sábado, 31 de maio de 2008

O corcel negro, a morte e o amor

Caros Amigos,
Deixo vocês com Antero de Quental.
Nada comento,
pois em não dizendo,
muito se diz nos traços do poema.
Emanoel Barreto

Mors-amor
Esse negro corcel, cujas passadas

Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,

Donde vem ele?
Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável mas plácido no porte,
Vestido de armadura reluzente,
Cavalga a fera estranha sem temor:


E o corcel negro diz «Eu sou a morte»,
Responde o cavaleiro: «Eu sou o Amor».

sexta-feira, 30 de maio de 2008

A beleza bruta e forte dos índios reage ao homem branco

Caros Amigos,
A tribo indígena encontrada em sobrevôo da Funai no Acre, alegrou-me de alguma maneira. São eles, os primitivos, os atrasados, arcaicos e ágrafos, aistóricos e de tecnologia elementar, quase nus e agresivos, que representam o futuro da humanidade, quem sabe. Eles são seres humanos em estado natural: vivem intensamente a e com a natureza; não a defraudam, não a insultam com a sua presença. Antes, estão imersos nela.

Querem a natureza protegida, boa, cheia, perigosa em sua beleza primal. E quando viram o avião de onde eram fotografados, responderam prontamente, atirando flechas. Fizeram muito bem. Quanto à Funai, pelo que seus representantes disseram às coisas de jornal (pelo menos foi isso o que li), não divulgará a localização da tribo. Assim eles estarão, desejo, protegidos de nós.

Nós, tecnologizados, internetizados, globalizados, envoltos num processo insensato de belicismo e busca de hegemonia política, militar e econômica a qualquer custo, estamos fazendo o que já se sabe: destruindo as florestas, arrasando o Ártico, contaminando rios, experimentando uma vida materialista, hedonista e catastrófica. Queremos bombas, acumulamos fortunas que servirão para comprar poderosos armamentos e vivemos a nos ameaçar.

Temos miséria, fome, dominação, crueldade, crises financeiras, loucura e veneração pelo dinheiro e todos os prazerosos vícios que ele pode nos dar; entre eles, o desejo de ganhar mais dinheiro.

Na verdade, não temos nada. Na verdade, quando o mundo chegar à hecatombe, se eles, os índios, não tiverem sido mortos por nós, certamente serão os únicos aptos a continuar com a humanidade sobre a face da Terra. Só tenho uma dúvida: ainda haverá Terra?
Emanoel Barreto

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Soturno

Caros Amigos,
Não me faço de metal,
sou mais instantes.

E depois do negror do tempo,
infinito.

Quando os becos
se aproximam
das espadas,
eis hora
de chamar:
O quê?
Emanoel Barreto

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Os trinta dinheiros: quando o lucro é imoral

Caros Amigos,
Recebi o texto abaixo, que trata do degelo do Ártico. Redigido em estilo jornalístico é frio, objetivo, não emite juízos de valor. Entretanto, em seu subtexto, nas entrelinhas, diriam outros, encontrei todo um libelo: como é que homens, líderes ou representantes nacionais, ao invés de estar preocupados com o degelo, reunem-se na verdade para tomar providências prévias a essa catástrofe planetária, com o único objetivo de garantir... dinheiro?


Esse é o retrato mais puro, ou melhor, impuro, da depravação ética a que a humanidade chegou; a destruição do nosso mundo será levada adiante, mesmo que isso signifique o apocalipse. É irracional mas é verdade: os homens sabem o que virá; mas, antes, que lhes sejam dadas as trinta moedas do capitalismo demencial.
Emanoel Barreto

Segue o texto:
Depois do degelo, a exploração: a quem pertence o Ártico?

Países vizinhos do Ártico discutem na Groenlândia divisão territorial do continente. Devido às mudanças climáticas, rápido degelo da região polar pode abrir caminho para exploração comercial de suas reservas minerais.

Os cinco países vizinhos do continente Ártico - Rússia, Canadá, EUA, Dinamarca e Noruega - realizaram conferência na cidade groenlandesa de Ilulissat, nesta terça e quarta-feira, para discutir as controversas pretensões territoriais na região polar. Embora autônoma, a Groenlândia é parte do Reino da Dinamarca.

Isto explica a vizinhança dinamarquesa do Ártico, cujo degelo ocorre mais rapidamente do que previsto nos modelos das mudanças climáticas. O aquecimento global permitiria uma prospecção mais fácil das reservas minerais da região polar.

Cientistas americanos calculam que nela se encontra um quarto das reservas mundiais de petróleo e gás natural. No Ártico, não existe terra. Há somente gelo e água. A conferência na Groenlândia pretende discutir a quem pertence esta água gelada, que segundo prognósticos do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) poderá, até o final deste século, derreter durante o verão polar.

terça-feira, 27 de maio de 2008

O beijo quente da Morte

Caros Amigos,
A Morte, não existe. Não existe enquanto ente, coisa ou situação objetivamente situada em relação ao ser humano. A morte é unicamente ausência da vida num ser que já a teve. Mas, estranhamente, pela construção arcaica, legado de místico pavor que o suceder de gerações ao longo dos milênios da presença humana na Terra criou, a morte ganhou sua condição de Morte. A Morte ganhou... vida.

O comentário é a propósito da próxima campanha anti-tabagismo a que o Governo dará seqüência. A foto distribuída à imprensa é parte da divulgação da campanha.

Poderosa, a imagem expressa bem a perplexidade perante a dor do fumante reduzido à condição de doente, frágil, abandonado em si mesmo, apesar da presença da família. O rosto tenso da mulher, o olhar inocente e balbuciante do menino, nos levam ao pesaroso mundo dos que estão presos ao vício do cigarro.

É pelo cigarro que se mata a Vida; aos poucos, silenciosamente. No cigarro, a Morte vem com o seu beijo quente e garante que um dia aqueles lábios estarão cerrados.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Luz, mais luz...

Caros Amigos,
Vivemos um tempo em que
o olhar sinistro mira
seus olhos sem que você perceba.

Depois, a hipnose do Mal
nos encaminha ao abismo,
que de há muito estava a nos fitar.

Mas, se a luz da manhã
mais clara vir,
Você inteiro em meio ao sol,
caminhe seguro em
direção a tal fulgor.
Emanoel Barreto

sábado, 24 de maio de 2008

Vinde e orai...


Caros Amigos,
Mônica Bérgamo, da Folha, informa que o bispo Edir Macedo está em negociações visando expandir os interesses da Igreja Universal do Reino de Deus. Diz a colunista: "Depois da Record e da RecordNews, o bispo Edir Macedo pode internacionalizar os negócios televisivos da Igreja Universal: em sigilo, já iniciou o projeto para uma nova TV com sede em Miami, nos EUA. O orçamento previsto do projeto gira em torno de US$ 40 milhões e inclui a compra de um satélite exclusivo A nova emissora deve começar a operar no início de 2010. O plano é ambicioso: fazer da nova TV uma espécie de "CNN" em português, que poderá ser captada por parabólica em qualquer lugar do mundo."

Macedo, uma figura capaz de fascinar multidões carantes (no sentido pleno da palavra), consegue estabelecer um nexo indestrutível entre religião e lucro, a partir de um princípio bíblico afirmativo: Deus quer que todos tenham vida e vida em abundância.

Estabelecido esse vínculo mediante uma interpretação literal do discurso, todas aquelas pessoas, fragilizadas emocional, fisica ou financeiramente, são tomada de paixão intensa pela promessa de salvação, e não se recusam a acatar, sem pensar, as prédicas, dele e de seus representantes.

A relação protestantismo e capitalismo está bem expressa no clássico "A ética protestante e o espírito do capitalismo, de Max Weber. Ali, se expõe o entrelaçamento histórico entre a religião e a prosperidade. A ação do homem capitalista é analisada e mostrada como missionária, dedicada, daí resultando os frutos do seu progresso enquanto indivíduo que investiu e auferiou os resultados predendidos.

Ou por outra: poupador, austero, severo, dotado de um sentimento místico envolvendo o trabalho e o comportamento rigoroso na vida civil, o augusto crente, sem dúvida, teria a recompensa material a lhe servir de comenda, exposição do quanto estava ligado ao superior, sobrenatural e divino.

Utilizando-se de um discurso simplista e, portanto, compreensível, penetrante, claro e arrebatador de multidões socialmente enfermas, Macedo consegue sua adesão. Não se lhe pode negar força retórica, poder de convencimento, sua condição taumartúrgica e comunicacional-dramática. Sob tais aspectos, não há como negar, é um gênio da comunicação de massa. E, sendo assim, recebe tudo o que é de César.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 23 de maio de 2008

A honradez está de luto


Caros amigos,
Uma das figuras mais preeminentes do senado, Jefferson Peres teve a vida tomada por certeiro enfarte. Austero, duro, forjou na mídia, nas coisas de jornal, a imagem de um catão. Com fria e essencial imparcialidade esgrimia no plenário o florete mais pontiagudo da ética, sem tergiversar; tinha como que uma espécie de ferocidade cívica contra ladrões e dseordeiros da moralidade.

Dizia: "Canalhas de todos os matizes: eu não sou como vocês. Ética para mim não é pose, não é bandeira eleitoral, não é construção artificial de imagem para uso externo. Ética para mim é compromisso de vida. Agir eticamente para mim é tão natural quanto o ato de respirar."

E mais: "Talvez eu tenha no máximo cinco dedos da mão de pessoas amigas. Mas tenho milhares de inimigos rancorosos. Todos os canalhas são desinibidos. Nada incomoda mais um canalha que uma pessoa de bem. Fere a auto-estima do canalha saber que há pessoas honestas."

Com a vida tomada de assalto, foi-se, com Jefferson Peres, uma daquelas figuras de liberal, honradas e probas. Sem a sua voz, sem seu carisma espartano e eriçado perde a vida pública um exemplo de homem e de parlamentar.

Dizia que este seria seu último mandato; não conseguia mais conviver no mesmo plenário - a arena donde desafiava a imoralidade - com tipos decaídos, perversos, cheios de impiedade, bárbaros habitantes da tenda dos negócios com a coisa pública.
Estamos mais pobres. A honradez está de luto.
Emanoel Barreto
Foto:http://video.globo.com/GMC/foto/0,,11724634,00.jpg

quinta-feira, 22 de maio de 2008

A sombria e opressa proteção de Gothan

Caros Amigos,
O sombrio Batman está para voltar, na produção Batman, o Cavaleiro das Trevas. Ao personagem, que nos anos 1960 era uma espécie de salvador bom-moço de Gothan City, retirou-se o companheiro Robin, um efebo que o ajudava em sua luta contra o Mal, leia-se o Pinguim, Charada e Coringa. Após, a versão do herói ganhou algo, senão de sinistro, com certeza sombrio, soturno, existencial.

Batman passou a ser mostrado como um ser tenebroso, cabisbaixo, a longa capa negra drapejando, com um brilho escuro, a cor proferindo medo. É como um ser que tivesse sobre os ombros todos os pesos, pecados e crimes da nossa condição condição humana e viciosa.
Um bom estudo de semiótica permitiria belas conclusões a respeito do discurso visual-e-de-ação de Batman. Um estudioso mais curioso poderia escrever, e escrever muito, a respeito da sua figura de assombro e sua representação do inconsciente coletivo.
Ele parece dizer, com sua face fria, recoberta pelo enigma da máscara funesta, que vem do escuro para combater a treva e que voltará ao mais oculto, secreto, pressago mundo que habita o coração trêmulo do homem. Vertigem.
Ele chega para nos dizer: "Não vim salvar a vida. Mas, resgatar despojos" - como faz com o corpo do Robin morto, na imagem que ilustra nosso texto. Batman caminha em meio a uma humanidade pesarosa. E ajuda a carpir o choro dos espectros.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 21 de maio de 2008

O mais puro terror

Caros Amigos,
As coisas de jornal dizem de gente que ficou soterrada até por nove dias, com o terremoto na China. É a condição humana experimentando, suponho, seus medos mais horrendos. O contato íntimo, interno, abraço mais terrível com a dor, morte rondando perto seu rosnado de sombras e abatimento; queda. Uma coisa assim, é a angústia elevada ao requinte, desespero opressivo: alguém emparedado gera gritos que não pode dar e espera que mãos venham de cima, para, quem sabe, salvar a vida que se debate, paralisada do mais puro terror.
Emanoel Barreto
Foto: http://www.club.lacarasur.com/mimages/terremoto1.jpg

terça-feira, 20 de maio de 2008

Versos sofridos

Caros Amigos,
O poeta e jornalista Walter Medeiros é uma dessas pessoas que se incumbiram como missão trabalhar, fazer o bem. Velho amigo de redação e trabalho, tem o perfil exato dos que podem ser definidos por uma só palavra: integridade. Recebi email informando que poema de sua autoria foi incluído em publicação didática. Transcrevo para vocês e mando um abraço a Walter.
Emanoel Barreto

Cordel de Walter Medeiros é
incluído em novo livro didático

“Versos sofridos para um açude triste”, cordel de autoria do jornalista potiguar Walter Medeiros terá trechos incluídos no livro didático-pedagógico “Rio Grande do Norte: geografia e paisagens potiguares”.

A publicação será feita pela Base Editora, de Curitiba e já se encontra no prelo. O poema retrata uma cena chocante: ao seguir de Tangará para Santa Cruz pela BR, o cidadão surpreendeu-se ao ver o açude - que sempre via cheio - completamente sem água.

Uma das estrofes do cordel diz: "O açude tão bonito/ Cheio de água limpinha/ Perdeu a água que tinha,/ Quase que não acredito; /Pois eu vi pela tardinha/ Aquela terra sequinha/ E não segurei meu grito."

A representante da Base Editora, Vera Barbosa. ressalta que o livro citado “é material didático-pedagógico, para utilização com alunos do Ensino Fundamental, que tem basicamente o objetivo de facilitar a aquisição de conhecimentos da disciplina de Geografia”.

Vera acrescenta que “Versos sofridos para um açude triste” vai ser colocado no capítulo Campo e cidade: paisagens e interdependência e considera que “o cordel vai auxiliar as crianças na percepção das diferenças entre esses espaços”.

Outros cordéis do autor já foram utilizados em atividades didático-pedagógicas, como a prova do concurso do CEFET/RN, há três anos, que incluiu o cordel “A peleja do cordel de feira com a Internet”, sobre o qual foram formuladas duas questões. Também o livro do Programa de Educação de Jovens e Adultos incluiu aquele cordel, ao tratar de “Tecnologia e trabalho”.

Os cordéis de Walter Medeiros podem ser acessados no site “Poemas de Cordel”, através do link http://www.rnsites.com.br/cordeis.htm .
Foto:http://www.cearacultural.com.br/Imagens/Sertao1.jpg

sábado, 17 de maio de 2008

A volta de Indiana Jones

Caros Amigos,
Vem aí um novo filme de Indiana Jones, 19 anos depois da última produção. O imaginário dos povos, desde as épocas imemoriais dos gregos, sempre necessitou de heróis - figuras míticas cujos gestos trágicos, extremados, movidos por sentimentos de doação e de causa, divinizados, elevam o coletivo humano à catarse, à sublimação, à saída sublime, à solução magnificada frente aos abismos do mundo.

O cinema, como antes a história, divinizou as figuras arquetípicas dos grandes líderes, dos guerreiros. Ou então criou personagens, como Indiana Jones, para sintetizar valores e personificar idéias, tudo a partir do velho maniqueísmo: a luta do Bem contra o Mal.

Mas, a realidade é dura. E, em lugar de Jones, temos os militares ditadores de Mianmar deixando seu povo à míngua; temos George Bush e seu belicismo obsessivo; o regime chinês e aquele massacre na Praça da Paz Celestial, lembra?; os corruptos que infestam a cena pública brasileira; a fome que grassa como uma epidemia na África; e, não há como fugir, a condição humana, que nos leva aos desatinos e à dor, aos desacertos e todas as insanidades.

Mas, por algum tempo, na tela, Jones vai voltar. E de alguma maneira vai encontrar em mim aquele menino que assistia seriados em preto e branco no Rex. E vai dizer que, seja como for, vale viver essa vida que vale a pena por que a alma, esse amigo que mora em nós, não é pequena.
Um abraço de fim de semana.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 16 de maio de 2008

O Minotauro da vida

Caros Amigos,
Procurando na net assuntos para comentar, descobri, não sei com que atraso, que existe um movimento internacional chamado Peta, ou People for the Ethical Treatment of Animals – Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais, que protestam, digamos assim, com bastante veemência. E buscam, em ações disruptivas, achar nichos de mídia para fazer valer suas pregações e alcançar notoriedade.

Denunciam, por exemplo, tratamento cruel de ovelhas na Austrália, para a obtenção de lã, matança de animais para fabricação de casacos de pele, alimentação à base de carne e touradas. Tanto, que a jovem da foto - de autoria não assinalada -, está figurando um miúra, aqueles enormes e imponentes animais massacrados pelos matadores de Espanha em tardes de sol.

É um movimento que, ao lado de grupos como o Greenpeace, terá, ao longo do tempo, possibilidades de crescer, ou pelo menos firmar-se como marco defensor desse ethos, podendo obter alguma representatividade junto à sociedade civil. A questão são os métodos, certamente considerados como ultra-radicais e até chocantes por olhares ligados ao establishment e que, mesmo sensibilizados pelas bandeiras pró-vida, teriam dificuldade em participar, mesmo que discretamente.

Mas, são os sinais dos tempos: as metrópoles, esses grandes e complexos seres urbanos, são movidas por um conjunto de reivindicações, numa intricada trama psicossocial, econômica, comportamental e política. E nesse oceano de gente e pulsões, aparercem os protestos, os gritos, a visão de que é proibido ser desumano.

De qualquer forma, vemos um mundo que, se de um lado sente o neoliberalismo buscar impor sua lógica de que tudo é mercado e assim deve permanecer e ampliar-se, de outro, ou outros lados, vêem-se pessoas e grupos dissidentes, apontando alternativas que, convenhamos, são muito mais humanas e têm um conteúdo ético admissível, pelo menos enquanto movimento de protesto.

Ousadias e picardias à parte, é pelo menos interessante saber que a irreverência de alguma forma desnuda as intenções ocultas e inegavelmente cruéis dos senhores do mundo. A moça da foto é uma espécie de Minotauro da vida. E caminha pelo dédalo da vida, criticando, com sua estética do corpo nu, as vergonhas escondidas de quem só faz o mal. E, com o mal, lucra, lucra muito.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O pão dos pobres; fortuna dos ricos

Caros Amigos,
A Folha Online informa, em matéria da editora-assistente de Dinheiro, Karen Camacho, que "o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) elaborou um levantamento que aponta as desigualdades no Brasil. Um dos dados mostra que os 10% mais ricos concentram 75,4% da riqueza do país.
Os dados, obtidos pela Folha Online, serão apresentados pelo presidente do Ipea, Márcio Pochmann, nesta quinta-feira ao CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social). O objetivo, segundo ele, é oferecer elementos para a discussão da
reforma tributária.
A pesquisa também mostra como é essa concentração em três capitais brasileiras. Em São Paulo, a concentração na mão dos 10% mais ricos é de 73,4%, em Salvador é de 67% e, no Rio, de 62,9%.
Para Pochmann, a
injustiça do sistema tributário é uma das responsáveis pelas diferenças. "O dado mostra que o Brasil, a despeito das mudanças políticas, continua sem alterações nas desigualdades estruturais. O rico continua pagando pouco imposto", afirmou.
Apenas para efeito de comparação, ao final do século 18, os 10% mais ricos concentravam 68% da riqueza no Rio de Janeiro --único dado disponível."

..........
Como se vê, a injusta e secular divisão de renda no Brasil é um dado histórico alarmante. Nesse complexo, reúnem-se aspectos que vão desde o puramente econômico, passam pela geração de preconceitos étnicos e de gênero, forjam comunidades corporativas no âmbito político-administrativo e deságuam na miséria e na pobreza, na violência e no banditismo, na corrupção e dilapidação de valores relativos à cidadania.

A mobilização por uma reforma tributária é, assim, além de um fato de política fiscal, a fundação de um novo ethos, uma nova forma de convivência social, obrigando-se aqueles que têm mais a pagar para poder ter esse mais. É preciso uma taxação direcionada às grandes fortunas, é preciso redirecionar o poder do Estado sobre as elites, a fim de que estas se entendam como co-responsáveis pelo estado de coisas que aí está posto. O problema é que o Estado é feito pelas elites e para as elites. Assim, fica difícil a busca de justiça social. Mas, de qualquer maneira, que venha uma reforma tributária.
Emanoel Barreto
Foto: Martha Albuquerque - Favela da Rocinha-Rio

quarta-feira, 14 de maio de 2008

O afeto que se encerra

Caros Amigos,
Com a saída da ministra Marina Silva, encerra-se o período de presença de alguém que tinha compromissos com a floresta, com o meio ambiente, com a vida. Conhecedora profunda da Amazônia, até porque de lá, foi aos poucos sendo cerceada pelos colegas de ministério, até chegar ao ponto da renúncia. Não que Carlos Minc venha a desmerecer o cargo. Ao contrário, tem perfil e biografia que a isso o credenciam.

O problema é que, com a saída da Ministra, as forças que a ela se opunham dão demonstrativo da capacidade de fazer valer seus interesses. As serras comemoram, rosnando seu grito de corte. E, com a saída de Marina, é o afeto que se encerra.
Emanoel Barreto

terça-feira, 13 de maio de 2008

Bendito é o fruto

Caros Amigos,
Em meio ao caos em que se transformou sua vida, o atacante Ronaldo está em vias de, num lance de dados da boa fortuna, começar a inverter a situação: o anúncio de que sua namorada Bia Antony está grávida, chega como uma bênção a quem tanto já se penitenciou ao deus da mídia, ou como uma daquelas bolas que somente rolavam para Romário empurrar ao gol.

Hoje, no programa de Ana Maria Braga, ele compareceu e foi alvo de paparicos; recebeu declarações de apoio e incentivo, ante uma apresentadora reverencial e prestativa. Tanto o programa de Ana Maria, quanto a entrevista no Fantástico, semana passada, não passam, estou certo, de uma poderosa ação de markrting pessoal a fim de reavivar Ronaldo enquanto marca. Ele é, além de uma pessoa, um produto, um ser midiátido, do qual os grandes conglomerados econômicos ligados ao esporte se nutrem e engordam. Esses podem engordar, Ronaldo, não.

Tal é a lógica do grande capital que o financia e dele aufere seus dividendos. Detalhe: na entrevista ao Fantástico, Ronaldo estava, podemos até dizer, malvestido. Abatido, roupas com aparência de coisa já muito usada, chinelos simples. Tudo, tudo para compor o tipo; expor, via vestuário, o que estaria se passando no interior, no intimus do craque. É admissível que ele estivesse mesmo acabrunhado. A roupa foi apenas o complemento, o cosmético feioso que ajudou a formar a imagem do sofredor arrependido. A estética da depressão como artifício dramático.

Agora, quando se fala num filho, a trilha, roteiro que rege a vida das pessoas de mídia, funcionará como a água purificadora do pecado impensado. Será uma sinfonia mágica, um tilintar suave de sininhos a sinalizar que o pesadelo está para acabar. Shhhhhhhhhhhhhh.... Silêncio, vem aí um bebezinho... Bendito é o fruto do vosso ventre, Bia.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Desumanidade: o patrocinador oficial do Caso Isabella

Caros Amigos,
O Caso Isabella. Não há mais o que dizer.
Todas as lágrimas já foram choradas.
Só falta a Globo assinar contrato de exclusividade
para entrevistas com familiares.
Emanoel Barreto

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Aquele abraço...

Caros Amigos,
Estou impossibilitado de atualizar o blog. Creio que até sábado próximo voltarei a fazê-lo.
Abraços.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 30 de abril de 2008

"Não sois máquinas; homens é que sois"*

Caros Amigos,
No Dia do Trabalho, injustos e hipócritas se reúnem para as libações de praxe, em homenagem ao homem-máquina, ao trabalhador obscuro e honesto. Vinícius de Moraes lhes trago, com o seu O operário em construção.
Abraços,
Emanoel Barreto

O operário em construção

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.E Jesus, respondendo, disse-lhe:– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.Lucas, cap. V, vs. 5-8.


Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.
De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!

E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pãoO operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.

Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção

E olhando bem para ela
Teve uma segunda a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.F
oi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não
.E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrã
oQue sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.
Sentindo que a violência
Não dobraria o operário

Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vêsSerá teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.

E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.
*Charles Chaplin

- Eu prometo!

Caros Amigos,
Obama e Hillary, nesse auge de campanha, apelam para a sensibilidade dos americanos pobres e se dizem preocupados com a sua situação. As coisas de jornal informam que nos EUA existem mais de 36 milhões de pessoas em estado de pobreza, ou 12,5 por cento da população.

Entendo que a questão do discurso em relação aos pobres é universal; é um conteúdo único, prêt à porter e instrumentalizado pelas elites das democracias formais - lá, como aqui e alhures, os pobres são, sempre, massa de manobras e motivo de promessas.

Como se ser governo fosse um prêmio às elites e suas benesses sociais fossem o pagamento - minguado, é claro -, que se dá ao eleitor, como retribuição ao voto.

A ação social como óbolo àquele que permancerá, a vida toda, pobre e desvalido. Desvalido, mas recebendo um pão ou algo assim, até a próxima eleição.
É isso. Eles são todos iguais.
EmanoelBarreto

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Nem tudo são flores

Caros Amigos,
O anúncio do envolvimento de Ronaldo com travestis, exatamente num período em que o jogador vive momentos de recuperação de uma cirurgia, mais uma, exibe o lado perigoso, lamacento da fama. O craque, que teve a carreira já interrompida várias vezes por acidentes sofridos em campo, já não ostenta mais a aura de melhor do mundo e, parece, vê sua trajetória encaminhar-se para escanteio.

Esse é o preço a pagar pela celebridade, pela exposição de mídia intensa e voraz. Quando se atinge tais alturas, a pessoa célebre anexa à sua personalidade, mesmo sem querer, a figuração do ídolo, do perfeito. Torna-se um apolo, especialmente quando se trata de atletas, de quem se exige arrojo, ímpeto e coragem nas disputas. As vitórias são os louros olímpicos, a consagração perante as multidões a quem se dá pão e circo. Esquece-se que uma coisa é o atleta, o mágico da bola; outra, o homem, a pessoa, falível e efetivamente falha.

Então, a juventude passa, a boa forma escasseia, vêm os reveses e o ídolo, se não busca preservar-se, resvala para a condição de mortal comum, despido das vestes falsas do esporte olimpiano. Ronaldo, com a vida pessoal exposta às coisas de jornal, parece prenunciar que a decadência começa a pesar-lhe aos ombros.
Emanoel Barreto

domingo, 27 de abril de 2008

Uma lágrima pela menina morta

Caros Amigos,
A lembrança triste da menina morta
ecoa como som de sino que bate numa noite eterna.

Espiões malignos lhe relembram o nome
e fazem um festim estranho,
espetáculo escuro na tela da TV.

As lágrimas histéricas, o alvoroço, os gritos,
seguem em procissão sombria.
A dor transformada em audiência.

A lembrança triste da menina morta
agora é curiosidade mórbida,
escancarado préstito, patíbulo de trevas.

Não há mais o que dizer: tudo já se sabe,
mas querem o detalhe deplorável,
o cantar mais horrendo
das megeras carpideiras.

É tempo de parar. É tempo.
Mas ainda se deseja mais.
A multidão é o arauto desabrido
de tanta curiosidade louca.

É tempo de parar. É tempo.
Que não se aceite esse regougar, agouro.
Que se acenda, em lugar disso, pelo menos,
a vela de uma lágrima sincera
pelo fim dessa menina morta.
Emanoel Barreto

sexta-feira, 25 de abril de 2008

De como bebi uísque com Canhoto da Paraíba no palco de um teatro, foi no Alberto Maranhão

Caros Amigos,
A morte de Canhoto da Paraíba, além de marcar o início de uma saudade bem brasileira, nordestinamente inteira, feita por sina, e por fado, me relembra de uma coisa que aconteceu em Natal: ele ia se apresentar no Alberto Maranhão e eu estava por lá. Pois então, quando cheguei, já muita gente havia; teatro quase lotado, e um rapaz me abordou: "Você é Emanoel Barreto, que escreve no jornal?"

Eu lhe respondi que sim e ele me convidou: "Aceita ficar no palco, ao lado do tocador? Vamos botar umas mesas, é como se fosse um bar. Conhoto fica tocando, você e os outros bebem, o garçom fica servindo, é festa para arrombar."

Aceitei na mesma hora; fui levado lá pra cima, fiquei numa mesa boa; Canhoto virou o mundo nas cordas do violão. Mestre feito e engenhoso, gênio limpo, gesto claro, Canhoto - casa lotada - derramava até ao chão, um mar de acordes perfeitos.

Só não gostei de uma coisa: quando eu ia me animando, eu e meus companheiros, uísque de copo cheio, chegou ao fim o espetáculo; terminava o show de Canhoto, mestre sem par nem parelha, tocador de regra inteira, do tamanho de um trovão.

E agora, no jornal, vem a nota triste e fala, e diz que ele morreu. Morreu nada, só partiu. Depois, um dia ele volta. Volta em cada violão, em cada acorde fechado, no sentimento alargado, tocando o mundo virado, como virava o violão.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 24 de abril de 2008

O Brasil não quer apito

Caros Amigos,
Transcrevo parte de matéria publicada pelo Estadão, dando conta de que ONGs estrangeiras com atuação na Amazônia serão controladas militarmente, a fim de prevenir ações contrárias aos interesses nacionais. Eis o que o jornal divulga: "Muitas ONGs internacionais, como o grupo ambientalista Greenpeace, têm escritórios na Amazônia e fazem campanhas contra o desmatamento provocado por madeireiros e fazendeiros.

Também há grupos de direitos humanos que ajudam índios e camponeses numa área de muitos conflitos fundiários. Na quarta-feira, o ministro da Justiça, Tarso Genro, disse que muitas ONGs estão envolvidas com a biopirataria e tentam influenciar a cultura indígena para expropriar suas terras. Os ministérios da Justiça e da Defesa pretendem enviar em junho ao Congresso uma nova Lei de Estrangeiros, para impedir que as ONGs sirvam como fachada para atividades ilegais na Amazônia. Por esse projeto, indivíduos e grupos estrangeiros precisariam de autorização do Ministério da Justiça e de cadastro no Comando Militar da Amazônia para atuar na região.

Quem for apanhado sem as devidas autorizações estará sujeito a revogação de visto, deportação e multa de 5.000 a 100 mil reais. O governo brasileiro é sempre sensível a críticas de estrangeiros à suas políticas para a Amazônia, onde há pouca presença do poder público para conter o desmatamento, a grilagem e a exploração de recursos.

As Forças Armadas também se preocupam com hipotéticos cenários de invasão e ocupação da Amazônia por uma potência estrangeira. "Não estamos cientes de nenhuma ameaça pendente. Não temos disputas fronteiriças com nossos vizinhos, mas por que esperar até que alguma coisa aconteça? Precisamos estar preparados para proteger nossos recursos", disse Jobim."

Trata-se, sem dúvida, de uma atitude acertada, que já chega com algum atraso. Afinal, não é de hoje que, sob o mando de ações humanitárias, desinteressadas, entidades e cidadãos de outras nacionalidadedes chegam à Amazônia manifestando pios interesses e as melhores intenções, quando, na verdade, são bem outros seus propósitos.

Também não é de hoje que os países de centro buscam internacionalizar a Amazônia, sob a alegação de que o Estado brasileiro não tem competência, disposição ou capacidade de atuar naquela estensa área do nosso território. Com essa atitude, o Governo demonstra de forma bem clara suas intenções de reverter esse quadro.

Não é meta fácil de ser atingida, porém deve ser um objetivo nacional permanente. Os países do Norte estão destruindo suas reservas naturais. Não é preciso ser um sábio ou alguém dotado de poderes de vidência para perceber-se que, em muito poucos anos, estarão ainda mais dispostos a fazer-se presentes ali, a fim de consolidar sua presença e hegemonia.

A ilustração do Padre Vieira catequizando índios é bem demonstrativa do quanto de mal foi perpetrado, sob a bandeira da "civilização" e da "redenção" dos "gentios". A ação da Igreja abriu caminho para todo um panorama de desvirtuação e redução de culturas aborígenes belíssimas à condição de subalternidade, perdendo-se para sempre povos e valores. É o que os grupos estrangeiros, hoje, também pretendem: sob o pálio largo de propostas humanitárias, promove-se a biopirataria e instilam-se junto aos índios costumes e culturas que em nada dizem respeito às coisas mesmas do Brasil, sua soberania e direitos territoriais.

Como nação emergente, o Brasil precisa afirmar-se ainda neste quadrante da história como capaz de atuar em seu território, preservar o meio ambiente e proteger os povos da floresta. Ou faz-se isto agora, ou veremos, na prática, que a Amazônia será, efetivamente, um Inferno Verde.
Emanoel Barreto

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Idade para ser feliz...


Caros Amigos,
Um instante, dos muitos instantes que passamos em Porto de Galinhas-PE.
Emanoel Barreto

quinta-feira, 17 de abril de 2008

A moral é mais embaixo

Caros amigos,
O deputado Djalma Marinho costumava dizer que um homem pode considerar-se amadurecido quando encara, com serenidade, os atos mais insanos da humanidade. Acho que ainda não estou amadurecido. Ainda fico perplexo com as humanas coisas. Lendo o restante do texto, vocês verão porque.

Djalma, para quem não lembra, era presidente da Câmara quando a ditadura quis cassar, em setembro de 1968, o deputado Márcio Moreira Alves, que houvera pronunciado um discurso considerado ofensivo pelas Forças Armadas e pelo presidente Costa e Silva.

Djalma era do partido do governo, a Arena, mas, insurgindo-se contra o ato de força que, caso fosse aceito, colocaria a Casa de cócoras, evocou Calderón de la Barca, quando disse: "Ao meu Rei tudo, menos a honra" - e não encaminhou a votação. O resto já se sabe, Congresso fechado, ditadura rugindo.

Entre o gesto de Djalma e a realidade de hoje, quanta diferença: o presidente da Casa, Arlindo Chinaglia, entorna sobre a sociedade um aumento da verba de gabinete. A verba de gabinete sofreu aumento de 18%: passou de R$ 50,815 mil para R$ 60 mil. Alegação do deputado: "É um ato de justiça." A "justiça", representará um aumento na folha de pagamento da Câmara em cerca de R$ 54 milhões.

Não, não é um ato de justiça. Os deputados já ganham muito e muito bem e disso não se envergonham; mas deveriam.

Ao tomar conhecimento do reajuste, passei a procurar na net outras informações a respeito da Câmara e o que acho? Uma informação, datada de 8 de novembro de 2007, relativa a uma exposição do fotógrafo Luiz Garrido. Uma das fotos mostrava o travesti Rogéria envergando apenas camisa e gravata.

A foto foi censurada e a exposição suspensa, a fim de não "ofender" a dignidade da Casa. Mas, não é ali, costumeiramente, onde, a porta fechadas, são feitos acertos e conchavos, entendimentos e esbulhos aos interesses da sociedade? Não é ali que corruptos dão vazão aos seus mais baixos instintos peculatários?

Entendo que a foto ainda hoje seria polêmica. Mas, não é nas casas políticas que se dá a convivência de contrários? A foto foi censurada, não pelo seu discurso erótico-satírico. Mas, foi impedida de ser mostrada, pois a vestimenta de Rogéria era uma alusão ao que se convencionou chamar de classe política. Era, literalmente, a encarnação da velha fábula "O rei está nu". Os deputados, de alguma maneira, se sentiriam ali representados. Sua nudez moral estava ali, naquela foto insolente e desabusada - como insolentes e desabusados são muitos dos atos dos parlamentares.

A Câmara, agora, fica outra vez como o rei da fábula, quando sai esse novo aumento aos deputados. E disso eles não têm vergonha. É porque, para eles, a moral fica mais embaixo.
Emanoel Barreto
PS: Estarei ausente de Natal até terça. Se der, atualizo o blog.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Respeito, beleza, amizade...


Caros Amigos,
Publico agora um poema de minha neta Eduarda, de oito anos. Avô tem dessas coisas: esses encantamentos, uma espécie de revivescência, uma volta, um reencontro com sua própria infância. São momentos de uma ingênua alegria, pingos de vida orvalhando instantes.
Emanoel Barreto

A importância do respeito

É preciso respeitar
Para cooperar.
Respeitar os velhinhos,
Até os bichinhos.

Sem respeito
A amizade não tem conceito.
A confiança é delicada,
Mas podemos perdê-la.

Com o respeito ganhamos amizade,
Que encontramos na sociedade.
Cuidado com a humanidade,
Pois é melhor contar a verdade.
Eduarda Barreto Manso

A casa da noite eterna

Caros Amigos,
Recebi, há uns dois, três dias, um e-mail lacônico, algo enigmático, assinado apenas por "Tereza". Ela fazia observações a uma matéria que publiquei em 2006, janeiro, dia 24. O título, "A casa da noite eterna". Então, rememorava um acontecimento que abalou Natal, quando um homem, José Vilarim Neto, por motivos até hoje nunca explicados, trucidou uma família e tentou, horas depois, matar a mãe, a alemã Ruth Looman e uma filha, ainda bem criança. Entre as vítimas, relatei haver uma empregadinha grávida, também morta por Vilarim.

Pois bem: Tereza fez as seguintes observações: Ruth não era alemã e a "empregadinha" - ela colocou a palavra entre aspas - não estava grávida e tinha 12 anos. À época, 1975, todos nós, da imprensa, fomos informados que Ruth era alemã e que a mocinha estava grávida. E assim foi publicado no Diário, Tribuna e A República, jornal que há muito deixou de circular.

Mas, meu olhar de repórter, ao ler aquele e-mail, logo percebeu que a referência à jovem assassinada, pelo fato mesmo de vir entre aspas, revelava algo como um sentimento de dor, de descontentamento, vindo uma pessoa que, de alguma forma, havia sido ofendida. Entendi tudo: o termo "empregadinha" soou-lhe, estou certo, como um depreciativo, uma adjetivação infeliz a uma pessoa simples. Uma menininha que, pela sua condição social, precisava trabalhar, prestando serviços domésticos.

Sou um jornalista acostumado às mais diversas coberturas, que já viveu as mais inusitadas situações. Procuro, sempre, usar as palavras certas, martelar no teclado como se fora um piano, onde, ao menor erro, à mais simples falha, perde-se toda a sinfonia. No caso, depois de já muito tempo, descubro que feri alguém. Toquei a nota errada no meu teclado. E feri a uma pessoa que se deu ao trabalho de palmilhar intensamente este jornal, descobrindo o que entendeu ser uma falha. E foi. Se ela sentiu-se ofendida, a composição não foi executada com perfeição.

Cara Tereza,
Agora, uma explicação: o uso do termo no diminutivo, teve exatamente o seguinte propósito: passar ao leitor a idéia de alguém muito jovem. Não foi um diminutivo que amesquinhasse sua condição de trabalhadora; mas uma palavra que, no contexto em que foi colocada, buscou dar uma idéia da juventude agredida, juventude que, circunstancialmente, era encontrada na pessoa de uma pequena prestadora de serviços do lar. Em nenhum momento, uma "empregadinha", alguém minúsculo, desimportante, dispensável, inferior.

Se você ler este texto, Tereza, gostaria que o recebesse como a expressão mais sincera de um repórter. Que já viu e ouviu, senão de tudo, mas muito do que o mundo, vasto mundo, tem a nos dar de pior e mais cruel. Até mesmo quando um repórter, na busca de fazer o certo, acaba ferindo alguém que, por motivos que desconheço, termina por sentir-se ofendida.
Um abraço,
Emanoel Barreto

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Os atos secretos de Marilyn Monroe

Caros Amigos,
O dia 5 de agosto de 1962 entrou para a memória do cinema como uma data trágica: era encontrada morta, nua, Marilyn Monroe. Até hoje, uma morte nunca esclarecida. Quem já leu algo a respeito sabe que ela tivera envolvimento simultâneo com os irmãos Kennedy, Robert e John, e isso teria levado a que setores da segurança americana, CIA e assemelhados, se apressassem em acabar com o affair. Era melhor evitar um escândalo, coisas assim...


Agora, uma revelação acerca da atriz traz sua imagem - literalmente -, de volta à cena do jornalismo. A Folha Online informa: "Para quem acha que os vídeos com cenas de sexo de famosos é algo típico da atualidade, um filme com imagens de Marilyn Monroe (1926-1962) em cenas quentes feito nos anos 50 comprova que esta cultura existe há tempos.
Vídeo de Marilyn Monroe, fazendo sexo oral foi vendido por R$ 2,6 milhões nos EUA
Segundo o jornal norte-americano "The New York Post", a cópia de um vídeo da célebre atriz loira fazendo sexo oral em um homem não-identificado foi vendido para um empresário nova-iorquino pela quantia de US$ 1,5 milhão (cerca de R$ 2,6 milhões)."

Pergunta-se: qual, efetivamente, a importância desse filmete? O que tem isso de extraordinário? Se formos ver pelo ângulo do fato em si, nenhuma importância. Agora, olhando-o a partir de quem o praticou, o acontecimento ganha outros contornos: trata-se da exposição de uma figura mundialmente famosa, cuja vida foi marcada por escândalos e muito sex appeal.

Norma Jean Baker, seu nome de batismo, agregou à sua imagem todos os valores da mulher-objeto, os tiques e maneirismos das bombshells, os gestos construídos pelo star sistem hollywoodiano. Mas, vendo-se por um terceiro enquadramento, o que fica, o que fica mesmo, é a demonstração de como as pessoas de mídia passam, por isso mesmo, a compor no imaginário coletivo a posição que vou chamar de tipo marcante: aquele em que a passoa midiatizada passa a reunir em si todos os atributos dessa tipificação, sejam estes positivos ou negativos, ou até mesmos os dois.

Com isso, suas atitudes passam a ser alvo de uma curiosidade mórbida, obsessiva, especialmente quando o assunto em pauta são comportamentos de cunho sexual. A curiosidade do público, alimentada pela mídia, despertada por esta, incentivada pelo sistema de comunicação que trabalha em regime de tempo integral, resulta na manifestação degradante, em que massa e mídia são, em essência, uma equipe que age consorciada. Não há, no fim, diferenciação entre espetáculo e público; um e outro são partícipes do mesmo ato socialmente monumentalizado. O espetáculo está no, e é o público.

E os olhos desse grande todo querem ter um olhar penetrante. Querem os atos secretos, querem o que escondido; querem ser senhores de todos os silêncios.
Emanoel Barreto

sábado, 12 de abril de 2008

Um olhar voltado para o Nada

Grizar Junior/Futura Press - publicada pela Folha de S. Paulo
Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá deixam de carro o IML, onde foram submetidos a exames após terem sido libertados

Caros Amigos,
No olhar distante, um instante da Queda.
A vida esvaziada,
perdida em sentimentos pasmos,
enlaçada de momentos turvos.
Movimentos parados,
como um pêndulo estático.

Quem? Quem? Quem?
O coração de todos quer uma resposta.
Emanoel Barreto