quinta-feira, 6 de julho de 2006

Caros Amigos...

"Ninguém jamais se perde
no caminho de volta."
Sabedoria popular
A partir de hoje e por mais umas três semanas estarei ausente. São umas férias que de há muito estou esperando. Conseqüentemente, não poderei fazer atualizações diárias do blog. Mas, de onde estiver, sempre que possível, farei novas postagens.
Um grande abraço,
Emanoel Barreto

quarta-feira, 5 de julho de 2006

Pay per post

O princípio da liberdade é inseparável do
princípio da responsabilidade.
Leoni Kaseff

O sucesso dos blogs tem sido tamanho, que já há anunciantes pagando para que posts sejam veiculados como se fossem material redacional de iniciativa de quem redige o blog. É uma prática antiga, que atinge e ainda existe em muitos jornais impressos, no Brasil, agora em migração para o jornalismo na net. É pay per post.

Esse tipo de anúncio, veiculado em forma de comentário, dá inegavelmente credibilidade ao produto, uma vez que o blog, até prova em contrário, representa fielmente aquilo que o autor pensa. É que, aqui, temos literalmente liberdade absoluta para publicar tudo.

O marketing, ágil enquanto ferramenta de planejamento, logo descobriu esse nicho e está aproveitando a oportunidade, que em essência burla a boa-fé do leitor.

O blog é hoje um dado jornalístico indiscutível. Opinativo por excelência, aqueles que, no blog, se dedicam ao jornalismo, aio invés de aqui ter uma espécie de diário virtual, ganharam força e expressão em todo o mundo. É lamentável que os trinta dinheiros das grandes corporações já estejam de olho naquilo que deveria ser uma forma de comunicação credível e respeitável.

terça-feira, 4 de julho de 2006

Essas coisas de jornal. Ou, de como as mãos podem agir como se vivas fossem


"O oposto do amor não é
o ódio e sim a indiferença."
Érico Veríssimo

Normalmente, quando vou atualizar o blog, já venho com uma idéia básica, uma proposta de texto encaminhada. Mas agora, não. Não tinha uma idéia pronta, algo esquematizado, faltando somente soltar as mãos sobre o teclado e ver o texto começar a nascer, como uma planta que brota, uma coisa viva, saída, surgente.

Em busca de assunto, passei a ver na net jornais e revistas, textos a esmo, buscando algo para escrever sobre. Ou seja: eu estava buscando coisas de jornal, essas coisas chamadas notícias, esses fragmentos de mundo que aportam às páginas, virtuais ou não, e nos chegam aos olhos, ao conhecimento, à perplexidade, ao medo, à alegria, à expectativa, à indignação, às vezes à comoção e à esperança.

Vi as mesmas e previsíveis informações sobre os jogos finais da Copa, quem poderá ser o novo técnico da Seleção, bombas no Iraque, agentes da lei sendo mortos em emboscadas por marginais, enfim, essas coisas que lemos todos os dias e vemos todos os dias: corrupção, etc...etc...etc...

Então, resolvi ir fazendo estas anotações que você lê, como se minhas mãos fossem dois bichos amestrados, ensinados; mais que isso, mãos que tivessem vida independente e, como seu dono sente-se meio sem assunto, elas tomam o comando e vão redigindo, redigindo, redigindo, escrevendo, jogando palavras no vídeo mágico do computador. Tudo para fechar o nosso contrato de leitura, ou seja: diariamente ou não, você chega ao Coisas de Jornal esperando encontrar um texto novo. E sempre tem algo novo para ler. Então, ficamos combinados assim, sem nunca termos firmado acerto algum.

E agora minhas mãos estão se encarregando disso, de cumprir nosso contrato. Não deu para ressaltar nenhum retalho da vida para um comentário, uma nota, um registro maior que poucas palavras. Mas deu para percorrermos este caminho de letras, sabendo que, fora do computador, o cotidiano pode ser um imenso repertório de repetições, mas todas elas têm uma carga e um peso que muitas vezes, é preciso admitir, nos dão medo.

A repetição dos acontecimentos torna-os banais, aparentemente. Mas quem foi personagem da tragédia, protagonista ou auditório da cena, certamente está de olhos bem abertos. E dá seus passos de sombra em meio a caminhos onde as candeias já foram, de há muito, apagadas.

Sopra o vento. E ele é frio.
As minhas mãos terminaram o texto. Espero ter cumprido o contrato de leitura.

Sobre a entrevista de Marcola

"A força gerada pela não-violência
é infinitamente maior do que a
força de todas as armas inventadas
pela engenhosidade do homem."
Mahatma Gandhi

A respeito da suposta entrevista com Marcola, que está publicada logo abaixo desta nota, a professora e jornalista Sheila Accioly pesquisou e constatou que na verdade trata-se de um trabalho ficcional. A pesquisa foi feita no site Observatório da Imprensa e ela me enviou o endereço: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=387FDS002 .

Abaixo a íntegra da matéria que esclarece como surgiu a tal entrevista. Mas vale bem a pena uma reflexão a respeito da questão da violência e do crime organizado no Brasil. Efetivamente, o Estado não tem apresentado a eficácia que seria desejável, no enfrentamento de uma situação desse tipo. Seja nas origens sociais do crime (atendendo às populações carentes nas favelas), seja na contenção do próprio crime. Leia o texto:

Onde começa e onde termina o virtual

Por Anna Veronica Mautner em 27/6/2006
Um belo dia, há duas semanas se muito, começou a aparecer entre meus e-mails, vindo de conhecidos e também de conhecidos de conhecidos, um texto de três páginas que continha – segundo o título – uma entrevista realizada por um repórter da Globo, anônimo, com o prisioneiro Marcola.

Confesso que fui tomada por um mecanismo que na psicanálise é chamado "mecanismo de negação". Isto é, apaguei o fato de ter estranhado que uma entrevista tão importante não tivesse o nome do jornalista que a tivesse realizado. Preferi não acreditar nesta minha observação que mais tarde, como veremos, teria tudo a ver.

Li e reli a entrevista. Amei. Entre surpreendida e estonteada, andei dias com o papel na mão. Como eu sou analfabeta em máquinas e não sei usar o "encaminhar", só sei usar o "responder" e o "imprimir" – a corrente parou na minha mão. Outros, mais hábeis que eu, continuaram espalhando a entrevista pelo mundo afora. Conversei até não mais poder a respeito do significado de tão maravilhosa entrevista, de tantas respostas pertinentes e argutas.

Quando já parecia estar passando o efeito, eis que me chega na forma de comunicado: a entrevista chegando às mãos de determinado jornalista, parou. Este esclareceu a uma de minhas amigas da corrente que o tal texto era da lavra de Arnaldo Jabor. Este meu amigo, Jabor, tinha inventado uma entrevista fictícia para sua coluna semanal. As perguntas e as respostas eram da lavra dele.

Criação de diálogos

O que de fato me deixou perplexa, me aturdiu, foi que todo um grupo de brasileiros, urbanos, alfabetizados, nível superior, gente do mundo, gente nada ingênua, tenha aceito que a produção intelectual de Jabor poderia ter sido gerada por Marcola que vive, sempre viveu, em um outro universo onde vigoram outros parâmetros e conceitos. Se fosse de verdade, com certeza teria o nome do entrevistador e ainda teria tido seguimento da imprensa.

Dias depois, encontro pessoalmente com Jabor, que tinha ouvido falar de uma certa entrevista do Marcola que estaria circulando, mas ainda não tinha chegado até ele. Ele confessou que não imaginou que se tratasse de sua própria obra de ficção. E assim se fechou a corrente.

Uma dramaturga disse que poderia ter desconfiado, pois a entrevista era obra de alguém afeito à criação de diálogos. Muita gente, pelo visto, estranhou. Contudo, queríamos todos que fosse verdade. Por quê? Ainda não tenho resposta.

segunda-feira, 3 de julho de 2006

O crime, o terror e o silêncio dos inocentes: um depoimento chocante

"Polícia é polícia;
bandido é bandido."
Lúcio Flávio Lírio, bandido carioca morto nos anos 70


Recebi da jornalista e professora Sheilla Accioly texto que ela obteve junto a uma lista de discussão, relativo a uma suposta entrevista do traficante Marcola. Não sabemos se o material é verdadeiro, mas, de qualquer maneira, vale a publicação. Dá o que pensar. E dá muito medo. A descrição da realidade brasileira, a interpretação do momento nacional é suficientemente lúcida e demonstra a quantas anda o crime organizado, bem como a fragilidade das instituições para enfrentá-lo. Leia abaixo.

'Você é do PCC?"

Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos. Eu era pobre e invisível... vocês nunca me olharam durante décadas... E antigamente era mole resolver o problema da miséria... O diagnóstico era óbvio:migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias... A solução é que nunca vinha... Que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a "beleza dos morros ao amanhecer", essas coisas... Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estãomorrendo de medo... Nós somos o início tardio de vossa consciência social... Viu? Sou culto... Leio Dante na prisão...

Mas... a solução seria...
Solução? Não há mais solução, cara... A própria idéia de "solução" já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução, como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico,revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma "tirania esclarecida", que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice... (Ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC...) ... e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference calls entre presídios...) E tudo isso custaria bilhõesde dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estruturapolítica do país. Ou seja: é impossível. Não há solução.

Você não têm medo de morrer?
Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar... mas eu posso mandar matar vocês lá fora.... Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba... Estamos no centro do Insolúvel, mesmo...Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira. Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos,diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração... A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala...Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em "seja marginal,seja herói"? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha... Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né? Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante... mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país. Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem. Vocês não ouvem as gravações feitas "com autorização daJ ustiça"? Pois é. É outra língua.Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites,celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.

O que mudou nas periferias?
Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$ 40 milhões como o Beira-Mar não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório... Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado?Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no "microondas"... há, há... Vocês são o Estado quebrado,dominado por incompetentes. Nós temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Nós lutamos em terreno próprio. Vocês, em terra estranha.Nós não tememos a morte. Vocês morrem de medo. Nós somos bem armados.Vocês vão de três-oitão. Nós estamos no ataque. Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade. Vocês nos transformam em superstars do crime. Nós fazemos vocês de palhaços. Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais. Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.

Mas o que devemos fazer?
Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército?Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas... O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lulaainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, "Sobre aguerra". Não há perspectiva de êxito... Nós somos formigas devoradoras,escondidas nas brechas... A gente já tem até foguete antitanques... Se bobear, vão rolar uns Stingers aí... Pra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas...Aliás, a gente acaba arranjando também "umazinha", daquelas bombas sujas mesmo.... Já pensou Ipanema radioativa? Mas... não haveria solução?Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a"normalidade". Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazeruma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco... na boa... na moral... Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós vivemos dele e vocês... não têm saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela. Olha aqui, mano, não há solução. Sabem por quê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema.Como escreveu o divino Dante: "Lasciate ogna speranza voi che entrate!" Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.



domingo, 2 de julho de 2006

Seleção, aprecie com moderação

"HAJA O QUE HAJAR, O
CORÍNTHIANS VAI SER CAMPEÃO."
Vicente Matheus,

Pronto, acabou-se o sonho do hexa. A geringonça comunicacional-midiática montada em torno da Seleção Brasileira desmanchou-se tal-qualmente um jogo de armar ao qual retirou-se uma peça-chave: desfeito o engaste, o todo desmorona.
E qual foi a peça-chave? Simples, a realidade. Bastou mostrar a realidade, que o espelho se partiu. Desde o primeiro jogo, e especialmente quando da disputa contra Gana, um time sem tradição, com uma defesa frágil, quando foram perdidos gols literalmente feitos, que a Seleção demonstrava que não teria condições de chegar a mais um campeonato.

O que mantinha a ilusão enquanto prática de manipulação era a matéria da qual essa ilusão era formada: jogadores que, individualmente, são ou eram endeusados pela mídia jornalística e publicitária aqui e na Europa; grandes inversões de capitais multinacionais para manter essa imagem, bem como a memória da prática de um grande futebol, historicamente colada à Seleção.

Tudo isso orquestrado, mercadologicamente organizado para efeito sinfônico-midiático de forma a manter um público cativo, fiel, seguidor e submisso aos ditames dos interesses dos grandes investidores.

Um desses investidores foi a cerveja Brahma, que se apresentava como um dos patrocinadores oficiais da Seleção. Mas a realidade superou a ficção do futebol imbatível.

Apesar da Brahma e de seu patrocínio, veio a despedida, melancólica e aterradora: o futebol é apenas um jogo, a Seleção não é o Brasil. O Brasil real é aquele do dia a dia, do salário curto, dos políticos corruptos, da escola de má qualidade, do assalto, do crime. O Brasil de um processo histórico onde o povo nunca fez a sua hora.

Mas a máquina publicitária, o interesse do grande capital não tem limites. Tão logo a Seleção retirou-se da humilhação ocorrida frente às mesmas câmeras da Rede Globo, emissora da qual a Seleção é uma propriedade a ser exibida no vídeo, a Brahma veiculava para todo um País um comercial com Zeca Pagodinho, em que ele faz uma convocatória, diz para esperarmos até 2010 e reafirma o compromisso da cervejaria em continuar patrocinando a Seleção.

Mais claramente: ciente de que estava patrocinando uma espécie de ilusão de ótica coletiva, a Brahma já admitia o desmonte de todo o jogo de mídia que se fazia em torno dos supostamente imbatíveis jogadores brasileiros.

Tanto, que já tinha pronto o comercial paliativo. Como certamente já tinha pronto outro, louvando os "vencedores", caso tivesse havido mais um avanço da Seleção. Mais claramente ainda: no jogo da formulação de símbolos não há sinceridade alguma, é tudo aparência e nada mais. Em suma: vamos tentar de novo?

Mas o comercial é perfeito, tecnicamente: foi escolhido um dos grandes gênios da música popular brasileira, pagodeiro de raiz e compositor de méritos, portanto, legitimado para ser apresentado como alguém do povo; o cenário também é uma perfeição: de costas para a saída de um túnel de campo de futebol, ele tem ao fundo, bem ao fundo, um céu cheio de estrelas, aquelas que Ronaldo, nos comerciais de Brahma, queria atingir com seus chutes para emplacar a estrela do hexa; e afinal, após fazer embaixadinhas e malabarismos como a bola, Zeca Pagodinho propaga uma mensagem em que apazigua os ânimos malferidos da nação cinzenta, aponta o indicador e faz o gesto clássico em que gira o dedo e diz que, lá na frente, em 2010, tem mais Copa - e que a Brahma será, sempre, patrocinadora oficial da Seleção.

Em matéria de técnica publicitária um primor. Em matéria de manipulação, mais um tiro certeiro da grande empresa. Mas, parodiando a citação de Vicente Matheus, ditgamos: "Houve o que houveu e o Brasil não foi campeão." No mais, do mesmo modo que em matéria de Brahma deve-se apreciar com moderação, em se tratando de Seleção, acredite com moderação...

quinta-feira, 29 de junho de 2006

Os sem-avião e a publicidade

"A não-violência nunca deve ser usada
como um escudo para a covardia.
É uma arma para os bravos."
Mahatma Gandhi

Um dos pilares da economia hoje, é a publicidade. Os anúncios, o discurso de sedução e convencimento de uma empresa sobre seu produto ou serviço são parte orgânica de sua ação administrativa. Tanto que publicidade, para o empresário que se pretenda moderno e esclarecido a respeito do seu produto, bem como sobre o mercado sobre o qual atua, integra organicamente a ação de sua empresa.

Publicidade, hoje, não é custo, despesa, é investimento. É parte do capital que vai atrair mais aporte de capital via vendas. Ocorre aí, entretanto, uma disjunção entre o discurso publicitário e a realidade da empresa. Em suma, são duas realidades diferentes, convivendo entre si. A publicidade dizendo o quão boa a empresa é, e aquilo que na verdade a empresa é: uma entidade voltada para o lucro.

Quando há coincidência entre o anúncio e a verdade da empresa, temos essência e aparência unidas como yin e yang, ou faces de uma mesma moeda. Quando a empresa entra em processo de queda, o discurso do anúncio se distancia da verdade . E os resultados negativos quem sente são os clientes e os trabalhadores das empresas em processo de desmanche.

O caso típico é a situação de tsunami econômico em que se encontra a Varig, cuja tradicional e respeitada marca, construída em anos de trabalho publicitário que coincidia com a essência da empresa, deixou seu céu-de-brigadeiro econômico e ingressou numa área de turbulência grave.

O resultado são funcionários tentanto desesperadamente salvar a empresa e conseqüentemente seus próprios empregos e os clientes, hoje amontoados em aeroportos. Inauguram assim o que os jornais estão chamando de sem-avião, a mais nova categoria nacional de desvalidos, mesmo que desvalidos de ocasião, desvalidos de classe média.

Os sem-avião ficam à mercê das desgraças empresariais da Varig. Perembulam pelos aeroportos, dormem no chão ou sobre a bagagem para que esta não seja roubada. Imploram nos balcões das empresas por uma mudança de vôo. De nada adianta. Entre a Varig anunciada durante anos e a verdade dura da Varig atual há uma diferença abissal. E os sem-avião ficam, surrealisticamente, a ver navios.

A grande questão é que quando a publicidade aponta um produto ou serviço como importante ou necessário ao consumo de massa, o faz com linguagem de autoridade, de conosseur , ou seja: há uma promesa, uma garantia mesmo, de que aquilo tem qualidade - aqui entendida em sentido amplo - tanto que a sociedade deverá consumi-lo, qualquer que seja a matéria anunciada.

Está sendo assim com a Varig, foi assim com a Parmalat. Quem não se lembra a bela e sedutora campanha dos "mamíferos", adoráveis crianças vestidas de bichinhos, bem nutridas e lindas, somente porque bebiam leite Parmalat? Na verdade, nem leite Parmalat existia. E isso pelo fato de que somente existe leite. A marca é que foi colada ao conceito de um leite que tem nome.

E o que aconteceu? A Parmalat entrou em processo falimentar. Em nenhum momento seus diretores ficaram preocupados com o que aconteceria com as milhares de crianças "mamíferas". Como elas iriam sobreviver sem o seu leitinho Parmalat? Ora bolas... Eles tinham mais o que fazer.

Com a Varig, o slogan "Varig, Varig, Varig", que fechava seu jingle, insinuava que somente com aquela palavra, o nome da empresa, estariam garantidos todos os bons serviços da empresa, desde a venda do bilhete de viagem, passando pelo percurso, até o pouso tranqüilo e a chegada repousante do passageiro. Havia, acima de tudo, uma promessa de perenidade.

A publicidade é envolvente e promete, ao cliente, implicitamente, um produto ou serviço que vai durar para sempre. O que não é verdade. Tempos mudam, empresas também. Assim como o tempo econômico, que muitas vezes enfrenta fucarões na moeda. Publicidade tem que existir. Mas é preciso respeito pelo cliente por parte da empresa que se publiciza, honestidade para com seu mercado consumidor quando entra em situação de crise, o que nunca acontece.

Os sem-avião são a prova maior dessa distância entre publicidade e realidade. No caso, deveria ser como jogo do bicho: vale o que está escrito. E aí, vamos apostar na águia?

quarta-feira, 28 de junho de 2006

COLÓQUIOS

"A vida está num ovo
e o ovo é um mundo; quem
quiser nascer tem que
destruir um mundo."
Hermann Hesse

A poetisa Zilda Neves enviou o belo poema abaixo.

( A Maria Maria Stella, in memoriam)
A palavra que emitimos, nos colóquios

As palavras que escrevemos
As sentenças
Elas têm seu destino.

Podem nascer e morrer
Podem durar decênios
Podem durar séculos, podem cair no olvido.

Palavras brilhantes
Palavras sábias, palavras néscias
Podem ser repetidas
Podem ser esquecidas.

A lembrança
Só a lembrança fica
Da palavra falada, na palavra escrita.

Vamos torcer pelo Brasil

"Aprendi a contar até dez, apesar
de só ter nove dedos,
que é para não cometer erros."
Presidente Luís Inácio Lula da Silva

Carmen Ashermann, de São Paulo, envia o texto que segue. Um primor de criatividade.


PRECISAMOS DE TÉCNICO... MAS NÃO PRECISA SER DE TIME. PODE SER DE SAÚDE.

PRECISAMOS DE ESCOLA... MAS NÃO PRECISA SER DE SAMBA. PODE SER DE ALFABETIZAÇÃO.

PRECISAMOS DE CRAQUE... MAS NÃO PRECISA SER PARA FUMAR. PODE SER EM TRANSPARÊNCIA PÚBLICA.

PRECISAMOS DESEMPATAR... MAS NÃO PRECISA SER O JOGO. PODE SER O PROGRESSO.

PRECISAMOS DE ATACANTE... MAS NÃO PRECISA SER CRIMINOSO. PODE SER CONTRA A FOME.

PRECISAMOS DE SEGURANÇA... MAS NÃO PRECISA SER NO GRAMADO. PODE SER NAS RUAS.

PRECISAMOS COBRAR A FALTA... MAS NÃO PRECISA SER DO LANCE. PODE SER DE ÉTICA NA POLÍTICA

PRECISAMOS TORCER PELO BRASIL... MAS NÃO PRECISA SER PARA O HEXA. PODE SER PARA A GENTE MESMO.

PRECISAMOS ACERTAR O RESULTADO... MAS NÃO PRECISA SER DO BOLÃO. PODE SER DE ELEIÇÃO..








terça-feira, 27 de junho de 2006

Ponha a máscara e ligue a TV: o Brasil vai jogar

"No futebol, quem ganha
e quem perde
as partidas é a alma."
Nelson Rodrigues

O Brasil enfrenta hoje Gana, pela Copa do Mundo.
O Brasil enfrenta hoje Gana pela Copa do Mundo?
Não, nada disso. Um time de futebol, a que chamamos de Seleção Brasileira, disputa hoje uma partida de futebol contra um time de futebol chamado de Seleção de Gana. Só isso. Nada de país enfrentando país, nada de pátrias de chuteiras, como queria também o genial jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues - que grande frasista.

Mas, numa coisa, ele tinha, ou tem, razão: são as almas de brasileiros e ganeses quem estará sofrendo, pulsando, purgando dores sociais e conflitos pessoais, desesperos nacionais e utopias desconjuntadas, enquanto a bola corre em busca do gol.

É como se cada gol fosse uma casa dada a uma família pobre; cada drible sensacional o resgate da fome de milhares de pessoas; cada recuperação heróica do jogador machucado uma mão estendida a milhões de desamparados. Cada desemparado usando a chuteira do craque. Um jogo de futebol desse tipo é na verdade um grande teatro social onde os atores - as almas dos povos, a alma de cada pessoa dos povos - estão desempenhando seu papel social como que em busca de um tempo mais justo. E ninguém nem percebe...

Como no teatro grego, onde os atores usavam máscaras, os jogadores em campo são as máscaras. Os jogadores são a máscara do povo. Encobrem a internalidade do ator a quem dão suporte, um ator intocável, abstrato e que, paradoxalmente, está presente na torcida do estádio ou em frente a um aparelho de TV: o povo.

O povo que em si já é personagem de uma grande tragédia - que se desdobra ao longo da história. Um personagem que sucumbe e renasce no tempo, todo o tempo. É isso, é sempre isso.

PS: espero que nosso time vença. Afinal, a minha alma também é brasileira e quer ganhar a partida.
PS-2: após o jogo, um dos povos terá a alma cansada e triste. E cada pessoa então, separada da multidão e solitária dentro de si, dará de cara com seus fantasmas e se dará conta de que a vida continua. E vai esperar, para daqui a quatro anos, vestir de novo a sua máscara de jogador de futebol.



segunda-feira, 26 de junho de 2006

Nordeste? Ah! No nordeste, só tem nordestino...

"O silêncio não fala;
o silêncio significa."
Eni Puccinelli Orlandi

Na chamada grande imprensa, o Nordeste é um silêncio grande. E só se transforma em grito de manchete ou imagem falante na TV quando alguma coisa trágica acontece. E aí, imagens recidivas voltam ao vídeo ou ao papel do jornal mostrando as mesmas paisagens desdentadas de verde, aquele sertanejo sofrido, ícone vivo de uma realidade sócio-econômica que se alonga penosamente através da história.

Fora isso, nós nordestinos só aparecemos quando há alguma matéria sobre turismo e são mostradas as belíssimas paisagens praieiras do nosso litoral. Ou seja: ou é oito ou é oitenta. E um assunto é excludente do outro. Se se fala em seca e fome, não se toca na beleza das praias. O inverso também é verdadeiro .

Para o imaginário da tal grande imprensa o Nordeste é uma realidade estática, uma espécie de duplo vinculado de miséria e beleza. Mas no geral permanece o seguinte raciocínio: falou pobreza, disse Nordeste.

Estou fazendo esta abertura para tratar de uma matéria veiculada domingo pela Rede Globo, no Globo Esporte, quando se mostrou uma parte do Brasil onde ainda não há energia elétrica.

E qual a região escolhida para dar esse demonstrativo? O Nordeste! Claro, tinha que ser o Nordeste: afinal é aqui que as pessoas têm aquele sotaque meio cantado, são atrasadas e isso, e aquilo, e aquilo outro, não é mesmo?

Pois bem: foi mostrada uma pequena comunidade em Pernambuco, onde ingênuos agricultores, pobres do campo, falavam candidamente a respeito de como faziam para tomar conhecimento dos resultados dos jogos da Copa e até mesmo para acompanhar as partidas.

Velhos rádios de pilha ou uma TV em preto e branco, provida de energia a partir de uma bateria de automóvel, são os equipamentos usados pela população. Os nordestinos foram mostrados como curiosidade do circo midiático dos horrores.

Não se falou da omissão dos governos em prover aquelas populações de força e luz. Tocou-se no assunto com angulação voltada para o fato em si: uma gente atrasada, perdida nos rincões de um Brasil bruto, uma gente que fala errado e tem sotaque carregado, tentando ser como o povo da cidade e querendo ter direito a saber como está a Copa. Imagine!

Esse trabalho jornalístico, que cristaliza uma imagem negativa de um povo, o povo nordestino, contribui decisivamente para a fermentação do velho preconceito contra a Região. No Brasil há cerca de dez milhões de pessoas que não têm acesso à energia elétrica. A matéria ganharia força se fosse mostrada uma realidade nacional, uma exclusão perversa e dispersa; não unicamente coisa de nordestino.

Preferiu-se entretanto retrabalhar a velha imagem do nordestino e apresentar-nos como uma leva de indigentes da luz, uma esquisitice frente ao mundo globalizado. Mas Euclides da Cunha dizia que "o nordestino é antes de tudo um forte." Somos. Seremos.

sábado, 24 de junho de 2006

A história de Arrius, o Velho

"A verdade é filha do tempo, não da autoridade."
Francis Bacon

As mãos se estenderam para o teclado do piano como galhos que crescem em direção ao sol. Ao toque suave as teclas respondiam com notas sequenciais que se uniam em acordes, que se seguiam em melodia, que se apresentava como esplendor na relva. Olhos semicerrados ele acompanhava a prórpria interpretação de Sonata ao Luar enquanto, ao fundo, vista da grande janela do estúdio, a noite funda emitia seu som de maravilhoso e terrífico silêncio.

Não havia lua e um vento frio entrava pela janela, aberta. A sala era de requintada magnitude. Móveis sóbrios, candelabros iluminando luz de mil candelas. O ambiente ainda tinha a aura pesada, de luz e sombra, solidão necessária àquele momento ao mesmo tempo austero e fascinante.

Solidão em estado puro, escuridão mediada de pontos de luz. Do silêncio das mãos brotava a música, até o último e final compasso. Depois, tudo parou. Silêncio. Parado, nos confins do estúdio, o mordomo perguntou, com voz de suprema reverência: - Senhor, seu Madeira – e aproximou-se com sutil presença. Ele fez um gesto com a cabeça. O criado entendeu: deixou a garrafa sobre uma mesinha ao lado do piano e retirou-se, aliado do silêncio trevoso que impunha respeito noturno e indevassável.

Ele tomou do cálice e o sorveu, profundo. Depois, as notas do piano voltaram a se combinar com as pequenas chamas das velas, misturando-se depois com a escuridão. Havia uma beleza estranha, de formas fátuas e sombrias. Havia uma inesperada forma de felicidade naquele instante de música à meia-luz. Uma felicidade incompreendida e dispersa, uma felicidade improvisada como improvisados agora eram os acordes que surgiam naquele esplendor de cores desbotadas pelo encontro da luminosidade vacilante das velas, com a presença forte da escuridão.

Depois, parou. Tomou do cálice do Madeira e colocou o cristal, como uma lente, contra a luz de um candelabro. Observou com interesse o efeito luminoso sobre o vermelho do vinho. O líquido continha, no interior do vidro finíssimo, uma pequena e fulgurantemente forte manifestação de vida. Os dedos, habilidosos, manipularam o cálice, girando-o lentamente contra a luz. Percebeu a beleza da bebida, requintada obra de arte feita de líquido e luz.

Com a outra mão, dividia aquele prazer com o teclado. Nas notas mais agudas trinou um canto sem voz. Pois, se não podem falar, os pianos podem cantar um idioma de muitas compreensões. O artista estava velho. Recluso à sua vivenda, ancestral, velha, abraçada por gerações centenárias, o grande solar era um templo de solidão, onde somente se admitia a presença dos tempos de ontem. A cabeleira basta, grisalha caiu-lhe sobre a testa. Ele voltou a pousar o cálice sobre a mesinha. Depois, serviu-o com outra dose farta.

Depois, virou o cálice de uma vez só. Vórtice que se perdeu em sua boca. Degustou o vinho com violência de sabre. Voltou a encher o cálice e tornou ao toque magnífico e tátil das teclas.Com excepcional domínio técnico, em gênio assombroso de convivência com o piano, dominou a melodia sem temor. Olhos fechados, sabia exatamente qual a nota seguinte, o acorde mais perfeito, o tom mais acertado, o som mais vigoroso.

Ao mesmo tempo terno e cálido, dominante e suave, explosivo e abafado. Conhecia, ah!, como conhecia, as noites infindas e as notas mais terríveis, incrivelmente brutais da criação sensível e protetora. Tinha em sua natureza, guardadas, eternamente guardadas, mas prontas a explodir, todas as canções que ainda não haviam nascido, mas que estavam lá, todas elas, guardadas e vivas, todas as canções.

Era um homem feito de acordes. O cálice na mão, a outra mão ao piano. Depois, o cálice sobre a mesinha e as duas mãos criando música para a noite escura. O vento se escoou pela grande janela e o frio veio de fora para ferir sua pele de artista da solidão. Agradeceu ao frio pela sua presença de saudade. Saudade?

Saudade dos tempos de juventude, quando cavalgava os campos e gritava aos companheiros que seria o vencedor. Saudade dos tempos em que, aplaudido pela Corte, deslumbrava os salões da nobreza com às vezes sóbria, mas sempre divina e bravíssima suavidade dos tons, meio-tons e improvisos toques no teclado vivo. Ele mesmo um aristocrata. Saudade dos tempos em que, também divinamente, atiçava os comentários e falatórios de sua vida dissoluta, mulheres e vinho. E todos, apesar, o aplaudiam. Pois o sabiam autêntico e decidido seguidor do hedonismo de estar vivo. E o invejavam. Daí, os aplausos.

Parou. Parou de tocar. Lentamente, muito lentamente, retirou a cabeleira grisalha da testa e caminhou para a janela em direção ao frio. Despiu o traje pesado, o fraque elegante, retirou a camisa, finíssima, de tecido quase diáfano e se apresentou à noite. Torso nu, abriu os braços para a escuridão e sentiu o toque de punhal que só o frio tem. Virou-se rápido e correu para a garrafa do Madeira. Virou-a aos lábios e sentiu a bebida descendo pela garganta como um adorável veneno.

Sorveu mais, mais e mais, até sentir que o vinho fazia parte do seu sangue. Como um louco correu até a adega e trouxe mais uma garrafa. Voltou ao estúdio e, antes de retornar ao piano, apoderou-se de um charuto, um puro, e acendeu-o à luz de uma vela. Deu um trago profundo, sentindo a fumaça misturar-se até o mais íntimo de si.

Sorriu. Depois, riu, riu alto, gargalhadas. Ninguém ouviria o ruidoso murmúrio daquela alegria selvática, hedonista, fria e gritante. Estava vivo e gritava ao silêncio que estava vivo. Olhou a noite, viu a escuridão e divisou o lado fronteiro à sua herdade, legado antigo de família. Voltou ao Madeira e sorveu-o de um gole só. Dirigiu-se ao piano e atacou o teclado com vigor incomum. 

E surgiu uma melodia incandescente, meditativa e forte, como se uma vaga luminosa iluminasse as suas mãos, ou uma tempestade, no mar, fosse vagalhão incontido e se esbater contra o casco do navio. E dedicou sua última composição a uma dama, Madame Charlotte de Savigny, a de olhos macios como doces olhos de gazela. Seu único e derradeiro amor. Depois entregou-se à lua que afinal surgia, e desapareceu no espaço.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

A polícia faz greve; o bandido não pára

"Todo homem luta com mais
bravura por seus interesses
do que por seus direitos."
Napoleão Bonaparte

Quem de alguma forma viveu o período da ditadura no Brasil, a última, nascida na madrugada do dia 1º de abril de 64, deve ainda lembrar como as polícias agiam, coordenadas e competentemente, para colaborar com a manutenção do regime anti-democrático. Agora, as polícias agem, cada uma por si, para garantir seus ganhos salariais. Para tanto, recorrem ao democrático instrumento da greve, greve que tantas vezes tais instituições ajudaram a debelar.
E ainda hoje, quando movimentos de trabalhadores saem às ruas, são as polícias quem os reprime. Há, portanto, uma incongruência, no mínimo. Os policiais deveriam mostrar solidariedade para com os demais grevistas, sempre e quando estes se mobilizem.
Estou usando o termo no plural, pois há a polícia federal, a polícia civil e a polícia militar. Isso sem levarmos em conta a Agência Brasileira de Inteligência, que substituiu o velho Serviço Nacional de Informações.
Entendo que o policial, pelo menos os civis e os militares, ganham mal; talvez o mesmo não se possa dizer da polícia federal. Entendo que correm risco pessoal na defesa da sociedade, mas a paralisação do aparato de estado que prioritariamente se volta à prevenção e repressão às mais diversas formas de criminalidade, é algo perigoso e de alguma maneira termina por contribuir para com a ação dos criminosos.
Ainda bem que os tempos são outros e as polícias não se prestam mais ao serviço de descobrir e prender quem pensa. As polícias atuam contra quem precisa de polícia, salvo o caso de greves ou passeatas, quando voltam a cumprir seu papel histórico, de repressão.
Na verdade, a questão vai mais fundo. A greve das polícias, que volta a se postar, revela de alguma maneira a falência do Estado brasileiro em, até mesmo, atender às reivindicações daqueles que em última instância farão valer a presença daquilo que a História consagrou como sendo o Poder, aquela capacidade de alguém fazer impor sua vontade, especialmente no plano institucional.
O Estado brasileiro, em sua tessitura, apresenta-se esgarçado e age de maneira pontual, resolvendo conjunturalmente problemas sociais que são estruturais. E, a persistir esse estado de coisas, com os policiais cristalizando uma cultura grevista numa instituição que deve estar 24 horas atenta ao crime, estará criada uma situação perigosa, uma vez que funcionários públicos autorizados a usar armas estarão nas ruas reclamando em favor de seus interesses.
O Estado brasileiro deve remunerar bem aos policiais, para que eles não venham a se confundir com bandidos.

terça-feira, 20 de junho de 2006

Às vésperas do fim do mundo

A neve e a tempestade matam as flores,
mas nada podem contra as sementes.
Khalil Gibran

Os jornais informam que a Noruega iniciou segunda-feira última a construção de um depósito mundial de sementes no arquipélago de Svalbard, no Oceano Ártico. O objetivo é garantir a preservação de espécies agrícolas e também o ser humano, em caso de ocorrência de catástrofes naturais, guerras nucleares ou sabotagens de terroristas.
Resumindo: o ser humano chegou ao ponto de ter que esconder sob a terra, na verdade uma montanha de pedra, sementes que, sem a insanidade hoje imperante entre os homens, na verdade não precisariam de tanto.
As informações da imprensa indicam que o depósito no Ártico deverá armazenar três milhões de amostras genéticas. As sementes serão enterradas a mais de dez metros de profundidade e mantidas encaixotadas a uma temperatura de seis graus abaixo de zero, podendo o sistema abaixar a temperatura até 18 graus negativos, caso a temperatura externa aumente.
Guardas armados, cerca de grande segurança e até ursos polares defenderão a vida escondida a sete chaves. Se os líderes do mundo não se reunissem somente para discutir questões mesquinhas como o dinheiro que tiram dos países mais pobres e o controle de armas que eles mesmos mandam produzir, nada disso seria necessário.
Afinal, que coisa mais simples e natural é o germinar de uma semente? É louvável, inegavelmente, a iniciativa do governo norueguês, mas soa muito estranho tal iniciativa, pois a rigor bastaria o bom-senso da humanidade, para que nada disso fosse necessário. A precaução, entretanto, nos dá um alerta a respeito do que estamos tramando, enquanto coletividade humana.

Um jogo de futebol que virou um jogo de espelhos... distorcidos

"Dai ao povo pão e circo."
Ditado romano

O jogo da Seleção contra a Austrália deu bem uma mostra não apenas da qualidade de entrosamento entre os jogadores brasileiros, bem como, acima de tudo, demonstra como acontecimentos de grande porte, como a Copa do Mundo, estão a serviço de grandes investidores internacionais, numa espécie de processo de fraude, simulacro de manipulação.

Tomando como exemplo a triste figura de Ronaldo, vejamos: antes do início do jogo, a Rede Globo veiculou um videoclip, quando o cantor Marcelo D2 enaltecia a figura olimpiana do jogador, cujas imagens eram literalmente reluzentes, como se o próprio Apolo estivesse em campo. A camisa amarela da Seleção rebrilhava, como se de repente um representante do panteão grego tivessse descido à Terra para deslumbrar os olhos dos mortais ante sua presença divina.

O clip todo estava voltado para o enaltecimento das qualidades heróicas de Ronaldo, com chutes magníficos, gols sensacionais, soerguimentos dramáticos, quase martirizados do atleta, após agressões de adversários. Uma pergunta: por que isso? Por que esse foco numa só pessoa, quando futebol é jogo de equipe, é ação técnica e tática, é comportamento coordenado, conjugado?

A resposta é simples: tem muito dinheiro investido em Ronaldo, dinheiro de multinacionais, fortunas de risco aplicadas nos pés de um homem. E a Rede Globo tem também, claro, seus interesses comerciais, que não são poucos. Então, vamos louvar o grande craque.

O que se viu, no entanto, foi uma figura bisonha, jogando convencionalmente. Ronaldo é um dado desse grande acontecimento midiático que é a Copa. Um acontecimento desse tipo envolve toda uma grandiosa e dispendiosa estrutura humana e material e tem seu suporte na crença que inculca em milhões de pessoas de que ali está se passando algo fenomenal, importantíssimo, imperdível. Perdendo-se a visão de tal acontecimento, o ser humano estará alijado de um certo sentimento de pertença àquele grupo global instantâneo e fugaz. Quem perdeu de ver, perdeu de viver.

Além disso, é essencial ao acontecimento de mídia, programado e estetizado, que haja dois públicos: o público que o assiste ao vivo, e o público que o vê ou nos telões ou nas TVs.

É preciso na realidade um meta-acontecimento, um acontecimento dentro do outro, um impulsionando o outro, para gerar a ilusão de que todos estão congraçados e participantes, quando em verdade estão sendo utilizados, para as finalidades lucrativas dos grandes empreendedores.

É preciso que eu saiba que muitos estão vendo os jogos ao vivo, ao mesmo tempo que aqueles também sabem que estão sendo vistos. O jogo é o motivo, mas o público também é espetáculo.

Eis aí explicado o grande mistério para a manutenção de Ronaldo na equipe: dinheiro. Muito dinheiro investido num jogador que por muitos motivos, além de sua tendência a engordar, não está bem mas que precisa ser apresentado como "fenômeno."

Se você viu o jogo de domingo, uma pergunta: por que, após a disputa, Galvão Bueno, o mesmo que tinha "tantas esperanças" na recuperação de Ronaldo, não deplorou seu pífio desempenho? Por que o assunto foi "esquecido"? Pelo fato simples de que não há interesse econômico em abordar algo a respeito de investimento tão malfadado, como foi esse que o grande capital internacional e a Rede Globo fizeram em Ronaldo.

Mas vamos ver, vamos ver até aonde o Brasil chega. E só para encerrar: Casagrande, um comentarista que suponho seja digno de respeito, já advertiu: do jeito que a Seleção está, é um perigo enfrentar a equipe de Gana. Já pensou, a que ponto a Seleção chegou?

sexta-feira, 16 de junho de 2006

Farinha pouca, meu pirão primeiro...

"Se o mundo é parecido
com o que eu vejo, prefiro
acreditar no mundo do meu jeito."
Renato Russo

O Jornal do Brasil informa que a Câmara dos Deputados será renovada em cerca de 60 por cento. Número bastante expressivo. Seria a colheita que os atuais detentores de mandado terão, após tantos escândalos e omissões de punição aos culpados. É uma forma de mobilização popular, retirando do plenário nomes que em nada contribuíram para com o bem estar social. Na canção "Pra não dizer que não falei de flores", Geraldo Vandré dizia que "quem sabe faz a hora, não espera acontecer".

O povo brasileiro precisa fazer a sua hora, para impedir que hordas de deputados que só têm compromisso com seus próprios interesses, cheguem para ocupar mandatos e se tornarem mandões, ao invés de mandatários por delegação popular. É preciso que estes cheguem atrasados ao encontro com a História e assim percam a hora de ser reinvestidos em novos mandatos. Basta que não se vote neles. Assim perderão o trem da História.

A construção de uma democracia representativa é obra de gerações, é uma construção que nos obriga a um pensar e a um fazer coletivos, a fim de que a República não se transforme numa coisa pública porém privatizada aos apetites daqueles que somente se voltam para legislar em favor de privilegiados.

Não há mais como encarar como natural, procedimentos que somente envergonham a nação e punem cruelmente os desvalidos, os esquecidos, os que sobrevivem de salário mínimo.

As injustiças sociais se consolidam cada vez que um deputado se utiliza do mandato para fechar negócios, obter lucros, levar vantagem. Sempre e quando o mandato vira balcão de negócios, de alguma forma misteriosa e perversa a máquina pública nega atenção àquele filho de pobre que deixa de ser atendido num posto de saúde, ou uma escolinha de periferia se transforma em ponto de encontro para traficantes e outros bandidos.

A cultura da corrupção precisa e deve ser combatida pelos que têm ética e padrões morais comprometidos com a coisa pública. Caso contrário, teremos sempre um país nivelado pela régua curta dos que se regem pelo ditado do "farinha pouca, meu pirão primeiro."

quinta-feira, 15 de junho de 2006

A mulher azul

"Mas eu desconfio que a pessoa livre,
realmente livre, é aquela que
não tem medo do ridículo."
Luíz Fernando Veríssimo


Ela acorda com as manhãs e traz nas mãos ainda o brilho dos sonhos, caminhos percorridos na vastidão desse indizível pensar. E anda em passos de silêncio enquanto o jardim espalha pétalas de brumas.

Ela traz o olhar de sono, mas sorri com leves gestos. E nada impede o seu manso carinho.A mulher azul, delicadamente azul, matiza as manhãs com seu despertar e faz do dia que ainda vai explodir em sol a promessa de que, se houver luta, haverá coragem; e de que, se houver alegria, saberemos conviver com todos os seus gestos e fazer a vida rebrilhar de orvalho.


A mulher azul é feita de marfim. E traz nos olhos caminhos que levam a uma floresta que se perde nos confins dos dias que virão.

terça-feira, 13 de junho de 2006

Nós viemos aqui pra jogar ou pra manquejar?

"Treino é treino,
jogo é jogo."
Didi, o Príncipe Etíope

Como se viu, a frase de Didi é lapidar. O inventor da folha-seca, com simplicidade, demonstrou que, em campo, de nada adiantou quarteto mágico, nem qualquer mirabolância de mídia, para endeusar a Seleção. Na verdade, em lugar da mirabolância com que se buscou colocar os jogadores como seres lieralmente imbatíveis em campo, faltou foi mira na bola, mira no gol.
Os treinos foram treinos. O jogo foi o jogo. E que jogo...
Não houve uma vitória, em seu sentido maior e preciso. Houve, isso sim, alívio. No mais, é registrar, com relação a Ronaldo, a definição dicionarizada: Fenômeno: ser ou objeto com algo de anormal ou extraordinário, classificação atribuída a Ronaldo, camisa 9 da Seleção brasileira, pelo fato de que, somente uma pessoa anormal ou extraordinária, consegue receber todo mês um salário em torno de R$ 12 milhões no Real Madrid, ser escalado para a Copa de 2006 e a única coisa que conseguiu fazer no jogo contra a Croácia foi papel de joão-teimoso, aquele boneco de borracha ou de plástico que cai e levanta, cai e levanta...
Então, é isso mesmo: treino é treino, jogo é jogo. No mais, é tomar cuidado com essas imagens construídas, de pessoas acima do comum, insuperáveis. E se a Seleção é a Pátria de chuteiras, vale lembrar que as de Ronaldo causaram calos. Então, calo por calo, é bom ficar calado e ver a realidade com olhos, digamos, menos emotivos. A não ser que a Pátria queira sair mancando a cada nova partida.

segunda-feira, 12 de junho de 2006

De Seleção, heroísmo e a triste verdade dos meninos nos sinais de trânsito

"A Seleção é a
pátria de chuteiras."
Nelson Rodrigues

O Brasil aguarda com alegria ansiosa e antecipada a entrada em campo da Seleção. Nem de longe se pensa ou se admite um insucesso. Nem de longe se pensa ou se admite que teremos um espetáculo, aqui entendido como encenação. Claro, um jogo de futebol tem algo de encenação, tem um roteiro, um script, ou seja: as regras, com punições e premiações ao longo da partida.

Mas o brasileiro, de um modo geral, supõe, acredita e vê no jogo apenas o seu lado de confronto supostamente patriótico. E em toda batalha há, sempre, a figura mítica do herói, aquele ser elevado à condição de sublime. Aquele que se supera em esforços e decisão de levar adiante a missão, superando limitações físicas, cansaço e temor. O herói luta por uma causa; o jogador atua para atender às expectativas daqueles a quem representa.

Como no caso há uma convergência, que mistura a presença do jogador com a figura do herói, a brisa do Brasil beija e balança as bandeirolas da torcida, em vez do auriverde pendão da nossa terra. Um herói estaria envolto nos objetivos da pátria. O jogador tem um contrato a cumprir e volta-se para atender expectativas e estas se transformam em exigência de gritos de gol.

O desmanche de imagem construída é bem simples de fazer: se, numa guerra, o herói volta derrotado, o povo inteiro lhe rende homenagens, pois sabe que colocou a vida em jogo para defender uma causa. No futebol, falhando o herói, a resposta a seu ato inconcluso será a vaia, sua renegação, quem sabe sua queda.

O futebol, enquanto espetáculo, nada tem de heróico. Na verdade, não há causa alguma a defender. A construção do espetáculo, que inclui e envolve a presença do público, é que nos dá a sensação de que veremos o desfilar olimpiano do lutador emérito. Apenas isso.

As mudanças sofridas pelo espetáculo futebolístico transformaram as partidas, de confrontos esportivos, em acontecimentos de mídia, criteriosamente organizados para render lucros e reinvestimentos. A Seleção, hoje, é um produto da Rede Globo, integra com exclusividade sua grade de programação. A Seleção não é a pátria de chuteiras, mas tão-somente uma grife, uma marca sofisticada e vendida a peso de ouro a grandes anunciantes.

A Seleção é uma imagem em movimento, um conjunto de jogadores caríssimos, intangíveis e pessoalmente invisíveis ao comum dos brasileiros, até mesmo pelo fato de que muitos atuam na Europa. Não há heroísmo em suas atitudes, apenas belas jogadas de craques consumados.

Se a Seleção vencer hoje, se chegar a ser hexa, comemore, vibre, cante, grite gol. Afinal, o futebol é parte da nossa cultura, revolui na cotidianidade do nosso imaginário, sem dúvida nenhuma alegra as nossas vidas. Mas, quando a Copa acabar, olhe para os lados e veja a nossa realidade. Talvez o heroísmo esteja no olhar do menino que joga malabares no próximo sinal de trânsito.


domingo, 11 de junho de 2006

Ave, César!

"Quando se aposentarem, por favor,
não fiquem em casa atrapalhando a família.
Tem que procurar alguma coisa para fazer."
Presidente Luís Inácio Lula da Silva.


O presidente Lula deu ontem, numa espécie de ato falho, uma idéia de como vai tratar pensionistas e aposentados, vale dizer os trabalhadores do Brasil, caso venham a se confirmar os maus presságios de sua reeleição: em Serra, no Espírito Santo, ao inaugurar um gasoduto, disse que a sociedade "precisa compreender" que é necessário um aprofundamento na reforma previdenciária.

Em outras palavras, foi uma ameaça ao povo brasileiro que, ante tais observaões, somente pode vislumbrar duas expectativas: o segundo Governo Lula deverá ampliar o tempo de serviço e de contribuição para a aposentadoria ou deverá haver um aumento nas contribuições, ou até mesmo as duas coisas.

Disse também que frente ao aumento da expectativa de vida das pessoas não há como a previdência continuar funcionando nos moldes atuais. Espere: o presidente quer que as pessoas morram mais depressa? Quer que as pessoas morram mais jovens para o Estado, um Estado Tio Patinhas, amealhe mais dinheiro?

Isso me lembra o trabalho do povo egípcio, que vergava sua vida em honra e glória dos faraós, na construção de seus... túmulos. É, pois as pirâmides nada mais são do que túmulos. E a construção de túmulos valia a vida do povo. Hoje, a construção dos túmulos é a manutenção de um Estado cada vez mais distanciado de suas funções de bem-estar social. Quer dizer, mais desumano, mais cruel, mais despótico em sua fome de impostos e quaisquer outras formas de contribuições arrancadas da sociedade.

Não vejo com bons olhos o que vem por aí. Não percebo em nenhum dos pré-candidatos qualquer indicadivo de que as coisas no Brasil venham a melhorar, tanto por motivos macroeconômicos e sociais, quando pela inserção do País na trama da globalização, cujo ideário é o lucro do capital internacional.

Parece que, ao povo, só resta mesmo continuar a construir pirâmides, enquanto o Estado espera que as pessoas comecem, com isso, a morrer mais cedo. E, como os gladiadores, dizer: "Ave César. Os que vão morrer te saúdam."

sábado, 10 de junho de 2006

Caros amigos...

Negócio é o seguinte: estou colaborando com o jornal www.achei.ca, dirigido pela advogada Priscilla Amaral, que mora no Canadá, mas tem tudo de uma boa jornalista. A publicação é voltada para a comunidade brasileira no Canadá. O jornal ficou on line a partir ontem. Minha coluna chama-se "Caros Amigos..."

Se achar interessante, pode dar uma conferida.
Abração,
Emanoel Barreto

sexta-feira, 9 de junho de 2006

Muito doido, bicho.. muito doido...

"Se não tivermos êxito,
corremos o risco de fracassar."
Presidente George W. Bush

Bom, o Tribunal Superior Eleitoral entendeu que não havia entendido nada da política brasileira e afinal seu plenário se entendeu, juntou-se ao desentendimento geral dos partidos políticos, por entender que é preciso entender que nesse país não há entendimento e assim é preciso permitir que os políticos continuem a se entender e a se atender em suas conveniências, ao mesmo tempo em que promovem o desentendimento do povo, que não entende afinal o que seja um partido político. Mas mesmo assim vota.

Entendeu? Não? É isso mesmo, não dá para entender. Afinal, como é possível entender que um ministro judicante, supostamente dotado de notável saber jurídico, vai voltar atrás numa decisão grave, séria, cuja eficácia atingiria fundamentalmente todo um sistema político? E mais, porque tomou a decisão de impedir as coligações sem antes consultar seu capital de conhecimentos jurídicos? E pior: a decisão era necessária e urgente, para esses políticos aprenderem que partido se faz a partir de confissões ideológicas internalizadas e vividas, não ao sabor de conveniências de ocasião.

A decisão do ministro Marco Aurélio Melo, admita-se, foi tomada literalmente em cima da hora. Ora, esse ministro não pensa nas consqüências dos seus atos jurídicos? Deveria pensar. Agora, tomar uma decisão dessas, ser esta aprovada em colegiado, para depois voltar atrás, é coonestar a cena brasileira, que é de triste figura.

Mas, afinal, a Copa começa hoje a vai ficar todo mundo louco. E mais uma confusãozinha não vai alterar muito, né não? Afinal, os políticos foram apascentados, vão fazer o seu repasto e todos nós devemos entender que é preciso que haja um entendimento a fim de que todos possam seguir de maneira coordenada em direção ao entendimento que de há muito esse país busca, a fim de poder entender porque vivemos nos desentendendo na tentativa de entender porque há tanta confusão.

PS: Para completar o samba do crioulo doido fica aqui um registro:gooooooooooooooooooooooooooool!!!!!!!!!! Né não?

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Se o povo não tem pão, que coma gols

"Tem gente que se acha honesta
só porque não sabia nada."
Millôr Fernandes

Vamos combinar assim: a partir de amanhã, o Brasil fecha para balanço. Balanço do samba embalado pelos pés de jogadores milionários; balanço do vai-e-vem dos garçons servindo chope; balanço do nosso eterno berço esplêndido.

Vamos todos nos deitar nas redes armadas nos estádios alemães e ficar embalados pela gritaria que vai ninar o povo a cada novo grito de gol. É assim de quatro em quatro anos. Esse país inteiro pára, boquiaberto, encantado pelo sortilégio das jogadas, dos passes geniais, das defesas incríveis, dos pênaltis e da ansiedade pela vitória da Seleção.

Esse país inteiro pára, compensando num processo de busca insensata alguma coisa, um não-sei-quê nacional, que nos fará sentirmo-nos completos, recheados, remidos das culpas sociais que assolam corações e mentes do Oiapoque ao Chuí.

Não tem boa educação para todos? Gol da Seleção e faz de conta que está tudo bem. Falta segurança e o PCC é um medo que pode explodir a qualquer momento? Gol da Seleção e estaremos certos, por instantes, de que um dia a coisa tem jeito. O posto de saúde, que já não funciona, agora é que fecha mesmo as portas por causa dos jogos? Palmas para a Seleção, que vai nos livrar da dor de cabeça que é esperar inutilmente por uma ficha de consulta a um médico que dificilmente aparece no trabalho.

Amanhã terá início um espetáculo mundializado, programado, marketizado, totalmente plastificado para dar a todos, especialmente a nós, brasileiros, a sensação de que tudo vai bem e que somos, todos, obrigados a grudar um sorriso na cara e trazer na boca um berro de louvação.

A partir de amanhã vamos dar um balanço no caixa das emoções contidas e dos bolsos vazios, das vontades não atendidas e dos desvãos das desigualdades sociais. Vamos sorrir, vamos brindar, vamos fechar as repartições mais cedo, aliás nem mesmo vamos abri-las. Afinal, é Copa do Mundo e este país tem de fechar para balanço.

Aliás, nem é balanço; é balancete, porque a Copa nem dura tanto tempo. Mas, no fim, você vai ver o tamanho da conta.

A barbárie como prática política

"Existem verdades que a gente
só pode dizer depois de
ter conquistado o direito de dizê-las."
Jean Cocteau

A invasão da Câmara dos Deputados por uma multidão de baderneiros ligados ao Movimento de Libertação dos Sem-terra, mesmo recebendo repúdio da opinião pública nacional pela falta de respeito ao Poder Legislativo, permite e até obriga a uma reflexão: ações como essa misturam, confundem num só grito o comportamento desordeiro com as legítimas reivindicações democráticas.

E por quê? Pelo fato simples de que o Congresso Nacional perdeu o respeito próprio permitindo, por uma espécie de gravidade social, que escorram até as suas salas as mazelas de grupos marginais aos movimentos sociais, escorados num raciocínio primário: quem não se respeita, não merece ser respeitado.

Ao atacar a Câmara, a horda gritava contra os deputados acusações como "mensaleiros", "corruptos", "ladrões". É aí que está o perigo: um Congresso desmoralizado, um Congresso coalhado de políticos inconfiáveis, termina por atrair para si, literalmente, os seus iguais.

E as violências morais que o Congresso tem assacado contra a nação, sofrem uma espécie de metáfora social perversa e se transformam em violência agenciada por um grupo de desordeiros.

Mas é preciso preservar a instituição legislativa. Não se pode conviver com os ataques impunes ao Legislativo. Há salvação, sim. O processo histórico pode nos levar a ter algum dia a democracia representativa manifesta nas ações de um Congresso íntegro.

Por enquanto, lamentavelmente, o País convive ora com a ação dos bandidos contra os agentes da lei, como ocorreu há cerca de 15 dias em São Paulo, agora com a ação de desordeiros contra quem faz as leis.

Ao fundo, um grave problema histórico baliza o quadro: a péssima divisão de renda que provocou uma estrutura social danificada por uma situação de pobreza, miséria, fome, rede de serviços públicos ineficaz e uma cultura que faz o povo buscar nos pés de jogadores de futebol a graça que a vida lhe nega em saúde, trabalho e pão.

terça-feira, 6 de junho de 2006

Viver bem

"As dúvidas são mais cruéis

do que as duras verdades"

Moliére

Quando a manhã surge, com as suas mãos rosadas, é o sinal que a vida desperta num brilho de cristal, o cristal do orvalho da noite que passou.


Assim deve ser a vida: suave, delicado presente que recebemos todos os dias. Vamos viver bem esse presente. Mesmo que depois ele mostre seus perigos.


Viver bem é responder com o gesto do abraço ao grito que nos ameaça; é transformar em canção o grito que muitas vezes está ardendo dentro de você.


Viver bem é dizer sim a quem só recebeu da vida o desprezo e o não. Viver bem é dar atenção ao olhar inocente da criança. É ajudar. É unir.


É seguir em frente, mesmo quando tudo diz que chegou a hora de desistir.
Viver bem é olhar para si mesmo e sentir que um sorriso diz mais que mil palavras. É saber que há pedras no caminho. Mas, apesar das pedras, o caminho chama e aí você diz: eu vou.

Viver bem é acreditar, é descobrir o mar e os barcos que nele habitam. É estar de mãos dadas com a simplicidade.


Viver bem é um desafio, um mistério, um encontro. É caminhar no escuro, mesmo sentindo o medo arranhar seus pés.


É acreditar no maravilhoso e entender a magia dos momentos, de todos os momentos, desse grande momento que se chama Vida.



domingo, 4 de junho de 2006

Invasão de privacidade

"A violência destrói o que ela pretende defender:
a dignidade da vida, a liberdade do ser humano."
João Paulo II

O Governo de São Paulo está gestando uma ação administrativa que faria entrar em pânico até mesmo um personagem do livro "1984", de George Orwell. A Folha de S. Paulo informou que a idéia é vender dados sigilosos dos cidadãos que estejam em poder do Estado a empresas privadas, para que assim se possa controlar melhor a vida das pessoas.

Até mesmo uma equipe já viajou aos Estados Unidos, onde a deplorável atitude já está em prática em algumas cidades, a fim de ganhar conhecimentos a respeito do assunto. Falando objetivamente: de posse de informações a respeito do cidadão, uma empresa de seguros poderá obrigar uma pessoa a pagar mais caro para segurar seu carro, caso venha a saber que, há muitos anos, esta se envolveu em um acidente automobilístico.

Mais: alguém que tome determinado tipo de medicamento, os tais medicamentos controlados, poderá não ser admitido em uma empresa, caso tal informação chegue a seu conhecimento.

Diariamente, ao acessarmos a internet, de alguma maneira deixamos rastros, que passam a compor o capital simbólico de empresas ou indivíduos nos mais diversos pontos do planeta. Aos poucos, o cidadão, o indivíduo, passa a ser visto como alguém sob vigia, observância permanente. E tudo para atender aos interesses de corporações transnacionais, cujo anseio de lucro e domínio têm como limite o infinito.