sábado, 25 de abril de 2009


Vamos passear de avião?
Emanoel Barreto

O poder opinativo da charge é nada desprezível. Que o digam os políticos e outras personalidades de mídia. Eminentemente editorial, a charge é uma espécie de piada a partir do mundo real. Mas uma piada corrosiva, ácida, uma sátira, uma denúncia. Pela charge os políticos se tornam lamentáveis.

Dizem que Getúlio Vargas colecionava as que saíam com ele. Mais para fazer tipo, claro. Porque, com o Departamento de Imprensa e Propaganda, o famigerado DIP, publicar charge era uma concessão, uma liberalidade, que o ditador concedia até mesmo como forma de se auto-propagandear.

Mas ilustração como essa, publicada hoje pela Folha, funciona como petardo, míssil jornalístico a cair sobre o Congresso, onde verdeja a cultura da corrupção como coisa sagrada. Deputados e senadores, muitos deles, veneram a corrupção como algo sacro, respeitável, bento; querido e nascido do mais íntimo de suas almas escuras.

Por isso a importância das charges. Mas, para entendê-las, é preciso ser leitor, leitor diário de jornais. Acompanhar a vida da cidade, do Estado ou do País, do mundo até, a fim de compreender a piada impressa em seu contexto. No mais, é continuar fazendo carga sobre as imoralidades do Congresso, essa casa onde muitos são porcos.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Eles querem Santos Dumont
Emanoel Barreto

Causam perplexidade, senão indignação, as palavras do senador Epitácio Cafeteira(PTB-MA): "Daqui a pouco, estaremos recebendo vale-transporte", quando reclamava das medidas moralizadoras no uso das passagens aéreas pelos parlamentares. Não, ele não quer vale-transporte, quer mais. Se dessem chance, certamente iria querer até mesmo o Air Force One, o avião que transporta os presidentes americanos, com Santos Dumont como piloto .



O que no Brasil chamamos de classe política, além de sociologicamente ser um erro, incorre em outro deslize: na presença de desclassificados como portadores de diploma de legislador ou governador. Não é isso o que se tem visto, em mais um escândalo?



No Congresso há uma teia escusa, escura e sinistra aos interesses públicos, comerciando passagens, promovendo tramoias, enganando, ludibriando, furtando. Os jornais não devem nem podem parar de denunciar e expor seus nomes. É preciso punição pública, já que para eles não haverá punição penal.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Os detetives e o mundo real
Emanoel Barreto

Piratas virtuais invadiram os computadores do Pentágono e tiveram acesso a dados do projeto de construção do avião caça Joint Strike Fighter, um dos mais caros já empreendidos pelo Departamento de Defesa dos EUA, orçado em US$ 300 bilhões. A administração de Barack Obama está tomando medidas para conter essa escalada, inclusive contratando piratas virtuais. A ideia é contratar pessoas que exercem esse tipo de atividade para que elas ajudem a melhorar a segurança das redes de comunicação do país.

A informação saiu na Folha. Dá a impressão de que estamos falando de filme de espionagem. A vida imitando a ficção. O que mais estranho, todavia, é o fato de se estarem gastando 300 bilhões de dólares para a confecção de armas, quando o mundo precisa de alimentos, progresso e paz. A insanidade dos governantes alimenta a fome de guerra e ajuda a enriquecer os matadores.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

"Vossa Excelência me respeite!"
Emanoel Barreto
Deu na Folha: O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Gilmar Mendes, e o ministro Joaquim Barbosa bateram boca nesta quarta-feira no plenário do tribunal. Barbosa acusou o presidente da Corte de estar "destruindo a credibilidade da Justiça brasileira" durante o julgamento de duas ações --referentes ao pagamento de previdência a servidores do Paraná e à prerrogativa de foro privilegiado. "Vossa excelência me respeite. Vossa Excelência está destruindo a Justiça deste país e vem agora dar lição de moral em mim. Saia à rua, ministro Gilmar. Faça o que eu faço", afirmou Barbosa.
Em resposta, Mendes disse que "está na rua". Barbosa, por sua vez, voltou a atacar o presidente do STF. "Vossa Excelência não está na rua, está na mídia destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro."
Irritado, Mendes também pediu "respeito" a Barbosa. "Vossa Excelência me respeite", afirmou. "Eu digo a mesma coisa", respondeu o ministro.
Os ministros Carlos Ayres Britto e Marco Aurélio Mello atuaram como "bombeiros" para tentar encerrar o bate boca. "A discussão está descambando para um campo que não coaduna com a disciplina do Supremo", disse Marco Aurélio ao pedir o encerramento da sessão.
Barbosa chegou a afirmar que Mendes não estava falando com os seus "capangas de Mato Grosso". O ministro disse que decidiu reagir depois que Mendes tomou decisões incorretas sobre os dois processos analisados pela Corte.
http://mais.uol.com.br/view/206350 - clique aqui para ver o vídeo.

......O ministro Joaquim Barbosa, um dos pilares morais desta nação, agiu como costuma agir: com força, vigor discursivo e ênfase em favor da coisa pública. Ao que pude perceber, vendo o vídeo, o que se discutia era a concessão de aposentadoria aos notários, ou seja: donos de cartórios. Cartórios são verdadeiras minas, fábricas de papéis com fé pública, vendidos a peso de ouro. Por que notários aposentados, como se fossem servidores comuns?

Eles devem ter sua própria aposentadoria. Sinceramente, não sei como isso se dá, mas, desamparados é que não ficam. Ao que percebi, tratava-se de manobra para beneficiar os notários. Coisa boa é que não era. Veja o vídeo e tire conclusões.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Agressão a uma criança
Emanoel Barreto

Maísa, a menininha encantadora que apresenta programa no SBT, está sofrendo assédio de dois paparazzi, o que obrigou a família a tomar precauções com ela até na escola, a fim de que não seja incomodada pelos dois fotógrafos.

Essa é uma das mais lamentáveis formas de jornalismo: fotógrafos que perseguem celebridades de forma impiedosa, tirando-lhes a privacidade e, se possível, intimidade. O jornalismo tem muitas formas perversas de manifestação, desde a distorção intencional de noticiário, opiniões enviesadas para ludibriar o leitor, até chegar a essa forma de nada recomendável de manifestação.

No caso, o desrespeito a uma criança assume proporções criminais, especialmente pelo fato de que se trata de alguém em fase de formação e cuja exposição de mídia, por si só, precisa ser bem monitorada pelos pais, a fim de que um muito compreensível deslumbre com a fama não venha a ter consequâncias desastrosas.

Paparazzi são pessoas que se voltam para o chamado jornalismo de faits divers, cuja essência são a banalidade e a frivolidade. Tudo o que alguém famoso faça e que puder ser captado pelas lentes se transforma em notícia, mesmo que não tenha importância alguma que não seja a exposição mesma de pessoa célebre. Chega à esfera criminal e como tal deve ser tratada.

domingo, 19 de abril de 2009

Um xerife na política
Emanoel Barreto

O delegado Protógenes Queiroz, que dirigiu a Operação Satiagraha, agora que está sob fogo nutrido, e buscam transformá-lo de investigador a investigado, admitiu que pode ser candidato. Só não disse a que cargo nem por qual partido. A Operação Satiagraha investiga o banqueiro Daniel Dantas por fraudes e outros atentados aos dinheiros públicos, além de tentativa de corrupção de investigadores da PF, a fim de que não o indiciassem.



Não é pouca coisa e as elites sabem que não é. Portanto, estão mobilizadas para a desestruturação moral e profissional de Protógenes. Segundo tem dito às coisas de jornal em todo o Brasil, estaria sendo chamado pela opinião pública a ingressar na política e, em pronunciamentos públicos, é chamado de "o delegado do povo".



Somente há uma coisa de que não gosto: a transformação de alguém em herói de ocasião, que passa a ser tido e havido como a essência da honradez e capaz de mudar tudo no ensombrado e viscoso mundo do Congresso Nacional. Nada mais reducionista. De qualquer forma, Protógenes parece ser um policial correto. Vamos ver no que vai dar.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Pensam que somos burros
Emanoel Barreto

Uma definição de notícia diz que notícia é tudo o que o jornalista queira que seja notícia. Ou seja: dotado do poder de publicar o que queira, basta selecionar um fato, um fato qualquer, mesmo o mais desimportante, que é possível elevá-lo a essa condição. A Folha on line terminou por confirmar isso: publicou essa foto, de ocorrência incidental, creio que no Afeganistão ou coisa que o valha, e mandou para a grande rede.

Não há dúvida de que, em sua essência, essa ou é uma confissão de total incompetência ou uma manifestação de idiotice. Outro aspecto, esse grave, que revela como as agências internacionais podem manipular o sentido do que seja notícia. A foto foi enviada por uma agência.

Do mesmo modo como essa briga de jumentos foi elevada à condição de notícia, e foi acriticamente aceita, é possível mandar informações deturpadas a respeito de determinado acontecimento importante, angulando-se a sua cobertura sob determinado enfoque. E o público, sem condições de avaliar o fato, saber de outras informações, termina por aceitá-lo como verdadeiro. Leia jornais, mas aprenda a ter comportamento que não seja ingênuo. Senão, vão pensar que o público é mesmo burro.

quinta-feira, 16 de abril de 2009


Os perversos, sempre eles
Emanoel Barreto

A Folha informa: O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quinta-feira que o cálculo do rendimento da poupança precisa e vai mudar, mas ponderou que o assunto será discutido "com carinho" para que os poupadores que têm seu dinheiro aplicado na modalidade não saiam prejudicados.
"Vou ter uma conversa com o ministro Guido [Mantega, da Fazenda] e vamos discutir sobre isso com carinho. Precisamos proteger os poupadores, mas não podemos permitir que pessoas que tenham muito dinheiro apliquem tudo na poupança", disse Lula durante solenidade de apresentação dos novos oficiais generais, em Brasília.
"A poupança é para salvaguardar os interesses da maioria da população que não tem muito dinheiro. Para que eles não tenham prejuízo, vamos fazer isso [mudança] com muito cuidado porque queremos preservar o que temos de mais sagrado, que são os poupadores", completou.

.... Em outras palavras, o pequeno poupador vai ser prejudicado - mais uma vez prejudicado - por causa da ganância, da fome financeira das elites. Uma iniciativa como a caderneta de poupança, única modalidade acessível ao investimento do trabalhador, uma forma de proteger seu limitado patrimônio financeiro, "precisa e deve", como disse Lula, ser modificada, exatamente em função dos que têm muito dinheiro.

Revela-se mais uma vez a cara perversa do capital, sua incompatibilidade com o social, seu desprezo pelo que seja humanidade. De sua ação ruinosa resultam malefícios os mais brutais, cujas repercussões mais sinistras se espalham a chegam aos arrabaldes mais distantes da pobreza, do desamparo, da solidão social que encobre a vida dos despossuídos.

É triste, mas é verdade: o pobre vai ficar mais pobre. E os ricos, não tenha dúvida, encontrarão mais formas de ficar mais ricos.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

12.out.2007/Marlene Bergamo/Folha Imagem
Que político é esse?
Emanoel Barreto


A Folha registra: Adriane Galisteu disse que achou "o fim do mundo" saber que seu ex-namorado, o deputado Fábio Faria (PMN-RN), havia usado verba da Câmara dos Deputados para comprar passagens aéreas para ela, sua mãe e um amigo.
"Pago meus impostos, e muito caro, e agora vejo meu nome envolvido nisso!", disse Galisteu.

.... O episódio é bem uma demonstração da mentalidade e, especialmente, do tipo de gente que se elege. Sim, se elege. Não são eleitos, fazem-se eleger por força do poderio econômico, manipulando a pobreza e ignorância semeadas socialmente. Temos uma sociedade civil frágil, poucos grupos se mobilizam e o resultado é esse: estamos pagando passagens para Adriane Galisteu.

Sinceramente: você acha que esse deputado representa algum interesse social? Tem seriedade, disposição, conteúdo ético, noção pelo menos do que seja um cargo público como o que ocupa? Pobre Brasil, pobre Rio Grande do Norte. E olhe que ele é "Faria". Já pensou no que poderia aprontar se fosse Fábio Faz? Aí sim, faria e aconteceria mesmo.

terça-feira, 14 de abril de 2009

24 horas
Emanoel Barreto

O agente Jack Bauer, da série 24 Horas, rides again. Na nova temporada enfrenta os costumeiros inimigos do mundo, vale dizer dos Estados Unidos. O conteúdo ético da série, as razões do agir do personagem, são profundamente questionáveis, mas numa coisa é perfeita: tecnicamente é irrepreensível. Sua atmosfera, o desenvolver da trama, os enquadramentos e movimentos de câmera não deixam o telespectador desviar a atenção da tela.

Vejo desde 2001, quando começou. Tudo é vertiginoso. Tudo sempre se passa em torno do Poder. Seja o poder do Estado americano ameaçado pelos terroristas, seja o poder de Bauer, sua violência e crueldade contra seus inimigos. De alguma forma percebe-se como age a máquina decisória suprema, suas claudicações, decisões imperativas e demonstrações de força, conchavos e conveniências políticas.

Acho que vale acompanhar. A Globo exibia a série. Agora, podemos vê-la na Fox.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Que se tornem todos santos
Emanoel Barreto

Deu no Estadão: O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reconheceu nesta segunda-feira, 13, a ocorrência de disputas entre o Executivo, o Congresso e o Judiciário. Segundo Lula, essas divergências são normais, pois fazem parte do processo de consolidação da democracia do País. "Ninguém aqui é freira e nós não estamos em um convento", afirmou o presidente durante cerimônia de lançamento do 2º Pacto Republicano de Estado. "E não me consta na história que num convento também não tem briga", acrescentou, arrancando risadas da plateia.



.... Oremos: talvez fosse melhor que estivéssemos todos num convento, absortos na mais pia meditação e movidos por sacros sentimentos. Os políticos todos de batina, circunspectos, genuflexos, humildes. Deixando de pensar em tramoias, jogos de poder, acertos e empreiteiras.

Como seria bom: todos movidos pelos mais altos sentimentos cristãos, não fariam discursos vazios, escorregadios. Mas orariam pelo bem-comum e talvez até mesmo um deles fosse eleito Papa. Já pensou Sarney I? Ou Maluf I?

Senhor, abrandai o coração daqueles vendilhões do templo. E dai ao povo o que tem ficado com os césares da política. Oremos. Oremos muito.

sexta-feira, 10 de abril de 2009


O Cordeiro de Deus e os pecados do mundo
Emanoel Barreto

Cordeiro de Deus, tireis os pecados do mundo: fome, desemprego, exploração do trabalhador, sem-teto, sem-terra, sem-nada, guerras, corrupção, infância desamparada, meninos de rua, tráfico de drogas, tráfico de armas, lágrimas, tortura, medo e dor.

Cordeiro de Deus: que Vossos sofrimentos venham a tocar o coração do homem e que este aprenda a Vos amar.

Cordeiro de Deus: perdão, mas Estavas enganado: eles sabem o que fazem.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Ficha de Dilma Rouseff nos porões da Oban (Operação Bandeirantes), desencadeada para prender "subversivos"

Os verdadeiros criminosos

Emanoel Barreto

Recente entrevista da Folha de S. Paulo com a ministra Dilma Rousseff buscou, em seu passado de guerrilheira, argumentos para apresentá-la jornalisticamente como "criminosa". Passados tantos anos, soa estranho, muito estranho. Não concordo com os métodos da guerrilha. A democracia deve ser conquistada em praça pública, na resistência tática e persistente frente a modelos autoritários, passo a passo.

Mas agora, quando seu nome desponta como provável candidata à presidência da República na eleição de 2010, reavivar tais lembranças é ato político que busca desmoralizar historicamente alguém que, de qualquer forma, agia pensando em ver no país uma outra realidade social, diversa da opressão econômico-militar vigente na ditadura de 64.

A Folha é adepta da candidatura do governador de São Paulo, José Serra. Assim, sob a empanada de estar praticando jornalismo, na verdade age como partido politico que visa atingir, e anular, a presença política de uma adversária.

Quem leu a entrevista percebe que ali não se passava um ato jornalístico de indagação esclarecedora. Perpetrava-se na verdade um interrogatório, cuja finalidade era, mediante proposição de perguntas capciosas, dela obter respostas que a incriminassem, como se fora criminosa comum, não militante política que praticava essa mesma política por meios de contencioso armado.

Por mais equivocados que fossem os métodos, é bastante suspeito que somente agora, às antevésperas de uma eleição, estes sejam relembrados. Detalhe: a entrevista não buscou resgatar as torturas e humilhações que ela sofreu. Voltou-se inteiramente para configurá-la como uma espécie de Joana d'Arc do mal, sectária e violenta.

Na contraface da moeda, entretanto, ela poderia relatar as brutalidades que sofreu como mulher e como ser humano. E aí, certamente, apareceriam os verdadeiros crimonsos.

terça-feira, 7 de abril de 2009


Nasceu Murilo, meu segundo Neto
Emanoel Barreto

Nasceu há pouco menos de uma hora* Murilo, meu segundo neto.
Que seja forte para viver o mundo que o nosso tempo nos legou.
Que seja belo para poder brilhar em meio à beleza imensa dos dias e das noites.

Que tenha coragem para desafiar as batalhas que vierem.
Que seja bom, para dar aos pais, Mirna e Edgar, a alegria terna que brota de todos os azuis.

Que seja travesso, peralta, corredor e inventivo, para brincar com Eduarda, a irmã que desenha estrelas todos os dias para esse avô.

E que nos dê a todos o seu olhar de inocência, e nos traga luz e paz.
Um grande abraço, meu pequeno menino. Vovô já o espera para grandes cavalgadas.
(Refiro às dez horas da noite do dia 7 de abril).

segunda-feira, 6 de abril de 2009

O Bicho
Deixo você com Manuel Bandeira. Um grito pasmo.
Emanoel Barreto


Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

sábado, 4 de abril de 2009


Os terrores noturnos e a flecha que voa de dia

Emanoel Barreto

A morte do jornalista e ex-deputado federal Márcio Moreira Alves, uma das figuras icônicas da minha geração, a geração de 1968, transforma aos poucos a história ainda viva em seus personagens em lembrança. Quer dizer: história será sempre história; para mim é que é lembrança, vira saudade.

Pessoas e seus gestos largos de coragem começam a desaparecer. Logo para nós, uma geração que não acreditava em ninguém que tivesse mais de trinta anos. Estávamos todos liberados para viver a eterna juventude. Tolos e sublimes, como éramos.

Ainda me lembro das passeatas de 68, maio de 68. Um movimento que começou em Paris sob a liderança de um jovem, Daniel Cohen Bendit, Danny o Vermelho, espalhou-se pela Europa, ganhou os campi norte-americanos e explodiu como uma bomba de girassóis insurretos na América do Sul, Brasil. Natal, por consequência.

O lema: "Seja realista; peça o impossível." De alguma forma continuo pensando assim. O impossível será sempre a minha meta. Mesmo caminhando entre os terrores noturnos e sob as flechas que voam de dia.

(Na foto, Márcio faz seu tremendo discurso, em que conclama as mães a não deixar que seus filhos fossem assistir ao desfile de 7 de Setembro, lembrando que os militares que então desfilariam eram os mesmos que prendiam aqueles meninos e meninas e davam sustentação à ditadura).

sexta-feira, 3 de abril de 2009


Desejo de matar
Emanoel Barreto

Escorado por um desespero sem fim, um homem invadiu um prédio nos Estados Unidos e matou 13 pessoas. Está na net, nas coisas de jornal de todo o mundo. Não conheço qualquer estudo a respeito do motivo ou motivos para tais atos. Mas, qualquer pessoa medianamente informada, sabe que nos EUA tais comportamentos são uma espécie de recidiva social: algo doentio que, num ciclo de sazonalidade instável, acontece naquele país. E aparentemente só naquele país.

O que faz alguém, municiado por um incontrolável desejo de matar, atirar-se a essa aventura insana que termina com o agressor também morto, muitas vezes por suicídio? Estranho mundo esse nosso, estranho país aquele. Suponho que haja estudos sociológicos buscando esclarecer tais acontecimentos. Enquanto isso, fico supondo: é parte da condição humana chamar a atenção para si quando em estado de angústia. No caso, esse desespero é como se fora um grito, a denúncia desequilibrada de uma solidão intensa, tão intensa que precisa da morte, do vazio, do nada, para se completar. E, aí sim, ser solidão em estado puro.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Foto: Miguel Claro
Silêncios, sombras
Emanoel Barreto

Sombras solúveis irrompem lentamente
e se misturam plenas em si mesmas.

Em silêncio nós somos liquefeitos
e seguimos os passos do não-vir.

terça-feira, 31 de março de 2009

Ouvirus do Ipiranga às margens plácidas...
Emanoel Barreto
Não vamos falar do 31 de março. Não vale a pena. O espírito do mal que foi feito está vagando na treva amarga do ostracismo da História. Hoje, mais a vale a pena falar da ameaça que, dizem as coisas de net, está por desabar amanhã, Dia da Mentira. Um vírus que deverá ter sua força maliciosa exponencialmente aumentada, podendo atacar milhões de computadores em todo o mundo.

O mal de 1964 e o mal dos vírus de computadores têm algo em comum: a malignidade humana em suas manifestações mais nefastas. O primeiro no negror do medo do comunismo, o outro na resplendente tela do computador. No fundo, ambos vindos do mesmo vértice: a necessidade de poder imtimidar e de alguma forma dominar.

Então, cuidado com amanhã, para que a ditadura do vírus não pegue seu computador, como fizeram com nosso povo em primeiro de abril de 64.
PS: Terminei falando em 64. Mil perdões.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Dona da Daslu: poderosa, heim?
Emanoel Barreto

A Folha conta: A condenação de quase cem anos de prisão imposta a Eliana Tranchesi, dona da Daslu, e a seu irmão Antônio Carlos Piva de Albuquerque é um fato isolado ou pode ser o início de uma tendência da Justiça para punir quem é acusado de fugir do pagamento de tributos? Para advogados criminalistas, tributaristas e ex-dirigentes da Receita Federal, a pena determinada para Tranchesi e seu irmão - os dois conseguiram liminares da Justiça e já estão em liberdade - representa decisão isolada de uma juíza (Maria Isabel do Prado, da 2ª Vara Federal em Guarulhos) e não deve ser exemplo para outras sentenças que envolvam crimes de sonegação fiscal.

Detalhe: Para o ex-secretário da Receita Federal e consultor tributário Everardo Maciel, a sentença dada à dona da Daslu é "completamente desproporcional". "Não conheço o caso específico, mas sinto que existe uma espécie de má vontade e indisposição contra pessoas que têm boa situação financeira. A condição financeira não deve ser critério para proteger, muito menos para perseguir."

... A sra. Eliana Tranchesi e seu irmão são criminosos. Se foram condenados, são criminosos. E criminosos de alta periculosidade. São detentores de periculosidade social. O que quero dizer com isto? Simples: fazem um mal coletivo. Sonegam impostos, quer dizer, roubam dinheiro que deveria ser encaminhado aos cofres públicos, por conseguinte, dinheiro público, para uso a favor do público.

Com isso, configuram-se como indivíduos de periculosidade. Cavilosos, juristas entrevistados pela Folha minimizam a ação dos dois, alegando que não houve crime de sangue. Manipulam o repúdio histórico e ancestral ao provavelmente mais antigo delito do mundo: o homicídio. Com como não mataram, mas "apenas" se apoderaram de dinheiro público praticando, digamos assim, crimes delicados acham que não devem ser punidos. Maria Antonieta também, pensava assim, não? Perdeu a cabeça.

Detalhe Final: os dois irmãos já estão livres. Ganharam liminar e podem voltar às suas atividades.

quarta-feira, 25 de março de 2009

A "compaixão" de Pedro Bial
Emanoel Barreto

O jornalista e apresentador do BBB, Pedro Bial, disse "sentir compaixão" pelos participantes do programa, que explora a necessidade humana de busca do sucesso e dinheiro fácil, expondo suas vítimas a situações vexatórias.

Bial fala com a autoridade de quem participa da trama e manipula os BBBs. Certamente ninguém melhor que ele para sentir "compaixão", uma vez que integra o núcleo dos que levam aquelas pessoas a se expor em toda a sua fragilidade, indignidade, cupidez e degradação de valores.

O BBB é uma produção de mídia que pode ser vista sob diversos enquadramentos: sociológico, psicanalítico, político, filosófico, moral, etc... etc...etc...
É uma espécie de supra-sumo, cúmulo do quanto o ser humano pode ter despertados seus instintos mais baixos a troco de alguma forma de poder, de alguma forma de escapar do sofrimento. Ter dinheiro é uma delas.

A partir disso o programa foi formulado e ganhou adesão de mídia mundial, sendo apresentado em vários países. Quem o criou está milionário. Trata-se de um espetáculo lamentável, que imbeciliza a audiência e transforma idiotices em assunto cotidiano.
É uma forma de estupidificar as pessoas, que por momentos esquecem os problemas do mundo real e se ligam a um mundo fictício, onde os seus dilemas, vividos nesse mundo real, encontram-se representados de forma reducionista na performance dos BBBs.

A brutalidade da exploração das pessoas por um sistema social e econômico cruel ganha contornos embaçados na luta dos BBBs para alcançar o milhão a ser entregue ao vencedor. Não é assim também na vida? Não é assim, mês a mês, que o trabalhador se esforça, para afinal receber o salário? Não é um truque baixo a má divisão de renda? Pois se assim é, o que acontece no maior repete-se no menor.

No mundo da vida há a exploração da mão-de-obra. No BBB, há a exploração da condição humana. No fim, é tudo a mesma coisa.

terça-feira, 24 de março de 2009


A História do Brasil revista e ampliada (3)
Emanoel Barreto

A construção de Brasília não foi feita por Juscelino Kubitschek. Na verdade, foi um ator da Globo, na minissérie JK, quem levou a empreitada adiante. O objetivo era manter a audiência da emissora bem alta e enfrentar o crescimento da Record. Com a construção de Brasília deu-se andamento ao processo político, chegando à presidência Jânio Quadros. Mas, como a minissérie acabou, Jânio, que não havia conseguido emprego na Globo, entrou em pânico. Como iria continuar administrando se o programa havia acabado? Esse o motivo de sua renúncia.

Depois, veio o golpe de 64. Quando os militares assumiram o poder começou a construção da Transamazônica, uma estrada que, diziam os entendidos, levaria todo o povo ao Paraíso. Quando ficasse pronta todos poderiam chegar ao Céu facilmente, mas a pé. De carro não valia. O problema era que era muito difícil fazer uma estrada até o Céu, que fica muito alto. A Transamazônica ia virar uma ladeira extremamente inclinada.

Então, como estava já muito caro continuar com as obras, o projeto foi esquecido. Depois, os militares viram que esse negócio de administrar o Brasil é coisa de muita ciência e deixaram os civis voltar ao comando. Com isso voltou a democracia. Que, como se sabe, é o governo dos demos. E como os demos não gostam muito de trabalho, chamaram o Congresso. O Congresso também não gosta lá muito de trabalho. Assim, Brasília tornou-se infestada de mandriões que, entre um bocejo e outro, vão dormir. Isso quando não estão em tenebrosas transações.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Alma minha, gentil...
Emanoel Barreto

Alma minha, gentil, não vês que já há choro e ranger de dentes
e ainda nem chegou o Apocalipse?

Alma minha, gentil, não sabes dos dramas e pesares
que pesam sobre o mundo?
Alma minha, gentil, por que te calas?

Alma minha, gentil, será que és gentio?

sábado, 21 de março de 2009


A História do Brasil revista e ampliada (2)
Emanoel Barreto

Ao contrário do que dizem os livros escolares, quem proclamou a independência do Brasil não foi Dom Pedro I. A independência foi proclamada por Tarcísio Meira, em aclamado filme produzido durante a ditadura. O filme tinha por objetivo contar a vida e a obra de Dom Pedro, mas Tarcísio Meira, que pretendia uma vaga de senador biônico, aproveitou a oportunidade e praticou um ato heróico: deu-nos a independência e tomou o lugar de Dom Pedro. Esperto, não? Assim nos tornamos independentes.

Meira foi desafortunado. Não conseguiu sua pretendida vaga de senador biônico. Pegou um táxi e foi À Rede Globo pedir emprego. Conseguiu. Afinal, era de boa política para a Globo ter a seu serviço o campeão da Independência. E Tarcísio ficou. Ganhou muito dinheiro. Tempos depois ele participou da minissérie "A muralha".

Ali, ao longe, via-se uma massa escura. Todos pensavam que fosse uma muralha. Daí o nome da minissérie. Tarcísio liderou uma expedição para desvendar o mistério e, de olhos arregalados, descobriu: era São Paulo, já naquele tempo poluída. Assim São Paulo passou a ser do Brasil. Antes, era do Paraguai, motivo da Guerra do Paraguai.

........No próximo capítulo trataremos da fundação de Brasília.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Índio não quer apito
Emanoel Barreto

Com a demarcação contínua da reserva Raposa Serra do Sol, os índios, os verdadeiros donos do que hoje chamamos de Brasil, obtêm vitória histórica. Povos indígenas oprimidos, chacinados, contaminados pelos nossos piores vícios e indignidades foram, ao longo do tempo, perdendo identidade, cultura e terras. Especialmente terras, que são o que interessa aos poderosos.

Agora, de alguma forma isso se repõe e os indígenas, organicamente encaixados na sociedade branca, conseguem funcionar como sociedade civil e readquirem um patrimônio que sempre fora seu, embora conspurcado.

Há vozes discordantes, vozes que defendem o "progresso", o "desenvolvimento", ou seja: o uso da selva como região de plantio ou o que seja, qualquer coisa, desde que dê lucro. Diz-se que é terra demais para os índios. Mas esquecem o que foi feito com esses povos e o que a nossa sociedade fez com a chão da terra chamada Brasil.

quinta-feira, 19 de março de 2009

E no Senado, os senadores senam...
Emanoel Barreto

As coisas de jornal da Folha informam: 1) Senado "descobre" ter mais de 2 diretores para cada senador.

2) Nos últimos oito anos, número de cargos de direção na Casa saltou de 32 para 181.

3) Congressistas se disseram surpresos, mas criação de diretorias, algumas com só uma pessoa, foi aprovada por votação em plenário.

.......... Perplexidades filosóficas: a criação desses cargos significa que os senadores estão senando? Mas como senam, se não acenam com o lenço branco da verdade, mas se assentam sem assear-se de mãos que não se lavam? Não sei, não sei, não sei. Só sei que dessas mãos respingam gotas de um orvalho de imoralidade. E isso não se lava. Se leva e se esconde. Os senadores senam e essa cena querem manter no limbo. Escuro. Muito escuro.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Se não tem pão, coma brioche
Emanoel Barreto

Com as mudanças no mercado de capitais, a insegurança, como dizem "eles", os bancos agora estão querendo tirar muito de quem já tem pouco: agora "eles" estão querendo que o governo autorize a redução na renda das cadernetas de poupança, a fim de beneficiar quem?, quem?, quem? "Eles", naturalmente.

Os mecanismos de poder, as diversas formas de homens ou grupos de homens determinarem o que os demais devem ou podem fazer, são muitos. Um destes mecanismos é a posse, a propriedade e o controle do dinheiro.

E os bancos, agora, intentam mais uma manobra, a incidir diretamente sobre o pequeno poupador, aquele que não tem informações nem disponibilidade financeira para investir em fundos ou ações.

A redução no rendimento da poupança, que já baixo, corre o risco de cair ainda mais. "Eles" não querem e sequer cogitam de abrir mão de seus polpudos lucros, lucros advindos da usura social que desaba sobre os mais fracos. É histórico: sempre que as elites perdem, se é que perdem, mesmo que seja só um pouquinho, tratam de aumentar o fardo dos que trabalham para sustentar a sua inércia.

Não é justo. Mas é o que está posto. E se o povo não tem pão, como dizia a rainha Antonieta, que coma brioche.

terça-feira, 17 de março de 2009

Ele é um bom companheiro
Emanoel Barreto
Deu na Folha: O presidente dos EUA, Barack Obama, disse que o pagamento pela seguradora AIG de bônus de US$ 165 milhões aos seus funcionários é um "ultraje ao contribuinte americano" e afirmou que o governo fará de tudo para reverter a decisão. "Essa não é apenas uma questão de dinheiro, é sobre valores fundamentais.""Por todo o país, existem pessoas que trabalham duro e cumprem suas responsabilidades todos os dias, sem o benefício de resgates governamentais ou bônus multimilionários. E tudo o que eles pedem é que todo mundo, desde "Main Street" (rua principal, uma referência à economia real) até Wall Street e Washington, jogue com as mesmas regras. Essa é uma ética que nós temos que exigir."

.......Os gerentes, criadores e usufrutuários da crise, agora querem um home care para sair do choque. Procupadíssimos com sua aflitiva situação, não se cansam de encontrar novos meios para locupletar suas vontades de dinheiro, mais dinheiro.

As elites que geraram a atual situação encontram-se em plano privilegiado: após arrombar o cofre social, querem que desse mesmo cofre saia sua própria solução. Trata-se de um processo perverso em que a vítima, o mundo todo, é obrigada a ressarcir de uma de forma os seus algozes.

As economias cambaleiam, gente perde emprego em todo o mundo, mas os responsáveis exigem dinheiro, bônus cruel para atender a seus instintos. Oremos.

segunda-feira, 16 de março de 2009

A voz que então falava
Emanoel Barreto

É terror, é medo, é desespero?
É, é tudo isso e ainda desamparo.
Na boca presa o coração estala.
Na alma tensa o sol já se apagou.
Depois, vem mais um dia.
E quando o dia acaba a voz que falava é silêncio, cicio, noite mortiça, neblinas, negror.

sábado, 14 de março de 2009

O homem que semeava escuridão
Emanoel Barreto

Um dia conheci um homem que plantava escuridão.
Por onde andava, tudo virava noite.
Mas não se dormia, porque ele havia semeado insônia.


Anos depois reencontrei o homem e gritei na treva densa: "Onde estás?"
Ele respondeu: "Não sei. Eu mesmo me perdi."

Depois, encontrei A Mulher que desenhava luas.
Ela deu-me um pequeno grão de luz e me tirou de lá.


quinta-feira, 12 de março de 2009

terça-feira, 10 de março de 2009

O teu futuro espelha essa grandeza
Emanoel Barreto

Deu na Folha: O Senado pagou pelo menos R$ 6,2 milhões em horas extras para 3.883 funcionários em janeiro, mês em que a Casa estava em recesso e quando não houve sessões, reuniões e nenhuma atividade parlamentar.

Trata-se, como se vê, de uma farra, uma festança com o dinheiro público. Em outras palavras, corrupção, desvio do que seria a atividade congressual, que passa a ser provedora de fundos para um magote de funcionários que, no período em questão, não estavam "funcionando".

Isso me lembra uma seita medieval, cujos pressupostos diziam que o ser humano nasce com uma determinada quantidade de pecados; para perder essa carga a solução era muito simples: pecar, pecar bastante, até que o último, o mais mínimo, o mais minúsculo e maneiro pecadilho tivesse sido, digamos assim, retirado do da alma, do corpo espiritual. Aí sim, o pecador estaria enxuto de culpas e poderia dedicar-se a uma vida beatífica e pia. Faz sentido...

Acho que é isso o que se passa na vida pública desse país: os pecadores estão expurgando os pecados pelo ato mesmo de pecar. Então, sem críticas a eles: são todos pessoas bem intencionadas. No fundo, tudo gente que quer, pelo pecado, chegar à condição de santo e fazer tudo pelo bem estar do próximo. Só que, antes, querem bater a carteira do próximo. E a santidade, bom, a santidade fica para a próxima vez.

segunda-feira, 9 de março de 2009


Armagedon
Emanoel Barreto

Ele tornou-se mestre no xadrez do silêncio.
E aprendeu a descobrir entranhas.
Ela tornou-se sábia no olhar de nuvens.
E virou profetiza de nevoeiros e sombras.

E no tempo do mundo uma era fabulosa de gritos de terror
aclamou as mais terríveis máquinas da morte.
Depois, explosões e peste, tremores e fim.
Mas os dois seguiram longe.
O mundo ficara para depois.

domingo, 8 de março de 2009

A Mulher
Emanoel Barreto

A Mulher traz nas mãos a luz para após o entardecer.Ela preparou o pão, olha o horizonte e sabe que dali brotará tempestade. Tudo está vermelho, aceso de perigo. E o perigo virá.

Mas A Mulher anteviu tudo, sabe dos ventos de tempestade e deixa a nossa tenda pronta. E então, quando nascem os dramas do mundo, estamos sós e plenos. E a tenda flutua acima de aquilo tudo.

Pela manhã, A Mulher reluz com o sol e diz que, sim, ela é um raio de estrela. E acende nos meus olhos a doce imagem de navegar nossos sonhos.


.........


Walter Medeiros manda sua homenagem à mulher.

Uma homenagem a Lois
--- Walter Medeiros* - walterm.nat@terra.com.br


O Dia Internacional da Mulher – 8 de Março - tem sido uma data marcante, pelas manifestações, pela luta, pelas homenagens, pelas reflexões e pelo registro que é feito nos mais diversos meios, pelo mundo inteiro. Além da lembrança da origem da data – o massacre das operárias em 1857 – sempre são referidas mulheres de todos os lugares e todos os tempos que fizeram ou fazem da sua vida um exemplo a ser seguido por toda a humanidade.


Nesse 8 de Março de 2009 quero trazer para os leitores alguns dados da vida de uma mulher que teve um papel importante e de alcance inestimável, cuja atuação mudou o rumo de muitas vidas, contribuindo para a harmonia de milhões de lares. Uma mulher cujo trabalho resultou da experiência adquirida com o seu próprio sofrimento e que apesar de todos os problemas que enfrentou nunca desistiu e conseguiu implantar uma instituição que certamente vem mudando o mundo.


Ela teve origem numa família estruturada, equilibrada, onde tinha um irmão, foi educada com amor, recebeu lições de união, perdão, paz; a mãe, do lar, o pai médico ginecologista e cirurgião. Mas seu casamento foi algo de convivência difícil, ao que somaram-se três gravidezes tubárias, insanidades, discussões, intolerâncias, resultado do alcoolismo do seu marido, a quem chegou até a dizer, certa vez: “Você não tem sequer a decência de morrer...”. Foram 17 anos de convivência e sofrimentos para ambos, pois no seu alcoolismo seu marido era um doente e a doença causou a destruição das carreiras de ambos.


Depois de todas as Turbulências do Alcoolismo, nasceu a sublime e abençoada associação de Alcoólicos Anônimos, em 1935, pelas mãos de Bill W. e Robert (Bob) Schmidt, com a colaboração, apoio e compreensão daquela mulher. Refiro-me a Lois Wilson, nascida em 04 de março de 1891 e falecida em 06 de outubro de 1988, que fundou, em 1951, os Grupos Familiares Al-Anon, cujo objetivo é ajudar aos familiares de alcoólatras a compreender a doença alcoolismo e conviver com os problemas que a doença acarreta para as famílias dos alcoólatras.


Em recente evento destinado a profissionais, uma representante daquela irmandade explicou que Al-Anon surgiu da mesma ‘necessidade’ de Alcoólicos Anônimos - a necessidade de ‘dialogar’, de uma pessoa entender a outra, delas falarem a mesma linguagem, trocarem as experiências vividas com seus entes queridos doentes, que tanto lutavam para largar a bebida e não conseguiam. As esposas dos alcoólatras descobriram que o estado em que se encontravam era resultado do convívio sob o domínio do álcool, quando familiares e amigos dos alcoólatras se tornavam pessoas também doentes, de uma doença emocional.


A troca de experiências mostrou o caminho a seguir, e dali surgiu o lema da entidade: “Evite o primeiro atrito”. Segundo Al-Anon, ao evitar o primeiro atrito os familiares fazem com que muitos problemas sejam evitados também, pois sempre que existe um confronto com um alcoólatra - embriagado ou não - as conseqüências podem ser drásticas.


Lois é considerada uma heroína, pelo trabalho realizado com a sua amiga Anne, mulher do Dr. Bob. Elas continuam servindo de exemplo para mulheres de mais de 130 países onde funcionam grupos daquela irmandade. O Estado de Nova Iorque e mais de dez organizações dos Estados Unidos saúdam Lois como uma das Mulheres mais importantes do Século XX. Ela foi homenageada com o Prêmio Humanitário do Conselho Nacional sobre Alcoolismo dos Estados Unidos.


Com este pequeno relato espero que as mulheres e os homens do mundo inteiro mantenham viva a lembrança daquela valente mulher, que conseguiu empreender uma luta pacificadora, não contra a bebida alcoólica, mas a favor das famílias de pessoas que não podem beber controladamente, por serem portadores da doença alcoolismo.
*Jornalista – Natal/RN

sábado, 7 de março de 2009

O crime do arcebispo
Emanoel Barreto

A Igreja revelou sua face mais reacionária e trevosa no caso da menina de nove anos estuprada pelo padastro. Grávida, a criança precisou passar pelo abortamento. O arcebispo de Olinda e Recife, d. José Cardoso Sobrinho, como nos tempos da Santa Inquisição excomungou a mãe da menina que autorizou e os médicos que fizeram o aborto. Naqueles tempos, ele os teria condenado à fogueira.

Tacanho, mesquinho, moralmente velhado, o minúsculo cérebro do sacerdote não se comoveu com o drama da criança: uma menina que deveria estar brincando de boneca, pela visão demencial do arcebispo, deveria ser obrigada a cumprir com todo o trajeto da gravidez, para a qual seu corpo infantil não estava preparado.

Alegou que o abortamento é pecado pior que o do estupramento.

Nada entendo da graduação dos pecados. Qual a lógica que determina que a brutalização do corpo de uma criança menina seja pecado menor que a salvação desse mesmo corpo, por atitude piedosa, condoída e protetora.

Pobre, miserável arcebispo. Em nome de Deus faz o elogio do estupro; em nome da Vida, quer que uma vida seja mais violada do que já o fora. Lato sensu, sou contra o aborto. Mas, cada caso é um caso. E, com relação à criança menina de Recife, gostaria que a Igreja fosse mais piedosa. Cristo perdoava. E muito. Mas, tenho para mim, não perdoaria o crime do arcebispo.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Peraí, chuva. Se você vier, agora eu chamo
mesmo o Cacique Cobra Coral
Emanoel Barreto

uns dias fiquei ilhado em casa. Postei a foto no blog e falei que pediria ajuda ao Cacique Cobra Coral, se as coisas não se resolvessem. As poderosas chuvas que se abateram sobre Natal transformaram os muros de minha casa em barragem. Detalhe: para conter a enxurrada tenho também duas muretas, já dentro do jardim. Caso contrário...

Agora temos, eu e os vizinhos de Capim Macio, reunião marcada com o secretário da Semov, Demétrio Torres, para que se chegue a uma solução. Da minha parte, venho pedindo apenas o paliativo de retirar-se a areia do leito da rua. Isso seria suficiente para que o grande lago em que se transforma a Industrial João Motta diminuisse.



Em contato telefônico o secretário, como sempre cordial, garantiu-me que sábado, dia da reunião, todo será resolvido. Já tem até umas máquinas trabalhando lá na frente, mas distante da minha casa. E isso seria, segundo ele, indício de que as coisas vão melhorar.

Recomendou-me paciência. Paciência que só precisa durar até sábado, garantiu. Respondi: "Secretário, nós temos, digamos assim, nosso cronograma de obras e reunião. Mas a chuva, secretário, não trabalha segundo o nosso cronograma, o senhor entende?"

Ele respondeu: "Tem razão. A chuva não trabalha segundo o nosso cronograma." E pronto. Agora, é o seguinte: espero que a chuva acate a decisão e não chova. Se não, e se nada for feito, agora sim: vou chamar mesmo o Cacique Cobra Coral.

quarta-feira, 4 de março de 2009

E aí, vai encarar?
Emanoel Barreto

Moleque travesso, tinhoso, peralta.
Saiu da favela disposto a brigar.
Exibe sua força, que é magra e rasteira.
Ele é um brasilzinho de muque raquítico.

Moleque travesso, pertinaz, assanhado.
Tem jogo de perna é bamba na vida.
De becos escuros, briga com a fome.
Ele é um brasilzinho. Que dó que ele .

terça-feira, 3 de março de 2009


Agaciel, o dono da mansão própria
Emanoel Barreto

O sonho do brasileiro se divide em dois: ter seu próprio negócio e ter a casa própria. O diretor-geral do Senado, Agaciel Maia, foi mais além: não tem negócio próprio, mas tem mansão própria, só que escondidinha em nome do irmão, o deputado João Maia. Agaciel perdeu o cargo, mas continua funcionário do Senado.

É assim na Terra Brasilis: o poder assegura o próprio poder: o poder de permanecer, o poder de dispor de fortunas, o escárnio com aquele pobre que sofre nas filas dos postos de saúde e amarga o dinheiro curto, pouco demais para um mês tão grande.

As elites são um sistema altamente sofisticado, que se re-produz e cria suas próprias instâncias de sobrevivência, assegurando a seus integrantes que, mesmo punidos, essa punição não doa muito. É como injeção: dói, mas passa logo.

domingo, 1 de março de 2009

É a corrupa meu irmão, é a corrupa...
Emanoel Barreto

As coisas de jornal da Folha informam neste domingo: Agaciel Maia, o vice-rei do Senado, o homem que autoriza despesas de até 80 mil sem necessidade de aprovação da Mesa, teve descoberto um segredo que mantinha a sete chaves em seu cofre de Ali-Babá: é dono de uma mansão que vale cinco milhões.

Como quando comprou a casa estava com os bens indisponíveis, usou o cérebro e, claro, fez de conta que ela não era sua. Assim, o imóvel foi estrategicamente colocado no nome do deputado João Maia, seu irmão e candidato ao governo do Rio Grande do Norte.

Diz a Folha: "A indisponibilidade dos bens de Agaciel foi decretada pela Justiça na esteira do escândalo da gráfica, em 1994.

Naquele ano, o então senador Humberto Lucena (PMDB-PB) teve sua candidatura à reeleição cassada pela Justiça Eleitoral por uso ilegal da gráfica para impressão de material de campanha. Também enfrentaram representação na Justiça Eleitoral, acusados da mesma prática, os políticos pelo então PFL maranhense Roseana Sarney (deputada e candidata vencedora a governadora) e os postulantes ao Senado Alexandre Costa e o hoje ministro de Minas e Energia, Edison Lobão.

Eles tiveram cadernos escolares com propaganda eleitoral impressos na gráfica encomendados por Costa, candidato à reeleição. Suas candidaturas, contudo, não foram cassadas."

É isso: é a corrupa meu irmão; é a corrupa. É a corrupa como marca forte e tempero picante da vida política. Como pode um homem que tem bens bloqueados pela Justiça assumir posto vital no Senado? Permanecerá no cargo após esse flagrante? E o deputado João Maia: a imprensa daqui vai questioná-lo eticamente? Deveria ter atendido aos apetites ecônomicos do irmão, assumindo a mansão como se fosse sua? Tinha ou não tinha consciência de que estava praticando algo moralmente pegajoso, sujo, repulsivo?

E de onde saiu tanto dinheiro para a compra dessa casa?

As respostas virão com o tempo. E creio que serão ambos perdoados. É a corrupa, meu irmão; é a corrupa...

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Tsvangirayi Mukwazhi/AP
A cara feia do poder sem limites
Emanoel Barreto

Robert Mugabe, ditador-presidente do Zimbábue, comemora seus 85 anos. A expressão da face é o retrato do íntimo. Não concordo com a afirmação de que uma imagem diz mais que mil palavras, mas, neste caso, sim. A manifestação corporal como um todo traz, da sua mais íntima e deplorável essência, a figura moral que lá habita e a apresenta em toda a sua perversidade.

Explorador histórico do seu povo, gestor de prebendas e corrupção, sinecurista do poder, ávido de muita fome por dinheiro e espoliação, de há muito ele é a encarnação, sem dúvida, do que há de mais baixo no político.

A África sofre com o abandono, a miséria e o desrespeito aos direitos humanos. O Ocidente a esqueceu depois de dela tirar muito. E homens como aquele somente asseguram que tal estado de coisas vai perdurar.