O vendedor
de cárceres
Por Emanoel Barreto
O vendedor de cárceres se diz patriota, defende a
família e a religião. Sabe marchar, canta hinos e brada "selva!”; é
treinado em estupidez, firme no que diz e afiadíssimo em sua malsinada intenção
de arrebanhar tolos e incautos, ingênuos e simplórios, broncos e brutamontes
que fizeram algum curso superior, além de pobres que querem ser ricos – e ricos
que querem que haja pobres que querem ser ricos.
O vendedor de cárceres consegue atrair a si as
opiniões e os anseios apressados dos que pensam em soluções de penúltima hora
para problemas que já duram séculos.
Ele, esse tipo de comerciante, chega gritando e
avisa que se aproxima o fim do mundo e que é muito perigoso estar fora da
prisão. E garante que com o povo à mercê de um certo perigo – ele inventará um
perigo qualquer, um inimigo a ser destruído – todos devem embrenhar-se no
cárcere e ali permanecer a salvo.
“O cárcere é também um abrigo”, eis o seu lema.
Seus seguidores ficam de tal forma seduzidos que passam a acreditar em tal
chamamento, sinceramente pensam em atirar-se à cadeia e efetivamente procuram
as prisões e a suposta proteção dos muros altos.
E quando muitos pensam em conjunto a mesma coisa
vemos que a prisão, o muro, a masmorra, a corrente, o elo, a algema e todos os
instrumentos de sujeição e curvatura passam a ser a ser algo normal e
necessário porque tornou-se coisa comum. E tudo o que é comum é tido como
normal, mesmo que se saiba que não é por ser comum que deva ser normal.
O vendedor de cárceres é um monstro que a muitos
convence de que a sua monstruosidade é desejável e visa o bem geral da nação. O
vendedor de cárceres deseja que todos sejam moradores da cafua e, nos cafundós
do sofrimento, sintam-se como príncipes e acreditem: “Sofremos, mas estamos
livres de todo o mal.”
É que no desespero o povo aceita de bom grado o
domínio dos insensatos e dos mal-intencionados e estes, por sua vez, entregam
as gentes à reclusão sinistra e ao calabouço sombrio, úmido e frio
das desgraças da História.
A grande fila dos prisioneiros segue entoando hinos
e gritos, ameaçando o inimigo que inventaram e sequer conhecem – e busca então
o uso dos grilhões e das correntes.
É muito fácil vender cárceres ao povo. Os algozes
convocam à detenção como quem convida a um baile suntuoso. E todos vão; em nome
da família, a favor da bondade, em respeito à moral e à religião. E as pessoas
passam a habitar as fronteiras trevosas da prisão que pensam haver escolhido
porque lhes foi dito que a haviam escolhido.
Os vendedores de cárceres estão aí. Muitos são os
que proveem a massa com cadeias e nacos de pão dormido. E os analfabetos
políticos, hipnotizados e bobos, ainda dizem “obrigado, muito obrigado.”
Os carcereiros ateiam fogo e dizem que é para
iluminar a noite, promovem a desordem e garantem que é para que todos entendam
que estando presos terão garantido abrigo e ordem em suas vidas. E isso soa
como verdade, coisa boa e necessário, pois a prisão também acolhe.
Então, quando vir um tipo desses, resista. Para
tanto, basta que lhe dê as costas e caminhe para bem distante. A Liberdade mora
muito além da compreensão dos vendedores de cárceres. É por isso que eles
comemoram a prisão. E deles sempre há um maioral, um boçal, um manco glorioso.
Mas também é verdade que quando não são ouvidos e
louvados eles se esfumaçam e se perdem no desdém da História, não valem sequer
uma vírgula.