sábado, 26 de março de 2011

Na revista Piauí encontrei o que abaixo se lê.

Reza a lenda, amém



Gilberto Gil tem uma linda composição chamada “Oriente” no antológico álbum Expresso 2222 (1972, ano que Gil voltava do exílio em Londres).  Dona de um jogo de palavras interessantíssimo, a canção trata de uma questão super recorrente para os jovens da época, candidatos a intelectuais-pensadores, apaixonados pela esquerda e por uma revolução interna e externa. Na letra, um Gil desafiador aparece, cutuca, pergunta , provoca com a letra “Se oriente, rapaz, pela constatação de que a aranha vive do que tece.” É uma maneira de exigir uma posição, mostrar a necessidade de assinar o nome em algo que pudesse ser relevante, diferente ou pelo menos corajoso. Principalmente em tempos de ditadura militar e corações endurecidos.

Na gravação, o sofisticado violão de Gil chega sombrio como a canção e insinua uma melodia oriental. A voz grudada nos ecos do instrumento faz uma introdução que já intriga logo de cara, mas também convida. Gil, aliás, impressiona por ser um artista que soma as qualidades de um virtuoso no seu instrumento com a criatividade de compositor. Fez (e faz) escola tanto com suas harmonias e belos caminhos melódicos quanto com sua maneira de tocar e cantar. Sem falar na modernidade e poesia de suas letras.

No ano seguinte, Elis Regina gravou “Oriente” com um arranjo repleto de instrumentos. Era algo arrojado pra época e ainda hoje soa assim. O arranjo acentua ritmicamente a melodia e soa bem diferente. Vai ficando grandioso, épico, mesmo porque é preciso abrigar a voz indomável e emocionada da intérprete singular que ela sempre foi. O andamento vai crescendo e termina com um jeito meio sinfônico e igualmente provocador, como pedem o tema e o momento. Elis opta por não repetir a letra, canta uma vez só. É muito significativa, historicamente falando, a escolha dessa canção como abre-alas do seu LP "Elis", de 1973.
Porém, numa audição um pouco mais cuidadosa, percebemos que Elis se distrai numa palavra que altera o sentido e a gravidade original. Ela tropeça: ”Pela constatação de que a aranha DUVIDO que tece”. Eu fico aqui pensando...

Hoje quase todos os compositores mandam suas músicas em formato MP3, com as letras devidamente digitadas. Como será que Elis recebeu “Oriente”? Em que som ela teria ouvido para se confundir na hora de registrar? O K7 falhou? O LP estava arranhado? Ou a pessoa encarregada de tirar a letra negligenciou o serviço? “Dizem” que Gil não gostou muito da troca (o que é compreensível) e eles teriam ficado um tanto abalados um como outro.
Mas a natureza encontra sua maneira de ajeitar as coisas quando os propósitos são verdadeiros, creio eu. Então, já em tempos de paz e, certamente, imensa admiração mútua, Elis entra em estúdio em 1974 para gravar um álbum impecável contendo dois petardos do baiano Gil. “Amor até O Fim”, samba/choro sincopado cuja letra mostra que Gil emanava leveza pra sua cantora, “amor não tem que se acabar, até o fim da minha vida eu vou te amar”.

Não à toa, Elis encerra o álbum com a delicada bula ,“O Compositor Me Disse”, que tem um jeito de reconciliação com a criação e com a anatomia do canto. Me emociono só de pensar em Elis e sua incomensurável voz dizendo cuidadosamente o que foi feito pra ela .“O compositor me disse que eu cantasse ligada no vento, sem ligar pras coisas que ele quis dizer”. Gil traz a alforria nas mãos, a liberdade para a voz, agarrada no vento. E Elis voou.

Obs - E um beijo pro meu irmão mais velho, que ouvia Gil cantando isso sem parar na vitrola, se formou em Sociologia e foi dar aulas na Dinamarca.
Como disse, pode não ser verdade nada disso. Mas é lindo.

Um comentário:

(Thali) disse...

Texto com sabor!- muito bom!