sábado, 30 de janeiro de 2010


Dilma, Maquiavel e Branca de Neve
Emanoel Barreto

Maquiavel ensina que, na política, o Príncipe precisa de virtù e fortuna. Esta como conjunção de fatores históricos positivos que parecem conspirar favoravelmente àquele que deseja ganhar força ou graça perante o povo. Aquela, como atributos pessoais, o carisma, conjunto de competências que o fazem incrndiar as multidões com discurso candente e as alianças com outros poderosos. Simplificadamente, é isso.

No caso da sucessão presidencial, a ministra Dilma parece padecer de alguma falta de virtù, apesar de afortunadamente estar amparada pelo mais poderoso príncipe da nossa política - um ator que por muito tempo merecerá, queiram ou não seus adversários, estudos e análises quanto à sua vida na política brasileira.

O que o divino Maquiavel não previu, nem poderia, foi o surgimento de algo chamado marketing  e especialmente marketing eleitoral, essa ferramenta de argumentação aplicada à publicidade e, especialmente no caso, à propaganda.

Não que o marketing seja algo milagroso, capaz de fazer e desfazer imaginários coletivos. Não, muito pelo contrário. Vide o caso do candidato tucano Alckmin, que patinou muito até perder para Lula no último pleito à presidência.

Mas o marketing, quando aplicado a certas situações potencialmente tendenciais, ou seja, quando lança sua semente junto a um determinado público passível de sensibilização, pode sim operar esse milagre comunicacional que é construir uma imagem de virtù.

Tendência significa "propensão a" e, em sua raiz marqueteira, inclui o despertar mesmo dessa tendência onde antes ela inexistia. Aí o grande segredo, aí a visão do marqueteiro como bruxo esquivo e invisível, tratador de fórmulas secretas, poções e tisanas de comunicação para restabelecer o paciente que padece de carência de virtù e fazer dele um novo príncipe.

A Ministra cresce paulatinamente, pela exposição midiática massiva, sempre à tiracolo do príncipe Lula. Se sua osmose política funcionar, é possível que ele a faça a princesa desse terrível conto de fadas que é a política. Sua Branca de Neve a sua sucessora.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O Haiti não é mais aqui
Emanoel Barreto

Ao contrário do que diz a letra da canção de Caetano Veloso, o Haiti, aos poucos, não está mais aqui. Jornalisticamente, não é mais aqui. Aos poucos, com lentidão que agrava o sentido de que aquele país começa a deixar de existir midiaticamente, sua tragédia e hecatombe começam a se esmaecer no noticiário.

A isso se juntará, não haja dúvida, o processo de decantação das emoções chocadas com a dor e o horror. E, passado o período de luto social, o mundo retornará à sua cotidianidade, à terrível normalidade da indiferença.

Aos poucos o Haiti irá se defazendo no ar das Redações, no ar dos gabinetes e governo e o Haiti não será mais aqui.

 
O povo à imagem e semelhança do poder
Emanoel Barreto
 
Dois momentos em charge. O primeiro no traço de Henfil, à época da ditadura. Angeli, em seguida, fixa o crescimento da urbanização em seu processo de desumanização. A ação desnaturante sobre a natureza. O hifen que une os dois momentos: a sociedade, o povo, no dizer de Henfil, sempre como massa de manobra num e noutro casos.
 
Antes a ditadura, representada pelo seu dadopolítico-capitalista, maquinando para eleições em que o povo é que será "escolhido", ou seja, ajustado pela legislação aos desejos dos poderosos. Hoje, a mesma massa humana domesticada ao consumismo, outra forma ditatorial que ensina como as pessoas devem ser.
 
 
 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

 Brasileiro teme ser esquecido em corredor da morte e presidente Lula apela ao Governo da Indonésia (Reuters)
A morte como "pena para sempre'
Emanoel Barreto

A Folha traz matéria informando que o brasileiro Marco Archer Moreira, traficante de drogas, será executado na Indonésia. Abaixo:

RICARDO GALLO
da Folha de S.Paulo


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez ontem um apelo ao governo da Indonésia a fim de evitar a execução do brasileiro Marco Archer Cardoso Moreira, 48, condenado à pena de morte no país asiático.
Em carta, Lula pediu "generosidade" ao presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, e disse que a morte do brasileiro afetaria a relação entre os dois países.


"Peço licença para tratar de um assunto de interesse humanitário (...) Conto com a sua generosidade para que o assunto não crie uma reação na opinião pública brasileira que teria, possivelmente, efeitos no nosso relacionamento, que tanto queremos estreitar", disse o presidente, que classificou o caso de "especialmente urgente".


A carta, que exalta a boa relação entre Brasil e Indonésia, foi enviada após Marco pedir nova intervenção de Lula. "Vou cair no esquecimento aqui", disse ele à Folha no dia 17.


Trata-se de uma nova tentativa para que Yudhoyono dê clemência ao brasileiro. É a última chance de Marco escapar da execução --ele quer a conversão da pena para prisão perpétua ou para 20 anos.


Pelas leis locais, o condenado tem direito a dois pedidos de clemência -o presidente da Indonésia já negou o primeiro em 2006 e ainda não se pronunciou sobre o segundo. Na Justiça, não cabe mais recurso.


Yudhoyono foi reeleito em 2009 com posição favorável à pena de morte. A punição é apoiada pela maior parte dos políticos e pela população local.


O brasileiro foi preso em 2003 ao tentar entrar na Indonésia com 13,4 kg de cocaína escondidos em sua asa delta. A condenação de morte ocorreu no ano seguinte. Ele disse que aceitou o serviço em troca de dinheiro para pagar uma dívida; segundo Marco, foi a primeira vez que ele fez isso.


A Folha vem tentando falar com o governo da Indonésia, mas ainda não obteve resposta.
...........


A pena de morte, como tudo no direito penal, é retributiva. É uma espécie de olho por olho, dente por dente. Até mesmo no direito civil esse princípio, de alguma maneira, sobrevive. Se você não paga reiteradamente o aluguel da casa será despejado, no prazo legal.


Com a pena de morte dá-se o mesmo: aos olhos da sociedade indonésia o tráfico de drogas deve ser punido com a morte. De maioria muçulmana, religião cujos preceitos permitem larga dose de fundamentalismo e, consequentemente, intolerância, a Indonésia vê nas pessoas em tal situação alguém que deve ser, fisicamente, afastado do convívio social. É uma espécie de "pena para sempre".


Tenho ensinado a meus alunos que o jornalismo, em termos de noticiabilidade, se rege pelo princípio da proximidade espacial ou emocional-afetiva, em relação aos acontecimentos. Ou seja: acontecimento distante pode nos levar a interesse em função de um sentimento, uma ligação subjetiva que estabelece liame afetivo com o fato. No caso, um brasileiro condenado à pena de morte.


Entendo que um traficante é alguém perigoso. Alguém que distribui infelicidade e dor a muita gente. Que o diga quem tem um filho, um marido ou esposa ou parente viciado. Que o diga quem seja viciado. Mas uma reflexão, mesmo rápida, a respeito da pena de morte, nos leva a um limite angustiante: a eliminação a sangue frio de alguém, a execução de um ser humano pela mão inumana do Estado.

A pena de morte é uma espécie de degradação trazida à forma da lei. Representa um sentido de moral absoluta, que não reconhece limites à sua aplicação. Assim, é perigosa. Profundamente perigosa. Até mesmo porque, em caso de erro judicial, alguém falsamente culpado pode ser atingido por essa "pena para sempre".

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010



http://kiosko.net/br/np/br_estado_spaulo.html
Artilharia da imprensa
Emanoel Barreto

Valho-me do título da obra clássica de James Reston para analisar as manchetes do Estadão e a Folha, encontrando no subtexto da segunda a ação do jornal como partido político. Gramsci deixava disso bem claro, quando enunciava que jornais podem inserir vilegiatura política em seu noticiário e opinião, desde que assumindo atitude proselitista, doutrinária, assemelhada à de partido político.

E isso a partir de uma constatação: o comportamento agressivo dos sem-terra, prática censurável é verdade, serve de deixa para que o jornal, que nos tempos da ditadura emprestava viaturas para ações repressivas de grupos paramilitares e parapoliciais, pratique ato de partido político. Como? Pelo simples fato de que, primeiro, nota-se um dado de júbilo na assertiva textual do título; segundo, essa asserção toma contornos opinativos, por consequência mesma do júbilo.

Trata-se de discurso que infere à existência de movimento popular contestador, cuja práxis, eivada de atos agressivos, permite aos setores da conservação emitir mensagens que se contrapõem a esse movimento. Que, a despeito da justeza de sua causa, incorre em falha que permite a adversários como a Folha obscurecerem a necessidade de uma reforma agrária, coocando o MST quase que em igualdade de contições com criminosos.

A isso acrescanta-se detalhe de relevo: o fato em si não mereceria jamais uma manchete de primeira página, em função de que jornalisticamente está distanciasdo no tempo (o tempo jornalístico é muito fugidio. Vide a situação do Haiti, que já começa a perder espaço editorial) e suas repercussões sociais foram bastante limitadas.

Quanto ao Estadão, a manchete está certíssima. A distribuição de lucros pelas empresas a seus funcionários, em percentual de cinco por cento (li isso no Estadão) gera evidentemente expectativa social generalizada quanto a seus possíveis desdobramentos.

Não que o Estadão também não seja de alguma forma um jornal com ação assemelhada à de partido político. Bem distante disso. Mas, tecnicamente, a escolha foi a mais acertada. Então, porque a Folha não divulgou com destaque o mesmo evento, deixando ao concorrente caminho livre para tratar de assunto efetivamente de importância?

Resposta: pela militância. Pela atitude de confronto jornalístico com os sem-terra. Por ver aí, na falha do método de ocupação, fator que permitirá, a longo prazo, o contínuo estilolar da imagem desse movimento, que é justo, mas metodicamente equivocado. Sua artilharia, sem dúvida, continuará com fogo pesado.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010


http://conexaoambiental.zip.net/images/aventura.jpg
Que bom: os americanos estão dando uma ajudazinha aos índios brasileiros
Emanoel Barreto

O Jornal do Brasil traz matéria em que aborda a ação de ONGs que facilitam a ação de entidades estrangeiras que pretendem "ajudar" os índios da Amazônia. Abaixo.

Vasconcelo Quadros , Jornal do Brasil



BRASÍLIA - A Fundação Nacional do Índio (Funai) está terceirizando para Organizações Não-Governamentais (ONGs) a gestão de ações em aldeias indígenas. Duas delas, o Centro de Trabalho Indígena (CTI) e o Instituto Sócio-Ambiental (ISA), estrelas gigantes do setor, estão sendo acusadas por indigenistas e organizações de utilizar a proximidade com a Funai para atrair parcerias e recursos de governos e entidades internacionais. O CTI, por exemplo, é hoje responsável pelo contato e proteção aos índios isolados – como são chamados os selvagens sobre as quais pouco se sabe.


A ampliação do papel das ONGs veio à tona na semana passada com a crise deflagrada pelo decreto baixado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no final do ano passado. A reestruturação chegou de surpresa e acabou desencadeando uma onda de protestos e conflitos, cujo ato mais insólito foi uma briga de bordunas entre índios das tribos xavante e kayapó, com um ferido, durante a invasão da sede da Funai, em Brasília, na semana passada. Era para ser uma reação conjunta contra a extinção de 22 administrações executivas regionais e 334 postos indígenas, mas os kaiapó aceitaram negociar isoladamente com a Funai.

Em fevereiro do ano passado, durante reunião em Brasília, CTI, Funai e Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) acertaram os detalhes para iniciar as ações com índios isolados. Os críticos reconhecem que as ONGs têm em seus quadros profissionais competentes e dedicados, mas reclamam que, até para evitar interferência externa num setor sensível e frágil, esse é um papel de Estado, a ser executado por indigenistas e sertanistas dos quadros da autarquia, e chamam a atenção para o apelo financeiro embutido nas parcerias.
........
A ação das ONGs, aliadas a parceiros internacionais, revela como, diligentemente, e como o apoio de brasileiros, a Amazônia vai sendo tomada e administrada por interesses entrangeiros. Trata-se, não resta dúvida, de uma nova e sui generis forma de colonização quando, à semelhança da presença dos jesuítas, se presta "assistência" aos índios, aos "gentios", como diziam os sacerdotes.

Então, os padres queriam "catequizar" aqueles pobres pagãos. Agora, sob o pálio de levar-se "civilização" aos povos da floresta, realmente o que se faz é a preparação tática, o amaciamento regional, preparando-se o terreno para, em futuro ainda não dimensionado, permitir aos países centrais o apoderamento de toda a região em nome do internacionalismo.

O argumento, frenter à devastação da floresta é simpleas como abrir-se uma torneira: o Brasil não soube cuidar dessa dádiva da natureza e, ante um mundo poluído, deve-se entregar às potências todo o imenso território. Quem viver, verá.

domingo, 24 de janeiro de 2010


http://www.vaimanticoravem.net/wp-content/estranha.jpg
Estranha Gênese
Emanoel Barreto

O tempo passou.
Passou-se tanto, que um dia acabou-se - o tempo.
Em seguida veio a eternidade, que é o tempo sem
fim e sem começo.

E houve paz porque, sem tempo, os homens
não sabiam a horar de ir guerrear.

Mas depois se inventaram os relógios,
a girar continuamente as mesmas horas.
E assim foi descoberto: a eternidade é muito cansativa.

Então, numa curva do mostrador, um homem,
um, ele sempre, o mais esperto, descobriu o tempo escondido.

E o dono do relógio apoderou-se do tempo
e o trouxe de volta e bem depressa.

E o dono do relógio tornou-se
dono do tempo e transformou o tempo em dinheiro.

Todos o invejaram e queriam ter tempo e dinheiro.
Começou tudo novamente e não há tempo para terminar.

sábado, 23 de janeiro de 2010


Silêncio intenso. É Você.
Emanoel Barreto

A Mulher é Ela que me chega
no momento de combate terno
e intenso.

Que se imerge em coisas
que só Nós podemos entender.

Faquinha: o menino que nos faz ter medo
Emanoel Barreto

A charge do Glauco, na Folha Ilustrada, não é humor. Não, não é. A charge jamais foi humor. É editorial, é ponto de vista. Tanto mais crítica quanto mais crítica seja a situação sócio-política sobre a qual se remete. Se o leitor quiser aceitar, chega ao lamento.

A rigor Faquinha é uma vítima. Cumpre, no universo delimitado pelos quadrinhos, sua sina de ser brasileiro, pobre, nascido em metrópole que tem na exclusão seu ponto máximo e seu fulcro. Perdão pelo "fulcro". Parece coisa de processo, coisa de linguagem de advogado. Mas foi o que me ocorreu.

Mas, vendo bem, acho que acertei. Faquinha é um "criminoso", é um "menor". Está envolvido pela malha da "justiça".

E "menor" é o termo jurídico-assistencialista com que se define a condição da criança desassistida, filha de família humilhada, faminta, desfeita, onde o álcool e outras drogas são o cotidiano.

Tecnicamente, o nome do personagem é perfeito. "Faquinha". Sugere agressividade, mesmo que agressividade pequenina, mas, mesmo assim, agressividade, fervor ferino de quem, de alguma forma se percebendo excluído - pela fome que sente, por não ter nada -, parte para a agressão.

Faquinha é esse brasileirinho malvado, dependende de valores desvirtuados, viciado em roubar, furtar, ofender, ferir, bater. Desrespeitar a lei e atacar até mesmo outros inocentes: o trabalhador, o assalariado, a pessoa de classe média.  É esse o seu mundo, como é esse o mundo de muitos outros faquinhas.

Esse é o Brasil. Que vivemos e sentimos. Quer dizer: nem todos. Os acima-da-lei estão impunes, empunhando seus mandatos e seu dinheiro. E o que falta nas famílias pobres garante que teremos, não sei por quanto tempo, muitos e outros "Faquinhas."

Triste, né?

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010




Thiago Felipe
Terrível mundo blue
Emanoel Barreto

Não há justiça ou bem ou lado bom.
Não é justo alguém ter direito a tudo. De ser dono de
uma empresa de aviação e o outro não ter
direito a comer um pão.

Não já grandeza em saquear o inferno.
E trazer ao mundo tão torpe festim.

A loucura chegou há tempos velhos
e as lágrimas log se fizeram foices - ferinas, firmes e ferozes.

O massacre dos inocentes é coisa do comum,
mas não é por ser comum que deve ser normal.

E não há normalidade quando o gesto humano
é só intensa besta
que transforma a tola humanidade
no esgarçado sudário que vestimos.



quinta-feira, 21 de janeiro de 2010



João Miguel Junior/Tv Globo
A urina da bela
Emanoel Barreto

A Folha Online registra: a atriz Alinne Moraes, 28,está internada no Rio, na clínica São Vicente, na zona sul da cidade. O hospital informa que ela está com infecção renal e não há previsão de alta.


Alinne é protagonista da novela "Viver a Vida", da Globo. Ela interpreta a modelo Luciana, que ficou tetraplégica após um acidente de ônibus.

Ontem, a atriz se sentiu mal durante as gravações da novela. Ela foi atendida no Projac, o estúdio da Globo, e terminou de fazer suas cenas.

Já em casa, Alinne continuou sentindo dores e procurou a clínica, segundo sua assessoria de imprensa. A atriz fez alguns exames, que constataram a infecção renal, e continua internada por precaução.

De acordo com a Central Globo de Comunicação, Manoel Carlos, autor de "Viver a Vida", vai fazer com que a personagem Luciana sofra de infecção urinária para que a atriz possa ficar o tempo necessário afastada das gravações.
.....
O sistema de mídia, desde que constituiu-se como tal, sempre elevou aos níveis do Olimpo pessoas, especialmente artistas, como se diferentes fossem do comum dos mortais. Isso porque é lucrativo ter pessoas icônicas povoando o imaginário coletivo bom para o sistema. Dá lucro.

Com isso, fica sugerido que são pessoas especiais, até que a morte, ou doenças, os apresentam em toda a sua fragilidade. O que, aliás, é o comum na espécie humana, claro. Quando isso acontece, a doença também é apresentada como algo extraordinário, já que atingiu uma pessoa extraordinária.

Infecções urinárias acontecem todos os dias. Nem por isso os comuns, os cotidianos são alvo de atenção midiática. É que o sistema funciona de forma perversa e ganha até mesmo quando seus ícones, sucumbindo à condição humana, se mostram falíveis e fracos. Sua dor é compartilhada socialmente e gera expectativas: "Quando ficará curado?"

A farsa da mídia continua a lucrar, mesmo em nosso vale de lágrimas.









 Luiz Lhacer
Deixo com você este poema de Pablo Neruda. (EB)

Angela Adonica


Hoje deitei-me junto a uma jovem pura
como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.

Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.

Seu peito como um fogo de duas chamas
ardía em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.


Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas extendidas
e oculto fogo.


http://www.agenciabrasil.gov.br/media/imagens/2007/08/01/1400AC0090.jpg
O jeitinho de Gabeira
Emanoel Barreto

Transcrevo texto do Blog do Fernando Rodrigues, comprovando o que é a lamentável cena política brasileira, um caldo de cultura que chega ao nível do sórdido. Nas palavras do jornalista encontro a incoerência do deputado verde Fernando Gabeira, que se apresenta à cena política como vestal. Você lê. Abaixo, eu comento. Veja só:

PSOL desiste de Marina e lança candidato próprio

O PSOL abandonou oficialmente a pré-candidatura da senadora Marina Silva (PV-AC) à Presidência. A decisão foi anunciada hoje (21.jan.2010) pelo Secretário Geral do partido, Afrânio Boppré, após reunião da direção do PSOL em Brasília.

De acordo com Boppré, o principal motivo para o racha foi a declaração do deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) que em 12.jan.2010 disse que poderia se candidatar ao governo do Rio por uma aliança PV-PSDB. A aproximação de Gabeira com PSDB e DEM no Rio motivou o PSOL a desistir da aliança nacional e abandonar a pré-candidatura de Marina Silva.

Abandonadas as negociações com o PV, uma corrente do partido, da qual fazem parte a ex-senadora Heloísa Helena e a deputada federal Luciana Genro (PSOL-RS), lançou o nome de Martiniano Cavalcanti, presidente do PSOL em Goiás, como pré-candidato à presidência.


Martiniano disputará a indicação do partido com outros dois pré-candidatos, o ex-deputados Babá e Plínio Arruda Sampaio. A candidatura oficial será lançada na convenção nacional do PSOL no dia 11 de abril, no Rio. A expectativa é de que o peso de Heloísa Helena garanta a indicação de Martiniano Calvanti como candidato oficial do PSOL.
.......
Gabeira pratica com desenvoltura o jeitinho brasileiro. É um ex-guerrilheiro agora amaciado, que pratica a diplomacia político-partidária para garantir-se em cena. Pessoas mudam, é claro. Amaduretem, o que é bom. Perdem o sectarismo e passam ao exercício de outros tipos de comportamentos, na vida pessoal e na política, o que pode ser bom.

Mas, praticar um tipo de discurso para o público da TV Câmara e outro nos escaninhos do Poder, é prova  de hipocrisia. Pior que isso, é constatação de que está plenamente inserido no processo político brasileiro, que tem na pequena política, na baixa política, aquela dos corredores e cochicos, acertos e manobras, sua essência e, por isso mesmo, falta de credibilidade.

O pior é que essa cordialidade, essa falta de limites para se chegar aonde se deseja, é algo comum na sociedade brasileira. E, enquanto formos assim, teremos políticos assim.

E o PSOL

O Partido Socialismo e Liberdade não poderia ficar de fora desta análise. representaria no processo a faceta política coerente com seus princípios. São radicais os seus membros. Radicais no sentido de presos às suas raízes e delas não abrindo mão.

Até o momento, o PSOL não constitui uma perspectiva de poder. Nem o será, mesmo a prazo longo, uma vez que seu discurso não encontra eco no social, mesmo que represente os reais interesses desse social.

Sua pragmática está voltada para uma visão de confronto de classes, ou seja, um impasse histórico a ser resolvido conflituosamente. Respeito a integridade de pessoas como a ex-senadora Heloísa Helena. Mas, mudanças pela via do conflito aberto já demonstraram historicamente que não garantem ao povo sua condição de ator protagonista, resultando apenas em ditaduras.


A mentira e a verdade na fotografia
A falsificação do presente
Emanoel Barreto

A foto acima, de autoria do espanhol José Luiz Rodriguez, vencedora prêmio Wildlife Photographer of the Year, foi desclassificada após especialistas constarem que se tratava de animal treinado, habitante de um zooólogico.

Antes da descoberta fora tida como de extraordinária perícia técnica do fotógrafo. Diz a Folha Online, citando declaração de especalista à BBC Brasil, quando a manobra do autor da foto ainda era desconhecida: "A foto, escolhida entre mais de 43 mil concorrentes, foi descrita por um dos juízes como sendo uma imagem que "fala por si mesma - milhares de anos de história estão congelados neste momento executado com maestria. Esta é uma fotografia mais tecnicamente complexa de se conseguir do que alguém possa imaginar".

A falsificação da realidade na fotografia, seja pelo enquadramento, pelo uso de recursos de manobras laboratoriais na manipulações de filmes ou com o photoshop, é uma forma de fraude do real a partir mesmo de uma antiga afirmativa: "Uma foto diz mais que mil palavras."

Afinal, a foto "mostra" o real visível e isso seria suficiente para a sua credibilidade. O ditador Stalin "retirava" de fotos aliados ou subordinados caídos em desgraça, quando a pessoa, na verdade, havia sido riscada do mapa político da União Soviética por morte ou confinamento num gulag. Se não estava na foto não estava no mundo.

A falsificação do presente atende a muitos propósitos e isso interessa, e muito, a todos os que se aproveitam de alguma forma de poder para manipular os demais.

O poder de alguém de mostrar o mundo, figurando-o a seu bel prazer, é algo perigoso porque dá a esse alguém a possibilidade de fragmentar o mundo, dizendo porém que o mundo inteiro está nessa foto.

A representação real do presente




Aqui, na foto de João Maria Alves, demonstração perfeita de captação do momento preciso. Trata-se de composição, verdadeiro texto significando um dado de mundo. Trata-se de momento poético-político, porque mostra o humano, em sua consciência de ser diminuto e perplexo com as dores do mundo, buscando, pelo divino, a purgação de suas angústias sociais.

A mão humana clama o que a mão política, invisível e fria, não atende.

Democracia e neurose obsessiva

Olgária Mattos

Treanscrevo artigo da professora Olgária. Uma reflexão em profundidade sobre o momento que vivemos e sua dimensão midiática e política. (EB)

A idéia de “processo civilizatório” diz respeito ao abrandamento dos costumes e, no Ocidente, surge na oposição gregos e bárbaros. Na tragédia Medéia, de Eurípedes, a oposição entre o grego Jasão e a bárbara Medéia se faz entre o logos ou a palavra racional e o mito ou o irracional.


Irracional são os ritos religiosos com derramamento de sangue humano e, também, o uso do assassinato para decidir conflitos. Assim, quando Aquiles, na Ilíada, quer se vingar do comandante da Guerra de Tróia Agamêmnon - que se apoderou de sua companheira e escrava Briseida - não o mata, mas pronuncia palavras de cólera. O rei ilustre substituía à violência a palavra que se encontra, por isso, na origem da própria civilização.

Civilização e vida civil referem-se ao convívio entre indivíduos, às formas de organização política na polis e, na democracia, à “comunidade dos iguais”. Esta baseava-se em práticas de atenção ao Outro, de estima, respeito e consideração de que nasceram os escritos sobre as “maneiras”, a delicadeza e a graça, como parte da democracia ateniense. Não que os gregos desconhecessem as guerras com outros povos, a guerra civil e o horror dos campos de batalha, mas a política, a filosofia e a tragédia foram construídas por eles como um esforço - nada fácil - e uma barreira contra a violência.

As modalidades de convívio político são tão mais bem sucedidas quanto seus representantes são legais e legítimos. Por isso, na democracia,a noção de autoridade significa mais do que força e poder pois comporta apego aos senhores legítimos e à liberdade. O governante nada faz sem consultar toda a cidade. Não lhe dá ordens, mas pede seu apoio e todos o concedem: artesãos, mercadores, guerreiros, com dedicação alegre e completa. Este remanescente “cavalheiresco” na democracia representativa fazia o servidor igual ao mestre por uma fidelidade voluntária.


A democracia de massa contemporânea é o lugar de uma metamorfose antropológica em que a democracia, onde ela existe, é dominada pelo capitalismo e pela ciência, pelo mercado e pelo especialista que não se ocupa de questões éticas, ambos, mercado e ciência, sucedendo ao declínio da autoridade no mundo contemporâneo. Assim, se Berlusconi se apresenta, na Itália, como um empresário midiático, ele é o “homem sem qualidades”, nada há nele de “ exemplar”, a não ser seu prestígio com as mulheres, sua vida de prazeres e divertimentos. O espectador, como o espetáculo, se apóia em pulsões imediatas, em “estado bruto”, segundo um consumo fugaz e ilusório.

Neste espetáculo total, carregado de informação e comunicação, cada qual seleciona o que lhe apraz, escuta o que lhe convém e acredita no que bem entende. Alimentado pela ideologia do consumo - de bens e de alegrias -,e entretido com seus gadgets,o espectador político é acalentado pela promessa de bem-estar permanente difundida por um “tirano racional”, prestidigitador que promove a beleza,o dinamismo e o sucesso. Diante disso, a angústia do perdedor só pode aumentar e eclode na agressão ao rosto do Presidente italiano.

Na democracia moderna o governante se constrói como alguém que é próximo das massas, como “seu igual e irmão”. Por isso adota a informalidade em palavras e gestos e a promove, operando no espaço público como modelo de pensamento e de ação.

Na neurose obsessiva da igualdade abstrata, não é mais possível diferenciar valores. Dos estudantes que utilizam roupas de festa para ir à escola ao professor autorizado a usar bermudas e havaianas na sala-de-aula, do espancador que atacou com um taco de beisebol a cabeça de um cliente de livraria ao agressor de Berlusconi, das investidas a bengaladas de que foi vítima o ex-chefe da Casa Civil do governo Lula às pedradas contra o governador Mário Covas nos anos 1990, revela-se que a democracia moderna é “passagem ao ato” e desrecalque generalizado.

Com o fim do simbólico - cuja expressão foi a autoridade do governante, do professor, dos pais, do médico, do sacerdote, as práticas de contenção da agressividade e da violência cedem ao linchamento - físico ou moral - por parte daqueles que decidem, em seu pequeno e frágil ego, eliminar o concorrente idealizado pelo capitalismo consumista e seu tédio espetacular.
(A autora é filósofa e professora titular da USP)



http://jacacarambola.files.wordpress.com/2008/02/300_tv2.jpg
Informação é poder
Emanoel Barreto

A coluna Panorama Político, assinada pela jornalista Ana Ruth Dantas, na Tribuna do Norte, informa:

 A capital do Oeste ganhará um canal de TV aberta. O processo de concorrência já foi deflagrado.


Estão disputando a concessão 12 grupos, sendo dois potiguares, o ex-deputado estadual Carlos Augusto Rosado (marido da senadora Rosalba Ciarlini) e o ex-deputado federal Laíre Rosado (marido da deputada federal Sandra Rosado).

O assunto é notícia hoje na coluna de César Santos, do jornal De Fato. Veja a nota:


Concorrência…

Das 24 propostas iniciais para um canal de televisão aberta em Mossoró, apenas 12 continuam no páreo. A outra metade foi eliminada nas duas primeiras etapas, entre elas a TV Princesa do Vale, projetada pelo reitor Milton Marques. A última etapa da licitação está prevista para o mês de março, quando serão abertos os envelopes com as propostas econômicas.

acirrada

Das 12 habilitadas, apenas três são do Rio Grande do Norte: Costa Branca, do grupo InterTV; TV Potiguar, do ex-deputado Carlos Augusto e do empresário Elviro Rebouças; e a TV Resistência, do ex-deputado Laíre Rosado, representado pelo professor Pedro Almeida. As outras nove são de todo o país.
....
Os registros jornalísticos confirmam o aforismo de que informação é poder. Não é à toa que os ex-deputados Laíre e Carlos Augosto Rosado estão na disputa. Representantes de um grupo político-familiar que desmembrou-se em processo de guerra intestina, buscam agregar capital midiático que facilitaria enormemente sua capacidade proselitista naquela região do Estado.

Oficialmente, atores políticos não podem deter controle de empresas de comunicação no segmento TV e rádio. Oficialmente. Na prática, todos sabemos que no Brasil há, por trás de todo sistema de comunicação, interesses políticos bastante ponderáveis.

E mesmo quando TV, rádio e jornal não estão sob controle direto de políticos com ou sem mandato, têm ligações orgânicas com o sistema de mídia. A Rede Globo que o diga. É o Sistema Globo, em seu todo, um poderoso organismo atuante na sociedade civil, mesmo não tendo entre seus diretores alguém com assento em qualquer parlamento.

A concentração de mídia nas mãos de políticos é histórica e traz, não tenha dúvida, perigosas consequências à democracia, uma vez que as vozes dos segmentos despossuídos não se fazem ouvir em sua cotidianidade editorial. A disputa em Mossoró é apenas mais um passo na reprodução desse sistema.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Voltarei a atualizar o Coisas de Jornal nesta quinta. Estou impossibilitado de postar fotos.
Emanoel Barreto

terça-feira, 19 de janeiro de 2010


O olhar, aquele instante...
Emanoel Barreto

E então aquele olhar chegou e trouxe todos os azuis. E ninguém imaginava que pudesse haver tantos azuis.







Carolyn Cole / Los Angeles Times
Clausewitz vive
Emanoel Barreto

A tragédia do Haiti, passado o impacto inicial e suas consequências mais terríveis, tenderá a ingressar na cotidianidade da vida como coisa consumada. Seja para seus cidadãos, seja para os países que estão se propondo a, no momento, socorrê-los. O grande problema, a sombria indagação é: até quando permanecerá essa ajuda? Até que dia os países centrais contiribuirão para o refazimento daquele povo como sociedade política e quais os interesses que dirigirão sua presença ali.


Uma análise superficial permite uma constatação: com a tragédia, os Estados Unidos, de forma unilateral, assumiram o controle do aeroporto da capital, deixando claro, para quem puder entender, que sua presença ali esconde algo mais que o de simples ajuda humanitéria.


A ação americana cumpre papel tático. Não é preciso ser Clausewitz para perceber isso. A ocupação do aeroporto, sem qualquer consulta à presidência do país e às nações integrantes da Minustah, demonstra à larga o que afirmo. Por que os americanos não se juntaram ao esforço humanitário propriamente dito, optando por deter o controle aeroportuário? Resposta: pelo fato simples de que, com isso, eles detêm literalmente, manu militari, o poder de controlar esse aspecto vital.


A presença americana não se fez a partir da chegada das tropas da Minustah, já que o gigante do norte supunha que a situação do povo haitiano, com toda a sua cruel realidade histórica, seria mantida em fogo brando. Todavia, com o desastre, e com o desmantelamento do já enfraquecido Estado haitiano, os países componentes da Minustah passariam a assumir presença hegemônica, já que em sequência trata-se não apenas de socorrer pessoas desvalidas, mas trabalhar para a reconstrução de uma sociedade e de um Estado.


Obama, desta forma, agiu rápido, determinando a suas tropas essa invasão em nome de um socorro humanitário, quando, na verdade, estas atuam na preservação da presença americana no Caribe. O quadro permite a suposição de que os Estados Unidos vieram para ficar, tendo a seu favor a desculpa da "ajuda humanitária". Com isso, preservam sua situação hegemônica e colocam na manga uma carta preciosa em seu baralho de política externa para a bacia do Caribe. Clausewitz vive.



O olhar do mestre
Na foto de João Maria Alves, o Johnguardacosta no Twitter, o olhar treinado de um mestre, pintor de cenas da vida. Como um impressionista ajusta lentes e olhar e dá forma pulsante ao cotidiano que nos cerca.

Pensando em voz alta


http://www.blogzinho.com/img_post/semsaida_www.blogzinho.com.jpg
Faça tudo, não faça nada. Não pense, não tente endender. Os sinais estão todos fechados. A vida parou num carrossel estranho ou estrada sem ida ou volta. 



segunda-feira, 18 de janeiro de 2010


Foto: http://www.latimes.com/news/local/photography/la-fg-haiti-hires-html,0,7123168.htmlstory
A culpa condena
Emanoel Barreto

O olhar jornalístico-fotográfico trabalha o momento preciso, na genial concepção de Henry Cartier Bresson: aquele instante único, fugaz, limitadíssimo, curto e paradoxalmente abrangente, que abarca todo o tempo do mundo.

Na foto de Carolyn Cole, do Los Angeles Times, a demonstração perfeita do que disse o grande mestre equivale a todo um editorial, engloba até mesmo uma tese. Deixo com você a conclusão. Da minha parte, entendi assim: "A culpa condena".

Phil McCarten/Reuters

O "Terceiro Mundo", a fome e o riso sarcástico de um imbecil
Emanoel Barreto

A Folha Online Ilustrada publicou matéria registrando que o comediante Ricky Gervais manifesta visão preconceituosa a respeito do "Terceiro Mundo". Leia abaixo.

Apresentador do Globo de Ouro é criticado por piada sobre "Terceiro Mundo"



ALEX DOBUZINSKIS
da Reuters, em Los Angeles


A NBC viu a sua  transmissão do Globo de Ouro atrair perto de 17 milhões de espectadores no domingo, um salto de 14 por cento em relação a 2009, apesar de uma apresentação criticada de Ricky Gervais.


Gervais, um comediante britânico mais conhecido como co-criador do seriado televisivo "The Office", causou excitação quando foi indicado para apresentar o Globo de Ouro em outubro. Seu humor afiado parecia apropriado para o público do evento.


Mas ele recebeu críticas mistas, com alguns dizendo que suas piadas foram de mau gosto depois do terremoto devastador no Haiti.

A certa altura, Gervais brincou que os habitantes do "Terceiro Mundo" se sentiam melhor quando viam uma estrela de Hollywood, e que uma criança asiática pobre está inclinada a pensar "mamãe!" quando vê fotos da atriz Angelina Jolie, que adotou órfãos do Camboja, Etiópia e Vietnã.

Em resposta, o "Chicago Sun-Times" escreveu: "Dada a tragédia que caiu sobre o Haiti na semana passada, a piada de Gervais sobre Angelina Jolie e crianças do Terceiro Mundo foi uma gafe".
....

Não, não foi uma gafe. Foi manifestação preconcebida, elitista e desrespeitosa aos países pobres. Melhor dizendo, àquela parcela da humanidade que é rotulada pelos países centrais como "Terceiro Mundo". Foi a expressão também de como uma celebridade, inculta e vazia, um tipo que trabalha para a indústria cultural mais inescrupulosa, e se utiliza dessa mesma indústria cultural para destilar um certo e odioso tipo de visão de mundo.

A "gafe" na verdade pode ser considerada ato falho, uma vez que desvelou, a título de blague, a crueldade dos que exploram o "Terceiro Mundo" e lhes impõem pesadas dívidas junto ao FMI, somente para citar um aspecto da questão.

É assim que somos vistos: como "pobres", "negros", "esfomeados". O discurso do comediante mereceria do jornal americano um editorial firme, assertivo, acusador. Seu pronunciamento infamante chocou até mesmo uma parte do público que assistia à sua apresentação.

Sem dúvida, ele confundiu a ficção dos filmes premiados com o Globo de Ouro com a realidade sombria dos povos levados à periferia global por ação dos países ricos. E quiz dar uma risada na cara da Humanidade.

Pensando em voz alta voz alta
 
Foto: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEjgYwy_ulcSqHQsp9iwOcyLySDqdTZ-9qz_P3HZhIv4UNf2IKKHkZCmVXIrWse0QoBnmmLQeGcIUfhPwxgIPyCN9-KsT3GbqZmNRZ-kHiirQBG5hWVrABT2wp4MJ6oGwaqpTEF3Kg/s320/lingeria3.jpg

As aparências enganam.
As transparências encantam.
O olhar de esguelha não transparece,
mas a alegria do olhar é olhar o que
o que a visão vê e não esquece.
Nem pode...



 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Volto a atualizar o Coisas de Jornal nesta segunda. Bom fim de semana.
Emanoel Barreto

Foto: Damon Winter/The New York Times
A miséria do jornalismo
Emanoel Barreto

Os jornalistas padecemos de um mal, praticamos uma espécie de perversidade, mesmo quando não a desejamos. Por ofício, exercitamos uma arte: a de narrar o mundo; estetizando, para dar mais força à narrativa, até mesmo a miséria que queremos retratar, quando a queremos denunciar.

É o que chamo de a miséria do jornalismo. É um processo metalinguístico. Para mostrar o mal terminamos mostrando o mal em forma estética. Algo de que, no fundo, o profissional se orgulha. O impressionismo/expressionismo das fotos são uma forma de subtexto que diz: "Veja como eu sou competente. Veja como eu estou sendo fiel aos fatos."

Aprisionamos, especialmente em fotos, o drama, o horror, o medo, em imagens dessa terrível arte a que estamos presos. É uma espécie de "proteger e servir" que se faz em forma de urgência. E mesmo sendo terrível não pode deixar de ser feito pois, de qualquer forma, é preciso, sim, mostrar o mal - cruel dilema.

Foto: http://www.pibpa.org.br/imagensdb/000949haiti.jpg
Haiti, ai de ti
Emanoel Barreto

Sem utopia, sem pão. Sem chão.
Sem um caminho.


Até isso, o chão, lhes foi perdido.
Assim, nem mesmo a rastros podem ter direito.

Porque de rastros foram colocados
por quem desejava apenas caminhar. Pisando em suas vidas.
Haiti, ai de ti.




Foto: http://espalhamerda.zip.net/images/2cachaca.jpg
As emoções e a pequena eternidade do fim de semana
Emanoel Barreto

Hoje é sexta-feira.
E as emoções
começam a pulsar em todas as garrafas.

 É que a sexta-feira prenuncia
essa pequena eternidade
que se chama fim de semana. 

A festa vira cansaço
e tombamos ao peso
da alegria engarrafada.

Tédio.

Imagem: http://maisessa.files.wordpress.com/2009/04/porco_com_gripe_suina1.jpg
O pavor da gripe suína como jogada de marketing
Emanoel Barreto

O jornalista Walter Medeiros envia transcrição de e-mail que relata uma possível união criminosa para favorecer os grandes laboratórios com o anúncio alarmista da gripe suína.

OMS e farmacêuticas teriam forjado nível de pandemia
por Saúde Business Web*


Governos e entidades na Europa estão pressionando cada vez mais a Organização Mundial da Saúde (OMS) sob suspeita de colusão com a indústria farmacêutica no caso da gripe A (H1N1). Graças à venda maciça de vacinas para combater uma pandemia, os laboratórios podem obter até US$ 10 bilhões de lucros suplementares.


Após investir fortemente em medicamentos, os governos acumulam produtos enquanto a pandemia chega ao seu fim, sem os estragos previstos por especialistas. França, Alemanha, Espanha, Holanda, Estados Unidos tentam revender seus excedentes ou romper os contratos feitos com os laboratórios farmacêuticos.

A situação chegou agora a tal ponto que o Conselho da Europa, que reúne 47 países do Velho Continente, abriu uma investigação excepcional sobre a influência que teria exercido a indústria farmacêutica sobre a OMS, que decretou a pandemia e a elevou ao nível mais elevado de grau de alerta, fazendo os governos se prepararem para o pior.

A investigação deve ter início nesta próxima segunda-feira (18). Os primeiros laboratórios a serem investigados serão: Sanofi Pasteur, Novartis, GlaxoSmithKline e Baxter. O Parlamento russo (Duma) também abriu uma investigação por "corrupção" e chegou a ameaçar se retirar da OMS.

As denúncias contra a OMS começaram a se propagar depois que um membro da comissão de saúde do Conselho da Europa, o médico e epidemiologista alemão Wolfgang Wodarg, não hesitou a fazer uma denúncia sobre "um dos maiores escândalos médicos do século".

"Os laboratórios farmacêuticos organizaram essa psicose". Ele questiona "laços incestuosos" entre a OMS e os laboratórios. Segundo ele, "um grupo de pessoas na OMS está associado de maneira muito estreita com essa indústria".

De acordo com o jornal Tribune de Genève, um estudo do banco americano JP Morgan estima que a venda de vacinas A (H1N1) vai permitir a Glaxo, a Novartis e a Sanofi um lucro suplementar de US$ 7,5 bilhões a US$ 10 bilhões.

A diretoria da OMS promete uma avaliação sobre a maneira como administrou a pandemia. Outro problema é o vínculo entre a OMS e o ESWI, grupo de trabalho científico europeu sobre a gripe, que é financiado pelos mesmos laboratórios que serão interrogados no Senado francês.

O próprio modo de financiamento da OMS, metade privado, metade público, está sendo questionado por suposta opacidade.

*Com informações do Valor Econômico

Foto: http://um-buraco-na-sombra.netsigma.pt/fotos/45/garcia_rodero_vud%C3%BA____16.jpg
Foram eles, foram aqueles negros malditos...
Emanoel Barreto

As elites justificam a necessidade funcional de sua existência a partir de um relativismo simplista: os "pobres", quer dizer, o "povo", é ignorante, estúpido e assim precisa de alguém que o dirija, ou seja: "eles", as elites. Leia abaixo como isso se comprova, em transcrição de entrevista que li na Folha Online, do cônsul geral do Haiti em São Paulo, George Samuel Antoine.

Reportagem exibida ontem (14) no "SBT Brasil" mostra o cônsul geral do Haiti em São Paulo, George Samuel Antoine, afirmando que a tragédia no Haiti está tendo bons resultados para ele e atribuindo a culpa do terremoto de terça-feira (12) à religião.


Antoine deu as declarações à repórter Elaine Cortez sem saber que estava sendo gravado.


"A desgraça de lá está sendo uma boa pra gente aqui, fica conhecido", disse o cônsul. "Acho que de, tanto mexer com macumba, não sei o que é aquilo... O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano lá tá f...", completa Antoine.


Uma das principais correntes religiosas no país é o vodu, que tem relação com outras manifestações de origem africana como o candomblé e a santeria.


Após a gravação da reportagem, o jornalista Carlos Nascimento informou que foi feito outro contato com o cônsul, que disse ser uma pessoa preparada para o cargo.
....

Uma das manifestações do senso comum das pessoas "cultas" é atribuir às religiões afro esse terrível poder ou pelo menos a intenção e o propósito de (somente) fazer o mal. O fetichismo religioso afro, em contenção histórica com o judaico-cristianismo sempre foi alvo desse senso comum - contenção criada pela hierarquia econômica e social judaico-cristã, que tinha nos negros seus escravos.

A incomprensão, o temor do desconhecido - a religião de "povos inferiores" e subalternizados - criou todo um esquema de pensamento coletivo que atribuiu ao outro, os escravos, o condão maligno de fazedores do mal, inteiramente a isso devotados.

Até mesmo um haitiano, integrante da elite pensante do país, no caso um cônsul, é portador desse discurso facilitador, que se vale de explicação reducionista e preconceituosa para analisar uma tragédia de origem natural.

As religiões afro têm toda uma teologia e uma teogonia, uma ética e um procedimento ritual, do mesmo modo que o cristianismo. Têm também, e é isso que assombra o senso comum "culto", todo um procedimento mágico para intervir no mundo da vida, do mesmo modo que o têm também os seguidores do catolicismo e do protestantismo quando evocam a Deus pedindo milagres.

Pelo exposto, espero que, sob a proteção de Nossa Senhora e também de minha mãe Iansã, a deusa dos raios e das forças dos elementos, o povo do Haiti conseguirá um dia, no longo período do drama histórico, chegar a uma situação de dignidade e vivência de um tempo melhor.

Epa rei, Oxalá! Epa rei, Jesus!




Amigos do Coisas de Jornal,

Tenho tentado entrar em contato para agradecer, mas não consigo. Assim, externo aqui esse agradecimento.

Emanoel Barreto

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010


Foto: http://cache.gizmodo.com/assets/resources/2008/01/car-crash.jpg
Se beber não dirija. Se dirigir não beba. Se TV, não Casoy
Emanoel Barreto

O lamentável comportamento do jornalista Bóris Casoy é demonstrativo exato do tipo de jornalismo praticado às escondidas. Aquele em que o profissional aparece bem na foto, mas não mostraria jamais o negativo que se encontra oculto nos laboratórios da informação ou da opinião.


O texto da Folha que publiquei em post anterior, quando o jornal faz enquete sugerindo que os torturados do regime de 64 deveriam ser investigados da mesma forma que os torturadores é bem claro quanto a isso: aos amigos apoio; aos inimigos, jornalismo...


Imagaem:http://tortura.files.wordpress.com/2006/09/torture-05.jpg
A bizarra enquete da Folha
Emanoel Barreto

A Folha Online está fazendo uma - estranha - enquete com seus leitores. Leia o texto: O Programa Nacional de Direitos Humanos, criado por meio de decreto do presidente Lula, dividiu os ministros do governo federal. O plano prevê a criação da Comissão da Verdade, com objetivo de apurar torturas e desaparecimentos durante a ditadura. O ministro Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) disse que pedirá demissão se o programa sofrer mudanças para investigar os militantes da esquerda armada durante a ditadura. Você acha que o plano deveria investigar os torturados e os torturadores?
63%
1.005 votos Sim
37%
588 votos Não
Total: 1.593 votos
.....
Não é preciso entender muito de jornalismo ou de análise de conteúdo para que se perceba um texto eminentemente editorializado. Há uma opinião no subtexto que afirma de forma bizarra: vítimas devem ser investigadas.

Pergunto: qual a sua culpa? A culpa de serem vítimas? É tão estanho, na verdade tão terrível a posição do jornal, que chega a lembrar a Santa Inquisição, em que os tormentos eram tidos como beneplácito da Igreja para com seus perseguidos.

Lembrai-vos que as penas e suplícios eram aplicados para "purificar" os torturados. Culpados por antecipação, os tormentos serviriam para lavar-lhes as almas. Assim, chegariam ao Paraíso sem culpa...