados. E esse vício de roubar é coisa incurável. E dane-se o heroísmo do povo..."

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Foto: http://veja.abril.com.br/130900/imagens/veja_essa1.jpg
A mulher como fêmea lasciva
Emanoel Barreto

A modelo Joana Prado, que viveu a Feiticeira na Band, não deixou que um programa exibido em Fortaleza (CE) mostrasse vídeos seus como a personagem ou imagens do ensaio que fez para a revista "Playboy". Joana, que participava do programa ao lado do marido, Vitor Belfort, disse que se sentia mal vendo imagens da época.

"Eu me sinto constrangida quando me vejo dançando porque minha história hoje em dia é totalmente diferente. (...) Se vocês pudessem me respeitar eu gostaria que não mostrassem imagem de Feiticeira ou foto de 'Playboy' porque eu vou me sentir mal", disse a modelo, com a voz embargada, ao apresentador João Inácio, da TV Diário.

Joana falou sobre o seu passado após o apresentador explicar à plateia que uma parte do programa havia sido cancelada a pedido da modelo. "Eu achei que já tinha sido feito um acerto entre a produção e vocês, mas como não houve..."

"Eu tenho coisas mais legais pra falar. Eu tenho três filhos e eu não quero que a referência deles seja essa. Outro dia meu filho falou pra mim: 'Ah mamãe, você dançava de biquíni.' Eu falei, 'eu dançava filho, mas hoje em dia a mamãe vive outra história'", disse Joana.

Na entrevista, Joana ainda disse que a "Casa dos Artistas", reality show do SBT, foi um marco em sua vida. "Foi um momento em que as pessoas puderam ver a Joana pessoa. Eu não ganhei o prêmio de R$ 1 milhão, mas ganhei um prêmio muito maior, que foi esse reconhecimento das pessoas."
.........

O texto acima é da Folha Ilustrada Online. A personagem da notícia bem poderia ser enquadrada naquele estilo de Nelson Rodrigues de "meu passado me condena". Esse seria o óbvio ululante, do mesno Nelson. Contudo, reconfigurando o olhar sobre a ex-Feiticeira, o que temos? Encontramos um ser humano que em período de juventude, por imaturidade e alienação, deixou-se manipular pela indústria cultural, exibindo sua condição de mulher reduzida ao comportamento de fêmea lasciva.

Hoje como modelo, e apesar do olhar compreensivo, podemos encontrar no seu discurso, de alguma forma, o mesmo discurso dos que pensam pela fórmula meu passado me condena. A repulsa ao que foi, pelo menos ao que fez, é a exposição da vergonha do ser na TV Diário, uma emissora que explora as mais baixas e degradantes filigranas da condição humana.

As atitudes do passado repercutem no presente, e tudo o que fomos ou fizemos é vívido em algum momento do futuro. Não há como escapar. Nosso passado, assim como a sombra, caminha ao nosso lado. Podemos fugir de muitas coisas. Da nossa sombra, não. Mas, não temos culpa de ter uma sombra...


terça-feira, 24 de novembro de 2009

Noturno
Emanoel Barreto

É noite.
Um corvo se mistura, em silêncio, à escuridão, sua amiga.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Foto: http://images.google.com/imgres?
O sol morto de preguiça e a chuva que não quer cair
Emanoel Barreto

Ideias rarefeitas, pensamento quase parado. O mundo está cansado e velho. As novidades das coisas de jornal estão amarrotadas de tanto se repetir: tragédias, bombas, insultos, tramas.

O tempo se esvai e vai em seu passo. Às vezes de tartaruga; noutras, corrida de guepardo.

A tarde está mansinha e o céu meio sonolento de sol, que é quando o sol, por capricho, quer deixar de iluminar para dar lugar a alguma chuva. Dessas chuvas que não têm vontade de chover, entende?
Dessas chuvas miudinhas. E tímidas como meninas que vão se apresentar em seu primeiro recital na escola. Enfim, é isso: estou com ideias rarefeitas e pensamento quase parado. Melhor assim que comentar as velhas e volutas coisas de jornal. Amanhã eu volto.

domingo, 22 de novembro de 2009

Imagem: http://images.google.com/imgres?
O mundo não acaba em 2012. O mundo já acabou. Ou quase isso
Emanoel Barreto

Não, não creio que o mundo acabe em 2012. Seja por objetiva racionalidade, seja porque entendo que não se pode acabar aquilo que já se extinguiu. Às vezes acho que é isso mesmo: o mundo acabou. Por preguiça de se banir o mal, desordem ética, repetição da brutalidade e consumo diário da adrenalina da crueldade e da desumanização. Aí, penso: acho que o mundo acabou.

Veja só: a interminável e inúmera repetição das barbaridades dos governantes, as massas oprimidas pela fome e pelo desespero do existir e pela ansioso temor do que virá dia seguinte, isso não é indicativo de que o mundo acabou? O que não se renova, o que permanece estático na dinâmica da estupdez isso é ou não é o fim mesmo?

A rigor nada há de novo nos jornais, nas coisas de jornal. Talvez até mesmo os jornais devessem deixar de ser veiculados, até segunda ordem. Seja em impresso, TV, rádio ou internet. Por quê? Pelo fato mesmo de que nada há de novo na face da Terra. Cada tragédia, cada grito é apenas o eco de outros milhares de gritos, gritos já antigos, cansados, gritos anciãos, lamentos langorosos de um tempo que se repete.

Sim: o mundo acabou. Nós é que não percebemos. E ficamos a vagar como almas perdidas, deambulando numa eternidade diária que criamos. Enquanto isso não mudar, o mundo continuará acabado. Ou quase isso.


sábado, 21 de novembro de 2009

Rogério Cassimiro - 22.jul.2008/Folha Imagem
Quanto vale e biografia de um homem
Emanoel Barreto

O ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta (PTB) morreu na noite desta sexta-feira aos 63 anos. Ele estava internado no hospital Sírio-Libanês, onde fazia tratamento contra um câncer no intestino.

Celso Pitta foi prefeito de 1997 a 2000 e sua gestão foi marcado por várias denúncias
Em janeiro deste ano, o ex-prefeito foi submetido a uma cirurgia para retirada de um tumor no intestino e, desde então, fazia tratamento com quimioterapia no hospital.


Afilhado político do deputado Paulo Maluf (PP), Pitta administrou a Prefeitura de São Paulo no período de 1997 a 2000. Sua gestão foi marcada por uma série de denúncias. A principal delas foi o esquema de corrupção batizado de "escândalo dos precatórios".

Ele acabou afastado do cargo por 18 dias --sendo substituído por seu vice-prefeito, Regis de Oliveira--, mas retomou o cargo em seguida. Concorreu a deputado federal e perdeu em duas ocasiões, mas manteve sua filiação ao PTB.

Em julho do ano passado, Pitta foi preso pela Polícia Federal durante as investigações da Operação Satiagraha, que investiga crimes financeiros atribuídos ao banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity. O ex-prefeito e os demais investigados presos foram soltos depois.

A investigação da PF resultou em uma denúncia do Ministério Público Federal, que acusou Pitta por corrupção passiva, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e organização criminosa. Todos os pedidos foram integralmente aceitos pela Justiça Federal.
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Construímos nossa biografia e nossa imagem cotidianamente. O que fazemos, especialmente aquilo que socialmente se torna exposto em nosso comportamento, e no que dizem a respeito delo, constituem uma espécie de patrimônio pessoal socialmente apropriado. Nossa vida de alguma forma passa a pertencer aos outros, ao juízo coletivo, que é um misto de severidade e leviandade.

Severo, tal juízo o é quando opinião pública injusta incide sobre alguém. Leviano, quando o disse-me-disse espalha rumores, confusões, mentiras a respeito de alguém, seja figura de relevo ou simples mortais sem vida midiática.

A leitura do perfil biográfico de Pitta, que transcrevi da Folha Online, é um deplorável legado à sua memória. O homem, plenamente imantado da condição do político, morre, deixando aos seus filhos a acabrunhada missão de defender um pai que, à nação, era sinônimo de corrupto.

Temos, de alguma forma, uma espécie de missão: agir segundo a ética. Não apenas por ser algo necessário; melhor diria, essencial, ao convívio social, mas também por apreço a si próprio. Quem age em sentido contrário termina por lavar-se com a pegajosa substância que impregna, na política, o gesto feio, a coisa feia, da qual, e todos sabem disso, jamais será possível se livrar.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009


Foto: reprodução
A mulher do presidente ficou nua. Mas ninguém comprou a foto
Emanoel Barreto

Deu na Folha Online: Uma foto da primeira-dama da França, Carla Bruni, posando nua em 1993, tirada pelo fotógrafo de moda Michel Comte, não encontrou comprador em um leilão organizado nesta sexta-feira em Paris, uma vez que o preço máximo oferecido ficou abaixo do preço de reserva.

O preço inicial da fotografia de Bruni, que na época trabalhava como modelo para destacados estilistas, foi fixado em 4.000 euros.

O preço de venda estimado da imagem, leiloada na casa Druot por um colecionador alemão, foi estimado entre 6.000 e 9.000 euros.

No entanto, o maior valor oferecido pelos participantes do leilão foi 5.800 euros, em menos de 90 segundos.


Como era inferior ao preço de reserva, a oferta não foi aceita.
Em abril de 2008, uma fotografia idêntica de Bruni foi vendida na casa Christie's de Nova York por US$ 91 mil.


Dois meses depois de se casar com o presidente francês, Nicolas Sarkozy, a foto de Carla Bruni gerou enorme interesse entre os meios de comunicação e colecionadores.
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Vivemos, como dizia Guy Debord, a sociedade do espetáculo, da vivência do cotidiano como uma espécie de encenação, comportamentos cifrados, atitudes regidas, expressas em ações inconscientemente mecanizadas.

A rigor, qual o valor, qual a importância essencial da foto de uma mulher nua? Nenhum, pode-se responder sem qualquer reflexão, por mínima que seja. Então, por que a foto, à época de sua divulgação, causou tando alarido? Simples, porque se trata de mulher de presidente de uma das potências mundiais.

Como não é comum que primeiras-damas sejam expostas em situação de nudez, o voyeurismo público tornou-se ávido pela imagem. A suposição implícita de leviandade, de quebra de um presuntivo decoro do papel social de uma primeira-dama, foi o toque de cristal que disparou a curiosidade da mídia, que contrastava seu passado profissional com sua situação posterior.

Passada a onda vem a realidade: é apenas uma foto, mais uma, de beldade expondo seus dotes finamente captados por fotógrafo competente, um artista. Que compôs, como um pintor, o retrato encantador da beleza feminina.

A imagem, que traduz uma espécie de tímida sensualidade - observe a posição dos pés lembrando uma menininha, a contida voluptuosidade da imagem como um todo - sugere encanto, evanescência, sedução maravilhada, alumbramento da modelo e do seu observador.

Artisticamente, é isso. Midiaticamente, apenas uma jogada que, como se viu, não valeu a pena. Ela já declarou que não renega o passado e o marido parece estar muito bem com a mulher. Afinal, como dizia antigo ditado, tanto faz ver como saber que tem.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Foto: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhyXqt72NeNWDqKmgsPVuYgZ3C3SSACPLSWMAImCYJi3DRVoi-fk1KE1_Ouj9Bi5omHuVM-UKNIZtdJds0GKo5VjI1aJH1eVY2XZTwwmqrmxZ23uLrKBA6_q69JHwsF6fH8lboi/s400/Cascavel_sul2.jpg

O fim da peçonha
Emanoel Barreto

O Brasil quer valorizar suas credenciais diplomáticas promovendo a reconciliação no Oriente Médio, ao receber na semana que vem o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, apenas duas semanas depois de uma visita do presidente de Israel, Shimon Peres.

O diálogo Brasil-Irã conta com o apoio do governo americano, já que, segundo autoridades brasileiras, o presidente Barack Obama pediu em março ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que conversasse com Ahmadinejad.

"Acreditamos que é muito mais importante manter um diálogo com o Irã do que simplesmente dizer não, deixá-los estigmatizados e isolados", disse Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, semana passada a jornalistas no Rio. "Obama disse que um diálogo entre o Irã e o Brasil é importante."

Obama tem dito que o tempo está se esgotando para que a diplomacia resolva o impasse em torno do programa nuclear iraniano, que potências ocidentais suspeitam estar voltado para a produção de armas atômicas. Teerã afirma que seu objetivo é gerar eletricidade para fins civis.
.........

Pincei os trechos acima da Folha Online. Ali está indicado, por implicação, que a diplomacia brasileira aproveita o momento histórico favorável para alavancar a presença do país como ator proativo no cenário internacional. Por decorrência da gravidade política, afigura-se o presidente Lula como figura central na tratativa de impasses entre as nações.

Os jornalões afirmam que Lula, após cumprido o mandato, teria interesses em passar a integrar os quadros da ONU como interlocutor privilegiado, tornando sua figura histórica bastante sobrelevada. Lula estaria também sonhando em ser o próximo Prêmio Nobel da Paz, é o que dizem as ilações dos grandes jornais brasileiros.

Especulações à parte, há um dado concreto. E este vem dos Estados Unidos: a preocupação de Obama com o arsenal nuclear do Irã. É válida a preocupação, pois o mundo está precisando de civilização, o que pode-se ler como paz, respeito humano, alimentos, equilíbrio, justiça social...

Mas, por outro aspecto, há um dado paradoxal: por que os Estados Unidos têm tal preocupação? Afinal, são o país como o maior potencial destrutivo do planeta. Desmanche do enigma: os EUA sim, podem ter armas nucleares, os outros, não. Percebe o paradoxo? Eles são o bem, as armas em seu poder estão em mãos responsáveis. O "perigo" está nos outros...

O discurso, em si, é vazio, pois não implica destruição das armas atômicas, mas, tão-somente, o desarme dos demais países. Assim, fica mesmo difícil conversar. As bombas devem ser varridas da face da Terra, claro. Mas, o discurso americano é falso. Seria como a cascavel pregando o fim da peçonha.


quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Foto: http://anyg.on/Guest/
Mais que mil palavras
Emanoel Barreto

Não concordo, pelo menos não inteiramente, que uma foto diz mais que mil palavras. Todavia, esta encerra, à perfeição, o sentido da frase. A partir dela, pode-se estimar como vive e a que tipo de pessoa este homem foi reduzido. Estima-se todo o sistema de brutalidade econômica que o levou a tal situação.

Ele traz a reboque todas as suas dores, sua fome de justiça, sua alma, quem sabe, em desalento. Alma que, apesar de tudo, o faz ter forças para caminhar por um mundo em desumanização e fartamente vazio de respeito ao Homem.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Imagem: http://static.blogstorage.hi-pi.com/photos/vidareal.spaceblog.com.br/images/gd/1207314884/
O olhar
Emanoel Barreto

O olhar é o além do visto.
O olhar é a visão do que se oculta ao plenamente visto.
O olhar é perplexidade, alumbramento, pergunta...
O olhar é parte do enigma.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Foto: http://stream.agenciabrasil.gov.br/media/imagens/2008/10/28/1800JM8864.image_media_horizontal.jpg
Folha de S. Paulo: apagão informativo
Emanoel Barreto

A Folha insiste em manter na agenda pública o apagão. Mas coloca em segundo plano a queda de parte das obras do Rodoanel em São Paulo. Trata-se de manipulação do noticiário. Há uma busca permanente de colocar a questão da energia como em situação de perigo continuado, enquanto se coloca para baixo do tapete noticioso a situação - essa sim, perigosa - de construção malfeita.

O mesmo aconteceu em 2007, quando ruíram parte das obras do Metrô de S. Paulo e o fato teve tratamento editorial benevolente. É sumamente perigoso quando o maior jornal nacional de referência assume, de forma dissimulada, uma falsa objetividade e insiste em atacar um problema, em si uma eventualidade, em vez de voltar sua artilharia de imprensa contra algo, esse sim, lamentável, uma vez que envolve corrupção: a obra está sendo feita fora dos padrões da boa engenharia, é o que informa o próprio jornal, sem, contudo, cobrar em editorial firme uma resposta do governo Serra.
Enquanto isso, o apagão continua ob os holofotes do jornal.

domingo, 15 de novembro de 2009

Foto: http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2040/imagens/i79739.jpg
Um ciúme muçulmano
Emanoel Barreto

Tinha da Mulher um ciúme muçulmano. Um ciúme feito de lençóis. Fino e enlaçante como um abraço no silêncio cúmplice da noite. Noite de plenilúnio. Um ciúme delicado, tecido ao longo das páginas de um pergaminho construído de tempo. Tinha da Mulher um ciúme muçulmano. Daqueles que são feitos de aparições contínuas. Um ciúme namorado, diferente, protetor como uma tenda. Oásis.

Tinha da Mulher um ciúme muçulmano. Um ciúme que não segue os passos, porque já conhece e confia em todos os caminhos. Às vezes ficava parado, sentado à sombra de uma palmeira marroquina, observando o caminhar das caravanas que seguem caminhos feitos de distante.

A Mulher era feita de princesa e paz, gestos no ar fino da manhã de aurora. Depois, Ela se compunha, feita de acordes. Acordes em perfeito maior. O estranho naquele Casal era o seu silêncio calmo. Um silêncio que seguia sempre. E surgia nas curvas da vida como um momento que não tem minutos, como um instante que não tem segundos. A pausa do violino que espera um lá. Gesto de maestro que virou semínimas.

Para o Casal o tempo não passava, pois seu todo tempo era eternidade e eternidade é um tempo sem fim. Como nave grega que procura Ítaca. A Mulher, menina, estava companheira. Fazia-se de tarde, quando se queria a noite; sentia-se manhã, quando se queria dia. Um dia inteiro, permanente instante. E o sol, amigo, só tinha estrelas. Como se fosse lua, crisálida de luar.



O amigo, jornalista e poeta Walter Medeiros me envia e publico abaixo o que se lê.
Obrigado, Walter.


SEMENTES
Walter Medeiros

Um dia as traças comeram um livro
E o livro foi embora para sempre
Deixando cá em mim uma semente,
Algo bem forte, duradouro e vivo.

Neste amanhecer que chega diferente
Hoje busco na memória um lenitivo
Pra rever certo passado tão ativo,
Animando vez por outra minha mente.

Nem a Internet me traz em um arquivo
Sobre amor e amizade, um incentivo
Nesta tela tão bela em minha frente;

Pois queria encontrar aqui, latente,
Aquele texto que se foi em frente
E nunca mais o li, mas bem cativo.


sábado, 14 de novembro de 2009

Foto: divulgação
É só um filme. Mas...
Emanoel Barreto

O blockbuster 2012 é isso mesmo: apenas um filme para se ver, quando não há nada de melhor. Mas, sob um aspecto, superficial admitamos, dá o que pensar. A louca aventura nossa à face do planeta, com nossos valores, ambições, ganâncias, etc..., etc...

O que se vê, nos espetaculares e bastante vívivos truques dos efeitos especiais demonstra à larga nossa fraqueza, fragilidade, mortalidade. É apelativo? É. É apenas o cinemão de Hollywood? Sim. Mas, apesar disso, se você se der ao trabalho de, à vista dos fenômenos terrificantes que remoem a Terra, perceber o quanto não valemos nada, ou o valemos muito pouco...

É isso. Só um comentário de quem nem é filósofo nem nada. Só um jornalista e um ser humano perplexo, ante um mundo social que construímos à custa da destruição do mundo onde vivemos. Bom domingo.


sexta-feira, 13 de novembro de 2009


Coisas
Emanoel Barreto

Há coisas que não se faz.
Há coisas que não se diz.

Há coisas de que não se fala.
Há coisas de que não se cala.

Há coisas que é preciso fazer antes que o tempo se acabe.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Foto: http://sol.sapo.pt/photos/crisruas/images/332027/425x425.aspx
Aziago
Emanoel Barreto

Um som cavo, regougo, rompeu um fim de tarde triste.
Um barco parou no mar em água funda e suas velas estavam mortas para o vento.

Um velho deitou de lado, dormiu e morreu.
Alguém calou ao ver o crime mais terrível.

E assim mais um dia se passou.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Foto: Lula Marques/Folha Imagem

A falsa rebeldia ou rebeldes sem causa

Emanoel Barreto

A Folha Online traz a foto acima, com o seguinte texto: "Alunos ficam pelados na sala da reitoria da Unb (Universidade de Brasília) em repudio ao ato contra Geyse Arruda na Uniban." Pergunto: o que tem a UnB com a questão da jovem que foi apupada pelos colegas, por vestir-se com vestido curto demais? Por que tentar politizar (existe uma política do corpo, lembra?) numa universidade o que aconteceu em outra, a Uniban?

A jovem foi agredida pelos colegas na Uniban. Errado. Muito errado. Erraram todos os que o fizram. Todavia, levando o caso para outra visão, distanciada e crítica, o que temos? Temos, objetivamente, uma moça que, manipulada pelos padrões da indústria da moda, que diz que a mulher para ser vista como bela deve mostrar-se semidesnuna, revela-se frívola e desconhecedora de que a mulher não precisa assumir-se como objeto sexual para se impor ou anunciar-se como bela.

E os rapazes e moças da UnB, por que não comparecem seminus no cotidiano de suas aulas? Se esse seria o normal de cada um, a convicção de cada um, esse comportamento idiossincrático deveria tornar-se corriqueiro. Ai, sim, seria o exercício de uma política do corpo consequente. Cada um vestindo-se, ou desvestindo-se a seu talante, e exigindo respeito a essa individualidade.

O que ocorreu em Brasília foi apenas uma manifestação tardia, um ersatz, um sucedâneo tolo dos já distantes protestos e happenings dos anos 1960. Naquela época existia todo um sentimento de contracultura, uma postura forte de ruptura com os padrões. Hoje, apenas tentativa pálida de protesto de um grupo de jovens que, certamente, preferiu um comportamento discrepante e fugaz, em vez de fazer seus deveres de casa.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjMZLhjN2j1HwIezqPr_EYbe0gxjVYBWWMUSeQJpZMr6cenTDHr4L4uOn2d8k4Iu6TUHge2WDbzHlCikoQOmVBKIwFmM4TLwM1RqidJbxmM3EwGuOTfJwYWXQjaebM-9SHXNHc3/s400/Liberdade.jpg
Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós
Emanoel Barreto

Um ambulante sentou-se à praça do mercado e ao lado colocou um saco aparentemente vazio. Para espanto dos que passavam, anunciava a altos brados que no saco havia mercadorias que todos desejariam comprar. Vendia de tudo, garantia, para uma vida mais feliz.

Aproximou-se uma mulher triste perguntou se vendia alegria. Claro, ele disse. E, metendo a mão no saco, tirou-a inteiramente vazia. A mulher contestou. Ali não havia nada. Mas ele garantiu: havia sim. Ela poderia tocar. A mulher estendeu a mão e tocou em algo macio, gostoso de pegar. Era a alegria. A alegria é invisível, sorriu o vendedor. Você só pode sentir. A mulher pegou a alegria e seus lábios se transformaram em sorriso.

Alguém pediu felicidade. Ele advertiu: felicidade é mais difícil. É mais cara. Quer assim mesmo? Queria, a pessoa queria. Pagou, recebeu a invisível mercadoria, mas não sentiu-se feliz. O senhor me enganou. Ele rebateu: não enganei. É que a felicidade precisa de complementos. Se quiser mesmo ser feliz, precisa também comprar ousadia, luta e ter já em si - e isso ele não podia vender - capacidade de saber usar a felicidade, mesmo que os outros sejam contra. A pessoa desistiu e continuou infeliz.

Em seguida veio um homem, que queria liberdade. Liberdade?, ele perguntou e em seguida disse: tenho de diversos tipos. De primeira, de segunda e de terceira. Como assim?, quis saber o homem. É o seguinte, disse o vendedor: liberdade de primeira exige que o comprador, para usá-la, tenha coragem. Sem coragem, ninguém é livre; liberdade de segunda é aquela que lhe dizem que é liberdade, ou seja: você é livre segundo o que já está determinado.

O homem entendia. E liberdade de terceira?, quis saber. Bom, essa, afirmou o vendedor, é a liberdade de quem não tem coragem porque nunca a descobriu; força, porque nunca se testou e passos, porque nunca caminhou. Qual vai querer?

E você, que me lê, qual vai querer?


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Foto: Pawel Kopczynski/Reuters

Menos, companheiro, menos...
Emanoel Barreto

A foto da Reuters registra o momento em que mulher deposita flores onde já foi o muro de Berlim, cuja queda é hoje comemorada como marco de "liberdade". Sem qualquer louvação ao tipo de socialismo praticado pelos alemães do leste, é preciso levar-se em consideração o que é "liberdade". Todos os sistemas do mundo se apresentam como regimes de liberdade.

Liberdade para quem? Para o geral, para o todo, ou para os que criam esse conceito? O totalitarismo no estilo soviético é algo deplorável, uma espécie de depravação civil. Mas, imaginar-se que, sob o capitalismo, que é também uma forma de totalitarismo, estamos em liberdade, é algo que a ideologia, como falseamento da realidade, trabalha e muito bem.

Foi bom cair o muro? Foi. Mas, entendo que não há liberdade onde persistem pobreza, discriminação, sofrimento e manipulação de seres humanos para o lucro de uns poucos. De qualquer maneira a democracia formal, em sua formalidade mesma , é algo que permite vislumbre da possibilidade de um passo adiante, para uma sociedade mais justa.

Mas, insisto: dizer que se comemora a "liberdade" é um pouco de exagero, no mínimo isso. Pode-se comemorar? Até creio que sim. Mas, menos, companheiro, menos...

sábado, 7 de novembro de 2009

Foto: http://media.photobucket.com/image/biquine/rslonik/nM/brasil_bikini_01.jpg
O enlace de todos os quadris
Emanoel Barreto

O sábado está lindo,
numa manhã
que já se encaminha para a tarde.

O sol é o melhor amigo da cerveja e, nas mulheres, o enlace de todos os quadris.

O dia está iluminado
e até o ar parece estar brilhando.

Hoje é sábado e todas as bocas
se transformam em sorriso.


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A verdade e a mentira
Emanoel Barreto

Quando os homens acreditam na mentira como verdade deixam de crer que é verdade que é mentira. E assim, crédulos dos mentirosos, acreditam que é mentira que é verdade.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Imagem: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEj3OiG8uUz36DetF6Xlu2ZE4cvXl2ctsiEW82OtKZ1fJFk1t7O-U9ktGPHWVFZNoyNhwnCTJkpQbOaYFjN1goxDS_mGdUYre2tsMkIw0dMGordXiLpG7wjvygWgNi-heVIbXr8w/s400/goiaba+4.jpg
A triste história de Josélio
Emanoel Barreto

Josélio achava a vida um doce e foi dormir. Quando acordou, estava preso dentro de uma lata de goiabada. Foi devorado por um grupo familiar faminto e acabou na maior fossa. Tá vendo como é perigoso radicalizar?

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

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De loucos, raios, dores e lucidez
Emanoel Barreto

As dores podem acontecer com frequência. É que as dores, ao contrário dos raios, costumam cair duas vezes no mesmo lugar.

Os medos apropriam-se da mente de quem é temeroso. É que o medo, ao contrário da coragem, não é aprendido.

As raivas transtornam a lucidez. É que a raiva, diversamente da serenidade, é mais fácil de sentir.

Mas, a loucura, a loucura pode ser boa. É que os loucos muitas vezes podem ser sublimes. É isso.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

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Urgente: os 40 ladrões de Ali Babá estão vindo para Natal
Emanoel Barreto

Ali Babá informou-me que os 40 ladrões estão vindo para Natal. Embarcaram há pouco no tapete mágico de Aladim e chegam a qualquer momento. Como a situação é preocupante, entrei em contato com Noé, aquele da arca, e busquei aconselhamento: "Há alguma coisa a fazer?". Velho e sábio, respondeu-me: "Barreto, mandarei agora mesmo a versão mais moderna da arca a Natal. Turbinada e veloz, para quem quiser escapar dos 40 ladrões. Pelo que fui informado eles vão provocar um tsumami de tal monta que cobrirá até mesmo o Morro do Careca. "

Acionei Vidocq, famoso ladrão e depois detetive francês, que detalhou: "Não pense que Aladim está mancomunado com os 40 ladrões. Ele foi roubado, quer dizer, o tapete foi roubado e Aladim está desesperado. O tapete é moderníssimo e super-sônico. Caríssimo, tem até canhões e metralhadoras."

Quando eu disse que a arca estaria chegando para nos salvar, quero dizer, salvar o povo de Natal, ele foi enfático: "Besteira, os 40 ladrões acabam de bombardear a arca e vocês estão perdidos. A cidade inteira será saqueada."

Todavia, não nos desesperemos. Aladim, com o celular quase acabando a bateria, informou: "Barreto, fique tranquilo. Nada de mal acontecerá. O tapete está com pouca gasolina. Vai cair antes de chegar a Natal. O problema é que, pelos meus cálculos, ele cairá em Brasília, onde toda a turma já está sendo esperada com pompa e circunstância..."


sábado, 31 de outubro de 2009

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A máquina do tempo: pequeno anúncio de um jornal maluco
Emanoel Barreto

Alugo máquina do tempo, empresto arado para revolver o passado, tenho portas que trancam corruptos e ajudo a fechar pactos com anjos. Também ajudo a construir túneis para fugir da solidão e refaço vidas passadas, para que você se torne rei ou rainha. Desfaço quebrantos de tristeza, alargo os caminhos da coragem e fecho seu corpo contra melancolia e situações sorumbáticas. Faço doação de rastros de estrelas e tenho o melhor absinto. Resultado garantido ou seu dinheiro de volta.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A mulher-objeto
Emanoel Barreto

O recente episódio de uma jovem estudante de turismo da Uniban, uma universidade de São Paulo, que causou literalmente furor entre colegas que a agrediram por usar um microvestido, representa à exaustão a figura da mulher-objeto, papel que ela assumiu, creio, após sentir-se com o direito de viver de pleno suas fantasias. Esqueceu, porém, que vive no mundo social e foi brutalmente punida com vaias e agressões físicas.

Não há na minha visão qualquer laivo de moralismo. Não. Entendo que o que a jovem fez foi cumprir exatamente com os parâmetros da indústria da moda, que encaminha corações e mentes juvenis ao uso de determinado tipo de roupa como imperativo de beleza e elegância, um estilo de vida.

Deu no que deu. Mas, observemos: a multidão de rapazes e moças que a apedrejava socialmente era composta, certamente, pelos mesmos jovens que se curvam aos modismos, gostos e ademanes do que seja a moda atual.

A indústria da moda convenceu a uma certa parcela da população que ser jovem é comprar determinado tipo de vestimenta que, por sua vez, corresponde a um certo tipo de comportamento - arrojado, não reverencial a padrões tidos como "ultrapassados".

Todavia, quando a coisa se desloca das revistas de moda e das passarelas para cair no mundo do cotidiano, o olhar muda. As pessoas, as mesmas pessoas que aplaudem a mundanidade do vestir, desde que esse vestir esteja apenas nas revistas ou passarelas, armam-se de seus conceitos "arcaicos" e agridem aquela que performatizou à plenitude o suposto arrojo e autoridade sobre como vestir - ou desvestir - o próprio corpo.

A frivolidade da moda, capitaneada por todo um sistema de manipulação mental, resulta assim em situações como as vividas pela jovem, criando-se a seguinte situação paradoxal: a ela faltou bom senso; aos agressores, respeito.


quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Foto: http://images.google.com/imgres?
O idioma das mãos
Emanoel Barreto

As mãos? Sim, as mãos gritam em seu silêncio de gestos.
E dizem abraços que nunca receberam.
As mãos? Sim, as mão falam todos os idiomas da angústia,
quando são mãos desvalidas.
E depois, cansadas de não ser nunca entendidas,
recolhem-se às furnas e aos becos.
E, à noite, calam na boca dos famintos
o gemido torto dos que têm fome e sede de justiça.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Foto:http://www.andaluciaimagen.com/Frutos-ainda-vida--alegria_106976.jpg
Uma cara de alegria
Emanoel Barreto

O mundo estava feio, mais ainda havia coragem para lutar. As cores estavam escuras, mas persistia no íntimo da força a disposição de não se curvar. As nuvens, carregadas, pareciam anunciar tempestades. Mas, nas mãos que se davam, se escondia um sorriso de alegria. A alegria de ter coragem para lutar. E essa chama iluminava o caminho.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

domingo, 25 de outubro de 2009

A sodoma da brutalidade
Emanoel Barreto
Faz muito tempo que não vou ao Rio. Hoje, prefiro não ir. O volume de informações que provêm de lá ou a respeito de lá, criaram em meu imaginário a visão de uma cidade que se debate entre o terror e a imperiosa necessidade de conviver com o terror.

É o resultado histórico de uma perversa concentração da riqueza nacional, que facilitou a proliferação das favelas e de seres brutais que convivem com os cidadãos de bem que dali não podem sair. "Dali", quero dizer, das favelas.

O Rio de Janeiro transformou-se numa terrífica sodoma da brutalidade. E seus gritos são o hino do mais bárbaro banquete de balas regadas a muito sangue.


sábado, 24 de outubro de 2009


Lembrando Cora Coralina
Encontrei este poema de Cora Coralina. Compartilho com você.
Emanoel Barreto

Eu Voltarei

"Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho, servidor do próximo, honesto e simples, de pensamentos limpos. Seremos padeiros e teremos padarias. Muitos filhos à nossa volta. Cada nascer de um filho será marcado com o plantio de uma árvore simbólica. A árvore de Paulo, a árvore de Manoel, a árvore de Ruth, a árvore de Roseta...

Seremos alegres e estaremos sempre a cantar. Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas. Teremos uma fazenda e um horto florestal. Plantaremos o mogno, o jacarandá, o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro. Plantarei árvores para as gerações futuras.

Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros. Terão moinhos e serrarias e panificadoras. Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens e mulheres, ligados profundamente ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.

E morrerei tranquilamente dentro de um campo de trigo ou milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.

Eu voltarei...

A pedra do meu túmulo será enfeitada de espigas de trigo e cereais quebrados, minha oferta póstuma às formigas que têm suas casinhas subterra e aos pássaros cantores que têm seus ninhos nas altas e floridas frondes.

Eu voltarei..."


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A política e as trinta moedas
Emanoel Barreto

Está na Folha online: O presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini (SP), saiu em defesa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A oposição e a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) criticaram a declaração de Lula sobre uma coalizão política entre Jesus e Judas nos dias atuais.
Para Berzoini, as críticas revelam "superficialismo político do momento". "A frase de Lula sobre Jesus provocou uma onda de farisaísmo, reveladora do superficialismo político do momento", escreveu ele no Twitter (microblog). "Afinal, o moralismo seletivo é uma das piores formas de farisaísmo. E a demagogia dos fariseus no tempo de Jesus repete-se nos atuais."
Lula disse que era preciso fazer alianças para ter apoio no Congresso. "Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão", disse Lula em entrevista à Folha.
...

Em verdade, em verdade vos digo: a incontinência verbal de Lula é bastante representativa do tipo de política que vivemos. A metáfora presidencial refere o seguinte, creio: a "pragmática" do Planalto admite como situação peremptória a troca de "entendimentos" entre Lula e a base aliada. Ou seja: o PMDB, principal partido da coalizão entre PT e essa base aliada, é o Judas com quem se precisa conviver, mesmo que a troco das trinta moedas.

O caldo de cultura política que se vive aqui, historicamente permite esse tipo de situação, acordos e conchavos. É sabido que o PT afastou-se muito de suas bandeiras históricas e trabalha com quaisquer judas. Como também é sabido que o velho PMDB do Doutor Ulysses tornou-se uma teia de interesses e apetites politicamente obesos.

É o que o professor Werneck Vianna chama de Estado de compromisso, quando forças as mais díspares encontram-se sob o guarda-chuva do governo e ali perpetram seu tênue e frágil equilíbrio. É a democracia brasileira, que assim se tece no longo e tortuoso caminho da história.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

E aí, vamos tirar a roupa?
Emanoel Barreto

A Folha diz: Depois de vestir uma sunga vermelha nos corredores do Congresso, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) decidiu nesta quarta-feira devolver o "presente" à apresentadora do programa "Pânico na TV", Sabrina Sato. Em um encontro com a apresentadora em seu gabinete, Suplicy devolveu a sunga a Sabrina --que na semana passada convenceu o senador a vesti-la por cima do terno e hoje ofereceu o acessório ao ministro Paulo Bernardo (Planejamento).
....
Como é sabido, o Senado Federal é uma casa de tolerância, nos piores sentidos que a expressão possa ser interpretada. Mas, a atidude de Suplicy, afunda-se nos mais chafurdosos recôncavos do ridículo. Há pouco tempo, uns dois meses, creio, deu um "cartão vermelho" ao presidente da Casa, José Sarney, tentando criar um factóide com a crise de credibilidade do Senado. Não conseguiu e apenas ganhou apupos da imprensa.
Agora, só falta vestir um maiô daquele tipo asa delta, lembra? Assim, sem dúvida ganharia bastante reprecussão. O Senado é o cenáculo dos escândalos, claro. Mas, chegar-se ao ponto de andar de cueca é, literalmente, um golpe baixo.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Os mortos são inimputáveis
Emanoel Barreto

Ora, naquele tempo havia um homem que muito se comprazia com os prazeres da carne e da bebida. Eis que um dia, em plena esbórnia, entregou a alma ao Criador, gerando grande alarde nos meios pândegos. Os amigos, acostumados com suas irreverências, manhas e atitudes, ficaram crentes que ele brincava a bom brincar.

Nisso, ele levantou-se e disse "não acreditam, estou morto?". Veio um físico e constatou que ele realmente não respirava, não tinha pulso e estava estranhamente frio. Mas, sábio, concluiu, "se fala e se se move, vivo está. Deixam-no. Por outro, lado, se não respira nem o sangue se lhe corre nas veias, morto está. Deixem-no também. Deixem-no viver e morrer ao mesmo tempo."

O homem, que nada tinha de tolo, logo aproveitou-se da situação. Entrou para um grupo de notáveis finórios e pôs-se a praticar, a favor de si e da sua grei, todo tipo de ato inescrupuloso e lucrativo. Mas, somente ele aparecia. Pois, dizia antigo princípio legal que "todo morto é inimputável. A rigor - aduz a sábia ciência jurídica, "apenas a putas são imputáveis." Mais claramente, se está morto não pode ser punido e somente as putas podem ser legalmente molestadas. Pronto.

Resumo da história: analistas e cronistas velhos e sábios indicam que o homem hoje ocupa a presidência do Senado. E, como é velha e esperta múmia, morto estando não pode ser punido.





segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O pequeno mistério
Emanoel Barreto

Havia, um dia, um pequeno mistério.
Pequeno sim, mas, ainda assim, mistério.
Ninguém o notava porque era um mistério
pequeno. E porque o mistério morava numa floresta distante
e não queria falar sobre as parvas coisas deste mundo.

Somente duas pessoas conheciam a existência do mistério que,
na floresta, estava oculto sob as asas de uma ave-do-paraíso.