Estou em Bogotá: muito frio e chove
Emanoel Barreto
Estou em Bogotá, bela e de povo atencioso. As montanhas cercam a cidade, encobertas por densas névoas. Faz muito frio e chove um pouco. Para mim, com meu olhar trópico-brasileiro, é estranho ver tantas pessoas encasacadas e isso mui elegantemente. A mim parece que estão todos fantasiados e prontos a participar de uma super-produção existencial. Como também não posso escapar ao frio também me fantasiei.
Estou sem tempo de atualizar Coisas de Jornal como queria. As atividades na Universidad Javeriana tomam todo o meu tempo. Assim, vou postando alguma coisa quando posso.
Amanhã apresentarei meu trabalho no Grupo de Trabalho "Estudios de Periodismo". É uma abordagem a respeito do olhar do fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson e intitula-se "A fotografia como paixão em Cartier-Bresson.
Paixão no sentido de dedicação intensa a algo, disposição de cumprir com um propósito histórico: no jornalismo, revelar o mundo e todos os seus matizes de insanidade e de beleza.
Se ainda não leu, bem abaixo deste post há um resumo do meu trabalho.
Volto. Mais tarde ou amanhã.
"Não é justo alguém ter o direito de ter uma empresa de aviação e outro não ter o direito de comer um pão." /////// JAMAIS IDE A UM LUGAR GRANDE DEMAIS. A UM LUGAR AONDE NÃO TENHAIS CORAGEM DA IMENSIDÃO - EMANOEL BARRETO - NATAL/RN
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quarta-feira, 22 de setembro de 2010
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segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Uma viagem a Bogotá e a fotografia como paixão em Cartier-Bresson
Emanoel Barreto
Viajo amanhã a Bogotá, onde participo do 10º Congressso da Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación, na Pontificia Universidad Javeriana. Apresentarei o trabalho intitulado "A fotografia como paixão em Cartier-Bresson", que aborda o olhar do fotógrafo francês considerado um dos maiores nomes do século passado.
O trabalho de Bresson é uma espécie de conjura entre cerebralismo e arrebatamento; o fotógrafo à espreita do momento decisivo, ator sem papel no grande teatro do mundo. Mas participando sem falar, é ator de máxima importância, ao congelar em foto um instante que pode ser a visão epifânica de um gesto poético ou a captação da condição humana na dor, na grandeza, na miséria.
É sobre isso que vou falar. Enviei ao congresso texto de 15 laudas tratando do assunto e o fiz como quem produz uma crônica. Dexei o repórter falar, mesmo cumprindo o que determinam as regras da academia.
Percorri com os olhos e o olhar uma parte da trajetória de Bresson ( http://www.magnumphotos.com/Archive/C.aspx?VP3=ViewBox&ALID=2TYRYD1D518O&IT=ThumbImage01_VForm&CT=Album ) e da internet consegui imagens preciosas.
Pode-se perceber o poder e a força da fotografia como arte e como exercício de um jornalismo incisivo e captor de momentos da história. Bresson, que antes de ser fotógrafo fora pintor, tinha noção exata dos planos e do equilíbrio dos volumes no texto fotográfico.
Dizia que a foto de uma certa maneira era uma forma de pintura. E tinha razão. Pois então é isso: vou a Bogotá também, já que surgiu a oportunidade, para ver como funciona um país em guerra; como age o povo, o que se diz nas ruas, como fervilham os fatos. Vou a uma universidade mas vou também ser repórter. Mando notícias de lá.
Leia abaixo um trecho do trabalho que apresentarei.
........
O torso ossudo próximo ao luxuriante-corpo-fêmeo. Na mulher, à cabeça, um turbante branco é enfeite ligeiro, contraponto de alvura à pele escura. Mas o cesto na cabeça não é adorno, é fardo. Temos dois seres básicos em seu estado-de-natureza infausto. Uma espécie de inocência tosca os une, a guiar a naturalização de sua tragédia. Escassez e viço convivendo nos corpos de tais inocentes.
Emanoel Barreto
Viajo amanhã a Bogotá, onde participo do 10º Congressso da Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación, na Pontificia Universidad Javeriana. Apresentarei o trabalho intitulado "A fotografia como paixão em Cartier-Bresson", que aborda o olhar do fotógrafo francês considerado um dos maiores nomes do século passado.
O trabalho de Bresson é uma espécie de conjura entre cerebralismo e arrebatamento; o fotógrafo à espreita do momento decisivo, ator sem papel no grande teatro do mundo. Mas participando sem falar, é ator de máxima importância, ao congelar em foto um instante que pode ser a visão epifânica de um gesto poético ou a captação da condição humana na dor, na grandeza, na miséria.
É sobre isso que vou falar. Enviei ao congresso texto de 15 laudas tratando do assunto e o fiz como quem produz uma crônica. Dexei o repórter falar, mesmo cumprindo o que determinam as regras da academia.
Percorri com os olhos e o olhar uma parte da trajetória de Bresson ( http://www.magnumphotos.com/Archive/C.aspx?VP3=ViewBox&ALID=2TYRYD1D518O&IT=ThumbImage01_VForm&CT=Album ) e da internet consegui imagens preciosas.
Pode-se perceber o poder e a força da fotografia como arte e como exercício de um jornalismo incisivo e captor de momentos da história. Bresson, que antes de ser fotógrafo fora pintor, tinha noção exata dos planos e do equilíbrio dos volumes no texto fotográfico.
Dizia que a foto de uma certa maneira era uma forma de pintura. E tinha razão. Pois então é isso: vou a Bogotá também, já que surgiu a oportunidade, para ver como funciona um país em guerra; como age o povo, o que se diz nas ruas, como fervilham os fatos. Vou a uma universidade mas vou também ser repórter. Mando notícias de lá.
Leia abaixo um trecho do trabalho que apresentarei.
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A mulher seminua num Éden suarento
Na fotografia de Bresson o mundo é rápido e cada segundo conta. O tempo tem locução própria, e o espaço e seus habitantes com ele dialogam. Resta saber o que dizem. E o que dizem é transcrito na imagem. A vida e todas as suas digressões.
[...]
Surge então uma outra forma do presente. O presente da vida e as suas divagações, esse o mister de Bresson: fazê-los co-incidir na foto. E coincidem na colagem pictórica. Pode ser na imagem da feirante seminua do mercado de Bali. Seios suntuosos – que adornam nudez primal, despojada e majestosamente banal aos olhares da feira – contrastam com descarnado ancião que lhe é perto.
O torso ossudo próximo ao luxuriante-corpo-fêmeo. Na mulher, à cabeça, um turbante branco é enfeite ligeiro, contraponto de alvura à pele escura. Mas o cesto na cabeça não é adorno, é fardo. Temos dois seres básicos em seu estado-de-natureza infausto. Uma espécie de inocência tosca os une, a guiar a naturalização de sua tragédia. Escassez e viço convivendo nos corpos de tais inocentes. Tão humanos, tão singelamente espécimes, tão ingenuamente mansos; dois exemplares, dois viventes, dois de muitos viventes de um éden suarento, ignaro e tórrido mostrado no universo cifrado da foto, feita em 1949. Podem-se intuir os gritos do mercado, a vida plebe e rústica, o girar dum cotidiano eterno. Cotidiano inculto, ironia que esculpiu improvável fêmea exuberante enquanto desbastava a vida de outro, o infeliz mirrado. Detalhe: o olhar da moça, delicado, se espicha numa meia-volta do corpo silvestre, olhar virado para o lado e para baixo. Ela vê além, olha para fora do que está no enquadramento, portanto fora da vista do fotógrafo e, depois, do expectador da foto. Aí a composição perfeita, mistério e feitiço da colagem pictórica.
Bresson entrecruza dois, três acontecimentos: a moça e o esquálido; a moça, o esquálido e o que não é possível ver, mesmo supondo. Ela olha a algum ponto. Olha a alguém? Sem perguntas. O importante é o olhar, não o olhado. Bresson captou candura no que era agreste.
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