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sábado, 25 de junho de 2016

Silêncio, vou matá-lo agora...

"Rio Grande do Norte,
rio grande da morte,
rio grande sem sorte."

(De um poema de Bosco Lopes in memoriam )
http://www.madworks.es/2012/09/botellas-veneno-madworks.html

Simplício sempre sempre fora assim: assíduo, trabalhador, correto; desempenho sem qualquer genialidade mas eficaz. Tudo na medida. E o reconhecimento pelo seu trabalho era, no máximo, um sorriso de satisfação do chefe, melhor dizendo, do dono da loja. Até que um dia Simplício descobriu: estava com câncer.

“Seu Simplício, vou ser muito sincero”, disse o médico, “o senhor tem, no máximo, seis meses de vida.” Ele encarou o doutor com seus olhos castanhos, deu uma tragada forte no cigarro sem filtro e somente disse: “Está bem.”

Saiu do consultório e um pensamento aliviado o acudiu: Seu Ascânio, o patrão, não iria lhe falhar naquele momento difícil. Afinal, nunca havia pedido nada e agora era chegado o momento. Nada disse à mulher, esperou passar uma semana, tomou coragem e falou com Ascânio. O homem, de vista baixa estava de vista baixa ficou, traçando rabiscos numa folha de papel.

Simplício, de pé, petrificado, esperava a resposta, como quem espera uma sentença: seria possível que, após sua morte, o patrão providenciasse a Dona Santa, a viúva (o casal não tinha filhos), o pagamento de uma espécie de pensão, uma ajuda, já que a Previdência iria pagar a ela uma miséria?

Ascânio esperou um minuto, pensou e disse, enquanto amassava o papel e o jogava no cesto: “Não, Simplício, não. As coisas não vão bem e..”, quando foi interrompido por Simplício: “Mas seu Ascânio, e esses anos todos, eu aqui, minha fidelidade ao negócio, minha vontade de ajudar... isso não vale nada? Não merece reconhecimento?”

O homem respondeu: “E já foi reconhecido. Você não tinha um salário mensal? Esse foi seu reconhecimento.” Simplício não retrucou e retirou-se, voltando a seus afazeres. Ressentido, trancou-se em sua dor. Enquanto isso tramava uma vingança: sabia que Seu Ascânio era diabético e muito descuidado com a saúde; sabia também que ele tinha o costume de guardar cheques em branco e assinados, sabe-se lá por quê.

Então, Simplício só precisava ajustar essas duas coisas no momento apropriado para garantir a sobrevivência de Santa: envenenar o patrão e apoderar-se de um cheque. 

Sentia que a doença o corroía por dentro e precisava agir rápido. Então, aconteceu: num sábado foi para casa e, pouco depois, Ascânio telefonou pedindo que ele voltasse à loja e ficasse em sua companhia para revisar umas tabelas de preços. Sentiu que estava ali sua chance e voltou correndo.

Ascânio tomava muito café, fumava muito e estava com as taxas elevadíssimas. Foi suficiente substituir o adoçante por açúcar às quatro da tarde e pouco depois ouvir o baque do corpo. Como ninguém sabia que ele estivera com o patrão, foi ao talonário de cheques preencheu um com a quantia de 60 milhões de reais. Pôs o cheque no bolso, fechou a loja e saiu quando a noite caía. Na segunda-feira o corpo foi encontrado e todos lamentavam a morte de Ascânio.

Simplício foi a um cartório onde depositou o cheque dizendo que, após a sua morte, o envelope onde este se encontrava deveria ser entregue a Dona Santa.  Simplício morreu quatro meses depois. Emocionada, a pobre recebeu o cheque que lhe garantiria o resto de vida. E foi chorando que murmurou: “Meu Deus, como era bom o patrão do meu marido.”

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A morte como justiça; a ira como processo

A morte de Kadafi, o ritual sangrento, os gritos roucos, os urros de contentamento são a prova do quanto ainda somos cruéis e desgraçados na rota da história. 

Se uma revolução de alguma forma ganha legitimidade, exige assertividade bélica, sua consecução final com a captura do fautor dos momentos históricos que levaram à sua deflagração não deveria levar o homem à barbárie primeva de um ser básico. 

É preciso renunciar ao fogo como instituto dialogal insano, substitui-lo pela palavra quando chega o momento do uso da palavra.

Entendo que falar como falo agora, na calma do meu escritório, torna fácil esse pronunciamento. Sei que a hora faz o estado emocional, sei que o momento da Líbia era de irrupção das forças mais primitivas do instinto humano. 

Todavia, deploro o acontecimento em si: um homem caçado como um rato, como dizem muitas manchetes de jornais pelo mundo. Manchetes que ululavam de alguma forma o regozijo bruto, a estupidez humana centrada na vingança.

Os milhares que tombaram nas masmorras de Kadafi, as dores de familiares e amigos são a justificativa distante a alicerçar os atos finais dessa tragédia. 

Foram essas mortes que penetraram fundamente na alma sofrida do povo líbio. E foi aí, no grande momento escandido da história, nos 41 anos de domínio do ditador, no assassinato de inocentes nos porões lúgubres que se gestou a hora da vingança como justiça.

A mísera condição humana atuando de forma retributiva, desatinada, violenta, irracional. 

A Líbia agora, se espera, seguirá rumo diverso da era Kadafi. Mas, mesmo assim, o mundo vive um grande luto - o luto mesmo de sermos homens, falíveis, desastrados.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Deu no Estadão:

Morre nos Estados Unidos a atriz Elizabeth Taylor

Aos 79 anos, a intérprete de Cleópatra sofria de complicações cardíacas

A atriz Elizabeth Taylor morreu aos 79 anos, nos Estados Unidos, na manhã desta quarta-feira, 23. Ela estava internada havia seis semanas no hospital Cedars-Sinaides, em Los Angeles, e faleceu em decorrência de complicações cardíacas.
Mario Anzuoni/Reuters - 18.02.2011
Mario Anzuoni/Reuters - 18.02.2011
 
Liz Taylor foi operada em 2009 com uma falha na válvula cardíaca, uma intervenção que segundo palavras da atriz saiu "perfeitamente bem". Além de sofrer de diversas pneumonias durante sua vida, ela superou nos últimos anos problemas na coluna, diversas operações de quadril e, inclusive, um tumor benigno no cérebro que foi retirado em 1997. Além disso, a atriz teve um passado de abusos de álcool e drogas.
Em comunicado, a agente da atriz, Sally Morrison, informou que Elizabeth Taylor morreu "em paz" e cercada pelos quatro filhos. "Apesar de ter sofrido recentemente uma série de complicações, a condição estava estável e se esperava que ela pudesse voltar para casa. Infelizmente, não era para ser", completou.
"Minha mãe era uma mulher extraordinária que viveu a vida ao máximo, com muita paixão, humor, e amor. Apesar de sua morte ser devastadora para aqueles que a mantiveram tão próxima e de forma tão querida, sempre seremos inspirados por sua contribuição duradoura ao nosso mundo", disse o filho da atriz Michael Wilding.

Nascida em Londres, em 27 de fevereiro de 1932, de pais norte-americanos, Elizabeth retornou para os EUA no final da Segunda Guerra. A mãe, Sara, abandonou a carreira de atriz ao se casar com o pai, Francis Taylor, mas enconrajou a filha a seguir seus passos. As duas foram muito próximas até a morte de Sara, em 1994, aos 99 anos.

Em 1963, Liz Taylor notabilizou-se pelo papel de Cleópatra. Elizabeth ganhou o Oscar duas vezes, pelos filmes Disque Butterfield 8 (1960) e Quem tem medo de Virginia Wolf? (1966). No fim da vida, tornou-se famosa por seus sete casamentos e pelo comportamento às vezes excêntrico. Ela vinha apresentando problemas de saúde nos últimos anos e apareceu em público em estado de saúde frágil.

A atriz encabeçou uma série de causas, principalmente o combate à aids. Após a morte do amigo Rock Hudson, ela abriu uma fundação contra a doença para a qual dedicou seu tempo e dinheiro - principalmente a partir do declínio da carreira, na década de 1980.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Na noite de Natal, um milagre terrível 

Em notícia da Folha, que transcrevo abaixo, é relato que oscila entre um conto de Edgar Allan Poe e a crua realidade, o que indica que a realidade é o grande e terrífico conto da vida mesma: aterrorizada, desesperada por estar grávida, mulher atira filho recém-nascido de altura de mais de dois metros. Contra todas as possibilidades o menino escapa do horrendo sacrifício. Isso ocorreu em Belém, Pará. Era noite de Natal e uma maria desgraçada, abandonada por algum josé malandro, se livra do filho em meio a sangue e dor de parto numa noite suja. É o que se poderia chamar de um milagre terrível: terrível porque, agora, o menino vai enfrentar no mundo as coisas do mundo; para as quais, de alguma forma, é preciso ter dom e gana para escapar com vida.

Recém-nascido é abandonado pela mãe e sobrevive a queda de 2 metros em Belém

JOÃO CARLOS MAGALHÃES
DE BELÉM
Na noite de Natal, um recém-nascido sobreviveu em Belém (PA) após ser colocado num saco plástico e arremessado de uma altura de quase dois metros pela mãe, que acabara de parir.
 
A mãe, de 20 anos, e o filho estão internados na Santa Casa de Misericórdia de Belém (PA) e não correm risco de morrer.

Segundo a versão da mãe, a criança nasceu por volta das 20h do dia 24. Ela mesma cortou o cordão umbilical, colocou o recém-nascido no saco e o jogou, por cima do muro de quase dois metros, na casa vizinha.

O motivo alegado foi o medo de ser descoberta por sua família, que é do Maranhão e não queria que ela engravidasse, e pelos patrões em Belém, que a contrataram para ser babá e de quem escondia a gravidez, disse a Polícia Civil.

Um inquérito foi aberto para investigar o caso. Ela pode ser indiciada até por tentativa de homicídio. 

O bebê foi encontrado algumas horas depois pelos vizinhos, que ouviram o choro da criança. O recém-nascido foi levado pelo Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) à Santa Casa. Ele tinha apenas ferimentos leves e está em observação.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Terrível mundo blue ou não é por ser comum que deve ser normal
Emanoel Barreto

Não há justiça ou bem ou lado bom.
Não é justo alguém ter direito a tudo. De ser dono de
uma empresa de aviação e o outro não ter
direito a comer um pão.
 
Não já grandeza em saquear o inferno e trazer ao mundo tão torpe festim.
 
A loucura chegou há tempos velhos
e as lágrimas logo se fizeram foices que são ferinas, firmes e ferozes.

O massacre dos inocentes é coisa do comum,
mas não é por ser comum que deve ser normal.

Mas não há normalidade quando o gesto humano
é só intensa besta; que transforma a tola humanidade
no esgarçado sudário de que nos vestimos.

Imagem: http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://farm4.static.flickr.com/3410/3205909522_38451e3fc9.jpg%3Fv%3D0&imgrefurl=http://flickr.com/photos/wismann/3205909522/&usg=__Y3NM2z9ryrKQAnc77qj0UFa_8ys=&h=437&w=480&sz=104&hl=pt-br&start=107&sig2=0yZ0lWH8cEMl1-vAQkUJog&zoom=1&tbnid=-N3v20UCZS42KM:&tbnh=128&tbnw=155&ei=YHESTYzMNsOAlAfjucjWDA&prev=/images%3Fq%3Dbrutalidade%26um%3D1%26hl%3Dpt-br%26safe%3Doff%26client%3Dfirefox-a%26rlz%3D1R1GZEV_pt-BR___BR406%26biw%3D1024%26bih%3D581%26tbs%3Disch:10%2C33630%2C3363&um=1&itbs=1&iact=hc&vpx=635&vpy=276&dur=5324&hovh=214&hovw=235&tx=102&ty=102&oei=RHESTc_HBIP58AbXv7THDQ&esq=8&page=8&ndsp=16&ved=1t:429,r:14,s:107&biw=1024&bih=581

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O vice Alencar e essa terrível vontade de viver
Emanoel Barreto

Enquanto o país acompanha a longa batalha de José Alencar Gomes da Silva, 79, contra sucessivos problemas de saúde, chega hoje às livrarias de todo o país a biografia do vice-presidente da República, "José Alencar - Amor à Vida", escrita pela colunista da Folha Eliane Cantanhêde.


As sucessivas cirurgias para tratar tumores e outras complicações médicas e a impressionante força de vontade do vice tomam 15 dos 40 capítulos do livro e são o mote para o título, escolhido depois de debate entre autora, editores e biografado --que preferia "Amor ao Brasil''
...
 A matéria é da própria Folha. A obstinação do Vice-presidente é demonstração efetiva de uma vontade de ferro. A disposição e, acima de tudo, capacidade de resistir às dores e sofrimentos dos atos cirúrgicos invasivos.

O corpo, movido pela força do anima, atirando-se ao talho do bisturi na busca de retirar de si o dano, a doença, que do corpo mesmo brotou.

O que vemos em Alencar é o homem em uma espécie de processo de ascese existencial: o homem expungindo-se daquela parte do seu aparelho corporal que faz mal ao Homem Interior, esse sublime fracassado.

A tentativa de preservar a Vida à custa de fustigar a vida num corpo doente. Ele sabe, suponho, que jamais ficará curado. A doença travou contra ele uma batalha intensa, uma guerra de movimento que se alastra, recua e volta a se avançar, convulsionando aquele corpo que se enfrenta com o sofrer da doença e com o sofrer para o curar da doença. É dor e dor, de lado a lado.

Suponho que Alencar deseje nos dar de alguma forma uma lição: lutar mesmo para perder. Lutar pela luta mesma, combater pelo combate em si. Colocar o corpo como máquina da vida, armadura para receber os impactos dos golpes mais fendentes. Lutar sem sentido ou propósito da luta. Da mesma forma como não há sentido essencial no estarmos vivos. Mas queremos estar vivos. Estúpidos e vivos. Tão vivos como o repulsivo verme que um dia nos comerá a carne.

sábado, 9 de outubro de 2010

O que é isso, papai?,quis saber o menino...


O que é isso, papai?

É o homem, meu filho.

E o que é o homem, papai?

É isso, meu filho.



sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Dou início hoje a uma série de publicações a respeito do Padre Heuzs, que após ter uma visão da Morte dedicou-se a matar criminosos numa favela. O personagem é produto da minha imaginação e não tem qualquer relação com pessoas vivas ou mortas

Crês em Deus, filho?
Emanoel Barreto

Heuzs. Petrus Apolonius Heuzs. Filho de classe média alta, desde cedo revelara vocação religiosa e dizia que ia ser médico. Do seminário para a faculdade aos 27 anos já era padre e médico. Inteligência aguda, leitor fervoroso, temperamento solar e carismático. Pediu e recebeu de seus superiores a missão de trabalhar numa favela; a maior, a mais perigosa, a mais abandonada pelos poderes públicos: a Favela do Remorso, conurbada à Favela do Raio, onde o tráfico e as quadrilhas disputavam palmo a palmo território e poder.

Heuzs fundou e dirigia o Dispensário José e Maria, onde atendia com perícia incomum os casos mais diversos: desde o menino doente da gripe mais tola, às situações mais graves: ferimentos a bala, facadas, membros dilacerados. Como os recursos eram poucos, mobilizava ajudas vindas de onde viessem; desde a doação do traficante mais brutal aos recursos provenientes de entidades de assistência públicas ou privadas. Mantinha em funcionamento a Rádio Coragem, com programação que ia até meia-noite. Ali a programação era toda feita por equipe de jovens que incentivava a solidariedade. Ali se contavam histórias de vida, faziam-se apelos em favor de famílias desabrigadas, tocavam-se músicas dos compositores da favela.

Heuzs trabalhava em parceria obsequiosa com o padre José Maurício Santos, 70 anos, seu mentor e confessor. E trabalhava de tal forma que conseguia transitar da mais honrada e pobre família às salas mais sombrias dos chefes do tráfico. Essa a sua grande vantagem: todos, à sua maneira, gostavam de Heuzs, o padre-menino, o padre-santo. Reunia em uma só pessoa o místico que orava e o médico que curava. E foi disso que se muniu para dar início à sua vilegiatura de revolta contra o que estava errado, contra o crime e os criminosos, a violência dos poderosos da marginalidade contra os pobres que não tinham coragem ou, se tinham, não podiam se defender. Os pobres não tinham afeição às armas, ao contrário de Heuzs, acostumado com o bisturi, sua arma de salvação de vidas, que viria a se transformar em arma de vingança.


Tudo começou quando Heuzs teve um encontro com a Morte. Certa noite, na humilde casa em que morava, assistindo na pequena TV em preto-e-branco a programa já noite alta, Ela entrou e lhe disse: “Heuzs, tens uma missão.” E ele respondeu: “Já o sabia.” Ela continuou: “Tua missão é salvar vidas.” Ele disse: “Eu o sei.” A Morte respondeu: “Salvarás vidas em detrimento de vidas.” Heuzs questionou: “Como assim? Sou padre e médico.” A resposta: “As boas vidas, Heuzs, tu as protegerás; mas, as más vidas, as vidas ímpias, tu as tirarás para que as boas vidas possam vicejar e crescer. Crês em Deus, filho?” Heuzs aquiesceu: “Sim.” Ela continuou: “Se é assim cumprirás o que eu, a Morte, te determinar. E saberás que estás seguindo o bom caminho. Vai a mata em nome da vida.”

A Morte se esfumaçou e Heuzs então perdeu os sentidos; mas, dia seguinte, uma névoa densa encobria o seu olhar e ele se sentia disposto a dar início à missão revelada pela estranha visitante.


(Continua)



sábado, 25 de setembro de 2010

 Estamos em Bogotá: nas ruas a polícia; e enormes cães caminham até você
Emanoel Barreto


Vivendo três dias em Bogotá para participar de encontro de professores de jornalismo tive a experiência de ver um povo e seu diário convívio com o medo. Em bares, ruas, restaurantes; no aeroporto e em pontos turísticos, em táxis e locais de grandes aglomerações soldados por todo lado olham você com desconfiança. Vigilantes de empresas particulares caminham ao lado de cães de grande porte. Nas revistas a que fui submetido nada escapou: desde a bolsa com pertences simples até o meu chapéu. Na dúvida, ainda usavam máquinas detetoras de metal. 

Quando do anúncio da morte de Mono Jojoy, líder das Farc, as televisões entraram em estado de êxtase ideológico. Era preciso mostrar à larga que o inimigo, o oposto, o indescritível, havia sido abatido. 

Não se questionava o motivo da guerrilha, a insurgência contra uma situação histórica de opressão sobre todo um povo. E se a luta armada é uma opção que apenas amplia o horror, acresce mais horror a uma situação em si terrível sem conseguir vislumbrar, mesmo que ao longe, uma solução, o uso das vitórias das forças regulares é um discurso suficientemente forte para apresentar as elites como "salvadoras" e "patrióticas".


O povo revela não entender a matriz profunda da guerra, suas motivações de repulsa à injustiça social para somente perceber a ação violenta dos guerrilheiros.  Para as pessoas com quem conversei, "los guerrilleros son malos" e fim. 

O foco essencial é desviado para o confronto em si, a batalha, mais que isso, a notícia dessa batalha. Assim, a vida passa ao plano da notícia pontual, esquecendo-se a dor histórica de um povo. Há medo? Matêmo-lo. E matando-se o homem origem do medo garante-se pelo noticiário que o Bem está triunfando. 

A pretensa busca pela democracia pelas armas dá liberdade e legitimação ao discurso de manutenção da ordem e a brutalidade apenas se justifica. A brutalidade primeira, de uso do povo para fins privados, é esquecida. A visão do ataque a Mono Jojoy é um  blockbuster de horrendo sucesso. O espetáculo da guerra, na Colômbia, faz parte da grade de programação das redes de TV.



domingo, 19 de setembro de 2010

Combater o bom combate ou de como ser elefante e homem plenamente

Emanoel Barreto

Como já disse uma vez neste jornal sou tipógrafo de profissão. Aprendi o ofício em 1444 pelas mãos do mestre Johann Gensfleich zum Gutenberg quando este, em sua genialidade artífice, juntou todas as técnicas então conhecidas, criou os tipos móveis e fundou isso a que chamais imprensa. Tinha eu então 15 anos. E ainda hoje sigo os ditames do mestre: produzo os meus tipos com a mistura de chumbo, estanho e antimônio; meticulosa e dedicadamente. Cada um na medida exata para a criação de caracteres os mais belos, ilustres e bem postos.


A história que vos vou relatar ocorreu no ano da graça de 1784, já então eu bem velho, em Paris. Foi assim: certa noite fui procurado por um elegante e bem elevado senhor. Homem idoso, bem vestido, porte alto e sobranceiro, de maneiras afáveis; um cavalheiro. Apeou-se de sua carruagem e adentrou à minha oficina onde também moro.

Dado o horário supus que se tratasse de algo de muita relevância. Tirando as luvas, a nobre e elegante figura se apresentou. Passando as mãos na basta cabeleira alvíssima e pelos gestos refinados, logo reparei que tratava-se de um elefante. Desejei-lhe boa noite e perguntei no que poderia servi-lo, sendo eu apenas um tipógrafo.


Explicou-me ser muito velho, o que era absolutamente desnecessário, e pediu-me ajuda. Revelou que havia há alguns meses sido procurado pela Morte em encontro formal, quando esta lhe havia anunciado o seu fim.

Perguntei-me a razão daquela inusitada conversa, não sem antes haver-lhe anunciado que até então jamais havia sido procurado por aquela dama, muito embora já a tivesse visto visitando amigos em encontros aos quais testemunhei.

A Morte, para quem não sabe, vem sempre acompanhada pela Dor, Solidão, Frieza, Injustiça, Doença. São suas aias fiéis e dedicadas. Todas elegantes; vestidas, para espanto meu, com ricos indumentos, roupas solares, cores delicadas como uma manhã nascente. A Morte sorri, sorri sempre nesses encontros, e se explica como necessária e guardiã de que o Homem cumpra com sua sina de ser homem.

Num desses encontros a que presenciei, disse ao elefante, perguntei quando seria eu finado e ela me disse que ainda não se havia decidido a respeito. Mas confortou-me que não ficarei para sempre. Mas, voltando ao meu visitante, eis o que se segue: contou-me que os elefantes têm um lugar secreto, um cemitério aonde vão sempre que se lhes chega o momento.


Prosseguiu, dizendo que tal cemitério é âmbito sagrado, devendo ali repousar aqueles grandes despojos e suas magníficas presas de marfim. Um repouso eterno e impenetrável a olhos malfazejos. Afinal explicou o motivo de sua vinda: tivera iformação de que um homem havia descoberto a existência da necrópole e preprava-se para infausta e malíssima invasão, a fim de apoderar-se do marfim e com isso fazer fortuna.

Assim, completou, pedia que eu, como tipógrafo, o acompanhasse a tal lugar, onde pretendia defrontar o sacrílego infame e impedir que perpetrasse o indigno intento. Perguntou se eu o acompanharia, mesmo sendo noite e longa a viagem. Queria que um tipógrafo registrasse aquele encontro e o contasse depois. Não pensei um segundo e aceitei.

Antes de sairmos quis saber quais as armas para o duelo; ele respondeu: as convencionais: florete e pistolas, à escolha do agressor. Mas, como supunha que se tratasse de elemento vil, não um cavalheiro, levava também facas para bater-se em encontro desonroso e mesquinho com o miserável.

Pecebi que o meu amigo - àquela hora já o considerava um amigo-, tinha lágrimas nos seus grandes olhos por obrigar-se a combate tão desgraçado, com armas tão torpes: as facas, típicas de manhosos e ignóbeis homens de tavolagem.


Aprestei-me a sair. Pedi licença e fui a meu quarto onde apoderei-me de uma pistola que escondi em meu casaco. Jamais deixaria o elefante ser humilhado e abatido pelo canalha. Nesse instante evoquei a Morte a lhe pedir conselhos. Ela não veio. Mandou-me, em seu lugar, a Dor, a Frieza e a Solidão. Belíssimas, decotes profundos, elas me olharam com olhar de indiferença e me disseram que aquele momento deveria ser vivido em toda a sua plenitude. Quer dizer: em total sucumbência, obediente sucumbência ao que seja ser homem. E se foram.

Nós também partimos. A confortável carruagem era tirada por três parelhas de poderosos cavalos, animais enormes, bestas de formidável força e grande impulso. E seguimos. Varamos a noite e seu vento uivante e frio. Prosseguimos de dia e mais uma noite e outra e outra e outra.

Até que afinal chegamos ao santuário. Lugar esplêndido, apesar de ser um mortuário. Grandes carcaças se espalhavam em sua grandiosa condição de testemunho do que um dia fora vida. Uma clareira selvática, cercada de vegetação de verdes de todos os matizes. Descemos da carruagem e esperamos.


De repente o infame apareceu. Vinha só, montado em enorme carroça onde pretendia levar o seu butim. Quando se preparava para iniciar a desprezível tarefa foi atalhado pelo elefante. Digno, aquele homem dirigiu-se ao salteador e mandou que parasse. Este reagiu dizendo que nem as forças do Alto o deteriam.


Tirando a casaca o elefante o desafiou: o biltre jamais levaria adiante seus molestos intentos, asseverou. E mandou que escolhesse armas. O falsário não se fez de rogado. Mas não escolheu armas: tinha já pronta na mão o objeto indigno: o combate seria travado a faca, sem honra ou regras.

Temi pelo destino do meu amigo. Homem velho, o elefante poderia ser estraçalhado pelo jovem carniceiro, perdendo assim de ter uma morte digna, a morte que merece todo elefante.


O cavalheiro então chamou o cocheiro e lhe pediu idêntido armamento.

Encaminhou-se ao centro da clareira onde já o esperava o velhaco e o confrontou. Notava-se claramente a assimetria entre os desafiantes: meu amigo caminhava pesadamente, movia-se com dificuldade, enquanto o malfazejo o cercava girando à sua volta, jogando a arma de uma mão para a outra.

Então veio o primeiro golpe. Atingido no ombro o elefante rilhou os dentes e aguentou a brutalidade. O sangue quente e vivo descia da ferida, mas aquele velho homem não se dobrava. E veio o segundo golpe, o terceiro golpe e o quarto golpe.


Semicerrei os olhos e tirei do coldre a pistola. Não, jamais permitria aquela indignidade. Sendo eu também muito velho, pedi forças à Morte para que me ajudasse naquele instante. E então ela me ajudou. Fez renascer minhas forças, meu sangue tornou-se ácido e cruel. Uma crueldade boa e intensa, a crueldade da imensidão que precisamos ter ao afrontar o indigno e o mau pelejador.

Minha mão puxou a pistola do coldre num movimento semicircular, vindo do quadril até o ponto de mira. Mas, quando fixei na vista a testa do invasor deu-se o milagre: o elefante, reunindo suas últimas forças e lavado de sangue e hombridade, estirou-se à frente e cravou certeiramente a faca no pescoço do criminal, que caiu de borco em meio a um mar vermelho e borbulhante de sangue ruim.


Num impulso de pólvora atirei para cima e dei um grito rouco e longo que estremeceu todo o meu corpo. Lágrimas corriam dos velhos olhos cansados. Eu agora era novamente apenas um velho. Corri a amparar o meu amigo, aquele homem digno, aquele elefante insuperável. Então a Morte se aproximou. Mas não vinha em companhia de suas aias costumeiras; agora trazia a seu lado a Luz, a Imensidão, a Flora e a mais bela de suas novas companheiras: a Paz.


Meu amigo caiu ao solo e a Morte, a Luz, a Imensidão, a Flora e a Paz o abraçaram em seu regaço enquanto ele ainda respirava. A seguir deu-se uma epifânica transformação: aquele grande corpo humano aos poucos foi se dissolvendo e meu amigo assumiu a força de um monumental, grandioso e belo elefante.

Já não mais tinha os sofridos ferimentos. Estava inteiro, intacto e esplendente. Duas grandes presas de puríssimo marfim refulgiam de sua boca. Seus enormes olhos miraram-me a mim e ele fez uma solene e profunda inclinação com a cabeça. Então, ajuntou todo o corpo, deitou-se e morreu. Recerreguei a pistola, dei outro tiro para o ar e gritei meu grito rouco e primal. Meu ser todo tremia. Toquei o corpo daquele magnífico homem e voltei à carruagem que me tornou a Paris.

Jamais esqueci aqueles momentos que agora compartilho com você. Ainda hoje estou vivo e sempre pergunto à Morte quando ela me virá buscar. Ela sempre diz que ainda não chegou a hora. Mas sempre me promete que não me faltará, como jamais faltou a elefante algum.

Escrevi a história do meu amigo e agora publico nesse estranho jornal que não é de papel, para leitores que são bem mais jovens que eu, mesmo que sejam já anciães. Prometo que voltarei a contar outras histórias. Afinal, como sou muito velho, tenho sempre algo a compartir com algum elefante que queira desfrutar deste meu ofício de tipógrafo.

Voltaremos a nos falar meu caro elefante.







sexta-feira, 17 de setembro de 2010

E ele foi encontrado boiando no Potengi

 Felizes são os mortos famosos
Emanoel Barreto
Os grandes mortos, os mortos famosos, esses não; esses já tiveram suas vidas apresentadas ou devassadas nas coisas de jornal dos jornais e TVs, internet e rádio. Esses são mortos experientes. Mortos que já conheciam a fama e dela desfrutavam. Mas os mortos anônimos sim. Esses que eram apenas espécimes da fauna urbana, podem ser miseravelmente famosos depois que seus corpos são entendidos pelos jornalistas como corpos noticiáveis. 

Estranha e banal fama. Uma fama de arrabalde, perdida lá nos confins disso mesmo que se chama de fama. Não exatamente fama: um lembrete no grande pregão das notícias que gritam para ser lidas. 
Mas não seria esse o destino dos pobres, das vidas magrinhas, vidinhas corcundas, encurvadas, caladas, transeuntes de si mesmas, perdidas nas filas, salariozinho catado nota a nota até o final do mês? Não seria esse o destino das vidas-moeda-de-troco? Vidas opacas, seus dramas pulsando em corações que não falam a língua dos grandes mortos? Os grandes mortos, esses sim, são mortos felizes.

Mas os outros não. Os sem fama são mortos que não são mortos felizes.
É o caso do rapaz encontrado boiando nas águas do Potengi. No corpo uma tatuagem de Jesus e um nome: "Luana". Fé e amor gravados num corpo que foi atirado às águas. Mais um drama insignificante de alguém de vida insignificante. Além das tatuagens, macas de balas. E pronto. Toda uma vida significada, agora sim. Agora sim, pela mensagem do amor, da fé e da violência.

Quem é "Luana"? Estará chorando por ele? Ela também insignificante, um espécime dentre muitos espécimes que habitam o submundo dos esquecidos dos não-lembrados, dos não, dos que são apenas não. 

E o morto: como viveu? Como morreu? Por que morreu? Até agora não se sabe. Afinal, foi apenas mais um morto sem fama. Um morto velado pelas letras de jornal, lembrado brevemente pelas coisas de jornal.

É o caso da notícia abaixo, resgatada da edição de hoje do Diário de Natal.
Bombeiros resgatam corpo no Rio Potengi


Equipe retirou cadáver nas proximidades do mangue das Salinas Foto: Paulo de Sousa/DN/D.A Press
Uma equipe do Corpo de Bombeiros foi acionada no início da manhã de ontem para resgatar o cadáver de um jovem ainda não identificado, que foi encontrado boiando no Rio Potengi, nas proximidades do mangue das Salinas, Zona Norte de Natal. O corpo foi visto por um pescador que acionou a polícia. Porém, somente com a ajuda dos Bombeiros foi possível a retirada do cadáver do rio.

O jovem, aparentando em média 25 anos, tinha duas tatuagens, sendo uma imagem de Jesus Cristo nas costas e outra com o nome "Luana" no braço esquerdo. Aparentemente ele foi morto a tiros, pois apresentava possíveis marcas de perfuração à bala no rosto e no braço esquerdo. A causa da morte, porém, somente será definida após laudo do Instituto Técnico Científico de Polícia (Itep), que recolheu o cadáver. O caso será investigado pela 9ª delegacia de Polícia no Panatis. (PS)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A demência, a solidão, o horror


http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.cie.unam.mx/~gbv/weblog/juegos-de-fantasmas
A mulher que colecionava fantasmas
Emanoel Barreto

A Folha traz a matéria que publico abaixo. Como num conto de horror de Edgar Allan Poe, oscilando entre esse mesmo horror e a demência, entre a miserável condição humana e a compaixão perplexa e dissimulada pela objetividade jornalística ante essa mesma condição, a notícia, em seu estilo distanciado e frio, dá o relato de uma vida infeliz e feia. 


O patético humano manifesto em toda a sua brutalidade e incompreensibilidade na figura de uma mulher que guardava os cadáveres de seus filhos mortos. Perdida em seu mundo secreto, cheio de caminhos que eram só dela e de seus fantasmas, seguia. Como que colecionando toda a nossa decadência, fracassos, traumas, desesperos e vazio. Leia a matéria:
.....
UMA BRITÂNICA admitiu ter guardado os cadáveres de três bebês em um armário por 20 anos. Bernadette Quirk, de 55 anos, também enterrou, secretamente, em um cemitério, o corpo de um quarto bebê.
Ela está sendo julgada em um tribunal na cidade de Liverpool, no norte da Inglaterra.

Britânica Bernadette Quirk, 55, admitiu que guardou bebês mortos em armário por 20 anos
Britânica Bernadette Quirk, 55, admitiu que guardou bebês mortos em armário por 20 anos 

Os bebês nasceram entre 1985 e 1995. Quirk, que no período consumia grandes quantidades de álcool, alega que todos os bebês nasceram mortos e que ela embrulhou três deles em trapos e guardou-os em um pequeno recipiente plástico em seu armário. 

Nascida no condado de Merseyside, hoje vivendo nos arredores da cidade de Manchester, Quirk teve dificuldade em se lembrar das datas em que os bebês nasceram. Ela se declarou culpada da acusação de ocultação de nascimentos e será sentenciada em outubro.

PERÍODO DIFÍCIL
O advogado de Quirk, Ian Morris, disse ao tribunal que os nascimentos aconteceram durante um período difícil na vida dela. Ele disse que a cliente desejava tornar claro que os bebês já estavam mortos quando nasceram, fato que não foi contrariado por pareceres médicos.
Segundo o advogado, Quirk descreve aquela fase em sua vida como caótica e diz ter enterrado as memórias daquele tempo em algum lugar inacessível. Morris disse que sua cliente não se lembra do quarto bebê mas não teve outra opção senão admitir culpa, tendo em vista evidências irrefutáveis de que ela era a mãe. 

Ele disse ao tribunal que quando Quirk foi presa, no ano passado, estava recebendo tratamento para depressão em um hospital e corria o risco de ser despejada de sua casa.

GÊMEAS
Não foi explicado por que Quirk guardou os restos dos cadáveres, levando-os consigo para os vários endereços que ocupou após os nascimentos. Os restos mortais foram encontrados pela filha de Quirk, Joanne Lee, que avisou a polícia. 

Os quatro bebês eram meninas e duas delas eram gêmeas. O juiz pediu mais informações contextuais antes de decidir sobre a sentença, mas alertou Quirk de que há possibilidade de que ela seja mandada para a prisão.
A família de Quirk anunciou que pretende organizar um enterro para os bebês.
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