"Não é justo alguém ter o direito de ter uma empresa de aviação e outro não ter o direito de comer um pão." /////// JAMAIS IDE A UM LUGAR GRANDE DEMAIS. A UM LUGAR AONDE NÃO TENHAIS CORAGEM DA IMENSIDÃO - EMANOEL BARRETO - NATAL/RN
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006
Mais de mil palhaços no salão
e por isso o mundo me pertence.''
(Johann Wolfgang Goethe)
E então, chegou o Carnaval-Brasil. Há festa e a seca se serve do sofrimento do homem no sertão. Mais de mil palhaços no salão.
Chegou o carnaval e os bandidos, no Rio, alvejam os passantes em vigança à morte de um traficante. Mais de mil palhaços no salão.
É carnaval e as crianças esmolam nos sinais. Há fome e ranger de dentes. Mais de mil palhaços no salão.
É carnaval: os hopitais públicos são locais de sofrimento e dor. Os planos de saúde comerciam a medicina e fazem da saúde uma mercadoria. Mais de mil palhaços no salão.
O carnaval chegou, os tamborins estão tocando as cuícas roncando e os gringos chegam para o seu período de orgia. O turismo sexual dá lucros e quadrilhas se enriquecem. Mais de mil palhaços no salão.
O carnaval está aí. Meninos e meninas são usados como objeto sexual, servem ao dinheiro e a seus adoradores. Famílias se dobram ao peso da miséria. Mais de mil palhaços no salão.
Evoé, Momo! Os produtores de álcool exploram o povo e vão ganhar muito dinheiro. A gasolina, com menor teor de álcool em sua mistura, deverá subir de preço, dizem os noticiários. Mais de mil palhaços no salão.
O carnaval está em todas as alegrias. Mas alguém vai morrer depois de comprar alguma droga a um traficante; uma menor será ofendida e humilhada por um turista rico; o grande capital financeiro quer dominar os destinos do País; as universidades continuarão precisando de dinheiro e um idoso estará sofrendo em alguma fila, implorando alguma miséria assistencial oficial. Mais de mil palhaços no salão.
Depois, quarta-feira-de-cinzas: Mais de mil palhaços, mais de mil palhaços...
O jornalista e poeta Walter Medeiros manda o poema "Zé Pereira", lembrando os velhos carnavais. Abaixo:
Viva Zé Pereira,
Português danado,
Cabra sem enfado,
Pela vida inteira.
Viva o Carnaval,
Que tanto admiro,
Mas já me retiro,
Não me leve a mal.
Viva aquele samba,
Feito por Martinho,
Que canto baixinho,
Querendo ser bamba.
Viva a lembrança,
Do pó, do confetti,
Caetano, Zé Kéti,
Serpentina e lança.
Viva Paulo Maux,
Nosso eterno Rei,
Nunca esquecerei,
Mas sei que passou.
Viva nossos clubes,
De lindo passado,
Que está gravado,
Bailes que iludem.
Viva uma saudade,
Cá neste meu peito,
De amores sem jeito,
E de felicidade.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2006
A mordaça dos loucos, o silêncio da imprensa
Só que, depois, foram piorando mais um pouco.”
(Paulo Mendes Campos)
Início dos anos 80, eu chefiava a reportagem da Tribuna do Norte e tive a oportunidade de conviver com uma jovem e talentosa repórter, Josimey Costa, e com um instável, mas também genial fotógrafo, Paulo Barossi, um rapaz que um dia fazia fotos espetaculares, mas, dia seguinte, furava a pauta e, na falta de um bom material, me dizia, estendendo a mão cheia de fotografias velhas: “Veja aí, Barreto, lá no arquivo tinha isso.”
Pois bem: certa vez, pautei a dupla para uma matéria no Hospital João Machado, o Hospital Colônia, para constatar suas condições de funcionamento. Eles foram, mas chegando lá, foram barrados na portaria. Eu pensei: “O que o pessoal do hospital tem a esconder? Aí tem coisa...”
E dei a seguinte ordem a Josimey e Barossi: “Vistam-se de branco, como se fossem acadêmicos de medicina e revirem aquele hospital. Vamos ver o que de tão ruim há, para ser oculto.”
Eles foram. Foram e viram tudo o que se passava no hospital. À entrada, sequer foram perturbados e, lá dentro, deram um show de jornalismo investigativo, jornalismo de flagrante. Juventude e decisão de fazer jornal de denúncia, jornal a favor do ser humano, jornal contra a humilhação dos pobres, loucos e desvalidos.
Eles foram e viram seres humanos reduzidos a condições miseráveis, doentes nus jogados em camas imundas, doentes perambulando como almas penadas, pessoas presas em celas gradeadas. Doentes estendendo-se as mãos, como que tentando, através do contato físico, compensar o tratamento humano e necessário a que tinham direito, mas ao qual não tinham acesso.
Se a loucura é uma forma de dor, e se a dor é condição mais presente da condição humana, de alguma forma somos todos loucos. Mas os deserdados da loucura, em sua autenticidade solitária, ali não tinham direito ao gesto afetivo, ao abraço longo, ao carinho amigo.
O Colônia era um inferno. Uma espécie de campo de concentração de pessoas mentalmente insanas levadas à indigência. Era um espetáculo dantesco. Estava aí o motivo pelo qual o Colônia era um tabu, um local secreto, fechado, impossível de dar acesso aos olhos de imprensa. Mas, a decisão dos repórteres em fazer a matéria era tamanha, que eles literalmente se fizeram invisíveis aos olhos dos funcionários e médicos e vasculharam tudo.
Andaram por salas, corredores, perpassando todo o horror do hospital. As fotos, em preto e branco, capturavam toda a dramaticidade daqueles instantes de sofrimento e abandono. Até que... foram descobertos. Estavam avançando sobre a cozinha, quando alguém afinal desconfiou e os flagrou. Ali, finalmente descobertos, após a magnífica matéria, foram identificados como jornalistas e retirados.
Ainda bem que não houve qualquer retaliação violenta dos funcionários do hospital contra os repórteres. A dupla voltou, vibrando, com uma produção digna de qualquer grande publicação: pela indignação do conteúdo do texto que Josimey produziu e pelas fotos de Paulo Barossi trouxe - creio que essas fotos ainda hoje existem no arquivo da Tribuna.
Denúncia pura, brutalidade flagrada, desumanidade exposta aos olhos da cidadania.
Só que (também decepção para mim), a direção do hospital intercedeu junto ao comando supremo da Tribuna e a matéria simplesmente foi parar na cesta seção (o cesto de papel, onde na época, eram jogados os textos imprestáveis).
Na época eu também era jovem e vi esfumaçar-se num acordo de diretores todo o esforço de uma talentosa tarde jornalística.
Nota do redator: creio que, hoje, o hospital esteja em melhores condições.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006
O Brasil virou um show. Fiquemos todos felizes
sábado, 18 de fevereiro de 2006
Uma lembrança de Djalma Marinho
quando a bola sai de uma área
e chega à do adversário, já é noite.”
(Do legendário jogador espanhol Di Stéfano )
O poeta Diógenes da Cunha Lima certa vez escreveu a respeito do deputado Djalma Marinho, a quem descreveu como “o homem que pintava cavalos azuis”. A imagem, plena de força de expressão, resumia de forma magistral a figura de Djalma, ou seja: ele tinha o vigor dos corcéis em seu galope desabrido e, ao mesmo tempo, trazia em si a grandiosidade do infinito, o sonho do horizonte. A descoberta do passo seguinte.
Pois bem: ainda recordo a minha última entrevista dom Djalma, num começo de tarde chuvoso, na casa de Márcio, seu filho, onde hoje é o edifício que leva o nome do deputado. Djalma estava com a mão direita enfaixada. Sua frágil e firme mão, tantas vezes brandida de tribuna da Câmara, em defesa de seus ideais.
Djalma, o mesmo que, citando Calderón de la Barca, enfrentou o poder devastador da ditadura, quando queriam cassar o deputado Márcio Moreira Alves. Disse ele: “Ao Rei tudo, menos a honra.” Seria o achincalhe total, o encurvamento da Casa, o abismo da Desmoralização. Ele disse não e veio o fechamento do Congresso, que quebrou-se mas não sucumbiu.
Sim, mas, voltemos à entrevista. Ele falava de democracia, resistência sem violência, coisas assim e lá para as tantas, sentenciou: “Devemos ser como Atenas e nunca servir a Cartago.” E foi, foi, foi, falando sempre de democracia, convivência de contrários. Atenas, onde nasceu a democracia, seria bem diferente de Cartago, um reino na África, de onde Aníbal partiu com seus elefantes, para combater seus eternos inimigos, os romanos.
Creio que Djalma queria dizer que, em vez de buscar a guerra, o homem deve buscar o auto-conhecimento, a ponderação, o equilíbrio, a serenidade. Creio que era isso.Terminei a entrevista e, tempos depois, morria Djalma. Fui incumbido de cobrir seu sepultamento.
Lembro bem da emoção das palavras do senador Dinarte Mariz, chorando o desaparecimento do suave guerreiro. Uma tarde de chumbo, a noite se estampando como um véu de luto, recobrindo o cemitério. Quem sabe, uma carpideira, como na Grécia.
O tempo passou e uma vez, na TV, vi uma matéria na Câmara dos Deputados. E lá ao fundo o retrato de Djalma, como que dizendo em seu silêncio fotográfico: “Lembrem-se: ao Rei tudo, menos a honra.”
O problema é que, para muitos deputados, honra é uma palavra que não consta do
vocabulário.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006
O detetive Perpétuo*
incompetência pulmonar."
(Ex-ministro Mário Henrique Simonsen, antes de morrer de câncer)
Meu velho amigo, o detetive Perpétuo, contou-me um caso ocorrido em Natal no início dos anos 60 quando ele, em silêncio, poderia ter sido promotor, juiz e executor de uma sentença, levando um homem pobre a morrer na cadeia. Um homem que, na verdade, estava agindo em legítima defesa de uma criança.
Foi assim: em 1961, ele estava num velho bar da Ribeira, coisa de sete da noite. O expediente dele na delegacia havia terminado, e Perpétuo tomava um uísque antes de voltar para casa, onde já o esperaria o jantar preparado por Dona Altiva, sua mulher.
Então, uma mulher entra correndo e diz: "Seu Pepeto me ajude." A pobre criatura estava descabelada, tremia, suava e vira nele sua última salvação, porta final do seu desespero. Perpétuo perguntou o que havia e ela relatou depressa, enquanto o puxava pelo braço: "Venha comigo, que meu vizinho, um homem já velho, roubou a minha filha e está com a menina trancada na casa dele."
Entraram na sacolejante viatura e foram até o morro de Mãe Luíza, então uma favela. No escuro havia pouquíssimas lâmpadas nas casas e ruelas da então favela de Mãe Luíza), ele divisou as duas casinhas, afastadas das demais, já no meio do matagal.
"É ali?", quis saber. "É ali", confirmou a voz trêmula da mulher. Perpétuo aproximou-se da casa do raptor. Silêncio completo. Andou a seu redor, em busca de encontrar algum ponto por onde pudesse penetrar na casa. As janelas todas estavam fechadas. Ele rondou uma, duas, três vezes.
Parou e ficou ouvindo: dava para perceber um ruído, um ronco, um regougo, lúgubre som vindo de uma garganta arfante. Supôs que a menina estivesse sendo vítima de alguma violência pelo velho e não pensou mais: atirou-se de cabeça contra a janela do casebre, que cedeu como se fosse feita de papel.
Perpétuo caiu bem no meio da pequena sala de chão batido e deparou-se com uma cena, que ele assim me descreveu: "Acocorada a um canto, a menina chorava. E à sua frente, o velho, ou melhor, o velho enfrentando um homem moço e forte. O velho era um aleijado e, com o apoio da muleta, usando aquela parte onde se apóia a axila, empurrava o homem, pelo pescoço, contra a parede. Mal se sustinha de pé, em confronto desigual, enquanto o outro empunhava uma faca para matá-lo a qualquer momento, se fraquejasse."
E concluiu Perpétuo: "Puxei o revólver, mas fiquei parado, até que o invasor bambeou. Fora sufocado, morreu, caiu e tombou no chão, como um fardo. Na verdade, o que tinha corrido fora o seguinte: o homem havia pegado a menina e, supondo que na casa do velho não tinha ninguém, foi esconder-se lá com ela. Mas Seu Felício, esse o nome do velho, estava na casa e enfrentou o agressor, com grande coragem. Eu me virei para o velho Felício e disse que fosse embora, construísse um barraco em outra favela qualquer e estava tudo bem. O assunto estava esquecido."
O velho sumiu na noite, Perpétuo voltou para casa e jantou em silêncio enquanto Dona Altiva comentava a respeito do grande sucesso do rádio, "O direito de nascer." Ele a olhou e sorriu na noite. Sabia que na favela uma menina dormia em paz.
*As aventuras do detetive Perpétuo são ficcionais.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006
Silêncio, vou matá-lo agora...
rio grande da morte,
rio grande sem sorte."
(De um poema de Bosco Lopes in memoriam )
Simplício sempre, sempre fora assim: assíduo, trabalhador, correto, desempenho sem qualquer genialidade, mas eficaz. Tudo na medida. E o reconhecimento pelo seu trabalho era, no máximo, um sorriso de satisfação do chefe, melhor dizendo, do dono da loja. Até que um dia Simplício descobriu: estava com câncer.
“Seu Simplício, vou ser muito sincero”, disse o médico, “o senhor só tem, no máximo, seis meses de vida.” Ele encarou o doutor com seus olhos castanhos, deu uma tragada forte no cigarro sem filtro e somente disse: “Está bem.”
Saiu do consultório e um pensamento aliviado o acudiu: Seu Ascânio, o patrão, não iria lhe falhar naquele momento difícil. Afinal, nunca havia pedido nada e agora era chegado momento. Não disse nada à mulher, esperou passar uma semana, tomou coragem e falou com Ascânio. O homem, de vista baixa estava, de vista baixa ficou, traçando uns rabiscos numa folha de papel.
Simplício, de pé, petrificado, esperava a resposta, como quem espera uma sentença: seria possível que, após sua morte, o patrão providenciasse a Dona Santa, a viúva (o casal não tinha filhos), o pagamento de uma espécie de pensão, já que a Previdência iria pagar a ela uma miséria?
Ascânio esperou um minuto, pensou e disse, enquanto amassava o papel e o jogava no cesto: “Não, Simplício, não. As coisas não vão bem e..”, foi interrompido por Simplício: “Mas seu Ascânio, e esses anos todos, eu aqui, minha fidelidade ao negócio, minha vontade de ajudar... isso não vale nada? Não merece reconhecimento?”
O homem respondeu: “E já foi reconhecido. Você não tinha um salário mensal? Esse foi seu reconhecimento.” Simplício não retrucou e retirou-se, voltando a seus afazeres. Ressentido, trancou-se em sua dor e esperou pela morte. Enquanto isso, tramava uma vingança: sabia que Seu Ascânio era diabético e muito descuidado com a saúde; sabia que ele tinha o costume de guardar cheques em branco e assinados.
Só precisava combinar as duas coisas no momento apropriado, para garantir a sobrevivência de Santa.Sentia que a doença o corroía por dentro e precisava agir rápido. Então, aconteceu: num sábado, foi para casa e pouco depois Ascânio relefonou, pedindo que ele voltasse à loja e ficasse em sua companhia, para revisar umas tabelas de preços. Sentiu que estava ali sua chance e voltou correndo.
Ascânio tomava muito café, fumava muito e estava com as taxas elevadíssimas. Foi suficiente substituir o adoçante por açúcar às quatro da tarde e pouco depois ouvir o baque do corpo caindo. Como ninguém sabia que ele havia voltado, foi ao talonário de cheques, preencheu um com a quantia de 60 milhões de reais. Pôs o cheque no bolso, fechou a loja e saiu quando a noite caía. Na segunda-feira o corpo foi encontrado e todos lamentavam a morte de Ascânio.
Simplício também lamentou o desaparecimento, foi a um cartório onde depositou o cheque, dizendo que o envelope onde este se encontrava deveria ser entregue a Dona Santa, após a sua morte, o que ocorreu quatro meses depois. E foi emocionada que a pobre velhinha recebeu o cheque, que lhe garantiria o resto da vida: “Meu Deus, como meu marido tinha um bom patrão.”
terça-feira, 14 de fevereiro de 2006
Um frio de tarde sem fim
sentimento do medo."
(Juscelino Kubitscheck)
A mulher subiu à redação trazendo um estranho pedido nos lábios: denunciar uma chacina, um morticínio intenso havido numa remota granja, onde seres vivos haviam se entredevorado até o fim, sem ter outra opção de alimento. Era uma senhora de cerca de 50 anos, mas 50 anos sofridos, cansados, cheios de perplexidade.
Caminhava meio encurvada, um vestido simples sobre o corpo meio balofo, os cabelos grisalhos arrumados de qualquer jeito sobre a cabeça de testa engelhada. Nunca entendi porque ela compareceu ao jornal para me contar aquilo, uma vez que não tinha qualquer relação com os envolvidos no morticínio e o fato já fazia algum tempo de ocorrido.
Mas ela ali estava e precisava ser ouvida. Mas o movimento no jornal era tamanho que eu mal tinha tempo de parar, a fim de dar-lhe atenção. Ela contava uma história aos pedaços, paradas, freios verbais, tudo ditado pelo meu corre-corre, em pique de fechamento, comecinho de noite.
De repente eu me virava e dizia: “Bom, mas continuando...” E ela tentava retomar sua história, até ser interrompida novamente: algum repórter me pedia uma melhor angulação para a matéria que estava por redigir.
E assim o tempo se passava. Até que reuni forças e me retirei para um canto com a mulher. Em resumo, contou-me o seguinte: numa granja, em tal município ( não me lembro o nome do município), alguns irmãos abandonaram tudo e foram embora, sem qualquer explicação. Abandonaram a propriedade, os animais, tudo, ao léu, sem deixar ao menos um caseiro para cuidar.
A ventania passou a ser companheira de portas e janelas, o silêncio apoderou-se de todos os cômodos, o negrume da noite endoidecia até mesmo o mais corajoso dos homens. E aí, aí veio a tragédia que ela queria me contar: na pocilga, esfomeados, os porcos, sem ter o que comer, sem poder fugir, partiram para um cruel, cruento e total ciclo de canibalismo, devorando-se uns aos outros.
Os guinchos dos animais, contou, eram tão terríveis, que as mães das cercanias achavam que algum monstro desalmado estava vindo para pegar seus filhinhos. Ela contou-me essa surrealista história e ficou assim: parada, fixa em meus olhos, como quem espera remissão ou sentença. Jornalisticamente, nada havia a fazer, uma vez que o fato se passara há meses e certamente não restaria mais nada do que se dera.
Mas até hoje me recordo da incrível história e do que pensei, enquanto ela descia as sombrias e estreitas escadarias da Tribuna do Norte, verdadeiros labirintos cretenses, e se perdia para sempre de minha visão: “Senhora, compartilho de seus estranhos sentimentos. O drama solitário da vida se ferindo, me cala no corpo um frio de tarde sem fim.”
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006
Uma crônica da seca
que cachorro acha osso."
(João Guimarães Rosa, em Sagarana)
Eles seguem, calados e tristes, o caminho da solidão. Os campos do silêncio são o mapa de todas as dores do sertanejo. A imensidão sofrida da caatinga seca demarca esse país de pobres do campo, cujas fronteiras têm por limite suas almas feitas de incertezas.
Caminhantes da vida, rumando para o nada, eles têm na fome a companheira constante de dias e noites. O sertanejo, sua mulher, seus filhos, trazem no olhar triste o lamento calado de todos aqueles que já não têm mais palavras. Palavras perdidas, lavoura perdida, pasto morto.
Mãos calejadas contam histórias de saudade da chuva. Chão seco se estirando como um tapete de espinhos.Plantadores, eles hoje colhem lamentos. O inverno é só uma lembrança e ninguém, ninguém, poderá dizer quando a água vai voltar.
Eles bebem o gosto sujo do barro na água cavada do chão embrutecido.Terra, tanta terra e nada para esse povo comer.O sertão é como um abismo plano, onde seu povo plantou os grãos amargos da fome, servidos em mesas pobres e vazias.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006
Reze ou ore, meu filho... mas mande pra cá o dinheiro
a Deus, o que é de Deus."
(Jesus Cristo)
A sociedade do espetáculo, que se expandiu e se firmou, especialmente pela consolidação da TV como veículo primordial de visão e divulgação do mundo, trouxe a reboque uma circunstância inesperada: a midiatização religiosa, transformando Jesus Cristo em super star, Nossa Senhora em mito pop e os anjos em ídolos imateriais.
Isso, em se falando de marketing católico, cujo panteão abrange muitas manifestações de fé, respeito e amor por entidades sobrenaturais. Quando se fala de protestantismo, cujos fiéis hoje preferem ser conhecidos pela marca evangélicos, a coisa fica diferente. Admitem o Espírito Santo como integrante do seu elenco de salvadores. Mas as palmas vão, mesmo, para Jesus. É da mercadoria Jesus, da marca Jesus, que advêm seus maiores aportes financeiros.
A Igreja Católica, da mesma forma, também cultua a figura exemplar do Rabi da Galiléia. Mas, alguns de seus segmentos, midiatizados e extremamente profissionalizados, obtêm êxitos financeiros com programas de exaltação, onde Jesus também é mercadoria fina e rentável.
Este texto, que tem, sei disso, uma apresentação efetivamente satírico-crítica, não objetiva criticar a fé, a crença em um ser supremo. Meu objetivo é lamentar a utilização da fé como mercadoria, dentro de um contexto de economia globalizada.
Vão longe os tempos em que, nos púlpitos, católicos ou protestantes, se pregava a palavra da crença com o uso da retórica, com gestos grandiosos e oradores de grande poder de convencimento. Havia, é claro, a atitude teatral, o vigor da palavra, o acendimento da fé mediante o impressionismo. Mas, suponho, existia também sinceridade, o próprio orador imerso em seu discurso.
Hoje, o discurso mesclou-se ao discurso televisivo, com os recursos de edição, cortes, enquadramentos, vinhetas e cenários. A isso deve ser ajuntado o desencantamento das multidões, que se encantam novamente via imagem telemidiática. Há portentosos eventos que são vistos pelos participantes de co-presença, mas que também são vistos em tempo real por pessoas em suas casas. O espetáculo só é espetáculo porque há um público ali presente e esse mesmo público, espetacularizado, é visto por um público não-presente, mas atento, no recôndito do lar, ao que está acontecendo.
Há uma cadeia, uma teia de acontecimentos: o grande espetáculo da vida religiosa, visto por quem também tem um sentimento de pertença àquele grupo, todos numa ação global de louvor. Em verdade, em verdade vos digo: o que vale é a aliança que se forma entre a participação co-presencial e a participação tele-assistencial.
Ao fundo, o pastor e o padre conferem com seus contadores quem pagou ou não.
Suponho que hoje, de alguma forma, ressurge midiaticamente a figura dos vendilhões do templo. Talvez seja chegada a hora de todos, todos eles, serem expulsos do vestíbulo, pois suas oferendas são venais e lucrativas.
César não quer as coisas de Deus. E, Deus, também não quer o que é de César. Os sofrimentos do mundo são muitos. E vender a salvação virou objeto de lucro. Compre um carro novo, compre a TV de tela de plasma, compre também um jeitinho de escapar do purgatório, ou até mesmo do inferno.
Mas se você quer mesmo ser um justo, fique em paz e deixe Deus de fora dessa coisa de dinheiro. Não precisa nem mesmo rezar, ou orar como dizem outros. Seja honesto, digno e honrado. Creio que isso agrada a Deus. Ser bom é ser feliz, como dizia a minha Mãe. Seja bom e afasta-se dos trinta dinheiros.
Causos do Edgar - O homem bom
Em todo canto que a gente anda, nos deparamos com pessoas que despertam a nossa atenção, por um motivo qualquer. Eu, particularmente, gosto muito de observar as figuras típicas do nosso interior nordestino. Dizem que o matuto nordestino é ingênuo. De certa forma isso é verdade, se considerarmos a forma como eles se deixam enganar por políticos adoradores da seca, que manejam esse fenômeno milenar da natureza aumentando sempre seus currais com fins eleitoreiros.
Ao mesmo tempo, o matuto nordestino é dono de uma vivacidade e velocidade de raciocínio as vezes espantosa, sem falar no bom humor quase que permanente. E quando o bicho é valente? Aí, lasca. Hoje, me lembrei de uma figura interessante nas minhas andanças pelos interiores desse nosso Nordeste, Carlos, mais conhecido como "Bigodão", aliás essa parte de seu corpo era um verdadeiro adorno, e ai de quem mangasse do dito cujo.
Carlos é crioulo do brejo paraibano, mais precisamente da cidade de Areia, importante berço cultural, produtora de cachaças da mais alta qualidade, inclusive abriga o museu da cachaça: lá também encontramos Areia do Bruxaxá, as ruínas da Usina Santa Maria, a cahaça Volúpia, o Bregareia, d Foliarte e muito mais... Mas nesse caso aqui, Areia de Bigodão.
Conheci Bigodão na cidade de Passa e Fica, eu como estágiário em uma fazenda de produção leiteira e ele como uma espécie de vigia ou chefe de segurança. O cabra impunha respeito logo à primeira vista, era "forte", no interior quem tem um bucho um pouco proeminente é logo "forte", possuía um bigode digno de um general, e além de tudo isso ele andava com um 38 meio graúdo na cintura, esse penduricalho parecia que fazia parte do seu corpo, não se desgrudavam nem um só minuto. Apesar apesar dessa força ele era uma pessoa ágil pois montava bem e até chegava a dar umas quedas nuns garrotes em dias de pega de boi no mato.
Pois bem, Bigodão passou pouco tempo nessa fazenda, mas mesmo assim praticou feitos que merecem ser contados por aí. Bigodão era muito misterioso, parecia que tinha saído de um filme de faroeste americano. Foi contratado para fazer a segurança da fazenda, não trouxe mulher nem filhos, aliás é logo aí onde começa o mistério. Bigodão sempre mostrou a todos da fazenda um revólver novinho que ele guardava numa caixa, enrolado numa flanela vermelha e uma bala e todo dia ele limpava esse trabuco.
O que todos sabiam e ele confirmava, é que esse aparato estava guardado para ser usado contra um homem que havia matado o seu único filho com pauladas num bar, apenas por causa de um esbarrão da criança. Quando essa conversa se espalhou na região, Bigodão ficou logo respeitado, e fora isso, o cabra tinha uma mira espantosa com todo tipo de arma. Cachorro e gato nessa fazenda era mais difícil de ver do que orelha de freira, Bigodão acabava com tudo.
Apesar dessa fama os funcionários da fazenda gostavam muito dele e eu também, porque além de estarmos protegidos da violência que vem aumentando assustadoramente no meio rural potiguar, ele era uma pessoa muito tranquila, divertida e muito trabalhador. Até hoje eu acho que Bigodão não dormia, passava o dia todo montado num cavalo vigiando os cercados e a noite toda vigiando a casa e as instalações, o homem andava pelas sombras, quase invisível.
Foi aí que veio a primeira presepada de Bigodão, e logo comigo. Houve uma época em que uns fugitivos de uma cadeia da Paraíba estavam praticando roubos e até assassinatos na região próxima a fazenda onde eu e Bigodão trabalhávamos. Numa noite de sábado teve um jantar na casa do prefeito e eu fui convidado. Muita comida, muita bebida, um ótimo papo, e o tempo se passando, lá pras três e meia da madrugada eu resolvo voltar para a fazenda que fica a seis quilômetros da cidade.
Seis quilômetros para quem está de carro não é nada, mas para está num fusca 77, com farol queimado e carburador entupido, rende que só a bixiga. Ao chegar à fazenda, morrendo de medo, parei o fusca na garagem e olhei bem para todos os lados: como não vi ninguém, desci um pouco aliviado mas ainda com medo. De repente, do meio da escuridão uma mão bate no meu ombro... não caguei porque não tinha nada pronto, se tivesse era ali mesmo. Quando me viro estava Bigodão rindo, com um revólver na cintura, uma espingarda na mão e uma faca na cinta, a faca nem faz diferença porque quase todo trabalhador rural gosta muito de uma amiguinha dessas na cinta.
Ainda trêmulo do susto eu abri a porta da cozinha e chamei Bigodão para tomar um cafezinho, era um homem muito respeitador, não quis entrar de jeito nenhum mas aceitou beber o café do lado de fora, perguntei de onde ele vinha para estar ali na garagem numa hora daquelas, foi aí minha grande surpresa. Bigodão, homem temido, melhor mira da região, movido por uma vingança... fez cara de choro!
- Que foi Carlos? -perguntei.
-Seu Adigá, eu vou mimbora, num tô mais agüentando isso.
Eu pensei que ele tinha matado alguém ou estava sendo perseguido e insisti na pergunta. Ele me contou que pouco antes da minha chegada tinha atirado e matado uma gata, pegado o corpo do animal e jogado num fogo onde ele queimava o lixo todas as noites, ao voltar para casa escutara miados e ruídos atrás de umas telhas num canto de parede, ao afastá-las viu cinco gatinhos recém-nascidos, e agora, órfãos.
Isso tinha dilacerado seu coração. Fiquei sem reação quando vi aquela figura de homem sem coração se martirizando por causa de gatinhos, tentei disfarçar e já bastante curioso perguntei qual fora a sua atitude quando viu aquilo. Sabem o que ele me disse?
- Seu Adigá... eu num pudia dexá aqueles bixim sem mãe. Peguei tudim num saco e joguei no fogo pra eles morrer tudo junto. Pelu menos num fica ninguém sofrendo.Fiquei estupefato. O que dizer? A única coisa que veio na minha cabeça foi:
- É Carlos. Você é um homem bom. Depois dessa noite, passei a ver Bigodão de uma forma diferente. Bem diferente.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006
Menores não, crianças isso sim
depois de ler Garcia Lorca.”
(Ian Gibson, historiador irlandês)
O jargão assistencial das entidades governamentais consagrou a expressão “menor infrator” para designar as crianças, meninos e meninas que vivem pelas ruas, autores de pequenos furtos ou outras atitudes que a lei penal tipifica como crimes.
As duas palavras, “menor infrator”, na verdade, escondem uma atitude de discriminação e funcionam como a máscara que a sociedade impõe e afivela nos rostos dessas crianças que vivem nas marquises e se alimentam de restos, festejando com crack sua existência vazia.
Ninguém diz que é pai de “um menor”. Não. Todos dizem que são pais de crianças ou até mesmo aborrecentes, quando se referem às travessuras, petulâncias ou à inconformidade, tão natural aos jovens. “Aborrecentes” é, digamos, no máximo, uma adorável e terna reclamação. Nada mais que isso.
Mas, quando se vêem meninos e meninas participando de alguma revolta nessas casas de recolhimento, a palavra oficial os chama de menores infratores ou, como se dizia mais antigamente, meninos de Febem.A sociedade tem uma grande dívida para com esses jovens.
Ela os gera nas favelas e nos guetos de onde saem para as ruas, armados com sua raiva, sua perplexidade, seu medo, sua vontade de dar o troco.
E o troco que eles dão ao salário da miséria chega como nos diz aquela lei da física: a toda uma ação corresponde uma reação, em sentido igual e contrária. É o Talião da miséria, que cobra fome com crime e desamparo com violência.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006
"Corre, que o homem tá doido..."
(Monserrat Caballé, soprano espanhola)
Redação da Tribuna do Norte, 20h de uma noite qualquer, de um mês qualquer do segundo semestre de 1980. Os trabalhos prosseguiam normais, ou seja: fervenedo, a um grau da loucura, para fechar o jornal. “Fechar”, em jornalês, não tem o significado comum e rotineiro, por exemplo, de fechar uma loja, ou algo assim.
Fechar, em jornalês, indica até mesmo puerpério, aquele estado em que a mulher pode ser levada a fazer tudo, até mesmo matar o filho recém-nascido. É o parto da notícia. Tudo é pressa, exatidão, presença. Tudo tem que ser preciso, improviso perfeito, tiro de atirador de elite, certeiro e fulminante.
Pois bem, foi num ambiente assim, que, repentinamente, alguém gritou: “Corre, que o homem tá doido!” Nessa época, as redações eram movidas à máquina da escrever e não a computadores. A neurótica sinfonia das máquinas matraqueando inundava a grande sala com um som de que hoje tenho saudades.
Era um parapapá que chegava a ensurdecer. Bem diverso dos computadores de hoje, com suas teclas macias e educadas.
Mas, voltando à cena: o homem, sem camisa, desesperado, suado, louco, gritava alucinadamente. E assim ele invadiu a redação. Eu me virei para Moacir, o diagramador chefe que comigo fechava a primeira página e perguntei arregalado: “O que diabo é isso?”, e o velho Moa, impassível, simplesmente respondeu, dando de ombros: “E eu sei lá?” - e continuou a fechar uma página.
Nesse momento, uma pequena multidão se preparava para invadir o jornal. Coisa de louco, coisa de louco. E atrás do homem, também endiabrado, vinha o vigilante do jornal. Desarmado (a direção não aceitava vigilantes trabalhando armados), o pobre homem muniu-se de um pau que servia para guardar jornais e desceu imediatamente, para enfrentar os invasores e expulsá-los.
“O que diabo é isso?”, gritei, já então no meio da redação. Ninguém sabia responder. Enquanto isso, o fugitivo se escondia na sala dos fotógrafos, melhor dizendo, no laboratório. Não sei exatamente como, o vigilante conseguiu conter os atacantes e eles recuaram, desceram as escadas e se dispersaram na noite da Ribeira.
Todos mais calmos, descobri o motivo do misterioso - e estrepitoso - acontecimento: o fugitivo havia espancado seu pai, nas Rocas. Uma dessas brigas de família, as famosas brigas-de-ponta-de-rua, que havia degenerado num quebra-quebra espetacular dentro de casa. Os vizinhos ouviram o barulho da quebradeira, descobriram que o velho tinha sido espancado e, revoltados, partiram para o linchamento do malsinado filho. Paus e pedras contra ele.
O sujeito correu das Rocas até a Ribeira, rápido como um maldito, buscou esconderijo nas portas da Tribuna e explodiu bem no meio da redação como uma bomba humana enlouquecida.
Depois, controlado o acontecimento, não sei como, pelo vigilante, e sabidas as causas do acontecimento, acompanhei do sujeito até a saída e perguntei: “E agora?”. Ele respondeu, olhando para um lado e para o outro, para ver se ainda restava alguém: “Sei não, mas, outra, pra mais nunca.”
Apertei-lhe a mão e desejei boa sorte. E comigo, mesmo, concordava: “E eu também. Outra, pra mais nunca...”
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006
Felicidade, estranha felicidade...
entende aqueles que governa.”
(Autor desconhecido)
(Crônica baseada em fato que presenciei)
A cena poderia ser tomada por bizarra, se, no fundo, não fosse bela. Humanamente bela: em sua pobreza, em sua espontaneidade, em sua exuberância, em sua despreocupação com o amanhã - essa data sem número e sem dia certo e que parece nunca chegar.Mas eles estavam ali, o casal estava ali, vivendo seus momentos intensos em meio ao trânsito do Centro, como se tudo, todos, o mundo, aqueles carros, tivessem sido feitos para testemunhar o seu amor.
Ele, um lavador de carros, maltrapilho, analfabeto, estava feliz, na companhia da mulher, que, claro, para ele, era a mais linda do mundo. Cabelos maltratados, duros como arame, vestido roto de pano ruim, um sorriso perdido na boca sem batom, aquela cinderela sem sapatos sentia-se plena.
E tudo porque ela se sentia amada, desejada, possuída, dona de casa. Uma casa grande, sem paredes, sem teto, sem móveis, sem nada, mas toda dela. A casa dos dois era nada mais nada menos que o Grande Ponto, o Centro da Cidade.Mas, sua propriedade se estendia muito mais e muito acima do que ter aquela casa de nada, que era deles.
Eles eram donos do movimento da Cidade, das buzinadas, das sarjetas, do lixo, dos cães vadios que velavam seus sonhos de sombras e barrigas vazias, sob a proteção ridícula das marquises. Mais que isso, eles eram donos das pessoas. Sim, todos, todos no mundo, existiam para, podendo, passar no Grande Ponto e assim serem vistos pelo casal. Todos eram passageiros, somente eles ficavam.
Eu vi esse casal várias vezes, sua alegria vazia, seus abraços, seus passeios pelas calçadas do Centro, mãos dadas, rindo, felizes com sua própria idéia de felicidade. Sim, porque aquele casal vivia num mundo paralelo e era feliz em relação a si mesmo.Eles não precisavam da nossa felicidade, convencional, distante, arrogante, jamais vista e sempre oculta.
Uma felicidade de segundas intenções. Não sei durante quantos dias vi esse casal ( e isso já faz muitos anos), mas sei que sua alegria era tão forte, tão marcadamente vigorosa, que não precisava de dinheiro para ser sentida.
Depois, eles sumiram, há anos. E às vezes, andando pelas ruas do Centro, tenho a impressão de que, de repente, vai aparecer aquele sujeito mal vestido, acompanhado por uma mulher sem batom. E eu vou olhar para eles e dizer: “Quando fizeram bodas de ouro, eu quero ser o padrinho.”
sábado, 4 de fevereiro de 2006
Deadline, a linha da morte no jornalismo
comprar um cemitério."
(Assis Chateaubriand, ao comprar e recuperar o jornal Estado de Minas)
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006
O crime do Vectra prateado
A elegante mulher desceu do carro prateado, deixou o motor ligado, foi até a favela do Maruim e parou aquele mundo de dor e lama: ali ninguém entendia o que uma senhora tão distinta, tão bonita, tão fina, fazia em meio a tanta pobreza, sujeira, lodo. Simples: ela procurava Dona Maria Oduvalda, até que ouviu: “Está falando com ela.” Sem esperar mais um segundo a mulher sacou uma pequena pistola da bolsa, mirou a mulher e acertou-a no meio da testa.
A assassina correu, enquanto todos ficavam paralisados. Entrou no carro e fugiu. O crime do Vectra prateado, como o caso ficou conhecido, abalou Natal não apenas pelo fato em si, mas pelo envolvimento dos personagens, o confronto social, a elegância criminosa e a miséria ofendida, indefesa e morta.
Alguém anotou a placa? Não, ninguém anotara a placa, tal o pandemônio estabelecido na favela do Maruim. Mas na cidadde somente se falava na bela e seu Vectra fulminante. Passaram-se 15 dias, os jornais quase não tinham mais títulos para continuar segurando o assunto, até que ela pegou o telefone e ligou para o Delegado Eudóxio: “Doutor, amanhã vou me apresentar ao senhor. Matei aquele mulher. Não, não, não pergunte o meu nome. Apenas me espere às três da tarde que irei, sem escolta e sem medo, a seu gabinete.”
Dia seguinte, no horário aprazado, a elegante mulher chegou à Delegacia e foi direto à sala do delegado Eudóxio. Ele: “E então, por que a senhora matou aquela pobre mulher?” Ela disparou resposta aguda como lâmina de florete: “Matei porque ela era minha mãe.”
“Como?”, disse o delegado, que quase saltou da cadeira. Como seria possível que aquela mulher, finíssima, fosse filha de uma velha miserável, moradora da favela do Maruim? Ela explicou: a velha Oduvalda, viciada em álcool e faminta, a havia vendido ainda bebê a uma respeitável família natalense, família rica, porém impossibilitada de ter filhos.
Oduvalda, bonita à época, disputada por todos os cafajestes da área, havia conseguido um bom dinheiro com a venda da criança e gastou todo ele em cachaça.
“Mas ela não lhe fez um bem? Não é hoje a senhora uma mulher rica, educada, bem de vida, tranqüila até o último dos seus dias?”, quis saber o delegado.
“Sim”, ela respondeu e arremessou uma rajada de palavras: "Mas não se vende uma filha; não se vende uma menina." E apontando sua pequena pistola para o Delegado, já que ninguém tivera a idéia de revistá-la quando entrava, disse: “Quanto ao senhor, pode querer me prender, mas não tem o direito de prender a menina que ainda existe em mim.” E atirou.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006
Dai ao povo pão e circo
tem certidão de nascimento e fome.”
(De uma mãe pobre)
Certa vez, como repórter, eu cobria a inauguração da sede de uma entidade assistencialista. Era um sábado de sol forte. Um sol que, dependendo da situação, poderia ser tido por uns como caliente e estimulante, charmoso, um sol com gosto de Jamaica. Outros, quem sabe, o chamariam de tórrido, ou como já se usou dizer, capaz de provocar um calor senegalês.
E o povo chegando, chegando, chegando, se aglomerando numa grande mancha morena e suarenta. E vieram as tais autoridades civis, militares e eclesiásticas. Os políticos falaram, os grandes empresários jactaram-se do grande serviço prestado à comunidade. Enfim, todos, cada um dos falantes cumpriu o seu papel, enaltecendo o feito, ali mostrado em cal, pedra, cimento armado e sol, mas muito sol.
Onze e meia da manhã e começou a circular cerveja servida em copo de plástico, tira-gostos grosseiros vasculhavam até o céu-da-boca das bocas famintas. Alegria, a malta suava e vibrava. Nisso, uma banda, que naquele tempo era chamada de conjunto musical, ataca seu som vibrante e seco, jogando no ar acordes vulgares.
Um sorriso enorme, um sorriso daqueles do gato risonho de Alice-no-País-das-Maravilhas achegou-se a todas as bocas: as alegres, as desdentadas, as bocas das moças bonitas e pobres. Um sorriso de ocasião, plenamente compatível com tão vulgar acontecimento.
Eu e um colega jornalista estávamos numa espécie de mezanino, dali observando a cena, quando ele comentou: “Veja, Barreto, como é fácil ter o povo na mão. Como é fácil espremer alegria dessas pessoas.”
Era já então meio dia. O sol fez rebrilhar seus melhores e mais fortes raios, inundando aqueles corpos de suor e expandindo, em cada músculo, em cada parte daqueles corpos que dançavam aquela festa na verdade tão rude, um sentimento de satisfação braçal, embora maquiada de bons pensamentos de promoção social.
E aquele povo dançou, ah!, como dançou. Dançou até enxugar de si todo aquele convescote feito sob medida para os necessitados de pão e circo.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006
Mil léguas de dor
E o fazem com grande assiduidade.”
(No programa Pequenas Empresas, Grande Negócios)
O drama da seca tem sido retratado historicamente com pleno vigor nos jornalísticos televisivos, bem como em jornais impressos. A cada repetição das longas estiagens são apresentadas matérias dramáticas sob todos os aspectos, mostrando por dentro o sofrimento do sertanejo, bebendo uma água de qualidade indigna até mesmo para animais. Agora, comovente é a coragem do povo, confiando em Deus, certo de que um dia os poderes celestiais resgatarão os pobres da seca. E o noticiário já fala que 2006 não terá boas chuvas. Temo que as velhas imagens se repetirão.
Famílias humildes, famintas, cansadas, caminhando léguas, para obter um pouco de água barrenta, a fim de cozinhar o pouco que lhes resta de comida, beber e tomar banho. São as léguas de dor do nordestino, cansado, sofrido, mas resistindo a tudo, com a coragem do mandacaru e a decisão de ferro dos pés de jurema: jamais cair.
Admirável fé, férrea confiança, só que, nesse caso, objetivamente, os poderes divinos, que ante o olhar do povo são capazes de tantos milagres, em nada podem interferir, uma vez que a seca é fenômeno meramente natural e, para seu enfrentamento, exige-se a participação de alguém que nada tem de divino ou essencialmente bondoso: a presença da chamada classe política e a decisão de fazer cessar a seca pela ação do homem.
Aqui no Rio Grande do Norte, o Governo Garibaldi Filho desenvolveu uma ação louvável, com essa questão da água, através de um programa de adutoras. Mas isso não solucionou os desdobramentos sociais da seca. Geopoliticamente, a situação é dramática e insustentável; tanto quando há centenas de anos, é idêntica certamente à sede sofrida pelas populações que se embrenhavam na caatinga, povoando o Nordeste.
Há bem pouco tempo falou-se muito na transposição de águas do rio São Francisco, mas é solução questionável, uma vez que o Velho Chico está sofrendo um sério processo de assoreamento e pode haver consequências desastrosas, caso o trabalho não seja feito com extrema cautela. Havendo falhas, acaba-se com o rio e não se tem água para as áreas que precisam dessa transposição.
O que falta é visão histórica, o que falta é compromisso, é decisão de fazer pelo Nordeste como um todo. Por que o Governo federal não traz à região propostas amplas de enfrentamento da seca, acionando políticas eficazes para a convivência do homem com a longa estiagem? Reforma agrária, uma política de águas e assistência agrícolas a assentamentos poderiam fazer parte desse leque de ações.Por que, por que não há uma ação programada para se desenvolver segundo o compasso histórico?
Serão essas perguntas de alta indagação filosófica? Questionamentos tão terrivelmente intricados que não se possa pelo menos balbuciar uma resposta qualquer? Não sei. Mas creio que não.
O problema é que não há realmente um grande interesse em dar ao sertanejo a oportunidade de enfrentar a falta da água que cai do céu.
Ou então, se quer dar aos homens e mulheres do campo unicamente a chance de mostrar que têm fé.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2006
A árvore que morreu
(Os gladiadores, quando adentravam à arena)
Havia ali, em frente à AABB, no canteiro central da avenida Hermes da Fonseca, uma árvore. Não muito alta, tronco fino, meio caída de lado, ela tivera cortados todos os galhos e retirada do seu corpo vegetal toda a beleza das folhas. Mas aquela árvore, velha e reduzida à condição de feia, insistia em viver. E, aos poucos, dia a dia, fazia renascer os brotos dos galhos, como quem avisava aos humanos que não queria morrer.
De alguma maneira isso chamou minha atenção e passei , todo dia, a observar aquela árvore. Via que os galhinhos recomeçavam o trabalho da natureza, de nascer e crescer. Mas, logo vinha alguém, algum assassino impune, e desbastava novamente a árvore. Que insistia em sua luta pela vida e reverdecia outra vez. E assim seguia aquele combate. Silencioso, estranho, semanal.
Minha expectativa aumentava, toda vez que notava uma nova agressão. Certa vez, até que ela conseguiu: exibia, vistosa, galhos já mais ou menos crescidos, de um verde brilhante e vivo, forte e sincero. Era quase uma emoção, um grito contido de vitória: ela pensava, certamente, em suas entranhas vegetais, que iria renascer.
Animei-me: pronto; agora ela ia mesmo crescer, espalhar seu verde, fazer sombra, alegrar a vista, que é esse o destino das árvores. Até que, um dia, tudo foi cortado, podado, decepado, riscado do mapa sentimental do canteiro da avenida: o assassino havia voltado, certamente à noite, disfarçado de passante, e simplesmente havia derrubado a árvore. Nem mesmo seu tronco indefeso era mais visto. Um vazio ocupava, na minha vista, no meu território da emoção, o seu lugar.
Não sei, mas creio que essa árvore não morreu. Eu acho que essa árvore foi para o céu...
domingo, 29 de janeiro de 2006
"Helenita...Helenita..."
precisam ser aperfeiçoadas.”
(Pelé)
Havia, na rodoviária velha, Ribeira, velha Ribeira, uma pobre louca que falava sozinha. Falava com seres invisíveis, pessoas que habitavam seu mundo, seu único, inacessível e paralelo mundo. Nunca consegui saber seu nome, enquanto, à noite, às vezes altas horas da noite, depois do expediente no jornal, esperava o ônibus para ir para casa.
Sozinha, sentada a um banco, cercada de pacotes mal arrumados, falava, falava muito, gesticulava, discutia, irritava-se, reclamava, pedia, e, creio, era até atendida pelos seus amigos invisíveis. Sim, pois, de vez em quando, se abria em sorrisos da mais esmerada simplicidade.
E eu ali, lendo algum jornal, mas com um olho naquela cena. A estranha, inesperada personagem, em pleno devaneio de vida, esquecida ao mundo, entretida em si mesma, pobre imagem de uma vida aparentemente em vão. Eu disse aparentemente em vão.
E vinha o frio da noite, aquela brisa da Ribeira, brisa fugitiva do Potengi, trazendo em seu corpo de nada o cheiro do mar, mar e vida, maresia, mar-Ribeira. Passavam vultos escusos, caminheiros da noite, uma ou outra radiopatrulha, vagabundos sonolentos, bêbados equilibristas. E eu, um pouco de tudo isso.
E ela falando, sozinha. Falando, falando, coitada: feliz. Calada para o mundo, alerta para si. E uma de suas amigas mais amigas, íntima, conciliatória e cúmplice era...Helenita. Sim, Helenita. Helenita, a invisível, impalpável, mas, viva. Viva para a louca, presente em sua presença.
E ela dizia: “Se acalma, Helenita. Deixa de coisa, mulher. Deixa de dizer besteira... Helenitaaaaaa....” E, gesto brusco de mão morena, dava um tapão no ombro intangível da mulher. E ria, ria, gargalhava quando a outra parecia revidar, ali, na penumbra encardida da rodoviária velha. Ali, naquele ponto de encontro das gentes noturnas.
Ah, que mundo maluco e bom, o daquela louca. E lá vinha o ônibus: pesadão, cansado, velho, luzes fracas, salão de luz mortiça, passageiros tombando de sono, cabeças balouçantes, corpos vivos pendentes de cansaço. Eu entrava no sacolejo do veículo lerdo e lá me ia, deixando para trás Helenita e a louca.
Às vezes meu instinto de repórter me chama a voltar à Ribeira para ver se ainda as encontro. Helenita eu já conheço. Sei que é estabanada, brincalhona, faceira, gosta de falar besteira, não é mesmo? Helenita eu já conheço: mas se fosse possível voltar, gostaria de saber o que a louca tem a dizer sobre o mundo de hoje. Acho que ela ia preferir ficar no mundo de Helenita.
sábado, 28 de janeiro de 2006
Um sax para a lua
Sanderson, logo que assumiu o cargo, criou o que haveria de ser chamado de "Encontros com o povo", uma maneira simples e eficaz de cumprir com o seu projeto: TM, como o Governadors era chamado nas manchetes, às comunidades humildes. Ali, Tarcísio inspecionaria obras, falaria com os homens, com as donas de casa, com as crianças.
Um desses primeiros encontros ocorreu em Mãe Luíza. Foi tudo às mil maravilhas. Tarcísio, feliz, apertava a mão de um e de outro, ouvia reclamos, tomava providências na hora. Depois, os encontros foram estendidos ao interior. Então, numa bela manhã de sábado, Tarcísio seguiu a Carnaúba dos Dantas, onde faria a inauguração de uma estradinha que ligava o pequeno município a uma grande rodovia.
Eu viajava num carro da assessoria de imprensa, colocado à disposição dos jornalistas. Eu era da Tribuna do Norte e Dermi Azevedo representava o Diário de Natal. O carro do governador seguia a exatíssimos 80 quilômetros por hora, velocidade máxima então permitida . Antônio Melo, assessor de imprensa, comentou conosco: “Vejam bem, o Governador não permite que se corra a mais.”
Chegamos afinal à cidade, que à época, sequer dispunha de hotel. O prefeito cedeu sua casa ao Governador e comitiva. À noite, assistimos a um literalmente grandioso espetáculo na igreja do lugar: um coro de vozes femininas entoava músicas sacras, compostas e regidas por ninguém menos que o maestro Felinto Lúcio, enquanto a missa prosseguia.
Eu não havia notado o coral, até ser envolvido por aquele som, ao mesmo tempo arrebatador e singelo, supremo e sublime. Felinto regia como que tomado pelas mãos de Deus. A música fluía de si, e refulgiava na igrejinha iluminada. Uma vigorosa alegria da fé se espalhava pela noite do sertão.Terminada a missa, uma quermesse aguardava o Governador, centro de todas as atenções. Tarcísio, frugal, retirou-se cedo da festa.
Acompanhamos o Governador. E ficamos, eu e Dermi, na sala principal da casa, conversando. De repente, em meio a um luar desse tamanho, ouvimos música: era um sax, acompanhado pelo suave rufar de um tambor. Eram dois músicos, de uma banda vinda de uma cidade paraibana para uma retreta em Carnaúba dos Dantas. Paramos a conversa para ouvir em silêncio.
Fardados, o saxofonista e o homem da caixa caminhavam à luz fria da lua. Um vento tímido palmilhava a rua, em respeitoso movimento aéreo. À frente, o instrumento tocava uma música calma, tão calma e tão tenra como o orvalho que começava a chegar às flores do campo. Fiquei parado, melhor paralisado à janela, olhos cravados na cena.
Tocavam Royal Cinema, composta por Tonheca Dantas, irmão do maestro que, fala-se, teria composiões suas tocadas até na Capela Sistina, Vaticano. Na verdade, tocavam o sentimento da humanidade, compassados à presença profunda do luar tão branco. E foram passando, passando, passando, deixando atrás de si a música e logo após ela o silêncio da cidade que dormia ninada pelos dons dos que estão em paz.
Carnaúba dos Dantas. Quando um dia eu voltar, quero encontrar de novo aquela música. Sei que ela está me esperando, oculta em alguma esquina, quem sabe escondida em alguma longa dobra do tempo, tocando em surdina para o sertão ouvir.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2006
O terror como espetáculo
forma de genialidade."
(Oscar Wilde)
Tanto quanto produzir efeitos danosos, material e humanamente falando, os atos de terrorismo têm por objetivo funcionar como discurso, amplificado e reproduzido pela mídia. Daí porque o 11 de setembro de 2001, o atentato ao metrô de Madri, as explosões de homens-bomba em Israel. A lista seria enorme. Para o terrorista, é preciso que o fato literalmente exploda na TV, na manchete jornalística, no visor da Internet, a fim de que o atentado esteja plenamente consumado. Sem a publicidade, o efeito rumoroso da bomba inexistiria. O terror, para si e para os outros, é a mais terrível forma de espetáculo midiático.
É preciso que o ato obtenha o efeito social maior que é exatamente esse: aterrorizar. É preciso levar pânico, incerteza, temor, insegurança, expectativa angustiante a respeito de quando haverá uma nova e insidiosa agressão. E mais: agressão que atingirá inocentes, pessoas que seguem seu cotidiano, alguém que apenas vai passando e morre pela explosão de uma bomba. O terror precisa dizer: eu não tenho medidas, não tenho limites éticos, compaixão ou racionalidade.
E o jornalismo diz: eu preciso informar, as pessoas têm o direito de saber o que está se passando. Assim, firma-se um conjunto comunicacional de, literalmente, alta potência: o atentado e a sua apresentação via meios de comunicação de massa. Quando chegamos a esse aspecto, vale uma reflexão, uma vez que os efeitos perversos do terrorismo se expandem exatamente pelo jornalismo quando este, na missão de informar, termina servindo de haste complementar ao atentado.
De outra parte, não há como o jornalismo silenciar, pois o silêncio terminaria colaborando com o terror.
Na verdade, estamos falando de uma realidade complexa, de muitas faces e outras tantas interligações. O jornalismo não é um dado de mundo isolado do mundo, como uma casinha lá nos mais distantes sertões. O jornalismo é parte de um intricado processo social e, como tem por missão relatar o mundo, acaba sendo absorvido pelos fatos que re-trata, como num doloroso e contínuo moto perpétuo.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2006
Cascudo e o lobisomem
(Palavras do filosófo Immanuel Kant, pouco antes de morrer)
Uma das coisas que mais gostava de fazer, quando repórter da editoria de Geral, era entrevistar Luís da Câmara Cascudo, o Mestre Luís da Câmara Cascudo. Dali, de sua casa na grande subida da Junqueira Ayres, o Professor via o Potengi amado e descortinava todo um mundo de lendas, mistérios, cantigas e danças, credos e medos que o Homem tem guardado dentro de si.
Certa vez, pautado para entrevistar o Professor, terminamos falando exatamente sobre lendas e crendices populares. As coisas do povo, a fé do povo, o medo irracional que nos acompanha a todos e se aflora nos momentos de tensão ou insegurança.
Ele me falou do saci-pererê, disse que o molequinho, em tempos outros, fizera muito medo a muitos e comparou essas épocas passadas com o tempo em que a entrevista transcorria (anos 70) e lembrou: o medo do saci, se transformara no medo da perda do emprego, no terror da inflação que, à época, roía o país.
Explicou o Mestre que o medo persiste, somente se apresenta sob formas variadas, dependendo do estágio em que se encontre uma certa sociedade. E vieram outras lendas, a caipora, o bicho-papão, a mãe d’água, a boitatá, o lobisomem, ah, o lobisomem.
Sobre a boitatá - me lembro como se fosse hoje - ele comentou: “ Bicho grande, cobrona que brilha de noite, iluminada toda pela luz dos olhos dos bichos que já comeu. Os olhos ficam brilhando dentro da cobra, meu filho...E disso o povo tinha medo, nisso o povo acreditava.” E completou: “Hoje, a boitatá é a inflação”, e deu uma de suas gargalhadas, todo ele envolto na fumaça do charuto.
Sentado em sua cadeira de espaldar alto, largos apoios para os braços, o Professor foi servido de água por Dona Dhália, sua mulher, virou-se para mim e disse: “Já estou quase mandando você baixar em outro terreiro” (era com essa expressão que ele gaiatamente expulsava seus entrevistadores). E disparou de letra: “O que mais você quer saber?”
Respondi em cima: “Professor, o senhor tem medo de lobisomem?” Sorrindo, após mais um fumarento aspirar do charuto, respondeu e sua voz tinha um tom sombrio, pesado sortilégio de quem sabe de tudo:
“Não, meu filho, não. Aqui dentro desta casa, sentado em minha cadeira, nesta cidade do Natal, sob a proteção das luzes que nos cercam, digo a você que não. Mas no sertão, numa noite de lua, numa sexta-feira aziaga, a cruviana me rondando, sim. Numa hora dessas meu filho, eu tenho medo de lobisomem. E agora, vá baixar noutro terreiro.”
terça-feira, 24 de janeiro de 2006
A casa da noite eterna
mesma que apedreja.”
(Augusto dos Anjos)
Em crônica anterior contei como um maníaco, José Vilarim Neto, quase extermina toda uma família. Durante um acesso de desequilíbrio matou duas irmãs, a avó destas e uma empregadinha grávida. Praticou necrofilia com um dos corpos, cavou um grande buraco no quintal da Granja Capim Macio, onde ocorreram os crimes, e depois esperou para matar a mãe da família, a alemã Ruth Looman e a sua filha mais nova. Ela e a menina conseguiram sobreviver, após brutal luta da mulher com o Monstro de Capim Macio, como ele então ficou conhecido.
Se você rolar a página, logo abaixo encontrará a primeira crônica.
Hoje, contarei como, cerca de 20 anos após os crimes, voltei ao local para uma nova matéria, numa nova tragédia, ocorrida ali, na Granja Capim Macio, um local habitado pela dor.
Fazendo uma viagem no tempo, vamos retroceder: eram seis horas da manhã de um dia entre janeiro a março de 1975, quando a Kombi do Diário esbarrou à minha porta, com a buzina aos berros. De dentro do carro saltou o magérrimo, capetíssimo, elétrico fotógrafo Paulo Saulo, cuja máquina há muito parou de bater.
“Barreto, vamos lá em Capim Macio, que mataram gente como o diabo” , foi logo avisando. Detalhe: eu tinha, no máximo, cinco meses de jornalismo e a matéria era muito difícil. Requeria: frieza para ver cenas de sangue, calma para anotar os dados, fontes na polícia, habilidade para entrevistar – sem chocar – os familiares sofridos e revoltados, faro para captar coisas que os outros jornalistass não estivessem vendo e, afinal, rapidez para fazer tudo isso, voltar à redação e produzir o melhor texto possível. E essa prática eu não tinha.
Em cinco meses de jornal você não desenvolveu ainda todas essas qualidades, que somente se aperfeiçoam com o passar do tempo. O jornalista Cassiano Arruda me deu umas instruções, dizendo que a matéria deveria ser romanceada, ou seja: evitar o jargão típico do noticiário, a notícia seca, concisa, optando-se por um tratamento tipo história, com começo, meio e fim. Esse artifício permite captar toda a emoção dos fatos e dar ao leitor a sensação de visualizar a cena. É técnica eminentemente literária, exige prática. E essa prática eu também não tinha.
Eu outras palavras: eu estava perdido.
Depois de falar com Cassiano, na redação, meti-me na Kombi e fui até a cena dos crimes. Vi o buraco onde Vilarim havia jogado os corpos sofridos de suas vítimas, vi o rifle de cano partido por Ruth, na luta grotesca. Senti o sofrimento da família e, ao dar-me conta de mim, estava completamente desorientado: como eu ficava mais na redação e o repórter Pepe dos Santos fazia campo, eu não tinha fontes policiais e isso era suficiente para prejudicar a coleta de dados.
Piorando a situação: ninguém da família para falar. Aí, dei sorte: ao encostar-me ao lado da porta, duas senhoras, certamente muito amigas da família, conversavam a respeito dos crimes. E não é que elas sabiam de toda a história, até mesmo com detalhes? Foi só acalmar os nervos e anotar, silenciosamente, todo o drama, relatado na crônica anterior e sintetizado na abertura deste texto. Pouco depois um delegado deu uma entrevista coletiva e confirmou o que eu havia anotado.
Vinte anos depois
O tempo passou, eu deixei o Diário, cumpri outras missões. Mas, nos caminhos e descaminhos da vida, eis-me de volta ao Diário, cerca de 20 anos depois. E não mais como homem de polícia, mas editor do noticiário de Cidade. E um dia, não é que ouço o mesmo Pepe dos Santos dizer que, na casa onde fora a Granja Capim Macio tinham havido mais dois crimes?
Os crimes, conhecidos no noticiário como “O crime do pé-de-lã”, tinham acontecido há tempos, bem antes do meu retorno ao Diário, mas a descoberta de que foram na mesma granja eram o detalhe de valor, o lance de qualidade da matéria, o rastro de sangue se espalhando pelo tempo.
Pepe estava indo para o local. E aí me meti na conversa: “Espere, Pepe. O repórter dessa matéria sou eu. Vamos voltar à granja, para ver como ficou, qual o clima que existe por lá.”
Fomos.
Chegamos.
Mas, aí, as coisas já estavam bem diferentes: Capim Macio já não mais era o bairro silvestre de há 20 anos. Ao redor da casa outras casas, e ruas, e becos, e pessoas passando. Nada mais da bela granja, uma casa aprazível, preguiçosa, que convidava a uma convenção de redes, brisas e luar. Não havia mais a sensação de se estar entrando num pequeno bosque, para se chegar a uma casinha, lá longe, escondida. Assim era a Granja Capim Macio.
A casa fora destruída e em seu lugar existia uma construção de arquitetura medíocre, tijolo por tijolo, a mísera estética da gravidade. Só. De modo algum reconheci a granja, mas, Pepe, sim: “É aqui mesmo”, garantiu. Pensamos em entrar, mas tememos que houvesse cães. Criamos coragem, entramos. Passo a passo, esperando o suposto e temido ataque. Mas não havia cães. Encontramos na casa apenas uma solidão que falava através de dobradiças que rangiam. Um vento frio cortava salas e o corredor. O chão parecia sofrer, ao ser pisado. Era como que um processo de sufocação, um clima de abandono, o abandono dos acorrentados.
Ali, naquela casa, havia morado um casal. Isso, anos depois da tragédia de Ruth e Vilarim. Resumindo o caso, o segundo caso, foi assim: o marido era trabalhador do petróleo e descobriu que em suas ausências era traído pela mulher. Um dia fez que ia sair mas não foi, voltou de surpresa à casa, flagrou e trucidou a mulher e o amante em meio a grande luta. Sangue, muito sangue. Era o destino daquela casa: dor, sofrimento, gritos, gritos na noite eterna de tudo o que não compreendemos.
Fiz minha anotações, agora já tão senhor dos fatos, preparado, bem diferente do repórter de há 20 anos atrás, tonto, sem uma só fonte policial. Eu disse: “Vamos embora? Já acabei.” Pepe concordou, com um sinal de cabeça. Os registros que eu fizera descreviam a atmosfera, o ambiente, a alma da casa, sua essência acabrunhada. Não havia personagens, somente a solidão e o silêncio ajudariam a compor o texto... O gancho da matéria era a coincidência de tantos crimes num mesmo lugar. Dei por encerrado o trabalho e fomos embora.
Quando saímos, bati o portão da rua com força, como quem quer deixar para trás um passado que não vale a pena. Caminhava para a Kombi, quando tive a impressão de ter ouvido, longe, baixinho, uma gargalhada. Mas, sabe?, acho que foi só impressão... Espero...
sábado, 21 de janeiro de 2006
O Monstro de Capim Macio
José Vilarim Neto, esse o seu nome, morava em Capim Macio, numa granja (veja só: uma granja em Capim Macio, como Natal era silvestre), que tinha exatamente esse nome: Granja Capim Macio. A granja, local aprazível, retirado, belo, pertencia a uma alemã, Ruth Looman, que morava em companhia de sua mãe, três filhas, uma empregadinha que estava grávida e, pêsames, Vilarim.
Certa noite, por motivos nunca explicados, esse homem teve um acesso de loucura, atacou e matou duas das três meninas, além da avó e da empregadinha. Praticou necrofilia com uma das meninas, cavou um enorme buraco nos fundos da casa e ali jogou seus corpos.
Depois, como uma besta com sede de sangue, armou-se com um rifle que a família mantinha em casa e ficou à espreita de Ruth Looman e sua filha mais nova. Colocou a arma ao ombro, firmou a pontaria para o lado da porteira da granja e ficou dormindo na mira. Quando Ruth chegou, foi recebida a bala: mas um, apenas um tiro a acertou e, mesmo assim, no ombro. O ferimento, de pouca gravidade, permitiu que ela resistisse, enfrentando Vilarim.
Atingida, Ruth, uma mulherona, física e moralmente grande, atirou-se em desabalada carreira para a frente, em meio à quase escuridão, e, naquele instante, com uma idéia fixa: atracar-se com Vilarim: ela sabia que somente lutando conseguiria sobreviver, ela e a menininha. E então, quando Vilarim corria bala na agulha para mais um disparo, pronto!, Ruth chegou até ele, agarrou-o e entraram em luta. Sangrando, a mulher enfrentava a fera, que tentava usar o rifle como tacape.
Ela empurrou a filha para dentro de casa e tentou fechar a porta. Nisso, Vilarim mete o cano do rifle entre a porta e o portal, para impedir a fuga. Ruth não vacilou: dominada nesse instante por uma força descomunal, firmou-se no pé esquerdo, empurrou a porta com o pé direito e, puxando o cano do rifle com as duas mãos, simplesmente partiu o cano da arma em dois (digo isso porque vi a arma partida). Vilarim caiu para trás e a porta trancou-se, deixando protegidos, dentro da casa, dois seres humanos aterrorizados, aterrorizados, mas vivos.
Isso ocorreu, como já disse, em 1975 e o fato ficou conhecido como a chacina de Capim Macio. Vilarim, por sua vez, tornou-se famoso da noite para o dia como o Monstro de Capim Macio. Conseguiu fugir após os crimes, somente sendo capturado cerca de 15 dias após. Quando foi preso, mal conseguia balbuciar palavras sem nexo, não se explicava, não dizia o motivo para a matança, não falava coisa com coisa. Os jornais esgotaram as edições, a cidade parou para ler sobre o Monstro.
As pessoas com medo
Por muito pouco não participei da sua prisão. Eu fora, na companhia de um fotógrafo e motorista do Diário de Natal até um certo Morro da Cabocla, Cidade da Esperança, onde se dizia que ele estaria escondido. Chegando lá, era o maior deserto, um silêncio cúmplice do medo, uma tarde de expectativa de prisão. Caminhamos atentos ao matagal, esperando ver algo. Procuramos, procuramos: nada.
Passamos a um descampado, nada também. Até que chegamos a um grupo de pessoas que estava escolhendo terrenos para construir casas. Eu já supunha que Vilarim não estaria ali e, só por brincadeira, perguntei: “Vocês não viram por aqui um rapaz: assim, assim, assim?”, e dei a descrição do homem.
As pessoas se entreolharam, perguntaram quem eu estava procurando: expliquei que era repórter do Diário e estava à procura de Vilarim. Você precisava ver a cara geral de espanto. As pessoas se entreolharam e, não deu um minuto, todos haviam desaparecido, literalmente fugido. A verdade era essa: Natal estava em pânico com o Monstro.
Desistimos do Morro da Cabocla e, por pura intuição jornalística, rumamos a Macaíba. A idéia surgiu logo que entrei no carro com o fotógrafo e o motorista. Alguém comemtou que a polícia estava fazendo rondas naquela cidade e decidimos ir à delegacia, para acompanhar as investigações. O problema era o tempo, o adiantado da hora. Jornais têm horário certo para fechar as edições. Assim, resolvemos voltar à redação, deixando de ir até a delegacia.
Até hoje lamento essa decisão. Foi o maior azar: se tivéssemos ido à delegacia, teríamos acompanhado os policiais que, horas depois, conseguiam localizar e prender, numa granja nas imediações de Macaíba, o Monstro de Campim Macio. Ele estava ali escondido há cerca de três dias. Pedira emprego e o dono da granja o aceitou. Vilarim era bom de enxada e agradou em cheio ao patrão.
Qual não foi a surpresa do homem quando a equipe de investigadores civis de Macaíba chegou à granja, disse a que vinha e, com o máximo de cuidado, um dos policiais se aproximou de Vilarim, elogiando seu desempenho com a enxada. Ele sorriu e agradeceu. Aí, o policial disse que também sabia trabalhar com a enxada e pediu o instrumendo.
Vilarim sequer desconfiou: quando passou a enxada ao homem, seus companheiros voaram sobre o fugitido e o dominaram. O acontecimento, a chacina, reuniu não só crimes terríveis, mas uma personalidade transtornada, um ser humano desequilibrado que, de um só golpe, trouxe infelicidade e dor a toda uma família, numa das maiores tragédias do noticiário policial do Estado.
- Eu era repórter principiante e participei da cobertura do começo ao fim. Os detalhes a respeito do acontecimento me foram passados, à época, pelas fontes que vivenciaram o sinistro episódio.
