sábado, 17 de junho de 2023

 Ainda há monstros que querem o Brasil com medo

 Por Emanoel Barreto

Já mencionei aqui, há algum tempo, o livro “História do medo no Ocidente”, de Jean Delumeau. Ali se fala desde o medo em sua forma genérica, sentimento primário básico, até sua manifestação coletiva ante pestes, movimentos sediciosos, crendices religiosas e poder imposto às massas, perseguição a grupos e minorias. 

Diz o autor, a partir do entendimento de que o medo é parte integrante do poder, que este, por sua vez, dá a falsa sensação de segurança e desejável ordem. E quando tal poder entra em falência alardeia que após sua queda virá o caos: "O vazio de poder é um fenômeno ambíguo. Deixa livre o caminho de forças que permaneciam comprimidas enquanto a autoridade era sólida. Abre um período de permissividade. Desemboca na esperança, na liberdade, na permissão e na festa."

O poder opressor simula que afiança a paz social, mas, na verdade, garante apenas o dia seguinte morno e calmo, o silêncio da submissão, a tranquilidade resignada, mansidão de idiotas. A opressão não busca a esperança, a liberdade, a permissão, a festa. Tomando-se um fato concreto, era exatamente o contrário disso o que queriam os carrapatos de quartel após a queda de Bolsonaro: impor uma ditadura bolsonarista como forma de governo, a concórdia da sujeição, a sucumbência dos adversários, a ameaça, o “cale-se!”.  

Para os bolsonaristas o não-Bolsonaro seria o que Delumeau chamou de “vazio de poder”. E isso seria inaceitável aos fanáticos.

E continua o autor: "Não secreta [o vazio de poder], apenas o medo. Libera também o seu contrário. Como negar, no entanto, a carga de inquietação que encerra? Ele cria uma vertigem; é ruptura com uma continuidade; logo, com a segurança. É portador de amanhãs incertos  que serão talvez melhores ou talvez piores que ontem."

Tudo isso é verdade. O cárcere, aqui como figuração do poder opressor, passa a ser visto também como refúgio. Para muita gente isso é bom. Então, que se desse o poder de volta ao derrotado.

A palavra medo traz em sua essência simbólica a ligação desse sentimento com a vitimização prévia de quem está amedrontado por sentir-se fraco e incapaz frente a um desafio ou ameaça.

O medo, todavia, é algo de que não se pode falar sempre como gerador de comportamento de submissão ou covardia, espanto ou humilhante frouxidão. A partir dele, enfrentando-o, pode-se fazer a sua superação.

 O medo começa a ser vencido quando, de forma amadurecida, é tomado como objeto de estudo, analisado e observado racionalmente para agirmos de forma precavida, atentos, sensatos, previdentes e, acima, de tudo, firmes na decisão de enfrentar esse mesmo medo. Podemos adestrar nossa coragem a partir do temor que sentimos.

O lamentável é deixar-se dominar irracionalmente pelo apavoramento. Domine sua fronte cabisbaixa e você conhecerá a força, que não é necessariamente o poder do braço forte, mas a resiliência do autoconhecimento e da serenidade.

Nos sistemas políticos embasados no autoritarismo ou especialmente nas ditaduras, inquietação e ansiedade são essenciais à manutenção dessa ordem, atendendo aos desejos do maioral mandão, bruto e facinoroso.

É aí que o medo difuso se torna aliado do sistema de poder e instala entre os ignorantes e os simples, os conservadores e os charlatães da política todo o seu potencial de tornar a sociedade um rebanho a ser tocado, tangido e marcado a ferro.

O desequilíbrio emocional do indivíduo, o temor de ser denunciado ou de erguer a voz torna-se como que um visgo que gruda as pessoas à incerteza e as faz calar-se e agir conforme se espera de um pusilânime. Claro, os espertalhões lucram com essa servidão. Querem unir as pessoas pela sucumbência, para a partir daí fazê-las sentir-se sozinhas e desamparadas, como se estivessem em meio ao frio e à total escuridão.

Uma multidão de silêncios amplia o poder dos brutos e lhes dá mais força para criar ciladas e ardis que controlam vontades e impõem uma certa forma de verdade que cassa a palavra e libera o pavor. 

O enfrentamento do medo de forma sóbria e tática constitui-se em elemento essencial ao cimento da resistência e do reconhecimento de que a coragem vem do treinamento da vontade e do desmascaramento dos que usam a dominação como chicote e escudo.

Vencendo-se o medo podemos suplantar o capataz do terror e o pregoeiro da desgraça; superando-se o medo caminhamos e cantamos e seguimos a canção. O medo só é precioso aos monstros. É preciso suplantar a onda de ódio que persiste no pós-Bolsonaro, resquício do surto patológico de comunicação que o levou ao Poder.

Para que tal tragédia acontecesse foi necessário uma base pré-existente, um pensamento calcificado, fossilizado em segmentos conservadores da sociedade, que, exortados pelo discurso da brutalidade, encaminhou quase a metade do país a acreditar que vivíamos um tempo de perigo, e que o comunismo - sempre o comunismo -, estaria à solta ameaçando a liberdade, a família, os bons costumes.  

Esse discurso tosco foi suficiente para atiçar e embasar os mais primários argumentos dos incapazes de interpretar a realidade de forma competente e equilibrada. Isso desatou os nós da brutalidade e elevou Bolsonaro aos mais altos estatutos da estupidez, aclamada bom-senso. Deu no que deu.

Agora é preciso manter pulso firme ante os que insistem em cavar buracos de medo e incertezas, subterrâneos de pânico e desespero para restabelecer a desordem como ordem imperante. Diante disso não podemos esquecer: ainda há monstros que querem o Brasil com medo.

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 13 de junho de 2023

 O louco da guilhotina

Por Emanoel Barreto

Era uma delegacia nas Rocas, num domingo de 1974. Eu estava substituindo Pepe dos Santos, veterano repórter policial do Diário de Natal e senhor da maior listagem de nomes de bandidos, policiais e alcaguetes do submundo do crime no Rio Grande do Norte.

Pepe tinha no máximo o antigo curso primário, mas era um jornalista em essência. Seu sistema venoso não tinha sangue; era irrigado por tinta de jornal: repórter nato, safo e conhecedor de todo o mapa das misérias do mundo escuro e perigoso da bandidagem ele tinha jogo, sabia como entrar e sair de qualquer situação perigosa naquele universo safado e desordeiro.

Eu era um foca, o contrário de tudo isso. Não conhecia ninguém e somente era escalado para ocasiões em que ele não podia trabalhar. Aquele domingo era uma de tais ocasiões.

Mas, eu dizia que estava numa delegacia nas Rocas. Entrei e não vi nenhum policial. Eu disse “opa!, alguém nas áreas?”, mas não obtive qualquer resposta. Encaminhei-me à sala do delegado, quando um investigador apareceu. Perguntou o que eu queria e expliquei que era repórter.

Ele disse que somente havia um sujeito preso por desordem. “Quer entrevistar ele?”, e eu disse que sim. Fui até às celas e lá estava o homem. Perguntou se eu tinha autoridade para ser juiz, considerando que eu era muito jovem para o cargo. Expliquei que não era juiz, mas repórter.

Ele insistiu que eu era juiz e que já estava ali com prejulgamento para sua "condenação à morte". E afirmou: “Já estou ouvindo os martelos batendo pregos para a construção do cadafalso logo ali, ao lado da delegacia. Sobre ele ficará a guilhotina. Você é um magistrado tendencioso.”

Imediatamente compreendi que ali não estava apenas um bêbado e desordeiro, mas algum tipo de louco. Eu sabia que o jornal jamais publicaria aquela matéria, mesmo assim resolvi continuar com a estranha conversa. Perguntei o motivo da prisão e ele veio com outro disparate:

“Na Revolução Francesa fui um grande, estive ao lado de Marat e hoje estou aqui nesta masmorra e prestes a morrer.”

Dava para perceber facilmente que era alguém letrado. Resolvi parar ali a entrevista. Sabia que o assunto poderia render uma bela matéria mostrando a condição humana, seus desvãos e escorregos, mas a página policial não seria o espaço ideal. O Diário jamais iria me ceder espaço em outra página: eu era muito jovem, muito inexperiente e iriam dizer que aquilo não valia a pena. Já tinha acontecido antes.

Já ia me retirando quando familiares do preso chegaram. Eram pessoas elegantes – um homem e duas senhoras – e se dirigiram a mim: “O senhor esteve com ele?”. “Sim”, foi a minha resposta.

Quiseram saber se eu iria publicar a matéria, e eu respondi que não. Já me encaminhava para a Kombi do jornal, quando ouvi: “Ainda bem que vocês chegaram. Aquele juiz que saiu daqui queria meter-me a ferros e levar-me à guilhotina.”

Fui embora, passei em mais umas duas delegacias praticamente desabitadas de presos e terminei meu expediente. Na segunda-feira Pepe trouxe as matérias barra-pesada para a edição da tarde, já que nessa época o jornal circulava como vespertino.

 O louco seria uma grande matéria, mas somente hoje voltou, agora como lembrança e um pingo de saudade dos tempos do jornalismo policial.

segunda-feira, 20 de março de 2023

Luta sem trégua contra o crime organizado

Por Emanoel Barreto

Pouco a pouco a presença do aparelho policial vem reduzindo a ação dos terroristas em Natal e interior do estado. A par disso, o ministro da Justiça e Segurança, Flávio Dino, anuncia recursos da ordem de R$ 100 milhões para aplicação em segurança pública este ano no Rio Grande do Norte.

As boas notícias, contudo, não nos permitem esquecer que o combate ao crime organizado é ação de longo prazo; mais que isso, é objetivo permanente, uma vez que a forma sofisticada e complexa da atuação do bandido, o modo de pensar coletivizado de seus integrantes constituiu-se, ao longo do tempo, numa espécie de locus ideológico que age em contrafação à sociedade.

Colocando as coisas de outro ponto de vista: o bandido atua segundo ordenação, cumpre determinações cegamente, sente necessidade de assim agir uma vez que em seu cotidiano é doutrinado pelos seus líderes, a quem respeita e admira.

A sociedade brasileira precisa compreender que vai longe o tempo do assaltante solitário, da quadrilha avulsa, do desocupado que levava roupa de varal. As coisas agora são bem diversas: o bandido é inimigo interno, é antissocial, vê na sociedade o inimigo a quem busca defrontar de todas as formas: tráfico, assaltos, sequestros...

De outra parte, é preciso compreender que tais indivíduos surgiram das contradições internas da sociedade brasileira, de suas injustiças sociais históricas, do descalabro da corrução instalado no Estado e nele tornado coisa orgânica. Assim, criaram-se as condições para que o crime organizado, num processo de mimese, passasse a agir como se fora empresa, com escalonamento estatutário, objetivos e metas, organização de pessoal, chefias e exemplos a serem seguidos.

A isso podemos aduzir o aspecto de criação de vínculos de familiaridade, solidariedade, presença de amparo e apoio aos integrantes que estejam em dificuldades, atendendo a problemas que vão desde questões de saúde, até assistência advocatícia, por exemplo.

Essa situação, em toda a sua complexidade, traz o crime a um patamar perigosamente superior: a soma de todas as organizações criminosas passa a ser uma instituição no mundo paralelo do banditismo, uma vez que imbricadas de um sentido de busca de permanência na vida cotidiana e proatividade no espaço histórico. Buscam uma representatividade social perante o mundo paralelo que criaram. Consideram-se à parte da sociedade e são seus inimigos declarados.

Sendo assim, a ação do Estado brasileiro deve levar em conta que combater tais entidades deve ser interesse nacional permanente, o que inclui melhoria nos presídios e na vida dos presos, programas de reinserção e, disso não se tenha dúvida, ação firme e implacável contra o crime organizado, o que se fará com uma polícia bem treinada, bem paga, equipada e isenta de corrupção pelos participantes das entidades criminais.

sábado, 18 de março de 2023

Os bandidos não são vândalos, são terroristas

Por Emanoel Barreto  

Estranhei muito na propaganda do governo estadual o uso da expressão “violência orquestrada” para definir a onda de terrorismo que vem espalhando terror e angústia na população de Natal e interior do estado. Claramente: não há violência orquestrada, mas terrorismo; este é o termo exato, uma vez que trazer instabilidade, incerteza e desespero social é a intenção dos bandidos.

Sei que é grande, visível e sincero o esforço mobilizado pelas autoridades para enfrentar os terroristas, mas não é com o uso de eufemismos que a periculosidade daqueles será amansada e minorados os efeitos dos seus atos bárbaros. E sim, acredito que os interesses sociais prevalecerão.

Quanto à realidade que vivemos, a definição exata do terrorista enquanto tal urge como forma de dar credibilidade ao discurso do governo do estado. A tal orquestração colocaria o celerado na condição de vândalo, o desordeiro reles que por motivos quaisquer destrói patrimônio público ou privado. Não é o que se dá.

Não tratamos com vândalos, ao invés, enfrentamos tipos de alta periculosidade, convictos de que fazem parte até mesmo de uma missão: a defesa dos interesses das irmandades criminosas às quais sentem-se ligados por esse execrável sentido de honra imbricado às facções.

É como se seguissem algum tipo de preceito assemelhado à omertà, o código de honra dos mafiosos do sul da Itália, que é sustentado por um inabalável sentido de família e vínculos inquebrantáveis de lealdade – a seus pares e ao crime, sua atividade finalística e razão de existir. Em alguma medida as facções brasileiras têm esse comportamento. O RN que o diga.

Prova de que não são vândalos:  notícias dão conta de que membros de facção atacaram e incendiaram duas casas em Igapó. Pessoas pobres foram arrancadas de seus lares tarde da noite e em instantes suas moradias foram destruídas pelas chamas ateadas pelos infernais criminosos. Informa-se que um comerciante, dono de pequeno armazém, foi morto, o mesmo ocorrendo com um policial penal.

Não, não há qualquer sentido de orquestra, o que por si só pressupõe, sorrisos, festividade, alegria; o que ocorre é o massacre da paz social, a destruição do esforço de pessoas que lutaram anos para comprar uma casinha ou abrir o próprio negócio.

Foi muito infeliz a escolha da expressão violência orquestrada. Não se disfarça o que pode ser percebido, não se engana o que está a olhos vistos. Linguagem evasiva, a escusa de uso do termo “terrorista” não vai retirar da alma social o terror que ela já vive – as pessoas sabem que estão sendo vítimas de atos de brutais – em suma, terror.

As pessoas sabem que não há violência sob orquestração; já vivem o medo como prova contrária a isso. Há terror e pronto. Mas já que estamos falando de orquestra sou levado a crer que os músicos criminais tocam apenas um instrumento: tocam o terror em acorde perfeito maior, para desespero e incredulidade de suas vítimas.

 E para encerrar: como vivemos um pandemônio, creio que na tal orquestra o pandemônio é o pandeiro do demônio.

 

sexta-feira, 17 de março de 2023

 O dia em que Natal virou Kiev

Por Emanoel Barreto

Natal deixou de ser a Noiva do Sol, como a chamava o escritor Luís da Câmara Cascudo, e hoje já a podemos chamar de Kiev. A luz do sol, intensa e bela, é substituída à noite pelo clarão dos incêndios, pelo terror, pela destruição, desordem e uma aparente inexistência de ação tático-preventiva da polícia para impedir o descalabro.

A ação dos bandidos, segundo diz o noticiário, é uma resposta das quadrilhas a um recente trabalho de captura de criminosos pelas autoridades visando a desarticulação do poderio de suas facções nos presídios. Além disso, os detentos alegam maus tratos e péssimas condições carcerárias. Juntanto as duas coisas veio o barril de pólvora que agora explodiu.

Mas a questão, neste texto, é que faltou prever-se a reação dos bandidos. E agora vivemos o medo que se alastrou por todo o estado com a rapidez de uma labareda. Caso houvesse ação preventiva seria possível impedir a ocorrência dos incêndios a ônibus e até mesmo o monstruoso incêndio a um depósito de medicamentos em São Gonçalo do Amarante, um prejuízo de dez milhões de reais.

Os bandidos, em sua suposta ânsia de garantir direitos humanos básicos, expõem sua face mais dura e brutal. Voltam-se contra pessoas indefesas e prejudicam, no caso do depósito incendiado, aqueles que precisam de medicamentos e não os podem comprar.

Diante disso, podemos supor que a principal necessidade, o núcleo duro dos atos de agressão, que transfiguraram Natal em uma Kiev, seja acima de tudo manter a força e a presença do crime organizado dentro e fora dos presídios. Tais organizações tenebrosas, em seu arcabouço essencial, operam uma estrutura de disciplina e hierarquia ao mesmo tempo que criam em seus membros um sentimento de pertença.

Os componentes das facções são “irmãos” entre si, têm fictícios laços de afetividade familiar. Isso cria sensação de ordem interna e solidariedade, respeito e desgraçada honorabilidade entre pares.

O resultado dessa forma de agir e de pensar caricaturou Natal numa Kiev tropical, com suas ruas percorridas com desenvoltura por tipos que atacam de forma inesperada e fogem. São como fantasmas que brotam de algum lugar, trazem terror e desespero e escapam, como por artes de algum lamentável encanto.

O noticiário fala num esforço das polícias em ação coordenada.  Esperemos que isso venha a se concretizar em medidas eficazes. Caso contrário, Kiev, quero dizer Natal, estará enfrentando esse exército de algozes sem saber quando isso irá acabar. A Ucrânia, quero dizer, o Rio Grande do Norte, precisa vencer essa batalha.

Não podemos ficar nas mãos de quem quer transformar nossa cidade num inferno. Queremos de volta a Noiva do Sol.

 

 

quinta-feira, 16 de março de 2023

Medo nas ruas: bandidos levam a sério o terror e não estão para brincadeira

Por Emanoel Barreto

As atitudes bárbaras e atrevidas dos criminosos que estão aterrorizando o estado nos passam uma mensagem; com esses atos eles dizem que têm potencial e capacidade para agir a qualquer tempo e hora, em qualquer lugar ou instante – e que suas ações serão sempre imprevisíveis e certeiras. Sintetizando, eles enfatizam que sua assertividade inclemente e hostil não terá limites na busca de intimidar e espalhar terror e chamas.

A partir dos presídios, dizem os noticiários, seus líderes costumeiramente conseguem enviar mensagens de convocação e orientação, como uma espécie de comando tático. Na verdade, o que os bandidos estão dizendo é o seguinte: eles são criminosos, não moleques, ou seja: eles se levam a sério, fazem bem-feito o seu serviço.

Esse o ponto de vista dos agressores: eles se gabam de sua expertise enquanto a autoridade age como se fosse moleque, pois não teria trabalhado direito. E tal situação se dá pelo fato de que, historicamente, a Segurança não consegue impedir que mensagens cheguem ou saiam das celas. Isso facilita às tenebrosas organizações criminais possibilidades de atitudes tão ostensivas.

Os bandidos reivindicam para si um inimaginável, espantoso senso de compromisso profissional; mais que isso: exigem deferência pelo medo que infundem. É como se dissessem que o crime é uma entidade séria, que respeita sua própria hierarquia e disciplina. E, enquanto as autoridades são dribladas, crescem a desordem e o medo.

Aparentemente, o aparelho policial do Rio Grande do Norte falhou em seu setor de inteligência, pois revelou-se incapaz de antecipar a ação coordenada e aterradora que se espalha. Ou seja: o crime organizado cumpriu o seu propósito, a polícia não.   

Incrível: bandidos exigindo deferências à sua expertise criminal, sua ética enviesada, seus valores de confronto. A polícia, isso está claro, vem respondendo e está nas ruas. Mas valeria a pena ter frustrado esses atentados. Isso, se os serviços de inteligência tivessem ficado mais atentos.

segunda-feira, 13 de março de 2023

O direito de ser bandido e

o doce charme das elites

 

Por Emanoel Barreto

 

A violência no Brasil é sistêmica, complexa e, pela forma como se apresenta - organizada e enraizada-, dificilmente será vencida.

Vejamos: é preciso entender que a violência está dentro dos presídios mas mantém firme conexão com os atos criminosos que se dão fora deles, inter-influenciando-se mutuamente.

Além disso, as causas históricas do fenômeno criminal permanecem inalteradas secularmente, num perverso processo de marginalização que leva muitos à prática de delitos como se aquela fosse forma aceitável de viver.

As causas históricas manifestam-se nos baixos salários pagos pela iniciativa privada – e no seu inverso: os segmentos estamentais eternizados em situação privilegiada: régias remunerações contemplam o judiciário, a alta oficialidade das forças armadas, políticos profissionais e setores do funcionalismo público.

Junte-se a tal fato a corrupção perpetrada pelo alto empresariado junto a agentes públicos – agregando-se a isso a sonegação de impostos – e temos a receita social perfeita e o caldo de cultura exato a propiciar o encaminhamento do indivíduo socialmente desvalido ao crime.

Com o Estado aparelhado e tornado meio de vida para os privilegiados, todo o dinheiro que deveria estar ao dispor da sociedade vai parar em poucas contas bancárias. Simplificando: falta dinheiro para as funções sociais da instituição estatal.

E muitos jovens que vivem um cotidiano de privações e fome compreendem-se como membros de alguma forma de sociedade marginal e passam a vivenciá-la. Entendem-se como se tivessem o “direito” de ser criminosos.

Ou seja: nas favelas e arrabaldes esse tipo de pensamento passa a ser compartilhado, torna-se um valor, uma espécie de crença, uma maneira de experienciar a existência e uma forma de ser no mundo.

Então, imbuído de tais princípios, o indivíduo passa a cometer atrocidades com grande desenvoltura e sem qualquer senso de culpa. Torna-se convicto. Mata e agride com a mesma naturalidade que um trabalhador ergue uma parede ou pega um ônibus de volta à casa. É o “direito” de ser criminoso.

Entre os criminosos e os privilegiados há um abismo profundo. As elites não estão dispostas a ceder seus privilégios; os bandidos reagem e buscam espaço. E  o resultado é o que temos: presídios explodindo, o terror batendo à sua porta. Mas as elites, protegidas, sabem o que são: as elites protegidas.

O Estado não tem como garantir ao trabalhador integridade física, bem-estar, sossego, tranquilidade, saúde, educação, cultura, transporte, dignidade.

Também não consegue ser eficaz na busca de levar adiante ações repressivo-preventivas para enfrentar aqueles que estão no caminho do crime, ofendendo os que trabalham.

E chegamos ao atual ponto: uma situação insustentável, especialmente pelo fato de que os criminosos já vivem seu sentimento de pertença a um grupo e entendem a sociedade como sua presa legítima.

Caso não haja uma profunda revisão de valores, caso os dinheiros públicos não venham a ter devida aplicação ;e mantendo-se – como serão mantidos– os privilégios e a corrupção, a tendência do quadro é de constante agravamento.

O “direito de ser criminoso” crescerá, e os bandidos, identitários e armados, continuarão a disseminar a violência e a morte. E as elites continuarão em seus castelos, protegidas e felizes.

sábado, 11 de março de 2023

 Para ter as joias Bolsonaro fez de tudo, só esqueceu de dizer: “Abre-te, Sésamo!”

Bolsonaro cometeu erros gravíssimos durante suas tentativas desastradas de receber o colar e os brincos da mulher, Michelle. Literalmente um presente das Arábias, as joias não foram liberadas pelos processos, digamos, normais, usuais, legais, burocraticamente aceitáveis, eticamente exigíveis.

Usaram-se o prestígio da condição presidencial, a força do cargo, o jeitinho brasileiro, a manobra salafrária, a atitude matreira, enfim, todos os atos e gestos de dribles e ademanes malandros para a obtenção de vantagens indevidas.

O motor de tudo isso tem nome: ganância, necessidade de ter, vontade de dispor de bens, acumulação de riquezas fabulosas, domínio de presentes encantadores, ganho de preciosidades, mimos e maravilhas da pedraria e ourivesaria.

A tudo isso sob as luzes – ou penumbras – de algo que veio... exatamente de onde? Da Arábia, um reino que ainda vive sob o domínio do absolutismo, encoberto pelo manto escuro do domínio arbitrário, o local dos grandes senhores do deserto e seus magníficos corcéis, um país no qual o imaginário ainda pode vaguear como num deslumbrante passeio de tapete  mágico.

E talvez tenha sido esse o erro de Bolsonaro. Não aproveitar as oportunidades e maravilhas lendárias. Ele bem poderia ter pedido o apoio de Ali Babá, um cara tão esperto que conseguiu ludibriar os quarenta ladrões, lembra?

Qualquer criança já leu que bastou o velho e bom Ali Babá descobrir as palavras mágicas, “Abre-te, Sésamo!” para, Oh...!, chegar à felicidade de ter  um inestimável tesouro. As tais palavras, magnífica fórmula mágica, lhe deram acesso à caverna onde quarenta famosos ladrões ocultavam seu butim milionário, que aumentava dia a dia.

Tão fácil!, e Bolsonaro não lembrou disso. Por que não perguntou aos príncipes árabes onde encontrar o bondoso Babá e pedir suas orientações? Por quê? Por quê? Por quê? Jamais saberemos sobre esse deslize mnemônico.

Caso tivesse lembrado poderia também entrar em contato com Aladim. Lembra de Aladim, não lembra? Sim. Aladim, o ardiloso jovem dono de um tapete mágico, e pedir que ele trouxesse o tesouro de forma silenciosa e rápida a Brasília. Nada de Alfândega, a chateação daqueles agentes implicantes, nada disso. Ah! Por que não falou com Aladim?

Haveria ainda outra ajuda preciosa, Simbad, o marinheiro. Sei que Simbad é de Bagdá, mas dava para pedir ajuda, não é mesmo? Ele bem poderia vir por mar, ancorar em alguma praia isolada desse imenso Brasil e entregar as joias sem problema algum. No segredo da noite, no silêncio das lendas, sob a luz da lua e o brilho estelar mais belo.

E afinal, porque Bolsonaro não instruiu seus, podemos dizer prepostos?, a aprender com Ali Babá para que, chegando à Alfândega, agissem de forma rápida e direta. Bastava dizer “Abre-te, Sésamo!”. As portas da aduana seriam descerradas, os caras pegavam o bagulho e iam embora. E pronto: missão cumprida.  

sexta-feira, 10 de março de 2023

Bolsonaro, o magnífico farsante

Por Emanoel Barreto

O bolsonarismo vive uma crise de identidade. Seu ídolo, seu mito, tinha os pés de barro, que se esboroou e já deixa claro que era apenas uma figura tosca balbuciando um discurso trôpego, um enunciado sem mensagem ecoando os valores do senso comum, daí sua penetração e consolidação.

Agora, quando começa a se esfumaçar a imagem do líder,  falsificada pela oportunidade do momento histórico em que se deu a campanha em que foi eleito, o PL, seu partido, chega inexoravelmente a uma pergunta: “E agora?”

A festa acabou, o samba passou, a alegria esgotou-se, a mensagem de brutalidade está seguindo ladeira abaixo, as coisas vão mal, muito mal. O presente de Ali Babá e seus 16 milhões transformou-se num cavalo de troia que desmonta o mito e seus mitômanos.

E o bolsonarismo, então, tenta desesperadamente uma resposta à sua própria pergunta e pretende testar uma resposta: ante a iminente possibilidade de ele tornar-se inelegível estão pensando em colocar em seu lugar a mulher, Michele Bolsonaro.

Trata-se de substituir uma embuste por outro, pôr um simulacro no espaço antes ocupado por um fingidor. Esquecem-se de que a História é irrepetível: um certo momento marcado por intensidades e propostas – por mais aloucadas e estúpidas que sejam – jamais se repete. Ninguém conseguirá fingir o embuste Bolsonaro tão bem como ele.

A farsa pertence ao farsante, somente ele conseguiu produzir o desastre pleno, a derrocada exata e desastrada da tentativa de depor a democracia.

Será inútil a intentona do PL: por mais que Michelle tente, não conseguirá atingir o as alturas da insanidade do marido. Ele foi o magnífico farsante, o mais completo pregoeiro da desgraça – e fez isso muito bem.

 Líderes, mesmo os mais mal-ajambrados, não se fazem nos laboratórios das agências de propaganda. É preciso ter competência até mesmo para ser incompetente, é preciso ter o desejo sincero de ser um arremedo de condutor e presidente.

Ela não conseguirá repetir Bolsonaro. Falhará miseravelmente. Não tem liderança fora do seu acanhado círculo de atuação, não tem o carisma troncho do marido, não vai chamar às ruas a desordem e o golpismo como fez Bolsonaro. Será melhor desistir, antes de preparar a sua própria derrota.

Bolsonaro, ao que tudo indica, começa a passar. Todavia, precisamos ter cuidado com os restolhos que, lamentavelmente, está acumulados, na sarjeta da História. A História não se repete, mas pode criar novos monstros. Certamente outros, profissionais da política, já estão de olho no butim.

 

 

quinta-feira, 9 de março de 2023

 como nos últimos dias tenho escrito muito sobre Luís da Câmara Cascudo aproveitei para fazer o resgate de texto do jornalista Audálio Dantas, que entrevistou o professor. Segue na íntegra. – Emanoel Barreto

Câmara Cascudo e aquela do papagaio

AUDÁLIO DANTAS

Na manhã de 18 de junho de 1970 ainda se viam nas ruas de Natal uns restos dos festejos da véspera pela vitória da seleção brasileira nas semifinais da Copa do Mundo, no México, sobre a seleção do Uruguai, por 3 a 1. Grupos vinham da zona do porto, embandeirados, em direção ao centro da cidade, cantando "Pra Frente, Brasil", uma espécie de hino que teria sido sugerido pela ditadura militar. 

Ao passar pelo casarão em que vivia Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), numa rua da Cidade Alta, um bêbedo enrolado numa bandeira brasileira se destacou do grupo e gritou: "Desça, professor. Venha festejar com a gente. Enfiamos três no Uruguai!". 

O professor, Luís da Câmara Cascudo, era uma espécie de monumento vivo da cidade. Eu acabara de ser recebido em sua casa, um elegante chalé, construído no início do século 20. Ele foi até a uma janela, acenou para o grupo e voltou, aos risos: "Eles nem imaginam, mas eu nunca assisti a uma partida de futebol". 
Futebol, uma paixão brasileira, era um dos temas que eu tinha anotado para a entrevista que deveria fazer com ele para a revista "Realidade". O assunto estava quente, conforme acabavam de demonstrar os grupos que passavam festejando. Um bom começo de conversa, mas Câmara Cascudo, um sábio, tinha muito o que conversar, além do futebol. 

E eu, muito o que perguntar, pois a reportagem que me coubera fazer trataria das paixões do brasileiro. Cascudo era o homem certo para responder sobre o assunto. 

Para começar, ele tratou de me deixar à vontade, acho que por ter percebido em mim uma ponta de ansiedade. Afinal, eu estava diante de um dos intelectuais mais importantes do país, especialista em várias matérias -história, antropologia, folclore, etnografia-, autor de mais de cem livros. 

Mas ele disse, como se fosse um igual: "Eu também fui nego de jornal". Começara no jornalismo muito cedo, aos 19 anos, em "A Imprensa", de propriedade de seu pai. E, sabe como é, "a gente começa e não larga mais; dizem até que é uma cachaça". 

Trabalhou também em outros jornais, "A República" e o "Diário de Natal", publicando artigos diários. Nos anos 1960 já havia publicado quase 2.000 textos. 

Nossa conversa se estendeu por mais de duas horas. Aos 71 anos, Cascudo falava com o entusiasmo de um menino, às vezes inflamado ao mencionar, antes das paixões, as qualidades do brasileiro. Em alguns momentos, quase discursava e, como professor que era, estendia-se em explicações. 

Várias vezes, ao tentar explicar alguma questão mais complicada, quase chegava a se irritar, mas logo amansava a voz. Por exemplo, ao ser perguntado sobre a alimentação dos brasileiros. "Não tenho como resumir o que estudei durante 30 anos e que está contido em dois volumes de um livro", respondeu, referindo-se à sua "História da Alimentação no Brasil" (1967). 

Mas continuou a conversa, exaltando a capacidade de adaptação do brasileiro. O futebol, que naqueles dias mexia com o país inteiro, paixão que levava milhões a torcer pelo tricampeonato, foi inventado pelos ingleses, mas aqui virou mania nacional. 
Enquanto na Inglaterra era mais um esporte, aqui tomou conta da alma do povo. Da alma e dos pés dos moleques que improvisam dribles em terrenos baldios. Mas não é só improviso, não. 

Foi difícil evitar o individualismo no jogo, mas os nossos atletas se adaptaram às técnicas de conjunto. "Para muitos deles, tirar a bola do pé e passar para outro, renunciando a uma jogada individual, era como emprestar a mulher, mas terminaram cedendo, em benefício da alegria do gol, que é do time em campo e da arquibancada e se esparrama pelo país inteiro", analisou. 

A fala, as lições de Cascudo se estendiam sobre paixões e, sobretudo, qualidades que ele exaltava nos brasileiros. Por exemplo, a improvisação que muitas vezes se sobrepõe à tecnologia. 

Citou como exemplo a chegada a Natal, durante a Segunda Guerra, de máquinas escavadeiras, trazidas pelos americanos. Para cuidar delas, um monte de técnicos, especialistas em seus mistérios. 
Não demorou para que mulatos raquíticos passassem a dominar os segredos dos equipamentos, manobrando-os com destreza. Viraram senhores da máquina. "Seria o famoso jeitinho brasileiro?", perguntei. Resposta: "No caso, a inteligência supria a técnica, impedindo que o cabra fosse condenado à especialização". 

A entrevista terminaria com uma história de papagaio. Cascudo pediu a ajuda de sua mulher, Dahlia. "Conte aí a versão brasileira da história de Chapeuzinho Vermelho." A versão, informou ela, é invenção de uma neta de cinco anos, que se impressionara com o triste destino da avó de Chapeuzinho. 


Deu um jeito e passou a contar assim: o lobo bateu na porta, a avó se preparou para abrir, mas o papagaio da casa avisou: "Não abra não; é o Lobo Mau".

Conclusão de Cascudo: "Coisa de brasileiro. Onde é que Perrault ia arrumar um papagaio tão sabido?". 


segunda-feira, 6 de março de 2023

 Cascudo delirava e dizia: “Você é um dos engenheiros mais jovens?”

Por Emanoel Barreto

Quando a Tribuna do Norte passou a offset, a 13 de outubro de 1979, a direção do Segundo Caderno ficou comigo, chefiando uma equipe que tinha entre seus talentos o colunista Franklin Jorge e uma jovem aluna de jornalismo, Christiana Coeli, filha da poeta e jornalista Miriam Coeli e do jornalista Celso da Silveira. Quer dizer, a menina tinha a quem puxar. Porém, se faltava experiência, sobravam empenho e vontade de fazer jornal.

O caderno era dedicado a cultura e serviço, e funcionava como uma redação à parte: tinha repórteres, fotógrafo e um bamba na ilustração, o cartunista Aucides, que também diagramava. Contava ainda com a presença de um articulista especializado em música popular brasileira, de nome pomposo e grandiloquente: Odosvaldo Portugal Neiva. Tinha vindo não sei de onde e fora contratado pelo jornal. Produzia enxurradas de textos que chegavam a ocupar quase uma página.

Pois bem, certo dia Christiana foi pautada para fazer uma entrevista com o mestre Luís da Câmara Cascudo sobre algum tema de cultura popular. Pois bem: ela saiu e voltou. Como uma flecha.

Fiquei surpreso com a rapidez, mas ela me explicou por que a matéria não havia dado certo: “Barreto, não deu para entrevistar o professor porque ele estava com uma dor de cabeça fortíssima, estava tonto e mal se aguentava em pé.”

Foi o suficiente para disparar em mim o alerta vermelho. Eu respondi: “Christiana, uma dor de cabeça desse tipo, em mim, preocupa a minha família e talvez algumas pessoas amigas. Só isso. Mas uma dor de cabeça dessas em Cascudo, com ele não podendo nem ao menos ficar de pé, preocupa o Estado inteiro ou quase isso."
 
Ato contínuo, segui com um fotógrafo para o estacionamento do jornal em busca de um carro. Não havia carro. Chamei uns táxis, ninguém parou. Então, saí correndo da Tribuna até a casa do professor; o fotógrafo, esbaforido, correndo atrás. Quem conhece Natal sabe que a casa onde morava Cascudo fica razoavelmente próxima à Tribuna do Norte, na Ribeira. Mas, ir até lá, correndo, já são outros quinhentos.

Bom, mas cheguei à casa do mestre. Fui atendido por Dona Dahlia, sua mulher, que me disse: “Barreto, venha cá, depressa. Me ajude a cuidar de Cascudo, que ele não está bem."

Mandei que o fotógrafo esperasse fora da casa e fui com ela ao quarto onde o professor estava. Fiz isso a fim de respeitar sua privacidade. Eu não queria um drama sensacional. Somente chamaria o fotógrafo caso o bom senso assim o indicasse, e sob permissão de Dona Dahlia.

Quando entrei no quarto onde ele estava vi a seguinte cena: Cascudo estava de pijama, deitado numa cama imensa, os olhos semicerrados; delirava. Dona Dahlia estava quase em pânico. Parecia não haver mais ninguém em casa. Ela lamentava o calor. Temia que isso fosse deixá-lo ainda pior. Disse-me: “Segure a cabeça dele enquanto dou os comprimidos.” Levantei a cabeça do professor e esperei que ela trouxesse os medicamentos.

Ele não me reconheceu e disse: “Quem é você? Você é um dos mais jovens, não é? É um dos engenheiros?”

A pergunta deu-me a dimensão exata da situação. Senti que tinha de agir com muita prudência pois ali, mesmo sendo um jornalista era também uma pessoa que estava ajudando a prestar socorro a ninguém menos que Luís da Câmara Cascudo. Sintetizando: era preciso um respeito sagrado.

Mas, respondendo à pergunta dele, eu disse: “Sim professor, eu sou um dos mais jovens. Sou um dos engenheiros. Vim aqui para ajudar.”

Ele continuou a dizer, agora baixinho, coisas que eu não compreendia. Observei os esforços dedicados de Dona Dahlia nos cuidados com o marido. Ela trouxe enormes, redondos e vermelhos comprimidos que ele engolia um a um, deitado. Creio que o total foi de quatro comprimidos. A água era servida por ela num copo grande.

Ele tomou a medicação, fez mais alguns comentários sem sentido e reclinou a cabeça, dormindo em seguida. Ao mesmo tempo em que ajudava no atendimento eu anotava mentalmente os nomes dos comprimidos, observando os rótulos das caixas onde estavam os frascos. Como fiz uma espécie de jornalismo participante, ou seja, integrei a cena do começo ao fim, tinha plenas condições de relatar o fato.

Dona Dahlia me agradeceu, eu dei uma última olhada no mestre e saí do quarto. Perguntei a ela pelo menos três vezes se poderia publicar a matéria e ela disse que sim. Voltei ao jornal sem uma foto e sem qualquer anotação, mas com a notícia toda na cabeça. 

O assunto era sério e devia ser tratado com grande contenção no texto. Fiz uma matéria seca, direta, de forma a não passar ao leitor a impressão de que Cascudo estava à beira da morte e entreguei o texto à editoria de Geral, pois, como era uma notícia do cotidiano, não era tema do Segundo Caderno. 

 
Horas depois, todavia, a família de Cascudo recuava e chegava à direção do jornal um pedido para nada fosse publicado; disso fui informado. O texto foi sobrestado e perdeu-se o registro a quente daquele momento intenso. Detalhe: o texto tinha apenas meia lauda. Não alardeava nenhuma doença terrível, não apregoava nenhum infortúnio, nem mencionava os detalhes que conto agora...

domingo, 5 de março de 2023

Minhas conversas com Cascudo, quando ele ensinava: “Todo homem é digno do seu tempo”

 Por Emanoel Barreto

 Conversar com Cascudo era descobrir um tempo velho passando à minha frente. Era mergulhar na história arcaica escrita pelo povo em suas vivências, eternamente sertão. Era virar páginas e páginas inteiras de cores, fandangos, jangadas, bichos e gentes; vozes de acá, nascidas ibéricas ou africanas. Conversar com Cascudo era perscrutar a vida no seu mais íntimo significado de coisa humana e bela, humana e triste – humana, humana, humana...

Conversar com Cascudo eram tardes alongadas, quando ele me ensinava, envolto na densa nuvem azulada do charuto: “Barreto, todo homem é digno do seu tempo.” Ou seja: nós construímos nosso tempo – vamos arcar com as consequências. E completava: “Plantar é colher...”

Conversar com Cascudo era descobrir um homem feito de sabedoria. Conversar com Cascudo era viajar o chão do sertão, a brenha secreta da caatinga; cruviana esfriando o passo do cavalo do vaqueiro em noite de plenilúnio: arrepio com medo de lobisomem.

Conversar com Cascudo era alumbrar-se com as visagens, os cantos do povo, os aboios, a comida da terra; caçuás, canga e cantiga de botar menino para dormir. Conversar com Cascudo era ouvir o tempo severo do Nordeste em sua eterna e serena espera pela chuva criadeira.

Conversar com Cascudo era ouvir o sábio que se confessava “um provinciano incurável”, morador desta Natal tão dele e tão pequena. Conversar com Cascudo agora é uma saudade, quando a vida já não anda em cavalo baixeiro e estamos todos à mercê e ao léu do não-sei-mais.

Cascudo não está mais aqui, já não tenho quem me mande “baixar noutro terreiro” após cada entrevista. Mas nunca esqueci quando ele uma vez me disse: “Vá baixar noutro terreiro, Barreto; mas, quando quiser, pode voltar...”

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

 Cascudo e o lobisomem

Por Emanoel Barreto

Uma das coisas que mais gostava de fazer quando repórter da editoria de Geral da Tribuna do Norte era entrevistar Luís da Câmara Cascudo; para mim Mestre Luís da Câmara Cascudo. Dali, de sua casa na grande subida da Junqueira Ayres, o Professor via o Potengi amado e descortinava todo um mundo de lendas, mistérios, cantigas e danças, credos e medos que o Homem brasileiro tem guardado dentro de si.

 Certa vez, pautado para entrevistar o Professor, passei uma bela tarde conversando. Terminamos falando exatamente sobre lendas e crendices populares. As coisas do povo, a fé do povo, o medo irracional que nos acompanha a todos e se aflora nos momentos de tensão ou insegurança.

Ele me falou do Saci Pererê; disse que o molequinho, em tempos outros, fizera medo a muitos e comparou essas épocas passadas com o tempo em que a entrevista transcorria (anos 70) e lembrou: o medo do Saci se transformara no medo da perda do emprego, no terror da altíssima inflação que então corroía o país.

Explicou o Mestre que o medo persiste na humanidade, mas se apresenta sob formas variadas dependendo do estágio em que se encontre uma certa sociedade. E vieram outras lendas: a Caipora, o Bicho Papão, a Mãe d’Água, a Boitatá, o Lobisomem, ah, o Lobisomem.

Sobre a Boitatá – me lembro como se fosse hoje – ele comentou:

“Bicho grande, cobrona que brilha de noite reluzente toda pela luz dos olhos dos bichos que já comeu. Os olhos ficam brilhando dentro da cobra, meu filho... E disso o povo tinha medo, porque nisso o povo acreditava. Porque uma boa parte do medo é construída dentro da gente.” E completou: “Hoje, a boitatá é a inflação”, e deu uma de suas gargalhadas envolto na fumaça do charuto.

Sentado em sua cadeira de espaldar alto, largos apoios para os braços, o Professor foi servido de água por Dona Dhália, sua mulher. Nisso, ele virou-se para mim e disse: “Já estou quase mandando você baixar em outro terreiro” (era com essa expressão que ele gaiatamente expulsava seus entrevistadores). E disparou de letra: “O que mais você quer saber?”

Perguntei: "O senhor acredita em Deus?", ao que ele respondeu: "Acredito em Deus, quero bem a Nossa Senhora, tenho medo de lobisomem." 

Fiquei espantado: “Professor, o senhor tem medo de lobisomem?” Sorrindo, após mais um fumarento aspirar do charuto, respondeu. E sua voz tinha um tom sombrio, como a recitar um pesado sortilégio de quem sabe de tudo. Disse:

Não, meu filho, não. Aqui dentro desta casa, sentado em minha cadeira, nesta cidade do Natal, sob a proteção das luzes que nos cercam, digo a você que não. Mas, no sertão, numa noite de lua, numa sexta-feira aziaga, a cruviana* me rondando, o vento assanhando a crina do cavalo, digo que sim. Numa hora dessas, Barreto, eu digo que sim:  sim Barreto, eu tenho medo de lobisomem. E agora, vá baixar noutro terreiro!”

·       Cruviana: vento frio das noites nordestinas. Termo hoje em desuso.

 

sábado, 18 de fevereiro de 2023

Bolsonaro como mistificador e pai do infortúnio

Por Emanoel Barreto

Começa a ser superado o instante histórico cujo caldo de cultura político-comunicacional permitiu o surgimento do ovo da serpente do qual foi parida a figura pública Bolsonaro. O mistificador, cujas ações rústicas, brutalidade e ignorância desencadearam um processo de comunicação patológica manifesta em violência e estupidez, tinha por intuito levar-nos aos arrabaldes da civilização.

O entulho bolsonarista começa a ser varrido, mas sabemos que deverá ser grande o esforço para sua superação uma vez que os segmentos sociais que foram por ele sensibilizados já tinham e mantêm, em alguma medida, propensão a aceitar uma figura como a sua.

Bastou a fagulha da loucura ser proclamada e o descalabro mental se espalhou facilmente no senso comum dos que veem no horrível e no medonho, na repressão e no militarismo a solução para a complexidade de problemas sociais, econômicos e políticos.

O adversário é transformado em inimigo, o comunismo é um perigo, uma espécie de bicho que ronda nas esquinas, a palavra de Deus não é mais respeitada, a família corre grande perigo, a pátria está sob grave ameaça.

Tais formulações, toscas, deploravelmente simplistas, bem como a ignorância conceitual generalizada do que sejam os objetos de valoração mencionados no parágrafo acima, facilitou em muito a presença e força do bolsonarismo, uma proto-doutrina que aos olhos do senso comum responderia a todos os seus valores e convicções – básicos, rasteiros, confusos.

Agora, é trabalhar pela revalorização dos valores civilizatórios para a busca da solução de problemas que sabemos enraizados no cotidiano do brasileiro – a péssima divisão de renda, o ensino público deficitário, a questão da saúde pública, o respeito à natureza e aos povos indígenas, a marginalização decorrente da questão salarial, são exemplos.  

Importante também é tornar perceptível o quanto foi terrível o período de escuridão e barbárie ao qual estivemos submetidos, mesmo sabendo que a fenômeno Bolsonaro foi e ainda é uma força que despertou os mais densos e nevoentos intentos na extrema direita. E tal segmento insistirá em garantir seu espaço e suas ideias e ódio como prática política e tática de busca pelo poder.

Mas, como em Pavão misteriozo, talvez a mais bela composição de Ednardo vamos dizer: Não temas, minha donzela / Nossa sorte nessa guerra / Eles são muitos /Mas não podem voar.