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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Como a ditadura vigiava a Cooperativa dos Jornalistas de Natal

Por Emanoel Barreto

A Fundação da Coojornat, Cooperativa dos Jornalistas de Natal-Coojornat, aconteceu dia 1º de outubro de 1977. Para os jovens que a haviam criado - com o incentivo do cartunista Henfil, então morando em Natal -, era uma conquista. Uma fresta na luta contra a ditadura. Dermi Azevedo era o presidente, Arlindo de Melo Freire vice, e eu secretário – Dermi e Arlindo hoje são saudade.

Dias depois da fundação, uma desagradável surpresa: uma desagradável surpresa pelo menos para mim. Veja só: nós havíamos alugado uma casa na Rua São Tomé, Cidade Alta, em frente ao Senac. Ali seria a sede da Coojornat. Num sábado, poucas semanas após a autorização para funcionamento, fazíamos uma espécie de inauguração festiva, um congraçamento. Cheguei por lá mais ou menos às três da tarde; da rua ouvi música. Som muito alto. Estranhei, porque não tínhamos contratado qualquer serviço de som, muito menos com aquela potência toda.

Parei o carro a uns 20 metros da Cooperativa, pensando: "Quem diabo contratou esse som?", e continuei andando. Quando cheguei em frente ao Senac, descobri: a música vinha de lá mesmo, do Senac, que promovia alguma festividade. Superada a pequena dúvida entrei na sede da Coojornat e fiquei por lá, conversando com um e com outro. Nisso, entram dois sujeitos que se dirigiram a mim e se "identificaram": um era "jornalista", o outro "bancário".

Estranhei a visita por um motivo simples: o que um bancário teria de interesse numa cooperativa de jornalistas?  E o "bancário" era o que mais perguntava. Expliquei que eu era o secretário da Cooperativa e falei do projeto como um todo. Então, o que se dizia jornalista quis saber se eu tinha o estatuto da Coojornat. Respondi que sim, mas o documento estava em minha casa. Rápido, ele perguntou: "Posso passar lá, para ver os estatutos?", eu respondi que sim, dei o endereço e marquei para que ele fosse à noite me procurar.

Os tipos agradeceram e foram embora. Minutos depois chega Dermi Azevedo e eu lhe  conto o caso, já sentindo que boa coisa aquela visita não fora . Dermi disse: "Barreto, você ficou doido? Isso é o SNI, Barreto."
Respondi: "Dermi, eu sei, rapaz. Mas, quem não deve não teme. Os caras vão lá em casa lá pelas sete da noite.Vamos ver no que vai dar."

E Dermi: "Então, tome cuidado". E cuidado foi o que não deixei de tomar. Avisei a um cunhado que morava vizinho e mim.  À minha mulher, grávida de nossa segunda filha alertei que iríamos receber um mau elemento. Feito isso, começou a espera. Meu cunhado ficou na sala da casa dele aguardando para intervir se fosse preciso, enquanto minha mulher estava trancada num quarto.

Devo dizer: não sei se a pouca idade - eu tinha 26 anos - ou a convicção de que nada fazíamos de errado, mas o fato é que a palavra medo sequer me passou pela cabeça. Havia, claro, a certeza de que alguém muito mal-intencionado viria, mas o enfrentamento não me causou qualquer abalo. Estava precavido, intimidado não. 

Pouco depois das sete o sujeito chegou. Subiu os degraus da entrada da minha casa e eu o recebi. "Boa noite, boa noite. Vamos sentar", foi o diálogo inicial. O elemento sentou-se a meu lado e aí começou um ridículo interrogatório travestido de conversa. O treinamento do agente, um reles espião de baixíssima categoria, era básico. Limitava-se fazer perguntas que tentavam induzir-me a dar respostas de contestação à ditadura, como se fosse ele um jornalista insatisfeito com o regime, em confidência com um colega.

Exemplo: "A Cooperativa trabalha para quem?
Resposta: "Somos uma entidade, uma cooperativa de mão-de-obra intelectual. Prestaremos serviços de assessoria de imprensa e teremos um jornal próprio."
"Vão trabalhar também para o governo?"

Ao que eu disse: "Se formos contratados, por exemplo, por uma Secretaria de Estado para fazer assessoria de imprensa, consultoria ou um jornal, sim."
E ele: "Mas, aí, vocês vão perder a independência."

Eu disse: "A finalidade da cooperativa não se resume ao jornal próprio. Queremos ampliar o espaço de trabalho da categoria, entende? E saiba que isso não vai interferir em nossa independência."

E a conversa seguiu nesse tom. Eu sabia que tinha de dar respostas exatamente opostas ao que ele esperava de mim. Ou seja: se concordasse com tudo o que ele dissesse contra o governo daria ao agente munição para fazer relatório dizendo que a Coojornat era mesmo uma célula comunista perigosíssima. E nesse conto de vigário eu não iria cair. Então, dava respostas as mais cândidas possíveis. 

Percebendo que a tática investigativa tosca não estava dando certo - a abordagem pura e simples da atuação da Cooperativa -, ele partiu para o ataque direto: começou a falar mal do ditador Ernesto Geisel. Para o investigador, era a última cartada. O agora ou nunca. Fechei-me em retranca e em nenhum momento concordei com o que ele dizia. Afinal o homem desfechou um golpe fendente: "Esse presidente é um safado."

Não sei de onde tirei um argumento inesperado, mas sei que que desarmou o sujeito: "Acho que não. Pelo que soube, ele já foi secretário da Segurança no Rio Grande do Norte - e disse lá um ano qualquer - e, nessa época, um rapaz foi preso sob acusação de ser comunista. Depois, descobriram que o cara não era comunista coisa nenhuma e ele, Geisel, foi pessoalmente libertar o prisioneiro." 

Mesmo assim o investigador não se deu por vencido: Disse: "É, mas tem uns assessores escrotos..." O "assessor escroto", para o agente, era o ministro de Minas e Energia, Shigeaki Ueki que já admitira a possibiolidade, mesmo que longínque de privatizar a Petrobras. O investigador disse isso com todas da letras: "Ele quer entregar a Petrobras." Aí eu comecei a ficar irritado com o nível sórdido da investigação e fui claro com o tipo: "Colega, você tem aí algum documento que prove que você é jornalista? Como você sabe em nossa profissão tem muito picareta, e dessa gente não gosto."

Ele respondeu: "Claro". E escandiu a palavra: "Claaaaaaaaaaaaaaaaaaaro!" E então, na sequência da resposta, cometeu o erro que o desmascarou por completo. Disse: "É bom você me pedir o documento, amigo. Em nossa profissão tem muita infiltração. Nunca se sabe, né?"

Explicando: picareta, em jornalismo, é aquele cara que vive de expedientes, ganha propinas,  faz louvações, essas coisas. Infiltração, algo bem diferente. Infiltrado dizia-se de pessoa de esquerda que atuava em qualquer ambiente visando difundir a ideologia socialista, os famosos agitadores

Em seguida ele, pelo excesso de documentos que me apresentou, provou o que não era. Puxou do bolso uns dez documentos que o diziam jornalista: desde uma fajuta carteira de sindicato até uma autorização para cobrir visita presidencial à Paraíba, estado de onde se dizia originário. Mostrou também carteira de radialista, noticiarista de não-sei-de-onde, repórter de jornal-fulano-de-tal; isso, aquilo, aquilo outro. 

Pronto: para mim, estava desmontada a farsa. Mas ele insistia: "Você me disse que tem os estatutos da cooperativa, não foi?

Eu disse: "Foi." E completei: "Por sinal, é idêntico ao da Coojornal, do Rio Grande do Sul, com pequeníssimas modificações, relativas à realidade local."
Qual não foi minha surpresa quando ele disse: "Ah, mas se é assim, não quero." Respondi: "O quê? Não quer?", perguntei, já começando a me exaltar. "Não quer, por quê?"

Ele respondeu: "Porque os estatutos da Coojornal nós - veja bem - nós já temos..."
Eu disse: "Mas eu insisto."

Saí um instante da sala, e voltei com um calhamaço na mão. Mantive-me de pé, deixando claro que ele tinha de sair de minha casa. "Pronto", eu disse. E continuei: "Está tudo aqui. O amigo veio buscar, o amigo vai levar."

E quase atirei a papelada em cima dele. Acho que, naquele instante, o agente viu que tinha perdido o seu tempo: não iria levar nenhum relatório espetacular a seus maiores, nem  jactar-se de haver descoberto um terrível complô comunista em Natal. 

Entreguei os papéis e mantive-me de pé; grosseiramente de pé. O sujeito, sentado e perplexo. Afinal levantou-se, pôs o documento debaixo do braço e pediu desculpas pelo tempo que me havia 

domingo, 22 de janeiro de 2012

Leio na Folha e compartilho

Carro da Globo é queimado em reintegração de posse em SP


 
Um veículo da TV Vanguarda, afiliada da Globo, foi queimado durante a reintegração de posse da invasão do Pinheirinho, em São José dos Campos (97 km de São Paulo), na manhã deste domingo. A ação da Polícia Militar deixou ao menos um ferido.
A área, onde vivem cerca de 6.000 pessoas, é alvo de uma disputa entre os invasores e a massa falida de uma empresa, proprietária do terreno. 

Procurada, a TV Vanguarda confirmou que o carro foi queimado e disse que não havia feridos. A emissora informou que ainda não tem detalhes da ocorrência.
Um outro veículo também foi queimado na entrada do bairro durante a reintegração na manhã deste domingo.

Mario Angelo/Sigmapress/Folhapress
Carra da TV Vanguarda, afiliada da Globo, é incendiado durante a reintegração de posse no Pinheirinho
Carra da TV Vanguarda, afiliada da Globo, é incendiado durante a reintegração de posse no Pinheirinho
FERIDO
Uma pessoa, ferida por bala, foi encaminhada para o hospital municipal, onde passou por uma cirurgia. De acordo com a Secretaria de Saúde, o estado do paciente é considerado estável.
A Polícia Militar chegou ao local por volta das 6h. Cerca de 1.800 agentes participam da ação, que conta com o apoio da tropa de choque, de helicópteros e de PMs da cidade de São Paulo. Segundo a polícia, os moradores montaram barricadas e estão resistindo à ação. 

As famílias afirmam que os policiais usaram balas de borracha e gás de pimenta. Ainda de acordo com o grupo, moradores de bairros vizinhos ao Pinheirinho entraram em confronto com a Guarda Civil, que está apoiando a PM, e quebraram o alambrado que cerca o Centro Poliesportivo do Campo dos Alemães. O local estava preparado para abrigar os moradores após a reintegração de posse. 


Lucas Lacaz Ruiz/A13/Folhapress
Tropa de choque da Polícia Militar chegou à área invadida por volta das 6h
Tropa de choque da Polícia Militar chegou à área invadida do Pinheirinho por volta das 6h
 
JUSTIÇA
 
O Tribunal Regional Federal da 3ª Região suspendeu na sexta-feira (20) a ordem de reintegração de posse da invasão Pinheirinho. A decisão também devolveu o caso para a Justiça Federal. 

O desembargador federal Antonio Cedenho, que analisou o caso, entendeu que a disputa envolve a União, já que o governo federal manifestou interesse em participar de uma solução do conflito. 

Ao longo da semana, um imbroglio entre diferentes esferas do Judiciário fez o caso ser transferido diversas vezes entre a Justiça Federal e estadual. Esta última foi a que concedeu para os proprietários a ordem de reintegração de posse.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Fotoflagrante Fotoflagrante Fotoflagrante Fotoflagrante Fotoflagrante

    A mão malvada e o seio pequenino


Da Folha: (Gleb Garanich/Reuters) - Feminista protesta na Ucrânia contra falta de mulheres no gabinete do governo no aniversário do premiê Mykola Azarov.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Terrorismo sem terroristas
Emanoel Barreto

As ações de extrema violência de criminosos no Rio de Janeiro parecem indicar que os bandidos estão a perder espaço e assim partem para atos que começam a se assemelhar aos de terroristas. Só falta começarem a explodir bombas em supermercados.

É que os bandidos não lutam contra a ordem em seu plano ideológico, não a contestam em sua matriz essencial. Antes, e apenas isso, tentam preservar seu naco de mercado: garantia de que continuarão o tráfico e certeza de impunidade aos assaltos.

Ou seja: de alguma forma reproduzem a ordem, uma vez que agem movidos pelo mesmo espírito capitalista que rege o sistema. Por isso não são assemelhados juridicamente a terroristas e como tal combatidos.

De qualquer forma as autoridades, agora quando se inicia um aparente ciclo virtuoso de vitórias, precisam manter o cerco e amplir as ações sociais onde os criminosos detinham o mando.

É preciso manter um aparelho policial amplo e de ações intensas, garantindo ao cidadão o direito de ir e vir. Pelo menos isso. É preciso também retirar da corporação policial sua banda pobre, os corruptos, os algozes; de farda ou não,  fim de que esse serviço público cumpra com suas finalidades.
Foto: http://www.google.com/imgres?