| "Os políticos morrem de inveja da gente. Eles se estapeiam para aparecer no vídeo. enquanto nós aparecemos todos os dias." Da atriz Suzana Vieira A coluna de Roberto Pompeu de Toledo, na Veja desta semana, está dizendo que a Globo negociou com os candidatos Luciano Bivar e José Maria Eymael a cobertura diária de suas andanças pelo país, comendo sanduíches de mortadela e bebendo café em botecos de segunda. Em troca, eles não serão excluídos de programas de debate ou entrevistas. Assim, eles aparecem todos os dias no Jornal Nacional da mesma forma que personalidades como o presidente Lula, a senadora Heloísa Helena e o senador Cristovam Buarque, aparentemente como se estivessem em pé de igualdade. Insistindo no detalhe: o acordo com a Globo, segundo Pomeu, prevê que serão descartados nos grandes momentos da campanha, debates e entrevistas de peso. Relação custo/benefício para os dois: como certamente eles sequer se imaginam com competência para chegar a um segundo turno, é um grande negócio. No caso, temos o que os estudiosos de comunicação chamam de enquadramento plural fechado. Explicando, mesmo que de modo simplificado, nesse enquadramento, ou seja nessa exibição dos atores políticos, todos os candidatos aparecem no noticiário, mas alguns estão em posição de assimetria sobre os demais, recebendo o realce que presuntivamente merecem, em função de posições ocupadas, histórico pessoal, passado político, essas coisas que dão fama reiterada às pessoas. Quem não tem tais qualidades, fica em situação desprivilegiada. Lula e Cia. aparecem no notidiário de toda noite e vão participar dos debates: os outros dois, não. Eis aí o enquadramento plural fechado. Na verdade, o foco deste comentário não é tratar de assuntos técnico-acadêmicos, como a questão dos enquadramentos. Mas trazer como tema o problema do espetáculo na política. O que a globo não quer é a presença de atores de segundo time, cujas posições e pensamentos entende que não sejam do interesse popular. Ambos são ilustres desconhecidos para o povo, conseqüentemente, supõe-se que suas palavras não tenham interesse para o grande coletivo nacional. O que se quer é provocar uma sensação, uma expectativa para as arenas a serem montadas pela Globo, presentes, aí sim, os nomes tidos como mais representativos. O que se quer mostrar é o embate, o conflito de forças máximas da política brasileira, as fagulhas comunicacionais que possivelmente sairão desse confonto. É o frisson, a mise-en-scene retórico-gestual. E, dia seguinte, pesquisas vão pulular anunciando quem venceu o debate, quem convenceu mais, quem dobrou o adversário. Agora, quer ver Eymael ou Bivar aparecerem com destaque? Basta que surja fato novo, que jornalisticamente justifique sua presença com luzes e toques. Caso eles consigam levar para as ruas, para onde quer quer estejam, o espetáculo, pronto, estarão aptos a se apresentar nos palcos da globo. E isso é o mais preocupante: a ação jornalística, caso sejam verídicas a informação do colunista de Veja, de que uma emissora de TV selecionou seus atores políticos segundo sua fama e suas divergências, ao invés de seus conteúdos. É uma seleção fulanizada. Não estou dizendo que Eymael ou Bivar tenham nada de novo a propor. Apenas que deveria haver oportunidades iguais para aqueles igualmente candidatos. Só isso. Na verdade, a prática da discriminação é comum. Somente surge em destaque no noticiário aquele que já detém capital simbólico acumulado durante muitos anos e portanto pode valorizar-se e ser valorizado pelo jornalismo. Caso típico a quebrar essa regra foi o de Miguel Mossoró, aqui em Natal, quando, na última campanha para eleição de prefeito, se propôs a construir uma ponte ligando o Estado à ilha de Fernando de Noronha. Pronto: foi o suficiente para que seu perfil se enquadrasse nos critérios de noticiabilidade e o homem percorreu o mundo inteiro nos noticiários, blogs, comentários, tudo o que pudesse servir de veículo de comunicação de massa. Quem sabe, se Eymael ou Bivar começarem a comer sanduíches gigantescos, pesando quilos e quilos, não consigam ganhar as manchetes e venham a ser convidados para debates? Debates deveriam servir para esclarecer. Mesmo sabendo-se que no fundo são todos acontecimentos espetaculares em essência, uma vez que são acontecimentos de massa, deveriam ter um Norte ético, o que começaria com o convite a todos os candidatos. Enquanto isso, o noticiário enche linguiça com o relato de visitinhas de candidatos, todos, a ruas e quitandas e o eleitor fica sem a informação principal: a visão de cada um, sua interpretação da realidade nacional e seus (supostos) compromissos. A lei eleitoral contribui muito para amordaçar o noticiário televisivo. Mas a TV negociar o silêncio de alguém, aí já é outra coisa. |
"Não é justo alguém ter o direito de ter uma empresa de aviação e outro não ter o direito de comer um pão." /////// JAMAIS IDE A UM LUGAR GRANDE DEMAIS. A UM LUGAR AONDE NÃO TENHAIS CORAGEM DA IMENSIDÃO - EMANOEL BARRETO - NATAL/RN
terça-feira, 1 de agosto de 2006
O espetáculo eleitoral
domingo, 30 de julho de 2006
A liberdade é secreta
| “Domar o tempo não é matá-lo, mas vivê-lo.” Afonso Arinos de Melo Franco A liberdade pode ser obtida como sucesso e resultado de uma grande passeata, um protesto, uma revolução. Mas essa é a liberdade política, aquela que substitui uma forma de convivência coletiva legislada, por outra, de interesse da maioria que agiu em conjunto, na busca de uma nova realidade. A liberdade a que me refiro, entretanto, é uma forma pessoal e íntima de ser. A descoberta de um caminho bem próprio, geralmente incompreensível para quem está adaptado à liberdade comum e convencional. O burocrata que respeita seu expediente é livre porque obedece; o magnata que controla milhões de dólares e milhões de pessoas pelo mundo afora é livre porque tem poder. Ambos são, entretanto, escravos: um, do seu expediente; outro, da implacável rotina, da obrigação de, diariamente, ganhar mais e mais. São somente dois exemplos, mas creio que a regra se aplica a qualquer atividade. Somos todos escravos no instante mesmo em que, imersos e presos a convicções de realidade, não entendemos que nossa realidade é apenas parte do nosso ser, existir e estar no mundo. É claro que o burocrata pode ser livre, mesmo obedecendo. Basta tomar consciência de que aquilo que faz é apenas um dado de vida. No instante em que se voltar para o seu interior, poderá começar a descobrir os caminhos da liberdade secreta. Não sei se o mesmo vale para o magnata. Lembremos que o dinheiro é um senhor poderoso. E quem o tem, quem o tem em grande quantidade, passa a ser apenas seu guarda, um vigilante eterno de sua fortuna. Dificilmente terá condições de caminhar pela liberdade secreta. Construímos uma civilização baseada no ter, não no ser; erguemos um mundo onde os esquemas de pensamento, a organização, o resultado, se sobrepõem à serenidade, ao respeito, à reflexão. Vivemos um processo em que o indivíduo é sempre chamado, seduzido, convidado a se unir à massa, seguir sem pensar aquilo que lhe é determinado. E quanto mais se confunde com o todo, mas se lhe diz que é livre: livre para escolher uma marca, livre para se vestir com as roupas que estão na moda, livre para ficar preso a um canal de TV, livre para isso, livre para aquilo, livre para aquilo outro, livre para... basta. A liberdade é secreta. Ela é silenciosa e existe para quem pára, quando tudo diz que se deve andar. A liberdade é secreta. Ela é calma, e existe para quem sabe olhar ao lado e ver que pode tomar um caminho estreito, mesmo que à beira de um penhasco. A liberdade é secreta. Ela não precisa de gritos, pois é um chamamento à paz. A liberdade é secreta. É secreta mas nada esconde, pois se abre aos olhos de quem não precisa de olhos para ver. A liberdade é secreta. Mais pode ser encontrada na dor, que na explosão da alegria comprada; na perda, que no ganho desvairado; no silêncio, que nos brados; nas pequenas realizações do dia a dia, que nas torres falsas das grandes cerimônias. A liberdade é secreta. A porta está à sua vista. Pode entrar. |
sexta-feira, 28 de julho de 2006
E aí, o Professor Pardal pendurou um relógio na varanda (da minha viagem a Minas - final)
| "Ó Minas Gerais, ó Minas Gerais Quem de conhece, não esquece jamais." Da tradicional composição mineira Se nas Gerais encontrei na grandeza da montanhas aquela paisagem que nos envia para uma espécie de silêncio interior, numa perplexidade encantada, descobri também uma figura humana que somente pode ser descrita como incrível. Falo de Joaquim Magalhães, o Tchan. Luthier de talento, recupera quase magicamente violões, violas e contrabaixos que recebe em estado lastimável e os coloca na condição de instrumentos para uso perfeito. Pois bem: além disso, Joaquim é um engenhoso inventor e um ser humano de entusiasmante imprevisibilidade. Municiado por grandes conhecimentos de hidráulica e outras artes, montou um engenhoso sistema de purificação de água que recolhe a um poço e assim abastece a sua casa. A água sai escura e, após passar por uma série de filtros, sai limpinha, para uso doméstico. O largo portão da casa, em vez de ser aberto pelo sistema convencional, com aqueles motores que se compra em empresas especializadas, é movimentado por um interessante sistema hidráulico, todo feito a partir de peças de automóveis. Aquelas que servem para abrir portas de ônibus e porta-malas de carros. O sistema, que obedece a controle remoto, conta com correntes de bicicleta para puxar o portão, que se abre de par em par. Só vendo para crer. Mas o dado da imprevisibilidade encontrei num relógio que ele pôs na varanda da casa, bem à vista dos passantes. É o seguinte: ele mora nas imediações de um ponto de ônibus. E como as pessoas costumavam, com insistente persistência, perguntar-lhe as horas, ele se via obrigado a sempre entrar em casa, consultar o relógio e voltar, para dar a informação. Com isso, os passantes sabiam se seu ônibus estava no horário. Cansado desse exercício, adotou uma solução radical: comprou um relógio grande e expôs, pendurado, na varanda. Pronto, agora ele estava livre de tantas perguntas. O relógio ficava como vigilante do tempo e ele ia cuidar de sua vida. Ledo engano: certo dia, quando dormia tranqüilamente a sua sesta, eis que a campainha toca. Ele ainda resistiu um pouco, esperando que o incoveniente visitante fosse embora. Nada. A campanhia era insistente e afinal ele levantou-se. E qual não foi sua surpresa quando uma senhora, sua conhecida, perguntou, veja só: "Seu Joaquim, esse relógio está mesmo com a hora certa?" Coisas da vida, coisas da vida. Quanto a mim, meu relógio da memória estará sempre acertado com as Gerais. Volto lá. Um dia, eu volto. PS: Abaixo, um comentário a respeito do veto governamental ao projeto de regulamentação da profissão de jornalista. |
Liberdade de imprensa, não; liberdade de empresa
| "Se a empresa me manda fazer uma mentira e eu concordo, sou tão responsável quanto ela. O jornalista tem de estar preparado para colocar o seu emprego à disposição toda vez que tiver um conflito de consciência". Heródoto Barbeiro - jornalista O presidente Lula vetou integralmente o projeto de lei complementar que instituía a regulamentação da profissão de jornalista. Aliou-se ao patronato e capitulou ao lobby das grandes empresas de jornalismo. Eu já esperava por isso. Com tal decisão, prevalecem os interesses empresariais, em detrimento da boa qualidade na informação e do fortalecimento da categoria. A Federação Nacional dos Jornalistas-FENAJ, divulgou nota em que se posiciona criticamente à atitude do governo. Abaixo, a transcrição do documento. Nota de protesto e esclarecimento Governo cede ao lobby dos donos da mídia Os patrões venceram. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva capitulou mais uma vez aos interesses das grandes empresas de comunicação do País ao vetar integralmente o projeto de lei que atualiza as funções da profissão de jornalista. Orientado por sua equipe, o presidente cedeu aos argumentos falaciosos dos donos da mídia que, utilizando indevidamente do poder de difusão que têm, usaram seus veículos apenas para defender seus interesses. A atualização da regulamentação profissional dos jornalistas é uma reivindicação legítima da categoria, organizada em seus Sindicatos e na FENAJ. O projeto de lei nº 079/2004 foi discutido e democraticamente aprovado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal. Ao vetá-lo integralmente, o presidente nega, mais uma vez, sua origem sindical, sua luta pela organização dos trabalhadores e, principalmente, o respeito aos princípios democráticos que vigoram no Brasil. O governo simplesmente não resistiu à pressão desigual dos donos da mídia. Capitulou aos interesses empresariais, como fez em relação à criação do Conselho Federal de Jornalistas e ao processo de implantação da TV e do rádio digital no País.A FENAJ não pode aceitar que, nessa capitulação, o governo lance mão do argumento da liberdade de imprensa e de expressão indevidamente utilizado pelos donos da mídia. Na campanha que desencadearam pelo veto ao PL 079, grandes jornais e emissoras de TV passaram por cima da liberdade de expressão e de imprensa que falsamente dizem defender.A verdadeira ameaça à liberdade de expressão e de imprensa não é a regulamentação da profissão dos jornalistas. É, isto sim, o alto grau de concentração da propriedade privada na mídia, o conluio com elites políticas nos Estados e no Congresso Nacional e a hegemonia, no mercado de comunicação, de um único grupo, a Rede Globo. Mais uma vez o movimento sindical dos jornalistas foi vítima de sórdida e orquestrada campanha sustentada pelas empresas, que difundiram, em escala de massa, desinformação e histeria. Transformou-se uma justa reivindicação profissional em um problema de Estado. Contaram, como sempre, com os serviçais de plantão e com novos e inesperados aliados, inclusive no campo dos trabalhadores. É condenável a postura da Federação dos Radialistas (Fittert) que defendeu o veto total, ao lado das empresas de rádio e TV, e, no momento final de negociação, propôs a retirada da função de repórter cinematográfico, previsto como atividade de jornalista desde 1969. Como "saída honrosa", o Governo propôs a formação de um grupo de trabalho para discutir mudanças na regulamentação profissional. A proposta nasce comprometida pela postura autoritária das empresas de comunicação e de suas entidades representativas: ANJ, Abert e Aner que, sabidamente, não querem qualquer regulamentação. A FENAJ não se furtará ao debate democrático e participará do grupo de trabalho proposto pelo Ministério do Trabalho, mas não abrirá mão dos direitos conquistados com a luta de gerações de jornalistas brasileiros. É preciso esclarecer à sociedade que aos jornalistas interessa manter e aperfeiçoar a regulamentação da profissão, e aos patrões interessa o fim do diploma, a ausência de um conselho profissional, a desmoralização das entidades sindicais e a não-observância dos princípios éticos que regem a profissão. Por seu compromisso com esse passado de lutas e por acreditar em um país mais justo com o seu povo, a FENAJ, os Sindicatos de Jornalistas e toda a categoria vão continuar defendendo a regulamentação profissional, a exigência da formação de nível superior em Jornalismo para o exercício da profissão e a auto-regulamentação, com a criação de um Conselho Profissional. Porque tudo isso é condição para a prática de um jornalismo verdadeiro, ético e socialmente responsável.Brasília, 27 de julho de 2006 |
quinta-feira, 27 de julho de 2006
Ainda das Gerais: o batizado e o padre rabugento
| "O homem vem à terra para uma permanência muito curta, para um fim que ele mesmo ignora, embora, às vezes, julgue sabê-lo". Albert Einstein A igreja lembrava a basílica de São Pedro. O padre mesmo disse, antes de iniciar a cerimônia de batismo. Estou em Minas, na cidade de Timóteo, para ser, em companhia da Minha Mulher, padrinho e madrinha de Lívia, filha de Jonas e Cristina. Realmente, o templo tinha as linhas básicas da magnífica basílica, mas, além disso, tinha também um problema: o apressadíssimo padre, que com gestos bruscos advertia os fíéis que, logo após a cerimônia, todos deveriam retirar-se, o mais rápido possível. E ficamos todos nós como aquele motorista que fica só acelerando o carro, para largar o mais rápido possível tão logo o sinal verde abra. Na verdade, não achei o padre grosseiro. Mas um trapalhão mal-humorado, Um tipo rabugento, a zelar por algo que considera como muito importante. O homem era tão, digamos, aferventado, que a pequena Lívia, até então caladíssima, abriu o eco a chorar quando ele tentou lhe fazer um carinho. Mas não houve problema: e afinal realizou-se o batizado, que esperou quase um ano pela minha presença a fim de que fosse realizado. A data inicial fora remarcada em função de impossibilidade minha de ir até lá. Terminada a cerimônia, ainda dava para ouvir o padre e sua algaravia de exigências, conclamando as pessoas a sair. Parecia querer o grande silêncio do templo só para seus ouvidos. Na verdade, deve ser ele um carrancudo habitante da solidão. Mas valeu a pena. Jonas, uma grande figura e um grande caráter, e Cristina, uma mãe coruja, festejaram o batismo. Na comemoração, a voz forte de Bruno, seu violão e a presença do pai, Tone, foram notas marcantes. Também valeu, pela alegria e espontaneidade a alegria de Jeane, Edmirson e a filhinha Rafaela, além de Pedro, um pequeno furacão. São coisas que vivi nas Gerais. Coisas boas que entram na vida da gente. Coisas que dá vontade de repetir. E as Gerais estarão sempre em nosso caminho. Ô trem bão, sô... Cê pode acreditar... |
Marcadores:
minas gerais,
Padre Abdala Jorge,
Timirim,
Timóteo
quarta-feira, 26 de julho de 2006
Caminhos, pessoas, paisagens e coisas das Gerais
| "Para dizer o que vai acontecer, é preciso entender o que já aconteceu." Nicolau Maquiavel Na crônica de ontem falei sobre Minas Gerais, uma visão geral da paisagem humana, o imenso cenário de montanhas, grandeza brotada da terra que se levanta intensa para o céu. Foi bom reencontrar pessoas, as mãos mágicas de Nice em sua delicada missão de fazer os melhores quitutes de uma culinária riquíssima. As atenções de seu marido, Cristiano, conhecedor emérito das melhores cachaças, daquelas sem marca, fabricadas em alambiques secretos. No Espírito Santo, Cristianinho, que puxou ao pai, uma figura dessas que somente encontramos em situações muito especiais. Ao lado de Rosi, sua mulher, e de Sarah, a filhinha linda, tem uma família feita de paz. Mas as montanhas das Gerais escondem, aninhado bem nos longes das distâncias, o povoado de Major Ezequiel. É um lugar onde se reverenciam memórias antigas, numa vida calma. Ali se avultaram para mim as figuras simples e boas de Geraldo e Maria. Ele, agricultor e homem de criação de gado. Ela, a expressão mais forte da mulher e mãe de muitos filhos. Na charrete, tirada pelo cavalo Foguete, um passeio por velhas fazendas, onde chegamos por estradas difíceis, cruzando com carros-de-boi carregados. A visão do cemitério dos escravos onde, dizem, as almas fortes que ali habitam impediram que uma ferrovia por lá passasse, destruindo aquele canto cercado de misticismo e fé do povo. No alto, uma igreja. Seu sino triste sempre toca quando alguém morre. À noite, o frio é companheiro que invade as casas. O Major, como é conhecido o povoado, é terra que venceu as mudanças e diz ao tempo que prefere ficar como está, distante das neuroses da cidade e dos seus habitantes apressados. Não há como esquecer de Dimas e Eliana, em Belo Horizonte. Ao lado dos filhos Ígor e Erick sintetizam à perfeição o que seja tratar bem, receber, abraçar. Enfim, nessas férias, eu e Minha Mulher percorremos caminhos afetivos que há muito esperávamos rever, como Tia Nice e Tio Nilzinho. Foi uma viagem boa, cheia de delicadas emoções. E o tempo não apagará do espelho das lembranças as imagens de tantos e de todos que nos receberam, a mim e à Minha Mulher, com seus gestos mais queridos. Dá vontade de voltar. E voltaremos, quando essa vontade se derramar pelas bordas do cálice da saudade. |
terça-feira, 25 de julho de 2006
A grandeza das Gerais
"O que mais preocupa não é nem o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem-caráter, dos sem-ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons" Martin Luther King Ao voltar de Minas Gerais, a lembrança deixa de ser apenas aquele pensamento fugidio, anotações emotivas que vão e vêm, como numa revista que se folheia meio ao acaso: as fotos como sensações impressas, o texto como registros que vão parar, afinal, no esquecimento. Ao voltar das Gerais, o que ficou não é lembrança, é recordação encravada no território do bem querer. A paisagem das montanhas, vastas em sua altitude de beleza imensa; o silêncio largo, a imagem das pessoas, seus gestos, o abraço. As Gerais são um estado de espírito. O mineiro é antes de tudo alguém que sabe acolher. Na companhia da Minha Mulher, mineira que traz no sentimento o saber do que seja aquele instante longo que é Minas Gerais, percorri caminhos do interior antigo, tradições tão belas que são esculpidas na alma das pessoas. As Gerais são um grande encanto. Como encantadora também é Vitória, Espírito Santo, onde a fé do povo, se não remove montanhas, sobe uma delas para rezar rezas antigas, num mosteiro pleno desse grande mistério que é chegar aos umbrais do tempo e postar-se diante do sagrado. Falarei disso tudo ao longo dos próximos dias: pessoas, amigos, familiares, reencontros, os rios, o trem, a sensação do chegar e estar bem. Afinal, a vida é feita de momentos que vão se juntando, até formar o mosaico de nossas existências. E no mosaico que vou construindo ao longo da minha caminhada, estarão para sempre presentes os momentos que vivi. Uma hora tem minutos, que é o tempo preso dentro do mecanismo dos relógios. Mas os momentos, os instantes, não cabem dentro das horas. E são esses momentos e instantes que, longe da frieza dos minutos e das horas, se revestem da alegria e se enchem disso que chamamos de Vida. Vivi as Gerais. E disso falaremos como recordação. |
segunda-feira, 24 de julho de 2006
Estou voltando pra casa
Após 18 dias com o povo bom e as belezas de Minas Gerais, estou de volta. A partir de amanhã, o Coisas de Jornal voltará a ter postagens diárias. Coisas, causos, momentos, passagens e paisagens, serão relatadas em crônicas diárias.
Um grande abraço e até amanhã.
Emanoel Barreto
Um grande abraço e até amanhã.
Emanoel Barreto
domingo, 9 de julho de 2006
"Ainda tenho os dez últimos cartões da lotofácil acumulada..."
"Há duas coisas infinitas:
o universo e a tolice dos homens,"
Albert Einstein
Feira de Artesanato de Belo Horizonte, neste domingo, de manhã. A voz da moça cega destacava-se no meio do burburinho generalizado, que apregoava produtos da mais alta qualidade, o talento e sensibilidade do artesão mineiro. A cantilena, que tinha algo de triste, de apelo, de chamamento, era como quem diz "me ajude, preciso vender esses bilhetes da sorte", mas também insinuava: "Se você comprar, pode ficar rico..."
Eu já estava atento àquele momento tão humano e tão forte, aquela voz humilde apregoava seu produto e pedia para ser ouvida. Ora, ela competia com artesanato de alta qualidade e somente tinha a vender, pobremente, uma promessa vaga de que alguém, comprando algum dos seus bilhetes da Lotofácil, poderia vir a ser rico de uma hora para outra.
A moça feia e pobre chamou mais a minha atenção que artesanato belo e bem acabado. Sua cantilena, monótona, surgia somente um pouco acima do confuso barulho de colméia que inundava a feira. Mas a humanidade do momento era comovente.
Afinal parei e, ao lado da minha mulher, fomos até a moça e compramos um dos "últimos dez cartões da Lotofácil acumulada." Saí da feira, ela perdeu-se em meio à multidão e, sinceramente, espero que ela tenha reservado um cartão para si. Afinal, quem traz esperança, também deveria ter, pelo menos um pouquinho, uma oportunidade de, um dia, a vida se tornar melhor e menos escura.
PS: Se puder, repasse aos amigos, dizendo que tem nova postagem no Coisas de Jornal.
Abraços,
Emanoel Barreto
o universo e a tolice dos homens,"
Albert Einstein
Feira de Artesanato de Belo Horizonte, neste domingo, de manhã. A voz da moça cega destacava-se no meio do burburinho generalizado, que apregoava produtos da mais alta qualidade, o talento e sensibilidade do artesão mineiro. A cantilena, que tinha algo de triste, de apelo, de chamamento, era como quem diz "me ajude, preciso vender esses bilhetes da sorte", mas também insinuava: "Se você comprar, pode ficar rico..."
Eu já estava atento àquele momento tão humano e tão forte, aquela voz humilde apregoava seu produto e pedia para ser ouvida. Ora, ela competia com artesanato de alta qualidade e somente tinha a vender, pobremente, uma promessa vaga de que alguém, comprando algum dos seus bilhetes da Lotofácil, poderia vir a ser rico de uma hora para outra.
A moça feia e pobre chamou mais a minha atenção que artesanato belo e bem acabado. Sua cantilena, monótona, surgia somente um pouco acima do confuso barulho de colméia que inundava a feira. Mas a humanidade do momento era comovente.
Afinal parei e, ao lado da minha mulher, fomos até a moça e compramos um dos "últimos dez cartões da Lotofácil acumulada." Saí da feira, ela perdeu-se em meio à multidão e, sinceramente, espero que ela tenha reservado um cartão para si. Afinal, quem traz esperança, também deveria ter, pelo menos um pouquinho, uma oportunidade de, um dia, a vida se tornar melhor e menos escura.
PS: Se puder, repasse aos amigos, dizendo que tem nova postagem no Coisas de Jornal.
Abraços,
Emanoel Barreto
quinta-feira, 6 de julho de 2006
Caros Amigos...
| "Ninguém jamais se perde no caminho de volta." Sabedoria popular A partir de hoje e por mais umas três semanas estarei ausente. São umas férias que de há muito estou esperando. Conseqüentemente, não poderei fazer atualizações diárias do blog. Mas, de onde estiver, sempre que possível, farei novas postagens. Um grande abraço, Emanoel Barreto |
quarta-feira, 5 de julho de 2006
Pay per post
| O princípio da liberdade é inseparável do princípio da responsabilidade. Leoni Kaseff O sucesso dos blogs tem sido tamanho, que já há anunciantes pagando para que posts sejam veiculados como se fossem material redacional de iniciativa de quem redige o blog. É uma prática antiga, que atinge e ainda existe em muitos jornais impressos, no Brasil, agora em migração para o jornalismo na net. É pay per post. Esse tipo de anúncio, veiculado em forma de comentário, dá inegavelmente credibilidade ao produto, uma vez que o blog, até prova em contrário, representa fielmente aquilo que o autor pensa. É que, aqui, temos literalmente liberdade absoluta para publicar tudo. O marketing, ágil enquanto ferramenta de planejamento, logo descobriu esse nicho e está aproveitando a oportunidade, que em essência burla a boa-fé do leitor. O blog é hoje um dado jornalístico indiscutível. Opinativo por excelência, aqueles que, no blog, se dedicam ao jornalismo, aio invés de aqui ter uma espécie de diário virtual, ganharam força e expressão em todo o mundo. É lamentável que os trinta dinheiros das grandes corporações já estejam de olho naquilo que deveria ser uma forma de comunicação credível e respeitável. |
terça-feira, 4 de julho de 2006
Essas coisas de jornal. Ou, de como as mãos podem agir como se vivas fossem
"O oposto do amor não é o ódio e sim a indiferença." Érico Veríssimo Normalmente, quando vou atualizar o blog, já venho com uma idéia básica, uma proposta de texto encaminhada. Mas agora, não. Não tinha uma idéia pronta, algo esquematizado, faltando somente soltar as mãos sobre o teclado e ver o texto começar a nascer, como uma planta que brota, uma coisa viva, saída, surgente. Em busca de assunto, passei a ver na net jornais e revistas, textos a esmo, buscando algo para escrever sobre. Ou seja: eu estava buscando coisas de jornal, essas coisas chamadas notícias, esses fragmentos de mundo que aportam às páginas, virtuais ou não, e nos chegam aos olhos, ao conhecimento, à perplexidade, ao medo, à alegria, à expectativa, à indignação, às vezes à comoção e à esperança. Vi as mesmas e previsíveis informações sobre os jogos finais da Copa, quem poderá ser o novo técnico da Seleção, bombas no Iraque, agentes da lei sendo mortos em emboscadas por marginais, enfim, essas coisas que lemos todos os dias e vemos todos os dias: corrupção, etc...etc...etc... Então, resolvi ir fazendo estas anotações que você lê, como se minhas mãos fossem dois bichos amestrados, ensinados; mais que isso, mãos que tivessem vida independente e, como seu dono sente-se meio sem assunto, elas tomam o comando e vão redigindo, redigindo, redigindo, escrevendo, jogando palavras no vídeo mágico do computador. Tudo para fechar o nosso contrato de leitura, ou seja: diariamente ou não, você chega ao Coisas de Jornal esperando encontrar um texto novo. E sempre tem algo novo para ler. Então, ficamos combinados assim, sem nunca termos firmado acerto algum. E agora minhas mãos estão se encarregando disso, de cumprir nosso contrato. Não deu para ressaltar nenhum retalho da vida para um comentário, uma nota, um registro maior que poucas palavras. Mas deu para percorrermos este caminho de letras, sabendo que, fora do computador, o cotidiano pode ser um imenso repertório de repetições, mas todas elas têm uma carga e um peso que muitas vezes, é preciso admitir, nos dão medo. A repetição dos acontecimentos torna-os banais, aparentemente. Mas quem foi personagem da tragédia, protagonista ou auditório da cena, certamente está de olhos bem abertos. E dá seus passos de sombra em meio a caminhos onde as candeias já foram, de há muito, apagadas. Sopra o vento. E ele é frio. As minhas mãos terminaram o texto. Espero ter cumprido o contrato de leitura. |
Sobre a entrevista de Marcola
| "A força gerada pela não-violência é infinitamente maior do que a força de todas as armas inventadas pela engenhosidade do homem." Mahatma Gandhi A respeito da suposta entrevista com Marcola, que está publicada logo abaixo desta nota, a professora e jornalista Sheila Accioly pesquisou e constatou que na verdade trata-se de um trabalho ficcional. A pesquisa foi feita no site Observatório da Imprensa e ela me enviou o endereço: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=387FDS002 . Abaixo a íntegra da matéria que esclarece como surgiu a tal entrevista. Mas vale bem a pena uma reflexão a respeito da questão da violência e do crime organizado no Brasil. Efetivamente, o Estado não tem apresentado a eficácia que seria desejável, no enfrentamento de uma situação desse tipo. Seja nas origens sociais do crime (atendendo às populações carentes nas favelas), seja na contenção do próprio crime. Leia o texto: Onde começa e onde termina o virtual Por Anna Veronica Mautner em 27/6/2006 Um belo dia, há duas semanas se muito, começou a aparecer entre meus e-mails, vindo de conhecidos e também de conhecidos de conhecidos, um texto de três páginas que continha – segundo o título – uma entrevista realizada por um repórter da Globo, anônimo, com o prisioneiro Marcola. Confesso que fui tomada por um mecanismo que na psicanálise é chamado "mecanismo de negação". Isto é, apaguei o fato de ter estranhado que uma entrevista tão importante não tivesse o nome do jornalista que a tivesse realizado. Preferi não acreditar nesta minha observação que mais tarde, como veremos, teria tudo a ver. Li e reli a entrevista. Amei. Entre surpreendida e estonteada, andei dias com o papel na mão. Como eu sou analfabeta em máquinas e não sei usar o "encaminhar", só sei usar o "responder" e o "imprimir" – a corrente parou na minha mão. Outros, mais hábeis que eu, continuaram espalhando a entrevista pelo mundo afora. Conversei até não mais poder a respeito do significado de tão maravilhosa entrevista, de tantas respostas pertinentes e argutas. Quando já parecia estar passando o efeito, eis que me chega na forma de comunicado: a entrevista chegando às mãos de determinado jornalista, parou. Este esclareceu a uma de minhas amigas da corrente que o tal texto era da lavra de Arnaldo Jabor. Este meu amigo, Jabor, tinha inventado uma entrevista fictícia para sua coluna semanal. As perguntas e as respostas eram da lavra dele. Criação de diálogos O que de fato me deixou perplexa, me aturdiu, foi que todo um grupo de brasileiros, urbanos, alfabetizados, nível superior, gente do mundo, gente nada ingênua, tenha aceito que a produção intelectual de Jabor poderia ter sido gerada por Marcola que vive, sempre viveu, em um outro universo onde vigoram outros parâmetros e conceitos. Se fosse de verdade, com certeza teria o nome do entrevistador e ainda teria tido seguimento da imprensa. Dias depois, encontro pessoalmente com Jabor, que tinha ouvido falar de uma certa entrevista do Marcola que estaria circulando, mas ainda não tinha chegado até ele. Ele confessou que não imaginou que se tratasse de sua própria obra de ficção. E assim se fechou a corrente. Uma dramaturga disse que poderia ter desconfiado, pois a entrevista era obra de alguém afeito à criação de diálogos. Muita gente, pelo visto, estranhou. Contudo, queríamos todos que fosse verdade. Por quê? Ainda não tenho resposta. |
segunda-feira, 3 de julho de 2006
O crime, o terror e o silêncio dos inocentes: um depoimento chocante
"Polícia é polícia;
bandido é bandido."
Lúcio Flávio Lírio, bandido carioca morto nos anos 70
Recebi da jornalista e professora Sheilla Accioly texto que ela obteve junto a uma lista de discussão, relativo a uma suposta entrevista do traficante Marcola. Não sabemos se o material é verdadeiro, mas, de qualquer maneira, vale a publicação. Dá o que pensar. E dá muito medo. A descrição da realidade brasileira, a interpretação do momento nacional é suficientemente lúcida e demonstra a quantas anda o crime organizado, bem como a fragilidade das instituições para enfrentá-lo. Leia abaixo.
'Você é do PCC?"
Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível... vocês nunca me olharam durante décadas... E antigamente era mole resolver o problema da miséria... O diagnóstico era óbvio:migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias... A solução é que nunca vinha... Que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a "beleza dos morros ao amanhecer", essas coisas... Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estãomorrendo de medo... Nós somos o início tardio de vossa consciência social... Viu? Sou culto... Leio Dante na prisão...
Mas... a solução seria...
Solução? Não há mais solução, cara... A própria idéia de "solução" já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução, como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico,revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma "tirania esclarecida", que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice... (Ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC...) ... e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference calls entre presídios...) E tudo isso custaria bilhõesde dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estruturapolítica do país. Ou seja: é impossível. Não há solução.
Você não têm medo de morrer?
Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar... mas eu posso mandar matar vocês lá fora.... Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba... Estamos no centro do Insolúvel, mesmo...Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos,diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração... A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala...Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em "seja marginal,seja herói"? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha... Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né? Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante... mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país. Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem. Vocês não ouvem as gravações feitas "com autorização daJ ustiça"? Pois é. É outra língua.Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites,celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.
O que mudou nas periferias?
Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$ 40 milhões como o Beira-Mar não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório... Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado?Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no "microondas"... há, há... Vocês são o Estado quebrado,dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha.Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados.Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.
Mas o que devemos fazer?
Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército?Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas... O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lulaainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, "Sobre aguerra". Não há perspectiva de êxito... Nós somos formigas devoradoras,escondidas nas brechas... A gente já tem até foguete antitanques... Se bobear, vão rolar uns Stingers aí... Pra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas...Aliás, a gente acaba arranjando também "umazinha", daquelas bombas sujas mesmo.... Já pensou Ipanema radioativa? Mas... não haveria solução?Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a"normalidade". Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazeruma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco... na boa... na moral... Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós vivemos dele e vocês... não têm saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabem por quê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema.Como escreveu o divino Dante: "Lasciate ogna speranza voi che entrate!" Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.
domingo, 2 de julho de 2006
Seleção, aprecie com moderação
| "HAJA O QUE HAJAR, O CORÍNTHIANS VAI SER CAMPEÃO." Vicente Matheus, Pronto, acabou-se o sonho do hexa. A geringonça comunicacional-midiática montada em torno da Seleção Brasileira desmanchou-se tal-qualmente um jogo de armar ao qual retirou-se uma peça-chave: desfeito o engaste, o todo desmorona. E qual foi a peça-chave? Simples, a realidade. Bastou mostrar a realidade, que o espelho se partiu. Desde o primeiro jogo, e especialmente quando da disputa contra Gana, um time sem tradição, com uma defesa frágil, quando foram perdidos gols literalmente feitos, que a Seleção demonstrava que não teria condições de chegar a mais um campeonato. O que mantinha a ilusão enquanto prática de manipulação era a matéria da qual essa ilusão era formada: jogadores que, individualmente, são ou eram endeusados pela mídia jornalística e publicitária aqui e na Europa; grandes inversões de capitais multinacionais para manter essa imagem, bem como a memória da prática de um grande futebol, historicamente colada à Seleção. Tudo isso orquestrado, mercadologicamente organizado para efeito sinfônico-midiático de forma a manter um público cativo, fiel, seguidor e submisso aos ditames dos interesses dos grandes investidores. Um desses investidores foi a cerveja Brahma, que se apresentava como um dos patrocinadores oficiais da Seleção. Mas a realidade superou a ficção do futebol imbatível. Apesar da Brahma e de seu patrocínio, veio a despedida, melancólica e aterradora: o futebol é apenas um jogo, a Seleção não é o Brasil. O Brasil real é aquele do dia a dia, do salário curto, dos políticos corruptos, da escola de má qualidade, do assalto, do crime. O Brasil de um processo histórico onde o povo nunca fez a sua hora. Mas a máquina publicitária, o interesse do grande capital não tem limites. Tão logo a Seleção retirou-se da humilhação ocorrida frente às mesmas câmeras da Rede Globo, emissora da qual a Seleção é uma propriedade a ser exibida no vídeo, a Brahma veiculava para todo um País um comercial com Zeca Pagodinho, em que ele faz uma convocatória, diz para esperarmos até 2010 e reafirma o compromisso da cervejaria em continuar patrocinando a Seleção. Mais claramente: ciente de que estava patrocinando uma espécie de ilusão de ótica coletiva, a Brahma já admitia o desmonte de todo o jogo de mídia que se fazia em torno dos supostamente imbatíveis jogadores brasileiros. Tanto, que já tinha pronto o comercial paliativo. Como certamente já tinha pronto outro, louvando os "vencedores", caso tivesse havido mais um avanço da Seleção. Mais claramente ainda: no jogo da formulação de símbolos não há sinceridade alguma, é tudo aparência e nada mais. Em suma: vamos tentar de novo? Mas o comercial é perfeito, tecnicamente: foi escolhido um dos grandes gênios da música popular brasileira, pagodeiro de raiz e compositor de méritos, portanto, legitimado para ser apresentado como alguém do povo; o cenário também é uma perfeição: de costas para a saída de um túnel de campo de futebol, ele tem ao fundo, bem ao fundo, um céu cheio de estrelas, aquelas que Ronaldo, nos comerciais de Brahma, queria atingir com seus chutes para emplacar a estrela do hexa; e afinal, após fazer embaixadinhas e malabarismos como a bola, Zeca Pagodinho propaga uma mensagem em que apazigua os ânimos malferidos da nação cinzenta, aponta o indicador e faz o gesto clássico em que gira o dedo e diz que, lá na frente, em 2010, tem mais Copa - e que a Brahma será, sempre, patrocinadora oficial da Seleção. Em matéria de técnica publicitária um primor. Em matéria de manipulação, mais um tiro certeiro da grande empresa. Mas, parodiando a citação de Vicente Matheus, ditgamos: "Houve o que houveu e o Brasil não foi campeão." No mais, do mesmo modo que em matéria de Brahma deve-se apreciar com moderação, em se tratando de Seleção, acredite com moderação... |
quinta-feira, 29 de junho de 2006
Os sem-avião e a publicidade
"A não-violência nunca deve ser usada
como um escudo para a covardia.
É uma arma para os bravos."
Mahatma Gandhi
Um dos pilares da economia hoje, é a publicidade. Os anúncios, o discurso de sedução e convencimento de uma empresa sobre seu produto ou serviço são parte orgânica de sua ação administrativa. Tanto que publicidade, para o empresário que se pretenda moderno e esclarecido a respeito do seu produto, bem como sobre o mercado sobre o qual atua, integra organicamente a ação de sua empresa.
Publicidade, hoje, não é custo, despesa, é investimento. É parte do capital que vai atrair mais aporte de capital via vendas. Ocorre aí, entretanto, uma disjunção entre o discurso publicitário e a realidade da empresa. Em suma, são duas realidades diferentes, convivendo entre si. A publicidade dizendo o quão boa a empresa é, e aquilo que na verdade a empresa é: uma entidade voltada para o lucro.
Quando há coincidência entre o anúncio e a verdade da empresa, temos essência e aparência unidas como yin e yang, ou faces de uma mesma moeda. Quando a empresa entra em processo de queda, o discurso do anúncio se distancia da verdade . E os resultados negativos quem sente são os clientes e os trabalhadores das empresas em processo de desmanche.
O caso típico é a situação de tsunami econômico em que se encontra a Varig, cuja tradicional e respeitada marca, construída em anos de trabalho publicitário que coincidia com a essência da empresa, deixou seu céu-de-brigadeiro econômico e ingressou numa área de turbulência grave.
O resultado são funcionários tentanto desesperadamente salvar a empresa e conseqüentemente seus próprios empregos e os clientes, hoje amontoados em aeroportos. Inauguram assim o que os jornais estão chamando de sem-avião, a mais nova categoria nacional de desvalidos, mesmo que desvalidos de ocasião, desvalidos de classe média.
Os sem-avião ficam à mercê das desgraças empresariais da Varig. Perembulam pelos aeroportos, dormem no chão ou sobre a bagagem para que esta não seja roubada. Imploram nos balcões das empresas por uma mudança de vôo. De nada adianta. Entre a Varig anunciada durante anos e a verdade dura da Varig atual há uma diferença abissal. E os sem-avião ficam, surrealisticamente, a ver navios.
A grande questão é que quando a publicidade aponta um produto ou serviço como importante ou necessário ao consumo de massa, o faz com linguagem de autoridade, de conosseur , ou seja: há uma promesa, uma garantia mesmo, de que aquilo tem qualidade - aqui entendida em sentido amplo - tanto que a sociedade deverá consumi-lo, qualquer que seja a matéria anunciada.
Está sendo assim com a Varig, foi assim com a Parmalat. Quem não se lembra a bela e sedutora campanha dos "mamíferos", adoráveis crianças vestidas de bichinhos, bem nutridas e lindas, somente porque bebiam leite Parmalat? Na verdade, nem leite Parmalat existia. E isso pelo fato de que somente existe leite. A marca é que foi colada ao conceito de um leite que tem nome.
E o que aconteceu? A Parmalat entrou em processo falimentar. Em nenhum momento seus diretores ficaram preocupados com o que aconteceria com as milhares de crianças "mamíferas". Como elas iriam sobreviver sem o seu leitinho Parmalat? Ora bolas... Eles tinham mais o que fazer.
Com a Varig, o slogan "Varig, Varig, Varig", que fechava seu jingle, insinuava que somente com aquela palavra, o nome da empresa, estariam garantidos todos os bons serviços da empresa, desde a venda do bilhete de viagem, passando pelo percurso, até o pouso tranqüilo e a chegada repousante do passageiro. Havia, acima de tudo, uma promessa de perenidade.
A publicidade é envolvente e promete, ao cliente, implicitamente, um produto ou serviço que vai durar para sempre. O que não é verdade. Tempos mudam, empresas também. Assim como o tempo econômico, que muitas vezes enfrenta fucarões na moeda. Publicidade tem que existir. Mas é preciso respeito pelo cliente por parte da empresa que se publiciza, honestidade para com seu mercado consumidor quando entra em situação de crise, o que nunca acontece.
Os sem-avião são a prova maior dessa distância entre publicidade e realidade. No caso, deveria ser como jogo do bicho: vale o que está escrito. E aí, vamos apostar na águia?
como um escudo para a covardia.
É uma arma para os bravos."
Mahatma Gandhi
Um dos pilares da economia hoje, é a publicidade. Os anúncios, o discurso de sedução e convencimento de uma empresa sobre seu produto ou serviço são parte orgânica de sua ação administrativa. Tanto que publicidade, para o empresário que se pretenda moderno e esclarecido a respeito do seu produto, bem como sobre o mercado sobre o qual atua, integra organicamente a ação de sua empresa.
Publicidade, hoje, não é custo, despesa, é investimento. É parte do capital que vai atrair mais aporte de capital via vendas. Ocorre aí, entretanto, uma disjunção entre o discurso publicitário e a realidade da empresa. Em suma, são duas realidades diferentes, convivendo entre si. A publicidade dizendo o quão boa a empresa é, e aquilo que na verdade a empresa é: uma entidade voltada para o lucro.
Quando há coincidência entre o anúncio e a verdade da empresa, temos essência e aparência unidas como yin e yang, ou faces de uma mesma moeda. Quando a empresa entra em processo de queda, o discurso do anúncio se distancia da verdade . E os resultados negativos quem sente são os clientes e os trabalhadores das empresas em processo de desmanche.
O caso típico é a situação de tsunami econômico em que se encontra a Varig, cuja tradicional e respeitada marca, construída em anos de trabalho publicitário que coincidia com a essência da empresa, deixou seu céu-de-brigadeiro econômico e ingressou numa área de turbulência grave.
O resultado são funcionários tentanto desesperadamente salvar a empresa e conseqüentemente seus próprios empregos e os clientes, hoje amontoados em aeroportos. Inauguram assim o que os jornais estão chamando de sem-avião, a mais nova categoria nacional de desvalidos, mesmo que desvalidos de ocasião, desvalidos de classe média.
Os sem-avião ficam à mercê das desgraças empresariais da Varig. Perembulam pelos aeroportos, dormem no chão ou sobre a bagagem para que esta não seja roubada. Imploram nos balcões das empresas por uma mudança de vôo. De nada adianta. Entre a Varig anunciada durante anos e a verdade dura da Varig atual há uma diferença abissal. E os sem-avião ficam, surrealisticamente, a ver navios.
A grande questão é que quando a publicidade aponta um produto ou serviço como importante ou necessário ao consumo de massa, o faz com linguagem de autoridade, de conosseur , ou seja: há uma promesa, uma garantia mesmo, de que aquilo tem qualidade - aqui entendida em sentido amplo - tanto que a sociedade deverá consumi-lo, qualquer que seja a matéria anunciada.
Está sendo assim com a Varig, foi assim com a Parmalat. Quem não se lembra a bela e sedutora campanha dos "mamíferos", adoráveis crianças vestidas de bichinhos, bem nutridas e lindas, somente porque bebiam leite Parmalat? Na verdade, nem leite Parmalat existia. E isso pelo fato de que somente existe leite. A marca é que foi colada ao conceito de um leite que tem nome.
E o que aconteceu? A Parmalat entrou em processo falimentar. Em nenhum momento seus diretores ficaram preocupados com o que aconteceria com as milhares de crianças "mamíferas". Como elas iriam sobreviver sem o seu leitinho Parmalat? Ora bolas... Eles tinham mais o que fazer.
Com a Varig, o slogan "Varig, Varig, Varig", que fechava seu jingle, insinuava que somente com aquela palavra, o nome da empresa, estariam garantidos todos os bons serviços da empresa, desde a venda do bilhete de viagem, passando pelo percurso, até o pouso tranqüilo e a chegada repousante do passageiro. Havia, acima de tudo, uma promessa de perenidade.
A publicidade é envolvente e promete, ao cliente, implicitamente, um produto ou serviço que vai durar para sempre. O que não é verdade. Tempos mudam, empresas também. Assim como o tempo econômico, que muitas vezes enfrenta fucarões na moeda. Publicidade tem que existir. Mas é preciso respeito pelo cliente por parte da empresa que se publiciza, honestidade para com seu mercado consumidor quando entra em situação de crise, o que nunca acontece.
Os sem-avião são a prova maior dessa distância entre publicidade e realidade. No caso, deveria ser como jogo do bicho: vale o que está escrito. E aí, vamos apostar na águia?
quarta-feira, 28 de junho de 2006
COLÓQUIOS
| "A vida está num ovo e o ovo é um mundo; quem quiser nascer tem que destruir um mundo." Hermann Hesse A poetisa Zilda Neves enviou o belo poema abaixo. ( A Maria Maria Stella, in memoriam) A palavra que emitimos, nos colóquios As palavras que escrevemos As sentenças Elas têm seu destino. Podem nascer e morrer Podem durar decênios Podem durar séculos, podem cair no olvido. Palavras brilhantes Palavras sábias, palavras néscias Podem ser repetidas Podem ser esquecidas. A lembrança Só a lembrança fica Da palavra falada, na palavra escrita. |
Vamos torcer pelo Brasil
| "Aprendi a contar até dez, apesar de só ter nove dedos, que é para não cometer erros." Presidente Luís Inácio Lula da Silva Carmen Ashermann, de São Paulo, envia o texto que segue. Um primor de criatividade. PRECISAMOS DE TÉCNICO... MAS NÃO PRECISA SER DE TIME. PODE SER DE SAÚDE. PRECISAMOS DE ESCOLA... MAS NÃO PRECISA SER DE SAMBA. PODE SER DE ALFABETIZAÇÃO. PRECISAMOS DE CRAQUE... MAS NÃO PRECISA SER PARA FUMAR. PODE SER EM TRANSPARÊNCIA PÚBLICA. PRECISAMOS DESEMPATAR... MAS NÃO PRECISA SER O JOGO. PODE SER O PROGRESSO. PRECISAMOS DE ATACANTE... MAS NÃO PRECISA SER CRIMINOSO. PODE SER CONTRA A FOME. PRECISAMOS DE SEGURANÇA... MAS NÃO PRECISA SER NO GRAMADO. PODE SER NAS RUAS. PRECISAMOS COBRAR A FALTA... MAS NÃO PRECISA SER DO LANCE. PODE SER DE ÉTICA NA POLÍTICA PRECISAMOS TORCER PELO BRASIL... MAS NÃO PRECISA SER PARA O HEXA. PODE SER PARA A GENTE MESMO. PRECISAMOS ACERTAR O RESULTADO... MAS NÃO PRECISA SER DO BOLÃO. PODE SER DE ELEIÇÃO.. |
terça-feira, 27 de junho de 2006
Ponha a máscara e ligue a TV: o Brasil vai jogar
| "No futebol, quem ganha e quem perde as partidas é a alma." Nelson Rodrigues O Brasil enfrenta hoje Gana, pela Copa do Mundo. O Brasil enfrenta hoje Gana pela Copa do Mundo? Não, nada disso. Um time de futebol, a que chamamos de Seleção Brasileira, disputa hoje uma partida de futebol contra um time de futebol chamado de Seleção de Gana. Só isso. Nada de país enfrentando país, nada de pátrias de chuteiras, como queria também o genial jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues - que grande frasista. Mas, numa coisa, ele tinha, ou tem, razão: são as almas de brasileiros e ganeses quem estará sofrendo, pulsando, purgando dores sociais e conflitos pessoais, desesperos nacionais e utopias desconjuntadas, enquanto a bola corre em busca do gol. É como se cada gol fosse uma casa dada a uma família pobre; cada drible sensacional o resgate da fome de milhares de pessoas; cada recuperação heróica do jogador machucado uma mão estendida a milhões de desamparados. Cada desemparado usando a chuteira do craque. Um jogo de futebol desse tipo é na verdade um grande teatro social onde os atores - as almas dos povos, a alma de cada pessoa dos povos - estão desempenhando seu papel social como que em busca de um tempo mais justo. E ninguém nem percebe... Como no teatro grego, onde os atores usavam máscaras, os jogadores em campo são as máscaras. Os jogadores são a máscara do povo. Encobrem a internalidade do ator a quem dão suporte, um ator intocável, abstrato e que, paradoxalmente, está presente na torcida do estádio ou em frente a um aparelho de TV: o povo. O povo que em si já é personagem de uma grande tragédia - que se desdobra ao longo da história. Um personagem que sucumbe e renasce no tempo, todo o tempo. É isso, é sempre isso. PS: espero que nosso time vença. Afinal, a minha alma também é brasileira e quer ganhar a partida. PS-2: após o jogo, um dos povos terá a alma cansada e triste. E cada pessoa então, separada da multidão e solitária dentro de si, dará de cara com seus fantasmas e se dará conta de que a vida continua. E vai esperar, para daqui a quatro anos, vestir de novo a sua máscara de jogador de futebol. |
segunda-feira, 26 de junho de 2006
Nordeste? Ah! No nordeste, só tem nordestino...
"O silêncio não fala;
o silêncio significa."
Eni Puccinelli Orlandi
Na chamada grande imprensa, o Nordeste é um silêncio grande. E só se transforma em grito de manchete ou imagem falante na TV quando alguma coisa trágica acontece. E aí, imagens recidivas voltam ao vídeo ou ao papel do jornal mostrando as mesmas paisagens desdentadas de verde, aquele sertanejo sofrido, ícone vivo de uma realidade sócio-econômica que se alonga penosamente através da história.
Fora isso, nós nordestinos só aparecemos quando há alguma matéria sobre turismo e são mostradas as belíssimas paisagens praieiras do nosso litoral. Ou seja: ou é oito ou é oitenta. E um assunto é excludente do outro. Se se fala em seca e fome, não se toca na beleza das praias. O inverso também é verdadeiro .
Para o imaginário da tal grande imprensa o Nordeste é uma realidade estática, uma espécie de duplo vinculado de miséria e beleza. Mas no geral permanece o seguinte raciocínio: falou pobreza, disse Nordeste.
Estou fazendo esta abertura para tratar de uma matéria veiculada domingo pela Rede Globo, no Globo Esporte, quando se mostrou uma parte do Brasil onde ainda não há energia elétrica.
E qual a região escolhida para dar esse demonstrativo? O Nordeste! Claro, tinha que ser o Nordeste: afinal é aqui que as pessoas têm aquele sotaque meio cantado, são atrasadas e isso, e aquilo, e aquilo outro, não é mesmo?
Pois bem: foi mostrada uma pequena comunidade em Pernambuco, onde ingênuos agricultores, pobres do campo, falavam candidamente a respeito de como faziam para tomar conhecimento dos resultados dos jogos da Copa e até mesmo para acompanhar as partidas.
Velhos rádios de pilha ou uma TV em preto e branco, provida de energia a partir de uma bateria de automóvel, são os equipamentos usados pela população. Os nordestinos foram mostrados como curiosidade do circo midiático dos horrores.
Não se falou da omissão dos governos em prover aquelas populações de força e luz. Tocou-se no assunto com angulação voltada para o fato em si: uma gente atrasada, perdida nos rincões de um Brasil bruto, uma gente que fala errado e tem sotaque carregado, tentando ser como o povo da cidade e querendo ter direito a saber como está a Copa. Imagine!
Esse trabalho jornalístico, que cristaliza uma imagem negativa de um povo, o povo nordestino, contribui decisivamente para a fermentação do velho preconceito contra a Região. No Brasil há cerca de dez milhões de pessoas que não têm acesso à energia elétrica. A matéria ganharia força se fosse mostrada uma realidade nacional, uma exclusão perversa e dispersa; não unicamente coisa de nordestino.
Preferiu-se entretanto retrabalhar a velha imagem do nordestino e apresentar-nos como uma leva de indigentes da luz, uma esquisitice frente ao mundo globalizado. Mas Euclides da Cunha dizia que "o nordestino é antes de tudo um forte." Somos. Seremos.
o silêncio significa."
Eni Puccinelli Orlandi
Na chamada grande imprensa, o Nordeste é um silêncio grande. E só se transforma em grito de manchete ou imagem falante na TV quando alguma coisa trágica acontece. E aí, imagens recidivas voltam ao vídeo ou ao papel do jornal mostrando as mesmas paisagens desdentadas de verde, aquele sertanejo sofrido, ícone vivo de uma realidade sócio-econômica que se alonga penosamente através da história.
Fora isso, nós nordestinos só aparecemos quando há alguma matéria sobre turismo e são mostradas as belíssimas paisagens praieiras do nosso litoral. Ou seja: ou é oito ou é oitenta. E um assunto é excludente do outro. Se se fala em seca e fome, não se toca na beleza das praias. O inverso também é verdadeiro .
Para o imaginário da tal grande imprensa o Nordeste é uma realidade estática, uma espécie de duplo vinculado de miséria e beleza. Mas no geral permanece o seguinte raciocínio: falou pobreza, disse Nordeste.
Estou fazendo esta abertura para tratar de uma matéria veiculada domingo pela Rede Globo, no Globo Esporte, quando se mostrou uma parte do Brasil onde ainda não há energia elétrica.
E qual a região escolhida para dar esse demonstrativo? O Nordeste! Claro, tinha que ser o Nordeste: afinal é aqui que as pessoas têm aquele sotaque meio cantado, são atrasadas e isso, e aquilo, e aquilo outro, não é mesmo?
Pois bem: foi mostrada uma pequena comunidade em Pernambuco, onde ingênuos agricultores, pobres do campo, falavam candidamente a respeito de como faziam para tomar conhecimento dos resultados dos jogos da Copa e até mesmo para acompanhar as partidas.
Velhos rádios de pilha ou uma TV em preto e branco, provida de energia a partir de uma bateria de automóvel, são os equipamentos usados pela população. Os nordestinos foram mostrados como curiosidade do circo midiático dos horrores.
Não se falou da omissão dos governos em prover aquelas populações de força e luz. Tocou-se no assunto com angulação voltada para o fato em si: uma gente atrasada, perdida nos rincões de um Brasil bruto, uma gente que fala errado e tem sotaque carregado, tentando ser como o povo da cidade e querendo ter direito a saber como está a Copa. Imagine!
Esse trabalho jornalístico, que cristaliza uma imagem negativa de um povo, o povo nordestino, contribui decisivamente para a fermentação do velho preconceito contra a Região. No Brasil há cerca de dez milhões de pessoas que não têm acesso à energia elétrica. A matéria ganharia força se fosse mostrada uma realidade nacional, uma exclusão perversa e dispersa; não unicamente coisa de nordestino.
Preferiu-se entretanto retrabalhar a velha imagem do nordestino e apresentar-nos como uma leva de indigentes da luz, uma esquisitice frente ao mundo globalizado. Mas Euclides da Cunha dizia que "o nordestino é antes de tudo um forte." Somos. Seremos.
sábado, 24 de junho de 2006
A história de Arrius, o Velho
| "A verdade é filha do tempo, não da autoridade." Francis Bacon As mãos se estenderam para o teclado do piano como galhos que crescem em direção ao sol. Ao toque suave as teclas respondiam com notas sequenciais que se uniam em acordes, que se seguiam em melodia, que se apresentava como esplendor na relva. Olhos semicerrados ele acompanhava a prórpria interpretação de Sonata ao Luar enquanto, ao fundo, vista da grande janela do estúdio, a noite funda emitia seu som de maravilhoso e terrífico silêncio. Não havia lua e um vento frio entrava pela janela, aberta. A sala era de requintada magnitude. Móveis sóbrios, candelabros iluminando luz de mil candelas. O ambiente ainda tinha a aura pesada, de luz e sombra, solidão necessária àquele momento ao mesmo tempo austero e fascinante. Solidão em estado puro, escuridão mediada de pontos de luz. Do silêncio das mãos brotava a música, até o último e final compasso. Depois, tudo parou. Silêncio. Parado, nos confins do estúdio, o mordomo perguntou, com voz de suprema reverência: - Senhor, seu Madeira – e aproximou-se com sutil presença. Ele fez um gesto com a cabeça. O criado entendeu: deixou a garrafa sobre uma mesinha ao lado do piano e retirou-se, aliado do silêncio trevoso que impunha respeito noturno e indevassável. Ele tomou do cálice e o sorveu, profundo. Depois, as notas do piano voltaram a se combinar com as pequenas chamas das velas, misturando-se depois com a escuridão. Havia uma beleza estranha, de formas fátuas e sombrias. Havia uma inesperada forma de felicidade naquele instante de música à meia-luz. Uma felicidade incompreendida e dispersa, uma felicidade improvisada como improvisados agora eram os acordes que surgiam naquele esplendor de cores desbotadas pelo encontro da luminosidade vacilante das velas, com a presença forte da escuridão. Depois, parou. Tomou do cálice do Madeira e colocou o cristal, como uma lente, contra a luz de um candelabro. Observou com interesse o efeito luminoso sobre o vermelho do vinho. O líquido continha, no interior do vidro finíssimo, uma pequena e fulgurantemente forte manifestação de vida. Os dedos, habilidosos, manipularam o cálice, girando-o lentamente contra a luz. Percebeu a beleza da bebida, requintada obra de arte feita de líquido e luz. Com a outra mão, dividia aquele prazer com o teclado. Nas notas mais agudas trinou um canto sem voz. Pois, se não podem falar, os pianos podem cantar um idioma de muitas compreensões. O artista estava velho. Recluso à sua vivenda, ancestral, velha, abraçada por gerações centenárias, o grande solar era um templo de solidão, onde somente se admitia a presença dos tempos de ontem. A cabeleira basta, grisalha caiu-lhe sobre a testa. Ele voltou a pousar o cálice sobre a mesinha. Depois, serviu-o com outra dose farta. Depois, virou o cálice de uma vez só. Vórtice que se perdeu em sua boca. Degustou o vinho com violência de sabre. Voltou a encher o cálice e tornou ao toque magnífico e tátil das teclas.Com excepcional domínio técnico, em gênio assombroso de convivência com o piano, dominou a melodia sem temor. Olhos fechados, sabia exatamente qual a nota seguinte, o acorde mais perfeito, o tom mais acertado, o som mais vigoroso. Ao mesmo tempo terno e cálido, dominante e suave, explosivo e abafado. Conhecia, ah!, como conhecia, as noites infindas e as notas mais terríveis, incrivelmente brutais da criação sensível e protetora. Tinha em sua natureza, guardadas, eternamente guardadas, mas prontas a explodir, todas as canções que ainda não haviam nascido, mas que estavam lá, todas elas, guardadas e vivas, todas as canções. Era um homem feito de acordes. O cálice na mão, a outra mão ao piano. Depois, o cálice sobre a mesinha e as duas mãos criando música para a noite escura. O vento se escoou pela grande janela e o frio veio de fora para ferir sua pele de artista da solidão. Agradeceu ao frio pela sua presença de saudade. Saudade? Saudade dos tempos de juventude, quando cavalgava os campos e gritava aos companheiros que seria o vencedor. Saudade dos tempos em que, aplaudido pela Corte, deslumbrava os salões da nobreza com às vezes sóbria, mas sempre divina e bravíssima suavidade dos tons, meio-tons e improvisos toques no teclado vivo. Ele mesmo um aristocrata. Saudade dos tempos em que, também divinamente, atiçava os comentários e falatórios de sua vida dissoluta, mulheres e vinho. E todos, apesar, o aplaudiam. Pois o sabiam autêntico e decidido seguidor do hedonismo de estar vivo. E o invejavam. Daí, os aplausos. Parou. Parou de tocar. Lentamente, muito lentamente, retirou a cabeleira grisalha da testa e caminhou para a janela em direção ao frio. Despiu o traje pesado, o fraque elegante, retirou a camisa, finíssima, de tecido quase diáfano e se apresentou à noite. Torso nu, abriu os braços para a escuridão e sentiu o toque de punhal que só o frio tem. Virou-se rápido e correu para a garrafa do Madeira. Virou-a aos lábios e sentiu a bebida descendo pela garganta como um adorável veneno. Sorveu mais, mais e mais, até sentir que o vinho fazia parte do seu sangue. Como um louco correu até a adega e trouxe mais uma garrafa. Voltou ao estúdio e, antes de retornar ao piano, apoderou-se de um charuto, um puro, e acendeu-o à luz de uma vela. Deu um trago profundo, sentindo a fumaça misturar-se até o mais íntimo de si. Sorriu. Depois, riu, riu alto, gargalhadas. Ninguém ouviria o ruidoso murmúrio daquela alegria selvática, hedonista, fria e gritante. Estava vivo e gritava ao silêncio que estava vivo. Olhou a noite, viu a escuridão e divisou o lado fronteiro à sua herdade, legado antigo de família. Voltou ao Madeira e sorveu-o de um gole só. Dirigiu-se ao piano e atacou o teclado com vigor incomum. E surgiu uma melodia incandescente, meditativa e forte, como se uma vaga luminosa iluminasse as suas mãos, ou uma tempestade, no mar, fosse vagalhão incontido e se esbater contra o casco do navio. E dedicou sua última composição a uma dama, Madame Charlotte de Savigny, a de olhos macios como doces olhos de gazela. Seu único e derradeiro amor. Depois entregou-se à lua que afinal surgia, e desapareceu no espaço. |
quarta-feira, 21 de junho de 2006
A polícia faz greve; o bandido não pára
| "Todo homem luta com mais bravura por seus interesses do que por seus direitos." Napoleão Bonaparte Quem de alguma forma viveu o período da ditadura no Brasil, a última, nascida na madrugada do dia 1º de abril de 64, deve ainda lembrar como as polícias agiam, coordenadas e competentemente, para colaborar com a manutenção do regime anti-democrático. Agora, as polícias agem, cada uma por si, para garantir seus ganhos salariais. Para tanto, recorrem ao democrático instrumento da greve, greve que tantas vezes tais instituições ajudaram a debelar. E ainda hoje, quando movimentos de trabalhadores saem às ruas, são as polícias quem os reprime. Há, portanto, uma incongruência, no mínimo. Os policiais deveriam mostrar solidariedade para com os demais grevistas, sempre e quando estes se mobilizem. Estou usando o termo no plural, pois há a polícia federal, a polícia civil e a polícia militar. Isso sem levarmos em conta a Agência Brasileira de Inteligência, que substituiu o velho Serviço Nacional de Informações. Entendo que o policial, pelo menos os civis e os militares, ganham mal; talvez o mesmo não se possa dizer da polícia federal. Entendo que correm risco pessoal na defesa da sociedade, mas a paralisação do aparato de estado que prioritariamente se volta à prevenção e repressão às mais diversas formas de criminalidade, é algo perigoso e de alguma maneira termina por contribuir para com a ação dos criminosos. Ainda bem que os tempos são outros e as polícias não se prestam mais ao serviço de descobrir e prender quem pensa. As polícias atuam contra quem precisa de polícia, salvo o caso de greves ou passeatas, quando voltam a cumprir seu papel histórico, de repressão. Na verdade, a questão vai mais fundo. A greve das polícias, que volta a se postar, revela de alguma maneira a falência do Estado brasileiro em, até mesmo, atender às reivindicações daqueles que em última instância farão valer a presença daquilo que a História consagrou como sendo o Poder, aquela capacidade de alguém fazer impor sua vontade, especialmente no plano institucional. O Estado brasileiro, em sua tessitura, apresenta-se esgarçado e age de maneira pontual, resolvendo conjunturalmente problemas sociais que são estruturais. E, a persistir esse estado de coisas, com os policiais cristalizando uma cultura grevista numa instituição que deve estar 24 horas atenta ao crime, estará criada uma situação perigosa, uma vez que funcionários públicos autorizados a usar armas estarão nas ruas reclamando em favor de seus interesses. O Estado brasileiro deve remunerar bem aos policiais, para que eles não venham a se confundir com bandidos. |
terça-feira, 20 de junho de 2006
Às vésperas do fim do mundo
A neve e a tempestade matam as flores,
mas nada podem contra as sementes.
Khalil Gibran
mas nada podem contra as sementes.
Khalil Gibran
Os jornais informam que a Noruega iniciou segunda-feira última a construção de um depósito mundial de sementes no arquipélago de Svalbard, no Oceano Ártico. O objetivo é garantir a preservação de espécies agrícolas e também o ser humano, em caso de ocorrência de catástrofes naturais, guerras nucleares ou sabotagens de terroristas.
Resumindo: o ser humano chegou ao ponto de ter que esconder sob a terra, na verdade uma montanha de pedra, sementes que, sem a insanidade hoje imperante entre os homens, na verdade não precisariam de tanto.
As informações da imprensa indicam que o depósito no Ártico deverá armazenar três milhões de amostras genéticas. As sementes serão enterradas a mais de dez metros de profundidade e mantidas encaixotadas a uma temperatura de seis graus abaixo de zero, podendo o sistema abaixar a temperatura até 18 graus negativos, caso a temperatura externa aumente.
Guardas armados, cerca de grande segurança e até ursos polares defenderão a vida escondida a sete chaves. Se os líderes do mundo não se reunissem somente para discutir questões mesquinhas como o dinheiro que tiram dos países mais pobres e o controle de armas que eles mesmos mandam produzir, nada disso seria necessário.
Afinal, que coisa mais simples e natural é o germinar de uma semente? É louvável, inegavelmente, a iniciativa do governo norueguês, mas soa muito estranho tal iniciativa, pois a rigor bastaria o bom-senso da humanidade, para que nada disso fosse necessário. A precaução, entretanto, nos dá um alerta a respeito do que estamos tramando, enquanto coletividade humana.
Assinar:
Postagens (Atom)
