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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Vestir a carapuça ou o temor das elites no Rio
Emanoel Barreto
Policial do Bope (Apu Gomes)

A ação conjunta das Forças Armadas e polícia demonstrou que, querendo, o Estado faz. Agora, é manter o sistema de poder instalado na favela e ocupar outros espaços onde os bandidos ainda estejam agindo.

Mais que isso, entretanto, é preciso presença social séria e com sentido histórico: os moradores do Alemão e outros locais do mesmo tipo têm direito a esse resgate de sua cidadania.

Tínhamos ali uma espécie Haiti social, abalado pela pobreza, miséria e sismos de violência patrocinados pelos criminosos. Com o tsunami do Estado sobre os bandidos, resta cumprir com função social: voltar-se para o bem-comum.

A situação vivida pelo Rio é fruto de longo, penoso processo histórico de exclusão e sofrimento imposto àqueles brasileiros, geração a geração. É culpa de status quo de essência ominosa, voltada para manter o lucro e as benesses de uma elite cevada na exploração e desumanidade.
Policiais em patrulha (Rafael Andrade)
Quando a ação policial-militar estava em vias de ser destada vi nas coisas de jornal da grande imprensa notícia informando que a direção da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro recomendava com veemência que seus cabeças não saíssem de casa a não ser por motivo imperioso e mais: que, nesse caso, se utilizassem de seus carros blindados.

É a prova do equívoco histórico: depois de estiolar ao longo do tempo histórico as vidas de milhares, quem sabe milhões de pessoas, a elite carioca se retraía, com medo das consequências do seu vandalismo sócio-econômico. Agora, ao que parece, os bandidos se foram. Resta às elites vestir a carapupuça.

domingo, 28 de novembro de 2010

Transcrevo, do Estadão, artigo de autoria do cineasta José Padilha. (EB)

Carcaça de uma sociedade
 José Padilha

Policiais em patrulha (Joel Silva)
Por que o Rio de Janeiro é uma cidade tão violenta? Por que tem um número tão alto de homicídios e de assaltos todo ano? Por que grande parte da capital carioca, sobretudo as áreas mais carentes, está dominada por grupos armados? Por que a história do Rio é marcada pela repetição de acontecimentos traumáticos na área de segurança pública, acontecimentos que chamam a atenção do mundo?


Vigário Geral e Candelária explicitaram a violência absurda da polícia carioca. O sequestro do Ônibus 174 demonstrou a precariedade dessa polícia e deixou à mostra a violência de um ex-menino de rua que preferiu “tentar a sorte” a se entregar ao Estado que o torturou a vida inteira. O brutal assassinato de Tim Lopes mostrou que os traficantes cariocas não são Robin Hoods do morro, mas criminosos que utilizam métodos brutais. A tortura de jornalistas de O Dia por milicianos deu origem à CPI que revelou máfias de bombeiros, policiais civis e policiais militares no comando de comunidades carentes, com o apoio de vereadores, deputados estaduais e até deputados federais. E, finalmente, o ataque sistemático do tráfico a vários pontos da cidade, e a reação subsequente da polícia, “desentocou” um verdadeiro exército armado na Vila Cruzeiro e o expôs para todo mundo ver.


Afinal, por que o Rio de Janeiro é assim?


Uma resposta, a da esquerda naïve, postula que a violência no Rio de Janeiro decorre da miséria e da luta de classes, e diz que para combatê-la é necessário acabar com as diferenças sociais, distribuir a renda e educar a população. Há também a resposta da direita naïve, que reduz a violência do Rio a um problema de repressão e diz que ela se explica pela falta de firmeza da polícia e das leis.


As duas respostas estão erradas, contradizem fatos conhecidos.


A primeira não dá conta de cidades que têm índices de desenvolvimento humanos (IDH) piores do que os do Rio de Janeiro e índices de violência menores. A segunda está na contramão da história, que demonstra que incrementos na repressão podem piorar os índices de violência. Foi assim no governo Marcelo Alencar, quando o Estado adotou a remuneração faroeste e passou a premiar os policiais em função do número de criminosos que “abatiam”. A partir daí, o número de autos de resistência, de policiais que declararam ter matado criminosos que resistiram à prisão, cresceu e continua absurdo até hoje.


Muitas vezes, o passo mais importante para encontrar a solução de um problema é enunciá-lo corretamente. Ônibus 174, Tropa de Elite e Tropa de Elite 2 são uma tentativa de enunciar o problema da segurança pública do Rio de Janeiro a partir da premissa de que a violência carioca resulta, em grande parte, da atuação direta de instituições públicas que convertem miséria em violência. À luz dessa premissa, a violência urbana está relacionada à falta de educação e à concentração de renda, mas a relação não é direta e simples, é intermediada por fatores complexos. Acredito que no Rio o mais importante desses fatores seja o efeito perverso que certas organizações administradas pelo Estado têm sobre parte da população.


Ônibus 174 conta a história de Sandro Rosa do Nascimento, um menino que fugiu de uma tragédia familiar e foi viver nas ruas do Rio. Sandro se tornou um pequeno criminoso para sobreviver. Como menino de rua, viu representantes do Estado (policiais militares) matar crianças como ele na Candelária, foi preso e tratado com extrema violência pelo sistema socioeducativo do Estado, foi espancado e obrigado a conviver com traficantes e criminosos muito mais violentos que ele no Instituto Padre Severino e deu entrada no sistema prisional carioca, onde o Estado o colocou em uma cela superlotada e insalubre. O torturou por anos.


A tese de Ônibus 174, exemplificada pela trajetória de Sandro, é muita clara: as organizações que deveriam reeducar os pequenos criminosos os convertem em criminosos violentos. Não fui eu quem formulou essa tese, diga-se de passagem. Foi o próprio Sandro, que a gritou em altos brados da janela do ônibus para quem quisesse ouvir.


Em Tropa de Elite tentei dizer que a mesma coisa acontece no âmbito da polícia. O Estado trata muito mal os indivíduos que se propõem a trabalhar nas organizações policiais. Paga pouco, treina mal, e os submete a uma cultura organizacional militarizada e kafkiana, que tolera a corrupção e estimula a violência. Como disse o capitão Nascimento: “Quem quer ser polícia no Rio de Janeiro tem que escolher: ou se omite, ou se corrompe, ou vai pra guerra”. Tanto a violência e o desrespeito aos direitos humanos do capitão Nascimento quanto a corrupção desenfreada do capitão Fábio são forjadas no mesmo lugar, pela mesma organização. Certa feita um governador do Rio de Janeiro disse a mim e ao jornalista Rodrigo Pimentel que Tropa de Elite era um filme demasiado pessimista. Em sua opinião, a PM do Rio não era tão corrupta quanto pensávamos. Pelas suas contas, um terço dos policiais do Rio é corrupto, outro terço é honesto, e o restante variava conforme o comando. Se a PM do Rio tem mais de 13 mil homens corruptos, então o problema não são seus homens, é a organização. Os policiais do Rio de Janeiro são vítimas da PM.


A tese de Tropa de Elite, instanciada na trajetória do aspirante André Mathias, é igualmente óbvia: as instituições que deveriam combater a criminalidade convertem boa parte das pessoas que trabalham nelas em policiais corruptos e violentos. Fazem isso com grande eficiência e em altas taxas.


Acredito que cada um dos casos simbólicos que listei, de Vigário Geral à tomada da Vila Cruzeiro, ilustra essa tese. Cada um deles envolve traficantes, policiais corruptos e policiais violentos cuja subjetividade e comportamento criminoso foram moldados por instituições do Estado.


Fiz um terceiro filme, Tropa de Elite 2, para tentar dizer por que o Estado funciona assim. Em Tropa de Elite 2 o capitão Nascimento é promovido a subsecretário de inteligência e obrigado a lidar com as conexões que existem entre a polícia e a política. São essas conexões, muitas vezes calcadas em interesses e lógicas eleitorais, que criam e mantêm as instituições que descrevi nos filmes anteriores.


Voltando ao mundo real, deixo claro que apoio as UPPs e sou favorável a esse projeto do governador Sérgio Cabral. Reconheço que ele é fundamental para recuperar o território que o tráfico tomou. Acredito que o Rio não pode recuar no primeiro confronto. Todavia, acho que o projeto das UPPs é apenas meio projeto, e não um projeto inteiro. Onde está a reforma da polícia? Não a maquiagem, mas a reforma concreta, o programa eficiente de seleção e treinamento de policiais, o programa de capacitação profissional, o pagamento de salários dignos, o seguro saúde e o auxílio-educação para as famílias dos policiais? Onde está a corregedoria que funciona? Onde está a reforma do sistema prisional? A capacitação dos agentes penitenciários? A reforma do sistema socioeducativo? A boa formação dos seus operadores?


O projeto das UPPs é fundamental para a sobrevivência do paciente, mas ignora as causas da doença. Na ausência de uma real reforma das instituições que mencionei, o esforço e o engajamento da população carioca no projeto das UPPs pode ser em vão. Afinal, quem vai ocupar as comunidades libertadas? A mesma polícia que conviveu com o tráfico de drogas na cidade por mais de 30 anos, o viu crescer e se expandir e o deixou se instalar. O projeto das UPPs não é um projeto da polícia, é um projeto do governo. O que garante, no médio ou no longo prazo, quando este governo sair e outro entrar no lugar, que as UPPs não se tornarão áreas de milícia?


Eu me lembro, na ocasião do Ônibus 174, que o então presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, foi à TV prometer um plano nacional capaz de reformar as instituições ligadas à segurança pública em todo o Brasil. Teve dois mandatos para cumprir a promessa, e não o fez. Depois veio o atual presidente Lula, do PT. Apresentou um Plano Nacional de Segurança bem bolado, escrito pelo professor Luiz Eduardo Soares. Estamos ao final do seu segundo mandato e o plano continua engavetado. Finalmente, não vamos esquecer o PMDB, do governador Sérgio Cabral, que em ambos governos nada propôs de significativo na área da segurança. A verdade é que nos últimos 30 anos nossos políticos ficaram vendo inocentes morrer. Lavaram as mãos.


O que aconteceu no Rio de Janeiro nessa semana foi significativo. Creio que vai acontecer de novo se o governador insistir com as UPPs. E, como a Copa do Mundo e a Olimpíada estão aí, não há outra alternativa viável. Os confrontos serão inevitáveis e recorrentes. Espero que esses confrontos sirvam para, além de libertar comunidades carentes, forçar o governo federal a entrar de cabeça na luta contra o crime e implementar um plano de nacional de segurança sério, capaz de resolver de uma vez por todas o problema da segurança pública no Brasil.


JOSÉ PADILHA É CINEASTA E DIRETOR DE 'ÔNIBUS 174', 'TROPA DE ELITE', 'TROPA DE ELITE 2', 'GARAPA' E 'SEGREDOS DA TRIBO'
A pergunta que fiz em matéria anterior questionava onde estariam os bandidos, já que não houve o monumental confronto previsto. A resposta, pelo que pude entender, seria a seguinte: os marginais estariam escondidos em casas, mantendo as pessoas como reféns. A polícia fará revista casa a casa.

Em mais alguns minutos o hasteamento das bandeiras do Brasil e do Rio de Janeiro. A Rede Globo está a cerca de 20 quilômetros de distância de onde haverá o hasteamento, mas a cobertura é possível com o uso de lentes poderosas. Magnífico trabalho. Veja em
http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/rio-contra-o-crime/ao-vivo.html
Tá tudo dominado, mas, cadê os bandidos?
Emanoel Barreto

Polícia invade Alemão: forças atuam em conjunto com Marinha, Exército e Aeronáutica (Felipe Dana)
O UOL diz: O comandante geral Polícia Militar do Rio de Janeiro, Mario Sergio Duarte, afirmou neste domingo (28) que as forças de segurança que entraram no Complexo do Alemão, dominada por criminosos ligados ao tráfico, retomaram o território pouco tempo depois do início da incursão. Segundo ele, houve pouca resistência nessa fase e agora começa a varredura casa a casa.

 "Vencemos. Trouxemos liberdade para o povo do Alemão", disse ele a jornalistas. "Não tivemos dificuldade. Tivemos cobertura dos helicópteros e os blindados fizeram o seu papel", disse Duarte. Outros policiais no local também celebraram a tomada pelas forças de segurança.

Apesar das declarações, não é possível saber se todas as posições de criminosos dentro da favela foram tomadas. O cerco continua e a fase mais perigosa pode ser a de varredura. Até agora, nenhum traficante apareceu preso ou morto.
......

A ação firme das forças de segurança permitiu o domínio do Complexo do Alemão. Ao contrário do que fora informado pelo comando da operação, a invsão não se deu à noite, mas às 8h30 de hoje. Vem agora a fase de varredura casa a casa.

Passada a fase operacional,  as pessoas passarão a viver, quando as tropas forem retiradas, a fase seguinte: constatar em seu cotidiano se os bandidos foram realmente embora ou se voltarão a se reagrupar. Pelo que se dizia nos noticiários, pelo menos 800 criminosos estariam homiziados no Alemão, mas não se tem notícia de enfretamento maior. Para onde foram eles? O jornalismo do front até agora não deu essa resposta nem parece ter questionado as autoridades o motivo de não ter havido o enfrentamento esperado.

informações indicando que teriam escapado por sistemas de esgotos, o que demonstra que a operação teve falha de planejamento: ao que parece, não se levou em conta, além do enfrentamento, a fuga, e por onde esta poderia ocorrer. Será preciso acompanhar o noticiário e o desenvolvimento das ações para ver se isso se configura, explicando-se o motivo de não ter havido enfrentamento.

Como ficou dito no início desta matéria, o UOL afirma que não há condições de saber se todas as posições foram tomadas. A proibição de sobrevoo de helicópteros de jornalistas impede a imprensa de fazer verificações, ficando os jornalistas a depender das informações dos comandandes das tropas.

A questão é o day after, a volta ao cotidiano. Aí entram manutenção da segurança permanente, serviço de inteligência e ação do Estado no plano social. Sem isso, tudo voltará. E pode voltar por meio de atitudes de desfaçatez: o império das milícias, esse misto de criminosos e policiais que exploram os moradores da favelas. A polícia precisa se livrar dessa banda podre.

É ação de longo prazo, que envolve também assistência ao policial, valorização profissional, promoção social também daquele que defende a lei, a fim de que não seja tentado a se corromper.

sábado, 27 de novembro de 2010

Abaixo, a crônica da zona de tiro no Rio. E uma seleção de fotos do conflito.

Bandidos regem e confronto bate resistência do tráfico (Sérgio Morais)
Leviatã chegou: Apocalipse now para o crime no Rio
Emanoel Barreto

Leviatã chegou às ruas do crime no Rio. A mão pesada do Estado finalmente se fez sentir, implacável e necessária, sobre aqueles que aterrorizavam aquela infeliz metrópole.

Estava na hora daquela gente bronzeada mostrar seu valor: e em meio a tiros, explosões e presença firme do Poder, com apoio pessoal do presidente Lula, os criminosos estão finalmente em desvantagem.

Leviatã chegou. O Apocalipse dos bandidos parece ter soado. Não é o momento de recuar. Não é um confronto entre exércitos; é um combate contra um magote de homicidas armados e perigosos.

Leviatã chegou. A ofensiva contra os bandidos homiziados no Complexo do Alemão terá, neste final de semana, contornos mais intensos e dramáticos, é o que dizem as informações. Teme-se também que agressões sejam feitas nas ruas para tentar aterrorizar a população neste sábado/domingo.
Policial do Bope patrulha em área de conflito (Fernando Bizerra)

Nos jornais diz-se que os homicidas querem "negociar" antes que as tropas invadam e dominem por completo o Complexo do Alemão. Não é mais o tempo para isso. As tropas das Forças Armadas e da Polícia não podem, sob pena de pôr tudo a perder, acatar essa "negociação". Os resultados psicossociais seriam pesadíssimos e permitiriam à hidra o renascimento de muitas cabeças em pouco tempo.

Soldado do Exército (Antonio Scorza)

Clima de perplexidade tomaria conta das pessoas honradas que vivem naquela área: "Quer dizer que nos fizeram passar por tudo isso, ficar entre dois fogos, morrermos, para, no fim, entregar aos bandidos a vitória moral desse confronto?" - essa seria a grave indagação a percorrer a espinha dorsal arrepiada da opinião pública local e de todo o país.

A tragédia brasileira nos levou a tal situação. A omissão das elites, em sua busca de lucro sem limite e sem senso de consequencias históricas, permitiu o surgimento desse quadro de calamidade. Mas, objetivamente, temos um dado desolador de violência dos criminosos e, diante disso, não é possível contemporizar.

Simplesmente, não dá mais para conviver com tal estado de coisas. E, sendo assim, pelas mãos do presidente Lula, Leviatã chegou.

Jamais se vira tamanha e tão bem organizada atuação do Estado. Os criminosos estão acuados. E vão perder. Leviatã chegou.