sexta-feira, 8 de abril de 2011

Criminal minds

O seriado Criminal minds no canal a cabo AXN, trata de um grupo de investigadores do FBI que busca pessoas de comportamento divergente que exercem atitudes de poder violento sobre vítimas indefesas. Wellington Menezes de Oliveira se encaixa perfeitamente no padrão, na tipicidade dos personagens da série. 

As matérias que têm abordado o assunto o apresentam como alguém esquisito, antissocial, alguém dotado de uma espécie de recato mórbido, um ser humano que de algum modo sofria discriminação. Quanto a este último aspecto, vi breve abordagem  numa notícia de TV.

A pólícia está tentando traçar o perfil do assassino, a fim de descobrir a causa ou causas profundas que o levaram ao desatino. A mim, parece que se trata de alguém que tinha da vida visão dolorosa, amargurada. Um ressentimento tão acre e convincente de que a humanidade é má, que tinha nele uma espécie de vítima preferencial, o levou, suponho, ao ato extremo dessa vingança inusitada, paradoxal e chocante. 

Assim, ao construir esse mundo interno, íntimo, pungente, ele criou todas as condições subjetivas e justificadoras do gesto brutal que perpetrou. O acontecimento, que tomou repercussão midiática planetária, e expõe a condição humana em sua maior crueza e bestialidade, nos entristece e nos lança a pergunta desesperada e existencialmente sem resposta: por quê? Até que ponto um ser humano, acossado por seus próprios fantasmas e demônios, pode matar, a partir de justificativas que sua mente angustiada cria para fugir desses mesmos fantasmas?

No fundo ele sabia do mal que causava, tanto que veio o suicídio. No fundo, ao se matar, matou também o mundo sinistro que supunha habitar, atirando-se a si próprio, ferindo de morte sua existência de dores íntimas.


Na carta que deixou salientava sua condição de "virgem" em oposição aos "pecadores" e "adúlteros", ou seja: uma criatura límpida e pura, habitando uma espécie de inferno moral que o atemorizava e do qual fugia pela internert que acessava ao longo de noites inteiras. 

Afinal, uma tragédia sem nome, deixando-nos pasmos e cabisbaixos quanto à condição do homem. Abaixo, reprodução da carta deixada pelo matador.

Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adúltero poderá ter um contato direto comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue, nenhum impuro pode ter contato direto com um virgem sem sua permissão, os que cuidarem de meu sepultamento deverão retirar toda a minha vestimenta, me banhar, me secar e me envolver totalmente despido em um lençol branco que está neste prédio, em uma bolsa que deixei na primeira sala do primeiro andar, após me envolverem neste lençol poderão me colocar em meu caixão. Se possível, quero ser sepultado ao lado da sepultura onde minha mãe dorme. Minha mãe se chama Dicéa Menezes de Oliveira e está sepultada no cemitério Murundu.

Preciso de visita de um fiel seguidor de Deus em minha sepultura pelo menos uma vez, preciso que ele ore diante de minha sepultura pedindo o perdão de Deus pelo o que eu fiz rogando para que na sua vinda Jesus me desperte do sono da morte para a vida eterna.”

"Eu deixei uma casa em Sepetiba da qual nenhum familiar precisa, existem instituições pobres, financiadas por pessoas generosas que cuidam de animais abandonados, eu quero que esse espaço onde eu passei meus últimos meses seja doado a uma dessas instituições, pois os animais são seres muito desprezados e precisam muito mais de proteção e carinho do que os seres humanos que possuem a vantagem de poder se comunicar, trabalhar para se alimentarem, por isso, os que se apropriarem de minha casa, eu peço por favor que tenham bom senso e cumpram o meu pedido, por cumprindo o meu pedido, automaticamente estarão cumprindo a vontade dos pais que desejavam passar esse imóvel para meu nome e todos sabem disso, senão cumprirem meu pedido, automaticamente estarão desrespeitando a vontade dos pais, o que prova que vocês não tem nenhuma consideração pelos nossos pais que já dormem, eu acredito que todos vocês tenham alguma consideração pelos nossos pais, provem isso fazendo o que eu pedi."

quinta-feira, 7 de abril de 2011

 Deu na Folha:

Sistema criminal trata diferente ricos e pobres, afirma De Sanctis

FLÁVIO FERREIRA
DE SÃO PAULO
O desembargador Fausto Martin De Sanctis, que atuou no caso Castelo de Areia, recusou-se ontem a falar sobre o julgamento do STJ que anulou os grampos da operação, mas disse que o sistema criminal do país vive uma situação de "dualidade de tratamento" entre ricos e pobres.
Mastrangelo Reino - 29.out.2009/Folhapress
Fausto Martin De Sanctis disse que o sistema criminal vive uma situação de "dualidade de tratamento" entre ricos e pobres
Fausto Martin De Sanctis disse que o sistema criminal vive uma situação de "dualidade de tratamento" entre ricos e pobres
 
Folha - Como o sr. avalia a decisão do STJ que anulou os grampos da Castelo de Areia?
Fausto De Sanctis - Não posso falar sobre esse caso concreto, mas posso falar sobre o sistema criminal de um modo geral. Em várias situações o Supremo Tribunal Federal já legitimou interceptações após denúncias anônimas e prorrogações de interceptações por longos prazos.
A Justiça tem um compromisso, pois ela serve de estímulo ou desestímulo para outros órgãos de poder. Não se pode comprometer a imagem da Justiça como uma Justiça dual, que trata diferentemente pobres e ricos.
O grande desafio do Judiciário brasileiro é reafirmar o princípio da igualdade e não fazer reafirmações que passam de forma concreta a ideia de que o crime compensa para alguns. A dualidade de tratamento já foi discutida no passado e os países desenvolvidos já superaram essa fase. Mas parece que o Brasil não superou. 

Qual será a repercussão desse julgamento para outros casos que tiveram interceptações após denúncias anônimas?
Não posso falar desse julgamento, mas é nítido para juízes criminais, Ministério Público, Polícia Federal e advogados o desestímulo institucional já existente. Tudo o que é feito é sempre interpretado de maneira favorável às teses provenientes daqueles que lucram muito com elas.
Não existem direitos sem deveres, mas parece que os deveres não são exigidos ou são muito bem flexibilizados em determinadas situações, o que é inconcebível. 

O subprocurador que representou o Ministério Público no julgamento disse ser preciso reavaliar os cuidados nas apurações. O sr. concorda?
Não falo do fato concreto, mas acontece que há uma total desorientação da jurisprudência com relação aos trabalhos de apuração, porque a jurisprudência sempre permitiu interceptações por tempo indeterminado, denúncias anônimas e ações controladas.
A partir do momento em que determinados casos vieram à tona, e não estou falando da Castelo de Areia, a jurisprudência simplesmente vira e interpreta com rigor tal que não se tem como investigar ou processar, pois tudo leva à prescrição, à nulidade ou à inépcia da denúncia.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Subiu no telhado

Assisti ontem, no auditório da Reitoria da UFRN, palestra de Juca Kfouri aos estudantes de Jornalismo. A personalidade solar do jornalista cativou à larga. O espetáculo, no melhor sentido que tenha o termo, ganhou força especialmente porque Kfouri, elegantemente, não tem meias palavras quando se trata de falar desse ofício que tem muito de missão. 
http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.imagensgratis.


Abordou a corrupção no futebol ao mencionar a cartolagem implícita e criticou, sob palmas veementes, a realização no Brasil da Copa e da Olimpíada. Disse que até poderiam ser realizadas, mas sob condições brasileiras, ou seja: sem a gastança que está programada para gáudio de quem vai com ambas ganhar muito dinheiro.

Mas, para mim, o mais importante se deu quando, respondendo a uma indagação, disse que a Copa em Natal "subiu no telhado". 

Para quem não conhece o sentido da expressão, isso quer dizer que Natal será, para minha alegria, retirada de sua condição de subsede da Copa; caiu fora, saiu, perdeu. As obras sequer começaram e não há, isso é opinião minha, sinal mais forte indicando quando tal intentona terá início. Graças.

Melhor assim. O dinheiro a ser esbanjado nessa insanidade será melhor, muito melhor empregado se o for em hospitais, segurança, escola e infraestrutura. 

Antes que esqueça: quando Kfouri disse que a loucura da Copa subiu no telhado foi aplaudido.
Na charge de Angeli, na Folha, a essência da política brasileira. Um petardo.

sábado, 2 de abril de 2011

Vandalismo na rede pública de saúde: o povo tratado a ferro frio

"Isso não é democracia; isso é vandalismo." A afirmativa é de um sofrido e amargo homem, idoso, já bem mais de 60, a respeito da medicina que o Estado brasileiro oferta, ou melhor, impõe, impinge, é o que quero dizer, ao povo. O rápido testemunhal foi feito ao Globo Repórter de ontem, numa das mais sérias, dignas, corajosas e incisivas manifestações de jornalismo que já vi.
Imagem ilustrativo-metafórica da situação
dos hospitais públicos no Brasil: o povo
tratado a ferro frio
 Isso prova: se o patrão deixa, o jornalista faz. Mas, voltemos ao Globo Repórter: a pauta era mostrar como funcionam - ou o contrário disso -, os hospitais públicos desse país. Resultado: uma aterradora realidade de morte por falta de meios de médicos decentes trabalharem, hospitais com obras jamais concluídas e hoje arruinadas, médicos desonestos, médicos insensíveis, lamentos, choro e, para ser um pouco bíblico, ranger de dentes.

O programa foi uma poderosa ação editorial, sob a competência de equipe de profissionais irretocável. A edição ampliava o efeito da denúncia, magnificava a dor, o desespero, a angústia das vítimas desse tipo de assistência - se é que isso é assistência.

Creio que a eficácia editorial do programa, ou seja, sua repercussão, efeito de choque sobre os responsáveis, poderá ser mensurada em alguma declaração do Ministério da Saúde, o que dizem as autoridades setoriais, como se sentem diante do quadro que, digamos assim, administram. Sobre a sociedade, tenho para mim, essa eficácia já se processou: a indignação que sinto certamente é compartilhada por muita gente Brasil afora.

Mas temo que fique nisso mesmo: indignação social, paralisia do governo; perplexidade do cidadão, silêncio pesado de quem deveria agir. No fim, o dinheiro que deveria ser para construção, reforma ou restauração de hospitais irá para a construção de estádios de futebol. O pão e o circo, o pão e o circo. Que bom, que bom...

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Volto a escrever neste sábado.
Emanoel Barreto
Zootecnista agora é profissional de saúde

Recebi do zootecnista Edgar Manso uma boa notícia para a categoria. Compartilho:


Barreto,

Abaixo segue boa notícia para os zootecnistas do RN.
Foi proposta pelo vereador Ney Lopes Junior.
Mandei e-mail para ele e estarei me reunindo com o mesmo na próxima segunda em seu gabinete.

Abraço,
Edgar Manso

Diário Oficial do Município
NATAL, QUINTA-FEIRA, 16 DE DEZEMBRO DE 2010
Página 5

LEI PROMULGADA Nº 0321/2010
Dispõe sobre a Profissão de Zootecnista no Município do Natal, e dá outras providências.
O PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DO NATAL, no uso das atribuições que lhe são conferidas pelo Artigo 22, Inciso XVI, da Lei Orgânica do Município do Natal, e pelo Artigo 201, § 6º, da Resolução nº 337/05 - Regimento Interno - PROMULGA à seguinte Lei:

Art. 1º - Fica reconhecida para todos os efeitos legais, a Profissão de Zootecnista, como
Profissional da Área de Saúde do Município do Natal.

Art. 2º - Esta Lei entra em vigor na data da sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

Sala das Sessões, em Natal, 09 de dezembro de 2010.  

quinta-feira, 31 de março de 2011

Deu na Tribuna que clamor público pressiona contra aumento de IPTU.

Moradores pedem mudança no IPTU


De um lado o secretário de Tributação, André Macedo, respaldado pela legislação e por relatórios técnicos de geoprocessamento, explicando as medidas adotadas pela prefeitura; de outros, líderes comunitários indignados, elevando o tom das críticas e até defendendo a adoção de um movimento de desobediência civil para que o tributo não seja pago enquanto o poder público não der respostas efetivas às demandas dos moradores. Reforçando o tiroteio, vereadores de oposição lamentando à falta de transparência e a insensibilidade da prefeitura na condução do problema.

Foi esta a tônica da audiência pública realizada ontem na Câmara Municipal para discutir o aumento do Imposto Predial e Territorial Urbano de Natal que, em alguns casos, chegou a  de 1.500%, segundo informações do autor da proposta de audiência, vereador George Câmara (PCdoB). 

A desobediência civil foi defendida pelo líder comunitário da Cidade da Esperança Lúcio Carlos, que reclamou do abandono do bairro, o primeiro conjunto habitacional do Brasil, construído no início da década de 1960 pelo então governador Aluízio Alves.  “A Rua Natal está cheia de buracos e lixo. Solicitamos uma ação da prefeitura há mais de um ano e nada foi feito”, disse ele. “É uma sacanagem dizer  que vai tomar a casa de quem não pagar o IPTU”, complementou.

Representando os moradores do loteamento José Sarney, João Bosco Tavares reclamou do aumento exorbitante do imposto e citou o caso de uma residência cujo IPTU subiu para R$ 680, enquanto o do  vizinho foi de R$ 50. “Como pode uma comunidade que tem a maioria das famílias inscritas no Bolsa Família pagar IPTU de R$ 600?”

Antônio Barbosa, da Cidade Satélite, considerou a situação do maior conjunto habitacional da cidade  “uma vergonha” em se tratando de bairro da zona sul. “Parece que os órgãos públicos fecharam os olhos para nós.” Já o representante do Jardim Progresso reclamou da falta de calçamento e de escola e de falhas na iluminação pública e na coleta de lixo. “O caminhão só está passando uma vez por semana”, disse ele.

Insatisfeito com o aumento do imposto, Gilberto Fonseca, do Cidade Praia, desabafou: “A prefeitura  não pode mandar só o cobrador para a nossa comunidade. Ela tem de mandar também o pessoal da ação social, das obras de infraestrutura.”

O advogado das entidades comunitárias,  Luiz Gomes, disse que houve falhas no geoprocessamento, que a verificação dos dados recebidos foi feita por amostragem e sugeriu que a Prefeitura do Natal reconhecesse as falhas e aceitasse uma solução negociada para evitar a judicialização do problema. “É fato que houve erros e que esses erros geraram impacto sócio-econômico nas pessoas, especialmente nas de baixa renda.” Depois de fazer uma explanação dos debates já realizados anteriormente e diante das posições assumidas pela prefeitura, Luiz disse que vai aguardar mais dez dias para então tomar as medidas cabíveis e que torcia por uma solução negociada. “Ao adotar a solução judicial, estamos elegendo um terceiro poder, que é o Judiciário, para resolver um problema administrativo.”

Para o presidente da Federação Estadual dos Conselhos Comunitários e Entidades Beneficentes do Rio Grande do Norte, Paulo César Oliveira, a audiência foi importante porque mostrou os vários aspectos da questão do IPTU. Ele defende a tese de que o Poder Legislativo pode se engajar na luta pela cobrança do tributo levando em conta não apenas questões técnicas, mas também a parte social dos contribuintes.

Para o vereador George Câmara, é fundamental que a prefeitura antes de buscar a todo custo recolher os impostos, dê aos cidadãos natalenses, direitos essenciais como saúde e educação. “Será que o aumento e o valor cobrado pelo IPTU são justos? Temos ruas esburacadas, faltam médicos e remédios, não há limpeza urbana freqüente, falta iluminação e nossa educação vai de mal a pior.

Micarla de Sousa admite levar em conta a questão social

Diante do que foi colocado na audiência pública, a prefeita Micarla de Sousa (PV) pediu um levantamento ao secretário de Tributação sobre a questão do IPTU, inclusive com número de contribuintes isentos. A informação foi dada no final da tarde de ontem pelo secretário executivo do Gabinete Civil, Rivaldo Fernandes, que acompanhou os debates na Câmara Municipal.

Segundo Rivaldo, a prefeita determinou que a Secretaria de Tributação “olhasse de maneira especial” para idosos, desempregados e para as famílias inscritas no programa Bolsa Família do governo federal.

A determinação da prefeita vai obrigar o secretário André Macedo  a mudar o discurso, até então respaldado em questões técnicas e no estrito cumprimento da lei. “A prefeitura vai corrigir todos os erros no cadastro”, garantiu Rivaldo.

Nos 20 minutos a que teve direito no encerramento da audiência, André Macedo perdeu boa parte do tempo justificando a adoção do geoprocessamento. “É impossível fazer a medição de 300 mil imóveis usando a trena.”

Ao responder a uma pergunta sobre arrecadação e aplicação dos recursos do IPTU, o secretário informou que no ano passado foram arrecadados, entre IPTUl e  taxa de limpeza pública, R$ 65 milhões. “Com esse dinheiro não tínhamos nem como pagar as despesas com a coleta de lixo’.
Uma imagem para lembrar o golpe de 64

E a multidão chora a partida do homem público

Alencar: o enterro de um grande morto

O enterro dos grandes mortos é um langor público e profundo. Há uma sinceridade momentânea que grita e quer ser ouvida por todos os jornais. É como se o grande morto reunisse em si todas as saudades dos vivos que deixou para trás, e as homenagens fúnebres, rituais, reverentes, compungidas, dessem à multidão que chora, de alguma maneira chora - chora o corolário de mágoas do existir, chora a hora derradeira de todos nós, chora a perplexidade daquele corpo morto - dissessem àquele que deixou de habitar o corpo que sua figura tinha algo de mítico, antepassado. O cerimonial, em sua matriz mais avoenga, é a repetição do gesto do hominídeo ancestral que urrava ante um corpo que, paralítico de vida, ele agitava, perplexo e inutilmente, buscando trazê-lo de volta ao grupo.

As homenagens a José Alencar não fogem ao padrão. O homem público, agora elevado à condição de desamparo coletivo, agrega à sua condição de grande morto o fato pesaroso de que jamais voltará. Torna-se no noticiário um ser único e, no jornal, encobre as demais informações, como diz Maurice Mouillaud. O fim de um grande homem torna-se o enigna da vida, do viver em sociedade; o enigma do seu discurso, da utopia que defendia, qualquer seja essa utopia, excelsa ou chã, o reveste como armadura histórica e imutável. 

O grande morto, repito, reúne em si todas as saudades, pelo menos no momento em que o paradoxal momento dessa passagem o torna reluzente em todas as manchetes. Depois as saudades se aquietam e voltamos todos a esperar que surja novamente um grande morto. E então a multidão de carpideiras voltará às ruas e clamará àquela perda. Que, no fundo, a todos nós nos atinge e nos faz pensar. Melancolia.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Minha estupidez

François Silvestre, cidadão da vida, escreveu artigo domingo passado no Novo Jornal a respeito da humanidade e sua inominável estupidez. O texto foi, para mim, um reencontro com um amigo que não vejo a anos. Comemorando esse reencontro, enviei-lhe email que compartilho:

Caríssimo François,

Vi, gloriosamente estarrecido, seu artigo de domingo último. Sim amigo,
porque o que você escreveu não é para ser lido, mas visto, apreciado pelo
olhar alumbrado ante mural improvável, ou meticulosamente observado por
visão que se encanta com alguma máquina pequenina e complexa. Foi esse o
meu sentimento. O texto, limitado pelo espaço da mancha gráfica, era
todavia infinito em sua profundidade virtual, o leitor arremetido, puxado
para o centro daquele universo paradoxalmente profundo e plano na página
do jornal.

Serena e lúcida loucura perpassa suas palavras, palavras matizadas,
palavras com cor, volume, corpo. Cor, volume e corpo como somente os
podemos perceber na pintura de um  grande mestre dessa arte que é pintar
com o que se escreve. A palavra vale mais que a imagem quando a palavra é
ela mesma a imagem proposta e visualizada na legalidade interna do texto.
Refiro à  palavra como ato positivo, concretizado, e, sendo assim, visível
no mundo pelos efeitos que provoca. Mesmo que seja um grito, a palavra é
forma corpórea para quem a percebe como escultura. Não estou falando para
os exatos, dirijo-me a quem pensa em paralelo, em contramão, em viés. Uma
conversa amigo, uma grande conversa, é mais que som inteligível articulado
em linguagem; mais que isso, a conversa é monumento.

Sua concepção de humanidade ou de não-humanidade comoveu-me e gratificou o
gesto do meu olhar que via sua obra impressa; e sendo coisa impressa era
imagem, planície a perder de vista. Um marco em meio ao deserto.

Amigo, encerro aqui, mas quero comunicar: tenho me dedicado, nos últimos
tempos, a me tornar um grande, se possível o maior ignorante das cousas e
atos de saber dos que sabem definir o mundo e propor suas soluções. Sou um
ignorante das sabenças definitivas que logo a História revela frágeis como
um dócil vime, sou um ignorante das matemáticas e das lógicas
irreversíveis, sou um ignorante da acurácia que minutos após está cega e
pede um novo modelo interpretativo para atender a intenções as mais
inaceitáveis.

Grato, amigo. Seu artigo, seu mural, mostrou-me que estou no caminho certo
e que devo perseguir a total ignorância. Sabe porquê? Porque continuo sem
entender a lógica, o motivo razoável que dá a alguém a sapiência social, o
direito de ser dono de uma empresa de aviação e nega a outro o direito de
ser dono de um pão, um fugidio pão que lhe mate a fome. E pior: não
entendo porque aquele que tem fome gostaria de ser, ele sim, o dono dos
aviões, de todos os aviões do mundo - e naturalizar tal situação para
sempre.

Abraço grande deste amigo que há anos não o vê,
Emanoel Barreto





terça-feira, 29 de março de 2011

Jô Soares entrevista José Alencar 03/08/2010 (Parte 1 de 5)

Jô Soares entrevista José Alencar 03/08/2010 (Parte 2 de 5)

Jô Soares entrevista José Alencar 03/08/2010 (Parte 3 de 5)

Jô Soares entrevista José Alencar 03/08/2010 (Parte 4 de 5)

Jô Soares entrevista José Alencar 03/08/2010 (Parte 5 de 5)

Recebi de Nabuco Pessoa comentário a respeito da matéria que publiquei sobre a morte do ex-vice-presidente José Alencar, que pode ser lida abaixo deste post. Agradeço a forma elegante como o questionamento me foi feito. Segue o comentário e logo abaixo a minha resposta, como requerido:

Jornalista,

Gostaria da sua opinião sobre o fato do não reconhecimento da filha, o senhor acha que isso não é um fato lastimável e que deveria ser repudiado?

Nabuco Pessoa
.....

Caro Nabuco, 

Realmente foi um fato lastimável, mas isso não o impediu de ser um grande homem público. A decisão judicial quanto à paternidade de José Alencar pode ser lida aqui .

Saudações,
Emanoel Barreto

José de Alencar: na entrevista à TVU, o perfil de um lutador


O então candidato José Alencar nos estúdios da TVU, após a entrevista que concedeu ao programa Xeque-Mate

José de Alencar: o adeus ao grande avô
A morte do ex-vice-presidente José Alencar ocorre após intensa e firme luta contra o câncer. Tive oportunidade de entrevistá-lo, ao lado de estudantes de jornalismo, no programa Xeque-Mate, da TV Universitária, quando de sua primeira e vitoriosa candidatura ao lado de Lula. Dele ficou-me a impressão de um homem simples. 

Sei que me utilizo de lugar comum para fazer a representação de sua figura, tal qual a mim se apresentou. Sei que isso parece reducionismo, sei que não empalma, aparentemente, a sua figura. Mas, o que quis dizer, afinal, com "um homem simples"? Quis dizer o seguinte: simplicidade no sentido de despojamento, falar fácil, pessoa acessível, uma forma de encarnação do grande avô - aquele homem sábio das coisas da vida, sereno e afável; elegante sem pompa, despretensioso e aberto. 

Simplicidade enquanto algo substantivo e vivido. Simplicidade como mineiridade, uma vez que nascido e amante das terras alterosas. 

Lembro bem que durante a entrevista o indaguei se pelo fato de ser um conservador não funcionaria, por isso mesmo, como fiador da candidatura Lula junto aos segmentos que poderiam ver no ex-metalúrgico presença não-confiável na presidência da República. Uma espécie de sociedade de capital e trabalho. Mineiramente disse que não, que Lula seria seu próprio avalista; e detalhou: ele era apenas o vice, o candidato a vice. 

E a entrevista seguiu, informal e muito agradável, mas cumprindo com o papel a nos propusemos eu e os alunos: traçar um perfil do entrevistado. Suponho que a TVU deverá reprisá-la sexta-feira próxima, às sete da noite.

Agora José Alencar se vai. Saudações, velho mineiro. Saudações, grande avô.

domingo, 27 de março de 2011

Um crime inimitável

Caro leitor,

Informo que hoje estou no ano de 1702 e que em plena chuva desembarca de seu landô e se dirige à minha casa um grand signeur. Vestido como os de sua classe, protege-se da pesada água com uma capa curta e se encaminha a mim.
Não o conheço, mas, ao entrar, me informa que fui altamente recomendado por amigo comum para que comigo pudesse partilhar grandes plantos e altos intentos. Coloco-me à disposição e ele me diz: "Aqui vim para que me ajude a tramar um crime inimitável."

Manifestei minha total surpresa e alguma indignação, pois não sou homem de armas, duelista de pistolas ou espadachim da nobre arte do florete, sabre ou espada. Admiro tais habilidades enquanto prática e destreza, mas não enveredo pelos seus resultados, sempre trágicos e lacrimosos. Então, pergunto: "Por que a minha escolha? Sou, sempre fui, apenas um tipógrafo, arte que aprendi com o mestre de Mogúncia por volta de 1439 e até hoje a pratico, esmerando-me na detalhada e delicada construção de tipos preciosos. Apenas isso."

Cavalheirescamente insistente, explica-me o grande senhor: "Não vim aqui para que o crime inimitável seja necessariamente perpetrado, mas para que seja planejado, articulado, estudado; se possível, cientificamente. E que tais planos e conjecturas sejam de tal forma elevados, minuciosos, sutis e corteses que o vitimado, ao morrer, venha a saber que está participando de uma obra d'arte, encontrando aí grande honra e motivos para ser agraciado com tal morte. Sim, meu caro, porque o crime inimitável deve ser levado a efeito sobre alguém de fina sensibilidade, alma estrangeira às vulgaridades e espírito arguto e nobre, atento às artes mais altas, matizes sutis e sons requintados. Refiro, entenda, a um regicídio." 

Ante tal observação pensei estar às voltas com algum magnífico demente, pois, além de me propor um crime, queria elevá-lo à condição perigosíssima de matar um rei. Isso, argumentei, significaria, aí sim, morte certa ao regicida. Mas ele não se deu por vencido. E falou do grande salão onde tal intento seria elegantemente perpetrado, à frente de corte engalanada, com vivas ao monarca, brindes e champanhe. 

Então, contou, o regicida entraria naquele magnificente e ilustre ambiente. Ele próprio um nobre, senhor de título de herdade ancestral, emérito em combates singulares de sabre florete ou espada, amante de damas dulcíssimas e secretas, cujas belezas mais fêmeas e íntimas somente a ele pertenceriam.
E então, caminhando seus distintos sapatos, o regicida iria até o rei e, sem que ninguém, ninguém percebesse, cravaria profundamente, no coração real, dileto, argentino e penetrante punhal. E o faria de tal maneira, e com tal eloquência de modos magistrais e cuidadosos,  que o rei, elegantemente, tombaria em cadeira como se nela estivesse sentando. E certamente, aos olhos dos convivas, daria a impressão de estar cansado da adulação e ademanes, reverências e mesuras que só a falsidade dos aristocratas consegue lucubrar e praticar com gênio assombroso de mentira combinada e ritual. Deixando-se assim, o rei, aparentemente, recostar-se em repouso momentâneo. 

"E então, meu caro, gostou do meu plano? É ou não é um crime inimitável?", disse. E completou: "O rei fecharia de forma sublime as pálpebras, após haver lançado olhar de gratidão ao artista que tão distintamente o havia levado aos braços da Caronte." 

E disse mais: "Não se trata efetivamente de obra de arte?! "E acrescentou: "Depois disso, o regicida - regicida é uma espécie de título nobiliárquico, entende?, disse-me ele - sairia calmamente tocando uma requinta, encantando assim a todos os presentes, que deslumbrados o veriam como a um artista que pusera o rei a dormir e agora se afastava docemente, como suave fauno em busca de ninfa sequiosa de seus prazeres de homem, sobre ela e dentro dela exercidos."

Afinal, persistiu, "é uma grande arte a que pretendo realizar, concorda?" Absolutamente perplexo, convidei-o a tomar algo forte a fim de que, se possível, pudesse refazer seus planos. Chamei a um criado e mandei que trouxesse bebida escalcande, bebida vinda do Brasil, uma terra distante onde os colonizadores fornicam mulheres conhecidas de índias, bebida chamada de cachaça. Esperei, com isso, trazê-lo de volta à realidade, abandonando tão esquisitos e danosos planos. 

Dois tragos e ele, para minha alegria, disse-me, então, altissonante: "Esta bebida ferve o sangue como um tiro de pistolete. E sendo assim, como estou sob as efluências de tal beberagem bárbara, abandono meus planos iniciais."

A atitude deu-me a sensação de que havia vencido meu demencial e sofisticado interlucutor e sua extravagante intentona. Debalde, como logo vi. Para minha surpresa, bradou: "E como sinto ebulir no ser que habita o meu corpo ingente necessidade de agir, eu o farei agora e agora mesmo!" 

Ato contínuo sacou de seu casaco portentosa e poderosa pistola e a descarregou sobre o mordomo que nos havia acabado de servir a cachaça. E o pobre homem caiu, morto, a meus pés.

Isso posto, meu estranho visitante fez-me profunda reverência, tomou mais um trago, correu para o seu landô e desapareceu para sempre. Fora, realmente, um crime inimitável.

 

RITA PAVONE DATEMI UN MARTELLO 64

sábado, 26 de março de 2011

Dos perigos de fazer uma viagem perimetral de inspeção

Caro leitor, 

Devo dizer que encontro-me hoje no ano de 1789 e estou a serviço de empresa para a qual trabalho mas cuja finalidade operacional não tenho condições de explicar qual é, pois nunca a entendi.  Percorro algum país em viagem perimetral de inspeção. Também não sei exatamente o que isso significa, mas cumpro com meu mister da melhor forma possível: interrogo pessoas a esmo, pergunto como vai o tempo, inquiro se nasceu algum novo carneiro, busco informar-me sobre qual a idade de uma formiga, indago se um peixe pode ser segrado rei, se uma cobra pode prescrever receituário médico e coisas que tais. Como vedes, coisa jurisconsultas e altíssimas.

Anoto tudo e logo em seguida jogo as anotações fora. Em seguida a mim vem um inspetor que recolhe meus escritos, os lê e os arremessa no mato, e atrás dele vem outro e faz a mesma coisa e logo após outro, outro e outro, e isso se repete indefinidamente. Mas, atentai bem, estas foram as instruções que recebi para que fosse levada e efeito uma eficaz viagem perimetral de inspeção. Sendo assim, como cumpro com inominável prazer e desesperada ânsia este fado, creio que estou me saindo muito bem.

A carruagem em que me desloco é uma espécie de inferno ambulante, tal o calor impregnante que me acossa em meio a estrada sacolejante. Já superamos, eu e os outros infelizes viajores que cumprem comigo este périplo insano, cada um com seus motivos, chuvas que mais se assemelham às mais imponentes cachoeiras, ataques de salteadores, perseguição de matilhas e gritos de pavor de velhas devotas em lugarejos insólitos - elas emitem guinchos terríveis quando nos veem em nosso lastimável estado: roupas sujas, cabelos eriçados, botas enlameadas, olhos injetados, pensando, tais e bondosas criaturas, que somos representantes do Maldito. Velhos curas nos expulsam apresentando o crucifixo. Como medida de bom senso fugimos sem parar.

Afinal, digo-vos, aproximo-me do término de minha viagem e eis que surge o gerente geral de viagens perimetrais de inspeção e me avisa: Vais iniciar imediatamente uma viagem perimetral de inspeção, pois dizem que nos confins deste país maltas de desocupados, biltres temíveis, répobros insondáveis, ímpios impudentes e homens mal-faladores, além de néscios preguiçosos e beócios empedernidos preparam surtida contra a lei e contra ordem e, destarte, El Rey precisa de dados e números para preparar as defesas de todos os burgos.

Diante de tal quadro fugi, pois horrendo medo se apoderou de mim, inopinadamente, ao sentir que meu trabalho é cousa de louco ou de alguém a este assemelhado. Embrenhei-me na primeira e mais feroz floresta, cujas árvores têm arestas e espinhos de mais de um metro de comprimento e aliei-me ao primeiro magote de ímpios e outros banidos que encontrei. E, assim, senti-me pleno e lesto: depois desta fuga participarei de assaltos aos burgos mais solenes e preclaros, ataques a cidades ilustres e luminosas e jamais, nunca mais, farei novamente uma viagem perimetral de inspeção.
Na revista Piauí encontrei o que abaixo se lê.

Reza a lenda, amém



Gilberto Gil tem uma linda composição chamada “Oriente” no antológico álbum Expresso 2222 (1972, ano que Gil voltava do exílio em Londres).  Dona de um jogo de palavras interessantíssimo, a canção trata de uma questão super recorrente para os jovens da época, candidatos a intelectuais-pensadores, apaixonados pela esquerda e por uma revolução interna e externa. Na letra, um Gil desafiador aparece, cutuca, pergunta , provoca com a letra “Se oriente, rapaz, pela constatação de que a aranha vive do que tece.” É uma maneira de exigir uma posição, mostrar a necessidade de assinar o nome em algo que pudesse ser relevante, diferente ou pelo menos corajoso. Principalmente em tempos de ditadura militar e corações endurecidos.

Na gravação, o sofisticado violão de Gil chega sombrio como a canção e insinua uma melodia oriental. A voz grudada nos ecos do instrumento faz uma introdução que já intriga logo de cara, mas também convida. Gil, aliás, impressiona por ser um artista que soma as qualidades de um virtuoso no seu instrumento com a criatividade de compositor. Fez (e faz) escola tanto com suas harmonias e belos caminhos melódicos quanto com sua maneira de tocar e cantar. Sem falar na modernidade e poesia de suas letras.

No ano seguinte, Elis Regina gravou “Oriente” com um arranjo repleto de instrumentos. Era algo arrojado pra época e ainda hoje soa assim. O arranjo acentua ritmicamente a melodia e soa bem diferente. Vai ficando grandioso, épico, mesmo porque é preciso abrigar a voz indomável e emocionada da intérprete singular que ela sempre foi. O andamento vai crescendo e termina com um jeito meio sinfônico e igualmente provocador, como pedem o tema e o momento. Elis opta por não repetir a letra, canta uma vez só. É muito significativa, historicamente falando, a escolha dessa canção como abre-alas do seu LP "Elis", de 1973.
Porém, numa audição um pouco mais cuidadosa, percebemos que Elis se distrai numa palavra que altera o sentido e a gravidade original. Ela tropeça: ”Pela constatação de que a aranha DUVIDO que tece”. Eu fico aqui pensando...

Hoje quase todos os compositores mandam suas músicas em formato MP3, com as letras devidamente digitadas. Como será que Elis recebeu “Oriente”? Em que som ela teria ouvido para se confundir na hora de registrar? O K7 falhou? O LP estava arranhado? Ou a pessoa encarregada de tirar a letra negligenciou o serviço? “Dizem” que Gil não gostou muito da troca (o que é compreensível) e eles teriam ficado um tanto abalados um como outro.
Mas a natureza encontra sua maneira de ajeitar as coisas quando os propósitos são verdadeiros, creio eu. Então, já em tempos de paz e, certamente, imensa admiração mútua, Elis entra em estúdio em 1974 para gravar um álbum impecável contendo dois petardos do baiano Gil. “Amor até O Fim”, samba/choro sincopado cuja letra mostra que Gil emanava leveza pra sua cantora, “amor não tem que se acabar, até o fim da minha vida eu vou te amar”.

Não à toa, Elis encerra o álbum com a delicada bula ,“O Compositor Me Disse”, que tem um jeito de reconciliação com a criação e com a anatomia do canto. Me emociono só de pensar em Elis e sua incomensurável voz dizendo cuidadosamente o que foi feito pra ela .“O compositor me disse que eu cantasse ligada no vento, sem ligar pras coisas que ele quis dizer”. Gil traz a alforria nas mãos, a liberdade para a voz, agarrada no vento. E Elis voou.

Obs - E um beijo pro meu irmão mais velho, que ouvia Gil cantando isso sem parar na vitrola, se formou em Sociologia e foi dar aulas na Dinamarca.
Como disse, pode não ser verdade nada disso. Mas é lindo.
Nosso mundo
Recebi do professor Antonio Francisco Magnoni pungente e alentador texto de José Mujica, presidente do Uruguai. Uma reflexão cuja profundidade está na singeleza de suas assertivas; um canto de alerta quanto ao tipo de sociedade que construímos e um chamamento a mudar o quadro que ensaia seu galope rumo a um mundo pleno de consumismo e desumanização. Segue.
http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.pulsamerica

Ustedes saben mejor que nadie que en el conocimiento y la cultura no sólo hay esfuerzo sino también placer.
 
Dicen que la gente que trota por la rambla, llega un punto en el que entra en una especie de éxtasis donde ya no existe el cansancio y sólo le queda el placer. 

Creo que con el conocimiento y la cultura pasa lo mismo. Llega un punto
 donde estudiar, o investigar, o aprender, ya no es un esfuerzo y es puro disfrute. 
¡Qué bueno sería que estos manjares estuvieran a disposición de mucha gente! 
Qué bueno sería, si en la canasta de la calidad de la vida que el Uruguay puede ofrecer a su gente, hubiera una buena cantidad de consumos intelectuales. 
No porque sea elegante sino porque es placentero. 
Porque se disfruta, con la misma intensidad con la que se puede disfrutar un plato de tallarines. 

¡No hay una lista obligatoria de las cosas que nos hacen felices!
 
Algunos pueden pensar que el mundo ideal es un lugar repleto de shopping centers. 
En ese mundo la gente es feliz porque todos pueden salir llenos de bolsas de ropa nueva y de cajas de electrodomésticos. 
No tengo nada contra esa visión, sólo digo que no es la única posible. 

Digo que también podemos pensar en un país donde la gente elige arreglar
 las cosas en lugar de tirarlas, elige un auto chico en lugar de un auto grande, elige abrigarse en lugar de subir la calefacción. 

Despilfarrar no es lo que hacen las sociedades más maduras. Vayan a Holanda
 y vean las ciudades repletas de bicicletas. Allí se van a dar cuenta de que el consumismo no es la elección de la verdadera aristocracia de la humanidad. Es la elección de los noveleros y los frívolos. 

Los holandeses andan en bicicleta, las usan para ir a trabajar pero también
 para ir a los conciertos o a los parques. 
Porque han llegado a un nivel en el que su felicidad cotidiana se alimenta tanto de consumos materiales como intelectuales. 

Así que amigos, vayan y contagien el placer por el conocimiento.
 
En paralelo, mi modesta contribución va a ser tratar de que los uruguayos anden de bicicleteada en bicicleteada. 

LA EDUCACIÓN ES EL CAMINO
 

Y amigos, el puente entre este hoy y ese mañana que queremos tiene un
 nombre y se llama educación. 
Y miren que es un puente largo y difícil de cruzar. 

Porque una cosa es la retórica de la educación y otra cosa es que nos
 decidamos a hacer los sacrificios que implica lanzar un gran esfuerzo educativo y sostenerlo en el tiempo. 
Las inversiones en educación son de rendimiento lento, no le lucen a ningún gobierno, movilizan resistencias y obligan a postergar otras demandas.

Pero hay que hacerlo. 

Se lo debemos a nuestros hijos y nietos.
 

Y hay que hacerlo ahora, cuando todavía está fresco el milagro tecnológico
 de Internet y se abren oportunidades nunca vistas de acceso al conocimiento. 

Yo me crié con la radio, vi nacer la televisión, después la televisión en
 colores, después las transmisiones por satélite. 

Después resultó que en mi televisor aparecían cuarenta canales, incluidos
 los que trasmitían en directo desde Estados Unidos, España e Italia. 

Después los celulares y después la computadora, que al principio sólo
 servía para procesar números. 

Cada una de esas veces, me quedé con la boca abierta.
 

Pero ahora con Internet se me agotó la capacidad de sorpresa.
 

Me siento como aquellos humanos que vieron una rueda por primera vez.
 

O como los que vieron el fuego por primera vez.
 

Uno siente que le tocó en suerte vivir un hito en la historia.
 

Se están abriendo las puertas de todas las bibliotecas y de todos los
 museos; van a estar a disposición, todas las revistas científicas y todos los libros del mundo. 

Y probablemente todas las películas y todas las músicas del mundo.
 

Es abrumador.
 

Por eso necesitamos que todos los uruguayos y sobre todo los uruguayitos
 sepan nadar en ese torrente. 

Hay que subirse a esa corriente y navegar en ella como pez en el agua.
 

Lo conseguiremos si está sólida esa matriz intelectual de la que hablábamos
 antes. 

Si nuestros chiquilines saben razonar en orden y saben hacerse las
 preguntas que valen la pena. 

Es como una carrera en dos pistas, allá arriba en el mundo el océano de
 información, acá abajo preparándonos para la navegación trasatlántica. 

Escuelas de tiempo completo, facultades en el interior, enseñanza terciaria
 masificada. 

Y probablemente, inglés desde el preescolar en la enseñanza pública. 


Porque el inglés no es el idioma que hablan los yanquis, es el idioma con 
el que los chinos se entienden con el mundo.

No podemos estar afuera. No podemos dejar afuera a nuestros chiquilines.
 
Esas son las herramientas que nos habilitan a interactuar con la explosión universal del conocimiento. 

Este mundo nuevo no nos simplifica la vida, nos la complica..
 
Nos obliga a ir más lejos y más hondo en la educación.
No hay tarea más grande delante de nosotros.