Mostrando postagens com marcador tragédia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tragédia. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 16 de março de 2011

 Um texto que não diz nada e o perigo nuclear no Brasil

Vejo na Folha texto que, a rigor, nada informa. Transcrevo e, abaixo, comento.
50 "heróis" tentam evitar catástrofe

Sob grande risco de contaminação, técnicos buscam evitar derretimento de combustível na usina Fukushima 1

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS

Um grupo de cerca de 50 técnicos da usina de Fukushima 1 é a derradeira esperança do governo japonês para evitar o derretimento de urânio de reatores, danificados após o tsunami da semana passada.
O receio é que haja grande vazamento de combustível. Ontem, a radiação perto da usina diminuiu, mas novos incêndios começaram em dois reatores.
Em cidades próximas, houve fuga de moradores. Longas filas se formaram com pessoas preocupadas em testar seus níveis de contaminação.
O medo chegou a Tóquio, após níveis de radiação terem sido detectados na capital japonesa.
A União Europeia anunciou que testará a segurança de todas as suas usinas. Nos EUA, o presidente Barack Obama prometeu não abandonar a energia nuclear.
Pelo segundo dia seguido, a Bolsa de Tóquio despencou -desta vez, 10,5%, a maior queda desde a crise financeira de 2008. Também caíram diversas Bolsas europeias.
...
Asahi Shimbun/Reuters

Perceba que o texto não tem coerência, não há sequência lógica: pequenas frases são juntadas e dão ao leitor uma tosca visão do acontecimento em sua totalidade. O título fala nos "héróis" mas a matéria não aprofunda, não dá a dimensão enorme e corajosa do feito a que se propõem, não detalha os perigos e como irão enfrentá-los, quais os cuidados para penetrar na usina e o que farão para sanar o grave problema, bem como as consequências sobre a saúde dos 50 homens. 

As usinas da Europa serão reavaliadas, mas também não há detalhes. O pior fica em relação a Obama, que "promete" não abandonar a energia nuclear. Veja só: "prometer" é verbo que traz em seu conteúdo profundo comprometimento com algo positivo, desejável, importante para alguém, para uma organização, para um povo. 

Energia nuclear é algo perigoso, temível e cujos resultados o Japão está exibindo ao mundo. Logo, não seria uma "promessa" de Obama, mas "decisão", decisão de manter a qualquer preço, apesar de todos os riscos, o programa que se utiliza desse tipo de energia nos EUA. A não ser que a promessa seja seu compromisso com os grandes grupos econômicos que a exploram e não têm qualquer interesse em ver-se se esvaírem seus grandes lucros.

O texto não fala no Brasil, vem de agências de notícias e assim não nos teria como prioridade jornalística. Mas, com relação a nosso país, me pergunto: por que insistimos em manter essas usinas quando temos possibilidades de energia eólica e grande potencial hídrico a ser utilizado com tal fim? Não basta o exemplo japonês? 

O Japão tem tradição de enfrentar tragédias nucleares e sua cultura já se provou capaz de tal enfrentamento. Aqui, havendo algo parecido, um vazamento por qualquer motivo, e teremos tragédia descomunal. E com esse tipo de coisa, energia nuclear, não há jeitinho brasileiro que dê cobro às suas consequências.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Fotos de 18 dos 33 mineiros presos em galeria desde o dia  5 (Imagem Folha)

A proximidade afetiva
Emanoel Barreto

Chaplin dizia que "a vida é um fato local". Os acontecimentos que nos são próximos, aqueles que estão em nossa circunvizinhança, são valorados e tidos como importantes pelo fato mesmo de nos serem próximos espacialmente. Dizem respeito ao nosso lugar, à paisagem humana e física na qual transcorre a nossa cotidianidade, alentada pelo afeto que nos prende à sensação de estarmos imersos em território de bem-querer. O meu lugar é o meu mundo.

Todavia, acontecimentos distantes têm também potencial de atrair a nossa atenção pelo conteúdo humano neles depositato pelo nosso olhar. É o que costumo chamar de proximidade jornalística afetiva.

Tragédias, fatos que envolvam dor coletiva ou individual, acontecimentos pungentes, mesmo que espacialmente afastados conseguem despertar em nós o sentimento de solidariedade e isso os transforma em jornalisticamente noticiáveis, como é o caso dos mineiros chilenos e o terremoto no Haiti, o tsunami e o drama da mulher que pode ser apedrejada no Irã. Os exemplos são infindáveis.

O jornalismo tem sempre esse condão: é todo ele, mesmo no mais frio noticiário financeiro, movido pela emoção. Os mineiros encurralados nas entranhas da Terra, a débâcle da Bolsa de Nova Iorque, a apreensão de acionistas calculistas quanto ao futuro dos seus investimentos, tudo tem de alguma forma o envoltório da emoção, a preocupação, o temor existencial pelo futuro imediato ou longínquo.

No caso da proximidade afetiva esta se dá em função da sensação de participarmos da grande comunidade do Homem, a condição humana falível, instável, perigosa. Os mineiros, dizem as coisas de jornal -as notícias - somente deverão ser libertos, digamos assim, daqui a quatro meses.

Até lá haverá sempre uma corrente de expectativa, uma espécie de ansiedade social implorando que não morram de forma tão cruel. E o jornal é o precário hífen que nos prende a eles.